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quarta-feira, março 18, 2026

Sobre bengalas, audioguias, clubes de leitura

 


No outro dia identifiquei-me completamente com o José Ricardo Costa do Ponteiros Parados. Não que isso não aconteça com uma certa frequência. Mas, naquele dia em particular, gostei mesmo do que li, senti-me acompanhada.

Não há muito, alguns amigos organizaram-se para uma visita guiada a um museu. Senti-me bem dividida pois, por um lado, gosto imenso de estar com eles, mas, por outro, não consigo ver um museu com guia. Andar ao ritmo dos outros, ouvir explicações, assistir à indecente dissecação de uma obra que se quer una, inexplicável, indescritível, parece-me a mais absoluta contradição dos termos. Nem sequer consigo visitar uma exposição com audiofones, pura e simplesmente não consigo, imagine-se, então, com um guia humano, integrada num grupo. Impensável.

Não fui. Com muita pena pois gostaria de ter estado com os meus amigos, mas foi mais forte que eu. Não conseguiria estar parada, no meio deles, a ouvir o que a guia estaria a dizer. 

Quando muito poderia ouvir os autores, os pintores. Por exemplo, gostava muito de ouvir a Paula Rego. 


A forma desprendida como dizia que já não se lembrava porque tinha pintado o quadro ou ao improvisar o que é que ali estavam a fazer aquelas figuras, ou, numa outra vez, quando lhe perguntaram porque é que estava um tomate ali e ela respondeu que, ao pintar, tinha achado que havia ali um vazio e, então, para encher, tinha pintado um tomate. Ouvir falar assim acho delicioso, fica presa. E gostava de ouvir as suas histórias, as suas recordações, a forma quase inocente como falava dos homens maus, ou o que a motivava ou como preparava o cenário para, depois, o pintar. Mas tudo contado naquela sua forma desconstruída, desligada das opiniões alheias. Disso eu gosto.

Agora um guia a interpretar, a dissertar sobre a gramática da pintura, isso para mim seria insuportável. Ou andar de sala em sala e, em vez de estar com a alma virgem, andar conduzido por um audioguia, a ver as coisas pelos olhos de outros ou a dividir o texto poético da pintura em orações e a encontrar-lhe o sujeito, predicado e complemento directo (que já nada deve chamar-se assim...), isso, para mim, seria uma tortura.

Para mim, ver pintura (ou escultura) é um acto íntimo, não quero gente ao meu lado, quero parar, deixar-me absorver, deixar que a pintura me envolva, deixar-me emocionar, sem palavras. Ou, então, seguir adiante, indiferente.


Nota: 'Gerei' as duas imagens acima com recurso a IA, descrevendo o que queria (o estilo, as cores, as texturas, etc) -- obviamente inspirando-me em Rothko, um dos meus musts, aquele género de coisa que não se explica.

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E, a propósito, vou falar de uma coisa que receio choque algumas pessoas: os clubes de leitura. 

Já faz cerca de um ano que frequento o Instagram e, volta e meia, aparecem-me referências a encontros de clubes de leitura. E lá vejo as fotografias e a alegria que têm em estar juntas. Falo no feminino porque só vejo mulheres. Uma irmandade, todas cheias de ideias, de opiniões, de entusiasmos.

IA também, mas desta vez pedi-lhe um clube de leitura actual só que à luz do Vermeer

Já quando trabalhava, uma colega com quem eu me dava muito bem, gostava muito de ler, era muito dada a actividades de voluntariado que envolviam livros e dinamizava um clube de leitura. Sabendo-me também leitora regular, de vez em quando desafiava-me. Mas nunca foi bem sucedida. Uma outra, com quem eu me dava também muito bem, uma com um certo pendor alternativo que eu muito apreciava, era também muito disso e frequentava muito os encontros, em livrarias também meio alternativas, em que falavam de livros. Dizia-me: 'Há de experimentar. Um dia venha comigo, vai ver que vai gostar.' Nunca fui. E, com esses convites, constatava que eu nunca me dava verdadeiramente a conhecer pois, se me conhecessem de verdade, saberiam que é o género de coisa a que sinto aversão, aversão incondicional. Tudo naquilo me causaria desconforto, desde o tema, à conversa, passando pelo facto de ser um clube do bolinha ao contrário.

É certamente um défice meu, pode até ser um défice cognitivo (ou psicológico, tanto se me dá): não consigo dissertar sobre um livro. Consigo resumir vagamente, consigo dizer também vagamente porque gosto ou não gosto. Não mais que isso. Não me interessa esvaziar a alma dos personagens, não quero saber das hipotéticas intenções do autor, muito menos tenho qualquer interesse em conhecer a opinião detalhada das outras pessoas sobre o livro. 

E depois, geralmente, os livros que escolhem como alvo de autópsia são geralmente livros sobre os quais eu não dou um chavo, são livros mais ou menos mainstream, não quero saber daquilo para nada, nem daqueles livros nem daquelas conversas. E, note-se, nunca fui a nenhum desses encontros. Digo isto só de imaginar. Se lá fosse, então, viria certamente a espumar, cansada da cabeça de tanto me esforçar para parecer educadamente interessada, desidratada e com a tensão arterial nos mínimos. Não sei porquê mas quando estou com pessoas que falam muito, em especial quando falam sobre coisas que não me interessa, fico assim, arrasada.

Um livro, tal como uma pintura, uma escultura, uma música, o que for, são para ser apreciados de forma individual, intransmissível, recatada. 

Neste caso, pedi à Inteligência Artificial que me gerasse uma imagem inspirada na arquitectura de Luis Barragán: um templo sóbrio, com aquelas cores típicas dele e com aquelas maravilhosas entradas de luz, e em que uma mulher estivesse, sozinha, a ler um livro

Não sou dada a rezas nem a nada disso mas, neste caso, acho que uma obra de arte deve ser venerada em silêncio, tomada para nós -- isto quando nos toca, evidentemente. Se não nos diz nada, bye bye, adeusinho,  por aqui me desbaldo. Não temos que dar justificações.

Mas, enfim, isto sou eu. Cada um é como é, já lá dizia o outro. 

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Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, janeiro 22, 2024

Em dia de sol e família
acabo na companhia da Sharon Stone e de Rothko

 

A família tenta que eu não fique tão exclusivamente focada no problema que nos toca a todos. Não há quem não tente pôr-me racionalidade na cabeça. Compreendo-os mas há coisas que não resultam apenas da nossa vontade. O meu marido, para além disso, quase me empurra à força para a psicóloga. Mas eu, nesta fase, não tenho disponibilidade de qualquer espécie pelo que não vou já agendar nada; mas acredito que, mais tarde, talvez agende umas sessões.

Mas não estou passada de todo pelo que, pelos meus próprios meios, estou a tentar continuar a viver com a normalidade possível. 

[A minha filha disse que quando, no final do ano (ou no início deste?) fiz o balanço de 2023 só falei das coisas negativas, esquecendo-me de todos os bons momentos, do muito que escrevi, de todas as muitas vezes em que estivemos juntos, etc. Disse-me também que nem pareço eu pois eu, tal como era, não reagiria como estou a reagir. E o meu filho, no outro dia, disse-me que não posso esquecer-me que tenho filhos e netos. E disse-me que parece que envelheci trinta anos. E eu, ouvindo-os, reconheço que têm razão em tudo o que dizem.]

Então, fomos todos almoçar fora, passeámos à beira rio, os meninos estiveram e brincaram juntos e eu senti-me feliz. Claro que há sempre aquela sombra, aquela preocupação, aquela angústia que me aperta as entranhas. Mas vê-los contentes, conversadores, estando com eles e deixando-me contagiar pela alegria buliçosa das crianças, sinto-me melhor e, de vez em quando, consigo mesmo abstrair-me do que se passa.

É que, por muito que nos custe assistir, de perto, diria até que por dentro, a uma situação como aquela que atravessamos, a vida continua. 

E os meus netos são bem a prova viva disso. E são também, só por si, um motivo de felicidade absoluta, tal como o são os meus filhos.

Portanto, apesar dos pesares, este domingo foi um dia feliz, luminoso.

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E agora, para que não venham outra vez dizer que parece que não sou capaz de falar de outra coisa, deixem que partilhe convosco dois vídeos muito interessantes. Pode até parecer heresia juntar a Sharon Stone e o Rothko mas eu sou herege. Nada a fazer.

[Os textos abaixo são traduções google dos textos que acompanham os vídeos]

Sharon Stone, artista

Quando era estudante universitária, Sharon Stone viveu a vida de uma artista faminta, vendendo as suas pinturas por US$ 25 cada. Hoje, a atriz nomeada para um Oscar voltou ao seu amor pela pintura, com as suas obras a ser vendidas na casa das dezenas de milhares. Já teve duas exposições em galerias nos EUA, com uma terceira prestes a ser inaugurada em Berlim. O correspondente Lee Cowan visita Stone no seu estúdio em Los Angeles e observa-a a criar um novo trabalho.


Mark Rothko -- visita privada à exposição na Fundação Louis Vuitton

As obras abstratas… Sim, mas não só. Mark Rothko defendeu-se afirmando que a sua pintura estava viva. Demonstração aqui na Fondation Vuitton, com esta magistral exposição, a maior do mundo dedicada a ele. 115 obras-primas em formatos absolutamente monumentais que estão disponíveis nos 4 andares da instituição parisiense. Diante desta paleta XXL, é difícil não nos sentirmos absorvidos por essas cores difusas, quase hipnóticas, que exercem sobre nós esse misterioso poder de fascínio. À distância, massas perfeitamente equilibradas, com geometria difusa. De perto, um nevoeiro difuso que nos absorve. Dê um passo para trás. A obra não é mais o que você via no início. Nosso olhar muda, decifra, sente.
Exposição Mark Rothko  --  Fundação Louis Vuitton, Paris  -- Até 2 de abril de 2024
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As fotografias foram feitas no domingo no Parque das Nações

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Ânimo. Paz.

sexta-feira, dezembro 15, 2023

Tentando recolocar-me nos carris em que gostaria de me mover

 

O dia foi tão duro que a minha fragilidade ficou muito mais patente do que eu desejaria, e não apenas perante os outros como perante mim mesma. Por isso, percebi que não havia volta, tinha mesmo que tomar um ansiolítico. Tomei metade agora à noite e vamos ver se resulta. Por vezes, tomando um ben-u-ron para alguma dor, durmo como uma pedra durante horas. Com este meio ansiolítico, com sorte dormirei umas doze horas de seguida. Bem precisada estou. A noite passada, antevendo (ou temendo) as notícias que o dia me traria, mais uma vez praticamente não dormi e, nos escassos minutos em que dormi, foi para ter pesadelos.

Uma coisa sou eu a opinar a propósito das situações difíceis pelas quais os outros atravessam: ouço, aconselho, penso com todos os neurónios disponíveis. Ainda ontem, em conversa com uma amiga, cuja mãe, idosa e naturalmente vulnerável, está a atravessar aquele momento delicado em que se percebe que, apesar de ser essa a sua vontade, já é arriscado continuar sozinha, falei acho eu que ponderadamente, alertei para os prós mas também para os contras. Nesse papel sou não apenas compreensiva como racional.

Mas quando sou eu aquela que se encontra perdida e assustada, a minha racionalidade evapora-se. Fico incapaz de me posicionar de forma objectiva e corajosa. Felizmente tenho quem me apoie e ampare neste doloroso exercício de me manter de pé e de cara sorridente para tentar transmitir a possível tranquilidade a quem dela precisa muito, muito, muito mais que eu. É que, objectivamente, o drama maior não sou eu que estou a vivê-lo e, por isso, não posso portar-me como a parte mais frágil desta situação.  Pelo contrário, eu deveria ser a pessoa com mais força para ser capaz de transmiti-la. Mas não estou a ser capaz de sê-lo. Sozinha eu cairia.

Quem passa por estas situações sem ter quem o/a ajude a manter a cabeça no sítio, os pés na terra, o corpo erguido, o coração inteiro, e, ao mesmo tempo, boa cara, deve chegar a ponto de sentir que está a lutar pela própria sobrevivência. Imagino que as forças faltem com muita frequência.

[Tão avessa que sempre fui a falar dos meus problemas, desta vez, por muito que tente impedir-me, não tenho conseguido. Pode ser que o ansiolítico e que alguma racionalidade que consigam enfiar-me na cabeça consigam voltar a colocar-me nos meus próprios carris. 

Por isso, não tenho conseguido responder e agradecer aos comentários (e, por isso, vos peço desculpa) nem tenho conseguido escrever sobre assuntos divertidos ou diversos e, apenas a custo, tenho conseguido escrever sobre a actualidade. Felizmente, de vez em quando, o meu marido, ao insurgir-se com o que se passa na nossa vida política, resolve escrever ele. Bem lhe agradeço.]

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Estive a ver se descobria vídeos interessantes para partilhar pois custa-me que aqui venham e apenas encontrem esta recorrente ladainha. Mas nem para isso tenho paciência. Vou aqui colocar um apenas pelo título pois, a bem dizer, só o espreitei por segundos. Pode ser que, a seguir, vá ver se vale a pena.

O que liga Rothko e Mozart?

Mark Rothko was obsessed with Mozart's music, considering him the 'alpha & omega' of composers. But what can we learn from this obsession? In this essay, I look at the parallels between Mozart's music and Rothko's paintings and consider how both artists aim to achieve the same goal - the simple expression of the complex thought.

segunda-feira, julho 25, 2022

Livros, músicas, poemas, pinturas, amores... pode haver uma preferência acima de todas as outras?

 


Estou numa fase da minha vida em que leio pouco. O tempo anda-me tão curto que não me reserva espaço para a leitura. Hoje de tarde, mal acabei de almoçar deu-me uma pancada de sono. Deitei-me no sofá e adormeci. Quando acordei, peguei num livro e fui para o jardim. Mas apeteceu-me estar na conversa em vez de estar isolada com o livro.

Contudo, o mundo dos livros continua a ser um mundo que me atrai. O mundo das palavras. Ler o que os outros escrevem. Encontrar a diferença nas palavras dos outros. Não é apenas a história, é também a maneira de cerzir as palavras. Não procuro coisas espectaculares, não procuro palavras desconhecidas, descrições surpreendentes. Não sei explicar bem o que procuro. Talvez a sinceridade, talvez a espontaneidade, a franqueza visceral. Talvez o acto do desnudamento com elegância, talvez a atenção aos pormenores, talvez o olhar inteligente sobre as coisas, sobre os outros. Talvez a forma primitiva e única de olhar para dentro de si próprio e para dentro dos outros e das coisas.

Rejeito em absoluto a banalidade. Não percebo o que leva alguém a escrever banalidades e muito menos percebo quem as consome.

E, no entanto, quantas vezes aqui escrevo eu banalidades...? Tantas, tantas...

Quando aqui escrevo, raramente sei sobre o que vou escrever. Escrevo o que, no momento de começar a escrever me ocorre. Pode ter a ver com o que acabei de ler ou de ouvir ou posso não ter nada para dizer e, por isso, escrevo sobre o que se passou nesse dia ou sobre alguma coisa que me ocorre. Outras vezes tenho vontade de escrever sobre algumas coisas mas prefiro não, deixo-as para mais tarde ou para outro contexto. Espanta-me que tenha sempre tantas visualizações, em média mais de duas mil e quinhentas por dia. Recebo mails de pessoas que se sentem próximas e querem conversar comigo mas, logicamente, desconheço a maioria dos que me leem. Acredito que, por vezes, os desaponto. Talvez, por vezes, pensem que, afinal, não me conhecem. Outras, se calhar, acreditam que me conhecem bem de mais.

E, no entanto, estou convencida que ninguém me conhece completamente. Há coisas que nunca verbalizo e que, estou em crer, fazem tanto parte da minha vida quanto as que exponho. Nem sei se saberia escrever sobre aspectos tão pessoais. E, no entanto, gosto de ler o que as pessoas são por dentro, como pensam, como é o seu passado, como interpretam a vida. Gosto de estar por dentro da sua intimidade. Posso não me sentir cúmplice mas, mesmo com algum distanciamento, gosto de ler as descrições das vivências, das dúvidas, dos desequilíbrios, das vulnerabilidades, das alegrias. Claro que se, por detrás (ou por dentro) das palavras, estiver alguém que tem um percurso cheio de momentos interessantes que possam ser partilhados, ou em estado puro ou reprocessados, tanto melhor.

Como já referi algumas vezes, alimento a secreta esperança de ainda vir a ter tempo, espaço e vontade de escrever mais a sério. Gosto muito de escrever. Mas gostava de ter tempo para reler, para burilar a escrita, para encontrar as ligações musicais que tornam a escrita mais próxima das emoções, ou para descer mais fundo na procura da verdade intrínseca. Gostava de ser capaz de escrever bem, pausadamente, pensadamente, não apenas à pressa, descuidadamente, superficialmente. Gostava de ser capaz de bordar com palavras e que o avesso ficasse tão perfeito quanto o direito. Gostava de conseguir encontrar o gume sobre o qual a escrita se equilibraria.

Talvez um dia. Talvez. 

Quando penso nos livros que mais me marcaram hesito. Um livro é lido diferentemente por quem o lê e nós próprios vamos mudando ao longo da nossa existência. O livro e a sua circunstância. 

Quando li A Selva fiquei fascinada. Teria talvez dezoito anos e o meu namorado da altura ofereceu-mo. Mas já antes tinha ficado fascinada com Liza, a pecadora. Aí teria uns quinze e trouxe-o da biblioteca do liceu. Ou com As sete partidas do mundo. Teria uns catorze e trouxe-o de uma amiga e vizinha cujo marido era médico e, na altura, estava em África. Ou, depois disso, com A Bastarda. Ou com A virgem e o cigano. Ou com Por quem os sinos dobram. Ou com O Arco do Triunfo. Ou com A montanha mágica. Ou com A insustentável leveza do ser. Ou com o Amor nos tempos de Cólera. Ou com o Ensaio sobre a Cegueira. Ou com Carne de cão. Ou com o Stoner. Ou com As oito montanhas

Com tantos fiquei fascinada, tantos, tantos. 

Se os relesse agora sentiria o mesmo? Ou o que na altura me pareceu novo, único, agora saber-me-ia a déjà-vu? Não sei, não arrisco a desilusão, prefiro mantê-los intocáveis na minha memória. Não os releio. 

E sou incapaz de dizer qual prefiro. Não coloco livros num pódio. Tal como com todos os amores. Aquilo que amamos e respeitamos não é sujeito a comparações.

Mas há quem tenha feito uma lista dos livros preferidos em todo o mundo. Não sei se resulta de uma pesquisa rigorosa mas, ainda assim, estive a espreitar.

Deixo o link, caso queiram verificar: Os Livros Favoritos do Mundo — lista completa em português


Supostamente em Portugal é o Memorial do Convento. 

Também não sei se o livro preferido de um país é sinónimo de o melhor livro publicado nesse país ou se o melhor livro escrito na língua desse país. Seja o que for. Nestas coisas, as estatísticas são o que são: uma abstração.

Ao lembrar-me de livros, reparo agora que falei apenas de livros em prosa. E, no entanto, sou também muito sensível a livros de poesia. Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner, Teresa Horta, Herberto Hélder, António Ramos Rosa, Pedro Támen. E tantos, tantos outros. E só estou a falar nos portugueses de Portugal.

E, no entanto, ao pensar em colocar aqui um poema lido é, uma vez mais, num poema que não é português e que nem sei dizer porque gosto tanto dele. Mas gosto. Já aqui o partilhei muitas vezes e frequentemente ando com ele a bailar-me na mente. Não sei porquê. Tal como ao escolher uma música para aqui se identificar comigo de uma forma muito próxima escolho uma vez mais a mesma que já aqui tantas vezes esteve. Ou ao escolher um pintor escolho aquele cuja obra é o mais despretensiosa possível, a simplicidade mais extrema, e que, apesar disso (ou talvez por isso), me toca quase comoventemente. 

É assim. São coisas que não se explicam. 




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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Amor. Paz.

sábado, maio 22, 2021

A Serva-Mor e o seu pequeno servo

 

Numa praça, um grupo de pessoas comenta o assalto a uma loja. Uns dizem que a loja não estava bem fechada e que a culpa foi do dono. Outros dizem que a culpa é dos polícias que passavam por ali e nada fizeram nem para alertar o dono nem para evitar que os ladrões se servissem. Outros dizem que se calhar quem roubou foram alguns clientes que bem conheciam os cantos à casa e as fraquezas do dono. Outros dizem que a culpa foi do presidente da Junta que nada faz para prevenir casos destes. Outros dizem que podem ter sido alguns fornecedores que observaram como se faziam negócios ali, sem grande rigor. Outros, ainda, dizem que a culpa é também do jornal da terra que conhecendo tudo o que ali se passava, em vez de denunciar as vulnerabilidades da loja, só para conseguir que o lojista pagasse um anúncio, não fazia outra coisa senão enaltecê-lo.

Quem ouça aquele grupo de vizinhos dirá que, afinal, todos anteviam que o roubo iria acontecer. Mas se todos sabiam e nada fizeram não são, também eles, responsáveis pelo que aconteceu?

Até que os mais ilustres resolveram criar uma comissão e fazer um inquérito. Aplauso geral. Boa! Um inquérito é que é.

Para conduzir o inquérito escolheram a mais inflamada e sentenciadora das vizinhas, a Serva-Mor do clube religioso das Servas da Moral, conhecida por gostar de chicotear e espezinhar os pecadores.

Durante meses, os vizinhos sentaram-se no largo a presenciar o interrogatório a que a Serva-Mor sujeitava os suspeitos.

Quanto mais ele acusava e insultava mais a populaça salivava e aplaudia. O jornalista da terra ia noticiando. Um folhetim. 

Pelo pelourinho passaram quase todos os que se conheciam. 

Todos eram suspeitos: o dono, a família e amigos do dono, os clientes, os fornecedores, os polícias, até os próprios vizinhos. Todos. 

A todos ela insistia que enumerassem os pertences que tinham em casa, os presentes que tinham dado aos filhos, aos pais, aos netos e avós, as contas do banco, o dinehiro escondido no colchão. Queria pormenores: quantas notas, quantas moedas. De cada vez que alguém se esquecia de alguma coisa a Serva fazia esgares de desconfiança e todos os que assistiam faziam iguais esgares. Parecia que todos tinham algo a esconder. Os próprios, quando confrontados com a sua falta de memória, assustados e enervados, suavam de aflição. Mas, mal passavam para a audiência e outro ocupava o pelourinho, debaixo do fogo cerrado de ódio e malvadez da Serva-Mor, logo ululavam de gozo por verem os outros a sofrer. 'Ladrões! Ladrões!' gritava em surdina a turbamulta. Aos olhos de cada um os outros eram todos uns vendidos, uns ladrões. Aos olhos de cada um todos os outros mereciam arder no fogo dos infernos.

Duraram meses as inquirições. Meses e meses, senão anos.

Produziram-se centenas de artigos, centenas de vídeos. Cada relatório tinha centenas de volumes. 

Se alguns duvidavam da utilidade daquilo, logo outros saltavam em defesa da Serva, dizendo que sim, que fazia todo o sentido, todos tinham o direito a saber o que se passava, que todos tinham o direito a ouvir as explicações, que a Serva fazia bem em pôr a nu os podres da sociedade. 

A Serva-Mor não dava tréguas nem mostras de querer abrandar. Pelo contrário: aos poucos as orelhas foram-se afilando, os olhos entortando, os dedos curvando-se em garras, os caninos sobressaindo, os ares de justiceira implacável acentuando-se. 

A seu lado um servo redigia afanosamente os relatórios. Enquanto a Serva insultava os inquiridos, ele ia rosnando entredentes e o mínimo que se lhe ouvia era 'malfeitores incompetentes' mas, na maior parte das vezes, era um chorrilho: 'tratantes, escroques, patifes, vígaros''. Se detectava algum desagrado por parte de alguma pessoa na assistência, logo ele disparava: 'ultrajante e inqualificável!' e, pouco subtilmente, segredava ao ouvido da Serva, a sua sinistra musa inspiradora: 'Olha aquela, até sinto náuseas. Lamentável e inqualificável atitude a atitude dela'

Meses e meses nisto. Anos nisto.

Enquanto isso, as outras lojas iam sendo bem ou mal geridas como sempre foram e sempre serão, algumas delas sendo de vez em quando assaltadas, como sempre foram e sempre serão (em especial quando a malta está distraída a brincar aos justiceiros e aos inquisidores), alguns clientes iam tirando partido da distração do dono, alguns fornecedores aproveitando para fazer das suas, os polícias iam fazendo as suas rondas, nem sempre muito atentas, o jornalista ia fazendo inflamados artigos para vender mais e... tudo continuou exactamente igual ao que era antes.

Contudo, com o tempo, a malta foi percebendo que aquilo não era nada, que dali não nascia nada de útil, que tudo continuava na mesma, que aqueles interrogatórios eram apenas uma forma da Serva-Mor tirar um mórbido prazer em chicotear as suas vítimas e uma forma de cada um, à vez, se sentir melhor que os outros mas que esse prazer era efémero, espúrio e, sobretudo, inútil.

Por fim, na praça, restava apenas a Serva-Mor e o seu leal pequeno e inútil servo. Quem por ali passava já nem reparava: a Serva bofeteava e pontapeava o servo e este, em sangue, implorava perdão. Mas ninguém queria saber.

E, como sempre acontece com o que é irrelevante, tudo isto passou à história. Já ninguém guarda memória nem do que esteve na origem de tudo, nem do que por ali se passou, nem da sinistra Serva, muito menos da pequena figura que tanto a bajulou.


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As pinturas são de Rothko.
No texto, qualquer semelhança com a realidade não é aparência nem coincidência, 
é apenas um momento de diversão (ou outra coisa qualquer).

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E tenham um belo sábado

segunda-feira, dezembro 07, 2020

Uma fenda minúscula

 



Um escritor inglês, Henry Blackwood, tinha uma teoria singular: ele dizia que sempre à meia noite se formava uma fenda minúscula entre o dia que acabava e o que começava, e que uma pessoa que conseguisse deslizar nessa frincha sairia do tempo e encontrar-se-ia num reino independente de todas as mudanças que nos acontecem; nesse lugar encontram-se todas as coisas que nós perdemos.


[Excerto de Sapatos de Corda - Agustina de Mónica Baldaque, ao som de Night Song por Nina Simone e na companhia de Night Blue de Mak Rothko]

domingo, junho 21, 2020

Pedro Lima, Anthony Bourdain e outras pessoas bem sucedidas





Não sigo telenovelas portuguesas pelo que o que conheço de Pedro Lima, enquanto actor de novelas, é o que vejo nos pequenos anúncios aos episódios do dia que, de vez em quando, de passagem, apanho. A ideia que tenho é que tem tido sempre trabalho, o que é natural dado ser um homem muito bonito, um galã que dá sempre jeito em qualquer 'peça'. Tenho também ideia de que, volta e meia, o via, sempre sorridente, em actividades daquelas para as quais convidam os actores. Sem exuberâncias mas com afabilidade. Mas não sei, pois, ajuizar sobre o seu talento. Nunca o vi em palco, no teatro, pelo que, também daí, não poderei pronunciar-me. Pessoa que me é próxima conhecia-o do surf mas também apenas hoje soube disso. 

A ideia que tinha dele é que seria um actor sóbrio, discreto, pouco dado a mediatismos. Mas simpático, sereno. Tenho ideia de vê-lo sorridente. Tenho ideia dele com a mulher e com um bando de filhos. Uma família feliz. Um homem bem resolvido.

Soube também hoje dos seus feitos desportivos. Não fazia ideia. Contudo, com aquele corpo é natural que tivesse força e energia para vencer as provas que venceu e que, por outro lado, aqueles músculos tenham vindo da prática continuada de desporto.


Por isso, o espanto ainda foi maior quando li que aparentemente se terá suicidado. A minha filha esteve a mostrar-me fotografias dele no Instagram. Bem disposto, apaixonado, amável, brincalhão. Tentei perceber se o sorriso e a boa disposição seriam máscaras para algum desconforto ou tristeza mas, nas fotografias, não detectei nada disso. A última fotografia mostra-o escultural, pronto para o surf, festejando o regresso à vida normal.

A mesma surpresa senti quando soube da morte de Anthony Bourdain. Gostava muito de ver os seus programas. Irreverente, empático, amante do insólito, curioso em relação ao pouco óbvio. Dizia ele dele próprio ser uma pessoa cheia de sorte: fazia o que queria, quando queria, onde queria, com quem queria. Com amigos em todo o lado. Um homem de aspecto possante, viril. Uma pessoa absolutamente bem sucedida, conhecida em todo o lado. Brincalhão, bon vivant.

Até ao dia que se soube que, ao contrário do que parecia, era tímido, frequentemente inseguro e com um fundo depressivo. Há um vídeo feito pouco antes de ter decidido pôr fim à sua vida: nos copos com os amigos, divertido. Certamente encobrindo o que lhe ia na alma.

Estava a escrever e a pensar em Bernardo Sassetti, cuja morte também muito me impressionou. Não sei se caíu sem querer ou se também não suportou mais. Mas sei que me custou muito.

Em tempos o vocalista de uma banda suicidou-se e a mulher mostrou fotografias em que ele aparecia pouco antes, com ela e creio que com os filhos. Estava sorridente, parecia feliz. A mulher, em sofrimento, perguntava: vendo-o assim, rindo, em família, quem é que poderia adivinhar o que estava prestes a acontecer?

Não sei causas. Não sei o que se passou com o Pedro Lima. Não sei se foi suicídio (embora as notícias o indiciem) e, se foi, se foi por depressão, problemas financeiros ou outros. Sei que, a ter sido suicídio, deve ter sido pela mesma razão que leva alguém -- mesmo as pessoas mais talentosas, na flor ou a meio da vida -- a pôr termo à vida: não aguentam mais. Quem está de fora não percebe: mas não aguentam mais o quê? Com a vida quase inteira pela frente, amados pela família e amigos, respeitados pelos conhecidos e pelo público em geral, como não aguentam mais? O que lhes falta para que, como a maior parte das pessoas, consigam superar algum constrangimento, algum escolho, alguma ameaça ou temor? O que lhes falta, se os conhecemos tão talentosos e se os sabemos tão especiais?

Não sei. Talvez lhes falte a coragem para pedirem ajuda.

A minha filha referia o caso de um nosso conhecido: pessoa descontraída, praticante de desporto, do mais divertido que há, profissionalmente bem sucedido, na altura com uma namorada linda e amorosa, com uma família que o adorava, com um nível de vida a que nada faltava. E, no entanto, quem poderia dizer que, contra toda a lógica, viesse a ter um problema de droga? Quem poderia dizer que gastava tudo o que ganhava e se endividava por todo o lado, junto de familiares, amigos e sabe-se lá de quem mais, sempre arranjando desculpas convincentes, vindo a ter sérios problemas por não poder pagar as dívidas que ia acumulando? Quem poderia antever que viria a deixar o trabalho e ter que ir viver para um lugar recôndito não apenas para ver se se curava como para os traficantes e demais amigos e inimigos dessas andanças deixassem de persegui-lo? E, no entanto, ninguém, ninguém mesmo, nem mesmo os mais próximos, sequer suspeitaram do que estava a passar-se.

Quem vê caras não vê corações, quem vê sorrisos não sabe o que se esconde por debaixo. A mente por vezes cava sulcos ou abre buracos negros de que é difícil sair. 

Nestas histórias não há, muitas vezes, fins felizes. Há desistência. E muita dor e perplexidade por parte dos que ficam.  E se há alguma coisa que se possa retirar de situações que se aproximam do limite é que há que lhes prestar muita atenção para tentar ajudar. Não é fácil. Quem está com depressões profundas ou quem tem problemas muito sérios frequentemente não quer preocupar a família e os amigos pelo que não quer assumir aquilo por que está a passar, prefere disfarçar, prefere esconder as trevas que os assombram, mostrando uma alegria que é apenas aparente. Estas coisas deveriam ser mais faladas para que as pessoas que sofrem em silêncio se encham de coragem e peçam ajuda, para que pensem um pouco nelas e não apenas em poupar os outros.

A vida breve dos que não aguentam mais deveria ser uma vela acesa na opinião pública para que nunca nos esqueçamos de fazer sentir aos que precisam de ajuda que devem pedi-la: por eles e por aqueles que os amam.


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Pinturas de Mark Rothko que pintou as trevas antes de nelas mergulhar, 
com acompanhamento de Noite por Bernardo Sassetti

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Desejo-vos um bom dia de domingo

quinta-feira, fevereiro 13, 2020

Eutanásia





Confesso: é tema sobre o qual não quero nem pensar, talvez porque gostava de nunca, em circunstância alguma, ter que tomar qualquer decisão que se relacione com isso.

Tendo que lidar de perto com a finitude da vida, e tendo já por várias vezes visto de perto um fim que, milagrosamente, a seguir, se adia, o que posso dizer é que não antevejo que alguma vez consiga ter coragem para pensar em ser eu a agente da decisão de pôr fim à vida de quem quer que seja. 

E não é por amar demasiado a vida para pensar em interrompê-la. Ou, se calhar, é por isso e mais porque tenho em mim este sentido de esperança que parece que me obriga a confiar no rumo natural das coisas.


Quanto a mim própria não sei. Tenho pavor a ser um fardo para alguém. Estar num estado em que alguém tenha que ser escravizado para me manter viva é coisa que me mataria por dentro. Contudo, tenho esperança de que, se um dia isso acontecer, eu tenha recursos financeiros para que o tratamento seja profissional e levado a cabo por quem seja pago para o fazer, podendo as pessoas revezarem-se. E tenho também esperança de que a vida ou o acaso sejam generosos comigo e me poupem a sofrimento prolongado. É que não sei se, sendo o sofrimento físico e psíquico insuportável, quereria continuar a viver. Mas sei que não quereria passar o ónus de dar a ordem ou de facilitar a operação para alguém que ficasse com esse peso para o resto da vida.
Sei bem o que sofri e ainda sofro quando penso no último olhar da minha cãzinha quando o meu marido a levou à clínica veterinária e ela, tão mal que estava, tão mal, minha querida, tão mal, sem qualquer esperança, e já mal se aguentando viva, ainda assim estranhou que eu ficasse no carro, eu que sempre a acompanhava e lhe fazia festinhas para que ela se acalmasse. Virou a cabeça para olhar para mim, um olhar intrigado e triste. Não esqueço esse seu olhar. Tomara que não tenha percebido. Mas fui cobarde, infamemente cobarde, não suportei assistir ao seu fim nem suportei a ideia de a levar até onde a sua vida iria ser encurtada. 

Outra coisa diferente, e ainda não há muito passámos por isso, é quando a pessoa está muito mal -- em estado terminal, sem qualquer possibilidade de sobreviver -- e os médicos explicam qual a situação e perguntam se se autoriza que se suspenda a medicação de sobrevivência, administrando apenas tratamento paliativo. É muito doloroso, é coisa que não se quer ouvir, mas há a consciência de que se está apenas a deixar a natureza seguir o seu rumo, mas fazendo-o sem sofrimento. Ainda no outro dia, um amigo me contou como passou exactamente por essa mesma situação. Horrível. Muito doloroso. Mas há a convicção de que, a não ser isso, seria continuar a infligir um prolongamento de vida artificial, dependente, contranatura, a alguém que muito se ama. E isso a legislação já o permite e os médicos já o fazem. E fazem com sensibilidade, com cuidado, com respeito pela dignidade de todos.

Portanto, por mim, prefiro não falar em eutanásia, prefiro que não ande meio mundo a falar nisto como se fosse um tema-bandeira, uma causa-fracturante, um lugar-comum, uma coisa-de-nada, uma banalidade para ser usada como arma de arremesso na praça pública.

Se forem para a frente com a merda de um referendo, abster-me-ei. Se for a votos na Assembleia, não quero nem saber.


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Pinturas de Mark Rothko do seu período dark que já prenunciava a escuridão que o estava a envolver

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segunda-feira, outubro 14, 2019

A minha experiência na urgência de um hospital




Infelizmente, nos últimos anos, já tive que ir muitas vezes a hospitais, muitas vezes às urgências, outras vezes ao SO, outras vezes a enfermarias. Muitos sustos. Se em alguns casos, os meus familiares recorreram a hospitais privados (e felizmente têm seguros que lhes permitem fazer face a essas despesas), noutros a experiência é a dos hospitais públicos.

Durante a semana que passou, o meu pai esteve, uma vez mais, no hospital. Foi chamado o INEM e foi levado paar o hospital público da cidade.

A urgência estava apinhada. Os corredores estavam pejados de macas com doentes que gemiam, gritavam, arfavam. A chamada sala aberta -- que não percebi se era apenas a sala onde estava o meu pai ou se também uma outra sala -- estava identicamente cheia de doentes em estado complicado. Lá fora, várias ambulâncias não podiam ir-se embora pois não havia macas suficientes no hospital e os doentes que tinham levado continuavam nas macas das ambulâncias. 

Ao fim de duas horas do meu pai ter entrado, consegui ir ao pé dele e a enfermeira disse-me que ele aguardava o resultado de exames mas que, da forma como aquilo estava, ainda deveria demorar talvez mais uma hora ou hora e meia. Não consegui falar com o médico que lá vi pois, enquanto lá estive, ele esteve ocupado. Aliás, coitado, não sei como aguentava aquilo.

Ao fim de cerca de mais duas horas cá fora e sem nada conseguir saber, a informação que, a muito custo, consegui obter é que afinal ainda não tinha ido fazer os exames pelo que continuaria em observação e em manobras de mitigação dos sintomas. Esperámos. Até que acabaram por nos dizer que podíamos ir para casa e voltar de manhã para tentar obter notícias. 

Ao fim da manhã do dia seguinte o meu pai teve alta e na nota de alta pode ler-se que ainda aguarda RX ao tórax. A urgência estava ainda mais caótica. Aparentemente desistiram de esperar que ele fizesse o exame e mandaram-no para casa.

E a minha dúvida é a seguinte: ainda não começaram as gripes e durante as longas horas que lá estive não vi que chegassem tantos doentes que justificassem tal lástima na urgência. Aliás, hoje vi na televisão que as ambulâncias tiveram que ser desviadas de lá pois a urgência não conseguia receber mais doentes.

Portanto, inclino-me para que aquela situação desastrosa terá origem não em afluxo anómalo de doentes mas, sim, num estrangulamento interno na própria urgência: ou faltam médicos, ou enfermeiros ou pessoal auxiliar ou, então, pessoal ou equipamento no laboratório ou nos aparelhos de diagnóstico como o RX. E deve ser por isso que os doentes se acumulam nos corredores sem que lhes consigam dar 'vazão'. Diria eu que uma averiguação básica deveria ser capaz de identificar as razões do estrangulamento e, sem grande acréscimo de custos, resolvê-la.

Contudo, aqui entra uma outra dúvida que tenho. Por todo o lado se vêem hospitais privados em construção ou hospitais privados já existentes em obras para duplicar a sua capacidade. E não apenas novos grandes hospitais mas também clínicas. E eu interrogo-me: de onde vêm tantos médicos, tantos enfermeiros, tantos técnicos de meios de diagnóstico? Não percebo. Não pode haver tanto pessoal. em especial médicos. Que eu saiba não abriram mais faculdades de medicina nem alargaram o número de vagas. Portanto, ou muito me engano ou é na escassez física de recursos humanos que reside a raiz do problema.

E, se assim é, que se inventariem os técnicos de saúde necessários no país (médicos, enfermeiros, técnicos - e não junto aqui o pessoal auxiliar pois admito que seja mais fácil recrutá-lo do que aos que exercem funções mais especializadas). E que, por uma vez, se tirem as análises partidárias da equação -- porque são estúpidas e tendenciosas -- e se faça uma análise algébrica simples. E se há um défice efectivo de profissionais pois que, com urgência, se estabeleçam protocolos com as escolas e institutos para aumentar rapidamente o número de vagas (e se mande a Ordem dos Médicos à fava caso não queiram alargar o número de vagas). Mas, até lá, que se recrutem do estrangeiro todos os que hoje e nos próximos anos faltam. Urgentemente.

E não falei noutros técnicos que provavelmente são também deficitários: os técnicos de manutenção de equipamentos médicos, nomeadamente os de electromedicina e outros mais sofisticados. Se esses equipamentos avariam e não houver quem os repare, os doentes esperarão horas a fio por um resultado que pode não vir.

Acredito que não está em causa um aumento significativo no orçamento da Saúde pública pois o que hoje se paga em trabalho suplementar, em folgas compensatórias, em pagamento de reparações de equipamentos seja a que custo for a empresas externas poderia ser compensado por ter mais técnicos residentes a praticarem horários normais.

Este tema tem que ser visto desapaixonadamente mas tem que ser visto já. É que não estou a falar apenas do desconforto de doentes e acompanhantes que esperam horas a fio: falo da saúde das pessoas. Falo de experiências que podem ser traumáticas ou fatais na vida das pessoas.

Diria que António Costa deveria conseguir um acordo de regime para conseguir pegar o tema da Saúde pelos colarinhos. Se não há pessoal que chegue, e estou convencida que não chega mesmo, o lençol não esticará e rasgará pelo lado mais frágil: o Serviço Nacional de Saúde. E isso não pode acontecer. É a saúde de todos que tem que ser defendida.

E Marcelo Rebelo de Sousa que tanto fala da Saúde deveria assegurar isto mesmo: o tema não é de esquerda nem de direita nem de chicana nem de bandeira nem arma de arremesso nem de ricos nem de pobres -- o tema é sério, é urgente e é de todos.

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As pinturas podem não parecer mas são de Rothko,  «Une berceuse de la mort...» é de Fauré

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Uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

terça-feira, abril 09, 2019

Isabel, não posso dizer que seja um best of mas é uma amostra das maluqueiras de que sou capaz.
Mas, calma, há que dar desconto: vendo bem as coisas, acho que sou inimputável.





Já contei que, quando andava no liceu, atrás de mim sentava-se uma colega de quem eu gostava muito. Éramos totalmente diferentes. Eu andava sempre cheia de amores e gostava de me arranjar bem enquanto ela era desprendida, sem pingo daquela futilidade adolescente que em mim cintilava. Mas ela achava graça à minha maneira de ser e aos romances que giravam em torno de mim e ouvia atentamente as minhas conversas sobre variedades de rímel, soutiens Triumph, convívios dançantes ao sábado -- enquanto eu admirava a sua sobriedade desarmante, a sua disponibilidade para ouvir todas as parvoíces. Éramos ainda diferentes noutra coisa: ela era péssima a matemática mas excelente a desenho. Muitas vezes fomos ambas ameaçadas de nos anularem os testes por estarmos no copianço, eu desviada do que escrevia para ela, atrás de mim, copiar à vontade. Deixei-a também copiar a física e se calhar também a outras disciplinas. Achando sempre que o que eu respondia certo era fruto do acaso e admirando quem eu achava que tinha genuíno talento, eu via o que ela fazia com pasmo e achava que tudo o que fizesse para a compensar da falta de intuição para o raciocínio numérico e lógico e, ao mesmo tempo, para louvar a sua superioridade era pouco.


Lembro-me de umas bailarinas que ela pintou a guache. Estava lá a graça do movimento, estava lá a transparência dos tules, estava lá a beleza da dança. E fosse qual fosse o motivo, enquanto eu me esforçava para fazer alguma coisa bem feitinha que invariavelmente saía sem graça, ela, em duas penadas, traçava o espírito da coisa. Fosse aguarela, pastel, guache ou lápis de cor, tudo o que ela fazia era diferente de todos os outros. Separámo-nos quando fomos para cursos diferentes e, quando voltei a saber dela, já ela era escultora conceituada e professora universitária.

Voltei agora a pesquisá-la na net e dei com uma fotografia dela. Quase me emocionei. O tempo passa.  Ah, como éramos meninas naquela altura. Agora mulheres feitas. Ela serena e bonita como sempre. Não se percebe como, com aquele ar suave, tem força para trabalhar a pedra. Mas tem. É, como sempre foi, uma artista.


Sempre me dobrei perante a arte. Toda a minha vida frequentei exposições. Mesmo quando vieram as crianças. Arrastava-os para verem coisas que não percebiam. Penavam, faziam disparates, queriam fugir. Sempre achei que só podia fazer-lhes bem. Aceitar a diferença e o que inexplicável é parte do caminho que há a percorrer.

Cedo me afastei do figurativo, do perfeito. A arte abstracta, as manchas de cor, a ausência de peias e a liberdade para inventar formas, sobreposições, coisas nenhumas, isso sempre me atraíu. Por fim, os miúdos já não perguntavam 'o que é?', já rendidos à ideia de que as coisas são o que são e não o que querem parecer.

Tenho ideia de que já contei a surpresa que tive quando, sozinha, miúda, sem antes me ter informado, fui ver uma exposição de Miró. Achei uma loucura. Nem conseguia perceber que maluqueira era aquela, em especial as esculturas que incluíam sapatos, restos de coisas, quadros só com salpicos. E, no entanto, que alegria. Que coisa espantosa. Mais tarde já o vi com outros olhos mas com ainda maior pasmo. Que homem adulto tinha a ousadia de fazer tais infantilidades? Mas, de novo, que luminosa e inocente alegria aquela. Estrelinhas, luas, coisinhas sem sentido, bocas e olhos, céus coloridos e felizes.


Ou Paul Klee. Uma vez vi uma reprodução de Paul Klee, pequenina. Convenci a minha mãe a emoldurar. Uma cara redonda e cor de rosa, circunspecta, um olho no céu e outro na terra. Porque é que eu gostei, logo, tanto sem saber quem era o pintor, sem perceber que figurinha era aquele?

E Picasso e Gauguin e Van Gogh e Chagall e tantos outros. Mais tarde, Roth. Cada vez mais abstração, cada vez menos realismo, cada vez maior liberdade.

E, por gostar tanto de arte, nunca me imaginei sequer a cometer a irresponsabilidade de pintar.


Até que o meu filho me ofereceu aquilo que eu nunca pensei ter: material de pintura.

Ao princípio, punha-me a pensar no que ia pintar. Esforçava-me. Não queria desperdiçar telas ou tintas com a minha falta de jeito. Antes de pintar já eu antecipava a decepção.

Uma vez resolvi pintar um retrato da minha filha. Peguei numa fotografia dela do dia de casamento e pintei o vestido em tons de dourado.


O vestido despachei-o em três tempos. Mas o rosto, o sorriso, o olhar... Era ela mas não era ela. Quando alguém o vê, diz logo que é ela. Mas não é. O sorriso dela é mais aberto, os olhos mais alegres. Não sei explicar.

Foi o primeiro e o último retrato. É absurdo querer fazer igual. Para igual há as fotografias (e já a fotografei milhares de vezes). Uma pintura é para ser outra coisa. Mas, se é outra coisa, não é o retratado. Portanto, perante a total contradição dos termos, deixei-me de tentar ser retratista.

Mas foi um percurso. Pintar coisa nenhuma requer uma liberdade pela qual ansiamos mas que, tendo-a dentro de nós, temos dificuldade em usar.

Até que consegui libertar-me. Mulheres a andar por cima dos prédios, mulheres com o coração à vista, escadas que não iam dar a lado nenhum, galos faustosos, flores escandalosas. Não estava a pintar para ninguém nem para obter aprovação de ninguém. Pintava apenas pelo prazer infantil de pintar, o prazer do gesto, o prazer da liberdade, o prazer de transformar uma tela branca numa coisa cheia de cores.


E fiz como a Isabel: com medo de que acabassem as telas, comprei montes delas, com medo que acabassem as tintas, comprei montes delas.

E fui pintando. Ficava até de madrugada. Nunca me importei com a qualidade do produto final. Pintei para mim, para os meus filhos, para os meus pais. Queria pintar coisas neutras, incolores, simples mas, sem perceber como, as cores jorravam de dentro de mim. Por vezes, chegava ao fim e ainda juntava brilhos, purpurinas. Um exagero. Uma alegria. Depois já era apenas para guardar. Até que já não tinha onde pôr. Pintei, então, canteiros. E já estão, outra vez, a precisarem de ser pintados.

Agora pouco pinto. Mas tenho saudades. Volta e meia 'pinta' uma vontade louca de ir buscar uma tela grande e desatar a pintar, a espalhar cores, brilhos, loucuras. Mas, em vez disso, ponho-me para aqui a escrever, a soltar palavras ao vento.


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Já viu, Isabel? Não custa nada. Só é preciso descaramento, não ter vergonha, nem medo, nem nada. Aliás, que mal pode fazer a gente fazer 'obras de arte' destas...? Alguém nos vai mandar prender...? Acho que não. Pelo menos, eu continuo livre para fazer das minhas.

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Flores e cores


E, para que haja arte neste post, três dos muitos pintores a sério de que muito gosto







E haja alegria para que os dias sejam felizes.

sexta-feira, junho 15, 2018

Se isto se prolongar muito mais, de onde virá o dinheiro necessário para fazer face às despesas fixas do Sporting?
Pergunto.


Há pouco, à revelia do meu marido, quando o apanhei pelas costas, espreitei a conferência de imprensa de Bruno de Carvalho, talvez a sua última. Um louco a desafiar o destino. Não percebeu que o seu tempo acabou e que ele próprio se encarregou de esvaziar o reservatórios de últimas oportunidades. Ao seu lado, um zombie com ar de pobre coitado que não tem onde cair morto e, do outro, o comentador que antes pensei que fosse um homem com bom senso e que agora deu em porta-voz do maluco. Ambos mudos e quedos enquanto o doido ia perorando naquela sua voz alucinada que não prenuncia nada de bom. Tenho ideia que apenas a SIC estava a transmitir aquela demonstração de loucura.

E eu, tal como no início disto, o que me ocorre é que, a arrastar-se este carnaval, não faltará muito para que os funcionários daquela empresa deixem de receber ordenados (incluindo os desportistas que vivem do que recebem do clube) ou para que os compromissos junto dos fornecedores deixem de ser honrados.

Os nossos jornalistas, que são capazes de estar, durante horas, a transmitir estes longos monólogos do doido varrido, parecem incapazes de ver dois palmos à frente do nariz e dá ideia que não percebem o descalabro que pode estar prestes a acontecer.

Com um rombo nos activos, com a credibilidade nula, imagino que os bancos não vão poder acudir. A emissão de obrigações foi abortada e, do que se sabe, a tesouraria estará no vermelho. Portanto, imagino o desequilíbrio que já aí estará à espreita e sem se perceber que a mão que o poderá travar. 

Por curiosidade cá minha, gostava de saber qual o volume fixo de despesa que o Sporting tem todos os meses (entre pagamentos de salários, encargos sociais, impostos, contratos de manutençao ou outras prestações de serviços indispensáveis) e de ver uma demonstração da origem dos fundos para fazer face a esses compromissos. Gostava. 

Em vez da coboiada que a comunicação social gosta de explorar e das tricas e retricas que são exploradas até à náusea, não seria interessante perceber quantos postos de trabalho podem estar em causa, quantas instalações podem ter que ser fechadas, etc?

E nem estou a entrar em linha de conta com a outra bomba cujo rastilho pode estar a arder devagarinho: aquilo da corrupção, aquilo dos milhares em dinheiro no gabinete do adjunto do ex-Presidente do Sporting, essas coisas nefastas que, a provarem-se, podem ter implicações que ainda mais rapidamente poderão empurrar o Sporting ribanceira abaixo. Porque, se isso entrar na equação, o buraco pode muito bem ser ainda mais tenebroso.

Digo eu. Ou melhor: temo eu. Mas, admito, posso estar a ser, simplesmente, pessimista.

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Para este post não ser um mero enunciado de uma preocupação que talvez seja infundada, juntei-lhe uns pós de Rothko (por acaso, da fase sombria) e nem sei porquê o Portugal do O'Neill, aquele tal que
se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!