Choveu hoje, todo o dia a chuva caíu, branda, regular. A casa está fria, húmida. Lá fora tudo molhado, as árvores escorrendo, o musgo subindo pelas paredes.
Aborrece-me cozinhar apenas para mim. Faço uma sopa que me dá para uma semana, asso um frango que dá para uma semana, como saladas, iogurtes, queijos, frutas. Só não me alimento apenas de fruta, chá, frutos secos, porque acho que isso me poderia trazer problemas e não teria paciência para os resolver.
Peguei na máquina fotográfica, saí. Ninguém na rua. O tempo está para se ficar em casa à lareira, não para andar por aí, à chuva, ao frio. Só por saber que não encontraria ninguém é que saí. Custa-me suportar o olhar das pessoas, as conversas tontas, as vacuidades de quem fala por falar.
Saí, uma capa cobrindo-me toda, uma sombra também eu, um fantasma deslizando nas sombras. Fui fotografando sabendo que nem vou olhar para as fotografias, fotografo sem objectivo, apenas por necessidade. Ninguém verá as minhas fotografias. Fotografo banalidades, coisas de nada.
Uma rocha coberta de água, uma hera trepando, uns ramos cobertos de pequenas bagas. Fotografo. Depois passo a mão pela pedra fria, molhada. Quero sentir aquilo que vejo, quero aproximar-me daquilo que me convoca.
Depois fotografo umas folhas molhadas, umas folhas de uma cor belíssima mas que, apesar de serem tão belas, em breve estarão desfeitas.
Emociono-me perante estas folhas caídas. Tempos antes fotografei-as na árvore, estavam verdes e viçosas. Agora aqui estão, inertes, belas mas perecíveis. É tão efémera a beleza. E a vida.
Passo por um muro onde sempre gosto de me deter. No verão a parede está branca e as sombras das árvores reflectem-se nele, enchendo-o de vida e de calor.
Agora está frio, a chuva entristece este muro e o painel de azulejos já não parece desafiador como no verão. Agora parece triste, desolado. Les + grands secrets se cachent dans la lumière. Assim foi toda a minha vida: os segredos escondidos pela luz, visíveis.
O pinheiro parecia coberto de luzes. Talvez seja a forma que encontrou para me lembrar que é quase natal. Ignoro o natal. É um dia como os outros. Um dia de frio e solidão.
Depois voltei para casa. Apeteceu-me pintar. Há tanto tempo que não pintava. Peguei numa tela pequena, depois nas tintas, algumas já estavam secas.
Um vestígio da antiga emoção, a tela branca sugando as cores que ainda resistem dentro de mim.
Quando pinto sou livre. Não tenho objectivos, não tenho motivos, não tenho restrições. Faço movimentos que não controlo, não vigio, não tento, sequer, interpretar. Não quero que pareça nada, não quero nada. Sem pensar escolho uma tinta, depois um pincel, depois a minha mão movimenta-se sobre a tela como se dançasse, depois outra tinta, e a dança continua.
Ninguém me perguntará o que é mas, se o fizesse, eu não poderia responder. Em tempos pintei flores, mulheres, bailados, cidades. Depois, aos poucos, fui conseguindo desfazer-me da realidade, fui conseguindo encontrar a abstracção, a intangível abstracção.
De resto, é assim que vivo, no limiar da abstracção, da intangibilidade.
Alimento-me de recordações.
Há pouco, cavalete, tela, pincéis e tintas arrumados, sentei-me com uma manta sobre os joelhos, peguei num livro. O livro do chá de Kakuzo Okakura. Ultimamente só consigo ler livros assim. O autor é japonês, nascido em 1862. Leio as suas palavras como bebo um chá cuidadosamente preparado,
Por que não destruir flores, se com isso podemos desenvolver novas formas que enobrecem a ideia do mundo? Só lhes pedimos que nos acompanhem no sacrifício ao que é belo. Havemos de expiar o feito consagrando-nos à pureza e à simplicidade. Assim raciocinaram os mestres-do-chá quando estabeleceram o culto-das-flores.
E por estes caminhos feitos de palavras delicadas vou prosseguindo a leitura. Depois volto às minhas recordações.
Lembro o dia em que soube que o velho senhor que tinha sido o meu companheiro de tanto tempo adoeceu. A minha aflição. A minha vontade de ir ao hospital. Mas, claro, no hospital estaria a família e eu não era da família. A bem da verdade, eu não era nada, não existia. Nem podia manifestar a minha ansiedade para não levantar suspeitas. Toda a minha vida foi assim, viver na sombra. Ninguém desconfiar. Uma vida construída em torno deste propósito: ninguém desconfiar. Disfarçar sentimentos, ansiedades, angústias, alegrias.
Tanta vontade de lhe ir dizer que o queria de volta, que resistisse, que não se fosse embora, que me sentia tão sozinha sem ele, que lhe seria eternamente grata por tudo o que tinha feito por mim. Tanta vontade, sobretudo, de lhe dizer que o perdoava por me ter impedido de ter o nosso bebé. Mas não fui. Nunca fui. Nunca soube da minha aflição.
Voltou para casa, debilitado, dependente, com uma enfermeira ao lado. A família por perto. Nunca consegui coragem sequer para lhe telefonar. Uns tempos depois morreu. Chorei, chorei mas em casa, ou quando estava sozinha, ou quando ninguém me via. Como explicaria o meu choro perante quem não sabia de nada? Queria ir despedir-me dele, ir à igreja. Mas não fui. Não suportaria fingir. Não ali, não nessa última vez.
O vazio que fica ninguém consegue imaginar. Nem despedir-me condignamente eu pude, nem chorar me foi permitido.
Dirão que ninguém me impedia. Não sabem o que é viver uma vida paralela, na sombra, uma vida de disfarce, escondida. É uma coisa que toma conta de nós. Se fosse ao enterro e chorasse como uma viúva , como explicaria isso a quem me perguntasse? Diria, ele era o meu homem? Quem me acreditaria? Diriam que era louca. Ou rejeitar-me-iam para sempre. Ah, o medo da rejeição, o medo da censura, o medo sempre tão presente.
Mas, no dia em que o seu corpo arrefecia numa igreja pejada de gente, ao fim do dia, quando a noite começava a cair, ganhei coragem para me aproximar e passei por fora, encostei-me à parede exterior num dos lados da igreja, e ali fiquei sozinha, agradecendo-lhe, desejando-lhe que descansasse em paz. Pensava que ele iria para junto da nossa filha e isso tranquilizava-me pois tinha, e tantas vezes ainda tenho, um pesadelo recorrente, a minha menina sozinha, nua, com frio, perdida nas ruas escuras de uma cidade deserta.
Apesar de separados, era ele que ainda me pagava o condomínio que era muito elevado. Diriam, se o soubessem, que eu aceitava ser comprada, que com a casa, os bons móveis, o carro (sim, porque ele também me tinha oferecido um carro, cujos custos suportava), ele estava a pagar-me. Que erro... Pagar o quê, se eu tão pouco lhe dava? Ele dizia que me amava pela minha juventude, pela minha beleza, pela minha alegria. Mas eu é que tinha razões para estar grata pois os seus conhecimentos, a sua sabedoria, a sua cultura, o seu humor, o seu amor viril, faziam sentir-me uma mulher grata e realizada. Eu é que tinha razões para lhe pagar, tivesse eu como. Era ele que fazia questão de me oferecer tudo aquilo mas fazia-o dizendo eu sou velho, qualquer dia parto e quero que tu fiques bem, aceita, por favor, aceita se me queres bem. A mim nada me custa e, para ti, vai ser importante no futuro.
Quando morreu, fiquei com uma casa grande de mais, um condomínio caro de mais, um carro caro de mais. Durante uns anos, lutei para os manter, pela sua recordação. Não queria desfazer-me do que ele me tinha dado com tanta preocupação pelo meu futuro mas, suportar aquelas despesas, era-me, então, muito difícil.
Nunca dizia a ninguém onde vivia. Como explicaria um luxo daqueles? Um ordenado como o que eu tinha jamais daria para uma casa daquelas. No entanto, aquele que o meu coração mais amou e de quem já vos falei foi lá muitas vezes. Quando lá entrou, não queria acreditar. Expliquei-lhe que era uma herança de uma tia. Não sei se acreditou mas riu-se, uma gargalhada das suas, isso é que são tias...!
Depois, mais tarde, quando me cansei de tudo, desfiz-me da casa e do recheio. Mudei-me para um apartamento pequeno, um apartamento de acordo com o que eu podia pagar. Depositei o dinheiro da venda do outro e ainda lá está, nunca mais lhe toquei e acho que nunca vou tocar.
Quantos amores tive depois dele? Amor a sério só um. Mas tive mais uns romances. Talvez vos conte. Mas foram irrelevantes. Em todos procurei o verdadeiro amor, em todos procurei o amor para toda a vida, uma companhia. Nunca consegui. Por isso, aqui estou, sozinha, uma manta sobre os joelhos, a falar para ninguém.
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Este texto continua a história que venho contando nos últimos dias e à qual ainda não dei nome, porque ainda não percebi onde é que isto vai parar.
A música é
Un bel di vedremo da ópera Madama Butterfly de Puccini, aqui interpretada por Maria Callas.
As fotografias são minhas e foram feitas
in heaven. A última é a excepção: é de Catherine Deneuve e não sei por quem foi feita.
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Permitam ainda que vos convide a permanecerem um pouco mais na minha companhia. No meu outro blogue, o
Ginjal e Lisboa, ao som de Elger, as minhas palavras distanciam-se daquele que me ama, ao lado das palavras de Eugénio de Andrade.
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E, por hoje, já chega, não é?
Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda feira. Divirtam-se, está bem?