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quarta-feira, 15 de maio de 2013

Les uns et les autres

Vale a pena ler e refletir sobre esta crónica de Pedro Tadeu que saiu ontem no DN.

E não se discutem os salários do PSI-20?

«Somam 61 milhões de euros as remunerações anuais recebidas pelos gestores de 19 empresas do PSI-20 (o Jornal de Negócios, que me referencia, não sabe os valores de uma das cotadas deste índice da Bolsa de Lisboa, a Portucel).

101 gestores de segunda linha receberam uma média de 608 mil euros, umas 55 vezes acima do salário médio anual de um trabalhador, que estimo em 11 mil euros (sim, estou a ser otimista). Estes 101 doutores e engenheiros criam, por si só, individualmente considerados, a riqueza produzida por 55 trabalhadores?... Duvido.

Os 19 presidentes de conselhos de administração destas empresas, que em média receberam 812 826 euros, valem, com o seu talento, esforço, dedicação e sabedoria (nunca postos em causa), o talento, o esforço, a dedicação e a sabedoria de 120 trabalhadores (sempre postos em causa e, nestes tempos, a caminho do despedimento) contratados pelo salário mínimo? Este fosso justifica-se?

Tudo isto é ainda mais bizarro se percebermos que há sete empresas que remuneram os seus CEO muito acima da média e que, em contrapartida, há 11, a maioria, que dão aos seus líderes de topo valores muito mais baixos do que as outras pagam a gestores de segunda linha.

Isto faz supor que EDP, Galp Energia, Semapa, PT, Jerónimo Martins, Zon Multimédia e Sonae SGPS, as responsáveis por essa distorção, nem as práticas classificadas como convencionais, normais e razoáveis do mercado em que se inserem estão a seguir.

Note-se que empresas como a EDP e a PT, cujos resultados em 2012 caíram, no primeiro caso, 10% em relação ao ano anterior e, no segundo caso, 32%, não reduziram, na mesma proporção, os pagamentos aos seus gestores.

Em contrapartida, a maior parte da banca (BES, BPI e BCP) cortou entre 31,3% e 43,7% as remunerações aos seus líderes, exemplo olimpicamente ignorado pela maioria dos outros gestores (de quem esses bancos, se calhar, até são credores), apesar das dificuldades da crise, aparentemente, serem iguais para todos, pelo menos se nos guiarmos pelas entrevistas que dão aos jornais e pelos relatórios das contas das suas empresas.

Por exemplo: o CEO do Banif, Jorge Tomé, banco sob intervenção do Estado, teve apenas 10,9% do salário do seu posto cortado e em nove meses recebeu 316 299 euros, fazendo supor que, se tivesse exercido o cargo durante todo o ano, receberia mais do que Ricardo Salgado, do BES, ou Fernando Ulrich, do BPI.

Ironia final: os contribuintes emprestaram ao Banif, para o salvar da falência, 700 milhões de euros, à beira do dobro do valor da taxa que Passos Coelho quer cobrar aos reformados.»





quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Por um fédice mais feliz

As melhores coisas da vida não dão lucro. Mas nem por isso se devem considerar luxuosas, pelo contrário, é mesmo por esses pormenores essenciais que vale a pena viver. Os governos deveriam zelar pela felicidade dos cidadãos. Uma ideia básica que, hoje em dia, é tida como irresponsável, só porque não dá bons resultados na folha do Excel. Que mais será preciso fazer para lembrar governantes e afins que o que mais conta são as pessoas, e que a cegueira pelo lucro financeiro causa-nos um imenso e irrecuperável prejuízo?


Talvez alguns desses homens de gravata apertada e cinto largo nas calças façam contas pela manhã, quando beijam o filho antes de sair para escola. Pensarão: "Se eu der algum carinho ao meu filho, pagar-lhe comida e educação, aumento a probabilidade de ele ser bem-sucedido na vida. Se ele for bem-sucedido na vida, talvez ganhe dinheiro suficiente para cuidar de mim quando eu ficar velho. Se ele cuidar de mim quando eu ficar velho, escuso de gastar dinheiro numa conta poupança reforma. Por isso, é um bom investimento dar um beijo ao meu filho pela manhã". A outra hipótese é dar-lhe um beijo seco e depois apresentar-lhe a conta de toda a despesas lá para os 40 anos, assim que ele finalmente arranjar o primeiro emprego. Há quem, por pensar demasiadamente assim, opte mesmo por não ter filhos, pois é um investimento demasiado arriscado, abaixo do nível do lixo na tabela da Moodys.

E se não é rentável ter filhos, tão pouco é ter velhos, que só dão prejuízo e ainda escrevem cartas às juntas de freguesia. Muito menos doentes, que nem cartas escrevem; para não falar dos desempregados que, aprofundando a lógica, deviam morrer à míngua e assim aliviar as taxas que tanto preocupam os nossos parceiros europeus. Se o avô não dá lucro, atira-se da janela.

Defenestrar avôs não é permitido por lei. À sociedade resta algum bom senso e respeito por valores básicos. E mesmo a atual política não prevê tal ato, embora possivelmente a lógica do custe quanto custar talvez caminhe nesse sentido.

Há uma cegueira do curto prazo, da lógica imediata, que invalida saídas futuras. Esta lógica não só compromete o médio e o longo prazo como, por absurdo, inviabiliza a eficácia no prazo mais curto. Na Bélgica, há já muitos anos, resolveram iluminar as autoestradas. Através de um estudo, chegaram à conclusão que a melhoria das condições de segurança na via compensava financeiramente, poupando-se não só em vidas humanas como em tratamentos hospitalares. Por cá, desinvestem na saúde, nos transportes, na educação, na cultura, sem que se apercebem que a médio e longo prazo o prejuízo (mesmo o financeiro) será altíssimo. O problema não é da folha do Excel, mas sim da fórmula utilizada.

Manuel Halpern (in JL 17-30 de Outubro de 2012) (sublinhados meus)

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O caixeiro-viajante



O senhor presidente anda há dias a viajar pela Ásia e pela Austrália com uma enorme comitiva empresarial a anunciar que aqueles países que são alvo da sua visita devem estar atentos às nossas privatizações. Diz o jornal que o senhor presidente fez ontem “um apelo em Singapura, às empresas do Sudeste asiático para que examinem cuidadosamente as potencialidades de Portugal, nomeadamente para os processos de privatização da TAP e da ANA. E foi lembrando por todo o lado que “está em curso em Portugal um processo de privatizações, tendo já sido vendidas a EDP e a REN, com a entrada em força de empresas asiáticas.

Por seu lado, o ministro dos Negócios Estrangeiros – que cumpre tão bem a sua função que ninguém o vê por cá – corre mundo para atrair investimento estrangeiro para o programa das privatizações (até à Venezuela já foi!)

E depois o Sócrates é que era o “caixeiro-viajante” …

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Acordo com a troika inviabiliza negociação com a Nissan





A afirmação é do secretário de Estado dos Assuntos Fiscais: "O acordo assinado entre o Estado português e a 'troika' impede expressamente novos benefícios fiscais ou o alargamento dos existentes". Paulo Núncio respondia a uma pergunta sobre iniciativas negociais que o Governo pudesse ainda, eventualmente, empreender para salvar o investimento da Nissan.

A essas perguntas, Núncio reagiu, segundo citação da Agência Lusa, invocando o veto da "troika" àquele tipo de incentivos. E reiterou: "Não é possível criar benefícios fiscais para os fins que referiu".

 A unidade de produção de baterias de iões de lítio de Aveiro deveria começar a produzir em dezembro de 2012. Por decisão da Nissan, já não haverá uma nova fábrica em Cacia. É assim revogado um investimento de 156 milhões de euros. Assim como a anunciada criação de duas centenas de postos de trabalho diretos.

Entretanto, ouvi na rádio, esta manhã, que a parte que o governo ainda detém na EDP e que está à venda e em cuja compra há mais do que um interessados não deverá poder ser vendida pela oferta mais proveitosa porque há um interessado alemão...

É assim que aqueles europeus "de primeira" querem que nos levantemos? É assim que querem que a nossa economia se restabeleça? E quererão eles que isso aconteça? Já não sei, não!  Deve-lhes convir que continuemos a existir como PIGS para que não lhes faltem nunca os chouriços...


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

"As dívidas dos Estados são eternas"





José Sócrates – ex Primeiro Ministro da 2ª República e responsável pela hecatombe que em 2008 caiu sobre o país, sobre a Europa e sobre o mundo – teve o atrevimento de dar uma palestra no campus universitário de Poitiers, onde teve o atrevimento de afirmar que “para pequenos países como Portugal e Espanha, pagar a dívida é uma ideia de criança.  As dívidas dos Estados são eternas. As dívidas gerem-se. Foi assim que eu estudei.”

Deus do céu! Aqui d’el-rei! O que ele foi dizer! Veio, ato contínuo, o senhor presidente do PP dizer, com toda a demagogia que lhe é costumeira, que teve de ouvir duas vezes porque não conseguia perceber (coitado!) nem queria acreditar! E, de seguida, vieram os defensores confessos da Situação soprar , em grande escândalo, aos ouvidos dos portugueses incautos que “por isso, a situação chegou aonde chegou” e coisas parecidas.

Que terão dito – ou que diriam – ao lerem o que o historiador alemão Albrecht Ritschl, professor na Escola de Economia de Londres, afirmou há uns meses numa entrevista à revista Der Spiegel, ao referir-se a vários momentos na História do século XX em que a Alemanha equilibrou as suas contas à custa de generosas injecções de capital norte-americano ou do cancelamento de dívidas astronómicas, suportadas por grandes e pequenos países credores.



«Ritschl começa por lembrar que a República de Weimar viveu entre 1924 e 1929 a pagar com empréstimos norte-americanos as reparações de guerra a que ficara condenada pelo Tratado de Versalhes, após a derrota sofrida na Primeira Grande Guerra. Como a crise de 1931, decorrente do crash bolsista de 1929, impediu o pagamento desses empréstimos, foram os EUA a arcar com os custos das reparações.
Depois da Segunda Guerra Mundial, os EUA anteciparam-se e impediram que fossem exigidas à Alemanha reparações de guerra tão avultadas como o foram em Versalhes. Quase tudo ficou adiado até ao dia de uma eventual reunificação alemã. E, lembra Ritschl, isso significou que os trabalhadores escravizados pelo nazismo não foram compensados e que a maioria dos países europeus se viu obrigada a renunciar às indemnizações que lhe correspondiam devido à ocupação alemã.
 

No caso da Grécia, essa renúncia foi imposta por uma sangrenta guerra civil, ganha pelas forças pró-ocidentais já no contexto da Guerra Fria. Por muito que a Alemanha de Konrad Adenauer e Ludwig Ehrard tivesse recusado pagar indemnizações à Grécia, teria sempre à perna a reivindicação desse pagamento se não fosse por a esquerda grega ficar silenciada na sequência da guerra civil.


Ritschl lembra também que em 1953 os próprios EUA cancelaram uma parte substancial da dívida alemã - um haircut, segundo a moderna expressão, que reduziu a abundante cabeleira "afro" da potência devedora a uma reluzente careca. E o resultado paradoxal foi exonerar a Alemanha dos custos da guerra que tinha causado, e deixá-los aos países vítimas da ocupação.

E, finalmente, também em 1990 a Alemanha passou um calote aos seus credores, quando o chanceler Helmut Kohl decidiu ignorar o tal acordo que remetia para o dia da reunificação alemã os pagamentos devidos pela guerra. É que isso era fácil de prometer enquanto a reunificação parecia música de um futuro distante, mas difícil de cumprir quando chegasse o dia. E tinha chegado.»


terça-feira, 18 de outubro de 2011

Deviam ter vergonha!






Não chegou que aos politicos tenha sido permitido acumularem pensões (que alcançaram ao fim de meia dúzia de anos, ou meses de "trabalho") como agora que qualquer ricaço que aufira mil euros - mil euros! - de ordenado ou de pensão de reforma - que, diga-se em abono da verdade, é praticamente uma fortuna - as pensões vitalícias de ex-políticos são poupadas aos cortes! Justo, não vos parece?

Vem-me de novo à mente Orwell e a sua frase talvez gasta mas cada vez mais atual: os Portugueses são todos iguais, só que alguns são mais iguais do que outros.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O crepúsculo da economia mágica





Leio com especial apreço e enorme interesse os textos que o professor, filósofo e ambientalista Viriato Soromenho Marques escreve no DN e no Jornal de Letras, não tendo ainda, porém, transcrito  nenhum. Pois vou fazê-lo hoje: deixo-vos o belíssimo texto "O crepúsculo da economia mágica" - uma critica serena mas incisiva à forma como os dirigentes ocidentais têm governado os estados exaurindo o planeta - publicada no Jornal de Letras desta quinzena.

"A economia convencional, dominante nos meios universitários e políticos, transformou-se na disciplina menos credível na história académica dos últimos dois séculos. Há muito que se sabia basear-se a Economia numa negação das leis mais elementares da Física, nomeadamente, numa grosseira violação do segundo princípio da Termodinâmica. Como seria possível querer sustentar as fundações económicas vitais da sociedade no complexo desprezo pela fragilidade e limites dos ecossistemas em que toda a vida (incluindo a económica) assenta? Ora, a crença de base da Economia convencional e a do Crescimento. Um crescimento voltado para o infinito, ignorando os constrangimentos básicos da finitude da Terra. Como poderemos alimentar um crescimento exponencial, se as matérias-primas, a energia, a capacidade de absorver resíduos, e, em síntese, a capacidade de carga planetária são frágeis e finitas? Como alimentar o delírio da desmesura, quando os nossos pés continuam presos a uma terra tangível e absolutamente obediente aos ditames das eis da Natureza?

A Economia convencional não só alimentou a maior farsa científica de que há memória: procurou dar um verniz científico ao que não passa de uma patológica hubris colectiva, que ameaça devorar o mundo, como falou redondamente até nas mais básicas regras de funcionamento do sistema económico. Fracassou na aplicação de regras que ela própria julgou descobrir, ou, deliberadamente, criou. Não foi capaz de guardar a memória keynesiana para prevenir as crises cíclicas, não aprendeu nada com a história económica, nem com a sociologia e psicologia económicas. Os economistas de serviço aconselharam a tratar os agentes económicos como anjos, baixando a fiscalidade para os ricos e poderosos, desregulando o controlo do mercados, baixando a vigilância à corrupção económica, degradando a legislação ambiental e laboral.

O RESULTADO FOI a crise brutal de 2008, e a revelação da “obra” de delinquentes como Madoff ou Oliveira e Costa, que, na verdade, não passam de bodes expiatórias de práticas estruturalmente aberrantes e criminosas. Mas como foram estes mágicos e curandeiros, munidos dos diplomas das melhores Universidades, que continuaram a aconselhar os governos (cada vez mais contaminados por uma espécie particularmente virulenta de analfabetismo funcional) nas políticas de “recuperação” da crise – que eles não só não anteciparam como ajudaram a convocar – parece que já só a providência divina nos poderá livrar de cairmos numa segunda crise que, provavelmente, se tornará numa Grande Depressão. As lamentáveis peripécias europeias na danosa gestão, por parte de , Merkel e Companhia, da famigerada crise das dívidas soberanas, conjugada com a paralisia do governo federal americano pelas tribos de vândalos, eleitos nas fileiras do Tea Party para o Congresso dos EUA, não parecem augurar melhor destino.

O futuro das sociedades, das mulheres e homens que irão reconstruir o mundo, durante e depois do longo período de dificuldades em que apenas entrámos, necessitará de uma economia séria e científica. Uma Economia que restabeleça a conexão da actividade produtiva, do consumo, do mercado, com a Terra, os seu ciclos, os seus tempos, espaços, potencialidades e limites. Terá de ser uma Economia esclarecida e ilustrada. Livre de ‘especialistas’ que aconselham os governos, apesar de não terem a mínima ideia da fibra ecológica e biológica de que é feito o mundo. Será uma Economia da Sustentabilidade e da Sobrevivência. Não do Crescimento. Por um longo período, será mesmo uma Economia do Decrescimento. Teremos de fazer a nossa cura por abstinência, como os toxicodependentes que têm a coragem de escolher a vida contra a morte."

Viriato Soromenho Marques