Cyril Pedrosa teve direito a dois livros editados durante o último Amadora BD, e por duas editoras diferentes: a ASA (Portugal) e a Polvo (Três Sombras). Os dois são excelentes!
Hoje falarei sobre o livro publicado pela Polvo, o maravilhoso Três Sombras. Portugal publicado pela ASA ficará para a semana.
Cyril Pedrosa, um homem que decidiu ser desenhador. E que desenhador! Pedrosa desenha aquilo que é mais difícil: emoções!
Depois de trabalhar para a Disney deu o grande pontapé de saída na sua carreira após um encontro decisivo com Davide Chauvel. Daí ao seu primeiro grande trabalho foi um ápice: Ring Circus. As críticas foram boas e Cyril continuou, felizmente!
Eu não sou um amante da arte estilizada, ou alternativa (como preferirem), mas sei reconhecer a sua força. E a sua força vem de uma história que emocione o leitor, não importando qual a emoção em jogo. A arte estilizada tem de ser usada para dar expressividade a essa catadupa de emoções alicerçadas numa boa história. Este tipo de arte sem uma boa história para lhe dar corpo não vale nada… pode-se dizer que são apenas uns “bonecos” mal desenhados para intelectual ver!
Não é o caso, felizmente.
Cyril Pedrosa joga muito bem com as emoções do leitor, neste caso, ou no meu caso, uma tristeza infinita. Felizmente nunca perdi nenhum filho fisicamente, mas perdi um irmão mais novo. Sei o que está envolvido, embora numa percentagem mais pequena.
Sou pai de três filhos e perder um deles antes de eu me finar é algo parecido com um pesadelo do mais atroz que possa existir. É impensável.
Foi este o tema que Cyril Pedrosa escolher para fazer o seu livro Três Sombras.
Horrível.
O desenho de Pedrosa é dinâmico e equilibrado. Muito expressivo tanto na alegria, como na dor! As falas são curtas. Por vezes nem existem! Não é preciso. A narrativa gráfica deste autor francês é poderosa, o desenho fala por si só.
Por isso aconselho a quem decida ler este excelente livro a demorar em cada página. A voltar atrás, e sedimentar tudo o que o grafismo nos transmite!
Joaquim é um rapaz alegre, e faz parte de uma família feliz. Uma criança feliz com uns pais ainda mais felizes. Uma vida simples vivendo em perfeita harmonia com a natureza!
Mas surge o primeiro sinal do infortúnio… três cavaleiros dos quais só se vêem as sombras surgem lá longe nas colinas. Não há febres, não há tosse nem escarros sanguinolentos.
Aqui assiste-se ao primeiro passo no caminho da dor: a negação! E Cyril Pedrosa não apressa a narrativa… deixa fluir o processo. A mãe mais serena que o pai…
As sombras não desaparecem e Luís, o pai de Joaquim resolve fugir com o seu filho. A fuga! O segundo passo deste caminho doloroso.
Um pai é capaz de vender a "alma ao diabo" por um filho… esse é o terceiro passo.
Depois da luta chega por fim o cansaço, a rendição, quase a morte do progenitor… o quarto passo.
Joaquim abre os braços ao seu destino, o pai jaz sem forças… e chega por fim a dolorosa aceitação. O quinto passo!
No final a vida continua, os pais de Joaquim continuam a sua vida com novos filhos.
Este passo é o mais difícil por quem passou por este trauma, e muitos pais não o atingem ficando presos na depressão eterna. Dar seguimento à sua vida. O sexto passo, talvez o mais difícil!
Comovente e infelizmente real para muitos pais...
Este livro é recomendado pelo Leituras de BD.
Parabéns à editora Polvo por esta magnífica publicação.
TPB
Criado por: Cyril Pedrosa
Editado em 2012 pela Polvo
Nota: 10 em 10