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sexta-feira, 10 de abril de 2020

Do(s) Presidente(s) desta República

Sabem os simpáticos leitores que por aqui passam que não fui eleitora de Marcelo Rebelo de Sousa e posso avançar que dificilmente alguma vez o serei. Mas ao ouvir hoje a sua (para mim inesperada) alocução ao país sobre as medidas que recentemente foram anunciadas pelo governo, nomeadamente no que respeita ao 3º período escolar e à libertação de presos das cadeias por razões sanitárias, tive de concordar - comigo própria que é com quem mais discuto desde há algum tempo... - que, de facto, o senhor está a portar-se como um verdadeiro Presidente: com um discurso ponderado, estruturado, seguro e verdadeiramente pedagógico, como apoiante rigoroso e incontornável das pessoas, do governo, do país no seu todo. 

A seu favor tem este Presidente a educação de berço, uma cultura de gerações, grande  poder e experiência de argumentação convicta e muitos anos de pedagogia. 

Não, não penseis nem por um momento que estou a deixar-me convencer... Mas uma ideia latente se repete na minha cabeça: «E, como seria, se tivéssemos ainda o anterior presidente?!»  
  
Seria mauzito, seria bem diferente, seria bem pior...

(E desculpai esta minha mente tantas vezes perversa, mas ... quando nas televisões anunciaram as provações por que muitos idosos estão a passar num lar de Boliqueime... nem queiram saber o que fugidiamente me veio à lembrança... que vergonha...)




sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Habemus PR Bolsonaro, Consummatum est...

Deus e os meus amigos sabem que não sou seguidora de igrejas; aprecio, porém, a filosofia de vida e a forma sensata como aborda os graves problemas do mundo. Refiro-me a Francisco, o Papa. E foi ele que, na sua sapientíssima mensagem de Ano Novo, nos exortou, a todos, a interessarmo-nos pela política, pela forma como se governa a cidade (perspetiva da Grécia Antiga). 

É nesta linha que eu me interesso pela política, seguindo a orientação de Francisco, o Papa.  

Assim sendo, não me eximi de trazer aqui a bem concebida crónica que Carlos Esperança publicou ontem no facebook.


Brasil – Habemus PR Bolsonaro. Consummatum est

«A tomada de posse de Jair Messias Bolsonaro foi o ato final de legitimação do golpe de Estado contra Dilma. Lá foi Michel Temer, que a traiu, a devolver a faixa presidencial, à espera da prisão, pois, ao contrário de Lula, há gravações que provam a sua corrupção.

Da conspiração das Igrejas evangélicas, com homilias, órgãos de comunicação e crentes destacados nas redes sociais, sai mais poderoso o bispo Edir Macedo e mais próximo do Paraíso quem paga o dízimo, em suaves prestações, na compra de uma assoalhada junto a Deus, mas foram os grandes interesses económico-financeiros que aprontaram o golpe e o conduziram.

Nos políticos conluiados com o poder judicial, para afastar o previsível vencedor, Lula da Silva, estava o juiz Sérgio Moro, cuja ambição dispensou um período de nojo entre a prisão, investigação e julgamento do adversário político e a entrada imediata no governo do fascista assumido, machista, homofóbico, racista, xenófobo e violento.

Bolsonaro, depois de uma carreira militar que terminou em capitão, de onde foi afastado por críticas públicas a baixos salários dos militares e a um alegado plano para dinamitar os sanitários da sua Academia Militar, foi para a política, onde se distinguiu mais pela boçalidade do que pela atividade legislativa, nos 27 anos de Congresso Federal, em que percorreu 8 partidos, sendo o último, PSL, que o indigitou para candidato à Presidência.

Convidou pessoalmente para a posse os primeiros-ministros de Israel e da Hungria e o chefe da diplomacia dos EUA. O pudor ou calculismo afastou figuras de primeiro-plano internacional do pungente espetáculo que contou com fortes medidas de segurança.

Em Portugal, a política externa é competência exclusiva do Governo e o PR não define relações bilaterais, mas representa o País em qualquer lugar. Apreciando os espetáculos mórbidos, mesmo assim, parecia um erro de casting no cenário e não se percebe, depois da posse, a obsessão por uma audiência, o desejo de ser figurante junto de tal figurão.

A enigmática afirmação, após o breve encontro do homem de cultura, civilizado, com o troglodita tropical, deixa um sentimento pungente a quem apreciava o discernimento de Marcelo: “Como eu disse e como disse o Presidente Bolsonaro, era uma reunião entre irmãos e entre irmãos o que há a dizer se diz rápido, como se diz em família”.

Não sei que interesses moveram Marcelo na deslocação, podia ter enviado Cavaco, em sua representação, como fizera no funeral de Bush-pai. Era a pessoa adequada ao papel e poupava-lhe a participação no primeiro ato do funeral da democracia brasileira.

A presença do PR em Brasília foi humilhante para ele e para o País. Numa atitude sem precedentes, só as televisões portuguesas fizeram pior. Deram desmedido relevo ao ato, cúmplices da vergonhosa promoção de Bolsonaro e da divulgação do seu ideário.

Para a posteridade ficaram também as alarvidades bolçadas pelo gen. Hamilton Mourão, o vice-presidente, com sequazes em delírio, como metáfora de uma ditadura de coronéis com a cultura de cabos quarteleiros, capazes de transformar a presidência em caserna.»

Carlos Esperança. Facebook, 3/Jan/2019      (sublinhados meus)

A mim parece-me que o presidente Marcelo não tinha de ter tido este comportamento quase subserviente face a um proto-ditador, apaparicando-o, tratando-o de irmão, convidando-o a visitar oficialmente o país... Como diz o povo: «Não se pode estar bem com Deus e com o Diabo ao mesmo tempo».



sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O voto

Do melhor que já vi sobre o voto.

Atenção Brasil! E Portugal. E o resto do mundo.

Atenção a todos nós!


(in Jornal de Letras)

terça-feira, 24 de julho de 2018

Pérolas

O inafável José Rodrigues dos Santos abriu hoje o telejornal da hora do jantar com uma  pérola  digna de um Trump, sei lá!!!

Enquanto este nega as alterações climáticas...


... o senhor Rodrigues dos Santos que recebe o seu ordenado na estação pública, mas que ataca com unhas e dentes (eu diria até com as orelhas, mas não fica bem...) todas as ações do governo, afirmou, sem pestanejar, nem se rir, que os incêndios que lavram na Grécia devem-se às alterações climáticas (aumento das temperaturas e ventos fortes) que se têm registado na zona do Mediterrâneo. 

Já os fogos que tragicamente assolaram o nosso país no ano passado tinham-se devido a mera negligência do governo, falta de meios e falta de medidas preventivas e sei lá quantas mais falhas do governo...

Outra pérola que se seguiu no mesmo telejornal foi o inatacável e super confiante chefe do maior partido da oposição que afirmou que o atual ministro das finanças se contradisse nas declarações que fez sobre o próximo orçamento de Estado. E acrescentou, cheio de sarcasmo e de sabedoria popular, que «mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo».

O engraçado é que não me lembro de alguma vez ter visto coxear o anterior PM ou outras altas individualidades do seu partido que mentiram ao povo desde o primeiro dia em que chegaram ao governo (eles até nem iam cortar os subsídios de Natal e de férias e depois foi o que se viu...) até ao ultiminho em que prometeram devolver-nos a sobretaxa do IRS...


Enfim!

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Da emoção em política

São apenas dois minutos. Convido-vos a ouvir este excelente discurso sobre o que de facto é - ou deveria ser - a Europa.

Curto, simples, franco, sentido.




segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Saudades de Manuel António Pina

Fez anos que partiu no dia 19 de outubro; faria anos (74) no passado dia 18 e eu nada disse, nada escrevi, nada aqui recordei. Mas é daquelas personalidades, daqueles escritores que deixa tanta saudade. Fazem-me falta as finas observações que fazia nas suas crónicas que publicava no JN e no DN. Os seus poemas ficaram e falarão por si e por ele, mas nem sempre são fáceis de lhes apreender o justo sentido.

Por isso hoje, que não faz anos de nada, mas apenas porque me lembrei dele, e sempre com saudade, deixo aqui uma das suas crónicas retirada da coletânea que a Assírio e Alvim publicou, depois da sua morte, com o título Crónica, Saudade da Literatura. Sintam-lhe e ironia.

Eterno retorno

"Começam a perceber-se as misteriosas razões que terão levado 2 159 742 portugueses a votar em Passos Coelho.

O eleitorado português tem sido repetidamente elogiado pela prudência e sensatez. Tirando a parte, humana, demasiado humana, da lisonja, resta o que é talvez fundamental, que os portugueses não gostam de surpresas e votam no que conhecem. E há que admirar a sua intuição: votando em Passos Coelho, o jovem desconhecido vindo do nada, que é como quem diz da JSD e de uns arrufos com a Dra. Ferreira Leite, votaram no mesmo de sempre, na incomensurável distância que, em política, vai do que se diz ao que se faz.

E, pedindo ajuda a O’Neill, o eleitorado «tinh’ rrazão»: disse Passos Coelho que era um disparate afirmar-se que que tributaria o subsídio de Natal e foi a primeira coisa que fez mal chegou ao Governo; que não mexeria nos impostos sobre o rendimento e idem aspas; que iria pôr o Estado em cura de emagrecimento e o «seu» Estado só tem engordado adjuntos, assessores, «especialistas» (e até «superadjuntos» e «superespecialistas»); agora foi de férias «para recuperar algum tempo do [seu] papel enquanto marido e pai» depois de ter anunciado que «o Governo não gozará férias» dada a necessidade de , «com rapidez», «traduzir os objectivos (…) que estão fixados em políticas concretas».

Estou em crer que o eleitor português típico, se tal coisa existe, nunca votaria num político imprevisível."

JN, 10/08/2011

(… enganou-se o nosso bom poeta e cronista. Esse “eleitor português típico” cuja existência ele até pôs em dúvida e que, de facto, não deve existir, voltou a votar no tal “político imprevisível” quatro anos mais tarde e depois de todas as “tarrafias” por que fez o tal eleitor típico - e os outros todos - passar… Mas a essa inexplicável incongruência do eleitor já o poeta foi poupado por um trágico revés da vida.)




terça-feira, 11 de julho de 2017

Dois pesos, duas medidas...

Sei que não são muito apreciadas as minhas publicações sobre a atualidade política. Porém, este é um blog multifacetado, daqueles que pretendem transparecer o que vai acontecendo no dia a dia, naturalmente pela minha visão.

Assim, não há forma de ficar indiferente perante toda esta forma dolosa do chamado Ministério Público avaliar a realidade conforme tende para determinada fação político-partidária - a sua - ou para a oposta. 

Para ilustrar esta falta de imparcialidade, fica aqui o texto do meu facefriend Carlos Esperança que é bastante mais equilibrado do que qualquer outro que eu pudesse escrever sobre o assunto.

A Galp, os secretários de Estado e a ética republicana

«A aceitação de uma viagem pública, para ver um jogo de futebol da seleção nacional, pode ter sido uma imprudência ingénua de quem a aceitou, talvez mesmo ingenuidade política, mas não o foi certamente de quem a ofereceu.

A ética republicana é incompatível com a aceitação de almoços, e o ato dos secretários de Estado é politicamente censurável. É pena que pessoas de excecional competência técnica não tenham sensibilidade política equivalente.

Exonerados a seu pedido, é aos Tribunais que cabe decidir se há lugar a sanções penais.

Mas não deixa de me surpreender a investigação tardia de um ato público amplamente divulgado, há mais de um ano, e o conjunto de coincidências que estão a acontecer.

E surpreende-me, sobretudo, por não ter sido averiguado o suborno comprovado pelas autoridades alemãs no caso dos submarinos e a falta de desmentido do desaparecimento dos papéis, bem como o desinteresse sobre 61 mil fotocópias que Paulo Portas levou do ministério da Defesa, quando cessou funções. (Pagando-as, claro).

Surpreende ainda o contraste entre a vigilância às viagens dos ex-secretários de Estado e a indiferença sobre a viagem familiar ao Brasil, em jato privado, para uma estadia numa ilha paradisíaca, de um primeiro-ministro a convite do amigo que tinha negócios com o Estado. E, surpresa maior, o generoso anfitrião protagonizaria, a seguir, o escândalo da compra da Quinta da Falagueira, que um partido da oposição denunciou, com o referido PM a referir-se ao amigo, que lhe hospedara a família e lhe proporcionara a viagem em jato privado, por «conhecido»: “É uma difamação estar a pretender que por ser meu conhecido, isso à partida envolve uma participação que não é correta” – diria o PM Durão Barroso.

Se esta investigação é uma mudança de paradigma, seja bem-vinda. Se é coincidência temporal com a campanha orquestrada pela direita salazarenta contra o atual Governo, é um azar circunstancial. Mas se o atual PR viesse a comprar ações não cotadas em bolsa e as vendesse com mais-valias substanciais, sem a investigação que apurasse a licitude, era motivo de desconfiança.»

A Justiça também está sob escrutínio.»




quarta-feira, 5 de abril de 2017

Desculpem-me!

Pois é! Hoje começo por pedir desculpa. Desculpa pela fúria que posso, inadvertidamente, expelir; desculpa por falar de política partidária; desculpa a quem aqui passar e for admirador incondicional dos partidos em questão.

Até certa altura a gente contém-se, mas há decisões superiores que nos fazem ferver e, como os vulcões, vamos aquecendo e acumulando gases até que chega o momento em que sai tudo: pedras, lava e labaredas!

Sabemos que os bancos, nomeadamente o BPN, têm falido devido aos empréstimos/ofertas milionários feitos a determinadas "altas" figuras, sem quaisquer garantias a não ser pertencerem a um certo grupo fechado que sentiam - e sentem, pois então! - ser os "donos disto tudo". Essas ditas figuras ficaram, da noite para o dia, riquíssimas. Para atirar com poeira para os olhos do zé povinho, abriram-se uns quaisquer inquéritos, não sem antes se assegurar que os que mandam na "Justiça" pertenciam ao dito grupo e depois, passados anos em que nada se fez senão deixar cair tudo no marasmo e no esquecimento, arquivam-se os processos por falta de provas, ou então - mais simples ainda - deixam-se prescrever. 

Muito conveniente!!

Mas, atenção! É mesmo preciso pertencer-se a esse grupo fechado, o verdadeiro 'gang laranja' para que as coisas funcionem assim. Os outros, os que não têm a cor e o sumo da laranja, por oposição, são espremidos até ao tutano, enxovalhados, enlameados, presos para investigações que nunca mais dão fruto e eu sei lá o que mais. 

É a isto que queremos chamar de Justiça? Não! Não me convencem. Por isso, meus caros amigos, estou furiosa e, mais do que isso, apoquentada. De facto, não temos quem nos defenda e nos trate com a retidão do fio de prumo se, alguma vez, tivermos um percalço, uma aflição na vida.

Hoje li uma frase que, breve e certeira, diz tudo: «A corrupção em Portugal não se limpa ... ARQUIVA-SE! »











quarta-feira, 22 de junho de 2016

To stay or not to stay, that is the question...

Na véspera do dia do referendo no Reino Unido sobre a saída ou não da União Europeia, muitos britânicos devem estar a relembrar esta cançãozinha dos anos 80 dos The Clash, perguntando-se «should I stay or should I go»...

O melhor é mesmo levarmos isto «na desportiva», que a questão é séria...




segunda-feira, 18 de abril de 2016

Não me conformo!

Não me conformo com o que se está a passar no Brasil, nosso país irmão. Um brutal ataque à Democracia.

Uma vergonhosa votação da Câmara dos Deputados de 367 votos a favor contra apenas 137 contra a destituição da Presidente a propósito da qual transcrevo um cometário-lamento com que concordo em absoluto.

«Brasil – A destituição de Dilma Roussef

Foi a primeira vez que vi a justiça popular, no que tem de mais irracional e execrável, a funcionar por interpostos deputados brasileiros.

O mal-estar, a que a corrupção não é alheia, nem nova, deve-se à crise do capitalismo e à queda brutal dos preços das matérias-primas, especialmente do petróleo, provocando a recessão que impediu a continuidade do ‘milagre brasileiro’ que retirou da miséria milhões de pobres.

A ansiedade e a revolta, essas, foram estimuladas e ampliadas nas ruas pelos que nunca perdoaram as medidas sociais e o êxito dos governos de Lula, pelos que detêm os meios de comunicação social, pelos que, através de ditaduras militares, fruíram privilégios que procuram recuperar.

O absurdo e imoral processo de destituição de Dilma Roussef foi conduzido por muitos deputados arguidos em processos de corrupção contra uma das raras personalidades da política brasileira que não aparece como suspeita em é alvo de qualquer investigação – a PR.

Não podendo a PR eliminar os corruptos, destituíram-na estes.

O Brasil entrou num processo estranho onde se confundem interesses pessoais, luta de classes, ódios velhos e vinganças mesquinhas, com o país a encaminhar-se rapidamente para o abismo da guerra civil e/ou da ditadura.

No descalabro de um país de ‘portugueses à solta’, vejo a alegria esfuziante de um povo a transformar-se em medo, revolta e desespero, com os velhos demónios despertos.»


Carlos Esperança, facebook, 16/4/2016




terça-feira, 22 de março de 2016

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Está explicado!




Daí os elogios de ontem!!!

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Fim!

Não posso deixar de manifestar aqui a minha satisfação por o país se ter finalmente livrado da terrível malha de paradigma «uma maioria, um governo, um presidente» em que ingenuamente se deixou cair.

Podia escrever aqui as minhas razões, mas melhor que eu as escreveu o embaixador Francisco Seixas da Costa  no seu blog «duas ou três coisas» no texto «Não lhes perdoo!» que transcrevo na totalidade.


«Acaba hoje aquela que constitui a mais penosa experiência política a que me foi dado assistir na minha vida adulta em democracia. Salvaguardadas as exceções que sempre existem, quero dizer que nunca me senti tão distante de uma governação como daquela a que este país sofreu desde 2011. 

Não duvido que alguns dos governantes que hoje transitam para o passado tentaram fazer o seu melhor ao longo destes cerca de quatro anos e meio. Em alguns deles detetei mesmo competência técnica e profissional, fidelidade a uma linha de orientação que consideraram ser a melhor para o país que lhes calhou governarem. Mas há coisas que, na globalidade do governo a que pertenceram, nunca lhes perdoarei.

Desde logo, a mentira, a descarada mentira com que conquistaram os votos crédulos dos portugueses em 2011, para, poucas semanas depois, virem a pôr em prática uma governação em que viriam a fazer precisamente o contrário daquilo que haviam prometido. As palavras fortes existem para serem usadas e a isso chama-se desonestidade política.

Depois, a insensibilidade social. Assistimos no governo que agora se vai, sempre com cobertura ao nível mais elevado, a uma obscena política de agravamento das clivagens sociais, destruidora do tecido de solidariedade que faz parte da nossa matriz como país, como que insultando e tratando com desprezo as pessoas idosas e mais frágeis, desenvolvendo uma doutrina que teve o seu expoente na frase de um anormal que jocosamente falou, sem reação de ninguém com responsabilidade, de "peste grisalha". Vimos surgir, escudado na cumplicidade objetiva do primeiro-ministro, um discurso "jeuniste" que chegou mesmo a procurar filosofar sobre a legitimidade da quebra da solidariedade inter-geracional.

Um dia, ouvi da boca de um dos "golden boys" desta governação, a enormidade de assumir que considerava "legítimo que os reformados e pensionistas fossem os mais sacrificados nos cortes, pela fatia que isso representava nas despesas do Estado mas, igualmente, pela circunstância da sua capacidade reivindicativa de reação ser muito menor dos que os trabalhadores no ativo", o que suscitava menos problemas políticos na execução das medidas. Essa personagem foi ao ponto de sugerir a necessidade de medidas que estimulassem, presumo que de forma não constrangente, o regresso dos velhos reformados e pensionistas, residentes nas grandes cidades, "à província de onde tinham saído", onde uma vida mais barata poderia ser mais compatível com a redução dos seus meios de subsistência.

Fui testemunha de atos de desprezo por interesses económicos geoestratégicos do país, pela assunção, por mera opção ideológica, por sectarismo político nunca antes visto, de um desmantelar do papel do Estado na economia, que chegou a limites quase criminosos. Assisti a um governante, que hoje sai do poder feito ministro, dizer um dia, com ar orgulhosamente convicto, perante investidores estrangeiros, que "depois deste processo de privatizações, o Estado não ficará na sua posse com nada que dê lucro".

Ouvi da boca de outro alto responsável, a propósito do processo de privatizações, que "o encaixe de capital está longe de ser a nossa principal preocupação. O que queremos mostrar com a aceleração desse processo, bem como com o fim das "golden shares" e pela anulação de todos os mecanismos de intervenção e controlo do Estado na economia, é que Portugal passa a ser a sociedade mais liberal da Europa, onde o investimento encontra um terreno sem o menor obstáculo, com a menor regulação possível, ao nível dos países mais "business-friendly" do mundo".

Assisti a isto e a muito mais. Fui testemunha do desprezo profundo com que a nossa Administração Pública foi tratada, pela fabricação artificial da clivagem público-privado, fruto da acaparação da máquina do Estado por um grupo organizado que verdadeiramente o odiava, que o tentou destruir, que arruinou serviços públicos, procurando que o cidadão-utente, ao corporizar o seu mal-estar na entidade Estado, acabasse por se sentir solidário com as políticas que aviltavam a máquina pública.

No Ministério dos Negócios Estrangeiros, assisti a uma operação de desmantelamento criterioso das estruturas que serviam os cidadãos expatriados e garantiam a capacidade mínima para dar a Portugal meios para sustentar a sua projeção e a possibilidade da máquina diplomática e consular defender os interesses nacionais na ordem externa. Assisti ao encerramento cego de estruturas consulares e diplomáticas (e à alegre reversão de algumas destas medidas, quando conveio), à retirada de meios financeiros e humanos um pouco por todo o lado, à delapidação de património adquirido com esforço pelo país durante décadas, cuja alienação se fez com uma irresponsável leveza de decisão.

Nunca lhes perdoarei o que fizeram a este país ao longo dos últimos anos. E, muito em especial, não esquecerei que a atuação dessas pessoas, à frente de um Estado que tinham por jurado inimigo e no seio do qual foram uma assumida "quinta coluna", conseguiu criar em mim, pela primeira vez em mais de quatro décadas de dedicação ao serviço público - em que cultivei um orgulho de ser servidor do Estado, que aprendi com os exemplos do meu avô e do meu pai -, um sentimento de desgostosa dessolidarização com o Estado que tristemente lhes coube titular durante este triste quadriénio.

Por essa razão, neste dia em que, com imensa alegria, os vejo partir, não podia calar este meu sentimento profundo. Há dúvidas quanto ao futuro que aí vem? Pode haver, mas todas as dúvidas serão sempre mais promissoras que este passado recente que nos fizeram atravessar. Fosse eu católico e dir-lhes-ia: vão com deus. Como não sou, deixo-lhes apenas o meu silêncio.


sábado, 21 de novembro de 2015

Como Cavaco gostava de ver o MacGyver!!


Quem não se lembra dos episódios do habilidoso MacGyver, exímio em inventar geringonças, que passavam aos domingos à tarde em finais da década de 1980? E quem não se lembra também como tão do agrado era do "nosso" atual "presidente" da República, que à época, habitava - com mais tónus e também com mais milhões que jorravam da Europa - o Palácio de São Bento?

Lembrei-me disso quando li a crónica que Pacheco Pereira (voz verdadeiramente insuspeita!) escreveu no Público que está, diga-se de passagem, um verdadeiro mimo. 

Vale a pena ler-se. Passo então a transcrever na íntegra:


«A caracterização do eventual governo do PS como uma “geringonça” foi feita por Vasco Pulido Valente e repetida com evidente gozo por Portas, dando o mote para vários deputados do CDS que costumam repetir o chefe. Muito bem, não me parece que haja qualquer problema em aceitar a classificação, tanto mais que ela não é tão pejorativa como eles pensam. Mas proponho outra simétrica para o governo PSD-CDS, muito menos ambígua e que não há imaginação criadora que lhe encontre qualquer sentido positivo: a avantesma. A geringonça apareceu para que não nos assombre a avantesma.

Geringonça não é uma designação tão má como isso. É verdade que é “coisa mal feita, caranguejola, obra armada no ar”. Mas perguntem ao MacGyver e dêem-lhe um canivete suíço. A primeira máquina a vapor, a primeira lâmpada, o avião dos irmãos Wright podiam ser designadas como geringonças, mas as máquinas a vapor, as lâmpadas e os aviões que vieram a seguir já não eram geringonças. O governo minoritário do centro-esquerda do PS com a apoio parlamentar do BE e do PCP ainda é uma geringonça, mas quanto mais baixas forem as expectativas mais a geringonça se pode transformar numa máquina a sério. Ou talvez não.

Mas, o governo tombado na Assembleia não é uma geringonça, é já uma máquina a sério, com quase cinco anos de experiência, e é por isso que a continuidade da direita no poder foi sentida como sendo tão assustadora que conseguiu que o MacGyver invisível da esquerda, à pressa, construísse com o seu canivete suíço, a geringonça.

É que, para uma maioria dos portugueses, que votou “contra o governo” – insisto a única interpretação sólida dos 62% de votos –, ficarem lá “os mesmos”, seria o pior dos pecados e é essa força invisível e visível que permitiu a geringonça. É também por isso que o cimento da geringonça não está nos acordos, nos “papéis” como diz pejorativamente a direita, mas no que permitiu que eles se fizessem.

Vamos à avantesma. Os nossos dicionários são inequívocos “aparição de uma pessoa morta”, “pessoa ou objecto assustador, disforme ou demasiado grande”. Morto está, mas o Presidente da República ainda lhe permite que mexa, para ainda maior susto dos portugueses. Mete medo? Mete e ainda devia meter mais. Todo o processo da avantesma, o seu “conceito” como agora se diz, está bem explícito na história da devolução dos 35% da sobrecarga do IRS, que agora se verifica ser zero. Porque é que a história da devolução do IRS fantasma está na massa do sangue da avantesma? Porque foi isso que reiteradamente semana sim, semana sim, a coligação fez nestes últimos quatro anos e continua a fazer como quem respira.

É a mentira muito comum na esfera pública e política? É. Há uns especialistas na mentira que estão agora a contas com a justiça e que vinham do lado da geringonça. Mas isso não justifica o uso sistemático da mentira como mecanismo de governação, com a agravante de que uma comunicação social que nunca esteve tão perto do poder, em particular no chamado jornalismo económico, mas não só, dá uma amplificação enorme a estas mentiras. Transformaram-se naquilo que é o mais próximo que já alguma vez conhecemos, do “pensamento único”. E o “único” tem muita força, mas é do domínio dos “objectos disformes”, “demasiado grandes”, das avantesmas.

Denunciei várias vezes que se estava a criar artificialmente um panorama paradisíaco da situação económica portuguesa para efeitos eleitorais, e que iríamos ter um despertar abrupto depois do dia 4 de Outubro. Assim foi. Não o disse porque tinha qualquer varinha mágica ou informação privilegiada para o afirmar. Bastava somar dois e dois e verificar que não davam quatro e as coisas não encaixavam. A pergunta certa é por que razão não se fazia a soma a ver o que é que dava?

Mas a voz do governo e dos interesses que com ele se fundiam, funcionavam como um megafone ensurdecedor. Hoje, que se começa a perceber melhor qual era a verdadeira situação orçamental, os números preocupantes sobre a evolução da economia portuguesa, as prevenções do Banco de Portugal, o que está a acontecer com o Novo Banco e com a TAP, a censura dos números sobre a emigração, ainda vamos ver culpar retrospectivamente a esquerda pelos números negativos. Aliás, não é “vamos ver”, é “já vimos”, porque já vi o desplante de um jornalista da área económica de um grande jornal, dizer que a culpa destes números, no caso do IRS que fugiu, foi “das eleições”.

Foi, aliás, por estas e por tantas outras que me surpreendeu que o Presidente da República, na sua nova e inventada Câmara Corporativa, se tenha esquecido de ouvir os jornalistas de economia que, salvo honrosas excepções, se comprometeram a fundo nos últimos anos na interpretação do “ajustamento” que fez a coligação PSD-CDS. Eles lhe diriam certamente que o maior crime que se pode fazer à economia é aumentar o rendimento das pessoas e das famílias, em vez das empresas. Eles lhe diriam que a “reversão” da legislação laboral, um dos terrores dos empresários que acompanham Passos e Portas, tornará as empresas ingovernáveis e dificultará essa maravilhosa opção que é despedir. Eles lhe diriam que tentar no meio de muitos constrangimentos, olhar de forma dedicada e voluntariosa, para medidas moderadas destinadas a melhorar a qualidade de vida dos portugueses, é um projecto comunista. E eles lhe diriam, como aliás já li, que Hollande pode – como um mau exemplo a exorcizar – dizer que não vai cumprir o Tratado Orçamental, para gastar mais em defesa da França, mas nem pensar pôr em causa as “orientações”, como lhe chama o Presidente, da “Europa” a Portugal. E eu a pensar que o único senhor das “orientações” era o povo português, votando. Mas isso já não se usa.

Por isso, a queda do governo foi também a queda do “seu” governo, com ele perderam a face e a independência, e reflectem também muita da raiva que anda por esses lados.

A geringonça é um frágil meio de combater a avantesma, mas hoje não há outro para reequilibrar o sistema político puxado violentamente à direita. Talvez o melhor exemplo dessa viragem à direita esteja no número de vozes que afirmam alto e bom som que preferem um governo de gestão sabendo bem de mais os estragos que isso trará à economia, à paz civil e à legalidade democrática. É que a avantesma alimenta-se do “único”, do “não há alternativa”, do direito natural e irrevogável de governarem, para si e para os seus.

Se gosta de ser enganado, junte-se ao exército dos mortos vivos, mas não se esqueça em Janeiro de 2016 de ir lá buscar a reposição dos 35%. Sim, porque para si, nem Passos, nem Portas, nem Albuquerque, iriam fazer essa coisa socratista de mentir para ganhar eleições.

É que a avantesma, mete medo e deve meter medo. Não me canso de dizer, é perigosa, muito capaz na defesa dos seus interesses, com enormes recursos, com muitas contas a ajustar, e muitas velhas e novas mentiras para dizer.

E deve-se ser implacável com a geringonça, para que não se parta por dentro, já que por fora vai respirar ácido sulfúrico.

Ou que esperam da avantesma que é do domínio do enxofre? Sim, daquele enxofre que vem na Bíblia.»


domingo, 6 de setembro de 2015

Não gosto de palhaços

Pois é mesmo verdade: desde que me lembro de me levarem àqueles pequenos (e pobres) circos lá em Algés, nos idos de 50, nunca gostei de palhaços. Quero dizer, não era bem não gostar dos palhaços, que até eram simpáticos e, não obstante a miséria e a tristeza que lhes líamos no olhar, esforçavam-se por nos fazerem rir e trazer alguns breves momentos de alegria a um público também ele pobre e triste. Do que eu nunca gostei foi de palhaçadas.

Em vez de usar a palavra «palhaços» talvez devesse empregar palavras como histriões, titeriteiros, farsistas (ou farsantes…) E, no entanto, adoro rir, aprecio uma boa anedota, vejo com prazer uma comédia fina. Nada, porém, de histrionices, pantominas, palhaçadas, enfim.

Ora é mercê destes meus gostos e não-gostos que me tenho abstido de seguir os telejornais e os (pseudo) comentários e debates político na televisão nomeadamente desde 6ª feira, dia em que decidiram deixar o ex-primeiro-ministro sair da prisão.

(Podia até deixar aqui o meu pensamento da histrionice dessa detenção em Novembro último, mas não foi isso que me trouxe aqui hoje.)

A palhaçada montada à porta da casa onde ele decidiu acoitar-se, por palhaçada que é, desagrada-me sobremaneira. Mas pior, bem pior do que essa – que se assemelha aos palhaços que eu via em Algés pela miséria que transparece nos atores – e essa sim, põe-me os nervos em franja, é a histrionice dos jornalistas e dos (pseudo) comentadores (de direita, que outros não há) que à força querem – e hélas! vão conseguindo – inculcar nas cabecinhas frágeis e leves de quem os ouve e os atende que a saída de Sócrates da prisão vai prejudicar o PS e vai fazer agitar e estremecer a campanha eleitoral e que só se vai falar em Sócrates e que isso vai fazer sombra ao António Costa e que e que… Quando percebemos muito bem que o que eles – todos esses histriões que pululam nas televisões – pretendem é serem eles próprios a agitar a campanha eleitoral e falar muito de Sócrates e do seu «enorme ego» e mais não sei o quê, para assim fazerem (re)despertar o enorme ódio que esse mesmo povinho sente contra o ex-primeiro-ministro que «provocou a enorme crise económica» que deixou Portugal (e a Irlanda e a Grécia e a Espanha e a Itália e a França) à beira do abismo e ganharem votos custe o que custar!




segunda-feira, 17 de agosto de 2015

A solução

Vou-me dando conta dia após dia: a situação está perto do caótico.

A proposta de solução é antiga, mas aplica-se. Que me dizem?

A Solução

(...)

Por sua culpa,
O povo perdeu a confiança do governo
E só à custa de esforços redobrados
Poderá recuperá-la. Mas não seria
Mais simples para o governo
Dissolver o povo
E eleger outro?

(Bertolt Brecht, Poemas, Editorial Presença, 1976)



quinta-feira, 7 de maio de 2015

Para memória futura

Em defesa dos funcionários públicos - a quem muito "boa gente" atribui - juntamente com os reformados, também conhecidos pelo grupo da «peste grisalha» - as culpas pelo buraco financeiro do país (que nada tem a ver com as golpadas do BPN e outras quejandas, claro!) e para que nos lembremos quando formos votar lá para o outono.


















E aí vem-nos à mente o velho poema de Brecht que já aqui deixei antes.




quarta-feira, 25 de março de 2015

Os cofres cheios



Muito se tem dito e escrito acerca desta (e de outras) bacorada(s) que a ministra (esta sim) sinistra lançou boca fora para os jotinhas do partido, mas ninguém de uma forma (quase) literária como só BB sabe fazê-lo! A crónica chama-se «O Insulto» e vale a pena lê-la.

É sempre um prazer lê-lo! Só lamento que tenha de ser naquele jornaleco de baixo nível.

«Num conclave do PSD, Passos Coelho apareceu na defesa da ministra Maria Luís, a qual, dias antes, trémula de orgulho, afirmara, à puridade, que o Governo tinha os cofres cheios de dinheiro.

E Passos, muito feliz, acrescentou: ao contrário do que sucedia com o Governo anterior. Como o têm dito economistas de todas as cores, a verdade não é esta, e a teoria da bancarrota só faz sentido para quem é mentiroso, e usa o imbróglio como lança para alcançar ou permanecer no mando.

Infelizmente, este Governo, com as práticas demonstradas ao longo de quatro anos pavorosos, repletos de escândalos, de confrontos com a própria noção de república, tem sido, é, o maior aborto democrático e o mais grave insulto a todos nós. (...)

Talvez estejamos no turbilhão de uma profunda mudança, cujas conveniências escapam ao modelo de humanismo no qual, mal ou bem, temos vivido.

Inclino-me a admitir o facto. Mas também não conjecturo um grupo de serventuários tão inepto e iletrado como este a servir essa transformação.

Se o faz, desobedecendo ou ignorando as leis da convivência social e da cordialidade mais rudimentares, dá como resultado a frase execranda de Maria Luís e o apoio despudorado de Pedro Passos Coelho.

Portugal estrebucha na miséria, com fome, sem esperança e sem norte, e aqueles dois bolçam em nós o critério do cofre cheio, como no tempo do Salazar.

Com, entre outras, uma diferença: o Salazar era um conhecedor da língua, por frequentador diurno e nocturno do Padre Vieira, e aqueles que tais nem sabem quem este foi.

A pátria está dividida, mas o desvio de vida e de consciência acabará, talvez mais cedo do que se pensa, e o episódio Passos Coelho e os seus, não serão mais do que isso mesmo: um episódio. Nefasto, bem entendido, mas episódio, circunscrito a um tempo em que a mentira vicejou."

(Baptista-Bastos, in CM, 25/03/2015)

segunda-feira, 23 de março de 2015

O candidato

Como se não bastasse tudo o resto que continua a (des)acontecer por esse país abaixo e por esse país acima e em S. Bento e em Belém e até em Évora, vem agora o Henrique Neto - sempre em bicos de pés - candidatar-se a presidente da República!!

Mau de mais!!





quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

A política do «custe o que custar»



Que este primeiro-ministro que, por incúria de alguns – ou de muitos – «foi ao pote», ou seja, tomou o poder de assalto, não tem política(s) não é novidade para ninguém neste país.

Que este mesmo primeiro-ministro não tem uma linguagem cuidada e usa muitas expressões do registo coloquial que não quadra com o nível de um chefe da governação, também já nos espanta.

Mas daí a utilizar a mesma vulgar expressão em sentidos contrários é que é de mais!

Então o senhor Passos Coelho, pouco tempo após ter chegado ao pote, digo, ao governo, afirmou aos quatro ventos que «temos de pagar a dívida custe o que custar». Mas ontem, depois de se saber que uma mulher de 51 anos que sofria de hepatite C morreu porque não lhe pôde ser ministrado o medicamento respectivo porque o hospital não tinha dinheiro para o comprar, depois de se saber que as pessoas morrem nas urgências sem que um médico chegue perto de si, depois de se saber que as mortes nos hospitais têm sido aos milhares e não apenas por efeito do pico de gripe, o insigne primeiro vem a público e afirma, como se de um nazi se tratasse, para quem o quis ouvir que «deve-se fazer tudo para salvar vidas, mas não custe o que custar».

Facilmente se conclui destas – e de outras muitas – afirmações desta espécie de primeiro-ministro que nos calhou em sorte que há que fazer de tudo para pagar aos agiotas que nos emprestam dinheiro para podermos continuar a aumentar a dívida soberana, mas que não temos de fazer de tudo para salvar vidas de cidadãos.

Que bem entregues estamos!