Oiço, pela enésima vez, “A
strange kind of love” do Peter Murphy, uma das “minhas” músicas, e penso como
são estranhas algumas relações, de amor ou de amizade. São relações que se alimentam da distância, que seriam óptimas para uma das partes se os amantes ou amigos estivessem sós numa ilha deserta. Sem o peso da
rotina, sem obrigações, sem o convívio obrigatório com a família e os amigos de
parte a parte. Amores e amizades estranhos que só podem sobreviver se uma das partes ceder
aos caprichos da outra parte, que só respiram se uma das partes der espaço e
tempo à outra parte, sem contrapartidas.
A música chega ao fim e eu
pergunto-me se podemos chamar amor ou amizade, ainda que “estranho”, a esse sentimento que,
além de tudo o mais, é só de vez em quando, que, não raras vezes, prescinde da presença física,
da convivência, do tempo partilhado.
A experiência, sobretudo a dos
outros, diz-me que há relações assim, que se fazem ao pé coxinho, sem que o outro pé participe de forma ativa na caminhada e que, apesar das limitações,
duram anos.