Assim de repente não tenho presente qual o retrato que mais me impressionou. Retrato de alguém, quero dizer. Não falo de fotografia em geral, mas de retrato. Tanto pode ser retrato fotográfico ou pintado.
Quando pensei nisso, o que me ocorreu foi um que eu própria fiz. Durante parte da minha vida, não me movia sem levar a máquina fotográfica e aquilo de que mais gostava era de fotografar pessoas. Punha-me de longe, observava, antecipava movimentos e expressões, a adrenalina de captar a alma de alguém e de o fazer à socapa, sem que a pessoa se apercebesse do que eu para ali estava a espiá-la.
Fiz fotografias de que gostei bastante. Mas depois tinha receio de as mostrar. Nunca percebi qual a legitimidade de fotografar pessoas sem o seu consentimento. Claro que as melhores fotografias de rua são as espontâneas e, mesmo pensando em muitas das que passam à história, foram feitas na rua, à socapa. Se calhar há algum argumento que justifique a sua legitimidade. Será que uma fotografia feita há 10 anos, sem o consentimento expresso do visado, e publicada, ainda tem problema?
Não sei. Mas, não tendo eu o respaldo de uma agência que pudesse proteger-me ou esclarecer-me, optei por desistir. Com muita pena minha.
Aquela de que melhor me lembro foi feita não apenas com a concordância mas a pedido do próprio. Eu andava a passear à beira rio, a fotografar os barcos, as pessoas que partiam e que chegavam, quando, mesmo junto a mim, um homem muito alto e muito magro, se acercou de mim e disse: 'Fotografe-me'. Tinha uma voz profunda, cava. Moreno, uns olhos enormes. À minha frente. 'Fotografe. Fotografe para ver o que é um homem desempregado, um homem sozinho'. Senti-me intimidada. Quase me barrava o caminho. Um rosto marcado. 'Fotografe', quase me ordenou. E eu apontei a objectiva e fotografei. Sentia-me quase envergonhada como se estivesse a testemunhar um momento de grande vulnerabilidade de alguém que, certamente, estava a atravessar um mau bocado. Ele olhou para dentro da câmara e a câmara olhou para dentro dele.
Na altura eu tinha um blog de que gostava muito, justamente de Street Photography, em que, justamente, para evitar problemas, eu só publicava fotografias em que os visados estivessem de lado ou em que, por algum motivo, mal se percebesse o rosto. Contudo, por pudor, por respeito para com a sua dignidade e, ao mesmo tempo, fragilidade, não publiquei a fotografia deste homem embora fosse talvez a única feita a pedido do fotografado. E era uma fotografia marcante.
De retratos alheios não consigo seleccionar um, pois foram tantos os que me impressionaram. Retratar uma pessoa, para mim, não é propriamente mostrá-la bonita, não é um exercício editorial de mostrar o melhor ângulo, não é querer agradar ao ego do fotografado: retratar uma pessoa é mostrá-la como ela é, na sua espontaneidade. Pode estar absorta, pode estar séria, pensativa, distraída, pode estar perdida de riso. É captar o momento, captar a essência da pessoa no momento.
Convido-vos a ver o vídeo abaixo no qual Stephen Fry vê o retrato de Oscar Wilde e, a partir dessa imagem, fala no que foi a vida do escritor e no que isso, em especial no que à sua homossexualidade dizia respeito, com tudo o que sofreu, de certa forma o marcou, receando passar pelo mesmo calvário que Oscar Wilde passou.
Stephen Fry - Os Retratos Que Nos Moldam
Stephen Fry apresenta uma história de esperança e inspiração, em contraste com a tragédia da vida de Oscar Wilde.
Sendo um herói pessoal para Stephen e para milhões de pessoas em todo o mundo, a história de Oscar Wilde mostra que o amor perdura e pode mudar o mundo, mesmo que ele não estivesse presente para o testemunhar.
Parte da nossa série "Os Retratos Que Nos Moldam", criada em parceria e ambientada no belíssimo cenário da @nationalportraitgallery.
Oscar Wilde por Napoleon Sarony, 1882: © National Portrait Gallery, Londres
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