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sexta-feira, maio 08, 2020

A civeta mijona, o lama salvador, o corona seminal, a mandarina assassina.
E os avantes covid-free dos Camaradas.





As notícias do mundo são um eco tardio que aqui chega apenas quando, à noite, a casa meio adormecida, por inércia, procuro o que antes procurava com avidez.

Tal como dantes aqui eu via passar os aviões ou ouvia ao longe o rugido longínquo e constante dos carros nas autoestradas e agora, perante a ausência desses sinais, quase já nem me lembro de como era, assim com as notícias.

Há pouco, ligámos a televisão e dizia 'sem sinal'. Como os meninos a tiveram ligada à Play Station, ficámos sem saber se deveríamos desligar ou ligar alguma coisa. Afinal era simples. Mas já passa bem da meia-noite, já estou no dia seguinte. Não ouvi notícias. Não sei de Trumps, Bolsonaros ou quejandos. Também não sei bem os números. Sei que ainda não chegámos aos trinta mil que era, nas minhas humildes projecções, o valor máximo a que se chegaria no fim de Abril. Mas, fora do mundo urbano e longe das notícias, tudo isso me parece um tema bom para filmes e que um dia alguém haverá de explicar. Gostava de ser capaz de adivinhar o que vai passar-se a seguir mas não sou; o que me parece é que a vida será, cada vez mais, uma roleta russa. Alguém, que não sabemos exactamente quem, permanentemente andará a jogar aos dados num tabuleiro indefinido, com peças invisíveis, sem regras. Um mundo topológico no seu melhor. Nós talvez sejamos os dados; ou nem isso.


Mas.

Abri agora o DN e vi coisas meio incompreensíveis e relativamente às quais não me apetece aprofundar.

Por exemplo.

Uma civeta pode ser a chave para fechar o puzzle. E eu nem sabia que isto era um puzzle. Mas, pelos vistos, é. A chave para o puzzle também poderia ser coisa normal. Mas não, o elo que pode estar a faltar para ligar o morcego ao homem pode ser mais sexy que o pangolim, bicho exótico até no nome. Pode não estar sequer numa experiência macaca feita em laboratório. Agora, segundo dizem as más línguas,  a chave para perceber esta cegada pode estar numa civeta. Tive que ler uns parágrafos para saber o que é uma civeta. Sou ignorante, já confessei. Vejo que também dá pelo nome de gato-de-algália. Pensava eu que algália era aquele tubinho que se enfia num certo buaquinho para tirar o chichi para um saquinho. Ele há coisas. Afinal a civeta pode ser a tal coisa que explica o que os outros que andam a levar tiros no peito andam à procura. Nem vale a pena procurar mais. O bicho mijão é que sabe.

Mas eis que leio também que o lama pode ser o caminho para a salvação. Já não é atitude plena de misericórdia nem a da pia expiação dos pecados. Não. Agora o caminho para a salvação pode fazer-se a cavalo num lama. Não vale a pena pedir milagre a santinho. Basta sacar material genético ao Winter e ver no que dá.


Também vi que o corona foi apanhado a surfar no sémen. Ao princípio ainda pensei que seria no sémen do lama ou do civeta. Mas não. No sémen humano, mesmo. Como é que o bicho lá foi parar? A coisa não é inalada? Será que há ligação directa entre o pulmão e o testículo? É que, a ser tudo isto verdade, inspira-se o corona e ele anda, anda, e vai aconchegar-se no quentinho do tomatinho. Coisa mais fofa... Todo feito pompom com totós cor-de-rosa lá vai ele à procura de leitinho. Face a isso, o melhor é ninguém se aproximar de certos bicharocos abelhudos antes de lhes pôr uma máscara. Não tarda que apareçam tutoriais de gente habilidosa a ensinar a fazer mascarilhas para énis. Digo énis para não ferir algumas susceptibilidades. E também aconselho a que, à falta de melhor, não se agarre em qualquer coisa para fazer uma zaragatoa. E façam o favor de levar em linha de conta que honi soit qui mal y pense.

E vi também que o PCP quer fazer a festa do Avante porque, tal como a manifestação do 1º de maio não foi uma manifestação, também a festa do Avante não é um festival. Percebe-se. Também a maluqueira da Coreia do Norte não é uma maluqueira nem a maluqueira da Venezuela é uma maluqueira. O Magritte teria muito com que se entreter com estes estados de negação. Em vez de andar a escrever que o desenho do cachimbo não é um cachimbo poderia fazer pinturas com as maluqueiras dos camaradas. Ceci n'est pas une manif. Ceci n'est pas um montão de camaradas a cantar loas ao camarada Jerónimo. Aleluia, Irmãos. E mordam aqui a ver se eu deixo.


Podia ainda falar naquela bacana da vespa gigantona, bicho grandalhão, olharapo de dar susto. Uma vespa mandarina, dizem que assassina. E dizem mais, dizem que veio da Ásia de propósito para dar cabo de mais umas quantas coisas no ocidente, a começar pelos amigos amaricanos. Ao que consta não veio para dar trinca no bicho-homem mas, sim, para dar conta das abelhas. Mas é assim que os filmes começam. Parece passarinho inocente, coisa quase de abelhinha maia. Certo que mede cinco centímetros, oito quando abre as asonas. Mas, devagar, devagarinho, a mandarina, que é prima do corona, também pode vir para mostrar que, neste mundo desgovernado, quem manda são os tais do império do meio. Ou, se não for isso, é outra maluquice qualquer. O melhor é pedir aos camaradas que arranjem um argumento onde estas coisas façam de conta que fazem sentido.

Eu, pela parte que me toca, nada mais tenho a declarar.


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Há mais recriações de obras de arte no tussenkunstenquarantaine. Vêm, aqui, ao som das The Unthanks de que gosto bastante mas que sempre associarei ao dia em que fiquei sem travões e ia indo desta para melhor ao som delas. Mas tenho que isolar. Se gosto delas, tenho que me abstrair do lado sinistro-soft que há nelas.

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E saúde, minha gente. 

domingo, fevereiro 05, 2012

O dia em que eu percebi, espantada, que estava viva

  
Música, por favor, está bem?


Conduzo há muitos anos e conduzo praticamente todos os dias, quer em ambiente de cidade, quer em estrada ou, mais frequentemente, em autoestrada. Gosto muito de passear de carro mas prefiro não ser eu a conduzir. No entanto, pelo menos durante a semana, que remédio.

Sempre receei ter um acidente. É raro o dia que não passo por um, pois frequento percursos que correspondem a zonas com grande incidência de sinistralidade.

Mas os anos foram passando e eu, felizarda. Até que, há cerca de dois anos, não escapei.

Ia a descer uma estrada com uma inclinação algo acentuada, em curva, estrada esta que conduz a uma rotunda muito movimentada, quando, logo no início, quando a estrada começa a curvar, ao reduzir e ao travar, o travão não produziu qualquer efeito. Carreguei no pedal, carreguei, nada, e o carro embalado por ali abaixo. Na aflição, ainda pensei mas estarei a carregar no pedal certo? e desviei o pé para o lado, senti o acelerador no sítio dele e não havia dúvida: o travão não estava a funcionar. Como o carro era daqueles cheios de electrónicas, não tinha travão de mão de puxar. O carro embalado por ali abaixo e eu a perceber que o desastre estava iminente.

A sensação é terrível. Não apenas a sensação de se perceber que se está a caminhar para o desastre mas a sensação em si de se conduzir um carro por uma descida, sem travões.

Durou segundos, eu agarrada ao volante a tentar que o carro não se despistasse, a tentar ainda travar com o pedal, estive até ao fim a tentar que aquilo produzisse efeito - mas nada.

Quando atingi a curva da qual se via a rotunda vi camionetas de carga a circular e pensei que me ia espetar numa delas. Pensei que se levasse o carro a tentar contornar a rotunda, com aquele trânsito e sem travões ia provocar um acidente do caraças (desculpem a expressão) e, ao entrar, desabalada, só pensei que o melhor era tentar atirar o carro para cima da rotunda. Tudo isto durou apenas uma ínfima fracção de segundos. Passei, nem sei como, pelas camionetas e não me espetei em nenhuma e, agarrando com força o volante, atirei-me mesmo para cima da rotunda.

Ao subir o passeio, que era alto, com a velocidade em que ia, senti um estrondo enorme, senti uma enorme pancada e, imediatamente, uma nuvem, que me pareceu de fumo, encheu o carro. Nesse instante vi que estava a ir contra uma coisa metálica enorme que estava no meio da rotunda e, naquele segundo, o que pensei foi que aquela chapa ia entrar pelo carro adentro e que poderia cortar-me a cabeça e que, portanto, poderia estar a viver o meu último instante com vida. Mas não havia nada a fazer, nessa altura o carro estava desgovernado, embora eu ainda tentasse controlar o volante. Então, nesse instante, o carro subiu para cima de uma coisa e imobilizou-se, quase de lado, entalado entre essa coisa e a construção metálica.

Durante um segundo fiquei imóvel a tentar perceber se aquela 'cena' tinha chegado ao fim e percebi que sim. Tentei abrir a porta, vi que abria. Tentei tirar o cinto, consegui. Apesar do carro estar todo inclinado consegui sair e, para minha surpresa, estava de pé e aparentemente boa. Pensei estou viva. Olhei as mãos a ver se via sangue mas não, nada. Confirmei em pensamento estou mesmo viva. Passado pouco tempo, as mãos, os pés e o peito haveriam de ficar negros mas, na altura, não tinha nada.

Imediatamente apareceram pessoas a correr de todo o lado, dos camiões, dos carros, toda a gente vinha saber se eu estava bem e toda a gente dizia que era melhor fugir pois o carro estava a deitar imenso fumo. No entanto, quando olhei, vi que o fumo não saía do motor mas de dentro do carro e que, portanto, o carro não devia explodir. Tinham sido os airbags que tinham rebentado. E eu estava calma, calmíssima, espantada por estar viva, por estar bem.

Só então percebi que o carro tinha embatido numa árvore que estava lá na rotunda, uma azinheira ou uma oliveira, não me lembro, sei que era daquelas que trouxeram do Alqueva, tinha-a deitado abaixo e tinha-lhe passado por cima, ficando o carro meio tombado, entalado entre a árvore que tinha ficado quase toda debaixo do carro e a dita peça escultórica metálica que ficou toda amolgada, como é bom de ver. O vidro da frente parecia uma renda fina, bastaria tocar-lhe para que se desfizesse em mil pequenos estilhaços, o carro todo amolgado dos lados e à frente.

E eu ilesa.



Entretanto, comecei a pensar em coisas práticas. Incapaz de entrar para dentro do carro, dada a posição em que ele estava, lá consegui, mesmo assim, cá de fora, encontrar o telemóvel, retirar a carteira, depois fazer telefonemas.

Passaram uns polícias para tomar conta da ocorrência e que me aconselharam a ir ao hospital para ser examinada, coisa que não fiz, e algum tempo depois, uns colegas foram buscar-me. O carro só foi retirado umas horas depois, com um guindaste, uma operação complicada que causou um enorme transtorno no trânsito; e foi declarado pelo seguro como perda total.

Durante uns dias mais, andei dorida das mãos, dos pés e do peito. Das mãos e dos pés deve ter sido da força que fiz para agarrar o volante, para travar, para agarrar o carro que eu sentia que fugia de mim, descida abaixo, uma sensação horrorosa; do peito, devido ao rebentamento dos airbacks, devido ao puxão do cinto de segurança e do impacto das pancadas. Mas tive uma sorte extraordinária.

Podia ter-me espetado contra um camião, poderia aquela coisa de chapa ter-me entrado pelo vidro, poderia ter-me magoado a sério, poderia ter ido desta para melhor - mas a sorte protegeu-me e saí ilesa. Percebi melhor o que é a sorte, aquela indizível (e invisível) força que nos desvia do que poderia ser uma desgraça e nos mantém a salvo; percebi a linha, tão ténue, que nos separa do nosso fim.

Recomecei a conduzir no dia seguinte mas o susto que apanhei deixou marcas. Durante cerca de um ano parece que tinha perdido a naturalidade da condução, andava sempre a verificar se o travão funcionava, odiava conduzir em descidas, especialmente em autoestradas em que os carros vão a grande velocidade. E ainda hoje, quando faço uma descida nessas condições, tento ir longe dos carros da frente, tenho um certo receio de ter que travar e não conseguir. Mas, enfim, passou e já quase não me recordo disso. 

Mas lembrei-me de vos contar isto porque ontem dei aqui com o clip da música que estava a tocar no momento do acidente e que nunca mais me tinha apetecido voltar a ouvir. É  o que acabaram de ouvir, 'Here's the tender coming' das The Unthanks. É uma música muito bonita e aqui estou, neste momento, a reconciliar-me com ela.

  Tenham um bom domingo, meus Caros, e apreciem a vida!