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domingo, junho 15, 2025

Reservado

 

Neste meu período sabático em que me ocupo desocupando-me e em que aprendo a fazer livremente o que me apetece sem me sentir mal por não produzir nada, voltei a ver Netflix. Já não via há séculos pois o tempo não me chegava para nada, muito menos o tinha para ver filmes ou séries a meio do dia ou à noite.

O meu marido, em contrapartida, não tem parança. Lava muros e pavimentos à pressão, pinta muros, pintou uma mesa, corta a relva, apara sebes. Quem o viu e quem o vê. Gosta do que faz. Claro que acho que faz tudo à pressa, parece que trabalha por empreitada e que tem que despachar uma para ir agarrar outra. Mas parece que não consegue ser de outra maneira pelo que não vale a pena eu dizer o que quer que seja.

No outro dia, ouvíamos um chinfrim dos diabos vindo de um jardim vizinho. Eram os jardineiros. Disse ao meu marido: uma das boas decisões que tomámos foi livrarmo-nos deles. Ia responder mas atalhei: já sei que sobra para ti mas é um sossego e o jardim está muito melhor. As nossas máquinas são a bateria, quase silenciosas. Eles usam máquinas a gasolina que fazem uma barulheira que não se aguenta. Quando vinham cá, o melhor era pirarmo-nos. Ainda me lembro de quando estava em teletrabalho, a ter reuniões pegadas umas às outras, sem poder livrar-me, enquanto, no exterior, os jardineiros aparavam relva, cortavam sebes, sopravam folha, um festival de barulheira, e, no interior, o cão ladrava alto e bom som, atirava-se aos vidros, numa fúria descontrolada. Não havia sítio na casa onde eu pudesse estar em paz enquanto eles andassem a jardinar a toda a volta da casa.

Mas, estava eu dizendo, voltei a ver Netflix. No outro dia tinha visto as 4 Estações, uma série engraçada, depois vi La Dolce Villa, um filme fofo, e, ao acabar, resolvi dar uma espreitadela. Chamou-me a atenção a série Reservado (Secrets we keep) por ser dinamarquesa. Gosto bastante de séries e filmes escandinavos. São outra coisa. Não desfazendo -- até porque há coisas boas em todo o lado -- mas, mais que americanices, espanholadas, francesices, italianadas, etc, é com as cenas escandinavas que mais me identifico. 

E gostei muito. Não descansei enquanto não vi tudo. É um bocado inquietante, por vezes bastante, mas tudo dentro do limite do totalmente verosímil, tudo a fazer-nos pensar, tudo a obrigar-nos a olhar para as coisas sob uma perspectiva que não era a inicial. E tocante. Vamos acompanhando as lealdades que, por vezes, obrigam a deslealdade para com a verdade, a confiança e a facilidade com que se quebra, a protecção dos que se amam que, por vezes, implica a desprotecção de outros, geralmente dos mais frágeis, a cumplicidade que tenta proteger a intimidade mas que, por vezes, implica esconder um crime. Mas também ficamos na dúvida: quem praticou o crime é, na verdade, o responsável pelo crime ou é, ele próprio, uma vítima?

Mas tudo se passa sem barulho, sem ruído a poluir os diálogos ou os pensamentos, sem perseguições, sem pressa. Temos tempo para observar as expressões dos personagens, para pensar, para reagir.

Ou seja, a quem subscreva a Netflix, recomendo.

RESERVADO (Reservatet) 
| Trailer Legendado PT | Minissérie | Marie Bach Hansen | Excel Busano

Ao procurar respostas para o desaparecimento da au pair de uma vizinha, Cecilie desvenda segredos que abalam o mundo aparentemente perfeito do seu subúrbio abastado.

Elenco: Marie Bach Hansen, Excel Busano, Danica Curcic, Sara Fanta Traore, Simon Sears, Lars Ranthe, Lukas Zuperka, Frode Emil Bilde Rønsholt, Donna Levkovski, Henrik Prip



Desejo-vos um belo dia de domingo

quarta-feira, dezembro 28, 2022

O escândalo Alexandra Reis, carros liofilizados, nanobaterias e uma casa fantastique

 


Não sei o que me deu mas diria que continuo de ressaca. Mas, como nunca me embebedei ou droguei, em boa verdade não conheço pessoalmente os sintomas das ressacas pelo que não sei se estou a usar devidamente o conceito.

Creio que tempos de crises agudas simultâneas, incluindo um internamento hospitalar da minha mãe por mais de uma semana, abrangendo dois fins de semana, mais o stress de ver o tempo a passar sem tempo para fazer compras e com o Natal a aproximar-se, depois a maratona que foi, isto, ainda por cima, com vários dias a ter que acordar muito cedo (e, logo, a dormir muito pouco), tudo junto deve ter-me esgotado de tal maneira que agora, em que não tenho nenhuma dessas pressões em cima de mim e numa semana em que o trabalho está aligeirado, estou como estou, sem energia e com muito sono.

Há vários temas sobre os quais sei que poderia escrever mas sinto-me sem ânimo para tal. 

Há bocado vim para o sofá e tentei ver televisão. Não tive paciência. Virei para a Emily in Paris (na Netflix) apesar de achar que é daqueles néctares sem história, coloridos e açucarados. 

Passado um bocado, acordei e já o episódio ia no fim. Pensei que deveria pôr para trás mas também não o fiz. Quero cá saber.

Vou antes contar um sonho que sonhei no dia que passei às compras. Mas, antes, faço um enquadramento. Tenho um hábito (de que aqui já falei) que é, quando estaciono, mando uma mensagem a dizer o piso, a cor, a letra e o número. Isto porque tenho medo de me esquecer e, no meio de milhares de carros, nunca mais descobrir o meu. Depois vou com atenção para fixar a zona por onde subo, no parque, e o sítio onde saio, já dentro do centro comercial. Mas naquele dia, na parte da tarde, já cansada pela manhã e por ter ido a casa a correr para ir passear o cão, quando acabei as compras e quase não conseguia dar passo, tamanho o carrego, deu-me uma branca: não me lembrava onde tinha entrado no centro comercial. Pensei que se me enganasse, com tantos e tão pesados sacos, não teria força para andar no parque à procura da cor, da letra e do número. Mas depois lembrei-me que, ao entrar, tinha pensado que era melhor deixar os livros para o fim e isso deveria querer dizer que tinha entrado na zona da livraria. E foi. Felizmente.

Mas, talvez por isso, nessa noite sonhei que andava na rua, num lugar com ruas empedradas e íngremes, carregada de sacos pesadíssimos, quase incapaz de andar. E não encontrava o carro. De rua em rua, pousando os sacos, aflita, e sem descobrir o carro. Lembrava-me que o meu marido me tinha deixado à porta do centro comercial, dizendo-me que fosse andando, que ele estacionaria no sítio do costume. Mas ali andava eu, sem forças, dorida, espreitando todos os carros e... nada de carro.

Então tinha-lhe ligado, desesperada: 'Olha lá, ando aqui às voltas, que é que fizeste à porcaria do carro?'. E ele: 'Liofilizei-o'.  E eu, estupefacta: 'Tu o quê?'. E ele, confirmando: 'Liofilizei-o'. Eu, sem acção, exangue, exausta: 'Liofilizaste-o? Mas que estupidez é essa, caraças?'. E ele: 'É o futuro. Quando acaba de ser usado, recolhe-se todo, ficando um pequeno volume que se guarda num cacifo.' Eu perplexa: 'Mas e o depósito do combustível...? Não se pode recolher, dobrar...' Mas ele, seguro: 'Qual depósito de combustível? Agora usam-se cápsulas iguais às no café, nanotecnologia. Uma cápsula dá para um ano'.

Nos meus sonhos, quando chego a momentos críticos, acordo. E são sonhos tão vívidos que acordo com a sensação que a situação é real. Custou-me a adormecer, pensando que não seria mau que assim fosse, como ele tinha descrito. Tentava perceber como funcionava, tentava perceber a tecnologia da bateria ou do combustível numa cápsula. Nesse dia contei ao meu marido. Riu-se e depois concluiu o de sempre: 'És maluca'. 

Mas tenho andado a pensar nisso. Como é que o carro se dobra assim? E os bancos? E sendo tudo desdobrável, será que é confortável? 

E aquilo dos carros se moverem a partir de uma pequena cápsula? Fusão nuclear? Lítio? Hidrogénio? A partir do ar? 

E a estupidez é que volta e meia o sonho me vem à cabeça. Ele há coisas.

E, bem sei, não fará sentido eu estar a contar um sonho maluco mas, talvez porque é o que requer menos energia, é o que o meu cérebro hoje seleccionou para eu aqui escrever. Sorry. Isto há-de passar-me.

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Entretanto, para que alguma coisa se aproveite, partilho um vídeo em que se mostra uma casa fantástica, alegremente apresentada. Vejam pois tem espaços e objectos fantásticos.

Inside Karl Lagerfeld’s French Home Filled With Wonderful Objects | Vogue

In this episode of Objects of Affection, Lady Amanda Harlech takes Vogue on a tour through Karl Lagerfeld’s treasures ahead of a landmark Sotheby's auction. Watch as Amanda shows everything from Karl's beautiful royal blue upholstered Bruno Paul couch to his replica Adolph Menzel paintings.


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Entretanto, a tal Alexandra Reis da TAP foi demitida (ou forçada a demitir-se) e já não é Secretária de Estado. Não sei pormenores de todo este caso mas, desde o início, pareceu-me que, neste caso, não interessavam pois, sejam o que forem, são, aqui, isso mesmo: meros detalhes. Tudo parece escandaloso neste caso e as justificações, cá para mim, só apimentarão ainda mais o escândalo. 

O governo socialista não apenas não pode ter governantes que alinhem por bitolas deste calibre como deve esforçar-se por introduzir alguma moralidade na gestão e na política. As empresas públicas ou de gestão pública, e, muito mais, empresas intervencionadas, não podem ser geridas à mão larga como se fossem lucrativas empresas privadas. 

Seria interessante que a Assembleia da República tivesse um grupo pluripartidário que validasse alguns critérios e algumas práticas nas empresas públicas ou de gestão pública. E seria bom que António Costa exigisse um escrutínio mais apertado na fase de selecção dos membros do seu Governo e respectivos gabinetes.

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Uma boa quarta-feira
Saúde. Descanso e boa disposição. Paz.

sexta-feira, outubro 07, 2022

O bom médico

 

Algumas pessoas da minha família, umas de forma directa, outras de forma menos directa, trabalham na área da Saúde. Quando assim é, sabe-se de casos, sabe-se de situações. A medicina não é ciência exacta. Longe, longe disso. É técnica, é saber. É inteligência, em especial a forma mais aguda de inteligência: a intuição. Ver para além do que se vê, ver antes de ver, ver sem precisar de ver. E é ter criatividade. E ter coragem. E ter capacidade de arriscar. É ter sangue frio no momento em que mais dele se precisa.

Para um doente muitas vezes a sorte está em acertar com o médico. E, para o médico, muitas vezes o mais importante é ter sorte (isto dito por um deles, pelo mais experiente e intuitivo de todos): sorte em reparar no pormenor, sorte em pedir o exame certo no momento certo, sorte em conseguir conjugar os exames com uma observação dita casualmente pelo doente. Sorte.

Comecei no outro dia a ver na Netflix a série The Good Doctor. Como cheguei tarde à Netflix e como chego às coisas por acaso e não porque siga recomendações (presumo que as recomendações de séries apareçam nos Faces e Instas desta vida, coisa que, sabido é, não frequento), se calhar já toda a gente conhece esta série.

Seja. Nesse caso não estarei a dar novidade. Apenas o meu testemunho. Acho The Good Doctor das séries mais extraordinárias que tenho visto. Estou agarrada. Os meus posts têm sido mais pequenos pois começo a ver The Good Doctor e custa-me a parar. Volta e meia dou por mim a chorar. Outras a sorrir. Outras aflita. Outras a torcer para que corra bem.

Os argumentos são óptimos, os personagens óptimos, o desempenho e a realização óptimos.  Shaun Murphy, o interno de cirurgia, autista e savant, é um personagem extraordinário interpretado por Freddie Highmore, actor de quem nunca tinha ouvido falar e que é extraordinário.

Se já conhecem a série, concordarão certamente comigo. Se não, digo-vos: do melhor que há.


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domingo, junho 12, 2022

Um sábado com saborzinho a domingo


Dia bom, tranquilo. Tinha pedido para não me acordarem mas nasci para sofrer e esta de não me deixarem dormir é cruz que parece que nasceu pregada às minhas costas: às oito e picos já eu estava a ser incomodada com um barulho estranho aos pés da cama. Era o urso com um ténis do dono, balouçando-o pelos atacadores, fazendo um chinfrim. O meu marido tinha saído do quarto e deixado a porta aberta e, claro está, o abusador-mor não perde uma oportunidade para ver o que pode fazer  de interdito. Ainda tentei dormir mas já não deu.

Fomos às compras ao centro comercial. Não quis ir sozinha e, está bom de ver, tive que vencer uma grande resistência. Tudo lhe serviu de desculpa. A última agora é: 'Coitado do cão, tem que ficar sozinho'. Sim, sim. Mas lá veio. Centros comerciais para o meu marido é quase tortura e ir para um ao fim de semana para ele é sinónimo de bater no fundo. Mas com este calor, animou-o a perspectiva de toda a gente ter ido para a praia e aquilo estar deserto. Mal entrou no parque de estacionamento e o viu cheio, ficou logo com vontade de dar meia volta. Convenci-o a ir para um piso mais abaixo pois já sei do que a casa gasta: se tem que dar algumas voltas para descobrir um lugar, fica logo mal disposto e, a partir daí, a coisa tem tudo para correr mal ou seja, ainda não entrou e já está deserto para se vir embora..

Curiosamente, por sua alta recriação, lembrou-se de aproveitar a ocasião para comprar uns jeans. Aqueles com que mais anda estão velhos, largos, já sem ponta por onde se pegue. Por mais que eu lhe diga que vista outras calças, diz que se sente bem com eles. Lavam-se e vestem-se, lavam-se e vestem-se. Só ainda não se desfizeram porque a ganga deve ser de boa qualidade. Mas estão coçados que só visto. Não gosta de sentir a roupa justa pelo que não adere às modelos fit nem por mais uma. Na loja pegou numas, tradicionais na cor e no corte, foi ao provador e dali para a caixa. Não experimentou outros modelos nem outros tamanhos. Mas pronto, vá lá, aleluia, pelo menos comprou uns jeans.

É tão raro ir agora ao shopping que tenho sempre vontade de dar um giro a ver em que param as modas. Mas o meu marido é a antítese do consumidor ideal. O nosso propósito era um e não admite um milímetro de desvio. Claro que eu poderia ter ido à revelia mas como continuo em processo de rehab, também não insisto. Continuo a achar que não tenho falta de nada. 
[Contudo, no outro dia, por acaso cedi à tentação. Num dos dias em que fomos para o campo depois do trabalho, fomos buscar o jantar a um restaurante e, entre o escolhermos e o irmos buscar, demos uma volta por ali. E, então, vi uma loja de roupas gigante. Uma loja chinesa, como é bom de ver. Já passava das oito e eles abertos. Claro que o meu marido se passa 'Dizes que não tens falta de nada mas nem a um chinês resistes.' Não quis saber, fui dar uma circulada. E vi umas blusinhas bonitas e uns calções brancos a bom preço (uso imenso calções brancos e estou sempre a precisar, pois quero ter no campo e aqui em casa, e já se sabe que coisas brancas se sujam bastante; ou melhor, mal se sujam, nota-se logo). Uma das blusinhas, em florzinhas azuis, muito fresca e bonita, tinha umas cavas largas demais. Trouxe na mesma e pedi à minha mãe para ver se podia ajustar debaixo dos braços. Fartou-se de protestar. 'Mau corte, fazem tudo mal feito, descose-se para arranjar e depois é uma chatice porque as costuras e os pespontos parece que são feitos de outra maneira, é difícil bater certo'. Pedi que não complicasse, que cortasse e refizesse a costura. Diz que ela é que sabe, que não gosta de fazer 'albardices' e, que, se lhe peço para arranjar, é para ficar bem arranjado. Pronto, ok.]

Mas, tirando isso, é abstinência. Não preciso mesmo de mais nada. 

Mas a tentação ainda chama por mim. Por exemplo, a perfumaria. Olhei e vi um cartaz com promoções. A vontade de lá entrar e estar a experimentar perfumes só eu sei. Por acaso, numa das lojas, ao pagarmos, tinham testers de perfumes da marca da casa junto à caixa. Pulverizei um braço e um bocado do vestido apesar de ser perfume de homem. Foi mais forte que eu. Quando entrámos no carro, o meu marido admirou-se: 'A que é que cheira? Não me digas que puseste perfume?'. Pois foi. 

A seguir ao almoço, reclinei-me no sofá e pus-me a ver uma série na Netflix. Gosto de séries e filmes escandinavos. Chateia-me é ter que estar a ler as legendas porque não pesco uma palavra. Mas, enfim, é o que é. A verdade é que gosto bastante. Aqui não há muito tempo, num fim de semana, vi o Toscana. Agora estou a ver Dois Verões. Não há cenas às escuras em que a gente não vê metade, não há tiros nem perseguições, não há macacadas parvas. Há luz, boas interpretações, histórias simples mas bem urdidas. É do que ando precisada. Não me apetece puxar pela cabeça nem pela visão.

De tarde, tivemos cá meia trupe, como sempre bem dispostos e ruidosos. A outra metade andava pelos santos, a petiscar e a flanar. Íamos recebendo fotografias deles, verdadeiros turistas, ora de trotineta ora nos comes. Lisboa sempre bela e animada, acolhedora para quem a quiser viver.

Às tantas, por cá, eu estava a fazer uma coisa que o meu dog guard deve ter interpretado como se eu me estivesse a colocar em risco. Então, tentou impedir-me. Tentou agarrar-me, encavalitou-se em mim a bater castanholas com os dentes, coisa que eu acho que ele usa como manobra intimidatória. Eu dizia-lhe: 'Que estupidez é essa? Aiii!!!! Quieto!!!!' coisa que agora já costuma resultar mas que, no caso, não surtiu efeito. Então, nesta manobra, cheguei-me para trás sem ver que um dos meninos estava atrás de mim. Ou seja, caí por cima dele. Levantámo-nos todos a rir com o moche que a avozinha fez ao netinho. Claro que, com todos estes reboliços, a pequena fera fica meio desatinada. 

Nestas alturas, o meu marido retira-se. Creio que vem deitar-se no sofá da sala, não sei se a ver futebol se a dormitar. Hoje, o mais velho, quando se estava a despedir, disse que o avô tem cenário ou que tem estilo, qualquer coisa do género. Ficou admirado. O mais novo confirmou, pelos vistos também acha. Sendo de poucas palavras e zero gestos de carinho, a verdade é que os netos gostam mesmo dele. Achei graça. 

Jantámos na rua. Não tive que fazer nada, apenas compor uma salada. Foram os restos da churrascada da véspera. O terraço com o jasmim e as buganvílias em flor, a noite quente de um dia grande, o lusco-fusco já com as luzinhas solares, fica um cantinho acolhedor. Gosto de luzinhas, grinaldas com luzinhas. Arranjei umas bolas brancas muito simples. Fica bonito. 

E, pronto, nada mais a reportar. Não vi televisão, não sei de notícias, não li, não fotografei, não cozinhei. Por isso, hoje não passa disto, cenas desta minha simples vidinha.


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Numa tentativa de vos oferecer qualquer coisa para que a passagem por aqui não seja completamente dada por perdida, eis um vídeo em que um assistente de bordo ilustra as instruções de segurança a bordo de forma assaz criativa e bem disposta. 


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Pinturas de Alma Thomas ao som de Água de Beber, de António Carlos Jobim, pelo Stringspace

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Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Ânimo. Paz

segunda-feira, fevereiro 14, 2022

Reencontro pós-covid e Inventing Anna

 


O sábado foi preenchido. Com os covides recuperados, juntámo-nos cá em casa para um brunch. Uma alegria. Os meninos felizes por voltarem a estar reunidos e eu talvez ainda mais por tê-los cá todos, de boa saúde, bem dispostos. 

Em casa do meu filho, o bicho varreu-os a todos. Em casa da minha filha apenas um dos meninos teve, apesar de não se encontrar explicação para os outros não terem apanhado, em especial o irmão que andou agarrado e em cima e em baixo dele, já ele estava sintomático. E o bizarro é que, a seguir, esteve engripadíssimo, todo apanhado, parecia que a covid lhe estava a dar com mais força que ao irmão. Contudo, para pena dele, todos os testes lhe deram negativo.

Já em casa do meu filho, numa das vezes, tendo a menina mais linda testado positivo, ao ligar-lhes, apareceu-me ao telefone o mais pequeno, em festa, cantarolando: 'A mana tem covid...! A mana tem covid....!'. Dias depois era ele: 'Estou com covid..! Estou com covid...!'.

Mas pronto, felizmente nada de grave e agora, pelo menos durante algum tempo, estão livres de maçadas.

Portanto, cá estivemos. Como é bom de ver, havendo um outro convalescente, a festa foi também com ele. Para alegria de todos, o nosso urso felpudo partilhou também do mimo colectivo. Nos dois dias de internamento perdeu para aí um quilo e meio. Impressionante. Não sei como é possível mas sei que aconteceu. Nestes dias cá em casa, em que dormiu como uma pequena lontra, já os recuperou e até parece que cresceu.

Depois, a meio da tarde, um dos meninos tinha um jogo e fomos todos vê-lo. Uma alegria para o menino ter tanta família na bancada a aplaudi-lo. Todos menos o avô que ficou em casa com o dog cabeludo. 

Depois do jogo fomos para casa do meu filho, onde o avô se juntou com a pequena fera. Aliás, quando ouviram bater à porta, dois deles exclamaram, numa alegria, que o urso peludo tinha chegado. Não o avô. O cão. Achei um piadão. Ainda não contei ao meu marido, primeiro porque não me lembrei, segundo porque não sei se vai achar a mesma piada.

Portanto, o sábado correu assim, em família, observando o afecto que une os meninos, a alegria por estarmos juntos. A vida, aos poucos, voltando à normalidade.

Nesse dia, depois de almoço, aceitei um café, esquecida que, quando bebo café sem ser de manhã, fico com o sono comprometido. De tarde, em sua casa, a minha nora também preparou um chá saboroso mas que, na volta, também tinha alguma cafeína. Portanto, de noite, estava com uma daquelas espertinas para as quais não há explicação. Só já de madrugada me lembrei a que se devia tal insónia.

Portanto, de manhã, quando tocou o despertador estava ainda no primeiro sono.

No domingo de manhã fomos buscar a minha mãe para a caminhada à beira mar. Como sempre, a festa é mútua: ela e o bicho felpudo têm um amor mútuo exuberante. Ele salta, ela abraça-o, ele encosta-se a ela, ela puxa-o para si. No entanto, estava frio e vento ali à beira-mar, desagradável. 

Já em casa dela, fui resgatar um mail que ela, sem querer, tinha movido para o arquivo e, portanto, não encontrava. Eram trabalhos de casa de inglês, coisa que leva totalmente a sério.

O domingo à tarde foi em casa, só nós. Tinha pensado que ia aproveitar para dormir mas comecei a ver o Inventing Anna e fui ficando agarrada. Já conhecia a história real de Anna Sorokin que tinha achado incrível, fruto dos tempos de ilusão que atravessamos. 

As redes sociais e a ficção que se engendra em torno de quem gosta de se mostrar em locais que invariavelmente serão descritos como fantásticos -- sejam paisagens que se dirão do outro mundo sejam restaurantes que despertarão a gula e a inveja alheia -- são o caldo perfeito em que podem medrar histórias que não lembram ao careca (e, como é sabido, nada contra os carecas). 

Pode uma vida ser descrita através da auto-reportagem que dela se vai fazendo, mostrando-se com amigos, mostrando toilettes, mostrando sorrisos, pôres-do-sol, recolhendo corações, likes, dedinhos de aprovação, palavras reduzidas a metade..? Diria eu que quanto muito reflecte as andanças dos avatares que tomaram o lugar das pessoas de verdade. Ou que ajudam a forjar identidades de estrelas que a qualquer momento se irão despenhar. Mas isso sou eu que estou fora deste mundo.

Bem sei que as redes sociais estão cheias de pessoas que acabam por fazer a vida ganhando gorjetas, borlas, recebendo as compras do supermercado, roupas, cremes, dinheiro, e tudo apenas por publicitarem essas marcas nas suas stories, vídeos, fotografias. Algumas, segundo me dizem, acabam por viver bastante bem, só com isso. Fogo fátuo, forçosamete.

Anna Sorokin mais não é do que um fruto extremados destes tempos. Junte-se a isto a superficialidade de quem se convence que se é apenas porque se aparece ou que se é rico apenas porque se é visto ao pé dos ricos, ou a ganância e a futilidade de quem aceita tudo acefalamente por pensar que pode partilhar os lucros de uma galinha dos ovos de ouro, e aí temos como uma jovem sem um tostão conseguiu enganar meio mundo, receber empréstimos de bancos que acreditavam que era uma herdeira rica, frequentar restaurantes e hotéis caríssimos, fretar aviões e tudo o que lhe ocorresse. 

A série da Netflix espelha isso muito bem. Isso e o bluff que tantas vezes está associado ao delírio dos unicórnios, essas startups que, não sendo nada, valem milhões. A personagem do namorado dela, Chase Sikorski, representa bem a estupidez e a cegueira colectivas que frequentemente envolve a angariação de fundos para reforçar capitais de projectos que não passam de mãos cheias de nada.

Mas, então, dizia eu, pus-me a ver a série e, com esta minha pulsão para o excesso, fui vendo de seguida, episódio após episódio. Até que a pequena fera acordou da sua sesta e veio para o pé de mim. Até aí tudo bem. Só que, ao fim de dois minutos de bom comportamento, logo quis brincar comigo, pondo a pata em cima do computador, puxando-me a meia, tentando arrancar a franja do tapete, indo buscar uma almofada para tentar arrancar uns bordados que lá tem, etc. Ou seja, impossível estar quieta. 

Ouvindo-me a zangar com ele, o meu marido resolveu intervir, dizendo que o melhor seria irmos dar um passeio com ele.

Fomos. Caía uma chuvinha de nada, coisa que nem atenua a seca nem deixa secar a roupa estendida. Daquelas coisas de que se diz que não coisa nem sai de cima. Resumindo: chegámos a casa de noite, todos molhados. Escuso de dizer que limpar o urso é um desafio: quer roubar-me a toalha, puxa-a, quer fugir com ela, brinca e desafia-me ele, saltando para cima do sofá ainda molhado, depois saltando para o chão. Parece que ri enquanto faz isso.

Com tudo isto, foi já depois de jantar e aqui sentada que me deu a pancada: adormeci. Não durou muito pelo que estou aqui que não me aguento, naquelas noites em que o sono me envolve, me baixa as pálpebras, quase me vence. Ou seja, um fim de semana dos bons mas curto demais pois agora é que eu estava capaz de entrar em fim-de-semana. 

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Fotografias de  Daniel Holfeld ao som de YEИDRY x Lous and the Yakuza - Mascarade | A colors show 

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

Boa sorte. Boa saúde. Tudo a correr pelo melhor

segunda-feira, novembro 29, 2021

Kate Middleton, Letizia de Espanha, Ursula von der Leyen -
- feridas, com hematomas, desfiguradas, vítimas de violência conjugal

 


É tema que já aqui veio várias vezes. É daqueles que receio sempre não saber abordar por não ser capaz sequer de imaginar o que é uma mulher viver sempre amedrontada na sua própria casa tendo que conviver com um homem que a mantém em permanente estado de alerta, sempre com medo de lhe provocar alguma reação que o deixe zangado, sempre com receio de que, a partir de uma qualquer insignificância, se gere uma situação de violência, seja ela física seja psicológica.

O que será viver sempre no fio da navalha, sempre com medo de uma agressão? Sempre com receio de que os filhos testemunhem uma situação que forçosamente os marcará, Receio de que alguém testemunhe a humilhação a que está sujeita. Receio pela própria integridade física. Receio pela integridade dos próprios filhos. Receio de não aguentar. Receio de não ser capaz de escapar. Receio. Receio e vergonha. Vergonha de assumir a situação, vergonha de que os outros tenham pena, vergonha.

O que será viver assim? Como se consegue viver assim? Como se consegue sobreviver assim, debaixo de uma ansiedade escondida, de um permanente terror?

Nem imagino o que será o carrossel emocional de viver com um homem que ora se faz de infeliz, que arranja desculpas para as suas reacções, que ainda quer receber apoio e comiseração por parte da sua vítima, que pede desculpas e até chora e que, dias depois, por um nada, se vira do avesso, amua sabe-se lá porquê, amua e não diz porque está amuado, um homem que desconfia de tudo, que se vitimiza, que tem ciúmes de tudo e de todos, que inventa pretextos para violentar e agredir aquela a quem dias antes jurou amar para sempre. Nem imagino.

Nem imagino como se consegue tentar ganhar coragem para denunciar a situação sabendo que ele pode vingar-se, pode fazer mal aos filhos, pode fazer chantagem, pode fazer-lhe ainda pior se souber, pode agredi-la ainda mais ao sentir-se acossado. Nem imagino a coragem que é preciso ter quando ele não quer sair de casa e ela não tem para onde ir. 

Nem imagino como se consegue suportar a proximidade física de alguém de quem se teme que um dia lhe cause uma dor irreversível, fracturas, ferimentos, denunciadores hematomas, de alguém que quem se teme que seja capaz de lhe tirar a própria vida. Como se suporta partilhar a intimidade com alguém que deveria estar preso?

Como se consegue dormir e continuar a trabalhar, fingindo que se leva uma vida normal, quando a angústia é uma garra que aperta o coração e destrói a alma?

Como se consegue sobreviver quando já se ultrapassaram mil barreiras psicológicas e já se denunciou a situação e, no entanto, ninguém levou a sério nem tomou as devidas providências?

Como se consegue arranjar coragem para continuar a descobrir forças para proteger os filhos e a família, para que não sofram, para que não vivam aterrorizados? Como se consegue?

E como se consegue continuar a ter esperança quando há polícias que não agem rapidamente e juízes que desculpabilizam os agressores e ainda fazem recair sobre as mulheres-vítimas parte da responsabilidade pela violência? 

O que devemos fazer para, como sociedade, não aceitarmos mais situações testas? O que devemos fazer para criar condições para que qualquer mulher que tenha sido ou receie ser agredida saiba como agir para viver em paz e sossego, livre de ameaças e maus tratos?

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As fotografias foram editadas por Alexsandro Palombo, ao que parece sem ter pedido autorização às respectivas figuras públicas. No entanto, estou em crer que não se importarão. Kate Middleton, Ursula von der Leyen, Letizia, Kamala Harris, Christine Lagarde e outras aparecem em nome de tantas mulheres anónimas de quem só se ouve falar quando são assassinadas pelos companheiros.

Esta série, 'She reported him,' não é a primeira. Já antes tinha feito uma idêntica cujas fotografias foram afixadas nas ruas para denunciar a indiferença com que deixamos que estes crimes continuem a acontecer entre portas. Angela Merkel, Brigitte Macron e outras apareciam igualmente com os rostos desfigurados. 

Todos os anos várias mulheres morrem às mãos dos seus algozes. Mas as que morrem são os casos limites. Por cada mulher que morre, muitas outras sofrem em silêncio, escondendo as agressões, disfarçando os hematomas, sorrindo como se não fosse nada, apenas uma queda sem importância..

Nesta campanha Alessandro tenta chamar a atenção para que não basta incentivar as mulheres a denunciar a situação: há que garantir que o Estado as consegue proteger, amparar, dar-lhes sustento enquanto viverem sob resguardo.

Para quem esteja interessado, poderá ver o artigo no qual tomei conhecimento desta campanha: Kate Middleton défigurée par des hématomes, l’image choc d’une campagne contre les violences conjugales

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Agora que falo nisto, a quem subscreva a Netflix quero sugerir a Maid. É daquelas séries que quem vê nunca esquecerá.

É uma série curta e excepcional baseada em situações reais vividas pela autora do livro sobre o qual se fez a série. Não é uma série negra, não é escancaradamente dramática. É contida, é terna, transporta esperança e mostra como a coragem é uma coisa cheia de riscos e retrocessos mas na qual brilha, ao fundo, uma luzinha que indica o caminho de saída. 

E Margaret Qualley, como Alex, a jovem mãe que foge a um companheiro violento e com problemas de alcoolismo e que, para sobreviver e pagar o seu sustento e o da filha, suporta, com brio, todas as vicissitudes de um trabalho exigente e mal pago, é verdadeiramente excepcional. 

Maid

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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Sorte. Boa disposição.

segunda-feira, novembro 15, 2021

Sob o Sol e Move me - dois filmes da Netflix que dão gosto ver

 


De vez em quando esqueço-me ou não tenho tempo. Passam-se tempos sem frequentar. Por isso, ainda não atinei com algumas coisas que devem ser básicas para toda a gente.

E depois aborreço-me, desisto. As coisas deveriam ser simples, intuitivas. Não deveria haver inteligência numa caixa ou numa estante. Se eu quero ir à procura de uma coisa deveria ser capaz de encontrá-la.

Mas não. O que vi, deixa de estar visível. Se quero procurar os filmes que já vi, não consigo. 

Se não me lembro minimamente do nome nem sei o nome dos actores ou realizadores então é que estou no mato.

Gostava que me aparecesse um separador a dizer 'já vistos'. Mas não descubro. 

Vou interromper para ver se consigo descobrir o que quero, para vos dizer. Daqui por uns anos, talvez não muito, ou consigo ir acompanhando o maravilhoso mundo das apps e da forma como nelas navegar ou ficarei isolada. Não é uma boa perspectiva.

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Bem. Já descobri. É que vi um filme na Netflix de que gostei bastante e não apenas queria recomendá-lo como queria falar de um outro de que também gostei. O de hoje, mal fora, ainda sei o nome. Agora o do outro dia não tinha nem ideia. Tive que googlar para ver como pesquisar filmes ou séries já vistas. Não é directo. Consigo ver a minha actividade mas apenas me aparece o nome do que vi. Tive que ir clicando até acertar com o que queria. E agora também não consigo encontrar no youtube o respectivo trailer. E não sei se na Netflix há maneira de obter o trailer para partilhar. Chatice.

Nada disto é simples.

Mas o que eu gostava de dizer é que não ando muito numa de grandes dramas, pesados sofrimentos (por exemplo, a série Maid, com uma incrível Margaret Qualley no papel principal, é extraordinária mas deixa um rasto de desgraça, um travo a infortúnio, esmaga-nos a muita luta e muita dor por que Alex passou para conseguir tirar o pé da lama), não ando numa de ambientes negros, muita sombra e pouca luz.  

Não: procura justamente o oposto. Nos espaços livres ao fim de semana, como praticamente desisti de ver televisão, entretenho-me com a Netflix. Mas carrego em várias opções até conseguir fixar-me. Muita palhaçada, muita frivolidade, ou, pelo contrário, muita coisa às escuras.

Hoje acertei. Vi Sob o sol e gostei imenso. É um filme sueco. É daquelas que não pesco uma pelo que tenho que, forçosamente, ler as legendas. É um filme luminoso, tranquilo, terno, romântico, simples. Mas que prende. Na sua simplicidade, é um filme com uma luz que me prendeu do princípio ao fim. E os personagens principais, Olaf na sua candura e Ellen na sua misteriosa sofisticação, levam-nos pela mão até à última cena.

O outro filme, creio que dinamarquês, é Move me. Também simples. Despretensioso. Mas muito directo, muito espontâneo, muito agradável, muito bom de se ver. Não há subententidos, não há rancores, escuridões. Há uma mulher que parte para outra. Não sem dificuldades, hesitações, percalços. Mas com simplicidade e uma energia muito positiva. A gente vê o filme e fica na boa.

Não serão filmes de agora mas, diria, são histórias intemporais. Não sou entendida, sou apenas apreciadora. Por isso, não levem a mal a superficialidade da apreciação. 

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Outra coisa chata na Netflix é que, se quiser encontrar a banda sonora dos filmes, também não é directo. Gostava de aqui colocar alguma das músicas de algum destes filmes mas, de forma linear, também ainda lá não cheguei.

Portanto, terá que ficar 'Here comes the sun' na interpretação do prodigioso Jacob Collier para acompanhar esta pintura solar de Van Gogh.

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

Tudo de bom. Dias felizes.

quinta-feira, setembro 02, 2021

Peace in heaven

 


Já vimos os quatro episódios na nova temporada da Grace & Frankie. Já vi todos os episódios de 'A Directora' (estes só eu é que vi) e voltámos a The Crown. 

E voltámos às arrumações, ele à estante da tralha dele na despensa e eu ao apartamento. No meu caso, foi mais limpezas: varri, lavei, afastei móveis e sofás. Há um detergente branco com cheiro a sabão de que gosto bastante e que deixa no ar um perfume a casa lavada.

E fiz uma máquina de roupa que foi estendida como gosto: nas cordas que pusemos entre os pinheiros. Dá-lhe o ventinho e seca num instante, até parece que foi passada a ferro.

E deu-me uma ideia. Era para estofar duas bergères, talvez pintar-lhes as madeiras de branco envelhecido. Como estão, em madeira escura e com veludo cor de tijolo, não apenas têm um aspecto datado como, ali, no actual contexto, ficam com um ar pesado. A sala agora está leve e aquelas bergères destoam. E não seria barato modificá-las. Aliás, ainda não arranjei quem me fizesse sequer o orçamento. Pois, neste meu ímpeto transformador, levei-as para a salinha que fica na base da zona antiga da casa. Estão lá reunidos vários despojos e parece haver alguma unidade e harmonia naquela misturada. Ou seja, ficam bem ali. E a ver se arranjo agora umas mais actuais, mais leves, mais claras e mais confortáveis para colocar perto da lareira. 

Quando vejo a minha casa agora tão clara e luminosa com as portas, janelas e rodapés, tudo em branco, e a decoração mais leve, sinto-me tão bem. Parece que a casa traz alma nova a quem nela está. A mim deixa-me feliz. 

Vou vendo, de vez em quando, os mails do trabalho. Retirei as notificações no telemóvel. Assim, só vou ver quando me apetece e isso está a trazer-me uma paz de espírito considerável.

O dia esteve incerto e, de tarde, enquanto víamos a sonsa e cumpridora Lilibet a esfriar os ânimos à fogosa irmã e a ir na cantiga do enervante e eficiente Tommy, trovejava. Era aquele trovejar contínuo e distante que faz boa companhia e que faz desejar um chá quentinho e uma tarde à beira da lareira. Apenas choveu ao de leve e foi pena pois uma chuva forte viria a calhar. As terras estão secas.

Uma figueira grande, lá em baixo, morreu. Se calhar é normal. A vida, nas suas diversas formas, é finita. Era tão grande e tão vigorosa e, não sei como, este ano não nasceram as folhas e ficou com o tronco escuro e sem vida. Felizmente tenho muitas fotografias com ela. Assim, a sua existência poderá ser lembrada. O meu marido cortou-a. Se fosse há uns tempos, teria ficado doente de desgosto. Agora já vou aprendendo que, na natureza, é mesmo assim: morrem umas árvores ou umas pessoas e nascem outras. Não haveria espaço neste mundo para novas vidas se as antigas não lhe cedessem espaço e vez. 

Por exemplo, vejo pés de pinheiro a despontar por aqui e por ali. Há um viço intrínseco na terra, uma vontade de renovação. Não sei se os arranque ou se deixe ver no que vai dar. Por segurança, devemos obrigá-los a um distanciamento mínimo mas vou deixando andar. Não quero forçar ou condicionar o rumo dos acontecimentos.

Hoje, quando estava a andar, de dentro de um arbusto baixo, ouvi o som de um salto, um roçagar assustado de folhagem, uma corrida precipitada. E, no entanto, não consegui ver nada. Não faço ideia do que teria sido. Grande parte do que acontece é invisível. Tal como nas nossas vidas, parte do que há neste mundo está oculto, apenas percebido por quem se abeira de bem perto e com vagar suficiente para deixar que o mistério, a seu tempo, se materialize. 

Reparei também que as três grandes águias voltaram a sobrevoar o terreno lá em baixo, perto dos eucaliptos grandes. Andam lá muito no alto, voam em círculo. Tentei fotografá-las mas não consegui. São rápidas demais. Há vários anos que, de quando em vez, esta coreografia tem lugar. Não sei onde andam quando não andam a voar ali. Podem passar-se dias ou semanas ou meses sem que as veja. Quando as vejo é como se recebesse o atestado de que estou onde pertenço: aqui, in heaven.

Ah, já me esquecia. Estive também a embalar os orégãos deste ano. Há um mês e tal, talvez mais, já nem sei, apanhei braçadas deles. Depois abri um lençol (lavado, bem entendido!) sobre um sofá cama aberto no estúdio e coloquei lá os ramos de orégãos. Há nessa sala uma entrada de luz através de uma fiada de mosaicos de vidro. Portanto, a sala tem sempre luz indirecta, óptima para secar os orégãos.

Hoje trouxe o lençol para cima da mesa aberta da sala de jantar. Com o pano do lençol esfreguei os pequenos ramos uns contra os outros a fim de que as folhinhas se desprendessem. Depois, sempre em cima do lençol, fui limpando pontinhas secas, os pequenos pauzinhos secos que sustinham as flores e as folhinhas. Pensei que é isso que devem fazer os trabalhadores temporários que acondicionam as aromáticas. Um trabalho de paciência e atenção. A sala ficou perfumada de dar gosto, um perfume mediterrânico que tem dentro o sol e o amor pela terra.

Tinha vários frascos que fui guardando ao longo do ano ou de espargos ou de doce ou de mel. Enchi vários, de vários tamanhos. Somos grande consumidores de orégãos. E ofereço alguns com o prazer de quem oferece preciosidades. 

No estúdio, em cima da mesa da kitchnette, há um pequeno regador de metal pintado de amarelo onde estavam uns pés de alfazema já seco, quase sem cheiro. Deitei-os fora. Apanhei pés novos, com o perfume ainda bem activo. Juntei uns pequenos rebentos ladrões de laranjeira que têm um forte e fresco odor cítrico que muito me agrada. Juntei ainda um ramo de loureiro. Penso que o bouquet vai trazerr um perfume bom àquele compartimento.

Há tempos li sobre uma forma de fazer um perfume ambiente a partir de produtos naturais. Quero ver se encontro. Sou muito sensível a perfumes. Gosto de aromas frescos, limpos. Se conseguir ter a casa sempre com um perfume agradável a partir das plantas de cá melhor. 

Depois passei pela pereira e reparei que tinha umas quantas peras. Uma comi-a logo ali. Doce. Se não fosse pelo açúcar, poderia alimentar-me quase só de fruta. Figos pingo de mel, uvas dulcíssimas, moscatéis, peras macias, boas. A vida simples é uma coisa boa.

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As fotografias são algumas das melhores de The 2021 Comedy Wildlife Photography Awards

Bob Marley interpreta She used to call me Dada

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Desejo-vos um dia feliz

Tudo de bom: saúde, alegria, motivação

sábado, julho 17, 2021

Quando me tiram as palavras da boca

 



Acabámos de trabalhar a horas, concretamente por volta das seis da tarde. Uma coisa tão única que parecia que estávamos a entrar de férias. Cedendo à sugestão da minha filha, desafiei-o para irmos até à praia. 

Fomos.

Muita gente e tanto mais quanto a maré estava quase cheia. Ainda assim caminhámos, depois ele deu um mergulho. Eu, como tinha guardado a máscara no soutien do fato de banho, tive essa desculpa para não mergulhar também. Ainda assim, andei dentro de água a apanhar com as ondas, mas de pé, virando-me de costas quando receava que me cobrissem até ao pescoço e estragassem a máscara. Estava boa a água. Tive pena de não ter ousado. Lá dentro parecia frescota mas, mal saía, pensava que estava boa e voltava a entrar; mas debalde. Deve ser a isto que há quem chame mixed feelings.

Como nos tínhamos esquecido de levar toalha ou whatever, estendi o vestido na areia e sentei-me em cima. Ter-me-ia apetecido deitar e ficar a sentir o sol macio do fim da tarde e a ouvir o mar mas o vestido não dava pano para tanto.

Vi uma jovem que não fazia outra coisa senão fazer selfies com o namorado. Fazia poses, fazia caras, trejeitos, arrebitava-se, dobrava a perna, atirava a cabeça para trás. Chamei a atenção do meu marido, interrogando-me sobre o que levaria o jovem namorado a prestar-se àquela absurda sessão fotográfica. Interiormente, pensei que talvez fosse amor. Mas um amor que assenta em cima do narcisismo de um dos membros do casal é coisa de perna curta, não vai a lado nenhum. A seguir, pensei  que tal como há quem, em namoros, sofra de violência física há, certamente, quem sofra de violência psicológica. Aturar uma pessoa narcisista deve ser do pior que existe. 

Eu acho que não aguentaria, às tantas andaria a atirar sucessivos copos de água por cima da cabeça do narcisista. E se a água normal não fizesse o narcisista pegar na trouxa e desamparar de vez, partiria para copos de água de cozer corvina para os deixar malcheirosos, quiçá até lhe juntasse uma pinguinha de azeite para não ficarem apenas a feder a pexum mas ficarem, também, completamente untuosos.

Adiante.


Contudo, qualquer coisa de inspirador aquela sessão deve ter tido porque me pus à frente do meu namorado e disse: vamos também fazer uma selfie. Ele empinou-se, fez corpo. Deu-me logo vontade de rir. Pedi para se pôr normal para não estragar a fotografia. E, antes que me desse daquelas imparáveis vontades de rir, carreguei no botão. 

E coloquei no grupo da família do whatsapp, dizendo que também sabíamos fazer selfies. 

Como não tinham assistido à macacada que aqueles dois para ali estavam a fazer à beira-mar -- certamente dezenas de selfies, se calhar até faziam vídeos, quiçá para publicar uma story no insta -- não devem ter percebido o porquê da legenda. 

Agora uma coisa é certa: parece que acabou a covid. A malta já não está nem aí. Montes de grupos de jovens, grupos de amigas, grupos de casais, notoriamente mistura de vários agregados familiares. Claro que máscara zero o que não seria grave já que estão ao ar livre. A questão é que estão encostados, deitados ou sentados muito juntos, virados uns para os outros, tudo no maior chill out, desfrutando o belo sunset. Sem qualquer cuidado. Dir-se-ia que não há nem nunca houve covid. Só espero é que a versão delta ou gama ou lambda ou o escambau não seja da qualidade de ficar tinhosamente em suspensão durante o tempo suficiente para ficarem todos infectados, caso algum deles o esteja.

Vim impressionada com o descaso que observei. 

Mas, vá, é tempo de férias pelo que corações ao alto.

Depois, resolvemos ir e eu, que estava com a ideia de que já estava em férias, disse que boa, boa, era se fossemos comprar caracóis. Ele disse que sim. Como ele é alérgico a caracóis, sugeri que comprássemos também gambas para ele, coisa a que eu sou alérgica. Não quis, disse que comia o resto das costeletas. Disse que então não valia a pena ir comprar caracóis, até porque teríamos que fazer um desvio. Insistiu.

Portanto, o meu jantar foi um prato de caracóis. Depois comi um pêssego e uma fatia de queijo. Ou melhor: duas. Melhor: três. Perco-me: uma fatia de pêssego fresquinho com uma fatiazinha de queijo da serra é um petisco de detrás da orelha. A seguir, comi um quadrado de chocolate preto com figo, uma maravilha que a minha filha me ofereceu.

A seguir começámos a ver Gambito de Dama

Yes, Mr. Anónimo do Baldinho, fiz-lhe a vontade. Não estávamos numa de The Crown e, tem razão, Cold Water Man, o Virgin River é capaz de ser uma pepineira (mas acho que ainda vou ter que confirmar, ainda tenho esperança que aconteça ali um twist que vire a mesa e mostre que a chazada do início é só para despistar). Então, The Queen's Gambit. E foram três episódios de seguida. Viciante. Dou-lhe razão.

O meu filho ligou quando estávamos a ver. Tinha sido também uma sua fortíssima recomendação. Perguntou se não estávamos a ver The Crown. Confirmei. Disse-me que o conceito das séries não costuma ser andar a intercalar episódios de séries diferentes mas que, pronto, está bem. 

Já disse ao meu marido que, se calhar, podemos ver estas coisas no computador e levá-lo para o jardim. Não percebeu, diz que na sala a ver na televisão estamos melhor. Expliquei que é para não estarmos fechados em casa, assim teríamos o melhor dos mundos, estaríamos ao ar livre e a ver séries. Isto durante o dia, bem entendido. Acho que não ficou convencido.

Agora foi-se deitar. Diz que amanhã há mais.

E haverá.

Tenho ainda a reportar um outro evento. As minhas orquídeas, que não têm nome nem pensamentos de gente, tinham largado as pétalas. Fiquei na dúvida se estavam a caminho de se finar ou se estavam simplesmente numa de mudar de visual. Mas deixei-as ficar à janela e fui regando. Eis senão quando vejo que estão a rebentar uns little botões e, hoje, que as flores começam a dar as caras. Estou contente. Há coisas que quase parecem milagres. Mas, se calhar, não é milagre, se calhar é normal. A menos que, em vez de cor-de-rosa, me apareçam amarelas. Isso é que era bom, milagre para ninguém botar defeito.

Gostava também de falar de Léa Seydoux, actriz que muito admiro e que, ao que parece, está em quatro filmes em Cannes e que, tendo testado positivo, não poderá esta presente. 

Mas o adiantado da hora faz-me protelar a intenção. Já vão sendo horas de me recolher aos meus aposentos.

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As borboletas são obra de Salvador Dali e sobre a escolha destas imagens para enfeitarem este texto e sobre a escolha do título do post, a Wendy McNeill tirou-me as palavras da boca: Ask Me No Questions

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Bem, para que isto tenha um toque de quelque chose, partilho um vídeo que me diz também quelque chose:


"Ela escreveu o que eu sinto" | Clarice Lispector e Maria Bethânia


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Um belo sábado!

quarta-feira, julho 14, 2021

Agarrada

 



Isto está bonito... Arranjam-me cada uma. Andava eu tão indiferente aos streamings desta vida e fui cair nesta armadilha. 

Há bocado, convenci o meu marido a ver mais um episódio do Virgin River. Não estava afim. Coisa a atirar para o melodramático não faz o seu género. Disse-lhe que não, que aquilo deve ter para ali algum twist, que às tantas aquilo é capaz de não ser o que parece, uma cena tipo Twin Peaks, os mistérios a estalarem de debaixo das pedras. Não liga a argumentos mas, às tantas, também não tem paciência para os meus argumentos. Encolheu os ombros naquela base pronto, se queres. põe lá isso. Contudo, foi convencimento de pouca dura. Vimos até ao fim do episódio e desistiu.

Achei que deveríamos, então, render-nos às evidências. Vamos ver The Crown? Hesitou. Aproveitei o momento de hesitação, e cliquei. 

Gostámos. Papámos o primeiro episódio e fomo-nos para o segundo. Ele ainda olhou para o relógio. Em condições normais, já estaria a dormir. Mas aguentou firme e fomos até ao fim do segundo. E são longos, caraças.

Parámos agora, já passa da meia-noite. E ainda tenho o House para ver. A minha vida vai-se complicando. Deveria fazer opções: ou a netflix ou o house ou o blog. Como sou dada a exageros, fico com tudo e, portanto, dá para tarde o que, convenhamos, vai contra todas as recomendações clínicas. Só tenho coisas que me ralem... (e ponham lols e ehehehe nestas ralações)

A malta do baldinho de água fria bem pode vir para aqui despejar-mos na cabeça dizendo-me que o que está a dar são séries coreanas e que Emily in Paris, quiçá The Crown e quejandos é tudo tralha do passado. Que seja. Cheguei atrasada, so what? De vez em quando apetece-me duvidar do caminho da estrada por onde segue a multidão e deixo-me ficar por caminhos laterais, perdida em deambulações, ouvindo a conversa das árvores e o canto dos pássaros, contemplando a arte das flores pintadas por deuses invisíveis.

Até que, depois de mil vezes desafiada, decido espreitar e... claro... verifico o óbvio: é casa de mil tentações. E, se bem intuo, durante os próximos tempos irei banquetear-me com a fartura que por aqui há até que as coreanas estejam fora de moda, quiçá até as vietnamitas que se lhe seguirão ou mesmo as mexicanas que virão a seguir.

Na volta, sou avant garde coisa nenhuma, sou é antiquada, old school. E é isto que este mundo e esta vida têm de extraordinário: não há idade para a gente descobrir coisas, para se apaixonar por novas ideias (ou por novas pessoas). Agora que, na volta, deveria era já estar a fazer palavras cruzadas e sudokus para manter a cabecinha em ordem, estou numa é de experimentar o que por aí estiver a dar. E ainda vos ei-de contar de mais outra que me ofereceram, por sinal também o meu filho. Tão despassarada e ignorante que sou, quando vi fui cheirar, parecia-me um sabonete. Afinal... está bem, está, uma coisa toda high tech. Mas conto outro dia pois é outro mundo novo que se me está a abrir. Novo para mim. Bem sei que, quando contar, aparecerá a malta do baldinho a rir e a dizer que já não estou é com nada, que o que agora está a dar é um implante auricular. Mas eu não quero saber. 

Bem, adiante.

Agora mesmo resolvi ir à secção de Astro da Madame le Figaro. Confirma-se: a energia é muita, a motivação feroz, a vontade de fazer coisas é inabalável. E, para quem sente, de vez em quando, algum cansaço, nada que uma pequena sesta não resolva.

Confere. A manhã foi em sucessivas reuniões. O meu marido assomou à minha porta antes de sair e disse: estás a voltar ao mesmo...

Acabei já bastante tarde. Fui ver a caixa de correio e estava cheia, alguns mails a carecerem de resposta ainda hoje. Fui à pressa ligar à minha mãe (ligo sempre à hora de almoço), depois fui para a cozinha, aqueci sopa que tinha no frigorífico e um resto de bacalhau e legumes. Quando acabei, fui a correr lavar os dentes. Faltava meia hora para a reunião seguinte que ia durar duas horas, a seguir à qual se seguiria outra. Pensei: tanta coisa que tenho aqui para fazer, meia hora não dá nem para meia gaita.

Em situações normais, atirava-me aos mails, estaria numa lufa-lufa, stressada por mal ter tempo para pensar no que estava a fazer e sem tempo para reler o que estava a escrever, a ver as horas e a perceber que, não tardava, estava a reunião a começar e eu ainda com imensa coisa para fazer e sem tempo para passar o pente pelo cabelo ou um brilhozinho nos lábios. Então, neste meu novo comprimento de onda, tomei uma decisão única na minha vida. Pus o despertador para cinco minutos antes da reunião e deitei-me em cima da cama. Fechei os olhos e pensei em coisas boas. Infelizmente não consegui adormecer pois esqueci-me de tirar o som às notificações e, portanto, a porcaria do telemóvel só a chiar não me deixou fazer aquilo que me apetecia e de que o meu corpo estava a precisar.

Mas ficou a lição para a próxima: tirar o pio às notificações.

Ainda assim, fiquei na cama a sentir o fresco que vinha do vidro aberto e à espera que tocasse o despertador. Levantei-me, então, e num ápice, penteei-me, passei o brilhozinho, encho o copo de água, sentei-me em frente do computador, vi-me no ecrã e, à hora certa, iniciei a reunião.

Portanto, mais uma boa descoberta: uma pequena sesta a seguir ao almoço. Hoje não dormi mas o repouso fez-me bem. Senti que estava em forma, pronta para saltar à jugular se necessário fosse.

E agora, antes que soem as duas badaladas, vou pregar para outra freguesia.

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Pinturas de Abdullah Murad enquanto ouço One safe place por Marc Cohn

Oh, life is trial by fire
And love's the sweetest taste
And I pray it lifts us higher
To one safe place
One safe place
One safe place

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Desejo-vos um dia feliz

Enjoy