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quinta-feira, agosto 20, 2026

Redes sociais, um mega clube em que prolifera gente fútil, burra, desinteressante


De vez em quando aparecem-me coisas no Instagram que me deixam perplexa. Juro que não percebo qual o propósito, qual a lógica, a quem é que aquilo interessa. 

Por exemplo, algumas influencers famosas (e se soubessem o quanto abomino esta expressão e tudo o que a envolve...) mostram-se em ultra poses, em ultra decotados biquínis, algumas, inclusive, com grandes planos sobre as virilhas, com meia genitália de fora. Que entre elas e os namorados, em brincadeiras mais apimentadas, brincassem aos fotógrafos e às modelos ou às esposas descaradas, eu percebia. Agora estarem a mostrar-se assim ao mundo? Para quê? Porque se acham giras e acham que o mundo fica melhor se testemunhamos o desenho das suas mamas insufladas e de parte dos seus grandes lábios? 

E as poses? Ridículas. Armadas em vedetas, em posições parvas, copiadas umas das outras. 

Só penso no volume brutal de dados que circula nas redes e na brutal capacidade de armazenamento e processamento que estas plataformas (Meta, por exemplo, com o Facebook, Instagram, WhatsApp; mas também o  X ou o Tiktok) têm que ter para poderem mostrar tudo isto ao mundo inteiro, a toda a hora. Não admira que tenham que ter Data Centers brutais, altamente consumidores de energia. Para quê? Para, na grande maioria, darem palco a gente fútil, gente sem miolos. E para, com este brutal desfiar de fotografias, bonecada parva, citações de meia tigela, vídeos truncados, verdades distorcidas, encharcarem a cabeça de meio mundo, cada vez mais burrificado.

As pessoas estão umas com as outras e em vez de conversarem, há sempre alguém agarrado ao telemóvel, a ver ou a mandar mensagens ou a ver as palhaçadas de que estas redes estão pejadas. Um perfeito nonsense, um deslizar inexorável para a estupidificação.

Fala-se do populismo que grassa nas redes sociais e penetra, sem espinhas, nos meios mais broncos da sociedade. Mas deveria falar-se também da futilidade crescente, da tremenda falta de noção de toda esta gentinha que se exibe, desta cambada de podcasters que se multiplica para conversarem umas e uns com os outros para falarem de nada, de parvoíces, da sua pseudo historiazinha que não deveria interessar nem ao menino jesus, mas que nestas plataformas têm palco.

De todas as formas possíveis e imaginárias está a destruir-se a civilização, quer ambientalmente com estes brutais Data Centers (para isto e para a IA), quer socialmente, quer mentalmente. Tanta inteligência junta para um mundo cada vez mais cheio de burros.

domingo, maio 31, 2026

Será que só eu é que ignorava o significado de GRWM?

 

De manhã deu-me uma ideia. 

(E reparem no verbo. Eu disse: 'deu-me'. As ideias são coisas que, volta e meia, me dão.) 

Já contei que isto de uma pessoa agora comer muitas vezes em casa é coisas que tende a desgastar a imaginação. É relativamente frequente eu não fazer a mínima ideia do que fazer e, quando pergunto ao meu marido o que quer para o almoço ou jantar, ele dar a resposta mais enervante possível: 'O que quiseres'. É que, justamente, não quero nada, não faço a mínima, já esgotei as receitas do meu reportório. Tudo déjà vu, déjà-mangé. 

Pois bem. Ontem o meu marido tinha sugerido uma coisa, mas foi uma daquelas sugestões com ponto de interrogação na ponta: pizza?

A falta de assertividade dele quase me contagiou, mas, enfim, face à falta de alternativas, disse que sim. Aquelas feitas em forno de lenha com alcachofras e presunto, por exemplo, sabem sempre bem. Portanto, que seja.

Mas acontece que acordei com uma ideia: ir aos pastéis de massa tenra. O meu marido reagiu: 'Não se pode dizer que fique em caminho'. Uma falta de entusiasmo que quase me desmoralizou. De facto, não se pode dizer que fique do outro lado da rua, mas não era mais entusiasmante que pizza. Mas a verdade é que a ideia fez o seu caminho dentro dele e acabou por dizer que sim. 

Montanhas de gente. Aquela casa é uma máquina de fazer dinheiro. Literalmente -- é que na Frutalmeidas não aceitam cartões. Tudo el contado

Quando lá chego, apesar da barafunda quando se vai à hora de almoço, a verdade é que perco a cabeça. Pensei: vai mas é em dose dupla, almoço e jantar. Trouxe os ditos pastélios, 3, trouxe 2 ovos verdes, um pastel de espinafres, 2 croquetes e um rissólio de camarão. E, embora não fosse a intenção, olhando para o lado, não pôde deixar de ser: uma fatia de tarte de maçã e uma de requeijão. Tudo uma delícia.

Para contrariar as frituras, fiz um arroz de legumes e acompanhámos também com salada de alface e rúcula. E, por cima do bolo, ou seja, a seguir, uns morangos.

Soube-nos pela vida.

De tarde, estive a regar e se há coisa que eu gosto de fazer é de regar. Não sou perdulária em nada; pelo contrário, sou poupada, ponderada. Mas no que se refere a água, se for para lavar ou para regar, facilito. O cheiro da terra molhada, oxigena-me a alma. E ando descalça, molho os pés, sabe-me tão bem. Pelo meio, sempre que passo por debaixo de uma nespereira, alço a mão e lá vai mais uma. Doces, doces que só visto. 

O meu marido, quando me vê a despachar nêsperas, não consegue deixar de manifestar a sua censura: 'Não te parece que estás a exagerar?'. Geralmente não respondo pois entendo que a pergunta é retórica.

A verdade, é que à conta disso, jantei quase nada, as nêsperas tinham-me alimentado bastamente. 

Entretanto, estive a ler as notícias e não vi nada de muito interesse, excepto uma altamente promissora, animadora, espero bem que comprovadamente extraordinária: umas injecções fantásticas estão a dar cabo de alguns cancros. E eu não atiraria foguetes se isto não fosse notícia de destaque no Guardian. Falam em respostas sem precedente em doentes em que a quimio e a radioterapias já não estavam a resultar. Isto é uma muito boa notícia. Aos poucos, um pouco por todo o lado, o cerco ao cancro vai apertando e os resultados começam a ser animadores. Felizmente. 

E, para aliviar do resto das notícias (Irão vai, Irão vem, Ormuz sim, Ormuz sopas, Gaza e Líbano feitos  num oito -- um desatino pegado), desandei para o Insta, a caixa de todas a surpresas. 

Para além das coisas mais ajustadas à minha vibe, volta e meia o Insta testa a minha coerência infiltrando algo de disparatado. Desta vez, apareceu-me uma mulher a sair do banho, a pôr cremes na cara, no corpo e no cabelo, a maquilhar-se, a fazer caracóis, depois a desmanchá-los, depois a perfumá-los e por aí fora, todo um filme em que ela ia reportando os seus actos, depois fingindo que desconstruía o que dizia, rindo e querendo fazer parecer que não se levava muito a sério. Mas claro que se leva, senão não se filmava a fazer aquilo, não é? Provavelmente acha que pode servir de exemplo, quiçá de inspiração. Na volta, é uma influencer. Não sei. Não fixei o nome dela pelo que agora não consigo ir mais longe nesse capítulo. Contudo, uma coisa chamou a minha atenção. No canto do vídeo, umas letras em maiúsculas. Fiquei a pensar que não era a primeira vez que via aquelas letras. Lenta como sou, só hoje me tocou a campainha. Fui então pesquisar. GRWM. 

Como não guardei a cena, agora, para ilustrar este post,
 pedi ao ChatGPT para remediar  a minha falta

E lá está. Nem mais. Existe e tem significado. Get Ready With Me. Claro. E, uma vez mais, não sem uma certa perplexidade, constatei que há toda uma nova cultura que eu desconheço. Pelos vistos todas estas mulheres que se filmam a pentear-se ou a vestir-se ou a maquilhar-se dominam esta cultura. Nestas alturas, sinto-me ignorante. Mas, enfim, hoje já aprendi esta: GRWM. 

E, ainda no capítulo do submundo, outra coisa que me divertiu foi o Trump não estar a arranjar artistas para participar na festarola que está a organizar e em que mistura o 250º aniversário da independência com o seu aniversário. Os que tinham dado o sim estão a bater em retirada. E ele, tresloucado de raiva, não tem feito outra coisa senão fazer posts em catadupa. Sempre quero ver. Alguns pimbas há-de conseguir arranjar, nem que seja à força, ou nem que peça à Sic alguns contactos dos que costumam comparecer no Domingão. Palpita-me que vai ser todo um número de comédia. Na privacidade da sua casa, quando pode despir aquele seu ar institucional, o que o Xi Jinping deve esfregar as mãos, enquanto se rebola a rir....

Trump, Putin, Kim Jong Un, Netanyahu... É o que dá o mundo estar nas mãos de malucos, ainda por cima do tipo de malucos que são perigosos.

E, por hoje, é isto. 

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Desejo-vos um belo dia de domingo

terça-feira, maio 19, 2026

Depois das especialistas em Human Design, das Psicoterapeutas Somáticas, das Criadoras de Conteúdos Digitais, das Mentoras, das Coaches e das empresários da treta, eis que hoje aprendi que também há as Terapeutas Sentimentais, ao que parece, uma evolução da carreira de Esteticista.
-- E escrevi no feminino porque calhou, mas também os deve haver no masculino --

 

Nem de propósito: hoje, quando ligámos a televisão, um pouco antes das 20h, estava a dar uma síntese ou um anúncio, não percebi, do programa Casados à Primeira Vista. E, aí, assisti a outro momento extraordinário: uma senhora de sessenta e picos anunciava-se como Terapeuta Sentimental, explicando que durante cerca de trinta anos tinha sido esteticista. Dava a ideia que a carreira de esteticista tinha sido a base formativa para passar para o degrau acima: exercer terapia sentimental. Mais à frente, mostrava-se com anéis enormes, pavorosos, e enaltecia os benefícios daquela pedraria de pechisbeque na afirmação pessoal.

E eu fiquei a pensar: mas que género de pessoas paga a uma tal 'profissional'? E o que é que ela vende? Conselhos? Anéis? 

Passou de esteticista para terapeuta sentimental. E, portanto, concluo eu, isto parece que agora as profissões já não têm que ser homologadas. Nem obedecem a nada. Cada um inventa a profissão que lhe apetece. Aqui não há ASAE que consiga verificar se estão a ser cumpridos requisitos, respeitados valores profissionais, se não está a ser vendido gato por lebre. Nada. Tudo à margem de tudo, imagino.

O que eu gostaria de saber é, a nível de Finanças, como é? Quando recebem dinheiro dos clientes é na base do toma lá, dá cá e... impostos viste-os? E a AT deixa que as pessoas vivam com mais do que o que oficialmente recebem, e não tem mecanismos para ir atrás?

Claro que isto é arraia-miúda. Dir-se-á que não é por aí. Pois. Mas multiplique-se pelos vários milhares de pessoas que exercem estas novas profissões e talvez já tenha expressão. Mas vale para esta como para todas as influencers e toda a matilha que por aí anda a ganhar dinheiro de qualquer maneira, sem acrescentar qualquer valor ao País -- e, às tantas, ainda criticam o estado das coisas quando não devem pagar 1 euro de impostos. Parasitam a sociedade. 

NB: Note-se que estou a falar em abstracto pois não conheço a dita senhora de lado nenhum, não é, nem poderia ser, dela, em concreto, que estou a falar. Se a dita concorrente daquele programa for uma zelosa cumpridora de todas as regras, mandamentos e preceitos, maravilha. Mas eu não estou a falar dela, estou a falar em geral, em abstracto.

Outro exemplo. Não há muito tempo, ao falarem-me de uma pessoa, disseram-me que tinha uma empresa. O meu sexto sentido farejou coisa. Para me provarem que eu não tinha razão, disseram-me qual a empresa. Fui verificar. De facto a empresa existe, de facto essa pessoa é sócia, creio que sócia única. Objecto social: registo de patentes. Aí o meu faro apurou-se ainda mais. Melhor: eriçou-se. Registo de patentes?! Sei bem o que é a actividade de registo de patentes, sei o que exige. Afirmei categoricamente que a história estava mal contada. Era impossível aquela pessoa ter uma empresa de registo de patentes. Algum tempo depois, mostraram-me algumas facturas emitidas por essa empresa. Numa facturava 'x dias' a um certo valor unitário, sem especificar dias de quê. E numa outra facturava 'x items' a um outro valor unitário, também sem especificar quais os items. Valores baixos. E, obviamente, nada de nada de nada de nada a ver com patentes. Ou seja, quem tinha emitido aquelas facturas não fazia a mais pálida ideia do que são patentes. Como a internet tem destas coisas, googlei o nome da pessoa. E, claro, certinho, direitino, fui parar à sua página de instagram. Na sua inocência (ou estupidez), a pessoa tinha vídeos a promover os seus produtos, chegava a mostrar-se em casa a abrir uma caixa de cartão e a retirar os produtos: cintas. Cintas a granel. Cintas para afunilar a cintura, ocultar a barriga, salientar o rabo. O que ela vendia eram cintas. Nesses vídeos, dizia às pessoas para lhe encomendarem antes que esgotassem. Percebi que as vendas se faziam por ali. Provavelmente, as pessoas mandam mensagem a dizer que querem, ela deve dizer o MB Way, as clientes devem dizer a morada para envio, e está feito. Imagino eu. Devia fazer uma meia dúzia de facturas por ano para fazer de conta e o resto sabe-se lá como. E volto a dizer: imagino. Não sou inspectora das Finanças, não me compete andar atrás. Por isso, certo, certo, comprovado, não posso afirmar. O que sei é que, nas Finanças, está registada como uma empresa de venda de patentes. Profissão: empresária.

Fico perplexa, banzada, quase em estupor catatónico com o desplante desta gente. Meio mundo a inventar, a passar ao lado, a vender embustes e tretas. E para tudo há clientela. Seja a estupidez encartada do human design, seja os psicoterapeutas somáticos, os terapeutas sentimentais, os mentores de lifestyle, os criadores de conteúdos digitais, seja toda essa chusma de empresários que criam uma empresazeca de vão de escada e que não devem ser sujeitas a qualquer controlo -- para tudo há clientes. Para tudo. Ou seja, se estas pessoas, estas embusteiras, ao todo, serão da ordem dos milhares e se, cada uma, tiver umas centenas de clientes, já estamos a falar de centenas de milhares de obtusos que consomem e pagam por toda a espécie de porcarias -- ou seja, teremos a ideia da dimensão da mancha humana que é a nódoa de gente que consome todas estas patranhas.

Se calhar, verbas não da ordem dos biliões. é que, para além desta arraia-miúda há depois os tubarões. Bem sei. Concordo. Mas, seja muito ou pouco, é dinheiro que outros estão a pagar a mais para cobrir o que os que deveriam pagar não pagam. E é o princípio. E é a seriedade do sistema que é posta em causa. É aquela corrupção miúda, corrupção moral. E aquele sentimento aflitivo de que há os tais 25% da população que integram ignorantes, gente mal formada, obtusos, invejosos, crápulas, estúpidos, gente que, ainda por cima, geralmente entrega o seu voto a partidos que são se alinham com a democracia, com a verdade, ou com o bom desenvolvimento do país.

Não admira, pois, que, em Portugal, também 25% da economia seja paralela. Ah pois é, bebé.

segunda-feira, maio 18, 2026

O admirável mundo das novas profissões

 

Até há cerca de um ano mantive-me longe das redes sociais. Geralmente era eu que procurava a informação e, quase sempre, junto dos media de referência. Claro que também consumia os vídeos do youtube (e ainda consumo) mas, enfim, há que reconhecer que nada a ver com a avalanche, não editada, que agora me chega via instagram. 

Quando a minha filha criou a conta, perguntou se os posts que eu criasse para o instagram também deveriam ir para o facebook. Segundo ela, o facebook é coisa mais de terceira idade e que ainda há muita gente que começou aí e ainda aí se mantém. Portanto, disse que sim. Mas nunca me lembro de tal. Quando abro a caixa de correio, o que não é frequente, espanto-me com dezenas e dezenas de notificações, mensagens, pedidos de amizade que estão pendentes no facebook. Se lá vou, é tanta coisa que nem me entendo. E aquilo parece-me uma barafunda, nada a ver com a arrumação do Instagram. E, aliás, sendo o meu perfil público, não vejo a lógica de eu ter que aprovar o pedido. E tudo aquilo me parece um tal caos que desisto. Provavelmente qualquer dia desisto do facebook. E os posts do instagram não apenas vão para o facebook como para uma coisa chamada Threads e aí só consigo ver de soslaio pois parece que devia criar conta específica. Mas vi que uma minha coisa qualquer tinha milhares de visualizações. Não faço ideia se o Threads também funciona com base em 'seguidores' ou 'amigos' ou se é bar aberto ou se há comentários ou não. Mas nada disso é a minha praia, não tenho paciência, não quero perder tempo a aprender coisas que me parecem redundantes. O Instagram já me chega. 

Mas vem isto a propósito das coisas que aprendo no Instagram... Coisas que eu não poderia aprender apenas lendo o Guardian, e isto só para dar um exemplo. É todo um mundo novo. Muitas vezes aparecem-me posts de pessoas desconhecidas. Quando quero ver quem são, clico no perfil e, com muita frequência, aparece-me que são criadores de conteúdos digitais. Não sei se é porque acham que é o que está a dar ou se é mesmo a sua ocupação principal, mas, do que lá se vê, não haverá mais que isso.

Mas não é só. 

Há bocado apareceu-me um que se anuncia como psicoterapeuta somático. Nunca em tal eu tinha ouvido falar. Fui ver: descreve algumas das suas habilidades para tratar pessoas. Daquela conversa toda, não me pareceu ver ali qualquer base científica, tudo aquilo me pareceu uma chachada sem ponta por onde se pegue. Posso estar simplesmente desfasada do imenso leque de profissões que agora parece que brotam como cogumelos, e esta ser uma profissão legítima, validada por alguma Ordem, sujeita a regulação. Mas esta é apenas mais uma das que me vão aparecendo. 

Há poucos dias uma outra descrevia-se como especialista em human design. Como nunca tinha ouvido falar em tal coisa fui informar-me. E tudo aquilo me tresandou a treta de uma ponta a outra. Mas, pelo que vi, organiza cursos ou retiros ou coisa do género. E parece que desenha mapas. Se calhar antes designar-se-ia astróloga e não organizaria workshops ou encontros. E eu espanto-me: quem é que vai em tal conversa? Os clientes não se importam por nada daquilo ter qualquer fundamentação científica? Há assim tanta gente a embarcar em balelas e ainda pagar por isso ou ainda bater palminhas? 

Mas depois ainda há quem que se anuncia como coach ou mentor e, se eu resolvo ir espreitar a realidade que ali subjaz, vejo grupos (geralmente de mulheres) que se riem muito, frequentemente de braços abertos, boca aberta e, muitas vezes, de língua de fora e perna no ar. Não imagino sequer o chorrilho de disparates, de vacuidades, de banha da cobra que aí se vende. 

E depois há ainda quem faça sessões online para explicar as vantagens de suplementos alimentares. E quando, na minha inocência, pergunto se quem ministra tais sessões é nutricionista ou afim, respondem-me que não, que agora na internet encontra-se tudo o que é preciso. Mas dizem-me isto não com ar envergonhado de quem foi apanhado em falso mas como se a minha pergunta é que fosse absurda.

Quando me espanto por haver tanta gente que vota em partidos que apresentam propostas não fundamentadas, não deveria. Se há tanta gente que embarca nestas parvoíces, a quem nem ocorre saber se a profissão está homologada por entidades competentes ou  se esses pseudo-especialistas têm bases académicas para fazer aconselhamentos psicológicos ou human design (esta expressão, então, é de morte), como não haverão também de ir atrás da conversa de populistas e afins...?

Não sei que mundo é este. Mas, cá para mim, metade da população é mesmo assim, abestalhada, feliz com a sua ignorância, disposta a seguir ou a pagar a todos os que lhes dizem o que eles querem ouvir (mesmo que, à vista desarmada, se perceba que é tudo uma tanga). Metade não, estou a exagerar. Acho que é para aí um quarto, são os tais 25% de pessoas que votam sempre nos partidos ou nas pessoas que não interessam para nada, que se vê, a milhas, que tudo aquilo é uma 'furada'. E não estou a pensar só no Chega, no Ventura (ou, nos States, no Trump): já pensava isso de quem vota no PCP, no Bloco, de certa forma, em parte, na IL. Propostas vagas, simpáticas, incitamento, ainda que, por vezes, mais veladamente, à divisão do mundo entre o lado bom e o lado mau, 'nós, os bons, os prejudicados, os impolutos' contra 'os outros, os maus, os corruptos, os ladrões'. Por vezes, a estes 25% de gente que vai atrás de tudo o que os vendedores de banha da cobra vendem, por razões circunstanciais há mais quem se lhes junte, uma franja flutuante que tanto vai por ali como por aqui. Agora, em todo o lado, parece que há sempre 25% de pessoas que não sei dizer se são burras, ignorantes, inseguras, fúteis, marias-vão-com-as-outras ou o quê. Mas acho que andam sempre por aí.

E, para resumir, acho que é essa camadinha que alimenta esses profissionais de meia-tigela, gente sem escrúpulos ou sem consciência ou sem noção, que se armam em líderes, em mentores, em especialistas, em psico ou experts da treta e que não passam de sacos cheios de coisa nenhuma.

Ou, então, temos que nos ir habituando: uma onda de coisas fake a passar por cima dos incautos e, se calhar, um dia, quando menos dermos por isso, já a passar por cima de todos nós.

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Desejo-vo suma boa semana, a começar já por esta segunda-feira

segunda-feira, setembro 01, 2025

Sou seguidora do Padre David Gierlach, confesso

 

Há muitas coisas perversas nas redes sociais e, desde logo, a terminologia. Ser seguidora ou ter seguidores é qualquer coisa que, por si só, me causa aversão. É um conceito que me é adverso. Não sou seguidora de ninguém e agradeço que também me larguem a bainha da saia. Mas, nas redes sociais, é assim que funciona e é o abstruso nome escolhido, portanto, nada a fazer.

Também me faz impressão o hábito de deixar corações. Só em casos raros me lembro disso, geralmente porque aquilo me toca de forma particular. 

E é tudo tão estranho para mim que ainda nem sei que nome dar às coisas. Digo 'aquilo' porque nem sei como nomear. Post? Feed? Reel? No outro dia estava a publicar um dos meus vídeos marados e sem querer escolhi uma opção. Pensava que tinha escolhido feed mas, ao avançar, pareceu-me que era uma reel. Ainda não me dei ao trabalho de perceber as diferenças mas, por via das dúvidas, recuei e avancei como feed. Afinal hoje verifiquei que estão os dois publicados, ao lado um do outro. Dois vídeos iguais. Uma coisa mesmo burra. Claro que poderia ir ver como apagar um deles, porque aquilo assim não tem jeiteira nenhuma. Mas também não me apetece. 

Mas, voltando aos corações, o que acontece é que, por muito que me agrade, o meu gesto habitual é o de passar adiante, ao post seguinte. Não é por desinteresse ou de propósito: é simplesmente porque nem me ocorre parar e assinalar um coração. Identicamente também nunca vou ver se me puseram corações ou comentários. De vez em quando, reparo nisso. Mas é por acaso. Na vida real também não faço as coisas à espera de receber palmadinhas nas costas. Se as pessoas gostam e querem manifestá-lo, tudo bem. Mas se não se manifestarem está tudo bem na mesma. 

Em casos excepcionais, guardo (isto é, marco para guardar) algum post do instagram. Mas guardo apenas porque, como geralmente não sei o nome dos autores, se quiser voltar a ver, se não guardar, já não consigo recuperar. É que aquilo é uma espiral infinita, o mundo inteiro canalizado para aquele interminável, sempre vivo, desfiar de coisas.

Mas isto para dizer que, como o algoritmo mostra infindáveis coisas, sempre que vejo alguma coisa que me parece interessante, marco para seguir. E isto para ver se o algoritmo não se esquece de me mostrar o que essa pessoa for publicando. Com isto já estou a seguir mais de 3.600 pessoas, a maior parte das quais não portuguesa. 

E o que tenho que constatar é que, na realidade, se uma pessoa se focar no que lhe interessa, o algoritmo acaba por perceber os nossos interesses e desencanta matéria que sem dúvida vai de encontro aos nossos gostos. No meu caso, maioritariamente mostra-me temas de política (a larga maioria) -- política do lado democrático --, de arte, de arquitectura, de decoração, de jardinagem, de ciência, de saúde. E, aqui, tenho que reconhecer que acompanho as opiniões ou os ensinamentos de pessoas cuja existência desconhecia, e isso, sem dúvida, é uma tremenda mais valia das redes sociais.

Só vejo o Instagram. Embora a minha filha tenha definido que cada coisa que publico no instagram vai parar ao facebook, a verdade é que nem me lembro disso, e quando, muito esporadicamente, lá vou -- pois tenho a caixa de correio cheia de mails a avisar-me que tenho notificações, pedidos de amizade e mensagens no facebook --, quando lá chego é tal a confusão que geralmente arrepio caminho. O Instagram tem um look and feel mais arejado, mais moderno, mais organizado. O facebook tem um aspecto mais antiquado, e, sobretudo, parece-me uma balbúrdia, não encontro o que procuro, perco-me a meio do caminho.

Mas isto a propósito de um personagem que me apareceu e que me surpreendeu pela positiva. Marquei para seguir pois fiquei a modos que intrigada. E agora, de vez em quando, aparece-me. E vejo de gosto. Um padre interveniente, um padre que fala sem ser por meias palavras, um padre que parece interessar-se, deveras, pelo bem das pessoas. Não fala em nome da Igreja, essa veneranda e imbeliscável insttituição, mas em nome das pessoas. Casca no Trump que não é brinquedo, mas casca de forma serena, civilizada. Gosto de ouvi-lo. Não deixa passar uma. Fr David Gierlach. Seria interessante que, por cá, também tivéssemos padres a desmontarem as alarveiradas do Ventura ou, em geral, as patacoadas dos populistas, escondam-se eles em que partido se esconderem. Mas, se temos, nunca dei por nenhum.

Como não consigo colocar aqui os vídeos do instagram, fui à procura no youtube. Mas não fui bem sucedida: só há uns 3 ou 4 vídeos e não têm nada a ver com o que ele publica no instagram, são vídeos de sermões. Mesmo assim, para que o conheçam (caso ainda nunca tenham ouvido falar dele), partilho aqui um. Mas os que ele coloca no Instagram denunciando as estuporadas decisões e comportamentos do Trump são outra coisa. Se têm possibilidade de ver, aqui está o link para a página dele https://www.instagram.com/davidgierlach/. Creio que também tem conta no Facebook.

Este é apenas para o conhecerem.

Your Weekly sermon: nice or real?


Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

quarta-feira, junho 25, 2025

Theodoro, Sincera.mente, Kiko is Hot

 

O Instagram mostra-me coisas e geralmente gosto do que me mostra. Os algoritmos são bem concebidos, lá isso tenho que conceder. Por exemplo, ouço com atenção dicas sobre saúde, sobre alimentação, sobre exercício físico e já partilhei um ou dois vídeos com a família. E gosto muito de ver cortes de cabelo e transformações que quase parecem de personalidade só porque a pessoa mudou completamente de penteado ou de cor de cabelo. Quanto a decoração, jardinagem ou culinária isso nem se fala: vejo de gosto e aprendo sempre. Depois há os DIY (Do It Yourself) que me deixam fascinada mas que são tantos e tão variados que não consigo fixar um décimo do que vejo: truques para melhor dobrar e acondicionar roupa, para pintar, para transformar pequenos espaços em espaços multi-usos, para enfiar linha no buraco da agulha, para regar flores na nossa ausência, etc. E relatos de artistas que mostram como pintam, como incorporam outros materiais nas suas obras ou, simplesmente, que mostram os seus trabalhos. 

Um mundo.

E dá ideia que meio mundo tem coisas a ensinar aos outros: três alimentos maravilhosos, três alimentos péssimos, três cremes fabulosos, três truques fantásticos para disfarçar a barriga, três regras de etiqueta para estar à mesa. 

Vou navegando por ali e, como tenho dito, sem propósito. Não tenho nada para ensinar. Pego no telemóvel e digo a primeira coisa que me vem à cabeça. Digamos que são apontamentos, breves e irrelevantes testemunhos mas testemunhos de pensamentos ou coisas banais. Não sei se faz sentido. Penso nos recursos informáticos necessários para acondicionar, catalogar, tornar disponíveis a todo o mundo que queira ver coisas tão despropositadas. É como isto que aqui escrevo. São registos que ficam armazenados em servidores, que circulam pelas redes. Em qualquer parte do mundo a qualquer hora do dia, qualquer pessoa pode ver o que faço. E, no entanto, o que faço é totalmente irrelevante. Mas, se calhar, a vida é mesmo assim, uma sucessão de eventos, uns dignos de ficarem para a história e outros assim, banais, irrelevantes. 

No meio do que me aparece tenho conhecido personagens cuja existência desconhecia em absoluto e que agora vejo na boa. Destaco três. 

Um, o Theodoro, é um influencier brasileiro com mais de cinco milhões de seguidores, que tem recebido prémios e tem sido capa de revista. Acho-lhe piada. É extrovertido, alegre, bem disposto. Mostra-se com o marido, com os pais, com as tias, pessoas humildes, mostra o cão. Claro que não acrescenta nada de extraordinariamente existencial ao mundo. Mas, sendo um jovem gay e que é tão bem aceite pela família e pela sociedade, julgo que isso é importante, sobretudo para que os mais preconceituosos percebam que a homossexualidade não é uma opção, é uma orientação, e não é uma limitação nem uma menorização. Ninguém tem direito a ser mais ou menos feliz por ser ou deixar de ser hetero ou homossexual.


Outro é o Sincera.mente. Acho-lhe um piadão. É genuíno, é divertido, é boa onda. É drag mas uma drag com muita pinta, com bom gosto, inteligente, rápido na construção de uma boa tirada, com uma intuição e uma imaginação toda ela eivada de bom humor. As suas conversas na rua são um monumento à boa disposição e ao humor a sério.


O terceiro é o Kiko is Hot. Não sei bem definir qual a sua actividade (mas é puro desconhecimento meu). Se calhar é artista de teatro. Ou faz podcasts. Ou será DJ? Não sei. Mas gosto dele. É simpático, é divertido, goza com ele próprio. Também é gay. Vi que diz que, por ele, tanto pode ser do sexo masculino como do feminino. E acho que isso tem que ser respeitado. Acho que deve ser uma boa onda, uma boa companhia, uma graça.


Nestes tempos em que parece que a homofobia está outra vez a caminho de ser legitimada, penso que é importante que figuras públicas que são gays não se escondam, mostrem que são estimadas, amadas pela família, respeitadas. E penso que quem está seguro da sua sexualidade e não tem receio de ser 'contagiado' ou receio de ser olhado de lado deve falar do assunto de forma aberta, simples, sem tabus. Só os cobardes podem achar que quem é homossexual é um ser inferior, que pode ser insultado, humilhado, ameaçado.

Mau é ser mesquinho, hipócrita, manipulador, narcisista, mentiroso, vigarista, burro ignorante e prepotente, agressivo. A homossexualidade não é um traço de caráter pelo que afastar ou repudiar ou pretender isolar socialmente alguém só por isso não faz sequer sentido.

Só por ter conhecido estes três bacanos já acho que o Instagram tem valido a pena. 

E só espero que o Chega, com o PSD a reboque, não apareça por aí um dia destes, qual Trump, a querer proibir espectáculos drag. Desta gente tudo se espera. 

quinta-feira, maio 22, 2025

Um reborn de nome André

 

Desde que, há três meses, comecei a frequentar o Instagram todo um mundo desconhecido se abriu frente aos meus olhos inocentes. Vejo e ouço coisas que me deixam perplexa. Antes das redes sociais apenas quem tinha algo de relevante a dizer era chamado a opinar em público. Era a quem detinha o poder editorial que incumbia a responsabilidade de identificar os melhores e levá-los ao púlpito maior, televisão, rádios, jornais ou revistas. Com as redes sociais, qualquer um -- qualquer zé-ninguém, qualquer maria-vai-com-as-outras, qualquer burro encartado, qualquer tarado, psicopata, narcisista, marginal, ignorante & ordinário, qualquer gentinha sem noção -- tem o púlpito à sua disposição e canal aberto para o mundo. E qualquer um, tendo a sorte de ter audiência, consegue viralizar, monetizar a sua 'mensagem', catequisar. Influenciar. É o tempo dos influencers. Dos políticos influencers. E qualquer um pode ser influencer. 

Tenho a sorte de o algoritmo ter percebido mais ou menos os meus gostos e, por isso, há o lado bom de me ser dado a conhecer o que muitos escritores, editores, pintores, escultores, galeristas, jornalistas, pessoas de bom gosto têm a dizer ou a mostrar. Mas, certamente porque me detenho a ver, também me aparecem cabeleireiros, maquilhadores, cozinheiros, nutricionistas. Muitos brasileiros.

E, no meio, por vezes, não sei a que propósito, coisas estranhas que não percebo se são paródia ou mera parvoíce e que não me fazem parar. Mas tão frequentemente me têm aparecido que agora prestei atenção. Sendo eu novata nas redes sociais (ie, no Instagram) se calhar estou a achar estranho o que, para quem anda há anos pelo facebook, instagram ou tik tok, já deve ser banal. Mas, ainda assim vou falar de um fenómeno que desconhecia e que está a deixar-me perplexa.

E estou a falar em concreto de uma coisa que dá pelo nome de reborn. Bebé reborn. Eu via mulheres com uns bebés meio estranhos ao colo. Depois, prestando atenção, percebi que eram bonecos. Mas as mulheres andam com eles ao colo como se fossem bebés de verdade, levam-nos a passear, fazem festas de anos. Inclusivamente vi uma a chorar, revoltada, porque tinha ido com o reborn ao médico e o médico tinha-se recusado a atendê-lo. E depois vi que já havia várias pessoas a fazer vídeos a discutir se sim ou não e até uma advogada a aconselhar os médicos a quem apareçam 'mães' de reborns, dizendo como devem agir.

E eu, perante tudo isto, fico como se levasse uma pancada na cabeça. Como é que é possível?!

Fui ao chatgpt confirmar o fenómeno, ver se esta maluquice existe mesmo.

Transcrevo o que escreveu:

Um bebé reborn é uma boneca feita com extremo realismo para se assemelhar a um recém-nascido ou a um bebê de poucos meses de vida. Esses bonecos são criados a partir de kits de vinil ou silicone, que são moldados, pintados e montados manualmente por artistas — conhecidos como "reborners" — que dedicam várias horas (às vezes dias) a cada peça. Os detalhes vão desde a coloração da pele com veias visíveis, até o enraizamento fio a fio dos cabelos e a aplicação de peso interno para que o boneco tenha o peso e o toque de um bebê real.

A origem desse movimento remonta à década de 1990 nos Estados Unidos, com raízes na comunidade de colecionadores de bonecas. Desde então, a prática se expandiu significativamente, ganhando popularidade em diversos países da Europa e da América Latina, especialmente no Brasil, onde há feiras, cursos e lojas especializadas nesse tipo de arte. Além do público colecionador, os bebés reborn atraem também pessoas que os utilizam por razões emocionais ou terapêuticas — como mães que perderam filhos, pessoas com depressão, ou idosos com Alzheimer, para quem a interação com esses bonecos pode trazer conforto. 

O alcance dessa tendência vai além do simples colecionismo. A popularidade dos vídeos nas redes sociais — especialmente no YouTube, TikTok e Instagram — ampliou o interesse pelo universo reborn. Muitos criadores de conteúdo compartilham rotinas de "cuidados" com seus bonecos como se fossem bebês reais, atraindo tanto críticas quanto admiração. A indústria se profissionalizou: há artistas renomados internacionalmente, bonecos que podem custar milhares de dólares e até certificações de autenticidade.

Ainda que para alguns a prática pareça excêntrica ou até inquietante, para outros ela representa uma forma legítima de expressão artística, uma válvula emocional ou mesmo uma ferramenta terapêutica. Isso mostra que os bebés reborn são mais que uma moda passageira; eles fazem parte de um fenômeno social multifacetado que une arte, afeto e mercado.

Há influenciadoras que fazem parte de uma comunidade crescente que utiliza os bebês reborn não apenas como objetos de coleção, mas como parte de experiências emocionais e artísticas. Seja por motivos terapêuticos, expressão artística ou simples afeto, elas compartilham suas jornadas com autenticidade, atraindo tanto admiração quanto debates sobre os limites dessa prática.

Ou seja, o que vi foram pessoas não colecionadoras de bonecas realistas, nem idosos ou doentes com Alzheimer, mas mulheres que, por algum distúrbio ou sei lá porquê, agem como se fossem mães de verdade dos bonecos e criam páginas nas redes sociais para partilhar as suas experiências com aqueles 'filhos', mostram o quartinho dos bebés, os brinquedos deles, os cuidados que requerem, etc.

Em condições normais, eu diria que uma mulher que trata um boneco como se fosse um filho de verdade e se aliena a ponto de se esquecer que aquilo é um ser inanimado e não um ser vivo, é alguém que precisa de ser tratado. 

E, no entanto, não. Expõem-se, têm centenas de milhares de seguidores, formam uma comunidade, reivindicam, reclamam direitos.

E tudo como se fosse normal. E parece que ninguém acha isto doentio, sinistro, distópico.

Perante situações destas, eu penso: como se dialoga com pessoas assim, que acreditam no mundo paralelo em que se posicionam? Que conversa racional é possível ter com pessoas assim?

Sinceramente não sei. E isto inquieta-me.

Não quero fazer extrapolações abusivas mas quanta gente perturbada deste ou doutro tipo --, ou pessoas que acreditam que a terra não é redonda, ou que, sendo imigrantes, acreditam que quando um político se atira aos imigrantes não está a ameaçá-los a eles mas a outros e, portanto, o apoiam, ou pessoas que pouco têm mas que o maior medo que têm é que os que ainda têm menos venham roubar-lhes alguma coisa ou que se insurgem contra os desgraçados miseráveis que recebem uns trocos para sobreviver --, constitui o público alvo dos populistas? Quantas destas pessoas, tão distantes da realidade concreta, tão facilmente manipuláveis, votam nos populistas só porque sim, só porque os populistas dizem 'a verdade' ou prometem 'abanar isto tudo'?

E como podem os políticos decentes, que falam a verdade, com base em factos, em estatística, em dados históricos, reais, fundamentados, interagir com estas pessoas? Não sei. São línguas diferentes, comprimentos de onda diferentes. 

Claro que a análise que se pode fazer à população que vota em partidos populistas não é una. Uma análise a fazer tem que ser multifactorial. Uns votam porque são fascistas e estavam à espera de quem viesse resgatar o antes do 25 de Abril, outros são levados pelo que as igrejas evangélicas, maná, do 7º dia ou outras recomendam, outros são bolsonaristas e, aqui deslocados, seguem a cópia, outros acreditavam nos amanhãs que cantam do comunismo e agora viraram para uma realidade mais actual, outros não vão além do mundo dicotómico dos bons e dos maus e votam no que diz que vai atrás dos maus, outros são ex-combatentes, ainda com feridas a sangrar da guerra e votam em quem diz que é preciso não esquecer os ex-combatentes, outros votam em quem se ajoelha, tem crucifixos no bolso e fala pondo as mãos como se estivesse em prece, outros votam porque não gostam da cor dos imigrantes que agora aparecem lá na rua, outros votam porque acreditam que aquela pessoa que assim lhes fala ao coração é sincera e se preocupa de verdade. 

E isto é complicado porque se é fácil levar pessoas assim a seguir um líder carismático que parece falar para cada um (mesmo, de facto, nada dizendo de concreto), muito difícil é levá-los a perceber que fazem mal em escolher serem 'conduzidos' por um populista que nada mais faz do que alimentar-se da sua ignorância, do seu medo, do seu distanciamento da realidade.

Pessoas assim mais depressa aceitam dar o seu voto a um político reborn, fake, do que a um político sério, decente.

E isso é um perigo. Ou, sendo eu uma optimista, um desafio. 

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Para que tenham maior visibilidade, transcrevo alguns comentários que eu e o meu marido temos recebido e que muito agradecemos. Não transcrevo um dos comentários, excelente, pois vejo que é uma transcrição e não consegui identificar ao autor original para aqui atribuir os créditos. Mas transcrevo outros. Não todos, para isto não ficar ainda mais extenso do que já está.

O SÍNDROME DE ESTOCOLMO

(Amar o agressor)

As eleições legislativas de 2025 trouxeram uma clarividência sombria: uma parte significativa da população votou contra os seus próprios interesses, com uma convicção que está paredes meias com a cegueira. Dá pena!

Mal informados e mal formados ainda acreditam no coelhinho da páscoa ou no "4 pastorinho" ou numa qualquer igreja maná ou outras, totalmente alienados politicamente.

É o velho ditado a ganhar nova vida - o povo descalço continua a votar em quem lhe roubou os sapatos.

E desta vez ainda lhe bate palmas!

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JAMAIS CONFUNDAM O POVO, com os inimigos do povo. Nunca caiam na tentação de ODIAR O POVO. Amilcar Cabral

A política é o meio através do qual homens sem principio dirigem homens sem memória. Voltaire

Uma nação que tem medo de deixar seu povo julgar a verdade e a falsidade em um mercado aberto é uma nação que tem medo de seu povo. – John F. Kennedy

A maioria dos males que o homem infligiu ao homem veio do facto de as pessoas se sentirem bastante certas de algo que, na verdade, era falso. BERTRAND RUSSEL

O servo ideal de um governo totalitário não é o nazista convicto ou o comunista convicto, mas pessoas para quem a distinção entre facto e ficção e entre verdadeiro e falso não existem mais. – Hannah Arendt

Esta mascarada enorme-com que o mundo nos aldraba-dura enquanto o povo dorme-quando ele acordar acaba . Antonio Aleixo

quarta-feira, maio 14, 2025

Sobre este dia 13 de Maio

 

Depois de um dia de galdeirice, apetecer-me-ia reportar essa actividade. Mas, noblesse oblige, face à indisposição do Ventura, não me parece que haja clima para grandes bordejos. 

Direi apenas que o almoço foi composto de petiscos em versão comida de autor e que, de cada vez que vinha o prato, eu pensava: 'já foste'. Coisinhas pequeninas cuidadosamente dispostas, circundadas por nano-caules ou nano-folhinhas, tudo em versão lilliput. Muito bem confeccionado, tudo saboroso e bonito. 

Curiosamente, saí de lá bem, confortada, e, mais curiosamente ainda, cheguei à hora de jantar sem fome.

Enquanto lá estávamos -- numa mesa junto ao vidro que dá para a rua --, fui à casa de banho. Contou-me o meu marido quando voltei que, nesse ínterim, tinha passado uma conceituada jornalista, conhecida pela sua pretensa sabedoria e pela sua conhecida animosidade, diria até mau feitio, contra alguns ódios de estimação. O meu marido estava um pouco desconfortável com o que viu, disse que a senhora, a andar, quase parece meio trôpega (embora não tenha idade para isso), que tem uma figura um pouco embaraçosa, nada a ver com a pose algo superior com que se apresenta ao balcão do comentário televisivo. Cada um é como é e ninguém tem nada a ver com isso nem tem que alvitrar palpites sobre o tema. Mas, na verdade, já não é a primeira nem a segunda nem a terceira vez que, vendo ao vivo os temíveis jornalistas ou comentadores televisivos, penso: 'coitados... na verdade não metem medo a ninguém...'. É a televisão que é a arma temível, não as (por vezes) fracas figuras que por lá peroram.

Não há muito, íamos no passeio atrás de um que tem a mania que pode demolir políticos, em especial se forem mais à esquerda. Escreve e fala sempre assanhadamente como se tivesse na manga segredos e podres capazes de atirar os seus alvos para a sargeta. Ia ao telefone, a trocar informações com alguma fonte. E eu, que tenho um ladozinho um bocado infantil, ao vê-lo com ar de totó, só pensava: agora era tão fácil passar-lhe uma rasteira... e lá ia o temível jornalista com os cornos ao chão. Mas, claro, a minha mente policia-me e impede-me de concretizar essas inocentes diabruras. Aliás, acérrima polícia de costumes que também é, até me impede de verbalizar expressões mais vernaculares. Fica tudo dentro da minha cabeça.

Posso também acrescentar que, de regresso a casa, passámos pelo supermercado. Havia choquinhos na bancada do peixe e não resisti a trazê-los para os cozer com tinta. O meu marido perguntou se não ficariam bons assados no forno. Não me pareceu, eram miúdos demais. 

Lavo-os bem. Por acaso estavam carregados de areia, lavei e lavei e lavei. Não arranjo, cozo-os com todas as suas vísceras e tentáculos. Cozo-os só em água, não muita. Nem sal ponho pois eles mesmos se encarregam de salgar a água. A água fica negra, claro. Quando estão macios, junto batata doce cor de laranja e roxa, com casca, cortadas às fatias grossas. Ficam tingidas e saborosas. Depois é que arranjo e tempero.

Só que, depois de ter colocado as batatas, ligou a minha filha, ligou o meu filho, e as chamadas foram mais longas. Quando vim ter com o meu marido à sala, deu-me o cheiro. Sempre acabou por ter chocos assados. 

Felizmente, no tacho, coloco-os sempre com a prancha calcária para baixo. Por isso, o que foi à vida foi a membrana fina. Essa desapareceu, derretida no fundo do tacho. Depois as placas dos chocos ficaram castanhas, de queimadas que ficaram. Daí para cima ficou tudo bom, mas quase desfeito. Claro que o pior foi lavar o tacho. Tudo queimado, tudo negro, um cheiro a choco assado que nem vos digo nada. Caraças.

Mas estavam bons, embora quase tudo transformado em puré.

Também vi, depois, nas mensagens de um grupo de amigos, que um esteve doente e que ainda estará com um problema resultante da cirurgia, supostamente um mal menor. E fiquei como sempre fico quando sei de algum problema com os meus amigos, em especial os de longa data: parece que a modos que tolhida, talvez assustada. Tendo a pensar que eu e os que conheço de há séculos somos eternos, eternamente jovens, eternamente alegres, eternamente saudáveis. Quando constato que, de vez em quando, alguém adoece, fico triste, preocupada, com vontade de fazer ou dizer qualquer coisa para que se sintam animados, esperançosos, com optimismo, motivados para ultrapassar as dificuldades. Mas muitas vezes não digo nada com receio de que, ao transmitir uma mensagem de ânimo, deixe transparecer a minha preocupação. Mal comparado, foi o que aconteceu quando a minha mãe estava no hospital, muito mal, e, estando eu a querer animá-la, vejo aparecer um padre no quarto. Fiquei em pânico, com medo que ela percebesse que a morte estava a rondar. Lembro-me que enxotei o padre o mais educadamente que consegui mas numa aflição, receando que ele quisesse dar-lhe a extrema unção. E, de facto, no pouco que ele conseguiu dizer, houve lá umas palavras que me deixaram em transe, furiosa. Salvo erro, dirigindo-se a não sei que entidade, deus ou nossa senhora, não faço ideia, disse: 'recebe esta nossa irmã...'. Não sei se a minha mãe se apercebeu de alguma coisa mas eu fiquei traumatizada com isso. Mas, verdade seja dita, nem sei o que é que dá mais conforto a quem se sente menos bem, com incómodo físico, com receio do que por aí possa vir -- se é que tentem animá-los, tentem transmitir esperança e força, ou se é que lhes digam que se compreende o susto e o medo. Não sei. E acho que deveria saber pois posso agir desaquadamente numa altura em que alguém, estando mais vulnerável, precisaria do apoio devido.

Depois vi as imagens do André Ventura e também fiquei um bocado impressionada. Ainda por cima é bem mais novo do que eu julgava. Politicamente não posso estar mais distante dele. Tudo me separa do populismo. Mas se, a nível político, gostava que ele se estampasse nas eleições, a nível pessoal, não quero o seu mal. Se ele tem pais, imagino o medo que sentiram ao ver o filho agarrado ao peito e ao pescoço e a desfalecer. E depois o Chega é ele. Se ele se retirar de cena, nem que seja por uns dias, não há Chega para ninguém. E a ele, que de burro não tem nada, isso também deve preocupar. No seu íntimo, o seu sonho deve ser arranjar maneira de ainda chegar à liderança do PSD, um partido minimamente respeitável e não aquele aglomerado de gente desqualificada que é o Chega.

Mas, enfim, espero que melhore. 

E agora vou espreitar o instagram (@veramulanver) antes de me ir deitar. Aquilo é, verdadeiramente, um infinito caudal de cenas, uma janela de onde se vê o mundo (ou parte dele), uma imparável torrente de imagens e palavras efémeras. 

A minha filha no outro dia disse-me que deixar corações ou mensagens nas outras pessoas é importante para alcançar algum engagement -- e espero não estar a distorcer o que ela disse pois há ali uma lógica e uma semântica que ainda não domino bem. Acontece que, salvo raríssimas excepções, nunca me lembro de tal coisa. Aliás, sempre achei essa coisa dos likes uma puerilidade, uma fixação. As pessoas estarem a contar likes ou seguidores parece-me uma coisa tonta, um sinal de carência afectiva -- nem sei. Mas, na verdade, contra factos não há argumentos e tonta devo ser eu por estar tão fora destes tempos em que as redes sociais quase parece que tendem a substituir-se ao mundo real. 

Para já, tenho 251 seguidores, e, tal como ficava estupefacta por tantas pessoas descobrirem o meu blog, agora também fico admirada quando pessoas que não faço ideia quem sejam se tornam minhas seguidoras. Sinto-me agradecida. Comecei a ter conta de instagram em Fevereiro e não faço ideia se 251 seguidores é um número que não envergonha ou se é tão pouco que até dá pena. Mas, seja como for, é o meu ritmo. Não quero nem sei nem me apetece andar à pesca de seguidores. 

Também acontece que, acho eu, tudo o que ponho no Instagram vai também para o Facebook. Mas eu nunca vou ao Facebook, esqueço-me, parece que não me entendo com aquilo, parece-me antiquado, não sei. Mas, volta e meia, reparo que tenho mails a dizer que tenho notificações. Vou ver e são pessoas a quererem ser minhas amigas no Facebook. Mas, como aquilo é público, acho que não tenho que fazer nada. Se querem ser minhas amigas ou seguidoras, pois muito bem, que sejam. O pior é se eu tenho que as puxar ou dar algum ok e estou a deixá-las penduradas. Tenho que me informar. Não quero parecer desagradável ou que pensem que estou armada em coquette.

E é isto.

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Dias felizes

domingo, maio 04, 2025

O lado lúdico de algumas pequenas coisas

 

Ontem falei da minha improdutividade mas esqueci-me de referir um outro aspecto: toda a vida trabalhei muito e sempre tive a preocupação de que fosse trabalho que se visse (muitas camisolas feitas, muitas telas pintadas, muitos tapetes feitos, muitos livros escritos e, no trabalho, quase sempre acumulando diferentes funções e, ultimamente, trabalhando até, ao mesmo tempo, em diferentes empresas). Parece que só me realizava se trabalhasse muito, se fizesse coisas complicadas, se me auto-propusesse objectivos difíceis de alcançar.

Mesmo depois de me reformar, parece que todos os dias me auto-estabelecia um monte de coisas para fazer. 

E agora, ao fim de tantos anos, vá lá eu saber porquê, começou a saber-me bem não fazer nada. Claro que o meu nada não é exactamente nada. Mas, ainda assim, é uma novidade. Permito-me passar uma tarde (quase) inteira a ler, a ver vídeos, a percorrer redes sociais, a flanar, a fotografar. 

Por exemplo, no instagram, há um cabeleireiro italiano que faz maravilhas. Vejo-o de gosto. Fico com imensa vontade de pegar numa tesoura e atirar-me ao meu cabelo a ver se consigo reproduzir aqueles feitos. Não ponho aqui o link pois não fixo o nome e depois não consigo encontrá-los. Mas não é grave pois aparece-me todos os dias. E há um número infinito de mulheres (e de homens) que se mostram a disfarçar olheiras, a maquilhar-se de maneira a alongar os olhos, a parecer que têm os lábios maiores, as maçãs do rosto mais subidas. A maquilhagem serve para tudo. E gosto de ver como põem isto e depois aquilo e mais aquilo, carradas de produtos para os mais diferentes fins, todos aplicados em cima uns dos outros, e usam pincéis de todo o tipo e feitio e esponjinhas e apetrechos para alisar, para esfumar, para iluminar. Gosto de ver. Já pensei até arranjar algumas coisinhas daquelas para experimentar. 

E, no youtube, o que eu gosto de ver animais... Acho que o comportamento inteligente dos animais é verdadeiramente maravilhoso. Espanto-me sempre. E outra coisa que vejo sempre com atenção é a construção de pequenos lagos e o efeito que eles têm na atracção dos animais. Aparecem para beber água, para brincar, para se banharem. Fico sempre com vontade de fazer isso in heaven. Só ainda não me atirei a tal pois, quando chove, é tranquilo, auto-abastece-se, mas, sem chuva, como fazemos para lá manter a água? Mas as imagens colhidas pelas câmaras mostram uma actividade fantástica.

Claro que também leio jornais, vejo entrevistas e vídeos interessantes, como o que aqui abaixo partilhei, sobre a actualidade, mas há um lado lúdico que me sabe bem quando vejo coisas como esta aqui abaixo.

Isto é o que acontece quando se constrói um lago para a vida selvagem

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Desejo-vos um belo dia de domingo

(e queiram continuar a descer)

segunda-feira, março 31, 2025

A importância dos trabalhos manuais

 

Gostei de ver o vídeo que aqui partilho. Aliás, gosto sempre de ver os vídeos deste médico. Neste caso ele aborda um tema que, para mim, sempre foi caro: a importância dos trabalhos manuais. 

Aliás, não por acaso, o algoritmo do Instagram já me topou e passa a vida a mostrar-me cabeleireiros a fazer cortes de cabelo que me dão vontade de sair por aí a arranjar gente que me deixe cortar-lhe o cabelo, gente a fazer bolos ou cozinhados, gente a fazer pinturas, arranjos florais, dobragens, arranjos de móveis, até a dobrar roupa de forma a optimizar o espaço dentro de malas de viagem. Se antes me apareciam influencers a fazerem unboxing de livros (tenho aprendido algumas terminologias...) , coisa que me deixava possuída e cheia de vontade de os imitar fazendo vídeos malucos, ou a maquilharem-se ou a mostrarem outfits (e, justamente, este domingo fiz uma reel * -- ah, termozinhos mais fofos... -- a parodiar essa de me mostrar a realizar a minha rotina não de skincare mas de maquilhagem) agora já fez a agulha para actividades mais concretas. 

No vídeo abaixo, o médico não inclui a escrita como um hobby de trabalhos manuais mas eu acho que é. Posso até garantir que, por vezes, os meus dedos tomam as rédeas do processo e escrevem sem que a cabeça saiba o que eles estão para ali a sapatear no teclado. Escrever também me activa, também me concentra, também me desliga das maçadas de que o mundo está a deitar por fora.

De qualquer forma, de tudo o resto que ele fala, eu sinto um apelo grande para fazer. Por exemplo, ultimamente ando com vontade de fazer um poncho de crochet todo às cores, incluindo com fios com brilhantes coloridos. Danadinha. Danadinha para fazer uma piece of art.

Por vezes penso que um dia destes ainda vou ter que me render e voltar a organizar-me através de agenda, como quando trabalhava e tinha a agenda sempre enervantemente cheia, só que para fazer assim: das 15 às 16, crochet, das 16 às 17, tapete de arraiolos, das 17 às 18, pintar, das 18 às 19 caminhada, das 19 às 20 fazer o jantar, ver os mails, o blog, fazer os telefonemas à família, etc. A escrita, provavelmente, ficaria para o slot (ah... a falta de saudades que eu tenho de quando me andavam a perguntar qual o slot que eu tinha disponível) das 23 às 2 do dia seguinte. A manhã ficaria para a caminhada da manhã e para o ginásio três vezes por semana e, no intervalo, para algumas compras, lavagens de roupa, arrumações e afins.

É que, se não for assim, ou seja, se não começo a organizar-me, vou deixando mil coisas para trás. 

Mas, enfim, isto para dizer que mil vezes mais andar entretida com coisas concretas do que perder tempo a 'conhecer-me melhor', a reflectir sobre as coisas da vida, a olhar para ontem ou a pensar na morte da bezerra. Não quero com isto dizer que quem o faça seja mais infeliz que eu. Quero é dizer que esta forma de usar o tempo que a vida tem concedido a graça de colocar à minha disposição me traz bem estar, motivação, alegria. 

E, pelo que o Dr. Drauzio Varella diz, faz bem ao corpo e à alma. Portanto, assim seja. Valeu.

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* Se soubesse colocaria o link para a story acima referida, o vídeo que coloquei no instagram a mostrar como me maquilho. Mas não sei. Ainda não sei bem manusear aquilo. Para os posts ou feeds ou lá como se chama aquilo, sei como partilhar o link. Para a story não sei. Para se ver, carrega-se na fotografia do perfil. Mas creio que quando coloco uma story nova, a anterior vai à vida. Mas, pronto, se tiverem curiosidade vão até lá e experimentem. Quando enviei o vídeo para a minha filha ver protestou... Aliás, começou por me enviar uma mensagem a dizer medooooooo.... Os meus netos, a quem ela mostrou, também ficaram chocados. Ao telefone fartaram-se de protestar. Não compreendo a reacção. Eu gostei de fazer. E estou a fazer e já com ideias para fazer outros ainda mais sui generis. E o meu marido, quando lhe mostrei, riu-se. E, no fim, concluiu o que sempre conclui: 'Só te dá para coisas dessas, maluquices...'. Mas vi que estava divertido. 

Enfim. Cada um faz o que pode. Um dia faria obras mais apuradas.

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Adiante. 

A importância de ter hobbies e fazer trabalhos manuais

Hoje, a tecnologia resolve tanta coisa para a gente que esquecemos de usar a mente. Com isso, o cérebro deixa de ser estimulado, o que pode levar ao declínio cognitivo.

As atividades manuais são ótimas não só para exercitar a mente, mas também para reduzir o estresse, aumentar a sensação de bem-estar e ajudar na prevenção de doenças neurodegenerativas.

Neste vídeo, Drauzio fala sobre a importância dessas atividades.


terça-feira, fevereiro 11, 2025

Ano novo, vida nova

 

No primeiro dia do ano, no meio de festejos e celebrações, consegui arranjar tempo para conseguir cumprir o meu desejo: publicar um livro. Já estava muito encaminhado, quase, quase, mas consegui que o que faltava se concretizasse ainda no dia 1 de Janeiro. E, depois desse, já avançaram outros. 

Porque li por todo o lado e me disseram que, sem redes sociais, é para esquecer, cedi e rendi-me: aderi ao instagram. Não publico selfies nem tenho gatinhos para mostrar. Estou a dar os primeiros passos, a aprender, a tentar perceber qual o gozo ou a utilidade. Mas já estou a dar os meus primeiros passos e a ver como tirar partido sem ficar 24 horas por dia a ver a avalancha de posts que, em contínuo, corre pelo feed. Isto já para não falar nas stories e em tudo o resto.

E porque era uma necessidade que vínhamos sentido e também muito por pressão familiar, inscrevemo-nos num ginásio e já começámos a 'malhar'. Faço bicicleta, passadeira, máquinas para os braços, máquinas para as pernas. 

Claro que tendo os dias as mesmas horas, há que reajustar rotinas para encaixar novas solicitações. As caminhadas continuam sagradas, tratar da casa, cozinhar, falar com a família, ir às compras, tudo isso continua a fazer parte dos imprescindíveis, portanto, por vezes o tempo parece que não chega. Parece não: não chega. Não chega mesmo.

Claro que há que pacientar pois as alterações nas rotinas levam algum tempo até que a gente as encaixe sem perturbação.

Depois, pelo meio, há os extras que, parecendo que não, roubam tempo. Por exemplo, hoje fui à consulta anual de cardiologia. Antes tinha feito análises e exames. Felizmente está tudo bem. E o médico confirma que só faço bem em somar o exercício físico mais 'pesado' às caminhadas. Para a semana, adicionaremos pilates. Mais tempo adicionado às novas rotinas.

Mas, para uma consulta, que deve ter demorado menos de meia hora, perdi praticamente toda a tarde. Ir, estacionar, entrar, esperar pela vez (como sempre, o médico estava mais de uma hora atrasado), depois, assim como assim, não se ia desperdiçar o passeio sem ir comer um belo gelado. Depois ainda fui ao supermercado. Conclusão: horas.

Ainda não é hoje que vou divulgar os nomes dos livros nem o nome da autora nem o caminho para o meu instagram pois ainda estou a apalpar terreno, a perceber se as coisas têm pernas para andar. Logo que me sinta mais confiante, de tudo aqui darei a devida conta.

Acho que vos devo isso pois a vossa presença aí desse lado sempre foi um incentivo, uma companhia, uma mão que se estende. 

Até lá peço que não levem a mal não ter respondido a comentários ou a mails. Não tenho tempo... Leio tudo, disso podem estar certos. Quando aprender a organizar-me dentro destas novas solicitações, creio que voltarei a ter mais disponibilidade.

Abraços.

quinta-feira, fevereiro 06, 2025

É oficial: sou humana. De qualquer forma, ainda estou sob vigilância pois parece que inspiro uma certa suspeição.

 

Daqui por algum tempo, quando a coisa estiver melhor dominada, contar-vos-ei. Mas, para já, posso adiantar que fui bloqueada por desconfiança de que não sou humana. Tive uma certa vontade de os mandar bugiar. Mas como não sou de me ficar, fui à luta. Fiz e fiz e fiz, passei prova atrás de prova, até as mais absurdas e impensáveis, para provar que sou humana. Ainda assim tive que esperar mais que um dia para que analisassem o recurso.

Hoje recebi a comunicação: pediam desculpa e acreditavam que sou humana. Mas, passado um bocado, mostraram que estão de olho. Ainda não tenho liberdade total.

Inteligência artificial a pleno. Os humanos bloqueados por algoritmos que desconfiam de nós.

O admirável mundo novo, ao qual nos vamos habituando, tem muito de perverso. Temos que nos nivelar, temos que nos cingir a regras que desconhecemos -- senão somos banidos.

Mas é o que é.

Hoje fico-me por aqui. Depois de festejos, que estamos em plena época de aquários, depois de ainda irmos passear o dog, noite cerrada, um frio de rachar, depois de ter estado a ver coisas que não consegui ver antes, agora estou aqui com a cabeça a fervilhar de ideias. Mas se as ponho em prática, ainda lá veem os outros moer-me a cabeça a dizerem que têm dúvidas que sou humana.

sábado, setembro 07, 2024

Quando as coisas podem ser muito boas e muito más

 

Quantas vezes já aqui falei dos tremendos benefícios da Inteligência Artificial e dos tremendos riscos se não houver um apertado, sérios e muito rigoroso controlo na sua utilização? Muitas, muitas.

Sou assídua utilizadora do ChatGPT, uma das mais extraordinárias ferramentas de uso comum, ou de outros tipos de IA. Na Saúde a IA deve vir a proporcionar incríveis avanços. Mas em todos os ramos do saber se sentirá um incremento exponencial na precisão e na rapidez dos processos de decisão.

Mas os riscos, senhores, os riscos...

Se já estamos a ver os riscos de termos ferramentas de uso tão geral, tão ubíquo, tão intenso (como o X, ex-Twitter, o Facebook, o Instagram, o WhatsApp) nas mãos de gente estranha, auto-centrada, mais amiga de regimes autocráticos do que de regimes democráticos, gente que não respeita a legislação dos países em que opera, gente não por acaso apoiante de Trump, não será difícil antever os riscos de potentes motores de Inteligência Artificial nas mãos de quem se está nas tintas para regulações ou constituições 'locais'.

E uso a expressão 'locais' pois é assim que as grandes empresas tecnológicas que operam em vários países, em vários continentes se referem à legislação desses países. Respeitar as diferentes 'localizações' é daquelas maçadas a que se obrigam se contratualmente a isso estiverem vinculadas. Não o estando, é para o lado em que se deitam melhor.

No Brasil, exigiu-se que houvesse no Brasil alguém que respondesse pelo X. Não há como não há em quase todo o lado. E do Facebook há em Portugal? Ou do Instagram? Ou de tudo isso...? Um dia que se queira reclamar, bate-se a que porta?

A questão é que o Elon Musk se está nas tintas. Proibir  X no Brasil...? Está bem, está? Tecnicamente como é que isso se garante? 

Esta gente é fora-de-lei, é gente que pensa de outra maneira. Não querem saber de danos colaterais, não querem saber de problemas éticos, de questões constitucionais. É gente que está noutra. Um perigo.

A Inteligência Artificial pode ser um precioso auxílio para o desenvolvimento, para a democracia. E para a humanidade. Mas também pode ser totalmente destrutiva.

O vídeo abaixo é muito interessante. 

Yuval Harari fala sobre lançamento de Nexus e inteligência artificial! | 

Conversa com Bial

Yuval Harari, escritor israelense e autor do best-seller internacional Sapiens: Uma breve história da humanidade, se desdobrou no consumo da informação e na comunicação desde a idade da pedra até a inteligência artificial em seu novo livro Nexus: Uma breve história das redes de informação. No #ConversaComBial, o autor debateu sobre os prós e contras da evolução da comunicação atual 


Dias felizes

domingo, outubro 10, 2021

E que tal deixar de alimentar o monstro?
[Conhece bem todos os riscos que corre ao usar o Facebook ou o Instagram?]

 



Quem por aqui me acompanha sabe que não estou no Facebook ou Instagram (que são basicamente a mesma coisa embora com aparência distinta). Desde o primeiro momento, achei que o modelo de negócio é escuso, enganador, perigoso. Aplica-se na íntegra aquilo de que quando não percebes qual o modelo de negócio é porque o negócio és tu.

Poderia dissertar aqui sobre o perigo que é haver milhões e milhões de pessoas a alimentar aquele imenso reservatório e processador de informação com os seus dados pessoais, as suas fotografias, as suas preferências, os seus contactos mas, afinal, já quantas vezes o fiz antes...? É que o grave não é apenas isso, o mais grave é que é possível cartografar e indexar toda a informação. É possível saber por rua, por bairro, por cidade, por pais, de que gostam e desgostam as pessoas. É possível dar uma volta ao cubo e saber a mesma coisa mas agora por profissão. Ou por empregador. Ou por estado civil. Ou por faixa etária. Ou pelo que se quiser. É possível mapear cada pessoa e os seus contactos e os contactos dos seus contactos e por aí fora, percebendo até onde pode chegar uma informação que cada um, na sua inocência, julga que trocou de forma privada. Esquece-se que essa pessoa pode partilhá-la, privada e secretamente, com outra e assim sucessivamente. As pessoas não percebem (ou não querem perceber) que plataformas assim são uma guloseima para quem queira prejudicar, manipular, chantagear ou ameaçar alguém. 

Na melhor das hipóteses são o terreno fértil onde a publicidade pode ser plantada. Ou a falsa informação.


Uma geração que mal lê e que se alimenta de notícias truncadas, mal processadas, mal digeridas, falseadas, uma geração que se alimenta de casos e, a partir de casos individuais, constrói teorias, é uma geração que desperdiça parte da sua vida alimentando um mega-monstro, enquanto distorce a sua personalidade. Ocupadas a ver as fotografias dos outros ou as partilhas das partilhas das partilhas,, as pessoas abdicam de se informar correctamente, abdicam de se cultivar, abdicam de pensar genuinamente nos outros, entretidas que estão a autofotografar-se ou a fazer reportagem das suas irrelevantes acções. Tornam-se frívolas, autocentradas.


Tem coisas boas? Claro que terá. A informação pode circular livremente e, quando é boa informação, claro que isso é bom.

Mas sendo uma ultra poderosa, ultra ubíqua, ultra ramificada e totalmente desregulada rede com milhões de pontos de acesso é um perigo que não será possível de controlar.

Começam a aparecer denúncias e, a mais alto nível, começam a surgir preocupações. Mas vêm tarde. O gigante já colocou as patas em tudo o que era sítio e, em todo o sítio, é diligentemente alimentado pelos seus fiéis seguidores.

Por razões que não alcanço, as pessoas parece que sentem necessidade de mostrar à sua rede de 'amigos' todos os sítios por onde andam como se a sua existência dependesse de os outros saberem disso ou, talvez, dos gostos e corações que os outros lá deixam. As pessoas parece que se tornaram como o cão de pavlov, colocando fotos e esperando a recompensa de um smile ou de um coração como se fosse uma guloseima. Não percebem que estão, simplesmente, a alimentar o monstro. E não percebem que o grupo de amigos se está nas tintas para o que lá põem, a não ser no que se refere à bisbilhotice que é também fomentada e diligentemente alimentada, mostrando aos outros onde se foi, com quem se foi, como se estava vestida ou penteada. Futilidades. 


E, nessa ânsia de mostrar aos outros as mais completas irrelevâncias, esquecem-se que estão apenas a fornecer elementos úteis para o funcionamento da máquina amoral que é o Facebook e o Instagram.

Quando vejo que algumas empresas assentam a sua publicidade e, por vezes, até o seu negócio em plataformas como estas penso que não devem estar cientes que aquilo pode deixar de funcionar, que tudo o que lá põem pode ser perdido ou mal usado e que depois, se se quiserem queixar, podem muito bem ficar a chuchar no dedo.

Poderão dizer que também escrevo no blog. É verdade. Mas o modo de funcionamento da plataforma do blog nada tem a ver com a da plataforma do Facebook ou Instagram. E não coloco os meus dados pessoais, não tenho redes de 'amigos', não há partilha em modo de grafo (como nas redes sociais), não sou campo em que o blog possa plantar publicidade. E ainda assim, apesar de não haver comparação possível, sei os riscos que corro.

Seria bom que os matemáticos, na Academia, desenvolvessem modelos que demonstrassem ao público, em especial aos que pensam que só estão a partilhar informação pessoal com os sues 'amigos', a total devassa que são estas redes. Seria ainda interessante que demonstrassem, com situações facilmente compreensíveis, o poder arrasador e descontrolável que plataformas como o Facebook ou o Instagram podem ter na propagação de notícias falsas, notícias que espalhem o pânico, o ódio, a desinformação em geral.

Quem pense que estou paranoica lembre-se de como a campanha (bem sucedida) do Brexit foi conduzida com recurso a marketing político dirigido com base em informações 'sacadas' ao Facebook. A população, grande parte dela totalmente ignorante das consequências do Brexit, foi conduzida a votar sim à saída da União Europeia. Deverão estar lembrados que no dia seguinte ao voto favorável à saída, o google foi bombardeado por parte dos britânicos com a  pergunta: O que é o Brexit?

Qualquer matemático que goste de modelos fica a salivar perante o manancial de possibilidades que os dados e metadados residentes nessas plataformas podem proporcionar. Digo-vos: poderá fazer-se o que se quiser. Nas mãos de gente doida ou mal intencionada, aquilo serve para o que se quiser.

Uma vez que a regulação já não é possível, só há uma maneira de se vencer a besta antes que a besta nos vença a nós: deixar de a alimentar.


Tal como a Greta Thunberg teve o mérito de pegar na bandeira da causa das alterações climáticas, seria bom que emergissem figuras que soubessem erguer também bem alto a bandeira do fim das redes sociais tais como hoje as conhecemos. 






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Desejo-vos um bom dia de domingo

quinta-feira, setembro 23, 2021

Na maior impunidade

 


Hoje é que é mesmo zero. De manhã até ao fim do dia em reunião. Sobra pouco mais do que uma empty head -- e digo em inglês para ver se soa um pouco melhor. 

Tínhamos combinado que eu não deveria estar despachada antes das seis mas que, logo que ele chegasse, poderíamos sair. Mas qual quê. A ver o tempo a passar e a coisa a dar para mais. Uma impaciência. Avisei que teria um limite. Mas como ele também não chegava, pensei que, na volta, o tema se extinguiria a tempo.

Mas ele chegou perto das sete e ainda eu estava no meio. 

Então comecei a acelerar, já deserta de que tudo se resolvesse a tempo para não ter que sair à papo-seco. Foi à tangente. Melhor: mais do que à tangente. Quiçá uma secante. 

Saímos às sete e picos. Voltámos a uma secção a que não íamos faz tempo.

Sorry por isto estar encriptado. Não é que seja supersticiosa mas não vou contar para não atrair.

Ultimamente, tudo o que damos como certo sai ao lado. Mesmo o que estava dado como garantido, furou. Por isso, agora bato a bola baixo.

Já sabem que, quando estou dentro delas, quando elas são de monta, eu fico de bico calado. Não gosto de falar da história quando não sei como é que ela acaba. Mas, logo que eu saiba como vai ser, eu conto. Conto e tenho muito que contar. Que contar e que dar pontapé e virar a mesa. Ai não que não.

Mas, então, lá fomos à secção a que há muito não íamos. 

Pelo caminho, para cá e para lá, fui fazendo os meus telefonemas. Pelo meio, algumas dúvidas. Receio de má decisão. Consultamos site e cada um diz a sua. Conhecimento feito na base do google é conhecimento da treta. Mas é o que há e vamos tentando fazer a bissectriz. E fiar-nos no que parece mais reliable. Hoje está a dar-me para os anglicanismos. 

E, sem jantar feito, encomendámos piza. Metade de presunto, metade de salmão. Passámos por lá a apanhar. No cu de judas. Fomos pela mão do gps: na rotunda sai na segunda saída, a quatrocentos metros vira à direita, na rotunda sai pela primeira, logo à esquerda, a duzentos metros vira novamente à esquerda. Não faço ideia de por onde andámos. Era de noite, íamos na conversa e, em piloto automático, obedecendo. Lá demos com a pizaria. Na volta, cheirava bem no carro que só visto. E nós cheios de fome.

Depois do jantar havia um mail. A Lurdes escreveu. Era ela mesmo que, no outro dia, aqui comentou. Mail bom, daquelas cartas longas que gosto de receber. Quando as recebia na caixa de correio avaliava pela grossura do envelope se tinha muitas folhas. E, quando abria, mais contente ficava se viessem escritas na frente e no verso. A Lurdes é parecida comigo, acho eu. Talvez leve as coisas mais a sério que eu. Mas parecida não significa igual. Tive vontade de responder de seguida. Respondi.

Depois era para ter vindo logo para o blog mas, sem aviso prévio, adormeci. Agora acordei. Doeu-me um pouco o alto da cabeça. Ao passar a mão por ela, senti um alto, dorido. Presumo que esteja até um pouco ferido. Lembrei-me que, de manhã, ao ir apanhar uma coisa debaixo da romãzeira, bati com toda a força com a cabeça num ramo tombado pelo peso das romãs. Ainda não estão outonais, graúdas e rubras. Ainda estão em crescimento e verdes. A ver se desta vez não são comidas, não sei se pelos pássaros se pelos ratos. No outro dia, disse à minha mãe que se calhar tinham sido os ratos que trepavam aos ramos e comiam os bagos das romãs. A minha mãe olhou para mim como se eu não fosse boa da cabeça, como se fosse impossível que os ratos andassem sobre aqueles ramos finos e vergados. Não sei quem foi. O que sei é que elas apareciam forjadamente boas mas ocas, devoradas.

Sei também que fomos à horta para apanharmos ameixas e já não conseguimos trazer uma única. As duas que sobravam caíram ao chão, desfeitas, mal o ramo estremeceu. É uma dificuldade. Primeiro estão pouco doces, depois, mal começam a adoçar-se, os pássaros começam a comê-las e, mal estão doces de verdade, caem, amolecidas e tocadas, impróprias. O chão está pejado delas, desfeitas em sumo espesso. Há um cheiro doce no ar. É como, in heaven, o chão pejado de figos, um odor quente e húmido no ar. 

Penso muitas vezes que um dia que tenha tempo hei-de fazer compotas. Mas as compotas são feitas com açúcar e o açúcar não faz bem nenhum. Por isso, vou fazer coisas que depois ninguém quer comer porque engordam e porque fazem mal? Acho que não. Haverá compotas sem açúcar (e sem adoçantes)? Tenho que investigar.

Ah, é verdade. Mais uma novidade. Finalmente estou a ver se me adapto aos óculos. Não sei se já contei. Desisti dos progressivos. Perguntei à técnica porque é que não me adaptava. Disse-me que o feitio da lente não era recomendado para os progressivos. No exame fiquei também a saber que tenho um pouco de astigmatismo. Não sei como foi que isto apareceu. Deve ser mesmo da pdi. Sempre tive foi um bocado de miopia. Não era muita mas habituei-me a usar óculos para conduzir. No cinema também me sentia mais confortável com eles. Ultimamente juntou-se a vista cansada. Pensava que era só isso, coisa de velha. Afinal, diz-me a jovem oftalmologista: tem aqui um pouco de astigmatismo. Tão espantada fiquei que não perguntei se uma coisa tinha substituída a outra ou se agora se juntaram as três à esquina a tocar a concertina: miopia, vista cansada e astigmatismo. Whatever.

Optei por óculos por ver ao perto, simples. Mas, com eles, só vejo alguma coisa se for mesmo ao perto. Basta que a coisa esteja um pouco afastada para já ser uma baralhada. Mas como são de lente baixa, posso ensaiar ver por cima, coisa mesmo à anciã. Mas a isso ainda não cheguei até porque não os coloco na ponta do nariz. O que faço é, se tenho que ver mais ao longe, tiro-os. Resumindo: quase nunca os uso. Mas hoje a reunião foi daquelas em que estava a ser partilhada uma apresentação cheia de número miúdo Falava-se de milhões mas, para disfarçar, os numerozinhos eram bons para coca-bichinhos. Tive que os usar. E, caramba, fiquei surpreendida com a cara de toda a gente. Caras nítidas que só visto.

A vista é cheia de surpresas. A gente pensa que sabe e que vê e, afinal, basta uma pequena lâmina de vidro para a gente perceber que andou a ver tudo diferente do que é. E, se calhar, se um dia experimentar outra coisa qualquer, vou ver tudo virado do avesso. Nunca se sabe ao que se anda, essa é que é essa.

E, tirando isso, nada. Aliás, confirma-se o que avisei no início: hoje isto é mesmo zero. Escrevo por escrever, na maior impunidade.

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As imagens são recriações de pinturas em cenas protagonizadas por celebridades e a autoria da proeza é do instagramer Kyès

Sheku Kanneh-Mason, Isata Kanneh-Mason interpretam In the Bleak Midwinter de Holst

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Quando fui à procura de música para estar aqui a ouvir, o meu amigo algoritmo apareceu-me com coisa alusiva a Clarice Lispector. Por enquanto não fala, ele, o algoritmo, só vem de mansinho oferecer-me vídeos. Lá chegará o dia em que uma caixa de bombons belgas se materializa aqui nas minhas mãos enquanto a sugestão me é sussurrada aos ouvidos. Acho que já faltou mais.

Enquanto não, vai agindo assim, também na maior impunidade. Desta vez, todo prosa, trouxe-me este aqui abaixo. Partilho convosco. Quando receber bombons belgas também vos farei chegar alguns.

"Não se lê Clarice IMPUNEMENTE"


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Desejo-vos uma boa quinta.
Bora lá curti-la a valer, ok?