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quinta-feira, novembro 12, 2020

As muitas sombras de cinzento

 


Trabalhei até tarde mas, felizmente, depois de almoço tive tempo para fazer o jantar. Por isso, ao fim do dia foi só fazer o acompanhamento. Fiz coxas de frango de tomatada acompanhadas de tagliateli temperado com azeite e orégãos. Já nem sei o que fazer para variar. De vez em quando apetecem-me chamuças, empadas, croquetes, tagine, ceviche, pãezinhos com rabo de boi estufado -- petisquinhos que volta e meia ia comer. Não é o estilo de coisa que faça em casa, parece-me sempre que é coisa boa para petiscar fora. Se calhar amanhã faço bacalhau cozido com todos. Uma seca, comer sempre em casa.

De manhã tinha tido uma reunião que também tinha acabado tarde. Fiz a minha caminhada mas não foi das mais longas. Falo com a minha mãe enquanto ando e agora os telefonema são longos e cheios de enigmas, mistérios, stresses. Nem a caminhada me sabe a caminhada nem consigo ir a observar as casas, de tal forma vou a puxar pela cabeça. Não consigo perceber o que me diz, tudo lhe desaparece, ora está tudo preto, ora está tudo branco, não consegue descrever onde está, não consegue andar para trás, enerva-se, diz que vai desistir, que isto anda a deixá-la nervosa. A meio da tarde ligou-me de novo, que os mails tinham desaparecido todos, que o ecrã não tinha nada e que lhe aparecia uma boneca a perguntar se queria ajuda. Não percebo, não faço ideia de por onda anda. Puxo pela cabeça até a cabeça não dar mais. No fim, depois de várias tentativas e insondáveis peripécias acaba sempre por conseguir. Já frequentou três aulas, já assistiu a uma conferência e já participou num encontro informal entre alunos e professores. Já lhe deram os parabéns por, com a idade que tem, estar nestas lides. E ela ficou contente. Mas de cada vez é uma aventura, um sobressalto, uma crise.

Quando agora aqui cheguei, já bem tarde, pensei aquilo que uma colega dizia: quarta-feira passada, semana dobrada. Nessa altura eu ficava contente. Ansiava pelo fim da semana, pelos dias de convívio. Tínhamos sempre programas com amigos, primos, cunhados, miúdos, sobrinhos. Os meus filhos, mal acordavam, perguntavam: quem é que vem cá hoje? ou: onde é que hoje vamos? Tinha tempo para tudo: para os miúdos, para a casa, para o trabalho, para a família, para os amigos, para o cinema, para ir dançar à noite ao fim de semana, para passear. Agora, ao constatar que a semana está dobrada, assusto-me. O tempo corre sem eu dar por ele. Era verão há tão pouco tempo. Agora anoitece a seguir às cinco da tarde e daqui a nada estamos no fim do ano. O tempo avança, avança. Daqui a nada passaram seis meses desde que, no verão, mudei de empresa. Já seis meses. O tempo foge. Hoje voltei a insistir na linha vermelha e, uma vez mais, não a compreendem, não querem aceitá-la. 

Uma luta. 

No domingo, quando fui ao centro comercial, fomos à livraria. O meu marido comprou um para ele, eu um para mim. Eu, o da Mónica Baldaque sobre a mãe. Folheei e pensei: é daqueles que se lê em duas penadas. Pois ainda nem consegui pegar nele. No sábado comprei o Expresso, coisa rara. Quis ler a entrevista do MEC. Para além disso, só ainda consegui ler umas duas ou três coisas na Revista. O meu marido pôs o livro sobre a Agustina na estante junto à pequena secretária onde trabalho. Poderia pegar nele e ir lendo. Mas, estupidamente, não consigo. Estou em casa, não tenho quem me entre no gabinete e, mesmo assim, não consigo. Isto deixa-me intrigada. Tenho um problema? Como é possível que tenha sempre este défice de tempo. Talvez não seja de tempo mas de défice liberdade. O pior é que sou eu que giro o meu tempo, a minha agenda, o meu trabalho. 

Mas, enfim, não falo mais disto senão já sei que aparece alguém a refilar.

Digo apenas que gostei muito de estar a arrumar os meus discos e cd's. Já não me lembrava de alguns. Mas estou um bocado aborrecida pois, no rescaldo da arrumação, há embalagens sem conteúdo e alguns cd´s sem embalagem, quase impossíveis de capazmente arrumar. Onde foi parar o que me falta? Na volta tem a ver com o carro. Levava os cd's para ouvir no carro. Depois se o carro ia para arranjar ou se trocava, tirava tudo para um saco. E depois esquecia-me do saco durante tempos nem sei onde. As coisas tresmalham-se. Mas, no fim, quando menos se espera, aparecem. Mas algumas, afinal, desaparecem. 
Ute Lemper, por exemplo. Onde está? Apesar de andar esquecida, agora que a sei desaparecida, sinto-lhe a f. alta. O Half the perfect world da Madeleine Peyroux apareceu e eu fiquei contente como se tivesse encontrado, de repente, a minha prima que vive longe.

E encontrei o cd com o David Mourão-Ferreira a dizer os seus poemas. Que voz. Que maravilha. Fiquei tão feliz. Que presente tão bom que foi para mim.

E é isto. Não tenho mais a acrescentar. Dias breves, pouco coloridos, basicamente a preto e branco, passando pelas diferentes gradações do cinzento.

Esta quinta-feira já aí está e o meu jardim está todo florido como se fosse verão e isso é uma alegria. Quando consigo ir até lá percebo que, afinal, o mundo é colorido. 

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As fotografias são da autoria de Ferdinando Scianna e vêm ao som de River segundo Madeleine Peyroux

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E a todos desejo um dia bem vivido

segunda-feira, junho 17, 2019

Sobre nada, como se estivesse de olhos fechados





Uma das crónicas do Gabo n'O Escândalo do Século' era sobre não ter nada sobre o que escrever e, claro, lê-se do princípio ao fim com o interesse que a sua escrita sempre desperta. Não tenho a sua arte, a sua graça, a sua mestria pelo que, não tendo também sobre que escrever, fico hesitante. Ninguém me obriga. Poderia, simplesmente, fechar o computador e ler o relatório sobre o qual vou ter uma reunião à primeira hora da manhã ou poderia ir ouvir alguns dos trechos de Wagner referidos por Shaw. Mas é aquilo de os dedos sentirem a impaciência da dança sobre o teclado, mesmo sem um propósito eles querem por aqui andar a saltitar de tecla em tecla.

Portanto, sem saber ao que venho, entregue ao improviso a que eles queiram dedicar-se, aqui estou. Pode a coisa soar-vos desalinhada, sem tema, voo sem rumo, que estarão certos: assim será, certamente.


Hesito em falar do Mário Nogueira que deu uma bicada ao Marcelo ou do Marcelo que parece que não gostou ou do Marques Mendes que apenas vi agora reaquecido, em excerto. Mas nada disso me interessa nem um pouco. Zero.

Bocejo tal o tédio que sinto por não ter assunto. Aliás, não é bem isso. Ter, talvez até tivesse, mas não quero. Há coisas que correm dentro de nós ou sob a terra que pisamos e que andam a tal profundidade que não são umas simples palavras que conseguem trazê-las à luz do dia. Que fiquem por lá onde delas apenas nos chega aquele subtil murmúrio que mais parece uma normal respiração.

Adiante, pois, até ao que não tem nem terá história.


No outro dia andei à procura de umas calças que me estavam justas demais para ver se estavam bem à minha filha. E estavam-lhe boas de perna e de anca mas largas na cintura. Levei-as para a minha mãe as apertar, umas brancas e umas azuis escuras. Estão como novas, ficar-lhe-ão bem. Duas blusinhas brancas que me estavam um pouco à tira também mudaram de mãos. Se pudesse andar sempre de branco, ela andava. Mas com isto de andar a revolver roupa para ver coisas que estão melhor a ela que a mim, hoje, quando aqui cheguei e entrei no quarto que era dela e que virou meu special closet, já nem me lembrava da desarrumação em que tinha deixado aquilo. 

Portanto, hoje, para além do assado no forno (a que juntei ameixas que trouxe lá da minha big ameixeira pela qual a parreira trepa alegremente) e da máquina de roupa e de uma roupa de lavar à mão e das arrumações habituais tive mais esta, andar a arrumar as roupas que ficaram de fora naquela experimentação, no outro dia antes de irmos para a festa de anos.


De cada vez que acontece uma destas, convenço-me que preciso mesmo de fazer uma reforma de fundo, desfazer-me de alguma roupa pela qual tenho alguma estima mas que, porque a moda mudou muito ou porque eu mudei muito ou porque as circunstâncias mudaram, será pouco provável que as volte a vestir. Mas eu, quando faço arrumações, preciso que sejam de fundo, tudo cá para fora, tudo reorganizado, tudo repensado do zero. E onde é que agora tenho tempo para isso? Nem pensar.

No outro dia, num desfile, quando foram os grandes desfiles em Paris, vi um casaquinho que me pareceu mesmo a minha cara. Como a minha mãe andava a dizer que andava sem o que fazer, mostrei-lhe o casaquinho e disse que me candidatava. A candidatura foi aceite. Pensei que, para ela, seria piece of cake e, ao princípio até parecia ser. Afinal foi uma dificuldade terrível. Matemática pura. Soubesse ela de trigonometria talvez se sentisse melhor guiada mas, assim, foi na base da tentativa e erro, tentativa e erro, tentativa e quase desepero. Na fase inicial, quando ela pensava que a dificuldade residia apenas na combinação de cores, eu alertei que a curva do decote devia ser um desafio. Afinal foi tudo um desafio, em especial as mangas. Todo em crochet, todo em rosetas às cores. Ia dando em doida para conseguir que tudo batesse certo mantendo um tamanho uniforme nas rosetas. Trouxe-o ontem e está espectacular. Ela diz que foi o trabalho mais difícil que alguma vez fez. E se já fez trabalhos complicadíssimos. Por alguma razão o casaquinho desfilou como haute couture numa das casas de moda mais prestigiadas. Claro que não é exactamente igual, seria impossível, mas é inspirado e ficou uma maravilha. Uma obra de arte. Estou orgulhosíssima deste trabalho da minha mãe.


E outra coisa que não vem nada, nadinha, a propósito mas, pronto, à falta de melhor assunto, refiro agora. Li no The Guardian que parece que as cenas de sexo estão a desaparecer de Hollywood e, admirada, estive a saber porquê. Aquilo do #MeToo, sobretudo. Fico com pena. Não que um filme para ser bom, mesmo se de amor, tenha que ter sexo explícito. Mas o sexo faz parte da vida e quando devidamente contextualizado e bem filmado, é sempre uma coisa que dá graça a um filme. Parece que estamos a caminhar para o politicamente correcto, asséptico, limpinho, sem sal nem pimenta, sem açúcar, sem beijo de língua, sem piropo, sem malandrice, sem subentendido. E, se isso vier mesmo a acontecer de vez, o mundo perderá a graça, será como o desaparecimento dos insectos que deixará o mundo sem polinização, como livros cegos, sem palavras, mãos que não sabem que devem procurar outras mãos, olhos que não sabem procurar outros olhos, um vazio absoluto. Podia agora colocar aqui algumas das cenas calientes que o artigo refere mas o tema merece uma cama vazia, não um post já cheio de confusão. Talvez outro dia. 

E se calhar agora é que não tenho mesmo mais nada para dizer, a não ser pedir desculpa por estar para aqui nisto, apenas a tomar o vosso tempo. 


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Espero que tenham gostado de ver a Maria João Pires a tocar quase de olhos fechados numa gravação recentíssima e, embora num nivelzinho cá bem mais abaixo, que tenham também gostado das minhas fotografias feitas este domingo in heaven. Numa delas, pode ler-se parte de um poema de David Mourão-Ferreira que se foi num outro, longínquo, 16 de Junho.

A vestir-te 
o corpo nu
ou a sede
que é minha
ou a seda
que és tu.

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E uma boa semana a todos, a começar já por esta segunda-feira.

terça-feira, junho 23, 2015

A verdadeira autora de Um Jeito Manso. E uma cá das minhas, Elena Ferrante, pela mão de Pedro Mexia







Desconhecem-me e, por vezes, isso não chega a quem aqui me acompanha. Recebo mails em que Leitores se deitam a adivinhar a minha idade ou como sou do ponto de vista físico. Outras vezes há quem espere encontrar-me em lançamentos de livros para poder ver quem sou e como sou, e me escreva referindo a pena de ainda não ter sido dessa vez que conseguiram, finalmente, encontrar-me.

E, no entanto, se eu quisesse despertar interesse através de mim enquanto corpo, rosto, nome ou profissão, criaria uma conta no facebook ou até no linkdin e exporia esse meu lado exterior. Se essa fosse a minha opção, ir-me-ia mostrando a olhar o rio e escreveria uau, que bem se está aqui, ou mostrando-me a comer um gelado e escreveria nham nham, tão bom, ou fotografando os meus pés com uns sapatos novos e escreveria olha eu a fazer de conta que sou maluca por sapatos, e, portanto, centraria a minha comunicação internética na minha pessoa. Ora, a questão é que me acho deveras pouco interessante para isso. 

Pelo contrário, embora também não me ache a última coca-cola do deserto, penso que, quem aqui procura este espaço, o fará não por eu ser loura ou morena, magra ou gorda, engenheira ou doutora da mula russa, bem vestida ou mal enjorcada, mas, sim, porque o que aqui escrevo ou divulgo tem alguma graça. Pelo menos, tento iludir-me assim.

Se eu fosse escritora, também não me daria a conhecer. Não quereria que a minha escrita pudesse ser lida à luz da minha vida. Nem quereria ter que explicar o que escrevesse. Nunca. O que se escreve tem explicação para o próprio e tem-no no momento em que se escreve -- a menos que escrevesse sobre política, gestão ou qualquer uma dessas tretas de cariz mais prático. Agora, se escrevesse ficção, alguma vez eu teria paciência ou discernimento para explicar porque é que aquela personagem disse aquilo ou a outro fez outra coisa qualquer? Nunca. Cada um diz e faz o que quer: é coisa que assoma aos dedos de quem escreve sem se saber porquê. Ou, se souber, não é para estar a divulgar, ora.

Se eu escrevo aqui sobre fogo, sobre mar, sobre abismos, monstros, nuvens, flores, mulheres sedutoras, homens de perdição, gaivotas, espelhos, lágrimas, fúrias, desconsolos, desacertos, paixões, abraços perdidos no tempo, ou seja sobre o que for, a última coisa que eu quereria seria que alguém pensasse que essas rêveries têm alguma coisa a ver comigo ou com alguém que eu conheça ou que tentassem interpretar as palermices que aqui aparecem escritas à luz de quem eu sou na minha vida 'à civil'.

Como não sou escritora nem considero que o que aqui vou escrevendo tenha algum valor por aí além, não me ponho em bicos de pés e, portanto, não posso estabelecer comparação com a pessoa sobre quem Pedro Mexia falou aqui há dias. Mas gostei de ler.

De facto, no Expresso de 13 de Junho, Pedro Mexia escreveu uma crónica a que deu o título: O verdadeiro autor, em que fala sobre a irrelevância do 'verdadeiro autor' enquanto elemento determinante na apreciação da respectiva obra.


Sobre o assunto, escreveu ele a propósito de um nome grande da literatura actual, alguém que ninguém faz a mínima ideia quem seja: Elena Ferrante. Transcrevo alguns excertos.


Agora, os seus editores conseguiram entrevistá-la, e o texto, revisto, apareceu na última edição da 'Paris Review'.

Ferrante não desvenda o seu verdadeiro nome e não revela quase nada sobre a sua vida, mas conversa sobre métodos de trabalho e sobre a questão da autoria.

Um leitor inteligente não verá autobiografia em tudo, mas saberá reconhecer a 'autenticidade' do texto, que aliás não obsta à sua impecável ficcionalidade.

Não é a morte do autor que está aqui em causa mas a morte daquilo a que se chama um autor, e que é uma falsidade e uma desnecessidade. 'Se a autora não existir fora do texto, dentro do texto ela oferece-se a si mesma, acrescenta-se conscientemente à história, de um modo muito mais verdadeiro do que nas fotos a cores de um suplemento dominical, num lançamento, num festival, num programa de televisão, numa entrega de prémios'. Fazer desaparecer o autor empírico abre um espaço criativo. E essa ausência é colmatada pela escrita. Os leitores, acredita Ferrante, serão capazes de descobrir o 'verdadeiro' autor, 'em cada palavra ou violência gramatical ou nó sintático', tal como descobrem, aos poucos, a personalidade de uma personagem.

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Por isso -- e agora dirijo-me, em especial, aos meus Caros Leitores mais curiosos -- tenham por favor, alguma paciência comigo: não queiram saber quantos anos tenho, se sou feia ou bonita, se sou atraente ou antipática ou qual a área em que trabalho. Isso é irrelevante, passageiro. Uma desnecessidade. A minha verdade está nas ficções simples com que me entretenho, nas palavras que se soltam de mim à noite aliviando-me do peso dos dias, nas cores ou, mesmo, apenas no preto e branco com que levo até vós aquilo de que gosto, nos sonhos inocentes ou tresloucados que por aqui podem passear à vontade, nas minhas opiniões políticas, no humor que, por vezes, de mim se evade à rédea solta. E no amor que, por aqui, tantas vezes transparece.



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E, por falar em coisas de que gosto, aqui vos deixo duas delas.




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As fotografias são da autoria de Christian Coigny  
Eva Cassidy interpreta Over The Rainbow
Aurélie Dupont e Manuel Legris dançam o pas de deux Abandon de "Le Parc" numa coreografia de Angelin Preljocaj
E por vezes, David Mourão-Ferreira é dito por Teresa Coutinho

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.

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segunda-feira, fevereiro 16, 2015

Eis-me sem explicações, não calando a voz do chão que grita dentro de mim e que, nestas paredes e nestes caminhos, irá para além de mim. Sou feliz in heaven.


No post abaixo questionei-me sobre o que é o amor e, a propósito de uma mulher que despertou paixões várias, Gala, mostrei um poema de um homem que muito a amou, Paul Éluard.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.







Aqui chegados, a casa estava fria, quase húmida de tão fria. Reparei que o galo, a galinha e os seus galitos parecem ter-se zangado. Costumo dispô-los uns atrás dos outros e agora uns estão para um lado e outros para outro. Devem sentir a nossa falta, parecem amuados, temos vindo pouco, o tempo não chega para dar corpo a todos os afectos.




Desta vez a salamandra animou-se, ainda agora fui espevitá-la. Vem de lá um calorzinho bom, um perfume a cedro, a azinheira, a pinheiro, a pinhas: são as minhas árvores queridas que nos dão sombra, perfume, cor e também calor.

Estava no sofá, reclinada, a ler uma entrevista a T.S. Eliot, quando reparei que o fogo se reflectia no vidro da janela, parecia uma fogueira no jardim, quase como se da pedra enorme que tenho aqui no chão à porta nascesse uma chama.




Sinto-me feliz com coisas assim: sabia que os meus filhos estavam juntos, divertindo-se em família, todos mascarados, as crianças numa alegria, e sabê-los amigos enche-me de felicidade. E eu aqui, sabendo isso, e sabendo que o meu pai está a ser bem tratado e talvez recupere ligeiramente, que a minha mãe está a descansar um pouco, sentindo o afago bom do calor perfumado da salamandra, vendo o dia a cair do lado de fora, lendo, rodeada de afecto, senti-me agradecida. Sei como são frágeis os acasos que fazem uma pessoa ter motivos para estar feliz, frágeis, efémeros. Tantas pessoas que os não têm e que tanto o mereciam. Por isso, sempre que me sinto abençoada, sinto-me também agradecida, quase como se, sentindo-me agradecida, conseguisse a benesse de por mais tempo me ser concedida a graça de o continuar a ser.

Antes de me deixar estar aqui na sala, descansada, a ler, tinha andado a passear. Que bom é passear por aqui, in heaven. Reparo em cada pequeno pormenor. Uma árvore mais verde, um bocado de musgo solto - e penso, um gato, um coelho talvez, ou a chuva ou o vento - e está mais fofo e aveludado, uma pedra que parece mais coberta de terra.




Os cedros estão carregadinhos de pontos dourados. Gosto muito de cedros, crescem muito, dão belas sombras, são elegantes, os ramos tombam como capas, como mantos.

O que antes era uma terra de mato rasteiro tem agora pequenos bosques perfumados. Baixo-me para descer as escadas de pedra cobertas de musgo e folhagem que mal se vêem debaixo das ramagens das árvores. Depois sinto que fiquei com folhas presas no cabelo e hesito em tirá-las. 

As figueiras continuam despidas, ramos escuros que desenham arabescos no ar. Mas, na ponta de cada um, um pequeno rebento. São as folhas que começam a pressentir-se.




Fico sempre emocionada quando assisto a este milagre. Todos os anos as figueiras se despem para o inverno, e ficam nuas, ramos que poderiam prenunciar o seu fim. Mas depois a natureza faz renascê-los e dos ramos começam a surgir provas de vida.

Daqui por algum tempo as folhas começarão a desenhar-se, depois as árvores ficarão frondosas e os figos crescerão até que, pesados, deixarão que uma gota de mel se solte.

Continuo.

Gosto de andar com a máquina fotográfica. Guardo o registo do que me parece ser mágico, quase indizível. Tantos tons de verde, ramos nus, cinzentos, misturando-se com folhagens verdes de várias tonalidades. No meio tenho bancos, uns de pedra, outros que desenhei, pequenas conversadeiras que forrei a azulejo. Pensava: vai apetecer-me sentar-me no meio das árvores a ler um livro ou a conversar, deve haver ali um sítio onde seja bom estar. E apetece, tenho é pouco tempo para poder fazer tudo aquilo que quero.




Quando andava a passear em silêncio, vi o gato preto que por aqui anda por vezes. Ele não me via e eu andei ainda mais silenciosamente. Mas, então, ele apercebeu-se da minha presença. Virou-se para mim, olhou-me com aquele seu olhar verde e intenso. Arrepiei-me. Fiquei estática a olhar para ele e ele para mim. Depois, quando eu começava a ganhar consciência e me preparava para o fotografar, fugiu. Este gato desafia-me, teme-me, encanta-me sendo tão arisco e ágil, perturba-me pela forma como me olha.

Mais à frente, outra alegria. Quase poderia dizer que eram dois botões, de um tom de pétala de rosa deixada ao embalo do sol. Maravilho-me com coisas assim, com a beleza muito pura.




Na parte de fora da pequena capela, lembrei-me de ter Adão e Eva. A Igreja (a Igreja antiquada e com a qual não me identifico) acha que cometeram um pecado e, por isso, deixa-os de fora. As crianças que nascem desse pecado têm que ser purificadas antes de poder ser aceites no seu seio. Eu não considero que os actos de amor ou de prazer possam ser pecado e, por isso, não baptizei os meus filhos. Nasceram puros porque nasceram de actos de amor.


E juntei falas a Adão e a Eva.
Adão, encantado por Eva, usa as palavras de David Mourão-Ferreira e diz

A vestir-te
o corpo
nu
ou a sede
que é minha
ou a seda que és tu


E Eva faz suas a s palavras de Natália Correia para dizer

Eis-me sem explicações
crucificada em amor:
a boca o fruto o sabor

Mais à frente, rodeei as azinheiras por um muro em redondo onde fiz pintar estrofes ou pequenos poemas.

Trocar tudo por ti, se for preciso

Pensei nesta espécie de canteiro como um poço do amor de onde se erguesse a vida traduzida em árvores. São cinco poemas de amor. O senhor que aplicou os azulejos suou as estopinhas para conseguir fazer a curvatura do murete mantendo os azulejos encostados de forma a que as palavras ficassem bem desenhadas. Gosto de andar aqui e ler os poemas e sentir que o amor está bem marcado na minha vida, impresso na pedra.

Sou eu que aqui me encontro. Um dia desaparecerei e talvez as ervas e os musgos tudo invadam. Talvez as árvores tombem cansadas de carregarem as suas pesadas ramagens. Ou talvez os meus filhos e os seus filhos e os filhos dos seus filhos tentem manter este espaço e continuem a achar que é o seu heaven. Não sei. Mas acredito que muito de mim continuará a existir para além de mim, aqui nestas paredes, nestes poemas, nestes desenhos, nestes caminhos, nestes recantos. Como disse, era uma terra inóspita, só pedras e mato, e agora sou eu aqui envolta em palavras, em árvores, em luz, perfumada pelos cheiros íntimos desta terra que me adoptou e que eu sinto que me ama de uma forma silenciosa e fértil, doce, maternal.


Para dizer que sou eu aqui, diante de mim

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A límpida e maravilhosa música é Llongau Térou-bi interpertada por Catrin Finch e Seckou Keita

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Relembro que, descendo até ao próximo post, encontrarão as minhas dúvidas sobre que coisa é o amor e um poema muito belo, dito e cantado, de um homem que muito amou uma mulher que o viria a fazer sofrer, Éluard e Gala.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira.
E sejam muito felizes. 
E façam por amar e ser amados, está bem?

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domingo, janeiro 18, 2015

Cristiano Ronaldo e Irina Shayk estão separados. As suspeitas foram confirmadas pelo agente de Irina, a ex-futuro membro do clã Aveiro. O mundo de repente torna-se mais animado: afinal o CR7 está outra vez solteiro! [Fotografias dos tempos de namoro e a poética do amor nas escolhas de Rosa Pinto]


Tinha já eu repescado para aqui as escolhas poéticas da Leitora Rosa Pinto quando ouvi que Irina Shayk tinha mandado dizer pelo agente que sim senhores, se tinha mesmo separado de Cristiano Ronaldo, o tal que, de sobrancelhas arranjadinhas, brinquinho reluzente, arrebatou no outro dia a sua terceira bolinha (tem três bolinhas e de ouro!) e que, em vez de agradecer também à namorada, soltou um grito que por pouco não fez a audiência sair dali a fugir não fosse aquilo querer dizer que ele tinha visto o lobo mau no meio da sala.


Portanto, perante tão estimulante notícia, tenho que fazer a agulha e reorientar o post. Um assunto destes, que vai deixar os fãs de um e outro cheios de expectativas, não poderia deixar de merecer um espaço aqui no Um Jeito Manso que, como é sabido, é como a casa da mãe Joana, cabe cá tudo.

Ora bem, vejamos lá o que tenho a dizer sobre este facto.

Não sou entendida em futebol mas os factos falam por si e tenho que reconhecer que o rapaz tem jeito para a bola. É uma máquina de marcar golos e de fazer dinheiro. E, como portuguesa, orgulho-me do facto. Não sei bem porquê, e também não posso dizer que seja coisa que me faz vibrar por aí além mas, seja como for, é português o melhor jogador do mundo da actualidade e isso é bom.

Dizem-no focado, disciplinado, de uma entrega total quando tem uma bola nos pés e que, não menos importante, é boa pessoa. E não é de grandes teorias, não é de modéstias coitadinhas, não se perde com conversas inúteis - e isso também abona a favor dele.

Onde eu já vacilo é na estética da coisa. Tem feições certinhas, tem um corpo bem feito e bem trabalhado, é certo, mas, que hei-de eu fazer?, não faz nada o meu género. Todo depilado, desde as pernas às sobrancelhas passando pelas axilas... E aqueles penteadinhos e aqueles brinquinhos... Não dá, nada a fazer. 

Este sábado estava a almoçar num restaurante cantonês ali à Almirante Reis e ao nosso lado um jovem casal. Ela parecia saída de uma capa de revista, cabelo preto nem tratado, corte Bob com franja, cat-eye com um eye-liner perfeito, um casaco de pêlo alto azul claro, jeans justos, botas de salto bem alto. Impec. O namorado não lhe ficava atrás, jeans, camisola salvo erro em preto e bordeaux, um cachecol nos mesmos tons enrolado ao pescoço, barba, cabelo bem penteado com um pouco de gel. Pensei: dariam uma bela sessão de editorial numa revista de moda. 
Mas, às tantas. o meu marido pergunta-me em voz baixa: Já viste as unhas do gajo?
Olhei e ele estava a fazer-lhe uma festa no braço e só vi uma unha. Estava pintada de cinzento escuro brilhante. Ainda pensei: entalou o dedo, ficou com a unha preta e, para disfarçar, o vaidosão pintou a unha.
Mas logo ele rodou a mão no braço de pêlo azul e vi que tinha uma unha de cada cor: uma encarnado pujante, outra azul marinho, outra castanho rosado... Devo ter ficado de boca aberta.
Ou seja, às tantas os homens arranjarem-se desta forma, com estes pormenores que eu ainda acho abichanados, é coisa banal e eu é que estou a ficar antiquada.

Enfim. O que a mim me desagrada no Ronaldo enquanto exemplar masculino, às tantas é o que faz entrar as meninas em delírio, sei lá, já não digo nada.

De resto, sempre me fez um bocado de confusão como é que uma rapariga como a Irina, que circula em tudo o que é palco da alta roda mediática, encaixava naquele clã tão cheio de Aveiros. A Elma, a Kátia, a D. Dolores - que devem ser mesmo umas queridas e que devem mimar e proteger o seu querido Cristiano e mais o Cristianinho - dariam o espaço vital de que Irina Shayk parece precisar? Sempre me pareceu duvidoso mas, enfim, para dizer a verdade nunca foi tema que atormentasse a minha mente.


Parece que o comunicado do agente de Irina diz que a separação não tem nada a ver com o clã Aveiro e eu acredito que não, que o problema deve mesmo ser outro, deve ter a ver com o todo o package.

Irina vem assim juntar-se a Merche Romero e outras que provaram e que, por algum motivo, não gostaram ou não se adaptaram ou a quem eles passou ordem de marcha - coisa lá deles.

E, assim sendo, não sabendo que mais dizer sobre o tema, passo ao registo recordatório: imagens de quando o CR7 e Irina eram o casal de ouro, os namorados mediáticos que a indústria da moda e da publicidade disputavam. As primeiras imagens pertencem à sessão fotográfico produzida para a Vogue e que esteve a cargo de Mario Testino, a penúltima é da autoria de James Houston e a última não faço ideia.





Se concordarem, introduzimos aqui uma nota dissonante: vamos com Agnes Obel - Fuel to Fire



Do you want me on your mind or do you want me to go on
I might be yours as sure as I can say
Be gone be faraway


E, agora sim, chamo agora Rosa Pinto a juntar-se à festa, trazendo as suas escolhas literário-poéticas.

Espero que nem ela nem os mais puristas se ofendam por eu trazer para aqui, à mistura com mundanidades e outras frioleiras, alguns grandes nomes da literatura mas eu acho que a literatura fica bem em qualquer lado e - digo eu - tomara que todos os albergues espanhóis (tipo de alojamento no qual este blogue se insere) acolhessem bem as almas dadas à poesia.



E quando me escrevias, era tão belo o que me contavas que me despia para ler as tuas cartas. Só nua eu te podia ler. 
(...)

Mia Couto




MOTE 
«Não te beijo e tenho ensejo
Para um beijo te roubar;
O beijo mata o desejo
E eu quero-te desejar.» 
GLOSAS 
Porque te amo de verdade,
'stou louco por dar-te um beijo,
Mas contra a tua vontade
Não te beijo e tenho ensejo. 
Sabendo que deves ter
Milhões deles p'ra me dar,
Teria que enlouquecer
Para um beijo te roubar. 
E como em teus lábios puros,
Guardas tudo quanto almejo,
Doutros desejos futuros
O beijo mata o desejo. 
Roubando um, mil te daria;
O que não posso é jurar
Que não te aborreceria,
E eu quero-te desejar!

O Beijo Mata o Desejo, António Aleixo




Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,
são eternos como é a natureza. 
Pablo Neruda



Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.


Soneto do Amor Total, Vinícius de Morais




Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada... 
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio... 
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo... 
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós! 

David Mourão-Ferreira, in "Infinito Pessoal"



Dá a surpresa de ser. 
É alta, de um louro escuro. 
Faz bem só pensar em ver 
Seu corpo meio maduro. 

Seus seios altos parecem 
(Se ela tivesse deitada) 
Dois montinhos que amanhecem 
Sem Ter que haver madrugada. 

E a mão do seu braço branco 
Assenta em palmo espalhado 
Sobre a saliência do flanco 
Do seu relevo tapado. 

Apetece como um barco. 
Tem qualquer coisa de gomo. 
Meu Deus, quando é que eu embarco? 
Ó fome, quando é que eu como ? 

Dá a Surpresa de Ser, Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

___



Bye bye Irina Aveiro. Good luck Irina Shayk.

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E, prontos, é isto.

Agora vou ali ler mais um bocado do Expresso ou ver o episódio de ontem do Borgen e talvez ainda cá volte. Logo vejo. Até já.

...

sexta-feira, setembro 06, 2013

Ler poesia. Ouvir poesia. Sentir a poesia. Perceber a poesia. Analisar poesia. Escrever poesia. ------ [E mais um Cadavre Exquis Poético - para ajudar a responder à pergunta: faz sentido analisar a poesia?]


No post abaixo, festejo o regresso de Pedro Mexia à blogosfera. Um malparado muito diferente daquele a que nos habituámos. Mas isso é a seguir.

Aqui, agora, a conversa é outra e tenho que tentar ser breve porque daqui a nada tenho que estar a pé que me espera mais um daqueles dias que começa antes do sol raiar. 

Vou aventurar-me por terrenos em que escorrego mal ponho o pé. Sei bem disso. Mas fazer o quê? se gosto de andar por sítios assim. Vou escolher umas imagens que têm o seu quê de infantil para que vejam bem que não me tomo a sério e que, ao dizer o que vou dizer, assumo que, deve ser o meu lado pouco adulto (ou inculto) a manifestar-se.

^^



Música por favor, 
que esta é conversa que se debruça sobre o sonho (ou sobre a fala) dos anjos


Arvo Pärt


^^

Leio poesia há muitos anos, desde os meus treze anos talvez. Tenho uma estante própria e de boa dimensão para poesia e, ainda assim, a mesa em que escrevo tem a toda a volta (é redonda) vários montes de livros de poesia. Tenho uma necessidade que é da ordem da adição: todos os dias tenho que ler um poema, um ou mais. Apenas em férias interrompo. Mas, por vezes, como qualquer viciado em estado de carência, abro um livro e leio um poema, mesmo que de fugida, mesmo que a total despropósito. 




Sou leitora assídua de poesia mas não sou uma leitora exemplar. Sou aliás a antítese disso. Não pego num livro e não começo a ler de seguida, página após página. Nem consigo nunca começar pelo princípio. Não sei porquê mas não consigo. Mais depressa vou ler o último ou o índice. Gosto de ler o índice para ver se, pelo nome, consigo ir direitinha ao melhor. Se não acerto, o que faço é abrir ao acaso e ler e depois andar para trás ou para a frente. Se me agrada o início de um poema, leio-o todo, senão passo para outro. Depois não fico a interpretá-lo nem a tentar perceber o que significa. Impossível fazê-lo. Na poesia eu acho que as palavras saem porque saem ou saem porque têm um significado para quem as escreveu. Depois de o terem escrito de forma inconsciente, se calhar, os poetas rematam as pontas, tiram os alfinetes, sobem as bainhas, essas coisas, acabamentos. Se calhar, só depois o dão como pronto.




Que me desculpem os estudiosos, a boa gente séria que sabe como desmantelar um poema sem o estragar, para que à vista desarmada ele continue a parecer aquilo que era, um poema genuíno. É ignorância minha, eu sei, mas parece-me que querer descobrir algum significado num poema parece-me um acto de divinação absurdo, ou um acto de voyeurismo despropositado. Ou seja, interpretar um poema parece-me estultícia. Mas que não se zanguem comigo os que o fazem e fazem bem – como confessei, não sou bem comportada, não sou boa aluna, não sou by the book (em nada nesta vida). 

Mas isto de querer interpretar o que os outros fazem, sejam os outros poetas, pintores, músicos, faz-me lembrar uma entrevista a Paula Rêgo. Dizia ela com aquela sua irreverência inocente: sei lá porque é que pintei aquilo, apeteceu-me, saíu assim, às vezes está ali um espaço vazio e ponho lá qualquer coisa para encher. Numa tela, estavam uns tomates no chão ao lado de uma cama. Disse ela: sei lá porquê, não faço ideia de como lá foram eles parar


Miró


Miró disse o mesmo. Quando acabava e pintar, deixava os pincéis de molho. Quando no dia seguinte lá chegava, de novo, tinha que lhes tirar o excesso de água. Sacudia-os para cima das telas. Depois, a partir dos salpicos, ia desenhando pintinhas, bolinhas, quadradinhos, juntando umas coisas. Fartava-se ele de rir com as interpretações que lia depois sobre os símbolos e a significação e essas coisas.

É até ridículo eu agora juntar-me à conversa mas, afinal, quem me impede? Vocês que estão aí sossegadinhos desse lado, tão longe de mim? Têm lá vocês a capacidade de me porem uma mão à frente da boca? Não têm. Ou melhor: conseguem estender o vosso braço e agarrar a minha mão para que eu não escreva mais disparates? Não. Estão longe demais. Portanto, agora a protagonista passo a ser eu. Sempre inconsciente.

Sabem que eu pinto. Agora menos, tenho cada vez menos tempo para fazer tudo o que gosto (isto dos blogues ocupa-me muito do tempo que usava para pintar). Pois eu, por vezes, era tomada por uma vontade compulsiva de pintar. Mas pintar – e a frase acaba aqui pois era de pintar que tinha (e por vezes ainda tenho) vontade, não de pintar alguma coisa em concreto. Vontade de olhar para uma tela em branco e depois, sem saber como nem porquê, ir juntando cores ou figuras. Depois as pessoas olham e vêem coisas e pedem-me explicações. Fico sem jeito, receio passar por mais maluca do que sou na realidade. Mas, a sério: não sei o que responder. 

Houve uma altura em que havia sempre duas freirinhas, ajoelhadas a um canto. A pintura podia meter mulheres nuas, corpos expostos, flores viscerais, sexos, montes, cavalos, gente em cima de árvores, portas, muros, labirintos, a sombra caindo sobre um muro, o que calhava, mas lá estavam sempre a um canto aquelas duas, vestidas a rigor, ajoelhadas, a rezar. Matéria para análise é o que não falta ali. Podem dizer que era a libertinagem total e que as freiras representavam a minha consciência. Tretas. Apareciam-me como uma paródia. O que sei é que pintar assim é a loucura, o prazer da liberdade total. 

Uma vez pintei uma ‘cena’ completamente improvável. Nessa altura andava a pintar cidades, torres que se cruzavam, camadas de prédios, o sol a bater nos prédios, viadutos e pontes que entravam e saíam dos prédios, prédios de formas bizarras, curvos, superfícies irregulares, cada parede de sua cor, cidades abstractas, feéricas. Pois bem, numa dessas pinturas pintei as pernas de uma mulher de saltos muito altos, uma mulher que, pela proporção, devia ser gigante pois andava sobre os prédios, um pé em cima de um, outro pé em cima de outro. E num canto do quadro via-se uma outra coisa: uma mão de mulher pegando no pobre pénis de um homem, pegando com o cuidado que se usa para pegar numa coisa frágil. 

Estas imagens, a das pernas da mulher e a mão da outra a pegar naquele pobre órgão, estavam a preto como se fosse quase uma sombra que se projectava naquela paisagem urbana. Uma coisa de que gosto especialmente é de dar nomes aos quadros. Só dou no fim porque só no fim é que vejo o que saiu. Àquele dei o nome ‘Women rule’. Reparem: não pensei que ia pintar um quadro que representasse o poder das mulheres nas sociedades modernas. Nada disso. Foi exactamente ao contrário.

Como gostei dele, emoldurei-o e coloquei-o na sala. Faço coisas assim, sem pensar. Lá em casa geralmente estamos nós, os filhos (já habituados – mas ainda não confortáveis com o que vêem ou lêem) e netos (na altura ainda não existiam), o genro (que deve achar isto uma coisa do além), a nora (que talvez ache piada), na altura os meus pais (o meu pai não dizia nada e a minha mãe ria-se como se eu fosse um caso perdido). Mas o pior foi no dia em que, pela primeira vez, depois de eu lá ter colocado o quadro, lá foi uma família, agora nossos parentes, pessoas conservadoras, tradicionais, católicos praticantes, gente atilada, tudo o que eu não sou. Quando ele começou a fazer o périplo por aquelas pinturas eu senti um calafrio, ó caraças que não me lembrei, devia ter escondido o sacana do quadro. Bonito serviço. O que é que ele vai pensar? Ai… Mas enfim, educado e cavalheiro, reparei que esboçou um quase imperceptível sorriso e seguiu, sem fazer uma referência. Depois disse que tinham muita força, muita vida, coisas assim. Pois. 

Agora imagine-se se algum sábio da coisa, um crítico de arte ou coisa do género, se metia a comentar aquilo. O que eu me ia fartar de rir.




É como a poesia. Leio e gosto ou não gosto. E por vezes não me diz nada, outras abre-me portas, outras varre-me a pele, outras é uma melodia que murmura dentro de mim. O que eu gosto de fazer, e faço muito (quando escrevo no Ginjal - coisa de que tenho andado arredada porque o tempo de verão leva-me para outras solicitações), é escolher um poema, copiá-lo para o blog e depois, sem pensar, tem que ser logo de seguida, enquanto as palavras do poema estão à solta dentro de mim, ou seja, ainda não assentaram nem se dissiparam, desatar a escrever o que me ocorre acerca daquilo. Recrear a situação, ou inventar uma situação em que as palavras do poema fizessem sentido. Ou outra coisa qualquer. Não sei. Não paro para pensar. E mal acabo de escrever, bye, bye, fecho o Ginjal e parto para outra. Aquilo fez sentido no estrito momento em que ocorreu, mal acabou, já sou outra. Já me aconteceu, raramente mas aconteceu, reler o que escrevi (acontece, por vezes, quando me quero certificar de que ainda não coloquei um certo poema, fazer uma pesquisa e ir parar a certa pagina que releio). Fico sempre espantada com o que escrevi.  Mas nem tento perceber o que escrevi, nem o que poderia aquilo ter significado na altura, ou as técnicas que usei ou o que for. Felizmente ninguém se deita a tão inútil e descabido exercício.




Li o exercício que o JCM escreveu na quinta feira no seu excelente Kyrie Eleison. Claro que, lendo o que ele escreveu, percebo que faz sentido. E está bem escrito e é inteligente o que ele diz. Mas acrescenta o quê à compreensão do poema? A intenção é que, quem o não tinha percebido, lendo a explicação, o releia com outra atenção e o compreenda melhor? Se calhar é. Quando tive aulas de língua Portuguesa no liceu fazíamos este tipo de exercícios. Tanta gente se entrega a isto que com certeza faz sentido. Eu é que sou atípica ou rústica (e não estou a  ironizar). Eu leio o poema sobre o qual o JCM se debruçou e a única coisa que me ocorre é que gostava que o meu amor o decorasse e mo dissesse num sussurro ao ouvido. Em francês de preferência. Mais do que isto não sei dizer sobre "Le Toucher".




Já no outro dia o JCM tinha falado sobre a análise poética e trocámos impressões sobre o tema. 

Para mim, ler aqueles exercícios de análise é como se eu, gostando de uma flor - e tanto que eu gosto de flores - em vez de me limitar a vê-las, tocar-lhes, cheirá-las, fotografá-las, pintá-las, me pusesse a ver compêndios de botânica, a estudar a respectiva taxonomia, a ver se o rebordo da folha é assim ou assado, se a superfície da folha é assim ou assado, etc. Devo dizer que tenho livros desses: por gostar muito de flores, pensei que, estudando-as, as apreciaria melhor. Errado. Não apenas não tenho paciência para isso como não percebo qual a utilidade prática para mim que sou amante em estado bruto. A beleza para mim tem que vir nua, em estado primitivo, sem taxonomias, gramáticas, burocracias.



Paul Klee


Já aqui uma vez o fiz e é exercício que gosto de fazer: um cadavre exquis poético. Ou seja, pegar em bocados de outros poemas e ir juntando peças até que soem como um poema. O resultado pode parecer um poema que nasceu pelas vias normais mas eu sei que nasceu de um exercício de assemblage, que é um patchwork, um ser fabricado.

Mas vamos supor que eu não explicava isso. E vamos supor que, por algum estranho acaso, algum estudioso resolvia analisá-lo. Poderia resultar um exercício muito racional. Mas faria sentido atribuir significados a coisas que resultaram de puro corte e costura?

Não sei. 

Agora que falei nisto, vou fazer outro cadavre exquis. Vejamos o que vai sair.




                                                    Olho. 
                                                    Um mecanismo de seda
                                                    de gaivotas traídas pelo fogo da tarde
                                                    rasga o horizonte 

                                                    São as horas solitárias em que a noite nasce,
                                                    traça um rumor de alfazema sobre a terra

                                                    A noite desceu pelo rio da saudade. 
                                                      
                                                    Sentemo-nos no silêncio desta hora.
                                                    Ergue-se flamejante
                                                    a sombria sombra da minha sombra. 
                                                    a sombra da minha sombra ao partir.

                                                    E deixo fermentar as imagens
                                                    que trago no fundo do corpo.
                                                    São restos do mundo que amei,
                                                    os montes, a luz verde da salvação.


Gosto de fazer isto.

Todos os versos foram retirados dos vários poemas do JCM publicados durante este mês de Agosto no Kyrie Eleison. O que é que eu quis dizer com este poema? Nada. Não escrevi por mim uma única palavra. E, no entanto, agora que o leio, parece fazer sentido e parece ser algo que eu, um dia, poderia ter dito ou vir ainda a dizer. Vá lá alguém explicar isto.




***

Uma vez mais que me desculpem os linguistas, os estudiosos apaixonados pela língua, os amantes de literatura, os investigadores. Sabem o que fazem. Eu se calhar não. Mas é que eu acho mesmo que da poesia ou se gosta ou não - e a única coisa a fazer em relação a isso é ler. Ou ouvir ler. Ou esperar que a vida nos traga a maturidade ou a leveza para que saibamos gostar. Pode ser um ano, uma vida. Ou um dia. E por vezes, ah por vezes, num segundo se evolam tantos anos.




E por vezes, David Mourão-Ferreira


***

É tarde e daqui a pouco estou a caminho. Tenho que me ir deitar e, por isso, não vou reler. Espero que não existam erros graves, coisas sem sentido, porque não vou poder corrigir. E mal chegue a casa, ao fim do dia, tenho baby sitting. Por isso, vou fazer figas para isto não estar tudo baratinado, tal o sono que tenho em cima de mim e dado que não vou poder atender a SOS's que me avisem de enganos.

Relembro: as coordenadas para o novo blogue do Papa Pedro Mexia estão no post seguinte.

***

E nada mais senão pedir-vos desculpa, uma vez mais, pelos meus excessos: se isto é tamanho que se apresente na internet, senhores...? 

E, sobretudo, resta-me desejar-vos uma belíssima sexta-feira!