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domingo, dezembro 24, 2023

Parece que é quase Natal

 

Quando, há muitos anos, aterrei em Luanda tive uma sensação estranha. O ar era morno e húmido, muito diferente do ar que eu conhecia. As ruas eram diferentes das ruas que eu conhecia. As praias também eram outras. Parecia que tinha entrado num mundo que, embora sendo habitado por humanos, era um mundo muito diferente daquele que eu conhecia.

Estou a viver este natal da mesma maneira. Reconheço os símbolos, fiz algumas compras, vejo as iluminações de natal. Reconheço que estou no natal. Mas é um natal que me é um bocado estranho. 

Quando penso no que terei que cozinhar, parece-me que é coisa distante, que 'até lá não me doa a mim a cabeça'. Disse ao meu marido que deveríamos decorar a casa, pôr luzinhas. Também anda cansado, disse que não. E eu também não.

Todos os dias, uma parte significativa do dia é retirada ao que era tempo gerido por nós. Saímos pouco depois de almoço e regressamos já tarde. Hoje não vim de lá assim tão tarde mas tive que ir ao supermercado. Mas no supermercado estava um bocado desorientada, não me lembrava exactamente do que já tinha ou não comprado. Trouxe algumas coisas repetidas, a mais. E tento perceber como vou gerir o tempo para fazer o que é preciso e fico sem saber bem pois fazem-me falta as horas em que não vou estar em casa.

Também não tenho a certeza de que tenha todos os presentes.

É que, em cima de tudo, há os telefonemas, alguns longos. Hoje estava a fazer o jantar, e já era quase nove da noite, vi que uma das minhas primas tinha ligado para a minha mãe. Como tenho o telemóvel dela comigo, devolvi a chamada e, claro, estive a explicar a situação. Ficou também muito surpreendida e, como é médica e logicamente quer compreender o que se passa, a conversa foi detalhada e, portanto, longa. Pelo meio aparecia o meu marido a querer saber o que poderia ele ir fazendo ao tacho que estava ao lume. Acabámos de jantar tardíssimo. Mas gostei bastante de falar com a minha prima. A especialidade dela é outra, diria mesmo que está nos antípodas, mas aventou umas hipóteses que talvez expliquem algumas coisas. E como fala sempre com uma total objectividade e franqueza transmitiu-me algum do seu pragmatismo.

No hospital hoje também tive uma boa conversa com uma das médicas e ao senti-la com as mesmas perplexidades com que me debati no último ano e meio (mais coisa menos coisa) também fiquei como que mais resignada, como se fosse mais uma prova de que não houve burrice da minha parte por não ter percebido o que se passava já que nenhum dos muitos médicos e enfermeiros que se têm ocupado dela também não percebem. Não que isso resolva alguma coisa mas ouvir o que dizem, ouvir o que pensam ser as perspectivas e as abordagens, atenua um pouco a minha preocupação. Vejo que toda a gente, mesmo com dúvidas, ao verem goradas as tentativas, isto é, quando as terapêuticas não resultam (mesmo que não percebam porquê), não desistem, tentam e tentam, uma e outra vez.

Portanto, no meio disto tudo, constato que, apesar de tudo, vou conseguindo estar mais calma. Claro que venho de lá sempre angustiada e apreensiva, com severas dúvidas existenciais, severas, severas. Mas começo a encarar as coisas com menos dramatismo, com uma maior dose de aceitação.

Mas isto desconcentra-me do espírito natalício. Tomara que consiga abstrair-me quando estiver com a família, em especial com os miúdos. O natal deve ser um dia feliz e, em especial para as crianças e jovens, deve ser um dia leve, alegre, luminoso. Os miúdos sabem qual a situação da bisavó e têm pena mas a sua vitalidade e dinamismo é mais forte, e ainda bem.

Volta e meia lembro-me do mais velho ter perguntado, há uns anos, certamente há uns quatro ou mais, ou seja, deveria ter uns dez ou onze, talvez nem isso, se o bisavô afinal, naquela vez, tinha sobrevivido. Achei imensa graça na altura. Quando o perguntou, o meu pai estava vivo mas acamado e, quando os miúdos lá iam, queixava-se imenso que faziam muito barulho, ficava muito incomodado, pedia para se fechar a porta do quarto. Por isso, os miúdos estavam lá, brincavam na sala ou no jardim, lanchavam, andavam na boa, mas acabavam por nem ver o bisavô. Nos últimos tempos o meu pai estava praticamente cego, estava surdo e mal falava pois estava com sonda nasográstrica e, por fim, também oxigénio. Por isso, já nem levávamos os miúdos ao pé dele pois sabê-los a verem-no tão diminuído só o faria sofrer. Mas esse meu neto referia-se a uma vez em que, na sequência de uma pneumonia, o meu pai entrou em descompensação e informaram-nos do hospital que, se queríamos despedir-nos dele, era melhor irmos de imediato pois poderia não chegar à hora da visita. O meu genro trabalhava fora pelo que ela pegou nos filhos e foi. Fomos cada um à vez à dita despedida, o meu pai completamente off no meio de outros tão ou mais off que ele. E os miúdos, logicamente, ficaram cá fora. Apesar de perceberem a gravidade da situação, pequenos como eram, deveriam estar na brincadeira um com o outro. E, passados ano e tal ou dois anos, já nem sei, lembrou-se de perguntar se o bisavô tinha sobrevivido daquela vez. 

Um outro, já não sei na sequência da morte de que bisavô, perguntava-me o que é que acontecia para que, de repente, tivesse virado esqueleto. Eu nem percebia a pergunta. Depois percebi que pensava que a pessoa morria e acto contínuo se transformava imediatamente em esqueleto. No meio da situação triste, lembro-me de me dar imensa vontade de rir.

Mas, enfim, não é conversa para as vésperas de Natal. Que disparate. Caraças. Peço desculpa, a sério. Caraças. A sério que tenho tido indícios de que não ando a bater bem da bola e isso preocupa-me. Parece que ando desmemoriada, obcecada, parva. Esqueço-me das coisas, ando com a cabeça nem sei onde. E nunca sei onde deixo o telemóvel ou as chaves. E combino coisas das quais me esqueço quase instantaneamente. Digo que é porque, na rectaguarda da minha cabeça, ando com mil outras preocupações mas começo a achar que é de mais. A ver se não dou em maluca. Que chatice. Só faltava mesmo, no meio disto, ainda eu pôr-me maluca.

Pronto. Calo-me. Não vos maço mais. 

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Desejo-vos, isso sim, um bom Natal. 

Desejo-vos dias felizes, muita saúde, muita harmonia, boa disposição. Desejo que saibam dar graças pela vida e pela beleza que nos rodeia. Desejo-vos boa sorte. E tudo de bom. 

E peço desculpa por não agradecer comentários e mails, sempre tão carinhosos e amigos. Parece que a minha energia se esgota ao escrever isto, já não dá para mais. Não levem a mal. Isto é mesmo uma questão física, acho eu (falta de bateria ou coisa do género).

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Aqui chegada, penitencio-me pelo que escrevi, totalmente a despropósito da quadra festiva. Só não apago porque senão ficaria com o post em branco. De qualquer forma, para tentar compensar o disparate, partilho um vídeo muito bonito de ver. O grande, o talentoso Jon Batiste e a sua mulher Suleika, que está a tratar-se de uma leucemia, abrem-nos a porta da sua casa. E é uma casa maravilhosa. E eles também o são. Quanta empatia, quanto amor, quanta alegria.


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Sejam felizes, pelo menos tanto quanto puderem
Saúde. 
Harmonia, bondade, afecto e tudo de bom. 
Paz (da boa, da que não resulta da submissão)

🎄🎄🎄🎅🎄🎄🎄
🌟🌟🌟🌟🌟
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terça-feira, abril 05, 2022

Entre o brilho do sucesso e o negrume da luta pela vida.
Jon Batiste e Suleika Jaouad: entre os 5 Grammy e a batalha contra o cancro

 

Mudança, jogo de turnos, rotação. Assim a vida. De um lado a inspiração, o reconhecimento, o êxito, os festejos, o brilho das luzes que sempre procuram o sucesso. Do outro, as más notícias, o desalento, o medo, o sofrimento, a solidão. 

Jon Batiste é daqueles que é sempre muito bem vindo a esta casa. Tem aquela alegria que tantas vezes acompanha a inocência dos grandes talentos. A música nasce-lhe das mãos, da voz, do corpo, do sorriso.

Suleika, a sua companheira, agora sua mulher, pensava ter ultrapassado a leucemia. Escrevia e falava sobre isso, dizia que tinha visto a morte de perto, falava de como é importante valorizar cada momento da vida. Mas o bicho traiçoeiro voltou. Soube disso ao mesmo tempo que Jon tinha razões para sorrir. Quando se soube das 11 nomeações de Jon, estava ela a ter a sua primeira sessão de quimioterapia. 

Mas, mesmo antes, aquando do transplante de medula, quando ela tinha que estar isolada, Jon estava com ela através da música que diariamente compunha para a sua bem amada.

Temos um tempo limitado, diz Jon. A morte é a maior lição. Acolhamos a imperfeição.

Agora, no vídeo abaixo, falam desta nova fase das sias vidas com sorrisos, sem fatalismos, como se soubessem que não será esta rasteira que os fará tombar. Ambos sorriem. Estão juntos e isso faz toda a diferença. São os dois lados da vida. Melhor: são dois dos muitos lados da vida.

Jon Batiste and Suleika Jaouad sharing life beyond cancer

The same day the "Late Show with Stephen Colbert" bandleader received 11 Grammy nominations – the most by any artist this year – the love of his life was beginning chemotherapy treatments for her second battle with cancer. Jon Batiste and bestselling author Suleika Jaouad ("Between Two Kingdoms") talk with correspondent Jim Axelrod about how their world was turned upside-down, and how they met adversity with an act of defiance.


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E, para quem não esteja a ver bem a dimensão do talento do fabuloso Jon Batiste, aqui está ele, uma vez mais


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E, numa outra dimensão, o inferno na terra

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Saúde. Esperança. Paz

segunda-feira, junho 14, 2021

A liberdade segundo Jon Batiste

 

Era muito pequena, seguramente menos do que cinco anos. 

Pelo verão, havia umas festas de aldeia. Hoje não localizo bem onde seria. Lembro-me de umas casas, um largo. Não sei se ali não seria terra batida. Uma zona de campo. Baile, cavalhada, arraial, jogos populares. Lembro-me que penduravam bilhas com água, se calhar estavam penduradas numa corda que unia duas árvores,  e que homens passavam montados em burros a ver quem partia mais bilhas (literalmente falando). De cada vez que um conseguia, era uma festa.

E havia petiscos. Cheirava a chouriço assado, se calhar também a polvo assado, não sei, não posso dizer  -- mas era aquela mistura de cheiros que, em noite de festa, abre o apetite e traz alegria. E os miúdos andavam à solta, corriam, brincavam, dançavam. Havia muita música e muita animação. Tudo na rua. Uma recordação de liberdade e alegria.

Não sei se nessa altura as pessoas se vestiam de forma muito colorida. Diria que não. Naquela altura a moda tendia para o soturno, para o ensimesmado. Era o tempo do tecido a metro e das modistas e alfaiates e das camisolas tricotadas. 

Contudo, quando vejo fotografias dos meus pais com os seus amigos, primos, irmãos e cunhadas, vejo-os com um aspecto quase hollywoodesco.  A minha mãe tinha vestidos claros, frequentemente floridos, corpo justo e saia rodada, o meu pai tinha calças de irrepreensível corte direito, camisas de aparência moderna, ambos de óculos escuros. Eram jovens, elegantes. Eu não estou nessas fotografias. Ou ainda não existia ou ficava com os meus avós. 

Contudo, nas festas de arraial na aldeia, nos arraiais no recreio da escola ou nos jogos de futebol em que o pai participava, andavam certamente mais práticos. 

Mas, fosse onde fosse, a minha sensação de liberdade era sempre a mesma. Eu a correr por onde queria com outros meninos, a minha mãe a conversar com amigas, o meu pai na sua vida (tenho ideia que fazia parte da organização de várias destas coisas e lembro-me dele atento a ver se as coisas estavam a correr bem) e, portanto, eu à solta.

Ao ver este vídeo com o Jon Batiste a interpretar Freedom foi do que me lembrei: alegria, largueza de movimentos, a rua como cenário para se estar, a rua como lugar de encontro e de festa.

Agora o colorido de todos eles é que é não corresponde à minha memória: aqui, nas cantorias, do Jon Batiste, as cores vibram e brincam e dançam de dar gosto. E aqui o ambiente é urbano enquanto nas minhas memórias é rural. Mas a liberdade é a mesma.


Dá vontade a gente ir para a rua dançar e cantar, não dá?

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Pinturas de Lee Rumsey e George Mullen, respectivamente

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Até já

quinta-feira, fevereiro 11, 2021

Te espero cuando la noche se haga día, suspiros de esperanzas ya perdidas

 



Vou fazendo contas de cabeça. Tento adivinhar a data em que voltarei a passear, a receber visitas. Penso: fins de Abril, Maio. Estando bom tempo, poderemos estar na rua, quase nem usar máscara. A minha mãe há-de estar vacinada, algures no tempo nós dois haveremos ser vacinados, todos o seremos. Voltaremos a sentar-nos em volta da mesa, talvez não nos sentemos em mesas separadas, talvez não sintamos necessidade de estar a milhas uns dos outros. Pelo meio aparecerão variantes tailandesas, eslovacas, congolesas. As vacinas irão sendo adaptadas. Aos poucos iremos voltando a uma quase normalidade. 

É nisto que penso enquanto estou aqui fechada, trabalhando de manhã à noite, cercada de chuva, de mau tempo, de frio. A terra do jardim está ensopada. Não se consegue andar, chove em permanência uma chuva miúda, as árvores pingam, pingam. Estava, à tarde, sob o alpendre a comer uma laranja quando ouvi correr água como num cano. Olhei admirada. A água corria no algeroz e caía copiosamente no tubo que desce por um dos pilares. 

Às tantas vi uns pontinhos brancos na árvore que tem os ramos nus. Fui a correr buscar a máquina para fotografar. A primeira flor da amendoeira. Que alegria. Que boa notícia. E outras se anteveem. O constante devir, o permanente milagre.

E é isto. Debaixo da invernia, adivinha-se já a chegada da primavera. A natureza continua os seus ciclos, indiferente às agruras que os estúpidos humanos infligem a si próprios. Esta continuidade são o chão que, queiramos ou não, pisamos.

E depois virá o verão, os tempos quentes e secos e esquecer-nos-emos destes dias sombrios, escuros, tristes. Estarei ao sol, saber-me-á tão bem, sentir-me-ei mais viva. Sentir-me-ei mais mar, mar de terras quentes, mar de aventuras e perdições. Fecharei os olhos e irei ao saber das marés do pensamento. Talvez adormeça ao sol, os pássaros cantando e eu mergulhada naquele doce abraço que sabe a eternidade. Depois acordarei, a pele agradada pelo calor, abençoando o prazer de estar viva.


Mas, por enquanto, estamos no inverno, em confinamento, atravessando o calvário que calhou em sorte a esta geração. Os meus avós avós falavam da pneumónica de que tinham ouvido falar, uma desgraça que roubara a vida a milhares de pessoas. Era coisa longínqua. As pestes eram coisa de passados irrepetíveis. E, no entanto, aqui estamos.

Durante o dia, pelo telefone chegam-me algumas boas notícias mas também problemas. Hoje uma pessoa, contando que lhe tinha entrado no gabinete uma pessoa a chorar (há quem não possa estar em teletrabalho), desatou também a chorar. Interrompeu, ouvi uma respiração funda. Depois disse-me: 'Desculpa. Hoje estou com um estado de espírito macabro'. Pessoa sempre animada, pessoa forte. E, agora, isto. 

Pelo meio, vou recebendo mensagens da família, fotografias dos meninos. Por vezes estou a meio de reuniões, ouço o sinal de uma mensagem a chegar. Se consigo, espreito. Às vezes fico com pena de não poder meter-me na conversa. Apetecia-me enviar sorrisos, corações. Mas comporto-me. Limito-me a pensar que não tarda estamos na primavera, depois no verão. E que, talvez, no outono já nos sintamos livres.

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E um poema a condizer com a cinzenta tristeza que tem vestido estes dias

Mario Benedetti - Te Espero

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As fotografias foram feitas aqui em casa, enquanto chovia.

Não sabia que título dar a este post. Hesitei entre 'wonderful world' ou em extrair do poema de Mario Benedetti o início do poema. Achei esta segunda hipótese mais deslocada do conteúdo do texto mas bonita.

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Desejo-vos um dia cheio de luz, mesmo que chova todo o dia.

segunda-feira, fevereiro 01, 2021

Sempre quero ver o que vão dizer dos testes anais os que achavam a app StayAway Covid muito intrusiva...
E o Santana Lopes que já por aí anda outra vez a fazer-se ao piso...? Não tem vergonha nenhuma naquela cara.
[E, para compor o pot-pourri, um relato do meu dia, desinteressante como sempre]

 


Fiz bacalhau à Gomes de Sá para o almoço. Acompanhámos com alface. Sobrou e pensei que seria uma boa solução para o almoço desta segunda-feira. Era para ter feito para mim um jantar ligeiro, iogurte, fruta, mas o meu marido resolveu reincidir no bacalhau e, quando me deu o cheiro, deu-me também a fome. 

O dia foi o do costume.

Andei a fazer medições e conjecturas no jardim. Gosto de imaginar coisas para fazer. E fiz fotografias. Depois fiz um mail a descrever e juntei-lhe fotografias. Tratei de coisas pendentes. Houve uma que não consegui concluir. Com isto da pandemia, é tudo online. Mas é online com as burocracias de quando se tinha que ir penar para o guichet. Só que, atrás do guichet, podíamos ter a sorte de apanhar alguém que nos ajudasse. Aqui, online, não conseguimos passar para o passo seguinte. Bem tentei desencantar tudo o que pediam mas foi inglório. Desgastada, acabei por desistir. Também fiz uma caminhada. Demos uma volta maior, por fora, parecia que estávamos mesmo no campo. Apanhei urze. No regresso passámos por uma série de casas onde os cães já ladram apenas de brincadeirinha, para nos chamarem, correndo de um lado para o outro, ao longo da vedação que os separa de nós, a darem ao rabo. Não há dúvida que já nos conhecem. Por vezes, tenho vontade de lhes fazer uma festa mas, ao mesmo tempo, tenho receio que me arranquem a mão. É que uma coisa é verem-nos passar fora do seu território e outra é uma mão invadir-lhes o espaço. Nessas alturas, bate aquela saudade de voltar a ter um cão como meu amigo. Falei nisso no mail que enviei. A meio e ao fim do dia falei ao telefone. Li. Desta vez consegui ler com vagar e sem adormecer. Há bocado transcrevi um excerto de um texto que achei muito interessante: Cioran fala de Maria Zambrano. Também apanhei laranjas e tangerinas. Estão tão doces, tão sumarentas. E apanhei camélias caídas e distribuí-as por outros vasos. E tenho estado a tentar interpretar os resultados de uma app de que o meu filho me falou. No entanto, creio que apenas com um modelo 3D poderei obter resposta às minhas dúvidas.

E creio que pouco mais. Não sei como é que nisto passou um dia. Antes, isto tudo caberia numa insignificante parte do meu dia. Agora, qualquer pequena coisa expande-se até ocupar todo o dia. Chego a esta hora com a sensação de que estou a desaprender de aproveitar ao máximo cada dia. Penso que ainda devia fazer isto ou aquilo e só encontro obstáculos que me tolhem os movimentos. 

É uma abulia, um tédio, um cansaço. Estou habituada a ter muito que fazer, não pouco. Estou habituada a não ter tempo, não muito. E depois está frio, húmido, tudo molhado lá fora. Por volta das quatro da tarde, se não antes, já estava escuro dentro de casa, já a luz tinha que estar acesa. Muito desagradável este tempo e este confinamento. Lembro-me do belo passeio à Aguieira há cerca de um ano. Na primeira noite ficámos num bungalow de madeira, com uma varanda sobre o rio. Fotografei um bicho grande, misterioso, que nadava sob as águas escuras do rio. Nas outras noites ficámos no hotel. Todos estes lugares tão lindos. Tenho saudades de passear. E dos meninos, dos pequenos e dos grandes, nem se fala. Que saudades. Quando voltar a estar com eles, estarão bem maiores (os mais pequenos que os outros já cresceram o que tinham a crescer). A minha filha diz que, quando isso acontecer, o menino mais velho estará mais alto que eu. Penso que exagera mas sei lá. Os dias arrastam-se mas as semanas sucedem-se. Às tantas perco um pouco as referências temporais. Não percebo nada disto. E tenho mails e comentários a que queria responder mas, estranhamente, falta-me energia. Muito estranho. Espero que me perdoem apesar de não dar para perceber. Cansada e sem energia porquê... se pouco fiz...? Não dá para entender.

Esqueci-me de dizer que estive a tentar pôr-me em dia com as notícias. Mas, de tudo o que li, só me apetece fazer referência a mais uma do Santana Lopes. Voltou a maçar-se com mais um partido que formou. Descurtiu. Os amores dele são sempre na base do coelho, vai ser tão bom, não foi? Ter trabalho e aguentar contrariedades não é com o pontapeado menino da incubadora. Portanto, como é bom de ver, desaderiu. Está outra vez por aí. Mas, qual velha gaiteira, já por aí anda a bater perna e, para se fazer caro, a apregoar que anda a receber convites. E os jornalistas, quais cães a quem atiram ossos, já por aí andam a correr em volta dele e ele, sempre com aquele ar de putativo velho senador, já anda a dar palpites. Não sei se alguém lhe dá ouvidos mas os jornalistas gostam é disto, de quem gosta de mandar bocas. Santa paciência.

Também achei graça a outra coisa e essa eu acho que deveria ser elevada à categoria de ovo de Colombo para certos casos. Li que, na China, estão agora a aplicar testes à Covid por via anal. Li a descrição de alguém que se viu com as calças tiradas, dobrado sobre a cama e com uma cotonete enfiada no rabo. Por duas vezes. Dizem que é mais eficaz que no nariz ou na garganta. E o que eu tenho a dizer é que toda a malta apanhada sem máscara, com a máscara pelo queixo ou com o nariz de fora, em especial os machões, os que acham que usar máscara é coisa para meninas, deveriam ser postos em círculo, virados uns para os outros, tudo de rabo de fora e tudo a levar com uma big cotonete pelo rabo acima (sim, big, que as cotonetes para apanharem o corona não são coisa para meninos...), todos a verem a reacção uns dos outros. A ver se não aprendiam. 

Mas... e os que achavam que a app StayAway Covid era um abuso, uma intromissão e mais não sei o quê? O que dirão se a moda pegar por cá e se se virem na contingência de terem que fazer um testezinho à maneira...? Que é um atentado à liberdade? Que é preciso ver se não viola os sãos princípios do RGPD...? Ou, pelo contrário, até vão louvar a eficácia, vão exigir que seja obrigatório um teste por dia, que nada a ver com liberdade, qual intrusão, qual carapuça, que é pena é que a cotonete seja tão pouco encorpada...? 


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Não sei se o Blackbird (na voz do Jon Batiste) tem alguma coisa a ver com o texto mas, com boa vontade, talvez tenha a ver com as minhas florzinhas.

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Desejo-vos uma bela semana e um belo mês a começar já por esta segunda-feira, dia 1

Saúde. Ânimo. Boa disposição. 
E força aí, ok?

sábado, janeiro 23, 2021

Deixai, deixai cair uma palavra

 





Já disse em quem vou votar. Não quero que haja segunda volta. Penso que há protagonismos que devem ser negados e, para isso, nada melhor do que arrumar o assunto de vez. Depois, a votação é para Presidente da República, não para Primeiro-Ministro. Quando ouço as razões contra a pessoa em quem vou votar penso que confundem as eleições. E há que ser pragmático e não correr qualquer risco, por mínimo que seja, de haver segunda volta.

Se se pudesse escolher quem, nestas eleições, deveria ficar em segundo lugar, escolheria João Ferreira. Do que vi, penso que fez uma campanha inteligente e digna, de todas a mais inteligente e a mais digna. Do que vi, João Ferreira não foi populista, oportunista, facilitista. Mostrou saber qual o papel de Presidente da República. Se não houvesse risco de haver segunda volta (e há), seria nele que eu votaria. Não voto no PCP para as legislativas pois creio que nem todos no PCP têm a abertura de espírito que João Ferreira tem mostrado nesta campanha mas estas eleições são para as Presidenciais e, se tivesse possibilidade de exercer essas funções, estou em crer que ele as desempenharia com dignidade, respeitando a Constituição. Agora talvez ainda lhe falte algum mundo, alguma experiência de vida, talvez lhe falte perder alguma ortodoxia que ainda lhe enferruje as articulações mentais, não sei, mas, nas próximas eleições, não havendo riscos como este ano há, talvez ele consiga mostrar poder vir a ser opção para um primeiro lugar. Nunca se sabe. As pessoas inteligentes sabem evoluir. 

Quanto ao dia que passou, o que posso dizer é que passou. Fiz o que tinha a fazer, tive reuniões, fiz e recebi telefonemas. E fiz a minha caminhada. E nisto o meu dia se esgotou. 

Esteve muito vento. Tirando a caminhada à hora de almoço, apenas saí à rua por breves instantes. Saí de uma reunião e tinha que entrar noutra logo a seguir. Então, num ápice, saí para o jardim e fui apanhar as laranjas que tinham caído com a ventania. Comi uma, logo ali. Doce, doce. Não tive tempo de ir até à horta. Faço ideia as tangerinas caídas no chão... 

Há quanto tempo não vou ao lugar para mim mais especial à superfície da terra, aquele bocado de chão a que chamo heaven. Não se pode circular e nós obedecemos. Mas tenho tantas saudades, tantas. Nem quero pensar nisso.

Há pouco, antes de adormecer com a meia almofada de veludo a envolver-me a nuca, voltei a pegar em Acidentes, de Hélia Correia. Tenho que ler devagar, a cabeça limpa de tudo, toda eu entregue às palavras para que elas, se para isso tiverem sido cerzidas, me deixem perceber a sua toada implícita. Ler poesia, quando a poesia consegue tocar a minha alma, é, para mim, uma fonte de felicidade. Nessas alturas gostava de ter aqui ao meu lado quem me dissesse, baixinho, estas palavras -- mas lesse como eu acho que elas devem soar. Contudo, se eu ousar dizê-las, não consigo. A minha voz não tem a profundidade que me agrada quando ouço poesia.

Por exemplo, o início de Almofada de Andorinhas:
Poucos, alguns, têm na mão o tempo.
E, como que sem esforço, simplesmente
porque podem fazê-lo,
alteram tudo: os ciclos lunares,
as estações,
as sequências brandas a que o dia,
o entardecer, a noite,
se submetem.
(...)
Gosto.

Tirando isso.

Esforçamo-nos por não termos uma overdose de covid. Evitamos notícias catastrofistas mas todas elas agora o são. Se o meu marido aqui estivesse já teria mudado de canal. Estou a ver a fila de ambulâncias à porta de Santa Maria e os médicos a descreverem  aquilo que eu, por outra via, já sabia que estava a passar-se. Terrível. O que se passa arrasa toda a gente: em primeiro lugar os que estão doentes e a precisar de apoio hospitalar mas, e segundo, os profissionais de saúde. E as famílias. E toda a gente que assiste a isto.

Hibernar. Hibernar até que o tempo passe e as coisas voltem a estar controladas. Não sei quando.

Hibernar os que o podem fazer, claro. Tem razão Chevrolet. Não podemos nunca esquecer-nos dos que continuam a expor-se para que os que hibernam e todos os outros consigam sobreviver.

Bem. 

Com tudo isto nem me apetece falar de uma coisa que, noutra ocasião, me traria transbordante de alegria: a lufada de normalidade, racionalidade e decência que varre a Casa Branca.

Limito-me a partilhar um vídeo com Amanda Gorman, a jovem que encantou o mundo com a graça das suas palavras na tomada de posse de Biden, e com Jon Batiste, o músico que conheci no programa de Colbert. Há qualquer coisa neste vídeo, como noutros que tenho visto recentemente, e talvez tenha a ver com a força das palavras ou com a beleza da música ou com a diferença ou com a modernidade ou com a elegância ou com o sorriso, não sei, não sei mesmo dizer, que me faz acreditar que não devemos abandonar a esperança num mundo que talvez possa ser um pouco melhorzinho do que aquele em que agora vivemos. 

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As pinturas são, de novo, de Georgina Ciotti e vêm pela mão de Jacob Collier interpretando The Sun Is In Your Eyes
O título deste post é parte da parte III poema Esmola do mesmo livro

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Um bom sábado.

Saúde. Ânimo. 

domingo, novembro 11, 2018

Nesta noite de chuva in heaven




Parece que alguma coisa está a mudar dentro de mim. Não é a primeira vez que isso acontece. Quando acontece, o que está para trás fica para trás e a porta abre-se de par em par a uma vida nova.  Mas ainda não estou certa de que é isso que está a acontecer. Talvez seja, sobretudo, a vontade de que isso aconteça. Vontade de recomeçar. Vontade de ser surpreendida por uma vida desconhecida, cheia de surpresas. Gosto de entrar em caminhos desconhecidos.


Talvez seja a onda gigante que passou por cima de mim e me fez andar aos trambolhões dentro dela, sem chão, sem norte. Talvez tenha sido o não dito com todas as letras que existem dentro de um não. Todas as letras do mundo, as abertas e as mudas, as graves, as agudas, os gritos. Um não assim, redondo, convicto, definitivo, tem consequências. E, se calhar, algumas delas sejam estas. Insignificantes mas prenunciando outras. 

Mas não sei. nem quero saber. Não tento adivinhar-me. Receio impedir-me do que possa acontecer, quero-me disponível e desprevenida para o que está por vir.

Voltei, com muita saudade, ao tapete de arraiolos. Horas. O prazer voltou. Horas incansáveis, a mancha bordada a aumentar.


E ando agora muito devagar in heaven. Nunca antes assim, tão devagar. Examino a terra, as rochas, descubro tocas, fendas, ínfimas grutas nunca antes vistas, imobilizo-me de tal forma que os pássaros não voam: brincam e saltitam sem se importarem comigo.


Quando estava a passar a mão pela rocha, lisa e escura, fria e molhada, levantou-se um grande pássaro da aroeira que ali está. Olhei-o e pensei: ouviu-me, vai-se embora. Mas não, simplesmente mudou de ramo. Depois bateu as asas e mudou de novo, ainda para mais perto de mim. E eu ali, imóvel, arrepiada de emoção. Quando os pássaros voam dentro da copa das árvores fazem um barulho orgânico, o barulho das asas a roçar na folhagem. Gosto demais desse som. E cantam, felizes. Tèm uma vida tranquila, boa.


A terra está fértil, molhada, coberta por musgos, os troncos por líquenes, a caruma está rubra, enleada na humidade, em folhas, em bagas.  Cheira muito bem. Não é o cheiro das primeiras chuvas: é o cheiro da terra fecunda, da felicidade imaculada da natureza.

Enquanto escrevo, ouço a chuva. É o som do milagre. Cair do céu a água de que a terra se alimenta é um milagre. A noite passada esteve muito vento. Abri um bocado o vidro para melhor o ouvir. O meu marido protestou, que não está tempo para dormir de janela aberta. Mas tapou-se melhor e adormeceu. E eu também. Gosto de adormecer a sentir a aragem fria da madrugada e, se vier com o som da ventania, melhor ainda. Ou da chuva.


Na salamandra arde um tronco grosso e perfumado. Ouço-o crepitar, Levantei-me agora mesmo para o virar e, ao fazê-lo, tudo se acendeu lá dentro e veio aquele calor doce, cheiroso, que deixa a minha casa tão agradavelmente acolhedora.

Aqui ao meu lado está o tapete que estou a fazer e eu olho para ele e penso que amanhã vou escolher os azuis e os verdes que vou meter dentro da janela que hoje bordei. O mar, o céu. Não o faço agora porque as cores têm que ser escolhidas à luz do dia. A luz artificial não deixa distinguir bem quais as melhores cores para fazer as cambiantes marinhas, as nuvens, o céu. Antecipo o prazer de escolher as lãs, de imaginar como vou preencher o espaço que ainda está vazio.


De tarde, vi na televisão um pouco de um programa sobre equilíbrio ecológico. Diziam que as bolotas são um alimento muito saudável. Tenho o chão ali fora, deste lado da casa, cheio delas mas não sei como comê-las. Mas hei-de aprender. Gosto da ideia de me alimentar do que a terra dá. Eu que gosto tanto de comer fruta, saladas, queijos, hei-de aprender melhor o que mais daqui posso comer. Hoje descobri três figos pequenos, os últimos. Comi-os. Da chuva e de serem tardios, tinham pouco sabor. Mas comi-os com um prazer enorme. Os últimos figos frescos deste ano.

Há agora muitos cogumelos, muitos, grandes. Penso que é sinal que a terra rebenta de de tanta vida. Lembro-me sempre de como era esta terra quando para cá viémos. Não havia caruma, folhas secas, cogumelos, líquenes, hera trepando pela rocha. Era uma terra árida e triste. Transformou-se numa terra prenha, exuberante nas suas mil vidas.


O meu marido tentou fazer uma fogueira para queimar o que por aí há de ramos e mato mas estava tudo molhado demais, não conseguiu. Amanhã ainda menos com tanto que está a chover.

Tudo tão verdinho, verdinho de dar gosto.

Na vinda estive a ler sobre Kafka. E sobre Bach. E vim encantada com a beleza das palavras inteligentes de Kundera. Um dia vou mostra-vos algumas.

Passei por uma casa grande, abandonada, e pensei que gostava de entrar lá dentro e fotografar e depois inventar uma história dentro dela. Mas nem tentei porque para inventar histórias de verdade dentro de casas abandonadas é preciso um tempo longo e vagaroso que ainda não conquistei.


Vou parar de escrever. Sinto que o texto que estou a escrever anda por aqui à toa, sem se ater a caminhos, todo ele zanzando, espreitando recantos, cheirando as palavras, perseguindo os sons que por aqui andam a rondar. Talvez, lendo-o, não se perceba o seu sentido até porque não sei se ele tem sentido. Talvez tenha, apenas, os meus sentidos misturados nele.


Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo. 
Saúde e alegria.