Fiquei hoje a saber que há mais
um palacete em Lisboa que está a ser recuperado e este com todo o luxo.
Que bom! Nada há que me
entristeça mais do que a degradação, seja do que ou de quem for. De pessoas –
naturalmente! – e também de casas. Ver casas abandonadas que, aos poucos, se
vão degradando, esventrando, deixando os seus interiores à mostra, barbaramente
violadas, estupidamente grafitadas, traz-me uma enorme tristeza. Quantos segredos
ali se guardaram, quantas alegrias ali se viveram, quantas vidas ali se
cruzaram – tudo levado pelo vento que entra livre pelas janelas partidas…
Essa não foi a sorte do Palacete
Mendonça deixado há alguns anos pelo MBA da Universidade Nova e que foi
adquirido para servir como sede mundial do Ismaili Imamat, liderada desde há 60
anos pelo Príncipe Aga Khan, amigo de Portugal. As obras de recuperação estão a
decorrer em grande estilo segundo o projeto do arquiteto Frederico Valsassina. Tudo
está a ser recuperado com o mínimo de alterações em relação ao original.
| (daqui) |
Procurei algumas informações
sobre o edifício e fiquei a saber que foi mandado construir no início do seculo
XX pelo senhor Henrique José Monteiro de Mendonça (1864-1942), proprietário da
roça Boa Entrada, em S. Tomé e Príncipe.
O senhor Mendonça não se poupou a
despesas, tendo contratado o arquiteto Ventura Terra, o melhor arquiteto da
época (que também recuperou o Palácio de São Bento). Foram azulejos Bordallo
Pinheiro, têxteis de Lyon, madeiras, pinturas e estuques do melhor que havia o estrangeiro e
um jardim de três hectares. O palácio foi Prémio Valmor de Arquitetura do ano
1909.
| (daqui) |
Diz o arquiteto Valsassina: «É muito interessante perceber que o senhor Henrique
Mendonça quando fez esta casa, vindo para Lisboa de São Tomé, com a sua mulher
são-tomense, quis mostrar à sociedade que ia construir uma casa para não ser
considerado um “nouveau riche”. Há sete ou oito edifícios em Lisboa, dos
antigos fazendeiros, e todos primam por uma arquitetura do melhor que havia na
altura, porque queriam ser admitidos na sociedade lisbonense como pessoas de
fazer bem, pois eram considerados agricultores do mais rude que havia.»
Tudo muito bom e muito
bonito. Mas… como viveriam as centenas de “escravos” que trabalhavam o cacau lá
em São Tomé para o senhor Henrique Monteiro poder ser tão rico?
Para saber mais: