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quinta-feira, 13 de junho de 2019

Pessoa nasceu num 13 de Junho

Foi no dia 13 de junho de 1888 que, no Largo de São Carlos em Lisboa, nasceu o poeta Fernando Pessoa Há precisamente 131 anos.




Não obstante o seu valor poético e inovador de enorme figura das Letras da primeira metade do século XX, não viveu uma vida feliz. 

A angústia existencial, a nostalgia de outros tempos mais felizes, a dor que lhe causava o seu pensar multifacetado estão patentes em muitos dos seus poemas enquanto Pessoa  pessoa, como em Álvaro de Campos, o seu alter-ego, como em Bernardo Soares, o seu semi heterónimo.

E porque o momento, por cá, também não é dos mais felizes, a minha homenagem deste ano ao grande poeta de Orpheu, fica-se por aqui:


Desperto de sonhar-te

Desperto de sonhar-te
Quando inda a noite é funda,
E um céu estelar faz parte
Do silêncio que inunda.
Perdi poder amar-te
E a treva me circunda.

Talvez que relembrasse,
Sonhando-te, outro ser,
E aquilo que sonhasse
Fosse tornar a ter.
Mas despertei, e faz-se
Claro em meu quarto a ver.

Insónia de perder-te!
Quem foste já não sei.
Pela janela verte
Cada astro a sua lei.
Como, sem sonhar ter-te?...
Porque não dormirei?

(1932)

Fernando Pessoa, in  Pessoa Inédito (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.

domingo, 7 de abril de 2019

Il faut savoir encore sourire...

E, entretanto, tantas datas que deveriam ter sido celebradas… e eu sem vontade.

No passado dia 2 cumpriram-se nove anos sobre o nascimento do «picosderoseirabrava» - e eu nem uma palavra…

No dia 3, a minha caçulinha entrou sorrateiramente nos quarenta – e eu nem uma palavra…

Ontem foi o meu aniversário, o primeiro em cinquenta e dois anos, que passei sem o Homem da minha vida – como poderia eu dizer alguma palavra?

É tão difícil!

E, no entanto, é como diz a canção:

«Il faut savoire encore sourire
Quand le meiller s’est retiré (…)»

«Et devant le bonheur perdu
Il faut savoir cacher ses larmes (…)»

« Il faut savoir cacher sa peine
Sous le masque de tous les jours (…)»

« Il faut savoir rester de glace
Et taire un cœur qui meurt déjà (…)»

«Il faut savoir garder la face (…)
Il faut savoir mais moi

Je ne sais pas!»




sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Alquimia

Por vezes acontecem coisas que não têm explicação.

Ontem, estava eu de saída do átrio da escola (a minha) quando entraram duas senhoras com uma menina, linda, mestiça, olhos oblíquos, amendoados, sorriso encantador – lembrava as bonecas do Sião – para saberem que escola a menina iria frequentar. Perguntei à menina se já ia para o 1º ano. Disse que sim e logo começou a mostrar-me e a contar-me as aventuras do seu unicórnio pinypon que trazia consigo. Entrei numa conversa com ela como se toda a minha vida tivesse tratado com os unicórnios pinypon – assim de adulto para adulto, como sempre fiz com os miúdos. E diz ela, muito entendida: «Tu davas uma boa professora!»… Uma das senhoras, que ouviu a “sentença” e que talvez me conhecesse, disse-lhe: «Anda, filha, que esta senhora já aturou muitos meninos!»

Mais espantoso ainda foi logo de seguida, de caminho para a cidade, no largo fronteiro à Câmara Municipal, vem uma menina mais pequena do que a outra seguida de longe pelo pai e, sem mais, me entrega um pequeno malmequer recém apanhado de um dos canteiros e diz: «Toma, é para ti.»

Perante inesperadas situações destas, de uma ingenuidade tão doce, uma pessoa fica sem palavras.

Senti-me ungida…




terça-feira, 17 de julho de 2018

A minha trepadeira roxa

O colégio onde fiz a minha terceira classe nos idos de 50 lá em Algés (Colégio Gil Eanes) era uma daquelas lindas moradias à antiga portuguesa com a parede principal toda coberta por uma trepadeira roxa que fazia, já naqueles tempos, os meus encantos. Pela cor e pelo xaile com que parecia aconchegar a casa.

Há uns anos, chegou a moda das buganvílias e aí redescobri a trepadeira do meu velho colégio. (Uma amiga nossa plantou algumas buganvílias em volta da piscina da sua bela casa nova e quando as crianças corriam e se atiravam para dentro de água salpicando todo o relvado em redor, ela gritava desesperada: «Ai, as minhas buganvílias!» Ainda hoje – as crianças são já adultas e mães de outras crianças – brincamos com o grito da minha amiga «Ai, as minhas buganvílias!»… (que já não existem…)

Depois de me reformar do trabalho na escola, comecei a dar mais atenção ao meu já conhecido nano-mini-micro jardim e, quando encontrei uma, comprei uma pequenina trepadeira roxa da cor da do meu colégio de Algés.

Trouxe-a num pequenino vaso e mudei-a para um vaso grande onde ela se foi fazendo adulta.





Dois anos depois transplantei-a para o tal nano-mini-micro jardim à frente da minha casa, junto à entrada e aí a boa da trepadeira roxa trepou e pôs-se linda!






O inverno de há dois anos teve uns dias de temperatura baixas de mais até mesmo aqui para Leiria com grandes camadas de geada que secaram completamente a minha trepadeira roxa.

Posso dizer que o desgosto que tive foi parecido com o que sempre sinto e passo de cada vez que me morre um gato.

Cortei-lhe os ramos secos e ficou apenas o pequeno tronco central para não a arrancar de vez e também na esperança de que ela conseguisse rebentar na primavera.

Passaram mais duas primaveras e nem sinal de um rebentinho sequer. Lamentava a morte da minha trepadeira quase de cada vez que entrava em casa.

Não sei se por causa das chuvas que caíram em quantidade este ano, começámos um dia a ver um raminho verde a crescer naquele tronco seco e outro e outro, e aí está ela a deitar florzinhas pequeninas mas roxas, lindas e a rejuvenescer de dia para dia.







Que maravilha é a Natureza!

domingo, 6 de maio de 2018

À minha mãe (e a todas...)


MÃE

Apareceste-me de repente no espelho
Era a tua cara na minha
Sorriste-me sorri-te
sorri-me
Afinal envelhecer é caminhar
ao teu encontro
Reconcilio-me com meu rosto
envelhecendo
porque através dele me sorris
com minha boca meus olhos
magoadamente
Um dia os nossos rostos estarão sincronizados
num só olhar

(Teresa Rita Lopes, in Afectos, Lisboa, 2000)


A minha mãe
no dia do seu casamento: Out/1946

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Da emoção em política

São apenas dois minutos. Convido-vos a ouvir este excelente discurso sobre o que de facto é - ou deveria ser - a Europa.

Curto, simples, franco, sentido.




sábado, 20 de janeiro de 2018

Ciumes


Arlequim e Colombina de José de Almada Negreiros


Pierrot dorme sobre a relva junto ao lago. Os cisnes junto d’elle passam sêde, não n’o acordem de beber.

Uma andorinha travêssa, linda como todas, avôa brincando rente á relva e beija ao passar o nariz de Pierrot. Elle accorda e a andorinha, fugindo a muito, olha de medo atraz, não venha o Pierrot de zangado persegui-la pelos campos. E a andorinha perdia-se nos montes, mas, porque elle se queda, de nôvo volta em zig-zags travêssos e chilreios de troça. E chilreia de troça, muito alto, por cima d’elle. Pierrot já se adormecia, e a andorinha em descida que faz calafrios pousou-lhe no peito duas ginjas bicadas, e fugiu de nôvo.

                De contente, ergueu-se sorrindo e de joelhos, braços erguidos, seus olhos foram tão longe, tão longe como a andorinha fugida nos montes.

                De repente viu-se cego – os dedos finissimos da Colombina brincavam com elle. Desceu-lhe os dedos aos lábios e trocou com beijos o arôma das palmas perfumadas. Depois dependurou-lhe de cada orelha uma ginja, á laia de brincos com joias de carmim. Rolaram-se na relva e uniram as boccas, e já se esqueciam de que as tinham juntas…

                - Sabes? Uma andorinha…

                E foram de enfiada as graças da ave toda a paixão. Pierrot contava enthusiasmado, olhando os montes em busca da andorinha, e Colombina torceu o corpo numa dôr calada e tomou-lhe as mãos.

                Havia na relva uma máscara branca de dôr, e a lua tinha nos olhos claros um um olhar triste que dizia: Morreu Colombina!

(José de Almada Negreiros, in Orpheu I, 1915)

Não suporto o ciúme, (eu sei que ele existe e estou a sentir-lhe o cheiro acre muito de perto...) mas descrito assim… quem lhe pode resistir?



segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Do Jornal de Letras

Gosto muito de ler o Jornal de Letras, embora não compre todos os seus números. Compro os que tratam temas que me interessam, normalmente  literatura, educação, boas entrevistas a escritores, textos de Guilherme de Oliveira Martins, de Manuel Halpern, recensões críticas de livros recentes.

Há mais de um mês que não comprava nenhum (de referir que se trata de uma publicação bimensal) Por isso decidi-me a comprar o desta quinzena apesar de falar mais dos filmes portugueses que pretendem retratar a crise económica dos últimos anos - temas que me são pouco interessantes.



Mas devo afirmar que se mais não aparecer da sua leitura, valeu apenas por duas razões:

  • a entrevista à escritora Filomena Marona Beja que anuncia o seu novo romance «Avenida do Príncipe Perfeito» (se nunca leram nada dela, é bom que comecem a fazê-lo)
  • uma frase inédita de Fernando Pessoa, retirada do livro O Teatro Estático que reproduz a obra do poeta relacionada com o teatro, e que diz só isto:

        "Não sei se isto é tristeza ou alegria, tão vaga e misteriosa é a suavidade doentia que sinto." 

O meu encantamento pela frase vem do facto de me ter remetido para aquele último terceto do soneto de Camões «Busque amor novas artes, novo engenho» que li no meu 5º ano do liceu (atual 9º) e que nunca mais esqueci e que diz: 



Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.


domingo, 20 de agosto de 2017

Ciúmes? Não, obrigada.

«O ciúme é muitas vezes uma inquieta necessidade de tirania aplicada às coisas do amor.»

Marcel Proust


«O ciúme tem as suas raízes mais no egoísmo do que no amor.»

Henry Longfellow


Das coisas que mais podem atormentar uma mãe é sentir desentendimentos entre os filhos por causa de ciúmes infundados! (digo eu) É uma aperto no peito, um desconsolo, uma enorme contrariedade. (digo eu)


«A culpa é dos ciúmes, das brigas, das desconfianças, das mentiras e da falta. O amor não tem culpa.»

Pequena Sereia




segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Postal

Já aqui disse por mais de uma vez que adoro postais. Gosto, mesmo agora que caíram em desuso, de os escrever e mandar pelo correio e gosto ainda mais de os receber.

A minha boa amiga Susie, uma senhora canadiana que viveu aqui em Leiria durante alguns anos e a quem ensinei português, tendo já regressado à sua terra natal, envia-me postais lindíssimos, daqueles que não se encontram por cá.

Hoje recebi um postal do Halloween que não resisto a mostrar aqui. Lindo e cheio de significado. Encheu-me o coração.



Desdobrando:

(Mesmo sendo um longo caminho até tua casa)


(o calor que partilhamos)


(chega para o caminho todo)

Lindo, não é?

Tenham um bom feriado!


terça-feira, 18 de outubro de 2016

Estou furiosa!

Comigo própria, acreditam? Um dos meus (muitos) defeitos é a minha péssima memória visual. Se calhar por ser míope, sei lá! Tenho sempre muita dificuldade em reconhecer as pessoas se, por exemplo, passou muito tempo sem as encontrar, ou se não as vejo nos locais habituais, ou se não estão vestidas com as vestes profissionais. Uma vergonha. E, como muita gente me conhece por ter estado naquela escola durante 36 anos e tantos deles à frente dos seus destinos, mesmo que não as reconheça, se me cumprimentam, eu respondo sempre afavelmente. Pelo sim, pelo não. Para não passar por indelicada.

Ora ontem, ia eu no meu passinho habitual para os recadinhos que há a fazer à segunda-feira de manhã quando, de dentro de uma pastelaria, alguém – que de imediato não reconheci – me faz um simpático cumprimento, respeitoso e risonho. Acenei de volta sorrindo. E aí, como um raio vibrante e fluorescente, fez-se-me luz: o rapazola que, r(v)endido ao meu opositor,  me “fez exame” de acesso ao cargo de diretora da escola, “chumbando-me”. Um “pentelhito” (desculpem-me a linguagem catroguiana, mas assenta-lhe que nem uma luva) um elemento de uma associação de pais da idade das minhas filhas, daqueles que tiraram um curso de “gestão de recursos humanos” por correspondência ou com algumas equivalências à Relvas, sei lá… Um pequenino pedante, um “leiriense plásticos” (como diz uma amiga minha que vós bem conheceis…) Tinha prometido a mim própria que nunca mais lhe dirigiria a palavra.

Quando logo após o ignóbil “chumbo”, abandonei a escola e a profissão, até comecei a escrever uma «cantiga de escárnio» sobre tão indizível pessoa… Começava assim:

«Feio, baixinho e vil,
Olho matreiro e arguto,
Cabelinho de palha d’aço
E ralo, dá-lhe ao longe
Que não ao perto,
Um arzinho pueril.

Vozinha de cana rachada
Por muito que alinhe palavra
- e alinha, que fala bem! –
Não engana um qualquer
Embora qualquer um caia
Na falácia, no enleio
Que usa, se lhe convém:
O homem tem cá “uma saia”!
(…)

Escrevi ainda mais umas tantas estrofes, mas depois desisti: o homenzinho não merecia a métrica…

Foram muito poucas, umas três ou quatro, as pessoas a quem, ao longo da minha já longa vida, eu deixei de falar. Sou de facto muito dura (com os outros tanto como comigo) mas quando me sinto verdadeiramente ofendida ou humilhada por alguém no mais íntimo de mim, essa pessoa para mim passa a ser transparente, deixo de a ver, de a considerar e portanto de lhe falar.

Agora imaginem a minha fúria quando, em segundos, me lembrei de quem era aquele aceno desbragado ao qual eu respondi tão abertamente!



domingo, 14 de agosto de 2016

Uma certa melancolia

Isto do fim de férias sempre me trouxe uma imensa melancolia. Quando dava aulas e passávamos o mês de Agosto em São Pedro de Muel, a aproximação do dia 31 trazia-me uma enorme angústia: lançar-me num outro ano letivo criava a meus olhos (e nos meus pensamentos) a imagem de me estar a lançar à água e não conseguir alcançar a outra margem. 

Agora que já não tenho de me lançar num outro ano letivo, a angústia vem em forma de dúvida. Será que...  

As férias terminaram e não me apetece falar disso. A música é sempre uma boa forma - a melhor, diria - de transmitir o que estamos a sentir. Daí que me lembrei desta canção tão bela, cantada pelo excelente Aznavour nos idos de 57 - se bem que a tenha conhecido lá para meados de 60.

Muito bonita. Espero que gostem!

Para quem gosta da Amália, deixo mais abaixo a sua versão da canção (1965). Depois darão as vossas opiniões.





terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Citadinos



Como os buracos de um crivo, apertadas,
As filas de janelas; empurrando-se,
As casas tocam-se de perto, erguendo-se
Pardas e inchadas como estrangulados.

Engalfinhadas umas nas outras vejo
No carro eléctrico as duas fachadas
De gente, descarregando olhares, caladas,
E cresce o emaranhado do desejo.

As paredes são finas como a pele,
Todos me ouvem quando choro, ou então
É como um berro a conversa ciciada:

Emudecidos, em caverna fechada,
Sem ninguém que lhes toque, olhe para eles,
Todos estão longe e sentem: solidão.


(Alfred Wolfenstein, traduzido por João Barrento, in A Alma e o Caos)

sábado, 5 de dezembro de 2015

A chama da amizade

Amizade em cadeia. Porque Dezembro é um mês muito especial.

Esta chama acesa vem do blog da Fê Blue Bird e espero que propague por outros e muitos mais.



Obrigada, Fê! 
Bem hajas e bem haja quem por aqui passa.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Histórias da minha rua (7)

O gatinho da vizinha morreu. Do alto minha imensa experiência de gatos, eu já previa isto. Uma agressiva insuficiência renal, mal a que muitos gatinhos não sobrevivem, mesmo depois de internamentos a soro e medicação injetável. Uma pessoa, porém, bem afeiçoada aos bichinhos, pensa sempre que com os nossos vai ser diferente. E ela pensava isso mesmo: que o gatinho vinha para casa e melhorava. Para grande tristeza da família, o gatinho veio para casa e acabou por se ficar em grande sofrimento. Já tive dois casos idênticos com gatos cá da casa e preferi que lhes fosse aplicada aquilo que para os humanos ainda não é permitido – e bem entendo porquê – a eutanásia.

A filha da vizinha – minha ex aluna mas já adulta – que mantém comigo uma relação algo estreita, telefonou-me tristinha, tristinha a dizer que o gato tinha morrido. Que sentia muito a sua falta. Que era um enorme vazio na casa por todo o lado. Que, que, que… «Bem sei o que isso é» – disse lhe eu – «já passei por isso algumas vezes e sempre me farto de chorar…» «Pois é» – responde-me ela «mas você [adoro quando me tratam por «você»!...] não sente tanto porque tem outros gatos…»

A imposição de nós próprios e das nossas coisas – neste caso do sofrimento – para cima dos outros é coisa que nós, portugueses, gostamos de fazer sem pararmos um momento para pensar que não somos diferentes dos outros, que não somos especiais.


E propus-lhe o seguinte dilema: «Parece-te que se uma mãe de cinco filhos perder um sofre menos do que uma mãe que só tem um e o perde?»


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Lembro-me de ti, Mamã



Lembro-me de ti, Mamã, de cada vez que, agora sozinha, me sento num daqueles cafés das arcadas. De como nos sentávamos as duas, naquele primeiro ano que passei aqui nesta cidade que eu não queria, num daqueles pequenos cafés das arcadas a beber um chá. Vinhas, de cada vez que a tua lida de professora te permitia, lá da nossa Sintra acompanhar a minha jovial gravidez. Naqueles dias frios e chuvosos e nós duas (nós três…), cúmplices, ali confortavelmente recolhidas.

Lembro-me de ti, Mamã, de cada vez que olho as tuas netas que tanto amaste e tanto te devem. De cada vez que olhos os cabelos pretos da Marta tão iguais aos teus.

Lembro-me de ti, Mamã, de cada vez que cuido dos meus netos tentando fazer tão bem como tu fizeste.

Lembro-me de ti, Mamã, de cada vez que, inexoravelmente, a cada ano, passa mais um dia 2 de Outubro, dia de há já quase três décadas em que para sempre adormeceste.

Lembro-me de ti, Mamã, em cada Natal, em cada dia de anos, em cada dia especial.

Lembro-me de ti, Mamã, no bem e no mal, em cada dia que passa.

Lembro-me de ti, Mamã, revejo-me em ti, Mamã, no bem e no mal, de cada vez que respiro.



terça-feira, 29 de setembro de 2015

Maldito equinócio!

Ando irritada, enervada, com a sensibilidade verdadeiramente à flor da pele. Acordo às tantas da madrugada e não consigo mais conciliar-me com o sono. Sinto-me angustiada. Razão tinha a minha avó espanhola - que me criou e que faria hoje 120 anos a acreditar nos «papeles» que a Embaixada lhe forneceu nos idos de 50 do século passado já que o seu assento de nascimento ardeu na Guerra de Espanha – quando, miudinha ainda, me chamava «senhora das angústias». Lembro-me bem que sofria desmedidamente com a ausência dos que me eram queridos, ou quando previa ausências ou mudanças de meio – o que era habitual lá na família. Lembro-me bem de me rebentarem as lágrimas sem motivo aparente e do nó que se me formava na garganta que não me deixavam parar de chorar. Isto mesmo em muito miúda. A minha mãe, uma mulher-de-armas da cepa transmontana (e Escorpião e professora primária…), que não tinha a paciência nem a doçura de sua mãe – aquela querida avó que faria hoje 120 anos – perguntava-me porque chorava eu e eu, na minha ingenuidade de criança, dizia que não sabia. Aí, muitas vezes, levava uma bofetada e a minha mãe concluía: «Pronto, agora já sabes!» Tratamento de choque que acabava por … não dar resultado. Outros tempos.

Sempre tive um temperamento algo depressivo alimentado por um qualquer medo interior que me vem do mais recôndito do meu ser e do qual pouco ou nada sei dizer. (A psicanálise teria aqui muito a dizer, mas…)

Este sentir (portuguesmente) melancólico – apesar de ser uma pessoa especialmente alegre e divertida quando em (boa) companhia – agudiza-se na Primavera com a minha habitual propensão para a astenia e no Outono que me traz uma saudade louca de tudo – acho que até do futuro! – dos meus mortos (precoces), e outras realidades, de outras vidas, de outros espaços. Apetece-me fugir (de mim, talvez…)

A culpa é do equinócio – só pode…

Assim me sinto agora: muito angustiada sem saber exactamente porquê. Maldito equinócio!

E para tentar expurgar este mal que tenta desgastar-me, lanço mão e deixo aqui um fado- canção que recorrentemente me tem vindo à memória nestes últimos dias.



sábado, 25 de julho de 2015

«Que vida boa era a de Lisboa!»

Depois de passar pelo blog da papoila e rever as imagens de alguns belos cinemas onde vi tantos e tantos grandes filmes, veio-me à mente aquele belo refrão do Fausto: «Que vida  boa era a de Lisboa!»

E bateu cá uma saudade dos meus bons tempos de Lisboa... Nem queiram saber!!





sábado, 7 de fevereiro de 2015

Amanhã é outra vida!

Incomoda-me, desassossega-me mesmo, encontrar pessoas de quem sempre gostei e que, a certa altura, por mera afirmação do seu eu (ou do seu mais recente grupo de eus) me viraram as costas e se fizeram minhas – não direi inimigas, mas tão-somente desamigas.

É que – não sei se por ser do Carneiro (!) – nos sentimentos, não tenho meio-termo: quando gosto, gosto mesmo muito e é para sempre e quando não gosto, afasto-me, desligo-me e é um sossego – passo à indiferença. Quando me sinto contrariada, ofendida, por alguém de quem não gosto, passo ao mero «bom-dia», «boa tarde» ou nem isso, se a ofensa é dura. Mas quando a ferida é provocada por alguém de quem gosto e de quem não espero a afronta, dói muito e dói-me para sempre. Por isso me incomoda cada reencontro com essas pessoas – é que eu continuo a gostar delas.

Hoje encontrei uma dessas antigas amigas. E se nos demos bem! Trabalhámos tanto juntas e com os mesmos objectivos, tanto “brincámos” juntas, “trocámos” filhas nas férias, dávamo-nos muito bem dentro da maior bonomia, numa independência de mãos dadas, numa paridade sem sujeição. Quem me conhece sabe que sou assim nas minhas afeições.

Um dia o elo partiu-se porque o grupo fez força nesse sentido e quebrou pelo lado mais fraco: o dela – desculpe-se-me a imodéstia! O grupo absorveu-a mas não conseguiu absorver-me a mim. (Sou de difícil absorção – e não é que isso seja bom, entenda-se.) O grupo não me perdoou, por me pensar presa fácil e eu, que até, quando calhava ou era preciso, me dava bem no grupo como noutro qualquer que não me desagradasse, passei a ser vista como adversária, «persona non grata».

E aquela pessoa que trabalhou tanto comigo, que juntas tanto «brincámos», que até «trocámos» filhas e que até me admirava (ela é que o disse) passou a ser minha direta adversária. Fez de tudo para me derrubar: permitiu que o grupo se envolvesse – e ela própria, tenho a certeza – nas maiores irregularidades para me tirar de lá.

No dia em que finalmente conseguiu/conseguiram, foi ela própria que, vitoriosa, foi lá para se despedir de mim (ou despedir-me…) e, impante, disse: «Dá cá dois beijos, Graça Maria! Amanhã é outra vida!»

Ainda gosto bastante dela pelo que trabalhámos juntas, pelo que «brincámos» juntas, por termos «trocado» filhas, pela sua jovialidade, pela sua simplicidade, pela sua independência (que perdeu). Mas, e por isso mesmo, incomoda-me encontrá-la!

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(Agora imaginem o que me aborreceu quando aquela operadora de comunicações lançou aquela publicidade!.....)



quinta-feira, 20 de novembro de 2014