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sexta-feira, setembro 04, 2026

O que é a caquistocracia?


Caquistocracia (ou kakistocracia): significa o «governo dos piores», ou seja, um sistema político liderado pelas pessoas menos qualificadas, mais incompetentes ou mais inescrupulosas.

  • Etimologia: A palavra vem do grego kakistos (o pior, superlativo de mau) combinado com kratos (poder ou governo).
  • História: O termo foi criado no século XVII para descrever governos entregues a cidadãos sem capacidade ou mérito para exercer a função pública. 
  • Principal característica: Incompetência como critério - o governo escolhe ou tolera membros com base na falta de preparação, afastando e hostilizando quem demonstra verdadeira competência.
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A caquistocracia segundo o ChatGPT


Um Governo em que o primeiro-ministro está contaminado por uma infecta Spinumviva que para sempre lhe ficará colada como uma carraça, que começou a governar sobre uma mentira que soou aos portugueses como uma fraude (falando numa descida espectacular do IRS quando era afinal algo que já estava reduzido (pelo governo PS)), que tem balizado a sua actuação por meias verdades, por chutar para canto, por incumprir tudo o que tinha prometido, que se fez rodear de uma equipa de ministros fraquíssimos, que estragam tudo em que tocam (o caso da Saúde, da Educação, então, são paradigmáticos do que é a incompetência elevada a expoentes impensáveis), em que um ministro da Administração Interna (o 3º erro de casting, depois de duas senhorinhas que não atinaram) se apresenta como um polícia de tipo self-made man -- quero, posso e mando e que venha o primeiro que me impeça de fazer o que quero -- não é um exemplo de que, também em Portugal, se tem vindo a decair no sentido de uma caquistocracia? 

Os que estão no Governo não deveriam ser os melhores dos melhores? Como é possível que as coisas estejam num declínio tal?

Mesmo na Assembleia da República, como é possível ver nas bancadas um tal rebotalho? 

A bancada do Chega seria de anedota se não fosse uma tragédia. O mal que este partido tem feito à democracia é palpável, é como uma gangrena que vai alastrando.

Mesmo na bancada do PSD, que líder parlamentar é aquele? Um trauliteiro, um fala barato. Qual o critério: ser unha com carne do Montenegro? Outro vírus para a democracia.

E que porta-voz do PSD é aquele? Que credenciais tem o Bugalho? Ser outro fala-barato? Abre a boca e sai um bafo que incomoda.

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Ainda assim, há que reconhecer que nada que se pareça com a palhaçada a que se assiste nos Estados Unidos. Aí, sim, é um filme de terror, a coisa vai para além do imaginável. Não se consegue perceber como o país mais poderoso do mundo (será que o é, de facto?) está nas mãos de um narcisista maligno, demente, ignorante, estúpido até à quinta casa. Nem se percebe como admitem os americanos que a equipa executiva seja constituída por gente tão totalmente desqualificada. Ou como admitem que todas as instituições basilares da democracia estejam permanenetemente sob ataque por parte de Trump, que só descansa quando corre com os competentes e os subsitui por gente desqualificada e servil. É de fugir. 

Gostei de ouvir George Clooney descrever esta situação como uma caquistocracia. No vídeo fala de várias coisas, incluindo disso. Vale a pena ouvir.

George Clooney critica a América da era Donald Trump: "Estamos a viver uma caquistocracia neste momento"

A estrela de Hollywood George Clooney fez uma série de declarações contundentes no Festival de Veneza, onde recebeu o Leão de Ouro pelo conjunto da sua obra. Clooney abordou temas como a política norte-americana, o jornalismo, a inteligência artificial, Hollywood, as alterações climáticas e a propriedade dos meios de comunicação.

Clooney descreveu a situação atual nos Estados Unidos como uma "caquistocracia", termo que se refere a um governo exercido pelas pessoas menos qualificadas. Alertou ainda para o conteúdo gerado pela inteligência artificial e para os deepfakes, afirmando que podem tornar cada vez mais difícil distinguir a verdade da ficção.

O ator manifestou ainda preocupação com a concentração dos media e a proposta de fusão entre a Paramount e a Warner Bros., além de discutir as alterações climáticas e os incêndios florestais que afetaram a casa da sua família em França.


Desejo-vos uma boa sexta-feira

sexta-feira, julho 17, 2026

Incompetência e irresponsabilidade a um nível impensável

 

Onde eu trabalhava, praticava-se a gestão activa de porfólio. Para quem não está por dentro desta gíria pode parecer que estou a armar-me ao pingarelho. Mas não estou, era assim que dizíamos. Isto significava que era normal adquirir ou vender empresas, outras vezes formar empresas, outras vezes ainda organizá-las debaixo de diferentes holdings e sub-holdings.

Em termos de gestão isto é um desafio pois havendo áreas corporativas centralizadas ou empresas  de serviços que os prestam a outras, e havendo processos normalizados e, em grande parte, automatizados, de cada vez que havia destas jiga-jogas todos os processos eram virados do avesso, novos processos eram implementados, pessoas eram postas a fazer trabalhos diferentes daqueles a que estavam habituadas -- e tudo tinha que se passar sem que a operação fosse beliscada, sem que os clientes e fornecedores fossem afectados. 

Outas vezes era preciso mudar sistemas, automatizar de forma transversal processos novos (processos de toda a espécie, desde a gestão de topo até ao dito shop floor). Acontecia haver revoluções que afectavam, ao mesmo tempo, milhares de pessoas, geralmente ao longo do país, geralmente ao mesmo tempo em várias empresas, por vezes ao mesmo tempo em Portugal e fora de Portugal. 

Nada poderia falhar. A última coisa que se queria era ter falhas que originassem prejuízos ou danos reputacionais. O que se pretendia era que a transição fosse tão tranquila que quase não se desse por ela, que parecesse fácil.

Tudo isto era planeado ao milímetro, era executado com monitorização apertada, havia não apenas a equipa de projecto como um steering committee que envolvia não apenas a equipa de projecto mas também a equipa de gestão e a administração. Não havia uma ponta solta. Toda a estrutura tinha que estar envolvida, coesa, solidária. Não podia haver gente desconhecdora, desalinhada, contrariada. Nem pensar. Garantir que toda a gente remava para o mesmo lado, ao mesmo ritmo, era responsabilidade da equipa de gestão do projecto. E do projecto constavam várias vertentes incluindo a formação e a gestão da mudança, os testes intensivos aos vários níveis, funcionais e técnicos, o acompanhamento in loco e remoto a quem estava no terreno. Antes de se arrancar com a nova realidade já tudo estava oleado, compreendido, agarrado. Ainda assim havia sempre um plano de contingência. Nem pensar em atirarmo-nos para a piscina com uns a não saberem nadar, outros a não saberem que estilo ou para que lado era para nadar e sem haver bóias e equipas de salvamento a postos. A gestão de risco avançava sempe a par e passo da gestão do projecto.

E trabalhei por várias vezes com equipas alemãs, por exemplo quando empresas alemãs nos compravam ou nos vendiam empresas. Aí o planeamento era levado ao detalhe mais minucioso que se possa imaginar. Aí eu, que sou rigorosa e exigente, chegava a ficar pelos cabelos com as cautelas deles. Para cada pequena etapa definia-se a margem admissível de falha e o respectivo plano de contingência. Não havia uma vírgula ou um papel que fosse deixado ao acaso. Antes de se ir para o terreno, tudo estava ensaiado e acautelado ao mais ínfimo pormenor. Quando trabalhávamos com alemães já sabíamos que era assim.

Outros casos: aconteceu-me várias vezes alguns colegas dizerem-me que se estava em fase avançada de negociação e que uma determinada empresa, cujo funcionamento eu não conhecia, devia começar a trabalhar, de forma integrada dentro do Grupo, dentro de um mês. Face a isso eu não tinha qualquer pejo em dizer que era impossível, que havia vários levantamentos a fazer, muito trabalho de migração, de documentação, de formação, de testes de integração e de funcionamento e que, portanto, na melhor das hipóteses isso poderia acontecer no prazo de x meses (o x variando em função da complexidade da empresa adquirida). E isso era aceite. Nestas coisas, prevalecia sempre o bom senso, a vontade de que tudo corresse bem, a prudência e o sentido de responsabilidade. Não havia lugar ao voluntarismo nem ao amadorismo.

Sempre que se resolvia avançar com modernizações transversais, e foram muitas as vezes em que isso aconteceu, uma coisa era sempre clara: modernizar não é fazer informaticamente a mesma coisa que se fazia de forma tradicional. Modernizar é repensar um processo, é optimizar.

O que está a acontecer com isto dos exames é a antítese de tudo isto. Não há estratégia, não há método, não há gestão, não há noção, não há sentido de responsabilidade. O que estão a fazer não apenas não está a funcionar bem como é uma coisa arcaica, uma ineficiência, uma aberração, um atraso de vida. Um aborto.

Tenho ouvido o ministro, o primeiro-ministro e alguns comentadores a defenderem que mudar é correr riscos e que é normal que as coisas corram mal em processos de transformação. Não é. NÃO É. O normal é que tudo corra on time, on budget, on scope. Ou seja, sem desvios orçamentais, a tempo e horas e a corresponder ao requerido. Isto é o normal. O normal é correr bem. Correr bem é o objectivo do qual os bons profissionais não se desviam.

E digo outra coisa: depois do que fui sabendo a propósito deste caos dos exames, tenho antecipado todos os problemas que têm havido. E não porque seja mais esperta do que quem não o antevê. Simplesmente tenho experiência, conheço os passos que têm que ser dados antes de se passar à fase seguinte. E esta gente, pelo que tenho visto, não pesca boi. Uma indigência como nunca vi.

Por exemplo, tenho ouvido toda a gente a dar por garantido que, a partir do momento em que acabem as avaliações, acto contínuo as notas serão disponiblizadas. Não quero antecipar ou parecer que estou a querer que corra mal, até porque não conheço o que se fez em cada fase do projecto. Pode acontecer que o sub-processo que medeia o fim das classificações na nova plataforma e aparecerem as notas, integradas por aluno e separadas por disciplinas e por escolas no sistema do Júri Nacional de Exames, tenha sido testado e re-testado e estar a funcionar direitinho, incluindo todos os mecanismos de controlo (por exemplo, confirmar que os x items de cada prova foram classsificados, confirmar que todos os items que foram separados por avaliador, são bem agregados e bem totalizados por aluno, confirmar que não faltam alunos em cada disciplina e em cada escola, etc -- por forma a garantir que a informação que vai nos ficheiros gerados pela nova plataforma e que será carregada no portal do JNE está integra e correcta. Se tudo isso foi bem testado e se foram também realizados testes de carga por forma a garantir que esses ficheiros chegam direitinhos e a tempo e horas às escolas, sem sobrecargas e time outs, e que a integração com as notas escolares é um processo rápido, então, perfeito, óptimo.

Só que o que tenho visto até aqui é um amadorismo sem paralelo, uma sucessão de calinadas e de improvissos como nunca vi em décadas de vida profissional. Nunca. Se isso é geral, então as notas serem calculadas, ponderadamente, agregadas por aluno e por escola, e saírem da nova plataforma até chegarem e serem lidas como deve ser pelo sistema do JNE, pode muito bem vir a ser outro problema.

Contudo, espero bem que não. Já o disse várias vezes: tenho dois netos à espera de notas, um deles no 12º ano, a aguardar poder candidatar-se à universidade. Por isso, desejo muito sinceramente que as notas deles saiam, sejam credíveis, estejam correctas, e que, atempadamente, as escolas as publiquem  e emitam as fichas que são necessárias às candidaturas.

Mas só quando isso acontecer eu descanso porque agora a confiança que tenho na integridade deste processo é bola. Zero.

Depois, um outro aspecto. O sistema oficial que vigora é que os alunos têm o direito a pedir uma cópia do seu exame. Como até aqui as provas estavam em papel na escola, isso era banal. Era ir buscar e fotocopiar. Agora não é assim pois, fisicamente, estão no armazém da bagunça em Mem Martins. Mas foram digitalizadas. Só que estão anonimizadas. Ou seja, para localizar a cópia digital de cada prova para a fazer chegar a cada aluno, ela tem que ser desanonimizada. Ora só a escola as pode desanonimizar, fazendo corresponder a identidade do aluno ao código da prova digitalizada. E depois tem que se juntar o endereço de mail dos encarregados. Supostamente no sistema do JNE já existe esse endereço. Só que as cópias digitalizadas estão na nova plataforma e a integração com o sistema do JNE pelos vistos não existe, pelo menos em tudo o que devia. Gerar mails a partir de uma lista de endereços e localizar anexos para indexar aos mails ou gerar links não é nada de especial. O que não faltam são aplicações para o fazer que nem ginjas. Mas tem que ser testado, especialmente quando está em causa enviar 130.000 mails e quando, pelos vistos, se as notícias estão correctas, à última hora os códigos e os endereços de mail vão ser carregados à mão. Mas se esse processo também foi testado, perfeito, talvez corra bem. Só que parece que isto foi uma bola que saiu do saco à última hora e ontem as escolas ainda não sabiam onde iam registar esses endereços. Por isso, nem sei o que pensar.

Ou seja, pode acontecer que as únicas barracadas e burrices grosseiras só tenham surgido no sub-processo do split das provas em items e envio dos itemas para avaliar e que tudo o resto esteja a funcionar às mil maravilhas. Pode ser e seria bom para os alunos e famílias.

Mas, se a inexistência de gestão de projecto, de experiência, de prudência, de know how foi generalizada, pode acontecer que, entre o fim da avaliação e a disponibilização das notas e das fichas pelas escolas, venham a surgir novas surpresas.

Ouvi a incoerente, tendenciosa e preguiçosa Clara Ferreira Alves no Eixo do Mal a justificar este caos dizendo que isto é mesmo assim. Talvez seja na casa dela ou nos ministérios do Montenegro. Não é decidididamente assim em todos os lados em que há gente responsável e competente è frente de lugares de responsabilidade.

Mas, enfim, vou acender uma velinha. Pode ser que os meus netos amanhã já conheçam as notas dos exames e as médias com que acabaram respectivamente o 9º e o 12º anos. É o que eu desejo.

quarta-feira, julho 15, 2026

[Em actualização: São os professores resistentes que estão a dar cabo disto tudo?]
O caos nos Exames Nacionais -- não foi a pressa, foi a INCOMPETÊNCIA

 

Adiaram outra vez. Ontem, o Ministério da Educação anunciou que a classificação dos exames que ainda faltavam prosseguiria até quarta-feira, mais um dia além do prazo que já tinha sido alargado duas vezes antes. Às 19h de segunda-feira estavam corrigidas 98% das respostas. Os 2% em falta explicam, sozinhos, o essencial do processo: são folhas mal digitalizadas ou nunca digitalizadas, provas que as escolas não chegaram sequer a entregar às forças de segurança, itens que têm de ser reclassificados porque a folha certa só apareceu depois. O Ministério garante que a afixação das pautas se mantém para sexta-feira, dia 17. Garantiu o mesmo, antes, para o dia 14, e antes disso para o dia 10.

Pedi ao ChatGPT uma imagem que ilustrasse o que se passa com
a avaliação dos Exames Nacionais e esta foi o que ele me devolveu

Vale a pena olhar para a dimensão do que falhou, porque os números, sozinhos, já dizem muito. Mais de 166 mil alunos do 11.º e 12.º anos inscritos na 1.ª fase. Mais de 300 mil provas realizadas. Segundo o próprio presidente do EduQA, um exame de Matemática tem várias folhas; multiplicado pelas 300 mil provas, isso dá cerca de quatro milhões de páginas digitalizadas num único armazém em Mem Martins, por cerca de 40 pessoas, sete dias por semana, entre as 8h e as 22h, desde 16 de Junho. Para isso foram compradas mais de 70 máquinas de digitalização a 3.000 euros cada, financiadas pelo PRR. O processo de digitalização, sozinho, já tinha custado mais de sete milhões de euros em três anos, antes mesmo desta época de exames.

O problema nunca foi a falta de equipamento. Foi tudo o resto.

Vamos por partes:


Um projecto lançado sem os fundamentos de um projecto

Qualquer pessoa que já tenha implementado um sistema de informação crítico, seja num banco, numa seguradora, numa grande empresa, num hospital, sabe que a tecnologia é a parte fácil. O que decide se um projecto desta escala funciona é o que se faz antes de o pôr em marcha: testes de carga que simulem o volume real, testes de integração entre todos os sistemas envolvidos, um grupo de key users que valide o processo do princípio ao fim em condições reais, formação adequada e atempada de quem vai usar o sistema todos os dias, manuais completos e disponíveis com antecedência, e um plano B testado para quando, não se, alguma coisa falhar.

Nada disto é visível neste processo. O único manual encontrado publicamente, o "Manual do Professor Avaliador 2026", foi actualizado a 16 de Junho, o mesmo dia em que arrancou o calendário de exames. Ou seja, a documentação de apoio a quem ia usar o sistema ficou pronta, na melhor das hipóteses, em cima da hora. Não há registo público de nenhuma bateria de testes de carga anterior ao arranque, o que é indispensável quando se sabe, à partida, que o sistema vai ter de processar mais de quatro milhões de páginas e servir milhares de professores em simultâneo. Não há registo de testes de integração entre a plataforma de digitalização (interna, do EduQA) e a plataforma de classificação (da Blat), duas peças de fornecedores diferentes que, como se veio a confirmar, comunicavam mal entre si: foi precisamente aí, na costura entre os dois sistemas, que surgiram os itens cortados a meio e as folhas de continuação em falta. E não há sinal de formação alargada aos milhares de classificadores antes do arranque, que se viram a aprender o sistema em tempo real, muitos deles convocados de um dia para o outro, alguns ao fim de semana, alguns por telefone.

Quanto ao plano B, o que existiu foi improviso disfarçado de plano. A norma do Júri Nacional de Exames dizia que o calendário tinha sido definido "de modo a acomodar eventuais contingências". Na prática, essa "contingência" resumiu-se a adiar o prazo sempre que a realidade obrigava: de 6 para 10 de Julho, depois para 14, depois para 17, e agora, no meio disso, mais um dia de correcção. Um plano de contingência genuíno define, antes de o problema acontecer, o que se faz se a plataforma cair, se faltarem folhas, se os prazos não puderem ser cumpridos, incluindo a hipótese de recuar para o modelo em papel nas disciplinas mais críticas. O que tivemos foi uma sucessão de comunicados de sexta-feira a explicar o que já tinha corrido mal.

A isto soma-se um factor que raramente é dito com esta clareza: a equipa que devia garantir tudo isto foi desmantelada a meio do processo. Em Setembro de 2025, o Governo extinguiu o IAVE, fundindo-o com mais três organismos (a Direcção-Geral da Educação, a Estrutura de Missão do Plano Nacional de Leitura e o Gabinete Coordenador da Rede de Bibliotecas Escolares) num novo instituto, o EduQA, reduzindo dezoito entidades do ministério a sete. Nessa reforma, centenas de professores que trabalhavam nestes serviços regressaram às escolas, muitos deles a meio do ano lectivo. Ou seja, a instituição que tinha de planear, testar e executar a maior operação de digitalização de exames de sempre viu parte da sua memória técnica e dos seus quadros especializados dispensados nos meses imediatamente anteriores ao arranque. Não é preciso mais nada para perceber por que motivo faltaram testes, formação e um plano B: faltou, literalmente, quem os fizesse.


Setenta scanners não é uma estratégia

Fica bem, num comunicado, dizer que se compraram "mais de 70 máquinas de digitalização de grande capacidade". Mas convém perguntar: capacidade para quê, organizadas como? A operação real, tal como foi descrita pelo próprio EduQA na visita de imprensa a Mem Martins, é uma operação artesanal: exames guardados em envelopes, arrumados em prateleiras por zona do país, com equipas a retirar agrafos à mão antes de os fazer passar pelas máquinas, e sempre que um erro é detectado, alguém tem de localizar fisicamente o envelope certo, entre milhares, para repetir o processo. Isto é o oposto de uma linha de produção industrial dimensionada para milhões de páginas.

Havia duas soluções sensatas, e nenhuma delas foi escolhida. Uma: descentralizar a digitalização pelas escolas ou pelos centros regionais de exame, logo a seguir à prova, sem custo adicional relevante, uma vez que grande parte das escolas já dispõe de equipamento de digitalização básico e de pessoal administrativo habituado a processos deste tipo. É este, aliás, o modelo seguido por sistemas de exames de grande escala noutros países: digitaliza-se junto da fonte, reduz-se o transporte físico, reduz-se o risco de um único ponto central de falha. Outra: se a opção fosse mesmo centralizar tudo num único local, então a decisão correcta seria investir em duas ou três linhas de digitalização verdadeiramente industriais, com capacidade e redundância reais, geridas por uma equipa técnica dedicada e testada, em vez de setenta máquinas de gama alta mas ainda assim manuais, dependentes de gente debruçada sobre pilhas de papel, turno após turno.

O que ficou não foi nem uma coisa nem outra. Foi uma central única, fisicamente vulnerável e logisticamente frágil, montada à pressa num armazém que, até ao ano passado, ainda imprimia os próprios exames.


A vulnerabilidade que ninguém quer explicar até ao fim

A 6 de Julho, a plataforma de classificação esteve suspensa durante mais de dezoito horas por causa de uma "fragilidade de segurança". O ministro garantiu que não houve ciberataque nem intrusão. Mas admitiu, ele próprio, que a segurança informática das plataformas era "o maior risco" de todo o processo de correcção digital. Ou seja: o Governo sabia, à partida, qual era o ponto mais perigoso do sistema, e deixou-o entrar em funcionamento a tratar os dados pessoais de mais de 166 mil alunos, a maioria deles menores, até que uma consultora chamada de urgência, já com o processo a decorrer, descobriu a falha.

Ficam por responder perguntas que deviam ter resposta pública, categórica, e não vaga. Houve ou não acesso indevido aos dados dos alunos durante essa janela de vulnerabilidade? O Bloco de Esquerda colocou exactamente esta questão ao Ministério, sublinhando que uma falha numa plataforma que associa provas de exame à identificação de alunos menores é, em si mesma, potencialmente uma violação de protecção de dados com obrigações legais próprias, independentemente de ter havido ou não exploração efectiva da falha. Até hoje, não há uma resposta pública e detalhada, apenas a garantia genérica de que "os dados estão seguros". E há ainda um episódio paralelo, nunca oficialmente confirmado nem desmentido com provas, de uma alegada fuga de informação da própria Blat, em Maio de 2026, que teria exposto dados de dirigentes do PSD e mais de um milhão de linhas de comunicações internas da empresa com os seus clientes. Não há registo de que esse incidente tenha sido notificado à Comissão Nacional de Protecção de Dados, como o RGPD exige em caso de violação de dados pessoais. Não é preciso provar que os dois episódios estão ligados para perceber que ambos apontam na mesma direcção: uma cultura de segurança informática desadequada à criticidade da informação que esta gente tinha em mãos.

E aqui há uma obrigação legal que não pode ficar por cumprir por simples conveniência política. Quando existe uma vulnerabilidade confirmada numa plataforma que trata dados pessoais de menores, incluindo dados relativos à sua avaliação escolar, a Comissão Nacional de Protecção de Dados tem de apurar, com poderes que o Ministério não tem sobre si próprio, se houve ou não acesso indevido, e a que dados exactamente. Isto não pode ficar resolvido com a garantia genérica do próprio visado, o Ministério a dizer que os dados do Ministério estão seguros. Se a CNPD concluir que houve violação, mesmo que parcial, mesmo que sem exploração maliciosa comprovada, existe o dever legal de notificar os titulares dos dados, ou, tratando-se de menores, os seus encarregados de educação, dentro dos prazos que o RGPD define. Até hoje, não há notícia pública de que a CNPD tenha aberto um processo, nem de que qualquer família tenha sido notificada de fosse o que fosse. Este silêncio é, em si mesmo, uma lacuna a apurar: ou a CNPD já investigou e concluiu que não houve violação, e isso devia ser dito publicamente e com clareza, ou ainda não investigou, e devia.

E depois há a pergunta mais simples de todas, a que qualquer auditor faria em cinco minutos: quem teve acesso físico às provas? Sabe-se que, para tentar cumprir os prazos, foram chamados a corrigir e a mexer no processo técnicos do EduQA e elementos do gabinete do secretário de Estado que não pertencem ao Júri Nacional de Exames, o que os próprios críticos do processo apontam como um risco directo para o princípio do anonimato: quantas mais mãos, fora do circuito formal, tiveram acesso às provas, mais difícil se torna garantir que não houve troca, adulteração ou erro de correspondência entre a prova física e a nota atribuída. O Ministério assegura que o anonimato "só pode ser quebrado nas escolas". É uma garantia de procedimento, não uma garantia de facto verificável por quem está de fora. Num processo tão disperso, com tanta gente diferente a circular por armazéns, plataformas e envelopes, a única resposta séria a "quem garante que a nota que sair é mesmo a do aluno" seria uma auditoria externa e independente, publicada, e não apenas a palavra do ministro.


"Faz parte da transformação digital." Não, não faz!

Perante tudo isto, o discurso do Governo tem sido notavelmente consistente: isto é normal, é o preço de qualquer "transformação digital", faz parte de "processos de mudança" exigentes. O primeiro-ministro disse-o quase nestes termos, garantindo que, depois deste "primeiro grande teste", o sistema será "um avanço" para a educação portuguesa, e queixando-se de que há quem tente "exacerbar e quase exagerar" os problemas. O ministro da Educação repete, semana após semana, que "o processo não começou bem", mas mantém o rumo.

Isto não é verdade, e vale a pena dizê-lo sem rodeios. Transformação digital feita a sério não produz este tipo de caos, produz frustração pontual e curvas de aprendizagem, coisa bem diferente de convocatórias erradas, professores reformados chamados a corrigir provas, provas sem folhas de continuação, itens que desaparecem depois de corrigidos, plataformas suspensas sem aviso, e um calendário que se vai reescrevendo a cada semana. Isso não é o preço da mudança. É o resultado previsível de lançar, em produção, sobre dados sensíveis de 166 mil menores, um sistema sem testes de carga documentados, sem testes de integração entre plataformas de fornecedores diferentes, sem formação prévia adequada, sem plano de contingência real, e gerido por uma teia de pequenas empresas contratadas por ajuste directo, uma delas com catorze pessoas e sem contrato em vigor conhecido nos últimos anos. Chamar a isto "normal" é, no melhor dos casos, ingenuidade; no pior, é a forma mais eficaz de branquear responsabilidades antes de a auditoria (se alguma vez houver uma auditoria pública e completa) chegar a alguma conclusão.


E o que ainda não sabemos

Falta ainda perceber como será feita a integração destas notas, obtidas por um processo com este historial, com a classificação interna final que cada aluno já tem na escola, e que pesa directamente no acesso ao ensino superior. Foi esta integração testada com o mesmo rigor com que se deveria ter testado tudo o resto? Não há, até hoje, qualquer informação pública sobre isso. Depois de um mês de falhas na parte mais simples do processo (digitalizar e distribuir ficheiros), não é razoável dar como garantido que o cruzamento final de dados, decisivo para o futuro de cada aluno, foi salvaguardado com mais cuidado do que tudo o resto.

O que sabemos, com certeza, é isto: um projecto desta natureza e desta escala tinha de ter sido testado antes, não corrigido ao vivo, à custa dos alunos, das famílias e dos professores. Não foi.


Pressa ou incompetência?

Fica a pergunta que tudo isto convoca: é o preço da pressa, ou é o preço da incompetência? A distinção interessa, porque não são a mesma coisa e não merecem o mesmo perdão.

Se fosse só pressa, o padrão seria outro: um sistema bem desenhado na sua concepção, mas comprimido no tempo, com qualidade degradada, atrasos, sim, mas dentro de uma lógica reconhecível. Pressa explica cortar testes de aceitação à última hora. Não explica não ter testes de carga nenhuns. Pressa explica formação apressada. Não explica não haver formação. Pressa explica um manual publicado tarde. Não explica um manual publicado no próprio dia do arranque do calendário de exames.

Há três factos, em concreto, que não se explicam pelo tempo disponível, explicam-se pela qualidade das decisões tomadas. Primeiro, o piloto já tinha falhado, e da mesma forma: o exame de Filosofia, em 2025, com 20 mil alunos, teve exactamente os mesmos problemas de plataforma e de distribuição de itens que agora se repetiram à escala de 300 mil provas. Um piloto serve para aprender antes de escalar. Não faltou tempo para ler essa lição, faltou vontade ou capacidade de a ler. Segundo, a escolha do fornecedor da peça mais crítica do sistema não foi feita sob pressão do calendário de 2026, foi feita, e mal, ao longo de uma década, por sucessivos governos: entregar a plataforma que trata dados de 166 mil menores a uma agência de catorze pessoas, por ajuste directo, sem contrato em vigor conhecido nos últimos três anos, é uma falha de contratação pública estrutural, não um efeito colateral de um Verão apertado. Terceiro, a extinção do IAVE e a dispensa de quadros técnicos especializados a meio do processo, descrita acima, não foi imposta por prazo de exame nenhum. Foi uma opção do próprio Governo, tomada a sabendo que a maior operação de digitalização de sempre estava a poucos meses de arrancar.

A pressa existiu, e agravou tudo, a decisão política de generalizar a 300 mil provas sem corrigir primeiro o que o piloto já tinha exposto é, em si, um sintoma de pressa. Mas mesmo essa pressa é, no fundo, um sintoma de incompetência de planeamento: um projecto bem gerido reserva tempo para testes e formação antes de fixar a data de arranque, não fixa primeiro a data e depois tenta encaixar lá dentro testes que nunca chegam a acontecer.

Por isso, a resposta parece-me clara. A causa matricial não é a pressa. É a incompetência, estrutural e institucional, não de uma pessoa isolada, mas de um sistema de decisão que dispensou as disciplinas mínimas de gestão de um projecto desta escala (testes de carga, testes de integração, formação, manuais, plano de contingência, fornecedor único e responsável), que ignorou o seu próprio piloto do ano anterior, e que ainda por cima se reestruturou a si próprio, dispensando quem sabia fazer o trabalho, no pior momento possível para o fazer. A pressa foi o veículo. A incompetência foi o motor. E é por isso que ninguém, até hoje, respondeu com factos concretos à pergunta mais simples de todas: quem garante alguma coisa neste processo?

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O texto acima foi elaborado com recurso a IA para obtenção e sistematização de informação junto de diversas fontes, com vista a cobrir alguns aspectos que me parecem relevantes. Como já referi, não têm conta os processos de transformação em que participei, incluindo a digitalização de processos em âmbitos diversificados, vários deles de âmbito nacional e outros para além disso. Se há temas em que sei do que falo, este é seguramente um deles. E o que posso dizer é que nunca, NUNCA, vi tamanha incompetência, tamanho amadorismo, tamanha irresponsabilidade. Um ex-colega que me ligou ontem dizia que não tem conseguido deixar de jogar as mãos à cabeça perante o que está a passar-se. Dizia ele: 'Esta gente nunca trabalhou.... esta gente não sabe como é que as coisas se fazem...'.  Um outro dizia-nos no ginásio: 'Se a Madeira quisesse invadir o Continente e tomar conta disto, com a gente deste Governo, era limpinho, num dia a Madeira estava a mandar em Portugal inteiro'. 

Face ao que está a passar-se, não era só o Ministro da Educação que deveria rapidamente ser posto borda fora: também o Montenegro, qu eé o responsável pelo Governo, deveria levar um valente apertão. Isto não se faz.

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Fontes consultadas:

Comunicados do Ministério da Educação, Ciência e Inovação e do EduQA; reportagens de Público, Observador, ECO, RTP, Renascença, JN, CNN Portugal, DN, esquerda.net e Executive Digest, entre 3 e 15 de Julho de 2026.

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Actualização

A "resistência dos professores": gerir a mudança também é gerir o projecto

Nas jornadas do PSD em Palmela, na véspera do debate do Estado da Nação, Luís Montenegro admitiu, pela primeira vez com esta formulação, que pode ter havido "alguma falha dos responsáveis políticos e dos serviços". Mas não deixou a frase respirar sozinha: a seguir, atribuiu parte da perturbação do processo a "resistência à mudança" por parte de "alguns" professores, ressalvando que "a grande maioria está com este passo". Garantiu ainda que a digitalização "é para continuar" e apelou aos colegas de Governo para "não terem receio de enfrentar as resistências" dentro dos seus serviços.

Há aqui uma inversão que vale a pena desmontar, porque é, ela própria, mais um sintoma do problema de fundo.

Gerir a resistência das pessoas à mudança não é um imprevisto externo ao projecto, é uma das componentes normais de qualquer projecto de transformação, com nome próprio na disciplina de gestão de projectos: change management. Um projecto bem desenhado antecipa que nem todos vão aderir ao mesmo ritmo, e por isso investe, antes do arranque, em comunicação, em formação, em canais de suporte e num período de transição com acompanhamento reforçado, precisamente para reduzir essa resistência antes de ela se tornar um problema operacional. Quando um primeiro-ministro invoca a "resistência" dos utilizadores de um sistema para explicar o caos desse sistema, está a descrever, sem se dar conta, uma falha de gestão da mudança, e essa gestão também é da responsabilidade de quem concebeu o projecto, não de quem o teve de usar sem preparação.

E há uma segunda inversão, mais grave. Antes de se falar em "resistência", o próprio ministro da Educação já tinha sugerido, em audição parlamentar, que boa parte dos testemunhos de professores sobre falhas concretas "é falsa". A plataforma MetaPROF respondeu publicamente que cada relato que divulga é revisto e pode incluir prova documental anexa, convocatórias, capturas de ecrã, comunicações oficiais, e acusou o ministério de tentar "inverter as responsabilidades". Entretanto, factos concretos foram confirmados pelo próprio ministério em audição: houve, por exemplo, uma professora já falecida que chegou a ser convocada para classificar provas. Isto não é resistência à mudança. É gente a apontar defeitos reais, verificáveis, nalguns casos grotescos, num sistema que não funcionava. Chamar-lhe "resistência" é, no melhor dos casos, uma imprecisão de linguagem; no pior, é transferir para a classe docente uma responsabilidade que é do desenho e da gestão do projecto.

E as novidades das últimas horas

O caso continua a ramificar-se. O Ministério alargou por dois dias o prazo de matrícula do 10.º e do 12.º anos (agora entre 15 e 24 de Julho), precisamente por causa do adiamento das pautas. Confirmou-se também que os problemas não se ficaram pelo secundário: as provas finais de Matemática do 9.º ano tiveram os mesmos constrangimentos no processo de classificação digital. E, num sinal de que a crise já mexe com nomeações dentro da máquina do ministério, demitiu-se a vice-presidente do conselho directivo da AGSE (a agência que gere pessoal e estabelecimentos escolares), Salomé Augusto Branco, a seu pedido, a 8 de Julho; o ministério nega qualquer ligação aos exames, mas a coincidência de datas, a meio da maior crise do sector em anos, não passou despercebida.

Por fim, o calendário político aperta: o debate do Estado da Nação decorre esta quinta-feira, dia 16, já sob pressão da oposição (a Iniciativa Liberal chegou a pedir o adiamento), e o ministro Fernando Alexandre é ouvido no Parlamento já esta sexta-feira, dia 17, precisamente no dia em que, segundo o Governo, as pautas serão finalmente afixadas.

Tudo isto reforça, e não contraria, a conclusão a que já tínhamos chegado: perante um projecto mal gerido do início ao fim, a resposta política tem sido, sistematicamente, apontar para fora, para os professores, para quem denuncia, tudo menos para o próprio desenho do projecto. É a mesma incompetência estrutural, agora também na forma como se fala dela.