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quarta-feira, julho 15, 2026

[Em actualização: São os professores resistentes que estão a dar cabo disto tudo?]
O caos nos Exames Nacionais -- não foi a pressa, foi a INCOMPETÊNCIA

 

Adiaram outra vez. Ontem, o Ministério da Educação anunciou que a classificação dos exames que ainda faltavam prosseguiria até quarta-feira, mais um dia além do prazo que já tinha sido alargado duas vezes antes. Às 19h de segunda-feira estavam corrigidas 98% das respostas. Os 2% em falta explicam, sozinhos, o essencial do processo: são folhas mal digitalizadas ou nunca digitalizadas, provas que as escolas não chegaram sequer a entregar às forças de segurança, itens que têm de ser reclassificados porque a folha certa só apareceu depois. O Ministério garante que a afixação das pautas se mantém para sexta-feira, dia 17. Garantiu o mesmo, antes, para o dia 14, e antes disso para o dia 10.

Pedi ao ChatGPT uma imagem que ilustrasse o que se passa com
a avaliação dos Exames Nacionais e esta foi o que ele me devolveu

Vale a pena olhar para a dimensão do que falhou, porque os números, sozinhos, já dizem muito. Mais de 166 mil alunos do 11.º e 12.º anos inscritos na 1.ª fase. Mais de 300 mil provas realizadas. Segundo o próprio presidente do EduQA, um exame de Matemática tem várias folhas; multiplicado pelas 300 mil provas, isso dá cerca de quatro milhões de páginas digitalizadas num único armazém em Mem Martins, por cerca de 40 pessoas, sete dias por semana, entre as 8h e as 22h, desde 16 de Junho. Para isso foram compradas mais de 70 máquinas de digitalização a 3.000 euros cada, financiadas pelo PRR. O processo de digitalização, sozinho, já tinha custado mais de sete milhões de euros em três anos, antes mesmo desta época de exames.

O problema nunca foi a falta de equipamento. Foi tudo o resto.

Vamos por partes:


Um projecto lançado sem os fundamentos de um projecto

Qualquer pessoa que já tenha implementado um sistema de informação crítico, seja num banco, numa seguradora, numa grande empresa, num hospital, sabe que a tecnologia é a parte fácil. O que decide se um projecto desta escala funciona é o que se faz antes de o pôr em marcha: testes de carga que simulem o volume real, testes de integração entre todos os sistemas envolvidos, um grupo de key users que valide o processo do princípio ao fim em condições reais, formação adequada e atempada de quem vai usar o sistema todos os dias, manuais completos e disponíveis com antecedência, e um plano B testado para quando, não se, alguma coisa falhar.

Nada disto é visível neste processo. O único manual encontrado publicamente, o "Manual do Professor Avaliador 2026", foi actualizado a 16 de Junho, o mesmo dia em que arrancou o calendário de exames. Ou seja, a documentação de apoio a quem ia usar o sistema ficou pronta, na melhor das hipóteses, em cima da hora. Não há registo público de nenhuma bateria de testes de carga anterior ao arranque, o que é indispensável quando se sabe, à partida, que o sistema vai ter de processar mais de quatro milhões de páginas e servir milhares de professores em simultâneo. Não há registo de testes de integração entre a plataforma de digitalização (interna, do EduQA) e a plataforma de classificação (da Blat), duas peças de fornecedores diferentes que, como se veio a confirmar, comunicavam mal entre si: foi precisamente aí, na costura entre os dois sistemas, que surgiram os itens cortados a meio e as folhas de continuação em falta. E não há sinal de formação alargada aos milhares de classificadores antes do arranque, que se viram a aprender o sistema em tempo real, muitos deles convocados de um dia para o outro, alguns ao fim de semana, alguns por telefone.

Quanto ao plano B, o que existiu foi improviso disfarçado de plano. A norma do Júri Nacional de Exames dizia que o calendário tinha sido definido "de modo a acomodar eventuais contingências". Na prática, essa "contingência" resumiu-se a adiar o prazo sempre que a realidade obrigava: de 6 para 10 de Julho, depois para 14, depois para 17, e agora, no meio disso, mais um dia de correcção. Um plano de contingência genuíno define, antes de o problema acontecer, o que se faz se a plataforma cair, se faltarem folhas, se os prazos não puderem ser cumpridos, incluindo a hipótese de recuar para o modelo em papel nas disciplinas mais críticas. O que tivemos foi uma sucessão de comunicados de sexta-feira a explicar o que já tinha corrido mal.

A isto soma-se um factor que raramente é dito com esta clareza: a equipa que devia garantir tudo isto foi desmantelada a meio do processo. Em Setembro de 2025, o Governo extinguiu o IAVE, fundindo-o com mais três organismos (a Direcção-Geral da Educação, a Estrutura de Missão do Plano Nacional de Leitura e o Gabinete Coordenador da Rede de Bibliotecas Escolares) num novo instituto, o EduQA, reduzindo dezoito entidades do ministério a sete. Nessa reforma, centenas de professores que trabalhavam nestes serviços regressaram às escolas, muitos deles a meio do ano lectivo. Ou seja, a instituição que tinha de planear, testar e executar a maior operação de digitalização de exames de sempre viu parte da sua memória técnica e dos seus quadros especializados dispensados nos meses imediatamente anteriores ao arranque. Não é preciso mais nada para perceber por que motivo faltaram testes, formação e um plano B: faltou, literalmente, quem os fizesse.


Setenta scanners não é uma estratégia

Fica bem, num comunicado, dizer que se compraram "mais de 70 máquinas de digitalização de grande capacidade". Mas convém perguntar: capacidade para quê, organizadas como? A operação real, tal como foi descrita pelo próprio EduQA na visita de imprensa a Mem Martins, é uma operação artesanal: exames guardados em envelopes, arrumados em prateleiras por zona do país, com equipas a retirar agrafos à mão antes de os fazer passar pelas máquinas, e sempre que um erro é detectado, alguém tem de localizar fisicamente o envelope certo, entre milhares, para repetir o processo. Isto é o oposto de uma linha de produção industrial dimensionada para milhões de páginas.

Havia duas soluções sensatas, e nenhuma delas foi escolhida. Uma: descentralizar a digitalização pelas escolas ou pelos centros regionais de exame, logo a seguir à prova, sem custo adicional relevante, uma vez que grande parte das escolas já dispõe de equipamento de digitalização básico e de pessoal administrativo habituado a processos deste tipo. É este, aliás, o modelo seguido por sistemas de exames de grande escala noutros países: digitaliza-se junto da fonte, reduz-se o transporte físico, reduz-se o risco de um único ponto central de falha. Outra: se a opção fosse mesmo centralizar tudo num único local, então a decisão correcta seria investir em duas ou três linhas de digitalização verdadeiramente industriais, com capacidade e redundância reais, geridas por uma equipa técnica dedicada e testada, em vez de setenta máquinas de gama alta mas ainda assim manuais, dependentes de gente debruçada sobre pilhas de papel, turno após turno.

O que ficou não foi nem uma coisa nem outra. Foi uma central única, fisicamente vulnerável e logisticamente frágil, montada à pressa num armazém que, até ao ano passado, ainda imprimia os próprios exames.


A vulnerabilidade que ninguém quer explicar até ao fim

A 6 de Julho, a plataforma de classificação esteve suspensa durante mais de dezoito horas por causa de uma "fragilidade de segurança". O ministro garantiu que não houve ciberataque nem intrusão. Mas admitiu, ele próprio, que a segurança informática das plataformas era "o maior risco" de todo o processo de correcção digital. Ou seja: o Governo sabia, à partida, qual era o ponto mais perigoso do sistema, e deixou-o entrar em funcionamento a tratar os dados pessoais de mais de 166 mil alunos, a maioria deles menores, até que uma consultora chamada de urgência, já com o processo a decorrer, descobriu a falha.

Ficam por responder perguntas que deviam ter resposta pública, categórica, e não vaga. Houve ou não acesso indevido aos dados dos alunos durante essa janela de vulnerabilidade? O Bloco de Esquerda colocou exactamente esta questão ao Ministério, sublinhando que uma falha numa plataforma que associa provas de exame à identificação de alunos menores é, em si mesma, potencialmente uma violação de protecção de dados com obrigações legais próprias, independentemente de ter havido ou não exploração efectiva da falha. Até hoje, não há uma resposta pública e detalhada, apenas a garantia genérica de que "os dados estão seguros". E há ainda um episódio paralelo, nunca oficialmente confirmado nem desmentido com provas, de uma alegada fuga de informação da própria Blat, em Maio de 2026, que teria exposto dados de dirigentes do PSD e mais de um milhão de linhas de comunicações internas da empresa com os seus clientes. Não há registo de que esse incidente tenha sido notificado à Comissão Nacional de Protecção de Dados, como o RGPD exige em caso de violação de dados pessoais. Não é preciso provar que os dois episódios estão ligados para perceber que ambos apontam na mesma direcção: uma cultura de segurança informática desadequada à criticidade da informação que esta gente tinha em mãos.

E aqui há uma obrigação legal que não pode ficar por cumprir por simples conveniência política. Quando existe uma vulnerabilidade confirmada numa plataforma que trata dados pessoais de menores, incluindo dados relativos à sua avaliação escolar, a Comissão Nacional de Protecção de Dados tem de apurar, com poderes que o Ministério não tem sobre si próprio, se houve ou não acesso indevido, e a que dados exactamente. Isto não pode ficar resolvido com a garantia genérica do próprio visado, o Ministério a dizer que os dados do Ministério estão seguros. Se a CNPD concluir que houve violação, mesmo que parcial, mesmo que sem exploração maliciosa comprovada, existe o dever legal de notificar os titulares dos dados, ou, tratando-se de menores, os seus encarregados de educação, dentro dos prazos que o RGPD define. Até hoje, não há notícia pública de que a CNPD tenha aberto um processo, nem de que qualquer família tenha sido notificada de fosse o que fosse. Este silêncio é, em si mesmo, uma lacuna a apurar: ou a CNPD já investigou e concluiu que não houve violação, e isso devia ser dito publicamente e com clareza, ou ainda não investigou, e devia.

E depois há a pergunta mais simples de todas, a que qualquer auditor faria em cinco minutos: quem teve acesso físico às provas? Sabe-se que, para tentar cumprir os prazos, foram chamados a corrigir e a mexer no processo técnicos do EduQA e elementos do gabinete do secretário de Estado que não pertencem ao Júri Nacional de Exames, o que os próprios críticos do processo apontam como um risco directo para o princípio do anonimato: quantas mais mãos, fora do circuito formal, tiveram acesso às provas, mais difícil se torna garantir que não houve troca, adulteração ou erro de correspondência entre a prova física e a nota atribuída. O Ministério assegura que o anonimato "só pode ser quebrado nas escolas". É uma garantia de procedimento, não uma garantia de facto verificável por quem está de fora. Num processo tão disperso, com tanta gente diferente a circular por armazéns, plataformas e envelopes, a única resposta séria a "quem garante que a nota que sair é mesmo a do aluno" seria uma auditoria externa e independente, publicada, e não apenas a palavra do ministro.


"Faz parte da transformação digital." Não, não faz!

Perante tudo isto, o discurso do Governo tem sido notavelmente consistente: isto é normal, é o preço de qualquer "transformação digital", faz parte de "processos de mudança" exigentes. O primeiro-ministro disse-o quase nestes termos, garantindo que, depois deste "primeiro grande teste", o sistema será "um avanço" para a educação portuguesa, e queixando-se de que há quem tente "exacerbar e quase exagerar" os problemas. O ministro da Educação repete, semana após semana, que "o processo não começou bem", mas mantém o rumo.

Isto não é verdade, e vale a pena dizê-lo sem rodeios. Transformação digital feita a sério não produz este tipo de caos, produz frustração pontual e curvas de aprendizagem, coisa bem diferente de convocatórias erradas, professores reformados chamados a corrigir provas, provas sem folhas de continuação, itens que desaparecem depois de corrigidos, plataformas suspensas sem aviso, e um calendário que se vai reescrevendo a cada semana. Isso não é o preço da mudança. É o resultado previsível de lançar, em produção, sobre dados sensíveis de 166 mil menores, um sistema sem testes de carga documentados, sem testes de integração entre plataformas de fornecedores diferentes, sem formação prévia adequada, sem plano de contingência real, e gerido por uma teia de pequenas empresas contratadas por ajuste directo, uma delas com catorze pessoas e sem contrato em vigor conhecido nos últimos anos. Chamar a isto "normal" é, no melhor dos casos, ingenuidade; no pior, é a forma mais eficaz de branquear responsabilidades antes de a auditoria (se alguma vez houver uma auditoria pública e completa) chegar a alguma conclusão.


E o que ainda não sabemos

Falta ainda perceber como será feita a integração destas notas, obtidas por um processo com este historial, com a classificação interna final que cada aluno já tem na escola, e que pesa directamente no acesso ao ensino superior. Foi esta integração testada com o mesmo rigor com que se deveria ter testado tudo o resto? Não há, até hoje, qualquer informação pública sobre isso. Depois de um mês de falhas na parte mais simples do processo (digitalizar e distribuir ficheiros), não é razoável dar como garantido que o cruzamento final de dados, decisivo para o futuro de cada aluno, foi salvaguardado com mais cuidado do que tudo o resto.

O que sabemos, com certeza, é isto: um projecto desta natureza e desta escala tinha de ter sido testado antes, não corrigido ao vivo, à custa dos alunos, das famílias e dos professores. Não foi.


Pressa ou incompetência?

Fica a pergunta que tudo isto convoca: é o preço da pressa, ou é o preço da incompetência? A distinção interessa, porque não são a mesma coisa e não merecem o mesmo perdão.

Se fosse só pressa, o padrão seria outro: um sistema bem desenhado na sua concepção, mas comprimido no tempo, com qualidade degradada, atrasos, sim, mas dentro de uma lógica reconhecível. Pressa explica cortar testes de aceitação à última hora. Não explica não ter testes de carga nenhuns. Pressa explica formação apressada. Não explica não haver formação. Pressa explica um manual publicado tarde. Não explica um manual publicado no próprio dia do arranque do calendário de exames.

Há três factos, em concreto, que não se explicam pelo tempo disponível, explicam-se pela qualidade das decisões tomadas. Primeiro, o piloto já tinha falhado, e da mesma forma: o exame de Filosofia, em 2025, com 20 mil alunos, teve exactamente os mesmos problemas de plataforma e de distribuição de itens que agora se repetiram à escala de 300 mil provas. Um piloto serve para aprender antes de escalar. Não faltou tempo para ler essa lição, faltou vontade ou capacidade de a ler. Segundo, a escolha do fornecedor da peça mais crítica do sistema não foi feita sob pressão do calendário de 2026, foi feita, e mal, ao longo de uma década, por sucessivos governos: entregar a plataforma que trata dados de 166 mil menores a uma agência de catorze pessoas, por ajuste directo, sem contrato em vigor conhecido nos últimos três anos, é uma falha de contratação pública estrutural, não um efeito colateral de um Verão apertado. Terceiro, a extinção do IAVE e a dispensa de quadros técnicos especializados a meio do processo, descrita acima, não foi imposta por prazo de exame nenhum. Foi uma opção do próprio Governo, tomada a sabendo que a maior operação de digitalização de sempre estava a poucos meses de arrancar.

A pressa existiu, e agravou tudo, a decisão política de generalizar a 300 mil provas sem corrigir primeiro o que o piloto já tinha exposto é, em si, um sintoma de pressa. Mas mesmo essa pressa é, no fundo, um sintoma de incompetência de planeamento: um projecto bem gerido reserva tempo para testes e formação antes de fixar a data de arranque, não fixa primeiro a data e depois tenta encaixar lá dentro testes que nunca chegam a acontecer.

Por isso, a resposta parece-me clara. A causa matricial não é a pressa. É a incompetência, estrutural e institucional, não de uma pessoa isolada, mas de um sistema de decisão que dispensou as disciplinas mínimas de gestão de um projecto desta escala (testes de carga, testes de integração, formação, manuais, plano de contingência, fornecedor único e responsável), que ignorou o seu próprio piloto do ano anterior, e que ainda por cima se reestruturou a si próprio, dispensando quem sabia fazer o trabalho, no pior momento possível para o fazer. A pressa foi o veículo. A incompetência foi o motor. E é por isso que ninguém, até hoje, respondeu com factos concretos à pergunta mais simples de todas: quem garante alguma coisa neste processo?

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O texto acima foi elaborado com recurso a IA para obtenção e sistematização de informação junto de diversas fontes, com vista a cobrir alguns aspectos que me parecem relevantes. Como já referi, não têm conta os processos de transformação em que participei, incluindo a digitalização de processos em âmbitos diversificados, vários deles de âmbito nacional e outros para além disso. Se há temas em que sei do que falo, este é seguramente um deles. E o que posso dizer é que nunca, NUNCA, vi tamanha incompetência, tamanho amadorismo, tamanha irresponsabilidade. Um ex-colega que me ligou ontem dizia que não tem conseguido deixar de jogar as mãos à cabeça perante o que está a passar-se. Dizia ele: 'Esta gente nunca trabalhou.... esta gente não sabe como é que as coisas se fazem...'.  Um outro dizia-nos no ginásio: 'Se a Madeira quisesse invadir o Continente e tomar conta disto, com a gente deste Governo, era limpinho, num dia a Madeira estava a mandar em Portugal inteiro'. 

Face ao que está a passar-se, não era só o Ministro da Educação que deveria rapidamente ser posto borda fora: também o Montenegro, qu eé o responsável pelo Governo, deveria levar um valente apertão. Isto não se faz.

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Fontes consultadas:

Comunicados do Ministério da Educação, Ciência e Inovação e do EduQA; reportagens de Público, Observador, ECO, RTP, Renascença, JN, CNN Portugal, DN, esquerda.net e Executive Digest, entre 3 e 15 de Julho de 2026.

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Actualização

A "resistência dos professores": gerir a mudança também é gerir o projecto

Nas jornadas do PSD em Palmela, na véspera do debate do Estado da Nação, Luís Montenegro admitiu, pela primeira vez com esta formulação, que pode ter havido "alguma falha dos responsáveis políticos e dos serviços". Mas não deixou a frase respirar sozinha: a seguir, atribuiu parte da perturbação do processo a "resistência à mudança" por parte de "alguns" professores, ressalvando que "a grande maioria está com este passo". Garantiu ainda que a digitalização "é para continuar" e apelou aos colegas de Governo para "não terem receio de enfrentar as resistências" dentro dos seus serviços.

Há aqui uma inversão que vale a pena desmontar, porque é, ela própria, mais um sintoma do problema de fundo.

Gerir a resistência das pessoas à mudança não é um imprevisto externo ao projecto, é uma das componentes normais de qualquer projecto de transformação, com nome próprio na disciplina de gestão de projectos: change management. Um projecto bem desenhado antecipa que nem todos vão aderir ao mesmo ritmo, e por isso investe, antes do arranque, em comunicação, em formação, em canais de suporte e num período de transição com acompanhamento reforçado, precisamente para reduzir essa resistência antes de ela se tornar um problema operacional. Quando um primeiro-ministro invoca a "resistência" dos utilizadores de um sistema para explicar o caos desse sistema, está a descrever, sem se dar conta, uma falha de gestão da mudança, e essa gestão também é da responsabilidade de quem concebeu o projecto, não de quem o teve de usar sem preparação.

E há uma segunda inversão, mais grave. Antes de se falar em "resistência", o próprio ministro da Educação já tinha sugerido, em audição parlamentar, que boa parte dos testemunhos de professores sobre falhas concretas "é falsa". A plataforma MetaPROF respondeu publicamente que cada relato que divulga é revisto e pode incluir prova documental anexa, convocatórias, capturas de ecrã, comunicações oficiais, e acusou o ministério de tentar "inverter as responsabilidades". Entretanto, factos concretos foram confirmados pelo próprio ministério em audição: houve, por exemplo, uma professora já falecida que chegou a ser convocada para classificar provas. Isto não é resistência à mudança. É gente a apontar defeitos reais, verificáveis, nalguns casos grotescos, num sistema que não funcionava. Chamar-lhe "resistência" é, no melhor dos casos, uma imprecisão de linguagem; no pior, é transferir para a classe docente uma responsabilidade que é do desenho e da gestão do projecto.

E as novidades das últimas horas

O caso continua a ramificar-se. O Ministério alargou por dois dias o prazo de matrícula do 10.º e do 12.º anos (agora entre 15 e 24 de Julho), precisamente por causa do adiamento das pautas. Confirmou-se também que os problemas não se ficaram pelo secundário: as provas finais de Matemática do 9.º ano tiveram os mesmos constrangimentos no processo de classificação digital. E, num sinal de que a crise já mexe com nomeações dentro da máquina do ministério, demitiu-se a vice-presidente do conselho directivo da AGSE (a agência que gere pessoal e estabelecimentos escolares), Salomé Augusto Branco, a seu pedido, a 8 de Julho; o ministério nega qualquer ligação aos exames, mas a coincidência de datas, a meio da maior crise do sector em anos, não passou despercebida.

Por fim, o calendário político aperta: o debate do Estado da Nação decorre esta quinta-feira, dia 16, já sob pressão da oposição (a Iniciativa Liberal chegou a pedir o adiamento), e o ministro Fernando Alexandre é ouvido no Parlamento já esta sexta-feira, dia 17, precisamente no dia em que, segundo o Governo, as pautas serão finalmente afixadas.

Tudo isto reforça, e não contraria, a conclusão a que já tínhamos chegado: perante um projecto mal gerido do início ao fim, a resposta política tem sido, sistematicamente, apontar para fora, para os professores, para quem denuncia, tudo menos para o próprio desenho do projecto. É a mesma incompetência estrutural, agora também na forma como se fala dela.

domingo, julho 12, 2026

Bugalho, o empertigado porta-voz do Luís, apareceu a tentar lavar a porcaria feita pelo Fanã Alex com uma tirada que causa vergonha alheia a qualquer um

 

Depois de, nos últimos tempos, ter andado a comer toda a espécie de petiscos e a furar metodicamente toda a dieta, com a balança já a hastear bandeiras de alerta, este sábado resolvi voltar minimamente ao meu regime. Nada de cogumelos assados ao pequeno-almoço, nada de ovas de choco ou de croquetes de alheira, nada de toda a espécie de gulodices.

Acontece que, a seguir ao almoço, adormeci. Não sei se por isso, a verdade é que acordei indisposta. 

Ouvi há tempos alguém a dizer que há pessoas que têm um aparelho digestivo tão todo-o-terreno que, mesmo que comam pedras, tudo é processado sem problemas. E pensei que, felizmente, encaixo nessa categoria. Mas este sábado isso não aconteceu.

Tendo comido uma refeição simples, surpreendentemente senti o estômago duro, inchado, dorido. E senti-me agoniada.

Para me tratar, bebi duas águas das pedras, bebi uma infusão de hortelã-pimenta. E não comi mais nada.

E, com isto, estive para aqui a ver se me passava. E não passava. 

Agora, tarde e más horas, parece que já estou normal. E normal até na fome. Estou esfomeada. Mas acho que vou resistir. Vou apenas beber água. Não me arrisco a retroceder. 

Por isso, faltou-me a disposição para agir a tempo e horas. E agora, já não com indisposição mas com fome, continuo incapaz de me atirar, com unhas e dentes, aos incapazes que conseguiram ensarilhar o que sempre tinha corrido bem: a classificação dos exames,

Quanto mais vou sabendo do que está a passar-se mais vómito vou sentindo. Em qualquer das empresas em que trabalhei, director que avançasse com uma tal barracada e que causasse tamanho granel, era encostado em três tempos. Aqui não. Ministros que façam porcaria são conservados em formol, contra tudo e contra todos. A estupidez que é isto tudo, a ignorância, a incompetência, a irresponsabilidade que tudo isto demonstra é de bradar aos céus. Poderia percorrer aqui, uma a uma, as calinadas, as abestalhadices, as cavaladas cometidas que a comunicação social vai divulgando (já para não falar no absurdo de dinheiro gasto) -- mas não estou fisicamente na melhor forma.  

Por isso, cinjo-me ao que este sábado mais me convulsionou. Penso que foi quando o meu marido ligou a televisão para ver o futebol que me apareceu o menino-velho, de fato e gravata, tentando aparentar uma gravitas que só existe na cabeça dele: Bugalho feito porta-voz do Governo e, com aquele ar de bimbo desfasado da realidade, a querer aparentar que estava a oferecer uma colher de chá aos professores, oferecendo-lhes o pagamento de horas extraordinárias aos que estão a trabalhar ao sábado.

Perante casos destes, sinto que a minha convicta costela pacifista é severamente posta à prova. Muito sinceramente confesso: perante um enfatuado destes, só penso que, se estivesse em frente dele, teria qu eme controlar fortemente para não lhe despejar um copo de água em cima 8e isto, volto a confessar, sou eu na versão soft). Então um ignorante daqueles queria que os professores, que são, para todos os efeitos, trabalhadores, trabalhassem à borla ao fim de semana? Acha que está a oferecer-lhes um presente? Pagar o trabalho feito ao fim de semana é alguma oferenda?

Devo dizer o seguinte: não têm conta as vezes que trabalhei ao fim de semana, à noite, nas férias e, sempre, sem ser remunerada por isso. Mas fiz porque queria, porque era a responsável, porque queria acompanhar as pessoas das minhas equipas (e eles, sim, eram remunerados ou recompensados quando isso acontecia). Agora os professores poderiam ser compensados de outra forma? Poderiam tirar dias de férias adicionais? Poderiam receber prémios que compensassem o trabalho não remunerado? Não poderiam, pois não? Então que raio de benesse é esta que o chico-esperto do Bugalho veio anunciar como se os professores fossem parvos a ponto de aceitar ser tratados como escravos que recebam com venerado agradecimento o pagamento que lhes é devido?

Eu, que não sou professora, senti que aquela parvoíce do Bugalho era um insulto, um insulto dos grandes. Uma pouca-vergonha.

Depois, quando questionado, fez aquele ar sonso e a disse que não é porta-voz do Governo mas, sim, do PSD. Dupla palermice: primeiro armou-se em porta-voz do governo, a seguir veio confirmar o que se sabia, que não é -- só que, se não é, porque se armou nisso?

O ridículo não tem tamanho? Não têm um espelho em casa? Não têm noção? 

Mas o responsável mor é o Montenegro. É ele. 

Este Luís está a revelar-se ainda mais nódoa do que se pensava. Perante uma barracada desta dimensão (e vamos ver como é que isto vai acabar), em vez de se portar como um homem, e exigir que o Fanã Alex se chegue à frente e explique ao País exactamente o que se passa e o que está a fazer para garantir que não vai haver danos, directos ou colaterais, ou em vez de vir ele próprio assegurar que as coisas vão acabar bem sem que um único aluno seja prejudicado, não senhor, atira com um Bugalho ainda mal acabado para a frente das televisões. 

Cambada de incompetentes, de irresponsáveis.

terça-feira, outubro 28, 2025

O que uma professora pode fazer pela vida de uma pessoa
(Professora ou professor, bem entendido)
Veja-se o caso de Rita Blanco

 

Já aqui devo ter contado como, quando falo com algum dos meus amigos, a conversa flui com naturalidade, como se nos falássemos diariamente, sem hiatos. As pessoas com quem sentia mais afinidades quando era miúda são ainda pessoas com quem me sinto em casa. Rimos das mesmas coisas, compreendemos as reacções umas das outras. 

Estou a escrever e a lembrar-me de uma amiga que andava sempre connosco. Éramos um grupo animado de rapazes e raparigas e ela talvez fosse a mais calada, parecia que pouco tinha a dizer. Era muito doce mas nunca lhe conheci uma iniciativa, uma sugestão de irmos aqui ou ali ou fazermos isto ou aquilo. Não sei se era timidez ou se era apenas assim, observadora passiva das maluquices que os outros diziam ou faziam.

Ao ouvir a Rita Blanco -- na conversa que abaixo partilho, com a Sofia Cerveira -- dizer que, quando era miúda era tímida, retímida, sempre calada, sempre a sofrer por achar que não encaixava ali, pensei nessa minha amiga. Será que sofria? Aqui há dias ela disse: 'Quando leio o que vocês escrevem [no grupo de whatsapp] fico com vontade de dizer alguma coisa. Mas não sei o quê... Depois passa a oportunidade... Por isso nunca digo nada'. Ou seja, continua igual. Fiquei com pena pois percebi que ela gostaria de participar, simplesmente continua a não ser capaz. 

Há quem seja espontaneamente extrovertido. Eu acho que sou assim. Não que seja muito palradora ou que seja 'a alegria da festa', não sou, mas exprimo facilmente a minha opinião, digo, sem pensar muito, o que penso. Mas há quem não seja assim. E pode não ser fácil para os próprios, se calhar gostariam de se exprimir com a mesma facilidade que observam nos outros.

Rita Blanco era assim. Diz que não se achava boa em nada. Mas, conta ela,  houve uma professora que a viu. E, diz ela, o facto dessa professora a 'ver' mudou a sua vida. 

Se hoje Rita Blanco é das nossas mais conceituadas atrizes, mulher inteira, mulher de opiniões, de causas, mulher que enche qualquer plateau, a essa professora, que viu com olhos de ver aquela menina que se escondia atrás do cabelo e que sofria por não se achar boa em nada nem capaz de nada, o deve.

Por vezes esquecemo-nos da importância que alguns professores têm em nós. Na minha vida não consigo identificar nenhum professor que tivesse sido decisivo na minha vida mas identifico muitos que foram marcantes. Por exemplo, recordo a maravilhosa Joana Meira que, creio que numa aula circum-escolar, quando estava bom tempo nos levava para o terreno ao lado do campo de futebol e, sentados na terra, líamos a poesia de Sebastião da Gama e livros como Platero e Eu ou o Velho e o Mar que transportavam a ternura, a leveza e a sabedoria de mundos longínquos através do poder das palavras. Nessa altura já eu lia muito, mas lia com sofreguidão, sem aquela pausa e silêncio que é necessário para que as ideias do escritor se instalem nas nossas cabeças. Querida Professora Joana Meira. A sua marca em mim perdura.

Quanto à minha condição de professora, creio que já o contei aqui mas vou voltar a contar. Uma vez, estava eu a andar perto da minha casa, cruzei-me com uma elegante mulher. Era inverno. Tinha um casaco comprido justo, encarnado, muito fashion, uns saltos altos, uma pasta na mão. Parou, cumprimentou-me pelo meu nome precedido por Stôra e identificou-se. Devo ter ficado com a boca aberta. Recuei uns anos. Tinha sido uma aluna muito problemática, com problemas de droga. Faltava, quase dormia nas aulas, dizia e fazia disparates. Fiz com ela o que fiz com outros. Quando não aparecia, pedia a algum dos colegas que a fossem buscar. Por vezes mal conseguia andar, dizia que não ia estar ali a fazer nada, que era escusado. Eu dizia-lhe: 'Não vou desistir de ti. Tenta manter-te acordada. Tenta prestar atenção'. Mas ela deixava cair a cabeça. Os outros riam-se. Eu dizia: 'Se eu vir alguém a rir dela, vai para a rua, com falta'. Era uma luta. Muitas vezes temi desistir. Uma vez, estando ela numa lástima, mandei-a ir ao quadro. Não queria. Dizia que não conseguia, que podia cair, que não sabia nada. Mantive: 'Vem ao quadro. E ai de quem se ria.' Os outros ficaram nervosos, temiam que ela caísse. Ajudei-a. Disse que se apoiasse no quadro. Fiz-lhe perguntas. Mal conseguia ouvir o que eu dizia, mal conseguia falar. Na prática, respondi por ela. Mandei-a fazer alguns exercícios muito simples. Esforçou-se. Fez uma parte, completei-os eu. Quando a mandei sentar, vi que ela estava contente, tinha superado aquela provação, tinha conseguido não cair, tinha conseguido que ninguém se risse.

Ao longo do ano fui-lhe pedindo encarecidamente que tentasse ter positivas. Com muita dificuldade, consegui que se aguentasse. À tangente, com muito boa vontade. Pedi aos colegas para a ajudarem. Nas reuniões de turma, bati-me para que ela não chumbasse. Se ficasse para trás, perderia os seus amigos, seria pior. Nessa altura eu devia ter apenas mais quatro anos que ela.

Nesse dia, muitos anos depois, em que nos encontrámos, disse-me: 'Sabe, Stôra? Sou economista. O que sou, a si o devo. Nunca me vou esquecer do que fez por mim'. Estava muito emocionada. E eu também fiquei. E ainda me emociono quando me lembro dela, adolescente magra, despenteada, desengonçada, cambaleante, e, depois, uma mulher bonita, bem vestida, bem arranjada, segura de si.

A vida da gente guarda segredos, dificuldades, momentos de viragem. 

Ninguém deve desistir de ninguém.

A entrevista da Rita Blanco é, toda ela, bastante interessante. Ela e a Sofia Cerveira parecem duas amigas à conversa. E nós, ouvindo-as, parece que estamos a juntar-nos à conversa. Mérito da entrevistada e da empática entrevistadora, certamente. 

Rita Blanco: É mais fácil viver a vida de outras pessoas
My Red Carpet… com Sofia Cerveira

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Desejo-vos um belo dia

quinta-feira, dezembro 12, 2024

Alô, alô Senhores Professores, Senhores Explicadores e Senhores Encarregados de Educação!
E que tal começarem já a preparar-se para quando o Khanmigo chegar a Portugal?
Read my lips: não vai demorar e vai vir para ficar.

 

Ainda está em teste e a ser avaliada a sua utilização (em 266 escolas nos Estados Unidos). E o 'tutor', que foi designado por Khanmigo, ainda se engana de vez em quando. Ou seja, não se pode já dizer que isto já está no 'terreno'. Não, está em fase piloto. Mas há uma equipa de técnicos e de professores a monitorizarem todas as situações e a incorporarem no algoritmo as devidas alterações.

Contudo, face ao que se vê, dá para perceber que no prazo de uns dois anos, se calhar até antes disso, se terá atingido o estado da arte que permitirá a sua extensão a todas as escolas e, provavelmente, a todo o mundo (pois acredito que já esteja a ser traduzido para ´muitas línguas).

Não será capaz de substituir apenas (muitos) explicadores: irá alterar radicalmente a forma de ensino. Não digo que substitua os professores mas, certamente, muitos professores não conseguirão acompanhar a pedalada do Khanmigo. Quanto aos encarregados de educação, terá também que ser um salto gigante.

Tal como, quando eu estudei, não havia internet e tudo o que sabíamos tinha que ser obtido nas aulas ou através dos livros (ou sebentas) que tínhamos à nossa disposição e agora já há internet para pesquisar tudo e mais alguma coisa e até parece impossível termos conseguido viver sem motores de busca, GPS, e etc, daqui por algum tempo parecerá impossível ter-se conseguido avançar escorreitamente no ensino sem ferramentas como o Khanmigo.

Apesar de ser de alguma duração (cerca de 13 minutos), sugiro que dispensem atenção pois é um avanço fantástico a que está a assistir-se na forma como se ensina e se aprende.

Meet Khanmigo: The student tutor AI being tested in school districts | 60 Minutes

Khanmigo, an AI-powered online tutor, could change the way teachers work and students learn. Created by Khan Academy, the new technology is being piloted in 266 school districts.


sábado, junho 17, 2023

O dia da última audição da CPI da TAP
(incluindo uma referência ao Ranking das Escolas)

[Mais uma vez, a palavra ao meu marido]

 

Parece que a coisa não correu muito bem aos partidos que mais entusiasmados estavam com esta Comissão de Inquérito. 

O PSD, o BE, a IL e o Chega apostaram forte em mais uma tentativa de desacreditar o Governo e se possível, com  a ajuda do Sr. Presidente Marcelo, demitir o governo ou dissolver o Parlamento. 

Afinal, e até os comentadores o referem, o Pedro Nuno Santos saiu em ombros e o Fernando Medina pela porta grande. Não fossem as diatribes do ex-assessor e as notícias sobre a CPI da TAP teriam sido tão sensaboronas que dificilmente os órgãos de comunicação social poderiam continuar a matraquear o assunto.

Por outro lado, o espectáculo que os deputados deram foi lamentável.  Os deputados do PSD, da IL, do BE e do Chega fizeram perguntas apenas para tentarem encontrar contradições nos depoimentos e sem qualquer intenção de analisarem a gestão da TAP (que, afinal, era o objectivo da Comissão). Perderam uma excelente oportunidade para se manterem longe dos holofotes e não revelarem a falta de preparação e a arrogância que demonstram. Episódios como os do telemóvel, o horário dos telefonemas, a insistência com que pretendem saber factos acessórios e que deviam ser reservados é trágico cómica. A forma inquisitorial como o Pedro Filipe Soares interrogou o Fernando Medina revela que segue de perto a chefe Mariana Mortágua. Antipatia e arrogância não lhe faltaram.

Ainda por cima, saiu uma sondagem que revela que afinal a posição do PS não sofreu com esta CPI o que deverá ter causado uma enorme azia ao Sr. Presidente que, segundo dizem, é viciado em sondagens. Também hoje o Banco de Portugal reviu em alta as perspectivas de crescimento do País. Mais uma chatice para os comentadores, para os pseudo jornalistas e para a oposição, onde incluo o Sr. Presidente.

Os comentários do José Gomes Ferreira, do Anselmo Crespo, do Bugalho,... desde vociferarem a chamarem mentirosos aos ministros revelaram bem a decepção que tiveram. Também achei "curiosa" e de um enorme mau perder a justificação dada hoje de manhã na SIC por uma jornalista julgo que responsável pela informação da SIC ou do Expresso, cuja  cara praticamente não se vê devido à abundância capilar, sobre as razões pelas quais o PSD não "arranca" e o PS se mantem à frente. Tem mesmo mau perder.

A FENPROF também ficou chateadíssima com o ranking das escolas. Não sei se o ranking é feito com critérios correctos ou não. Há uma coisa que me deixa de pé atrás e que é ter visto uma notícia em que 40% das notas no ensino privado são dezanoves e vintes. Alguma coisa  está mal se de facto as notas forem estas, estas percentagens não encaixam no que é razoável. No entanto, vi uma reportagem sobre  a primeira escola pública do ranking e tanto os alunos como a professora disseram que o acompanhamento pelos professores tinha sido determinante para a evolução da escola. Sugiro aos senhores professores que exigem "respeito" sigam estes exemplo e ao Mário Nogueira e ao André que se voluntariem para apoiarem os alunos que não tiveram aulas devido à forma como conduziram a luta dos professores, mesmo que no caso do André esse apoio esteja relacionada apenas com os lagartos da Amazónia.

Foi um dia lixado para o Sr. Presidente, para  a oposição e para os professores do "respeito".

segunda-feira, junho 12, 2023

Será que o objectivo dos Professores é dar cabo do Ensino Público?

[Uma vez mais, a palavra ao meu marido]

 

Seguramente a maioria dos professores não apoia nem se revê na forma desrespeitosa como têm decorrido as respectivas manifestações. 

A forma pouco civilizada como os professores presentes no Peso da Régua falaram com o Primeiro Ministro e os cartazes que empunharam revela má educação e falta de civismo. 

No entanto, parece não ser apenas aquela minoria que lá se manifestou. De facto, parece haver bastantes mais professores que agem de forma desrespeitosa e que dão um péssimo exemplo aos alunos.

Gostava de saber se os professores que empunharam ontem e em outras manifestações aqueles cartazes bem como os demais professores que os apoiam têm lata para dizer aos alunos para se portarem bem e respeitarem os outros. Não é possível que tenham dois pesos e duas medidas pelo que seguramente não têm condições para educar os seus jovens alunos.

Só pode ser respeitado quem respeita os outros e manifestamente não é o caso dos professores que se manifestam desta forma. 

Mas também não podem ser respeitados os professores (e os exemplos que vou referir são concretos) que: 
    • fomentam o copianço nos testes de forma que alunos que não percebem nada da matéria têm notas próximas de 100%, 
    • estão de baixa médica vários meses e que, quando é para acompanhar viagens de finalistas a outros países, milagrosamente reaparecem, ou
    • quando não controlam o comportamento dos alunos, os forçam a fazer declarações em que estes se autoculpabilizam.

Para mim também é revelador da falta de maturidade cívica dos professores terem como dirigente do STOP um tal André que fala aos gritos, de forma demagógica e que, para além de matraquear três ou quatro frases feitas, não consegue transmitir uma única ideia com pés e cabeça*. 

[* Será o resultado do doutoramento que fez (provavelmente a expensas dos contribuintes) na Amazónia?] 

Admito que as reinvindicações dos professores podem ser justas mas, sendo assim, isto é, a serem justas, então, todos os funcionários públicos e os todos os trabalhadores do sector privado também teriam que ser ressarcidos dos congelamentos nas carreiras, dos cortes nos salários, das sobretaxas... que ocorreram no tempo da troika -- o que manifestamente não é possível. 

Os professores não são exceção e devem ter o mesmo tratamento que todos os outros.

(A propósito, onde estava o  Sr. Mário Nogueira e os senhores professores quando ocorreram os cortes no tempo da troika? Não os vi em manifestações. Calaram-se, não foi?)

Com tudo o que têm feito, os professores estão, de facto, a dar cabo do Ensino Público, estão a criar mau estar entre os pais dos alunos e estão a desmotivar muitos alunos que, naturalmente, com este exemplo não pensam que estudar seja uma prioridade.

Não me lembro de ver o Mário Nogueira ou o STOP falarem em problemas no Ensino Privado. Corre tudo bem entre patrões e empregados nesse setor?

Senhores Professores, raramente --  quer no setor público quer no privado -- se chega ao topo da carreira. Qual a razão para todos os senhores professores quererem chegar  a "administradores"?  

Não parece que os senhores Professores sejam das classes que mais têm a reivindicar, pois: 

  • ganham um salário que não compara mal com a media europeia, 
  • trabalham menos de metade das horas que normalmente são feitas pelos outros trabalhadores, 
  • têm tempo para dar explicações, bem pagas, que provavelmente não declaram (não seria interessante que este aspecto, ie, o aspecto fiscal associado às 'explicações', fosse investigado?), 

Lutem de forma civilizada pelos V. direitos tendo em conta a realidade do País, defendam a Escola Pública e garantam um ensino e uma educação de qualidade aos V. alunos. 

Se o fizerem serão respeitados. 

Em contrapartida, a continuarem a agir como têm feito até aqui e a defender causas egoístas e desfasadas da realidade nacional, arriscam-se a acabar como uma classe desprezada pelo resto da população.


Nota Final: Continuo, entretanto, a aguardar que o Senhor Presidente da República, sempre tão lesto a comentar qualquer evento, nacional ou internacional, venha demarcar-se veemente da forma de actuar dos Professores que se manifestaram em Peso da Régua e da forma de actuar nas manifestações e greves em que, durante este ano lectivo, fizeram de tudo um pouco para degradar a qualidade do Ensino Público.

domingo, fevereiro 12, 2023

Há coisas para as quais custa encontrar explicação


Não estava em nossa casa. Estávamos a jantar com uns dos meninos e, por isso, não consegui ouvir bem as notícias. Os pais, antes de irem para o concerto, tinham encomendado sushi e pizzas e estávamos os cinco acampados na sala de cima onde antes um dos meninos tinha estado a ver desenhos animados. O irmão tinha estado a jogar futebol online com um dos primos e a irmã tinha chegado havia pouco a casa, trazida pela mãe de uma amiga. Em vez de irmos jantar lá em baixo, resolvemos ficar ali, estava mais quentinho.

Na televisão, quase sem som, víamos as ruas com a baderna do costume. Inclino-me para que grande parte daquele ajuntamento não seja constituído por professores. Acredito que sejam sobretudo auxiliares (e não sei se é esta a designação do que antes se designava por 'contínuo'), polícias (pareceu-me ver que os polícias se tinham posto à boleia dos professores), sindicalistas profissionais, órfãos da geringonça que por aí andam a tentar descobrir qual o seu rumo, descontentes da vida em geral, adeptos do Chega (li, sem surpresa, que o Chega se tinha juntado à trupe) e mais uma malta que parece ter vindo do Chapitô, tanta a animação de rua. Olho as imagens e sobretudo vejo gente com tudo menos aquela atitude de respeitabilidade que ainda teimo em querer associar aos professores. Estes mais parecem bandos de malta indiferenciada a antecipar as paradas de Carnaval. 

Do que parece, todos querem 'respeito' e a reparação de todos os males do mundo. Qualquer um@ que seja de tipo maria vai com as outras se sente ali representad@. Calhou o investigador da Amazónia e demais seguidores, com o Nogueira a reboque, dizerem que querem 'respeito'. Mas também poderiam baldar-se a dar aulas e andar no maior forrobodó pelas ruas em nome da 'boa educação' ou da 'verdade'. Quiçá até da 'elegância'. Conceitos que dão para tudo e para mais um par de botas. Qualquer um pode sempre achar que ainda há falta de boa educação ou de verdade ou de elegância e, vai daí, convocar greves e manifestações.

Há-de sempre haver alguém mais frouxo das ideias que ache que qualquer balela é uma bela causa. 

Não sei é porque é que não há professores decentes, respeitáveis, preocupados com o ensino e com os alunos que façam ouvir a sua voz e se demarquem publicamente do vexame a que o Stop e Fenprofs os estão a sujeitar. Deve haver uma explicação mas não sei qual é.

Ontem soube-se de uma outra anedota, ainda que de um outro cariz: uma garota cujo nome não retive -- mas que é mais uma garota a assessorar uma ministra -- sugeriu que se acampasse na Ponte para defender o direito à habitação. Não sei a que é que ela se referia mas só pode ser disparate e disparate do grosso. Seria bom que o Costa desse um murro na mesa e proibisse gaiatagem desta -- impreparada, sem experiência de vida, incapazes de medirem o que dizem --, de fazer parte dos Ministérios, Secretarias de Estado. Miudagem desta deve estar a fazer estágios, a aprender. Caso contrário, o PS está a dar o flanco, estão a ser dados argumentos aos populistas. 

[Sim, António Costa, sim, tem toda a razão, de cada vez que deixa que coloquem gente ainda de fraldas, impreparada, no Executivo está a pôr-se a jeito. Não se admire se ouvir os Pestanas, os Cortezes, os Nogueiras e os Venturas desta vida a dizerem que se há dinheiro para distribuir por aí porque não há-de haver para quem eles querem.]

Não sei como é que, depois dos casos que envergonharam o Governo, Costa ainda não pôs um travão nisto. 

Para tudo é capaz de haver explicação mas, por vezes, custa a descobri-la. 

É como aquele homem que foi visto a conduzir com um sapato na boca. Porquê....? Porquê, senhores...?

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Desejo-vos um bom dia de domingo

Saúde. Paciência. Paz.

sábado, fevereiro 11, 2023

Quando a praxis do Correio da Manhã e o modus faciendi do Chega parecem ocupar na íntegra a mente de André Pestana
e quando o professor, poeta e crítico literário António Carlos Cortez parece revelar que tem tanta tralha confusa na cabeça que não lhe sobra espaço para os neurónios
só me ocorre perguntar porque é que a SIC dá palco a gente desta...

 

O Expresso da Meia-Noite está a revelar que, se estes dois que aqui estão representam a classe profissional, a docência em Portugal está muiiiito mal entregue.

Misturam alhos com bugalhos, misturam banalidades com generalidades, atiram 'bocas', dizem coisas como quem anda ao pontapé com batatas, disparam tiros para o ar em todas as direcções, bagunçam temas conjunturais com estruturais, querem privilégios, justificam-se usando a lógica dos invejosos, dizendo que se há dinheiro para uns porque não há para eles, não têm noção de prioridades, desconhecem o que é o rigor. Um saco cheio de nada. De nada. Zero. Estou chocada com a boçalidade a que estou a assistir. É o populismo à solta. No meio da conversa aparecem offshores, banqueiros, tudo e mais alguma coisa -- uma demagogia vergonhosa.

Já muitas vezes o sugeri e volto a fazê-lo (e nem é em especial por estas duas aves que aqui estão a degradar a imagem dos professores em Portugal): não deveria ser possível que gente desclassificada, inculta, mal formada, demagoga, gente que se está a marimbar para o ensino e para os alunos, exercesse a docência. A docência só deveria ser exercida por gente escorreita, com nobreza de carácter, com um mínimo de cultura, com um mínimo de inteligência e de honestidade intelectual.

Isto a que assisto mina a confiança dos portugueses na democracia. É um vale tudo que inevitavelmente abre a porta à direita radical, ao populismo mais desbragada.

Ao dar tanto palco a gentinha que quer é armar baderna, a comunicação social está a atirar achas para a fogueira anti-democrática. Porque é que a SIC não convida professores de verdade e não profissionais da bagunça, porque é que não dá voz a professores decentes, preocupados com o ensino e com os alunos, professores com verdadeira vocação docente? Porque dá palco à verdadeira aberração que é esta dupla Pestana & Cortez?

quarta-feira, fevereiro 08, 2023

Continua a pouca vergonha dos professores a sacrificarem os alunos e a reivindicarem privilégios absurdos
- e eu não sei de que é que Marcelo Rebelo de Sousa está à espera

 

O tal que era do Bloco de Esquerda e que recebeu uma bolsa para investigar qualquer coisa na Amazónia, agora, entediado com a maçada de dar aulas, anda por aí a dar cabo do ensino dos mais novos (creio que os professores universitários não fazem parte deste esquadrão), a armar um inflamado e insano banzé e a animar as ruas e as televisões. 

Mário Nogueira, o dinossauro -- que, segundo consta, há muitos anos que também não dá aulas --, tenta não ficar atrás dos populistas e, claro, põe mais achas na fogueira. 

Sentido de responsabilidade ou saberem honrar a nobreza da essência da sua profissão está quieto. É coisa que não se vislumbra.

E, portanto, vêem-se os noticiários e lá estão os professores em festa, na rua, em vez de estarem a dar aulas. Tocam tambor, cantam, ecoam uma espécie de cantares revolucionários completamente deslocados. Na prática, tudo se resume a fazerem muito barulho. Mas, quando lhes põem um microfone à frente da boca, a conversa é sempre a mesma: estão fartos de fazer quilómetros para dar aulas. 

Não passa daí. A inteligência ou a imaginação não lhes dá para muito mais. Basicamente a conversa é sempre a mesma: queriam trabalhar perto de casa.

O que eu pasmo (e já antes o referi) é como é que nenhum repórter lhes pergunta:

1 - O que propõem em concreto? Que ponham na rua os outros professores (os que trabalham nas escolas para onde querem ir)? Ou que arranjem lugares fictícios para eles (os revolucionários baderneiros)?

e

2 -- Se não há vagas nas escolas onde gostavam de trabalhar e não querem ir trabalhar mais longe, porque não mudam de entidade patronal ou de profissão, que é o que fazem os outros trabalhadores?

Ninguém lhes pergunta. E, no entanto, são as perguntas que se impõem. Os alunos têm que estar a ser prejudicados porque eles não são capazes de se fazer à vida?

Não há pachorra. 

Há ainda o argumento do tempo de serviço, durante o período em que, creio, o Láparo congelou a contagem. Pelos vistos no ensino, a antiguidade é um posto ou rende dinheiro. Já trabalhei em empresas públicas, em empresas de gestão pública e, sobretudo, em empresas privadas. Tenho ideia que na empresa pública, a primeira em que trabalhei depois de largar a docência, havia diuturnidades mas que depois, com o acordo de empresa, se acabou com isso. Não faz sentido existir acréscimo de ordenado em função dos anos de trabalho.

O outro argumento também muito referido é ainda mais absurdo, diria mesmo patético, a cereja em cima do bolo da parvoíce: querem ser respeitados.

Mas como é que isso se mede? Qual o parâmetro que usam para saberem se o respeito que a população sente por eles está ou não au point ou se ainda têm que armar mais confusão? Ou o respeito não se mede? É subjectivo? Mas não ocorre àquelas inteligências que o que é pouco para uns, é muito para outros ou está na conta para alguns? Fazem greve e dão espectáculo na rua porque querem mais respeito? E acharão que é assim que o conquistam? Não lhes ocorre que a gente ouve isto e não apenas acha que é um argumento que revela indigência intelectual como fica a pensar que coitados dos alunos se tiverem professores destes?

Perante isto, volto a dizer: penso que, face a esta maluquice que aqui está armada e que não se vê jeito de acabar, cabe a Marcelo dar um stop nisto, não apenas:

a) apelar publicamente, com dureza, oficialmente (ie, não en passant, não no meio de outros assuntos), aos professores para que metam a viola no saco e se dêem ao respeito;

b) reunir com António Costa para avançar para medidas musculadas por forma a impedir o sacrifício do ano escolar e de efeitos nefastos nos hábitos de estudo dos alunos; doa a quem doer;

c) reunir não sei com quem (Ministério Público?) para que sejam accionados meios para se averiguar se não haverá por aí forças ocultas a manobrar nos bastidores por forma a ferir a democracia e um dos seus pilares, o ensino público. 

Alguma coisa tem que ser feita. Já. Os alunos (e as famílias dos alunos) não podem continuar a ser sacrificados às mãos destes inconscientes e egoístas professores que tudo fazem para que não os respeitemos.

sexta-feira, fevereiro 03, 2023

Um amendoim verde entalado no cu do padre

 

Remeto-me à dimensão caseira: greve de professores, tamanho dos palcos e da pacóvia mania das grandezas -- tudo na mesma. O tempo passa, o ano lectivo avança e os alunos vão tendo aulas quando têm porque, no resto do tempo, voltam para casa ou andam aos caídos ou no forró durante os furos; e, não tarda, está a chegar o Papa e mais a multidão de pecadores que aí vem danada para se confessar e curtir e a malta ainda por aí anda a cacarejar acerca dos projectos, dos orçamentos, sobre quem é o  coordenador e sobre toda a barafunda que se armou. Até a múmia parece que continua na mesma, a aparecer quando a gente já nem se lembra dela. Deve vir dar mais uma lição daquelas dela, daquelas com que ninguém aprende o que quer que seja e em que toda a gente fica indisposta. Toda a gente menos a sua senhora, dona pespenica excelentíssima, que essa, habituada ao fel que escorre da boca do amado esposo, acha sempre tudo o máximo e, na volta, até parirá inspirado poema. Ámen.

Portanto, não havendo novidades a festejar, depois de atirar papelinhos dourados para cima do fantástico Tom Ball, agora dou a palavra a quem quase morreu duas vezes sem que alguém tivesse dado por isso. Se fosse essa a hora, teria ido mesmo, uma afogado à beira de água entalado entre um caiaque e uma lata de cerveja e outra asfixiado com um amendoim verde entalado no cu do padre*. Entalanços como sina. O tema, tendo o seu quê de religioso, aconselharia a alguma fé mas, ainda assim, acho que é mais de ver e ouvir para crer.

Augusto Madeira quase morreu duas vezes e ninguém viu! 

| Que Historia É Essa, Porchat?

* Melhor escrevendo:  'Cu do Padre' -- e agora não sei se o cu do padre fica melhor com ou sem aspas...

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E queiram, por favor, descer mais um pouco, ok?

quarta-feira, fevereiro 01, 2023

Alô, alô Senhores Professores!
Se não estão contentes porque não se mudam?
E o Presidente Marcelo não é capaz de mostrar um peremptório STOP às brincadeiras do André Pestana & Cia...?

 

Acabei de ouvir uma exaltada professora a queixar-se que vive em Portalegre e trabalha em Elvas (ou vice-versa, não fixei), tendo que fazer diariamente salvo erro uns 100 km. Mas se não tem vaga ao pé de casa e só arranja vaga ali o que é que ela quer que se faça? Que inventem vagas?

Se aquele local de trabalho não é compatível com a vida que quer, porque não tenta arranjar outro trabalho ao pé de casa?

Durante anos fiz cerca de 150 km por dia. A empresa em que eu trabalhava mudou-se para ali --  e o que é que eu podia fazer? Aliás, podia. Podia despedir-me. Mas optei por não fazê-lo. Agora não me ocorreu fazer greve ou vir para a rua maçar os outros.

Na empresa a que tenho estado ligada nos últimos tempos é normal haver necessidades de pessoal que não se conseguem preencher com mão de obra local. Por isso, ou vai para lá alguém já da empresa que vai e vem todos os dias (há casos de quem faça 300 km por dia) ou se contrata alguém que para lá queira ir, mesmo que morando longe. Isto é normal, banal. Claro que volta e meia temos demissões de pessoas que não aguentam trabalhar muito longe de casa e resolvem tentar outro rumo na sua vida. Compreensível. 

Mas qual a alternativa: deixar que as pessoas que vivem mais longe dos lugares mais apetecíveis fiquem sem serviços, ao abandono? No caso dos professores: deixar os alunos que vivem em lugares mais remotos sem escola?

Agora estes professores que aqui vejo na maior baderna parece que vivem noutro planeta, esquecidos que problemas maiores ou iguais aos deles há por todo o lado, em todas as profissões. 

Querem ser professores no ensino público,

(mas, se não estão satisfeitos no público, porque não tentam dar aulas em colégios privados? será porque não há vagas...? Ah pois, acontece...) 

e, ainda por cima, querem todos chegar ao topo da carreira. Querem tudo, o melhor dos mundos. E ainda estamos com sorte por não quererem ser todos presidentes da República com local de trabalho ao fim da rua.

Ouço-os e só penso que ainda os havemos de ver a protestar nas ruas, negando aos alunos o direito a terem aulas, só porque querem que o Ministério da Educação lhes lave o rabo com água de malvas.

Não há ninguém que ponha juízo na cabeça destas pessoas? 

O Presidente Marcelo, que tanto fala a propósito de tudo e de nada, não é capaz de fazer uma intervenção na comunicação social, em prime time, mostrando como estas pessoas estão a degradar o ano escolar e a comprometer os hábitos de estudo dos alunos e, ainda por cima, a degradar -- se calhar irreversivelmente (pelo menos nos próximos anos) -- a imagem dos professores?

Acho que devia.

Vejo isto a progredir, sem ninguém dar um 'basta!', e fico seriamente preocupada. 

Vejo o efeito num dos meus netos. Está sempre na perspectiva de não haver aulas. Greve, greve, greve, escola fechada, falta um professor, falta outro, greve, greve. A sério: que impressão que isto me faz. Não há pachorra! 

Já não bastava o eterno Mário Nogueira, sempre com ameaças na boca, sempre a mostrar que a última prioridade dos professores são os alunos. Agora aparece este André Pestana que é um verdadeiro populista. Li que, há algum tempo, ganhou uma bolsa de doutoramento para ir fazer um trabalho de investigação na Amazónia. Imagine-se. Parece anedota. Não sei como funcionam estas bolsas mas, na volta, parte dela foi paga com trabalho meu cujo remuneração, em vez de ir para mim, foi directamente para impostos, para pagar disparates destes. 

E, já agora, uma pergunta: enquanto viveu à conta a investigar na Amazónia, o líder do STOP veio para a rua agradecer a rica vida que o Ministério da Educação lhe proporcionou? Ou esqueceu-se disso? 

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Um dia bom

Saúde. Juízo. Paz.

domingo, janeiro 15, 2023

O questionário UJM sobre esta greve dos professores
-- mais 13 das 36 perguntas e respectivas respostas

 

1 - Agora que és idosa e já trabalhaste décadas, quantas horas trabalhas tu por semana?

No mínimo 37,5h

2 - Mas nos empregos em geral, isto é, nos empregos que não o da docência, as pessoas não têm bonificação horária?

Era bom, era. Mas não.

3 - Os que têm categorias profissionais mais elevadas não trabalham menos que os outros?!

Pelo contrário. Não apenas pela responsabilidade mas também pelo exemplo, são geralmente os que mais horas trabalham.

4 - Quantos dias de férias tens tu por ano?

22 dias

5 - Mas espera lá aí. Os 22 dias são ao todo ou só no verão?

Ao todo. Ao todinho.

6 - E gozas sempre os 22 dias?

Não. Há anos em que não consigo. Devia. Mas nem sempre se consegue o que se quer e o que deve ser.

7 - Nas empresas em que tens trabalhado, toda a gente chega ao topo da carreira?

Não, nem pensar. Apenas uma minoria atinge o topo da carreira. 

(Aliás isso de 'carreira' é um conceito abstracto em que praticamente ninguém fala). 

8 - Tem razão o teu colega cuja mulher é professora ao dizer que não há melhor vida que a dela, grande parte do tempo na esplanada, na conversa com as colegas, a dizerem mal do Ministério da Educação?

Acho que sim. Por aquilo que ele conta, todos os que o ouvem ficam com inveja da rica vida da mulher. 

9 - Tinha razão a tua mãe, professora, ao achar que fizeste mal em deixar a docência por achar que não há melhor vida do que a dos professores?

Nesse sentido, sim. A minha vida teria sido bem mais flauteada se me tivesse mantido professora. 

10 - Voltando ao tema dos dinheiros: nas empresas há progressão automática?

Não, que ideia. 

11 - Os teus netos andam no público ou no privado?

Dois no público, três no privado.

12 - E que tal?

No privado têm sempre aulas e, se algum professor falta, há sempre algum outro que preenche o horário. Tudo a correr bem.

Numa das escolas do ensino público enfrentam sistemáticas faltas dos professores, baixas de professores, greves dos professores. Um desastre. Um problema a todos os níveis, para os miúdos e para os pais dos miúdos. Muito complicado..

Noutra das escolas do público, a coisa tem estado a correr menos mal, dá ideia que há muito pouca adesão a estas greves e que os professores faltam menos.

13 - Numa escala de 1 a 10 que simpatia tu e as pessoas que conheces sentem por esta greve dos professores?

0. Zero simpatia. Bola. É uma greve selvagem. Não faz sentido. O que dizem choca a maior parte dos trabalhadores. 
 
E a atitude e a conversa deles em grande parte envergonha os professores a sério. Nem se lhes ouve uma palavra sobre os alunos nem um pingo de consideração pelos danos que a sua conduta está a causar no aproveitamento escolar dos miúdos. Lamentável.

Pergunta extra: Não tem medo de ser considerada reaccionária o escrever isto, UJM?

Nenhum. Sei que não sou. E penso pela minha cabeça. 

Não que não haja temas relevantes para serem debatidos e melhorados no ensino. Há e certamente muitos. Mas não assim. Ainda por cima, assim é terreno fértil para populistas como os Andrés Venturas ou as Catarinas Martins desta vida.

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A alpinista sem rede

in “Humans Doing Human Things”

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Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Ânimo. Paz.

quinta-feira, agosto 29, 2019

A professora Carmo Miranda Machado na TVI e o valente coice que o Jumento lhe envia


in TVI
Com família em casa, incluindo crianças, obviamente o tempo dedicado à televisão é mínimo. Ontem à noite, de raspão, passou-se por um canal onde uma professora mal encarada e manifestamente maldisposta questionava António Costa, fazendo-lhe perguntas fúteis, como se o mundo, mormente o Primeiro Ministro do Governo de Portugal, tivessem que cuidar de lhe mudar a disposição de intragável para minimamente aceitável. 

Todos os que ali estavam em minha casa, com exceção dos miúdos, trabalham. Nenhum, por acaso, trabalha para o Estado ou em empresas públicas. Todos nós, em dado momento das nossas vidas profissionais, precisámos (e, certamente, precisaremos) de nos auto-motivar para ir trabalhar. E, quando estamos de férias, ainda mais temos que apelar à nossa auto-motivação para sair do regime livre do dolce far niente para ingressar na disciplina de dias com horários, obrigações e contrariedades. Curiosamente, nunca a nenhum de nós ocorreu solicitar aos nossos patrões que nos forneçam argumentos para conseguirmos ir trabalhar e, claro, só se fossemos burros de todo, quereríamos que o Primeiro-Ministro se preocupasse com tal coisa.

Claro que nem dois minutos conseguimos suportar a má catadura da senhora questionando António Costa com argumentos não apenas fúteis mas, até, pueris.
Volto a dizer o que neste blog já disse muitas vezes: não haverá classe profissional que não tenha razões de queixa seja do que for. No público ou no privado, a lidar com crianças ou com velhos, com saudáveis ou com doentes, com inssurrectos ou acamados, com gente mal educada, seja das barracas, seja da Linha, com vagabundos ou com meninos do coro (não é piada para si, Francisco...), com incompetentes ou convencidos, não haverá gente cem por cento feliz da vida no trabalho que tem. Ou as condições de trabalho não serão as melhores, ou o que ganham será insuficiente, os os colegas uns estafermos, ou o chefe um anormal, ou o local de trabalho distante de casa ou mal amanhado, etc. Tudo certo. Portanto, quem se queixa, seja do que for, terá sempre a sua razão. Mas daí a cada um se achar o centro do mundo, com direito a que toda a gente se preocupe consigo e a ter direitos especiais, pretendendo, inclusivamente, que o Primeiro-Ministro ajude a que a sua beleza não se canse tanto, é coisa que não lembra a quem tenha dois dedos de testa.
Hoje, ao espreitar os blogs aqui ao lado, foi com curiosidade que li o post do Jumento, perfeito na sua acutilância, e onde mostra a dita senhora professora, Carmo Miranda Machado de seu nome (se bem percebi do que vi no site da TVI), toda contente da vida, acocorada ao lado de uma vietnamita, em pose gaiteira para se exibir ao mundo em toda a sua auto-motivação.

O texto do Jumento chama-se ESTRATÉGIAS AUTOMOTIVACIONAIS PARA IR TRABALHAR e recomendo que o vejam.

Caso tenham curiosidade googlem também o nome da senhora e escolham a opção de ver as imagens para verem as poses esparramadas, cinéfilas ou artísticas da dita senhora professora que, pelos vistos, sempre que não trabalha está toda motivada. Tem graça. Provavelmente está também tudo no facebook mas não me apetece gastar o meu precioso tempo com pessoas que gostam de mostrar ao mundo a sua futilidade e falta de cabeça (até porque facebook é coisa que não frequento).

E, de novo, assoma ao meu espírito a desagradável dúvida: estaremos mesmo, inexoravelmente, a caminhar para tempos em que a maioria das pessoas é egoísta, fútil e estúpida?

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Entretanto, recebi, através de comentário (ver abaixo), o link para mais uma extraordinária pérola da mal-encarada professora que precisa que o Primeiro-Ministro a ensine a auto-motivar-se:

https://www.facebook.com/carmo.machado/posts/10157239465558749?hc_location=ufi

Ver para crer.

sexta-feira, maio 17, 2019

Este, que dizem que é feito de lágrimas de anjos, é que eu, na altura, devia ter usado...!




Já aqui contei que, quando concluí o bacharelato, fui dar aulas no Secundário. Não sei se ainda há esse grau, de bacharelato. Tenho ideia que agora esses três primeiros anos correspondem à licenciatura. Na altura, a licenciatura obtinha-se ao fim de cinco anos lectivos. Pelo menos, no meu caso foi. Mas, então, mal acabei o bacharelato, como era habilitação própria, concorri para dar aulas e fui colocada na escola que, no concurso, tinha posto em primeiro lugar, escola que desconhecia, num lugar que também desconhecia. Tinham-me dito que era rapidíssimo lá chegar, que havia horários bons, completos, e isso para mim chegou. Percebi depois de lá estar que era uma escola especial num lugar especial. E claro que todas as escolas e lugares são especiais mas, nisso como em tudo, cada coisa é especial à sua maneira,

Tinha alunos quase da minha idade. Um deles, um gabiru simpático e divertido que assumiu a minha protecção, tinha apenas menos um ano que eu.

Nessa altura eu era, pois, uma jovem adolescente que tinha acabado de fazer vinte anos e que entrava naquilo na maior inocência e em total desconhecimento do meio. Usava cabelo muito curtinho, vestidinhos leves ou calças com tshirts justinhas, brincos por vezes arrojados. Ousava sem pruridos e sentia-me sempre bem. Embora ainda estudasse (para concluir a licenciatura), não me queixava nem um bocado da minha vida. Tinha tempo para preparar as aulas e para corrigir os testes, para estudar, para ir ao cinema e ao teatro, para namorar, para passear, para estar com amigos, para ler. Não havia telemóveis nem internet, não tinha carro, mas nada disso me deveria fazer falta pois a vida não me era pesada. Tudo fluía na maior naturalidade. Não sei como fazia mas a verdade é que não me lembro de correr ou de andar cansada.

Contudo, apesar de ser aquela menina descontraída e bem disposta, na sala de aula levava o ensino muito a sério.

Gostando muito da matéria que ensinava, queria que os alunos percebessem a sua beleza e a sua utilidade. Contudo, via-me confrontada com salas cheias de jovens insubordinados que, de forma geral, achavam que não valia a pena esforçarem-se porque, axiomaticamente, a matéria era de dificuldade estratosférica. Acresce que eu dava o 11º ano e eles, nos anos anteriores, não sei o que tinham andado a fazer pois, na maioria, não sabiam nada de nada. Bases nenhumas, conceitos elementares zero. Uma frustração. Por cada coisa que eu queria ensinar, tinha que recuar para explicar o b-a-ba.

Acresce que uns drogavam-se, outros bebiam, outros riam-se dos restantes, e quase nenhum queria saber daquilo que eu ensinava nem tinham sequer preocupação em poder ter negativa.

Mas, como disse, eu levava aquilo mesmo a sério e, portante, não vacilava. Insistia, persistia, não desistia.

A minha voz, que é o que sabe, funciona bem no registo normal ou baixo. Se tenho que gritar, coisa que detesto, dá-me tosse. E, se grito por estar zangada e me dá um ataque de tosse, de seguida dá-me um ataque de riso por perceber a inconsequência e o ridículo da minha manifestação de desagrado. E, se havia motivo para me zangar e, a seguir, me desatava a rir, está claro que o respeitinho se ia imediatamente. Às tantas estava toda a gente a rir.

Acabaram por me respeitar, alguns acabaram por gostar da matéria. E eu gostava mesmo deles, fossem ou não casos problemáticos. Mas era uma luta diária.

E, por causa disso, apanhei várias faringites. Não tinha por hábito levar uma garrafa de água para a sala. Aliás, nem sei se, na altura, era costume andar-se com garrafinhas de água -- acho que não, não me lembro. Ficava, pois, com a garganta seca, não só de explicar a matéria mas também de mandá-los estar calados, esforçar a voz e, ainda por cima, porque parte da aula era passada a escrever a giz no quadro. Aquele pó era a cereja em cima do bolo nos estragos nas minhas cordas vocais.

Na altura, também usava lentes de contacto. Antes, andei mais de um mês na clínica a ver filmes em que a única coisa que aparecia era gente de todas as idades a pôr e tirar lentes numa tentativa de que, pelo exemplo, eu aprendesse a colocá-las pois, mal aproximava o dedo, involuntariamente fechava o olho e não conseguia colocá-las. Desesperava. Toda a gente me dizia que era nas calmas e os filmes assim o evidenciavam. Mas eu não conseguia.

Mas quando, finalmente, atinei tornei-me inseparável delas. Na altura, tudo era utilizável até ao limite desde que houvesse cuidado. Todas as noites, seguindo as indicações da clínica, colocava-os num estojinho com soro (acho que era soro), hermeticamente fechado, e o estojinho dentro de uma panelinha ao lume, com água a ferver. Volta e meia esquecia-me da panelinha ao lume, a água quase se evaporava e o estojinho deformava-se mais um pouco. Mas eu não me queixava do método de esterilização, queixava-me era de ser tão cabeça no ar. Mas não era queixa sentida pois pouco tempo depois acontecia o mesmo. Por fim, o estojo já mais parecia uma coisa informe cuja tampa já não fechava bem.


Usar óculos de ver -- sem serem de sol -- é que eu não usava nem por mais uma. Quer na faculdade, em que as salas eram grandes, quer na escola em que dava aulas, não podia estar sem ver bem. A miopia era fraca mas, enquanto aluna, era o suficiente para ver tudo desfocado para o quadro ou, enquanto professora, estando eu junto a ele, para não ver bem as patifarias que os meus alunos das últimas filas preparavam ou o copianço em dia de teste.

Acontece que o pó do giz não era lesivo apenas para as cordas vocais: era péssimo também para as lentes de contacto. De cada vez que eu apagava o quadro, sentia picadas nos olhos. Aguentei firme, claro. Náo podia esfregar senão picava ainda mais, ficaria a escorrer lágrimas. Por isso, era como se nada se passasse mas só eu sei o que me custava. A estética levava sempre a melhor sobre o conforto. Suportei isso durante os anos em que dei aulas. Mas, na verdade, para mim, aquilo era coisa sem importância. Chegava a casa, tirava as lentes, lavava-as, punha-as a ferver. E, para a garganta, chupava rebuçados de mel, de eucalipto. 

O médico bem me dizia: é o pó de giz, nada a fazer.

E agora, tantos anos depois, vejo no vídeo abaixo que há estes paus de giz maravilhosos que permitem uma escrita limpinha, elegante, desempoeirada, e percebo como teria sido bom que tivesse podido usá-los naqueles anos em que fui professora. Vêm do Japão, dão pelo nome de Hagoromo e dizem deles que são feitas de lágrimas de anjo.

Um vídeo muito bonito, que me fez lembrar esses longínquos anos.

Why the World’s Best Mathematicians Are Hoarding Chalk



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Lá em cima é Angêle que, na abertura do Festival de Cannes, evoca M. Legrand e Agnes Varda

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E uma bela sexta-feira para todos.

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