O despertador toca como que por hábito porque agora não preciso de me despachar para nada. Mas eu deixo-me ficar - «o que é que vou fazer hoje?» penso ainda pouco desperta. E depois levanto-me quando as minhas gatas começam a saltar para cima da cama e para cima de mim. Uma delas senta-se confortavelmente sobre as minhas costas ou sobre a minha barriga e faz uns miadinhos fofos até me pôr da cama para fora.
Depois a rotina: casa de banho, ir
para baixo, desligar o alarme, subir as persianas, abrir a porta do quintal
para as gatas saírem – e entrar o amarelo, o comensal – tratar do pequeno
almoço ouvindo as notícias «sempre a
mesma coisa, que raiva!» Das duas, uma: ou barafusto com a televisão, ou
converso com as gatas sobre o que gostam ou não gostam de comer.
Banho e tal… Escolher a roupa
porque, tal como quando ia para a escola ou para a Associação Sénior, visto diariamente
roupa diferente e «ton sur ton» para
me sentir bem.
As manhãs são sombrias porque, se
sair, é apenas até ali à pastelaria buscar pão e não é sempre. (Afugento, como
posso, as lembranças de há um ano para trás de quando saíamos os dois no carro
para irmos ao café e comprar o jornal e dar uma volta – agora não há mesmo
volta a dar…)
Há a internet … ver as piadas da Cristina e do Luís Lobo e fazer as
minhas próprias para animar as minhas facefriends…
«Ena pá!!! Já é uma hora! O que que vou almoçar?» Se houver alguma
coisa feita, (umas vezes por outras, dá-me para fazer um guisado ou um assado e
sobre sempre para o dia seguinte, o que é muito bom!) é só aquecer; mas se não
há nada feito, grelha-se um bife ou uma costeleta e serve-se com uma laranja às
rodelas e uma verdura cozida, ou assim…
E depois, vem a tarde! Longa,
silenciosa, displicente… Uma voltinha pelo quintal, se não chove, uns
telefonemas de circunstância e de cortesia … E agora? «Vou ler ou vou trabalhar para o computador – tenho tantas coisas para
escrever!!!» O pior é que, se me ponho a ler, dá-me o sono e fico com dor
de cabeça… Então talvez ir para o computador. Mas antes de me pôr a escrever –
que implica consultas e leituras – vou (re)ver o que se passa no facebook… (Admirável e abençoado mundo novo!!!) Entretenho-me, demoro-me e,
entretanto, há que ir lanchar (Comer é quase um vício… Hummmm, mas sabe bem… Mas
depois do lanche e até à noite ainda tenho muito tempo para trabalhar!)
Se escrevo meia página ou se
termino uma tarefa das que fazem parte da lista de coisas para fazer, fico
contente comigo própria. Mas também são muitas as vezes que, aí pelas cinco da
tarde, já me apetecia acabar o dia e oralizo, por vezes, vocifero: «Que dia tão grande!...»
O jantar é frugal e rápido, mas
ainda dá para responder (quase sempre torto…) aos «noticiadeiros» que, com mais
ou menos entoação, com mais ou menos piscar de olho e posição corporal de
ataque, repetem as entrevistas canhestras e cinzentas feitas pelos estagiários e
tecem comentários quase sempre de demérito ao que os governantes têm feito ou
dito.
Por fim, vem a parte menos
angustiante do dia: o momento de sentar frente à televisão, com a mantinha
elétrica sobre as pernas e as gatas enroscadas, uma de cada lado, e partir para
as séries da 2 ou da netflix… (Admirável mundo novo!)