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segunda-feira, setembro 21, 2020

Uma mulher poderosa encanta-me no dobrar de mais um dia em que tentei (mas não consegui) esfolar um rabo que está pendente e que não se compadece com as minhas beautiful flowers

 




Tenho cada vez mais para mim que se todos nós, colectivamente, fizermos um esforço para não perdermos tempo com tretas como as lágrimas do populista-achegado ou com outros pseudo-eventos ou com outras pseudo-pessoas-importantes mais depressa essa gentinha perderia protagonismo e melhor saúde mental todos teríamos. 

Cheguei aqui, agora, e todas as notícias internas me parecem treta. Pura treta. Não estou nem aí.

Mas, reconheço, também pode ser porque dias como o de hoje me deixam a deitar por fora.


Apesar de não ser nada de novo ou interessante, conto porque é que o meu dia me foi tão sobrecarregado: as idas à outra casa (eu para separar roupas para dar, outras para o lixo, outras para trazer, o meu marido com selecção de papeladas, projectos de arquitectura transactos, dossiers e dossiers de trabalhos em versões anteriores à definitiva, coisas assim) esgotam-me. Horas. Sacos e sacos e sacos. O meu marido também exausto. Tudo o que é trabalho pesado sobra para ele: carrega com sacalhões pesadíssimos, uns para os contentores da rua, outros para o carro. 

Mas, enfim, pelo menos já trouxe os meus casacos de malha, os meus blasers, as minhas calças. É que a prioridade tinham sido louças, coisas de cozinha, livros, bibelots, candeeiros, móveis essenciais. De roupa tinha trazido sobretudo a de verão, que era o que fazia falta. Mas o outono já aí está e eu já andava sem saber bem o que vestir. Mesmo aqui em casa, quando anoitece e esfria, eu olhava para o guarda-roupa sem saber bem a que deitar mão. E esta semana tenho compromissos presenciais que me exigem que as minhas toilettes anteriores saiam à cena. 

E depois há alguns fatos completos de que, embora já me estejam à justa, não quero desistir assim tão facilmente. Aquele elegantésimo e superlativo fato Armani que foi presente do meu marido, que conseguiu acertar com o meu tamanho e que, ousando à grande, sem que eu tivesse minimamente suspeitado de tal ousadia, conseguiu que me assentasse como uma luva -- esse tive que trazer, claro. Ou aqueloutro que comprei em Madrid depois de ter percorrido os costureiros da Serrano e de me ter posto nas mãos de uma bicha fantastique que adivinhava todos os meus gostos -- que conjunto mais lindo, aquele - quando fui a um casamento de sonho em Seteais, esse também teve que vir. Peças assim, intemporais. Não gosto de coisas tchanan...!, gaiteiras, espaventosas, datadas. Prefiro peças que não passam de moda. Ou seja, dessas, apesar de já me caberem à justa, não ia desfazer-me. E quem sabe, um dia destes, alguma das meninas da família não precisa de alguma destas fatiotas para uma ocasião especial?

No fim, quando já não aguentávamos mais -- cansados, desidratados, saturados -- e enquanto o meu marido andava abaixo e acima, ainda varri, passei com a esfregona, garanti que as casas de banho estavam impecáveis, que as luzes estavam apagadas. Fechei a porta e vim. Aquela casa, que era a minha casa de sonho até há pouco tempo, agora já pouco me diz. Quando viro as costas e fecho a porta, o que fica para trás é passado. Apesar de gostar de visitar as minhas memórias, a verdade é que parece que sou toda feita de futuro.

Como já era tarde, encomendámos uma pizza e, a caminho da casa nova, fomos buscá-la, a pizzaria já a fechar. 

Depois foi aquela frustração: o hall e o corredor da casa nova uma vez mais atafulhados de sacos, mais coisas para arrumar, eu já sem saber como distribuir as coisas. Na cozinha, algumas peças sem caberem onde faria mais sentido e, claro, a impaciência a ir ganhando terreno. Cansaço e fome à mistura é do pior que há.

Enquanto a pizza foi apanhar um aperto no forno, nós fomos tomar banho. E, com isto tudo, acabámos a almoçar às cinco da tarde. 

Não vejo a hora de esvaziar os armários todos, de trazer tudo e deixar a outra casa finalmente vazia para poder usufruir de tempos livres sem ter a necessidade de os anular, sempre a tratar de tudo o que há sempre para tratar. Até porque, quando for vendida, não pode lá ficar nada. O meu filho que, quando saíu de casa, não tece paciência para levar nada nem escolher o que era de guardar ou deitar fora, continua sem paciência para se atirar a isso. Dossiers da faculdade, livros, coisas de computador, sei lá o que para lá ainda há. Hoje, ao abrir gavetas do quarto da minha filha, dei com roupa interior dela. Não a deitou fora e eu não gosto de deitar fora coisas que não são minhas. Hoje aproveitei algumas peças. O resto, que estava ainda em bom estado, pus num saco também para dar. 

Na verdade a casa parece quase vazia mas, na verdade também, ainda com coisas que não acabam.

Bem.

Ah, e fiz o jantar em dose XL para dar para o almoço também de amanhã. 

E, finalmente, quando o sol estava de fugida, ainda fui para a espreguiçadeira ler mais um pouco. Uma bênção. Uma meia hora de descanso e bem-aventurança. 

Depois fiz telefonemas enquanto passeava para trás e para a frente no jardim, fotografando as flores que me trazem apaixonada. Tão lindas, tão perfeitas. Divindades silenciosas.

Mas tudo o que é bom não pode ser em grandes doses pelo que, de seguida, tive que entrar em casa para passar a ferro e sei lá mais o quê.

Portanto, como é óbvio, com este programa de festas, não quero cá saber de minudências e banalidades. E, assim sendo, para aqui tenho estado a ouvir música. Música poderosa, intérpretes poderosos. Em especial uma mulher poderosa. Poderosa em todos os sentidos. A destemida Yuja Wang mostra como se atira a tudo com uma energia que contagia. Mulheres poderosas e, ainda por elegantes e femininas, são uma graça. E um perigo.


___________________________________________________

E nada mais a declarar. 

Quando voltei ao jardim já a noite vinha descendo. Lá em cima, entre o piar discreto das aves nocturnas, uma nesga de lua. Fotografei-a. Ainda não tinha reparado na lua desde que aqui vivo. Gostei. É uma boa companhia, boa como todas as companhias que são cheias de subtilezas.


Desejo-vos uma boa semana, com muitos momentos bons, com boas notícias. 
E que a saúde e a boa sorte vos acompanhem.

sábado, abril 23, 2016

Shakespeare
- em jeito manso -





Antes que a noite caia e eu adormeça, Senhor, entrai. Vinde. É por vós que tenho esperado. A vida toda à vossa espera, a vida toda ansiando por esta emoção, Senhor, a vida toda.

Pois não é vossa a voz que ouço nos meus sonhos? Pois não é em vós que penso quando entardece e eu sozinha, entre almofadas suaves, sinto como é de seda a minha pele que espera que vós?

Pois não é para vós, Senhor, que vai o meu sorriso quando os cortinados pesados trazem a sombra do dia e eu sei que, com a noite, vem o meu desejo por vós e o vosso por mim, Senhor?

Pois não sois vós o anjo perdido que, quando a madrugada esfria e os lobos descem às ruas, subis à minha varanda para espreitares o meu corpo que é róseo, macio e generoso como o de um inocente cordeiro? Não é vosso o olhar que pousa, em brasa, no côncavo do meu ventre, na curva das minhas ancas, no mais fundo do meu corpo, Senhor?

Não...!? Como podeis dizê-lo, Senhor? Como?

Não...? Insistis que não? Insistis...?

Pensais, então, que me podeis enganar. Mas não podeis, não. Julgais que não sei eu? Sei. Sei-o bem, Senhor. Sei bem como o vosso olhar segue os meus passos quando refresco o meu corpo, eu molhada, o meu vestido molhado, colado ao meu corpo nu e eu, com o meu olhar, a desafiar-vos, Senhor.

Pois não sois vós que, com o vosso olhar espiando as minhas pernas, as minhas costas macias e os meus seios quentes e pesados, me deixais assim, abrasando, abrasando, Senhor?

Sabeis que sim, sabeis, Senhor, sabeis. 

Pois, então, porque esperais? De que palavras minhas esperais mais, Senhor, para que não duvideis, para que ouseis como eu quero que ouseis? - que eu vos quero ousado, Senhor. Entrai. Entrai. sem delongas, Senhor.

Mas, Senhor, vinde devagar. Devagar. Devagar.

E dizei-me que feche os olhos. Fechá-los-ei, Senhor, assim tal me seja pedido. Sou tímida, tão tímida, não julgueis que não, não me façais pedir-vos por vós, que vos quero tanto, Senhor, tanto..

E quando, olhar profundo, intenso e insinuante como um perigoso tigre, chegueis perto de mim, pousai-me uma rosa no colo, Senhor.

Mas antes, deixai que vos ensine, passai-a pelo meu rosto oferecido, passai-a devagar, uma carícia azul, Senhor, deixai que eu sinta como é atraente o perfume das inexistentes rosas azuis.

Depois, Senhor, pousai um beijo no meu decote que ele se abrirá para vós, Senhor. Deixai que eu sinta o morno perfume do vosso desejo, Senhor. Encostai o vosso rosto ao meu, Senhor, e que ele fique assim, a vossa pele junto à minha minha, o vosso hálito junto ao meu, deixai, Senhor, que eu sinta o calor da vossa respiração, a impaciência do vosso corpo, Senhor.

E não vos apresseis que o meu tempo é todo vosso, Senhor. Deixai-vos estar aqui, Senhor, e beijai-me o pescoço, gosto tanto de vagarosos beijos no pescoço, Senhor, tanto. Depois a nuca, ah a nuca, Senhor, e chegai devagar o meu cabelo para o outro lado -- as vossas mãos, o meu cabelo, as pétalas da rosa azul, carícias que tão bem me sabem, Senhor, tão bem.

E continuai a beijar-me, Senhor, ou, se os beijos vos cansam, Senhor, pois passai apenas os vossos lábios impacientes, ou apenas a vossa língua, Senhor, que imagino que a vossa língua seja um animal sedento e eu posso matar a sede dele, Senhor, posso, posso mesmo. Por isso, não hesiteis, Senhor. Nada temais. Vinde. Vinde que toda a vida vos esperei. Vinde para que eu possa, finalmente, começar a viver, Senhor.
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Tenho, ainda, duas memórias. A minha pessoal e a daquele Shakespeare que parcialmente sou. Melhor dizendo, duas memórias têm-me. Há uma zona em que se confundem. Há um rosto de mulher que não sei a que século atribuir.
Perguntei-lhe então:
- O que é que fez com a memória de Shakespeare?
Houve um silêncio. Depois disse:
- Escrevi uma biografia romanceada que mereceu o desdém da crítica e um certo êxito comercial nos Estados Unidos e nas colónias. Acho que é tudo. Preveni-o de que o meu dom não é uma sinecura. Continuo à espera da sua resposta.
Fiquei a pensar. Não tinha eu consagrado a minha vida, não menos insípida do que estranha, à busca de Shakespeare? Não era justo que ao fim da jornada o encontrasse?
Disse, articulando bem cada palavra:
- Aceito a memória de Shakespeare.
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Shakespeare in love


(Joseph Fiennes, Gwyneth Paltrow, Judi Dench, Geoffrey Rush, Ben Affleck
-- dirigidos por  John Madden) 


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Lá em cima, dançando o Romeu e Julieta composto por Sergei Prokofiev, Federico Bonelli e Lauren Cuthbertson interpretam o pas de deux da varanda numa coreografia de Kenneth MacMillan para o Royal Ballet.

A seguir, Tom Hiddleston lê o Soneto 130 de Shakespeare.

O texto em itálico é um excerto de 'A memória de Shakespeare' de Jorge Luis Borges.

As fotografias não têm nada a ver. São de Kirsten Dunst no filme Marie Antoinette e apeteceu-me usá-las para ilustrar o meu texto que, como é bom de ver, também não tem nada a ver. 

Efeitos de um certo tigre azul que passou por aqui nesta noite em que me estava a apetecer evocar William Shakespeare [que viveu entre Abril de 1564 e, justamente, 23 de Abril de 1616 (faz hoje 400 anos), em Stratford-upon-Avon, Reino Unido].


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William Shakespeare lido por  Benedict Cumberbatch -- 7 Ages of Man


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.

quinta-feira, março 13, 2014

O prometido é devido: 'Os meus queridos pimentinhas in heaven'. Ou: 'Um domingo feliz no campo'. Ou: 'A alegria dos afectos partilhados'.


Bem, no post a seguir a este já expliquei o estado algo depauperado em que me encontro a esta hora da noite. São umas a seguir a outras, senhores. Reuniões, negociações, andar para cima e para baixo, de um lado para o outro, engarrafamentos, trapalhadas, e isto em cima de uma faringite e constipação ou lá o que é mas que não ficou bem curada, e tudo em regime non stop - e, por isso, chego a esta hora já sem grande pedalada.

Como se tudo isto fosse pouco, amanhã à hora de almoço tenho prova de avaliação de uma formação que ando a frequentar. Claro está que, como sempre, vou para lá sem ter tido tempo para estudar o que quer que seja. Pior: nem para almoçar decentemente eu vou ter tempo, lá terá que ser uma sandocha mal aviada, a correr.

Ai... que isto é uma coisa... Como diria a tal mãe do tal meu amigo 'Não tenho idade nem posição social para ter que aturar isto'.

Mas, enfim, ela era condessa e eu não passo de uma mera plebeia. Portanto, é comer e calar.

Enfim. Sobre isto falo no post a seguir.

*

Aqui, agora, vou dar cumprimento ao que tinha falado no outro dia.



Mas, antes, que entre Pedro e o Lobo


)


Isto de dizer que se vai fazer uma coisa e depois invocar alteração de circunstâncias e desculpas que tais não é coisa que me agrade e, portanto, embora já me pareça uma coisa muito afastada no tempo (aliás, até parece que já nem vem a propósito), aqui vos mostro os meus amorzinhos pequeninos quando, no domingo passado, passámos o dia todos juntos in heaven.

De manhã estava frio, o céu encoberto.

As crianças chegam e partem em direcção aos seus pontos preferidos, às suas actividades de eleição. O velho carrinho de mão. Apanhar caruma, bolotas. O ancinho. A pá. Descobrir bichinhos. Alguém descobre uma minhoca da terra, todos vão ver. Uma casca de caracol. Tudo é motivo de curiosidade.

Depois o meu filho resolveu fazer um abrigo, uma cabana junto a uma árvore e todos transportam ramos, folhas, paus, e logo todos nos instalamos lá debaixo.

E entre brincadeiras, descobertas, leituras (a minha filha levou um livro que transportou ao longo do dia tentando ler), almoço, alegrias, brigas, pazes, lanche, momentos de sossego e de conversa, se passa um belo dia.


O ex-bebé ainda não fez 3 anos mas tem uma destreza e uma força que só vista.
Um verdadeiro homem de trabalho.
Quis usar as botas que tinham sido do irmão e que lhe estão uns dois números acima e a mãe deixou.
Estava todo contente, sentindo-se um grandalhão por estar montado numas botifarras que faz-favor




Ainda há pouco tempo era o tio que por aqui andava, trepando pelas muralhas.
Aliás ainda anda, parece ser mais forte que ele.
Agora é o sobrinho que o imita e lhe faz companhia.

(Aqui ainda tinha um cabelão.
Ao fim da tarde levou uma carecada das valentes, coisa que acho que não repito
pois, com uma cabeleira forte e densa, só mesmo com máquina.
Mas como não pára sossegado, diz que a máquina lhe arrepela os cabelos 

e, então, só quer corte à tesoura.
Agora, deixar direito um cabelo cortado à tesoura 

quando o dono não pára sossegado e perde a paciência antes dos acertos finais...? Impossível)



Os três rapazes mais pequenos.

O mais crescido em cima da mesa,
o irmão, o ex-bebé, do lado de cá
e, junto à mesa, o bebé que alinha com os mais crescidos
e que, portanto, já tem uma desenvoltura e independência que não dá para acreditar.

(E ervas a despontarem por todo o sítio. A natureza renasce com uma força incrível)

- Já agora. Como vêem: Imagens de Modigliani e poemas em cada pequena parede -



Enquanto os rapazes se dedicam a actividades mais aventureiras ou arriscadas,
a minha menina mais linda deita mãos ao trabalho, varre, organiza brincadeiras,
brinca ao faz-de-conta e tenta que os outros alinhem,
chama por eles 'meninos...! venham...!' e, mesmo quando eles não lhe ligam,
 ela não desiste, 'vá, vamos para dentro'


'Cá para dentro! meninos...!' - refere-se ela à casinha junto à árvore onde estava a organizar uma festa de anos imaginada.

Os rapazes querem lá saber disso, querem é andar à procura de ramos
(e até um tubo que descobriram no meio do mato) mas ela não desiste.
Um tronco é um bolo e o que sei é que acabámos todos a cantar os Parabéns a Você e o bebé a soprar para um ramo seco a fingir que era uma vela.

No fim do dia ninguém se queria vir embora e agora já andam a dizer que estão com saudades. Pudera. Também eu.



***

Recordo: sobre a forma como me refugio em jardins secretos ou vilas românticas para me abstrair dos dias tempestuosos que tenho vindo a atravessar com uma intensidade que não dá tréguas, falo no post a seguir a este.

Depois desse, tenho ainda um post sobre a reestruturação da dívida, o manifesto integral e uma pergunta a Cavaco sobre a sustentabilidade de Bagão Félix no Conselho de Estado.


***

A música lá em cima é 'Pedro e o Lobo' de Sergei Prokofiev numa coreografia de Matthew Hart, interpretada pelo Royal Ballet School e narrada por Anthony Dowell


***

Bem (... cada vez que escrevo 'bem' significa que estou a soltar um longo suspiro). 
Por agora, resta-me desejar-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta feira. 
Be happy. 
Enjoy.

sexta-feira, novembro 15, 2013

Quem, se eu gritar, me ouvirá entre as legiões de anjos?


Manhã difícil hoje. Há sons que custam ouvir e eu tento afastar-me porque não sou nada forte. O momento em que fecham o caixão é terrível, é o fecho de um ciclo, é o momento em que se encerra o que sobrou do que foi uma vida inteira. É um som seco, madeira contra madeira. Não vejo. Nunca vi. Tento não ouvir. Mas hoje não consegui afastar-me o suficiente pelo que não consegui deixar de ouvir. E fiquei ali, no meio das pessoas, e fui vendo como, tal como a mim, as lágrimas corriam nos rostos à medida que aquele som se ouvia. 

É tudo muito triste. Não quero falar mais nisto.

Depois, de tarde, fui trabalhar e agora aqui estou a tentar abstrair-me e a ver se escrevo coisas animadas. 

Mas, antes, quero agradecer as vossas palavras, quer aqui nos comentários, quer através de mail. As demonstrações de afecto sabem-me sempre muito bem. Gosto de as receber tanto quanto de as oferecer.

Não agradeço individualmente a cada um de vós mas, a todos, meus queridos Leitores, vizinhos da minha rua, aqui deixo o meu muito sincero agradecimento.

Escolhi imagens, palavras, uma música, um momento de dança, tudo para tentar retribuir a generosidade dos vossos abraços e, ao mesmo tempo, retribuir também, um pouco, muito pouco, de todo o imenso carinho que sempre recebi da minha tia.


Tanta terra,
tantas palavras sob tantas palavras.
Regressa como um corpo o coração
à apenas existência,

lembrança de
alguma coisa lida:
o rosto da mãe, a trepadeira do jardim.
Mãe, afastei-me de mais, perdi-me



no meio de palavras minhas e palavras alheias,
quem, se eu gritar, me ouvirá entre as legiões de anjos?
E nem isto me pertence,

a tua ausência e o meu medo;
nem estou na minha ausência,
fui como um vaso e quebrei-me ou qualquer coisa assim.


































..
























The secret of life is enjoying the passage of time

Isn't it a lovely ride
Sliding down
Gliding down
Try not to try too hard
It's just a lovely ride

Now the thing about time is that time
Isn't really real
It's just your point of view
How does it feel for you

**

  • O poema é Tanta Terra de Manuel António Pina in 'Nenhuma palavra e nenhuma lembrança'.
  • O bailado é Romeu e Julieta numa interpretação de Sylvie Guillem numa coreografia de Sir Kenneth MacMillan, sobre música de Sergei Prokofiev
  • A música é 'The Secret of Life' interpretada por JamesTaylor


**

Afinal hoje não escrevo mais. 
Fico-me, pois, por aqui não sem antes vos desejar, meus Caros Leitores, uma boa sexta feira 
(tanto mais que as sextas feiras têm tudo para ser um bom dia)

segunda-feira, agosto 13, 2012

1. Aula prática: Como se lavam Tapetes de Arraiolos? 2. Limpezas e arrumações com imagens da minha casa e das minhas pinturas 3. Excursão dentro de uma gruta e o imprevisto desenlace


Música, por favor


Prokofiev - Pedro e o Lobo


Dia atarefado todo o dia de hoje e, à noite, apeteceu-me acompanhar o fantástico mega concerto pop que foi o encerramento dos Jogos Olímpicos. Só a seguir estive a responder aos comentários o que, escrevendo eu como escrevo quando escrevo de gosto, faz com que só agora, perto das 2 da manhã, esteja aqui a começar o post de hoje.

Por isso, vou tentar ser rápida.

É raro o dia em que não haja pelo menos uma entrada aqui no UJM através da pesquisa 'Como se lavam tapetes de arraiolos?'. Já uma vez expliquei que há quem os lave na banheira e que diga que não é difícil, que se vai lavando e enrolando, mas eu, já que tenho essa possibilidade, lavo-os no chão, na rua, à porta de casa, in heaven, de mangueira e vassoura.

Como por esta altura do Verão é coisa que costumo fazer, desta vez documentei o acto para que o processo fique, aqui, mais explícito.



Estes dois tapetões estão junto a dois sofás na salinha da televisão.
Foram feitos à mão livre, sem desenho, inspirados no meu gosto por Mark Rothko
e seguem todo o preceito do ponto de Arraiolos


Primeiro passo o chão à mangueirada para não ser pior a emenda que o soneto, ou seja, para que não haja terra que, com a água, se transforme em lama. Depois do chão limpo, ponho os tapetes (ou as carpetes) no chão e molho-os bem. A seguir despejo detergente em pó de lavar à mão por cima e volto a pôr alguma água, para o dissolver. Depois, com uma vassoura rija, esfrego bem. Ando, descalça, em cima deles como se estivesse a varrer com força. Deixo ficar ali uns minutos a actuar e depois é só mangueirar para cima, água abundante, para tirar bem a espuma. 

E ficam ali ao sol a secar. Quando secam estão como novos, limpinhos, direitinhos, esticadinhos.

Adiante.

Voltei às arrumações e hoje mostro-vos aqui uma mesa de cabeceira do quarto do meu filho e a secretária do quarto da minha filha (tudo in heaven) .



Mesa de cabeceira do quarto do meu filho: peças de barro, um castiçal e uma galinha
 (que lá pus à revelia dele...)
Por trás, dado que ele sempre foi muito engagé,um quadro pintado por mim e
que era alusivo à desgraça humanitária em Darfur



Tampo da secretária (agora muito pouco usada) do quarto da minha filha:
castiçais, agendas, caixinhas e mais não sei o quê e, claro, um galo que também lá  pus
Por trás, quadro também pintado por mim com uma cidade e uma bailarina
a dançar em cima dos prédios (a minha filha sempre gostou muito de dançar) e,
 não me perguntem porquê, um galo (acho que eu gostava que houvesse um galo
a cantar no cimo do meu prédio, quando estou na cidade)


A seguir às lavagens e limpezas, parti, então, finalmente, à aventura. 

A mim juntou-se um ser bizarro que vocês podem achar que é uma espécie de porco estranho, com uns olhos salientes e um focinho façanhudo. Mas não, é um ser cauteloso que, dado conhecer as minhas intenções, resolveu pôr uma máscara.



(De facto, parte do tronco da minha figueira, na parte em que lhe foram serrados uns ramos)


A seguir desafiei outro ser bizarro, um bicho estranho, de boca aberta, que resolveu levar o filho, quase igual a ele, às cavalitas, e lá foram os dois.



(De facto uma das maravilhosas pedras saídas de dentro da terra.
Esta foi das que me deu muito gosto lavar, tirar a terra de dentro de cada buraco
- com um ferro comprido e com mangueira - descobrir a forma à medida que a terra ia saindo)


Depois, um outro ser juntou-se-nos. É Ariadne. Esta é medrosa, sempre a hesitar e a querer esconder-se de cada vez que eu me mexo. Faz-me andar ali, silenciosa, à sua volta, tentando que não se esgueire de vez.



Penso que é uma lagartixa com um rabo compridíssimo
 e e com uma bela cor ocre alaranjada nas patas de trás e na cauda


Assim, esta trupe, eu e estes seres que me acompanham quando saio nas minhas incursões in heaven, lá fomos. 



Gruta que faz as delícias do meu menininho mais crescido
e sobre a qual lhe invento muitas histórias, geralmente metendo coelhinhos


Há grutas por aqui. De lá, costumo ver sair coelhos. Umas são pequenas, outras grandes. 

Entrámos então por esta gruta adentro, eu, o ser bizarro com a máscara (ouviu dizer que íamos para uma gruta e apetrechou-se), o outro com o filho às cavalitas e Ariadne com as suas patas cor de laranja e cauda imensa.

A gruta avança em direcção ao interior da terra, há caminhos e labirintos, e, às tantas, quase não se vê a luz. À medida que se avança, o ar começa a ficar fresco, húmido. Mais à frente ouve-se a água a pingar. Percebo, então, que já devo ir sozinha. Algures os meus amigos ficaram perdidos nos escuros labirintos. Penso que talvez Ariadne tenha trazido o seu fio para que todos possamos depois descobrir a saída, ou, pelo menos eles, já que eu vou em busca do minotauro. 

Sozinha, avanço. Está muito escuro, muito fresco, muito silencioso. São caminhos assim os que nos conduzem até ao interior da terra, até ao interior de nós próprios. Gosto de percorrer estes caminhos. Não sei onde vão dar, não sei o que vou encontrar, não sei se estou sozinha, não sei se corro riscos. Avanço. Avanço sempre. Talvez este estreito e silencioso caminho vá ter ao centro do planeta, o local mais silencioso e triste do mundo, ou talvez vá ter ao outro lado do mundo, onde o clima e as gentes e os costumes são outros. Avanço.

Depois tudo começa a ficar mais escuro, o ar rarefeito, ouço um som que me assusta, uma respiração ou uma fala ou um lamento ou um riso, não sei se é a terra a respirar ou a queixar-se, ou se é algum ser que vive sem ar e sem luz, algures nos perdidos labirintos do fim do mundo.

Acho que perco a consciência.

Quando volto a acordar, sinto-me agasalhada, abraçada, aconchegada. Cheira-me a terra fértil, a cama de folhas caídas e encarnadas. Sinto-me bem aqui. Já não é o Verão quente do qual parti. Aqui cheira-me a Outono, há um friozinho bom no ar, aquela aragem expectante e feliz de Outono, de início de tempo de aulas, amigos novos, um prenúncio de chuvas. E eu estou quentinha, confortável, num colo macio e bom.

Abro os olhos e estou num bosque com belas cores de Outono, envolta em peles brancas e macias, ao colo de um grande urso. Olho-o. Tem uns olhos bons, amigos, muito meigos, e segura-me ao colo. Tão protector. Que bom. Fecho os olhos, tranquila, confiante. E começo, então, a sentir-me embalada.

**

(Amanhã voltarei ao Verão mas, por hoje, estou muito bem aqui, conforme podem ver na fotografia que ilustra o Um Jeito Manso, lá em cima)

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Quanto a vocês, Caros leitores, o que espero é que tenham uma bela semana a começar já por esta segunda feira. 
Estejam nos braços de um enorme Teddy Bear ou em quaisquer outros ou em nenhuns, divirtam-se que eu tentarei fazer o mesmo, está bem?