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quarta-feira, julho 09, 2025

Atir Sai­tam e Érdna Arutnev

 

Estes poderiam ser Atir Sai­tam e Érdna Arutnev quando andavam na escola infantil


Poderia dizer que, pelo que dizem e fazem, Atir Sai­tam e Érdna Arutnev demonstram que não gostam de Portugal, não têm nada a ver com a cultura portuguesa, não respeitam os valores portugueses. Poderia ir até mais longe e dizer que, por tudo isso, nem mereceriam ser portugueses.

Poderia também dizer que, ainda por cima, não estão solidários com os problemas dos portugueses, nomeadamente com o grave problema demográfico da baixa natalidade e do envelhecimento da população. Ou poderia inferir que, talvez por não quererem saber dos problemas de sustentabilidade da Segurança Social, não se informam e não percebem que, para tentar minimamente equilibrar a situação, o melhor mesmo é que venham muitos imigrantes, de preferência em idade laboral, de preferência em idade reprodutiva e que, idealmente, se fixem em Portugal com as crianças pequenas e que estas cá estudem e, mais tarde, por cá se estabeleçam, trabalhem e formem famílias. Mas Atir Sai­tam e Érdna Arutnev, talvez porque não gostam de Portugal, como tantas vezes o têm demonstrado, talvez porque não respeitam a dignidade dos portugueses, como amiúde o demonstram, não querem saber dos problemas dos portugueses.

Claro que se eu fosse básica, imediatista, populista, por tudo o que eles têm dito e feito, pela forma desrespeitadora como têm ofendido os portugueses, como têm desrespeitado a democracia, até poderia sugerir que se lhes fossem retirados direitos inerentes à cidadania portuguesa. Mas não vou fazê-lo.

Quero apenas lembrar-lhes que, até para estarem protegidos contra outros iguais a eles, têm que agradecer a quem lhes deu nomes que se escrevem assim, Atir Sai­tam e Érdna Arutnev, e não pela ordem inversa, senão ainda teriam mais motivos para se envergonharem. 

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A propósito dos novos 'imigrantes' da Assembleia da República que, não respeitando os hábitos e a cultura vigentes, estão a subverter o espírito civilizado e democrático que ali deveria imperar, permito-me recomendar a leitura de A grande substituição

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A imagem foi obtida através da Sora (IA), a quem pedi uma imagem que retratasse as duas tristes figuras quando eram pequenas mas com um aspecto que remetesse para o aspecto das crianças que eles tanto parecem temer, situando-as numa escola.

quinta-feira, junho 12, 2025

Neste nosso tempo em que os cidadãos regrediram à subtil designação de seguidores

 

Até não há muito -- talvez até antes de haver uma concorrência desmedida entre os canais de televisão, nomeadamente os de cabo que têm que manter as emissões em contínuo e deitam a mão a tudo o que é gato-sapato, ou até ao advento das redes sociais que vieram dar a voz a tudo e a todos por mais ignorantes e estúpidos que sejam -- só era dada oportunidade de se pronunciar em público a quem reunia um mínimo de características positivas que os fizessem distinguir do comum dos mortais. Tinha que se ser gente de cultura, com alguma coisa a acrescentar, para se poder chegar a um púlpito e falar para as massas.

Agora não. Veja-se Marcelo que, num dos seus momentos de deriva populista, chamou a discursar no 10 de Junho o João Miguel Tavares. Anedótico. E tal como a Assembleia da República é agora lugar em que um bando de grunhos tem assento, também as televisões se enxameiam com gente desqualificada. Vejam-se os Big Brothers desta vida, os programas de comentário do 'social' e muitos outros. E veja-se a cambada que invade os youtubes. 

Quando os meus netos cá estão, quando se póem a ver televisão, o que eles gostam de ver são youtubers ordinários a comentarem jogos ou parvoíces, a dizerem toda a espécie de disparates. Por mais que se tente impedi-los é por isso que eles se sentem atraídos. E imagino que os tiktoks desta vida estejam também pejados de porcarias idênticas. A mim, no instagram, não me aparece disso porque o algoritmo percebe que gosto de outras coisas e não me mostra grunhices mas, fosse eu de me interessar por maledicência, populices, racismos ou outras desconformidades e, certamente, seria alimentada com milhões de coisas dessas.

Não sei como se poderá parar estas enxurradas de desinformação, de superficialidade, de ordinarice, de aberração. Faz-me lembrar aquelas praias ultra-poluídas, como algumas dos países mais pobres de África, uma desgraça sem limite, as águas carregadas de lixo, as praias inundadas de detritos de toda a espécie e feitio, as pessoas, como animais, a esgravatar no meio da porcaria. Assim a comunicação nos dias de hoje. Lixo, lixo, lixo. E meio mundo a foçar no meio dessa imundície.

As instituições democráticas acabam por soçobrar perante a força da avalancha. Veja-se o que acontece com estes grupos ultra-nacionalistas, gente com aspecto troglodita, gente que nem sabe de que fala, sem conhecimentos de história, certamente gente com alguma perturbação mental, talvez traumas de infância, talvez gente mal-amada, gente que odeia os outros, gente que parece que tem prazer em fazer mal a pessoas indefesas, gente que odeia a decência, a democracia, a cultura, a inclusão, gente incapaz de gestos de bondade, de generosidade. E, no entanto, por aí andam e, estranhamente, conseguem que haja outros tantos que os apoiem. E ouvi que os serviços secretos sabem da existência destes grupos de gente má, de gente que incita e pratica a violência, e, pelos vistos, nada faz. Ouvi que há países em que estes grupos são proibidos. E acho bem. Mas não deve ser possível controlar verdadeiramente a sua existência pois este nosso mundo dispõe de alçapões e labirintos para toda a gente que gosta de se mover no mundo das trevas. A dark web, os chats e outros corredores sombrios permitem a movimentação desta gente maldosa que, em vez de se tratar, anda a espalhar o mal.

Ouço dizer que o populismo, o racismo, a xenofobia, o ultra-nacionalismo e coisas que tais se combatem com uma informação correcta, com educação, com pedagogia. Ajudará mas é lirismo pensar que isso é suficiente. Meio mundo não frequenta a aprendizagem rigorosa, não frequenta o conhecimento, não frequenta a comunicação social séria, não frequenta o mundo dos livros, não frequenta os espaços em que as pessoas falam sobre assuntos sérios e falam com vagar. 

Por isso, por muito que se queira educar os ignorantes, a pedagogia não chega até eles: uns porque trabalham e chegam tarde e cansados a casa, outros porque se desabituaram de ponderar, outros, os mais jovens, porque a realidade das redes sociais, dos whatsapps e dos youtubes é a única que conhecem.

E, no entanto, eis que, no meio disto, surge uma mulher que, vestida de branco, com voz pausada e serena, diz palavras sábias, límpidas, radiosas, inteligentes.

No dia 10 não ouvi o discurso de Lídia Jorge mas mão amiga fez-mo chegar. E, embora esteja a ser amplamente divulgado, faço questão de tê-lo também aqui. Uma maravilha. As escolas deveriam divulgar amplamente estas palavras. As televisões deveriam passá-las de vez em quando. De alguns excertos deveriam ser feitos cartazes para espalhar por todas as terras. 

Os países escolhem datas de referência para celebrarem a sua história, contemplando memórias de batalhas, ações de independência, encontros civilizacionais, momentos importantes em torno dos quais concitam a unidade dos cidadãos e promovem o orgulho patriótico.

Mas, em Portugal, é a data da morte de um poeta que protagoniza o nosso momento cívico de unidade mais relevante.

Muito se tem discorrido sobre o significado desta nossa singularidade e, muitas vezes, é difícil explicar que não se trata de um sinal de melancolia, mas sim do seu oposto.

Há a assunção de que um poeta do século XVI nos legou uma obra tão vigorosa que acabou por ser adotada no seu conjunto como exemplo da vitalidade de um povo e que a própria biografia do seu autor se oferece como exemplo não só de um percurso português, mas se transformou em símbolo universal da nossa peregrinação prometeica sobre a terra.

A fidelidade que Camões manteve em relação à pátria, quando se encontrava em paragens remotas, alimenta a simbologia que lhe é atribuída como exemplo da proximidade que os portugueses que se encontram longe mantêm com a sua cultura de origem.

O país retribui-lhes, reconhecendo, desde há muito, que as comunidades portuguesas são o corpo essencial do nosso ser identitário.

Mas as celebrações deste ano de 2025 têm um cunho muito particular. Em primeiro lugar, porque voltam a ter lugar na cidade de Lagos. No século passado, foi cidade anfitriã em 1996.

Passados 29 anos, esta cidade do Algarve continua a ser democrática, livre, próspera.

O que mudou e o que justifica que, de novo, tenha sido escolhida para ser palco das celebrações foi a nova consciência de que Lagos passou a representar um lugar obrigatório quando se pretende avaliar as relações entre os povos ao longo dos séculos.

É sabido que Lagos, lugar de saída para a África e lugar do comércio prático, tem como símbolo complementar o Promontório de Sagres.

A escassos 40 quilómetros de distância, Sagres e Lagos representam historicamente uma dualidade contrastiva cujo papel se encontra em avaliação.

A comunicação digital que se afirmou a partir dos anos 90 permite agora uma divulgação ampla dos estudos que os arqueólogos, antropólogos e historiadores estão a realizar neste espaço geográfico designado por Terras do Infante.

Era a altura de atribuir a Lagos, de novo, o estatuto de cidade vencedora e de apoiar estas celebrações de importância ou de interesse cultural.

Mas há outro motivo para que, este ano, a celebração deste dia seja particular. Desde há dois anos que estamos a invocar o nascimento de Camões, ocorrido há 500 anos, presume-se que entre 1524 e 1525. Calcula-se que assim tenha sido, mas vale a pena refletir sobre o facto, pois, tal como não sabemos como decorreu a sua infância, nem a sua formação, também desconhecemos o local e o dia em que o poeta nasceu.

Para sermos justos sobre a sua vida inicial, apenas podemos dizer o que um certo maestro célebre disse de Beethoven: Um dia Camões nasceu e nunca mais morreu. Nunca mais morreu.

Provam-no a forma como, passados cinco séculos, tem sido revisitado ao longo destes dois últimos anos. As escolas, a academia, o mundo da edição, os vários campos das artes e das ciências humanísticas em Portugal têm dado rosto a toda uma espécie de comemoração espontânea e informal em torno do nosso poeta maior.

Novos autores têm surgido, atualizando a exegese sobre os seus poemas e o conhecimento acumulado em torno da vida de Camões.

O jovem ensaísta Carlos Maria Bobone pôs recentemente em relevo o papel decisivo que Camões desempenhou ao fixar uma língua nova à altura de um pensamento novo que resultaria definitivamente na Língua Portuguesa moderna que hoje usamos.

Demonstrou como a língua portuguesa, manobrada no seu esplendor, resultou como uma dádiva que devemos ao grande cantor do Oceano, como lhe chamou Baltasar Estaço.

Por sua vez, a biógrafa Isabel Rio Novo, numa visita recente, profusamente documentada que faz à vida de Camões, no final, não deixa de se comover com os testemunhos sobre os últimos dias do poeta, demonstrando que as histórias que correm sobre certos passos da sua vida, afinal, não são lendas, são verdades.

O receio de sermos românticos não nos deveria afastar da realidade testemunhada. E assim, a mim, não me pareceria errado que os adolescentes portugueses conhecessem o comentário que Frei José Índio redigiu na margem de um exemplar d’Os Lusíadas, presumivelmente oferecido pelo próprio autor na hora de partir. Escreveu o frade: Yo lo vi morir en un hospital en Lisboa sem tener uma sábana com que cobrisse, despues de haver navegado 5.500 léguas per mar.

Assim foi, sem um lençol. Terá sido um amigo quem lhe enviaria a sábana, já depois de morto.

Não me parece que daí se devam retirar conceitos patrióticos ou antipatrióticos. Conceitos sobre a vida humana e seu mistério, isso, talvez.

Entretanto, por contraste, sobre a obra que deixou, milhares de páginas de novo têm sido escritas, confirmando a dimensão invulgar do poeta que foi.

Hélder Macedo, um dos seus leitores mais subtis, disse recentemente numa entrevista que, se Camões tivesse continuado a viver, ninguém mais em Portugal teria sido capaz de escrever um verso. Essa hipérbole é linda.

Assim como é reconfortante saber que os professores deste país continuam a ler às crianças epigramas, redondilhas e vilancetes de Camões, como se fossem filos modernos, feitos de palavras, o que mostra que os portugueses continuam vivamente enamorados do seu poeta maior.

Mas se o patrono destas celebrações é o poeta do virtuosismo verbal e do amor conceptual, o amor maneirista, o poeta do questionamento filosófico e teológico, como é em “Sôbolos rios que vão”, e o poeta dos longos versos enfáticos sobre o heroísmo dos viajantes do mar, ao regressarmos a todos esses versos, escritos há quase 500 anos, encontramos coincidências que nos ajudam a compreender que os tempos duros que atravessamos têm conformidade com os tempos em que o próprio viveu.

Camões, tal como nós, conheceu uma época de transição, assistiu ao fim de um ciclo e, sobre a consciência dessa mudança, no conjunto das 1.102 oitavas que compõem Os Lusíadas, 22 delas contêm avisos explícitos sobre a crise que se vivia então.

Aliás, hoje é ponto assente que o poema épico encerra um paradoxo enquanto género, o paradoxo de constituir um elogio sem limites à coragem de um povo que havia resultado da criação do Império e, em sentido oposto, conter a condenação das práticas que, passados 50 anos, impediam a manutenção desse mesmo Império.

E nesse campo pode-se dizer que Os Lusíadas, poema que no fundo justifica que o dia de Portugal seja o dia de Camões, expressa corajosas verdades dirigidas ao rosto dos poderes que elogia.

É bom lembrar que, entre os séculos XVI e XVII, três dos maiores escritores europeus de sempre coincidiram no tempo apenas durante 16 anos e, no entanto, os três desenvolveram obras notáveis de resposta ao momento de viragem de que eram testemunhas.

Foram eles Shakespeare, Cervantes e Camões. De modo diferente, mas em convergência, procederam à anatomia dos dilemas humanos e, entre eles, os mecanismos universais do poder, corpus que continua válido e intacto até aos nossos dias: sobre o poder grandioso, o poder cruel, o poder tirânico, o poder temeroso e o poder laxista.

No caso de Camões, de que se queixa ele quando interrompe o poema das maravilhas da história para lembrar a mesquinha realidade que envenenava o presente de então? Queixava-se da degradação moral, mencionava “o vil interesse e sede imiga/Do dinheiro, que a tudo nos obriga”, e evocava, entre os vários aspetos da degradação, o facto de sucederem aos homens da coragem que tinham enfrentado um mar desconhecido, homens novos, venais, que só pensavam em fazer cultura. Mais do que isso, queixava-se da subversão do pensamento, queixava-se da falta de seriedade intelectual, que resultava depois, na prática, na degradação dos atos do dia a dia.

Escreve o poeta no final do canto oitavo: “Este deprava às vezes as ciências,/ Os juízos cegando e as consciências./ Este interpreta mais que sutilmente/ Os textos; este faz e desfaz leis;/ Este causa os perjúrios entre a gente/E mil vezes tiranos torna os Reis”.

Na verdade, Camões, Cervantes e Shakespeare, de modos diferentes, expuseram os meandros da dominação, envolvidos com o tempo histórico dos impérios que viveram.

Por essa altura, sobre os reis de Portugal, Espanha e Inglaterra, dizia-se que lutavam entre si pelo domínio do globo terrestre. Ou mais concretamente, dizia-se então que os três competiam para ver quem acabaria por pendurar a terra ao pescoço como se fosse um berloque.

Os três autores perceberam bem que, em dado momento, é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência.

Escreveu Shakespeare no ato IV do Rei Lear: “É uma infelicidade da época que os loucos guiem os cegos”.

Enquanto isso, Cervantes criava a figura genial do alucinado Dom Quixote de La Mancha, que até hoje perdura entre nós como o nosso irmão ensandecido.

Por seu lado, Camões, no corpo d’Os Lusíadas, não falou da loucura, mas a vida haveria de lhe demonstrar que as páginas escritas por si mesmo haviam sido proféticas, em resultado dela, da loucura. O desastre de Alcácer-Quibir, ocorrido em 1578, estava assinalado numa das últimas estrofes do Canto X. Era a história, como sempre, a confirmar o pressentimento experimentado pela literatura.

No entanto, o fim do ciclo, que neste caso aqui interessa, não é mais uma transição localizada que diga apenas respeito a três reinos da Europa.

Nos dias que correm, trata-se do surgimento de um novo tempo que está a acontecer à escala global. Porque nós, agora, somos outros.

Deslocamo-nos à velocidade dos meteoros e estamos cercados de fios invisíveis que nos ligam para o espaço.

Mas alguma coisa desse outro fim de século, que se seguiu ao tempo da Renascença malograda, relaciona-se com os dias que estamos a viver. O poder demente, aliado ao triunfalismo tecnológico, faz que a cada dia, a cada manhã, ao irmos ao encontro das notícias da noite, sintamos como a terra redonda é disputada por vários pescoços em competição, como se mais uma vez se tratasse de um berloque.

E os cidadãos são apenas público, que assiste a espetáculos em ecrãs de bolso. Por alguma razão, os cidadãos hoje regrediram à subtil designação de seguidores. E os seus ídolos são fantasmas.

É contra isso e por isso que vale a pena que Portugal e as Comunidades Portuguesas usem o nome de um poeta por patrono. Por isso mesmo, também vale a pena regressar a Lagos.

Sobre estes areais, aconteceram momentos decisivos para o mundo.

No início da Idade Moderna, Lagos e Sagres representaram tanto para Portugal e para a Europa que à sua volta se constituíram mitos que perduram. O Promontório e a silhueta do Infante austero que sonhou com o achamento de ilhas e outros descobrimentos, como parte de uma guerra santa antiga, e tudo realizou a poder de persistência férrea e sagacidade empresarial, transformou-se numa figura de referência como criador de futuros. À sua figura anda associado um sonho que se realizou e depois se entornou pela terra inteira e a lenda coloca-o a meditar em Sagres.

Numa referência um tanto imprecisa, mas que permite a sua evocação, Sophia escreveu: “Ali vimos a veemência do visível/ o aparecer total exposto inteiro/ e aquilo que nem sequer ousáramos sonhar/ era o verdadeiro”.

Esta ideia de que, na mente do Infante, se processou uma epifania, anda-lhe associada enquanto mentor de uma equipa mais ou menos informal que teve a capacidade de motivar e dirigir. Sagres passou, assim, para a história e para a mitologia como lugar simbólico de uma estratégia que mudaria o mundo.

Mas existe uma outra perspetiva, como é sabido, e hoje em dia o discurso público que prevalece é, sem dúvida, sobre o pecado dos Descobrimentos e não sobre a dimensão da sua grandeza transformadora.

É verdade que a deslocação coletiva que permitiu estabelecer a ligação por mar entre os vários continentes e o encontro entre povos obedeceu a uma estratégia de submissão e rapto, cujo inventário é um dos temas dolorosos de discussão na atualidade.

É preciso sempre sublinhar, para não se deturpar a realidade, que a escravatura é um processo de dominação cruel, tão antigo quanto a humanidade.

O que sempre se verificou foi diversidade de procedimentos e diferentes graus de intensidade.

E é indesmentível que os portugueses estiveram envolvidos num novo processo de escravização longo e doloroso.

Lagos, precisamente, oferece às populações atuais, a par do lado mágico dos Descobrimentos, também a imagem do seu lado trágico.

Falo com o sentido justo da reposição da verdade e do remorso pelo facto de que se ter inaugurado o tráfico negreiro intercontinental em larga escala, como polos de abastecimento nas costas de África, e assim se ter oferecido um novo modelo de exploração de seres humanos que iria ser replicado e generalizado por outros países europeus até ao final do século XIX.

Lagos expõe a memória desse remorso. Mostra como, num dia de agosto de calor tórrido de 1444, desembarcaram aqui 235 indivíduos raptados nas costas da Mauritânia e como foram repartidos e por quem.

Alguém que, muito prezamos, encontrava-se em cima de um cavalo e aceitou o seu quinhão de 46 cabeças. Esse cavaleiro era nem mais nem menos do que o próprio Infante D. Henrique.

Lagos não se furta a expor essa verdade histórica.

Lagos também mostra o local onde depois levas sucessivas iriam ser mercadejados os escravos. E mais recentemente relata-se como eram atirados ao lixo quando morriam sem um pano a envolver os corpos. Até agora foram retirados desse monturo de Lagos os restos mortais de 158 indivíduos de etnia Banta.

Lagos mostra esse passado ao mundo para que nunca mais se repita. Talvez por isso estejamos aqui, no dia de hoje.

Aliás, a UNESCO criou a Rota do Escravo e inscreveu Lagos na Rota da Escravatura, para que saibamos como os seres humanos procedem uns com os outros, mesmo quando se fundamentam em religiões fundadas sob os princípios do amor e sob a lei dos direitos humanos.

Lagos mostra esse filme e faz-se parente de quem escreveu na porta de um lugar de extermínio moderno o pedido solene: Homens não se matem uns aos outros.

É verdade que só conhecemos o que sucedeu naquele dia 8 de agosto de 1444 porque o cronista do infante Dom Henrique o narrou. Eanes Gomes de Zurara não conseguiu evitar um sentimento de compaixão e comentou, de forma comovida, como a chegada e a partilha dos escravos era cruel. Felizmente que dispomos dessa página da “Crónica dos Feitos de Guiné” para termos a certeza de que havia quem não achasse justo semelhante degradação e o dissesse.

Aliás, sabemos que sempre houve quem repudiasse por completo a prática e o teorizasse.

O que significa que Lagos, a cidade dos sonhos do Infante de que Sagres é a metáfora, passados todos estes séculos, promove a consciência sobre o que somos capazes de fazer uns aos outros. Esta tornou-se, pois, uma cidade contra a indiferença.

É uma luta nossa, contemporânea.

Em Lagos, hoje em dia, está presente de outro modo a mensagem do cartoon de Simon Kneebone, datado de 2014, que tem corrido mundo.

A cena é nossa contemporânea. Passa-se no mar. Num navio enorme, aparelhado com armas defensivas, no alto da torre, está um tripulante que avista ao longe uma barca frágil, rasa, carregada de migrantes.

O tripulante da grande embarcação pergunta: de onde vêm vocês? Da lancha, apinhada, alguém responde: vimos da terra.

Sugiro que os jovens portugueses, descendentes de cavadores braçais, marujos, marinheiros, netos de emigrantes que partiram descalços à procura de trabalho, imprimam este cartoon nas camisas quando vão ao mar.

Consta que em pleno século XVII, 10% da população portuguesa teria origem africana.

Essa população não nos tinha invadido. Os portugueses os tinham trazido arrastados até aqui. E nos miscigenámos.

O que significa que por aqui ninguém tem sangue puro. A falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma.

Tem sangue do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou. Filhos do pirata e do que foi roubado. Mistura daquele que punia até à morte e do misericordioso que lhe limpava as feridas.

A consciência dessa aventura antropológica talvez mitigue a fúria revisionista que nos assalta pelos extremos nos dias de hoje, um pouco por toda a parte.

Agora que percebemos que estamos no fim de um ciclo e que um outro se está a desenhar, e a incógnita existencial sobre o futuro próximo, ainda desconhecido, nos interpela a cada manhã que acordamos sem sabermos como irá ser o dia seguinte.

A pergunta é esta: quando ficarem em causa os fundamentos institucionais, científicos, éticos, políticos e os pilares de relação de inteligência homem-máquina, entrarem num novo paradigma, que lugar ocuparemos nós como seres humanos? O que passará a ser um humano?

Comecei por dizer que Camões nasceu e nunca mais morreu.

Regresso à sua obra para procurar entender que conceito tinha a poeta sobre o que era um ser humano. Sobre si mesmo, toda a sua obra o revela como vítima da perseguição de todas as potestades conjugadas. A sua obra lírica é uma resposta a esse abandono essencial.

Em conformidade com essa mesma ideia, ao terminar o canto I d’Os Lusíadas, Camões define o ser humano como um ente perseguido pelos elementos: “Onde pode acolher-se um fraco humano,/ Onde terá segura a curta vida/ Que não se arme, e se indigne o Céu sereno/ Contra um bicho da terra tão pequeno”.

Nestes versos, se reconhece o conceito renascentista, o da grande solidão do ser humano e a sua luta estóica contra, centrada na confiança em si mesmo.

Mas, na prática, essa atitude representava uma orfandade orgulhosa que facilmente a fortuna não reconhecia. Curiosamente, no final da vida, o corpo nu de Camões só teve um lençol, o oferecido, a separá-lo da terra. Igual à sorte do seu corpo, essa sorte não difere daquela que mereceram os corpos dos escravos aqui em Lagos.

Mas entretanto, no século XIX, o direito à proteção beneficiada pelo Estado começou a emergir. Criaram-se documentos essenciais tendo em vista o respeito pelos cidadãos. Depois das duas guerras mundiais do século XX, foi redigida e aprovada a Carta dos Direitos Humanos e, durante algumas décadas, foi tentado implantá-los como código de referência um pouco por todo o mundo. Só que ultimamente regride-se a cada dia que passa.

O conceito de representatividade respeitável da figura do Chefe de Estado, oriundo do povo grego, princípio que sustentou a trama purificadora das tragédias clássicas, a que se juntou depois o princípio da exemplaridade colhida dos Evangelhos, essa conduta que fazia com que o rei devesse ser o mais digno entre os dignos, está a ser subvertida.

A cultura digital subverteu a regra da exemplaridade. O escolhido passou a ser o menos exemplar, o menos preparado, o menos moderado, o que mais ofende.

Um Chefe de Estado de uma grande potência, durante um comício, pôde dizer: adoro-vos, adoro os pouco instruídos. E os pouco instruídos aplaudiram.

Pergunto, pois, qual é o conceito hoje em dia de ser humano? Como proteger esse valor que até há pouco funcionava e não funciona mais?

Hoje, dia de Portugal, de Camões e das comunidades, não será legítimo perguntar, sem querer ofender quem quer que seja, perguntar como manteremos a noção de ser humano respeitável, livre, digno, merecedor de ter acesso à verdade dos factos e à expressão da sua liberdade de consciência?

Nós, portugueses, não somos ricos. Somos pobres e injustos. Mas, ainda assim, derrubámos uma longuíssima ditadura e terminámos com a opressão que mantínhamos sobre diversos povos e com eles estabelecemos novas alianças e criámos uma comunidade de países de língua portuguesa. E fomos capazes de instaurar uma democracia e aderir a uma união de países livres e prósperos que desejam a paz.

Assim sendo, por certo que ainda não temos as respostas, mas, perante as incógnitas que nos assaltam, sabemos que temos a força.

Leio Camões, aquele que nunca mais morreu, e comovo-me com o seu destino, porque se alguma coisa tenho em comum com ele, que foi génio, e eu não sou, é a certeza de que partilho da sua ideia, de que um ser humano é um ser de resistência e de combate. É só preciso determinar a causa certa.

Muito obrigada.

 

[Discurso de Lídia Jorge. Lagos, 10.Junho.2025] 

domingo, maio 19, 2024

Aguiar-Branco, read my lips:
NÃO. NÃO PODE.


Em tudo nesta vida há linhas vermelhas. Liberdade de expressão é bom e eu gosto e que disso não haja dúvida nem venham cá os Segismundos, os Rufinos ou as Mariazinhas desta vida moer-me a paciência. 

Mas a liberdade de expressão acaba quando começa o insulto, a ofensa, o linguajar xenófono ou racista.

A nossa Assembleia da República é a casa da democracia onde os 'eleitos' nos representam, decidindo o que acham ser o melhor para os portugueses e zelando pelo bom cumprimento da nossa Constituição. É uma casa aberta onde o que ali se passa pode ser visto por todos, devendo dignificar e liberdade, o respeito, a democracia.

E, da mesma forma que não é suposto que os deputados por ali andem a roubar a carteira uns dos outros, a fazer chichi contra a parede ou a usarem palavrões quando usam da palavra, também não é suposto que profiram palavras xenófobas ou racistas pois, se isso for aceite aos deputados, será como se estivesse a ser legitimado para o resto da população.

Ora queremos ser uma sociedade civilizada, inclusiva, tolerante, humanista. Não queremos manifestações de ódio, de xenofobia, racistas. No dia em que, a pretexto da liberdade de expressão, elas sejam aceites, em que momento é que se vai considerar que se está a ir longe demais...?

Ou também é suposto que se, por exemplo, o André Ventura resolver pôr-se a mandar para o c... outro deputado ou disser, com todas as letras, que quer que os ciganos se f... ou se um qualquer outro fizer a saudação nazi ou, mesmo, acabe a seu discurso com um 'Heil Hitler', o Presidente da AR assobie para o lado alegando que, se um deputado quiser manifestar-se assim, está no seu direito e que se alguém se sentir incomodado, então, quando muito, que venha o Ministério Público e avalie se aquilo é crime ou não....?

Aguiar-Branco deveria repensar a sua posição, deveria pedir desculpa aos deputados e aos portugueses, e deveria retroceder e anunciar que, se, na Assembleia da República, alguém quiser portar-se desordeiramente, seja por ofender, insultar ou ameaçar raças ou povos ou pessoas individuais, não pode. Não. Não pode. Obviamente, não pode.

PS 1: Ver dois papagaios arruaceiros, um do PSD e outro da AD, a saltarem em defesa do Aguiar Branco e ver a bancada do Chega a aplaudir Aguiar-Branco é apoio de que ele deveria envergonhar-se.

PS 2: Este é o problema e o perigo da direita em Portugal (PSD, AD, Chega): há lá muita gente muito básica, muito ignorante, que não faz a mínima do que é a civilização, que não tem a noção do que é liberdade ou democracia. Portanto, é vê-los armados em bons, a saltar a pés juntos sobre gente digna e que deveria merecer respeito (vide a Hugo Soares de saias, ie, Maria do Rosário Ramalho), a mentir e insinuar maus actos a outros (vide o Miranda Sarmento, a inventar caos e colapsos onde eles não existem), a vociferar no Parlamento, a defender qualquer baboseira que qualquer um deles bolsa. Uma tristeza. E um perigo.

sábado, julho 04, 2020

Todos os seres humanos


Conta a minha mãe que se ia esvaindo em sofrimento e cansaço durante o tempo em que esteve cheia de dores e eu sem sair. Quando saí, não sabia de que cor era a minha pele nem de que cor era a pele da minha mãe ou a do meu pai. 

Foi já bem mais tarde que me apercebi que o cabelo da minha mãe era mais louro do que o das restantes mães ou vizinhas e conhecidas. Muito louro, levemente ondulado. Os seus olhos eram também mais azuis do que todos os outros que eu até então tinha visto. Em contrapartida, o cabelo do meu pai era muito preto, muito liso, e os seus olhos igualmente escuros.

A minha mãe tinha herdado os seus traços do pai que era muito alto, muito louro, com olhos muito azuis. O meu tio, irmão dela, herdou os traços da mãe, tinha cabelos escuros e olhos castanhos com alguns laivos de esverdeado. Do lado do meu pai,  também ele saíu à sua mãe enquanto o irmão saíu ao pai, parece que herdou os injustificáveis traços um pouco orientais do meu avô.

E eu acabei por ser uma mistura dos meus pais e a minha prima mais velha a mistura dos seus pais. Olhando para ambas, ninguém diria que temos alguma coisa em comum. Contudo, curiosamente a filha dela é parecida comigo, não apenas fisicamente como, ao que parece, na maneira de ser. 

Do lado dos meus primos do lado da minha mãe, fisicamente pouco temos em comum. O meu primo tem o dobro da minha altura e metade da minha largura. A minha prima talvez tenha uma maneira de ser parecida com a minha mas fisicamente não tem nada a ver. Sempre a achei interessante, desde pequena que sempre a achei diferente. Fisicamente e no sorriso, comparo-a à Julia Roberts. Contudo, ninguém percebe essa minha comparação. 

Calhou cada um de nós ser assim, sair assim. Não fomos tidos nem achados para sermos como somos nem para termos nascido onde nascemos. Se os nossos antecedentes fossem negros, tivessem traços índios ou quaisquer outros, também nós teríamos saído diferentes. E, provavelmente, teríamos tido oportunidades diferentes. E, se em vez de termos nascido numa cidade tranquila, em ambiente de paz, tivessemos nascido num local em guerra, pobre, inseguro, certamente toda a nossa vida teria sido bem diferente.

E, no entanto, também não teríamos sido tidos nem achados para tal.

Porque tudo isto é tão óbvio, tão la paliciano, custa a perceber como é possível haver gente tão burra que se ache no direito de tratar de maneira diferente os outros consoante a cor da sua pele, a sua raça, a sua condição.

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All Human Beings


Vídeo de Yulia Mahr

Declaration Readings: Eleanor Roosevelt, Kiki Layne, Hiba Sellaoui
"The opening words of the declaration, drafted in 1948, are “All human beings are are born free and equal in dignity and rights.” These inspiring words are a guiding principle for the whole declaration but, looking around at the world we have made in the decades since they were written, it is clear that we have forgotten them. The recent brutal events in the US, leading to the tragic deaths of George Floyd and Breonna Taylor, as well as countless other abuses around the world, are proof of that.  At such times it is easy to feel hopeless but, just as the problems of our world are of our own making, so the solutions can be. While the past is fixed, the future is yet unwritten, and the declaration sets out an uplifting vision of a better and fairer world that is within our reach if we choose it. VOICES is a musical space to reconnect with these inspiring principles and Yulia’s striking film depicts this inspiration in a beautiful way, while offering a glimpse into her full length film of our project to come”
Music video by Max Richter performing Richter: All Human Beings. © 2020 

domingo, junho 07, 2020

Lift every voice and sing




Pouco evoluímos. É certo que estamos mais digitais e que isso é bom mas, na verdade, em concreto, não sei quantificar o aumento de felicidade que isso tem trazido à nossa vida. Ao longo de anos venho repetindo (em contexto profissional, claro) que o que não se pode medir é como se não existisse. Portanto, se não consigo quantificar o aumento de felicidade que a digitalização tem trazido às nossas vidas, mais vale nem dizer que é bom. Quanto muito, digo que é capaz de ser bom. No entanto, também não dizer bem dizer para quê. Ainda hoje ouvi umas pessoas sinistras dizerem, creio que na SIC, ufanas, que monitorizam por onde andamos e que conseguem prever tudo e mais alguma coisa. Tudo anonimizado, dizem. Deixámos, pois, de ser pessoas para sermos ID's, objectos que podem ser traceados -- rastreados, I mean --, meros dados que sustentam e validam algoritmos. Tão bom. Mas, enfim, há nisto da digitalização coisas mais poéticas. Por exemplo, estou a escrever e vejo que, neste preciso instante estão noventa e sete pessoas a ler o que por aqui vou escrevendo, setenta e sete das quais de Portugal. Mas também quatro da África do Sul, três dos Estados Unidos, dois do Brasil. Etc. Se não fosse isto da digitalização, estaria a escrever à mão, num caderno, e ninguém faria ideia do que eu estaria a garatujar. Mas em que é que ler o que eu escrevo traz felicidade a quem me lê? Eu gosto de ver que me lêem mas a verdade é que não sei quem são, não os conheço, não sei o que pensam do que escrevo. Algumas pessoas dizem que gostam e fico contente mas, também, de vez em quando, recebo comentários desagradáveis, gente que goza comigo, que me diz coisas ofensivas ou maldosas. Geralmente não publico essas coisas más. Não gosto de ser maltratada. Tento ignorar. Penso que se não gostam de aqui vir, porque vêm? Mas isto para dizer que, a bem dizer, também não posso concretizar de forma racional em que é que eu escrever aqui, à vista de toda a gente, é bom. É certo que há outros aspectos a reter nisto na digitalização: tudo desmaterializado, tudo circulando em cabos ou pelo ar, tudo ligado a tudo. É capaz de ser bom. Não sei é se, materialmente, isso tem contribuído para a nossa felicidade.


Também se tem evoluído na ciência. Mas um vírus da treta, uma variante de um corona que já por cá anda há que séculos, foi o suficiente para paralisar o mundo, para dar um coice em todo o sistema, para deixar toda a gente de máscara na cara e a ter medo de cada vez que alguém tosse perto do nosso cerco sanitário privativo. E uns dias isto cura-se com isto, outros com aquilo, e o brufen agudiza, o brufen cura, máscara não, máscara sim. Ninguém sabe. Um merdinhas de nada trocou as voltas à ciência toda, por junto. Até The Lancet, essa sumidade, meteu água e disse e desdisse que a hidroxicloroquina era e não era a solução ou parte dela. Portanto, ora abóbora.

E isto das supremacias, da religião disto e daquilo, crendices, seitas, grupos grupelhos -- tudo coisas que, por já terem provado ser atrasos de vida, burrices, crimes, já deveriam estar mortas e enterradas há séculos. Mas não, tudo vivinho da silva.


Um país como os Estados Unidos estar como está, nas mãos de um bronco que, por mais porcaria que faça, ainda continua a merecer o agrado de grande parte da população é coisa capaz de desmoralizar o mais optimista. Que tanta gente ainda seja tão alarvemente racista, tão alarvemente ignorante, tão alarvemente boçal, tão alarvemente abaixo de cão é coisa que me deixa doente. 

Não estamos a caminhar no bom sentido. Começo a achar que a democracia abriu demasiado as portas aos não democratas, que a liberdade abriu demasiado as portas aos seus inimigos, que os civilizados abriram demasiado as portas às cavalgaduras.


Não estamos a evoluir. Pelo menos não no bom sentido. Digo eu.... E, pior, não sei se ainda vamos a tempo de arrepiar caminho. O mal está muito espalhado.

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Por exemplo: há quanto tempo foi isto aqui em baixo gravado? Ontem?

Ou há décadas?

O que evoluímos desde então?



Por isso:

Lift every voice ando sing



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Fotografias de Robert Mapplethorpe ao som do piano de Nina Simone.

Excerto de "Ounce of Faith" de Darrell Grand Moultrie dançado por Khalia Campbell do Alvin Ailey American Dance Theater
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E é ir deslizando por aí abaixo. 
E um bom domingo.

I am the master of my fate, I am the captain of my soul



And yet the menace of the years
      Finds and shall find me unafraid.


Flor de Robert Mapplethorpe
Invictus de William Ernest Henley dito por Morgan Freeman

People of colour are being failed by the system -- diz Banksy



At first I thought I should just shut up and listen to black people about this issue. But why would I do that? It’s not their problem, it’s mine.
People of colour are being failed by the system. The white system. Like a broken pipe flooding the apartment of the people living downstairs. The faulty system is making their life a misery, but it’s not their job to fix it. They can’t, no one will let them in the apartment upstairs.
This is a white problem. And if white people don’t fix it, someone will have to come upstairs and kick the door in.

[Ler aqui: Banksy supports Black Lives Matter with latest artwork]

sábado, junho 06, 2020

Pôr Trump a ridículo dizendo nada, apenas mexendo os lábios.
[Post com outras coisas dentro como, por exemplo, duas selfies, algumas flores e outras imagens colhidas in heaven]







Não tenho andado a dormir muito bem. Acordo muito cedo e não volto a adormecer. Como me deito tarde, isso traduz-se em poucas horas de sono. Hoje pensei que, a seguir ao almoço, durante uns minutos, poderia descansar, quiçá, até, passar pelas brasas. Reclinei-me mas não adormeci. De resto, logo tocou o telefone. Pensei que, a seguir ao jantar, talvez adormecesse. Mas não adormeci. Tenho a sensação que a minha cabeça trabalha de mais e descansa de menos.

Ligo a televisão na esperança de ouvir música de qualidade, ver documentários de arte, entrevistas a arquitectos ou pintores. Ou bailados. Sinto que o mundo precisa de algum silêncio. Precisa de uma pausa. Isolamento no meio da floresta. Contemplação silenciosa do mar ou do voo de um pássaro. Gostava de ver documentários sobre jardins. Gostava de ouvir dizer poemas. Gostava de ouvir falar pessoas que falem uma língua nova, que falem de filmes, de músicas, de compositores, de escritores. Podia ser um filme sobre Virginia Woolf. Ou sobre José Rodrigues Miguéis. Gente que lesse trechos seus, que falasse sobre ele, passagens da sua vida e dos seus gostos, a música de que gostava, os cozinhados que mais apreciava. Coisas assim. Ou sobre Menez. E quem diz esses, diz outros.


Também podia ser outra coisa: pessoas normais conversando sobre assuntos banais, conversando entre si. Só isso. De vez em quando algum silêncio, de vez em quando alguma música.

Se eu tivesse um programa de televisão, convidava algumas pessoas que eu cá sei. Sentava-me com elas num terraço com flores, pedia a essas pessoas que escolhessem umas músicas, e deixava-me ficar a conversar com elas. Gosto de fazer perguntas que deixam as pessoas caladas, apanhadas desprevenidas, sem saberem como responder. Depois, ao fim de um bocado, porque não querem deixar de corresponder, começam a falar e começam a ficar surpeendidas e entusiasmadas com o que as suas palavras dizem. Depois fico calada, apenas a ouvir. As pessoas conversam muito facilmente comigo, fazem-me as mais inesperadas confissões. Depois, daria o braço ao convidado e iria passear com ele pelo jardim. A música continuaria a tocar até ao entardecer. Ao cair da noite subiríamos para o terraço e continuaríamos a conversar. Sobre livros, sobre músicas, sobre músicos.


Também poderia ver uma história de amor se passasse alguma na televisão. Uma insólita e bela história de amor. O amor vivido através de memórias. O amor vivido através de cartas. O amor através de ausências, silêncios, demi mots. 

Um dia vou escrever guiões para filmes. Uns vão ser eróticos, quase escandalosos. Outros românticos, deliciosamente românticos. Outros de morrer a rir. Só de pensar já fico numa impaciência para me dedicar a isso. O pior é que só consigo escrever de noite. De dia tenho que viver como se não houvesse a noite. E à noite vivo como se não houvesse o dia.

Enfim.


Mas não há disso na nossa televisão. Ligo e vejo as coisas do costume, ouço falar de crimes, de mortos, vejo os mesmos comentadores de sempre a falarem dos mesmos assuntos de sempre. Geralmente falam da actualidade. E a actualidade é, por definição, perecível, coisa permanentemente condenada a ser passado. Salvo raras excepções, é coisa que começa a desinteressar-me. Quero coisa nova, rasgo, perfume bom, gesto de amor, rasto de raposa, pegada de leopardo, caligrafia desenhada a tinta permanente, compreensão, carícia ao de leve, música irreal, mistura de cores, vontade de uma janela aberta para o desconhecido, gato atravessando a noite, uma música vinda de longe. Não é pedir muito, acho eu.


Então, como não encontro isso na televisão, nos meus tempos livres sento-me no sofá, abro a janela, ouço o canto oculto dos pássaros, vejo o seu saltitar colorido aqui mesmo à frente, ou saio para andar pelo campo, fotografo a luz e as sombras -- tantas fotografias, sempre os mesmos motivos -- ausento-me da actualidade que as televisões me mostram, ausento-me de mim, tento que esta suavidade descanse a minha cabeça.

Depois, quando a noite se adentra pela madrugada, ponho-me a ver os vídeos que o meu amigo algoritmo me mostra, divirto-me, irrito-me, agonio-me, desculpo o mundo, desconforto-me, sorrio, penso, preparo-me para a noite breve e para um novo dia.


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E os vídeos que o algoritmo hoje achou que eu ia apreciar são estes

Sarah Cooper, a Grande -- Trump e a Bíblia





O palhaço-mor e a bela e estranha múmia paralítica


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Um bom sábado!

sexta-feira, junho 05, 2020

A vez daqueles a quem um joelho tem sido posto sobre o pescoço


Não sei se é só a cor da pele. É também a pobreza intrínseca, a humildade indefesa. Os cobardes não gostam de sentir a coragem por perto. Tudo fazem para pôr a pata em cima, para atirar por terra e pôr o joelho dobrado em cima do pescoço de quem está na mó de baixo. Dos cobardes não são de esperar gestos de respeito quanto mais de nobreza. Os cobardes rapidamente passam de medíocres a maus, é só aparecer-lhes a oportunidade.

Não é só aos negros.

Já vi tratar assim um homem branco que estava com uma depressão, fragilizado. O chefe, que temia a competência do subordinado, tirou-lhe funções, marginalizou-o, fê-lo sentir-se ainda mais um merdas, alguém sem valor, sem futuro, alguém que se sentia envergonhado por ter que expor a sua humilhação quotidiana. Na prática, o chefe pôs-lhe a patorra em cima, esmagou-o.

Já vi um bronco, que se sentia desafiado pela franqueza e conhecimentos de uma jovem, esvaziá-la de funções, tentar dobrá-la, humilhá-la e, quando ela estava grávida, em termo de gravidez, tentar que fosse dispensada (leia-se: despedida), dizia ele que era porque ela não tinha funções e ele não tinha qualquer trabalho para lhe dar. Não era negra: era mulher, jovem, grávida, branca.

Mas, também, os negros simplesmente pr serem negros. Já estive numa sala de reuniões apinhada e, havendo necessidade de chamar um técnico e sendo ele negro, ouvi um grande executivo dizer no gozo: 'olha, conseguiu resolver, tem esperto na escabeça.'. Era um jovem, a prazo, negro. Fez um sorriso envergonhado e saíu da sala, de cabeça baixa. Nenhum de nós teve a coragem que ele teve pois, se a tivessemos tido, teríamos dito que apenas continuaríamos na sala se o cobarde saísse. Somos nós todos, com a nossa delicadeza, que deixamos que os cobardes vão ganhando terreno.

Em todo o lado em que houver um estúpido, ignorante, bronco e, sobretudo, cobarde, qualquer pessoa indefesa estará em risco. Somos nós, os civilizados, que temos que aprender a ser mais corajosos.

Gente assim deve ser tratada com desprezo, deve rir-se-lhe na cara, deve mostrar-se que não se tem medo, e, se se puder chegar perto, quando a besta menos esperar, deve chegar-se-lhe perto, agarrar-lhe os tomates e apertar até que a besta guinche de dor, espanto e vergonha. Ou dar-lhe uma valente joelhada, deixá-lo cair de joelhos a ganir. Se for uma mulher a fazer-lhe isso deve ter um copo de café na mão e, a seguir, despejar-lhe em cima. Digo café para ser coisa com cor que se veja, para que fique ainda mais ridículo, aspecto borrado. Mas, sendo um homem, o que deve fazer depois de o deixar a ganir agarrado aos tomates, é mijar-lhe em cima. À cara podre.

No caso de Trump, os guarda-costas deveriam unir-se e fazer um cordão em sua volta para que fique isolado e alguém possa penetrar nesse círculo de segurança e fazer-lhe isso. Com as câmaras a filmar. Para que no Face, no Insta, no Twitter, no YouTube e em todo o lugar possível passem as imagens da besta a ser humilhada. E em todo o lado por onde também passe a boneca-insuflada, Ivanka de seu nome, alguém deveria passar-lhe uma rasteira e fazê-la ir ao chão. De preferência, deveria ser alguém com um cão pela mão para que o cão lhe mije em cima.

O que se passou com George Floyd foi apenas mais um caso nuns Estados Unidos degradados, desunidos, aparvalhados, assaraapantados, embrutecidos. Um caso limite, chocante, em directo. Alguém que morreu à vista de todos, assassinado por quem deveria defendê-lo. Quem o assassinou foi alguém que se sentiu com poder para vergar um homem, para o asfixiar até à morte, alguém da raça do Trump, do Bolsonaro, alguém arraçado de besta quadrada, de cavalgadura, de tiranete de opereta bufa e mal ensaiada.

Não tenho querido falar nisto. Não gosto de falar a quente. Não gosto de falar quando acho que a situação é tão grave que não bastam palavras. Em situações assim penso que é necessário que a revolta seja forte, eficaz, que o troco seja dado na mesma moeda. Não desejo a morte de ninguém, nem sequer de Trump, de Bolsonaro ou do polícia que asfixiou George Floyd até à morte. Mas desejo que haja forma de os neutralizar politicamente e de os condenar, por todos os meios disponíveis em democracia, por todos os crimes que cometem.

E, enquanto andam à solta, que nenhuma voz se cale.

Como Al Sharpton.



Ou Anderson Cooper:



E, entretanto, que os indefesos não percam a esperança, se mantenham vivos e fortes até que o seu dia chegue -- como Archie Williams de quem soube através do MCS.

Don’t Let the Sun Go Down



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A todos desejo uma boa sexta-feira.

quarta-feira, junho 03, 2020

O que não se diz





Somos complicados, difíceis de descodificar. Eu, pelo menos, sou. Especialmente para mim. Por vezes faço coisas para as quais não tenho explicação. Algumas não tenho feito ultimamente. Outras, sim.

Aceitei. Do outro lado ouvi um suspiro. Senti que era de alívio. Depois a voz bem disposta. Quando acrescentei: 'Mas há condições...'. Um ui... e um pré-susto: 'Não...'. Sosseguei-o: 'Nada de transcendente'. Quando lhe disse quais eram as condições, tentou dissuadir-me. Dei luta. Mas a fase que se segue vai ser complicada, a fase de sair de um lado para mergulhar noutro. Isto se não houver obstáculos. O tipo de coisa para a qual não tenho grande apetência. Negociações em que sou o objecto da negociação. Mas, enfim, decidi o que queria: um salto no escuro. Um turbilhão. Podia recuar e ficar mais sossegada. Mas os turbilhões, o desconhecido e as grandes lutas atraem-me. Dizem que tenho punch. Dizem que tenho killer instinct. Talvez. Mas nada como o que já fui. Mas, volta e meia, ainda acorda em mim a vontade de. No outro dia, numa reunião, cilindrei um. Cilindrar é a palavra. Estrebuchou durante uns segundos, depois não teve hipótese. Mas não me arrependo. Se numa organização está meio mundo a querer ir em frente e a ver que o timoneiro os está a arrastar para o fundo do mar, vamos continuar a assistir passivamente? Vamos continuar a estar com paninhos quentes, a deixar que um navio inteiro vá ao fundo para não ferir a susceptibilidade de uma pessoa que, nitidamente, está ali por um absurdo erro de casting que ninguém ousa assumir? Eu acho que não. E acho que não é caso para grandes conversas, basta um sumário chega para lá. 

Mas isto para dizer que sei que, daqui em diante, mil vezes me irei perguntar porque é que me fui meter em tal empreitada. 


Tantas vezes isso aconteceu. É como a montanha russa. Morro de pavor. Grito feita doida. Quando estou lá em cima e parece que vou despenhar-me -- dizer adeus à vida, ser projectada a milhas -- pergunto-me porque me foi meter naquilo. E, no entanto, sabendo disso tudo, vou. Não fui muitas vezes. Mas fui. De cada vez, lá estando, arrependi-me e culpei-me e incompreendi-me. Mas, mesmo antecipadamente sabendo disso, fui.

E agora, de novo, é assim. Não é a primeira vez. Antes fosse. Mas não é. E, no entanto, a vontade, a secreta vontade que tenho, é que acelere. Que comece a subir, que suba até não se saber como será a descida.

Mas isto a nível profissional. A nível pessoal não sou assim. Sou mais de me afastar. Se alguém não me interessa, não perco tempo, não arranjo briga, não faço fofoca, não tento tirar razões. Não, dou um byezinho e fecho a porta. Ou se me apercebo que a pessoa é das tóxicas, das que se fazem amiguinhas, muito lovezinho, muito chamego, muita conversinha, mas que, na primeira curva, nos vão apunhalar pelas costas, que é gente sempre com o saquinho de veneno à espreita de ser derramado, então quero é distância, não gosto de bicho ruim, gente com costela de capeta. Ná. Fecho a porta e aqui não entra mais. E uma vez a porta fechada, para sempre permanecerá fechada, não há force majeure ou act of god que me faça abri-la.

Mas, no passado. Jovem. Coisas de que não me arrependo mas que não compreendo. Incomodam-me especialmente porque não encontro explicação.


Por exemplo, gostava muito do meu namorado. De um muito especial. Gostava muito. E ele de mim. Mas, para mim, aquilo ali era amor desproporcionado, era incondicional de mais. Não gosto que gostem de mim dessa maneira, é responsabilidade a mais. Às escondidas dele andava com vontade de um bocado de mau caminho. Queria contestação, queria luta, mano a mano, corpo a corpo. Não gosto de altar, muito menos de estar nele. Então, um dia, acabei. Acabei. Indiferente ao seu sofrimento, saturada de tanto amor, danada por me perder, acabei com ele. Não quis saber de 'dar tempo', não quis saber de dar explicações. Queria apenas acabar. E acabei.

Ninguém percebeu: namoro tão bonito. Quem é que vira costas a um tamanho amor? Censurada. Incapaz de explicar. Parecia futilidade, leviandade. Paciência: que parecesse. E senti-me livre, feliz da vida. Dias depois, caí em mim: 'O que é que fui fazer?'. E parecia-me uma estupidez. Pensava: 'Onde é que alguma vez na vida vou arranjar quem goste tanto de mim assim?. E pensava nele, certamente triste. Então, fiz uma coisa completamente absurda, inexplicável. Nessa altura não havia telemóveis. Sou do século passado, já devem ter percebido. E havia, nesses idos, uma coisa que, certamente, já acabou há vários séculos: o telegrama. Ou seja, deu-me um ataque de arrependimento e romantismo -- e enviei-lhe um telegrama, dizendo que o amava e a marcar encontro com ele num certo jardim. Mal o telegrama seguiu, arrependi-me logo: 'Caraças, que é que fui fazer...?'. Mas no dia aprazado lá estava. Quando ele me viu, avançou a rir, feliz, e eu para ele, atormentada com a minha incoerência, mas ele abraçou-me feliz, beijou-me, e eu deixei-me abraçar, deixei-me beijar. E, certamente, retribuí. E, no entanto, desde sempre eu soube que ele não era o que iria tirar-me o chão, impedir-me de estar em qualquer pedestal, desorientar-me, desarmar-me. Lembro-me bem da felicidade dele nesse dia. E eu não é que não estivesse feliz. Se calhar até estava. Mas sabia que, no fundo, no fundo, tudo aquilo era um equívoco e que chegaria o dia em que o faria sofrer a sério, de forma irremediável.


Se recordo isto é porque, na minha cabeça, ficou registado como uma coisa que eu preferia que não tivesse acontecido. E, no entanto, vivi dias bem passados e sei que ele, nesse tempo, foi muito feliz. E depois como saberemos nós o que vai acontecer-nos no futuro? Como saberemos se viremos a lamentar fazê-lo? Quem nos diz que não lamentaríamos mais se não o tivéssemos feito? Como saberemos que o que, para nós, no nosso íntimo, é uma situação dúbia, não é um momento de inesquecível felicidade para outra pessoa? E não será isso mais importante do que a dúvida para sempre a ferroar-nos a consciência? Não sei.

E agora acho que isto são coisas que não interessam para nada. A sinceridade extrema é boa para nós próprios, para a guardarmos para nós. Por vezes podemos partilhá-la. Outras vezes é melhor para toda a gente que guardemos as verdades profundas -- e isso apenas para um dia mais tarde, se quisermos, podermos avaliar, em consciência, se fizemos ou não a melhor escolha.

Amar pode ser, por vezes, à falta de melhor opção, o prazer de nos sentirmos amados, a vontade de que dê certo. E depois pode acontecer que, um dia, surja a oportunidade de darmos um pontapé nisso tudo e irmos à aventura, correr todos os riscos, experimentar o sabor único da sensação de nos estarmos a apaixonar. Mais uma vez. Como se fosse a primeira.
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Deliberadamente evito falar do que me sufoca. Alieno-me deixando que os dedos me afastem da asfixia que sinto, que a maioria de nós sente, ao ver os riscos que a democracia corre, ao ver o pouco que os humanos evoluíram, ao ver o que se passa à nossa volta. Deixei que a música e as imagens que a acompanham me levassem pelos caminhos da memória. É um lugar mais seguro que as ruas da realidade.

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As fotografias são de Doan Ly e acho que vão bem com Till Brönner -- que me foi dado a conhecer por uma pessoa a quem muito agradeço -- que aqui interpreta When I Fall in Love do album Chattin With Chet

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A todos desejo uma boa quarta-feira. 

terça-feira, fevereiro 18, 2020

Muito mal, Miguel Sousa Tavares, muito mal.
À sua conta e à da TVI, o André Ventura subiu mais uns pontos nas intenções de voto.



Ontem, por todos os canais onde se passava, lá estava o ataque à civilização e o Marega e os que não tinham apoiado o suficiente o Marega e mais o racismo!, racismo!, e a repugnância, e o fim da picada.

Parei as minhas leituras e fui ver de que se tratava: Marega, um jogador negro de aspecto possante, foi apupado e insultado e, muito compreensivelmente, fartou-se. E, mostrando que os tem no sítio, mandou os racistas irem dar banho ao cão e saíu do campo. 


Foi isto. A coisa conta-se, pois, em duas penadas -- e o repúdio, sendo veemente e convicto, em menos que isso. 

Pois hoje continua a não se falar noutra coisa. O tema devorou o coronavírus e a eutanásia. Um enxame de #somos.todos.marega e #abaixo.o.racismo.no.futebol invadiu os media. As televisões estão cheias de comentadores exaltados, todos na mesma, em roda: a mastigar, a regurgitar, a voltar a mastigar, a comerem o regurgitado uns dos outros -- em non stop.  Falam, falam e não acrescentam nada. Até porque não há mais nada a acrescentar. A argumentação perde eficácia quando repisada ad nauseam.

Depois, noutros fóruns, discute-se se somos ou não somos racistas. Diz-se de tudo. E tudo é verdade e mentira ao mesmo tempo pelo que vale dizer tudo e o seu contrário. Uma discussão fútil levada a cabo por gente que parece descerebrada. Parece que é preciso pôr um rótulo colectivo e, como não é fácil pôr o mesmo rótulo na cabeça de dez milhões de pessoas, não saem do mesmo sítio. Em algumas pessoas, parece haver necessidade de auto-punição como se, pelo facto de uns serem racistas, todos termos que ser. E, uma vez mais, com generalizações, lá se perde a eficácia e objectividade da argumentação.
Ainda hoje, um conhecido meu, ao falar numa outra situação que nada tem a ver com o futebol, dizia que tinham arranjado 'meia dúzia de pretos' para irem fazer um certo trabalho. Devo ter feito uma cara de espanto pois caíu nele e disse, a rir: 'Caraças, ainda aparece para aí um Marega a chamar-me racista'. 
Ora eu, do que lhe conheço, não consigo dizer que seja racista. É ultramontano e bota de elástico, é provinciano e, cá para mim, tem um parafuso a menos. Mas posso concluir que os portugueses, no seu conjunto, são racistas lá porque um zé-cueca se sai com uma parvoíce daquelas? Claro que não. Por cada um que se sai com tiradas parvas há outros tantos e muito mais que conseguem falar sem dizer parvoíces.
Agora uma coisa que eu acho ainda mais parva, mas mesmo completamente parva, é o Miguel Sousa Tavares, no noticiário da TVI, ter lá levado o André Ventura para o confrontar sobre este tema e sobre a sua reacção. 

Um bailarico. O André Ventura pôs o Miguel Sousa Tavares a rodopiar, a dançar de fininho.

O André Ventura não é parvo. Tem boa memória. É uma verdadeira picareta falante. E não tem escrúpulos. Como bom populista que é, mistura coisas acertadas, fáceis de perceber, coloca-se do lado do zé-povo -- os simples, os bons, os que dizem as verdades -- e contra os intelectuais e políticos que têm a mania que são inteligentes e que só querem mostrar a sua superioridade perante o dito zé-povo. E, logicamente, o que sai dali é um cocktail bom de beber, que escorrega que nem ginjas pela goela dos incautos, ingénuos, desiludidos da vida, rebeldes sem causa.

Portanto, se o Miguel Sousa Tavares pensou que ia enquadrar o André Ventura, esteve muito longe de o conseguir. O que levou foi uma abada. Perante um André Ventura desenvolto e aguerrido, sempre colado ao povo, o que se viu foi um Miguel a ouvir e calar, incapaz de conter a torrente verbal do grande demagogo que é o Ventura. 

Façam muito mais favores destes ao Chega, façam, e depois venham ganir baixinho e chuchar no dedo sem saberem o que fazer perante a ascensão do bicho. Continuem a dar-lhe palco e verão como, num ápice, ele papa o CDS, devora as pernas ao PSD e se torna charneira na Assembleia. 

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Ai Chega, Chega...

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[E queiram descer um pouco mais caso queiram saber de mais uma do 'alarmismo militante da TSF']

sábado, setembro 16, 2017

Alô, alô António Guerreiro! Se o Henrique Raposo é fascista, olhe lá que ele deve é ter um certo défice a nível dos ditos 'colhões'.
O meu marido e a Passadeira Vermelha.
Roupa unisexo para mulheres que gostavam de ser homens
Os cuidados a ter quando se ouve miar no telhado.
Jorge Jesus e a Pley-Steichão.
E, para terminar, um exemplo de publicidade racista

1.

O Henrique Raposo segundo o António Guerreiro





Nos tempos em que eu devia estar parva e que contrariava o meu marido, comprando o Expresso -- ele a achar que aquilo se tinha tornado um pasquim e eu, por inércia, ainda a manter o hábito de comprar o saco -- não conseguia ler aquele sujeitinho que gosta de se armar em MEC do subúrbio, escrevendo porcarias como se estivesse a escrever coisas engraçadas. Pensava: 'Este Expresso, de facto, só pode estar a virar um pasquim, para descer ao ponto de dar coluna em página de relevo a uma coisa como este Raposo'. E não lia. Por vezes tentava, forçava-me, aferia se não seria preconceito meu. Não era.

Nada do que escreve se aproveita: é um palerma encartado que, cá para mim, apenas agrada às sopeiras mentais que, para se armarem em pafiosas, se devotam a ler o Expresso.

No outro fim de semana, para ler a entrevista com a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, voltei a arreliar o meu marido. Ele nem lhe toca (refiro-me ao jornal). Eu não, vou de cabo a raso. Contudo, por higiene intelectual, saltei algumas coisas. E, lá está, deitei o olho à coluna do dito Henrique Raposo. Mas a indigência argumentativa, o desinteresse daquela prosa rasteira, a estupidez metodológica de trazer as teorias para o beco em que a sua mente se move, avacalhando todas as ideias em que toca, tudo isso me faz fugir a sete pés. Aquela prosa agonia.

Foi, pois, com gáudio que hoje vi nos blogs que aqui tenho ao lado referência ao belo artigo de António Guerreiro no Público que, com a sua arte e acutilância, deu o nome aos bois. Como se reconhece um fascista, ensina ele.


A partir de agora não deve haver quem se dê ao trabalho de ler aquelas porcarias que o Raposo babuja sem que, de imediato, se recorde: 'Olha, cá está o fascistazinho'.

Só uma observação. Segundo António Guerreiro, os fascistas gostam de mostrar que têm -- e passo a citar -- colhões. Diz ele: O fascista “tem colhões” e gosta de os mostrar. Isto é suficiente para definir um pequeno fascista. Pois, lamento que aí António Guerreiro tenha sido um pouco ligeiro. Eles gostam de exibir o que, de facto, não têm. Pelo menos no plural. Explico. Sabe-se que, por exemplo, Hitler só tinha um testículo (para além de um pequeno pénis retorcido). Franco também só tinha um, embora aí não fosse de nascença, parece que o perdeu. Por rigor taxonómico não devo incluir o Napoleão neste naipe mas também só tinha um. Portanto, isto de se pensar que todos os que gostam de se armar em machos-alfas são muito bem fornecidos pode ser mero empolamento auto-publicitário.

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Passadeira Vermelha na SIC Caras



Estávamos aqui num desentendimento. Nada de jeito na televisão, eu a cirandar na net, ele a ouvir comentários de futebol. Mas a dormir. Subrepticiamente, eu esticava o braço e sacava-lhe o comando. Mal sentia, acordava e agarrava o comando. E ali ficava ele a dormir e eu a ouvir os comentários de futebol. E, meus Caros, aqueles comentários são do mais surreal que se possa imaginar. Riem, zangam-se, insinuam, repetem-se. Uma coisa do além. Até que impus a minha vontade. Pus-me a fazer zapping e deixei ficar no debate. E ele, instantaneamente acordado, todo mandão, que isso é que não. E eu também sem vontade de debate mas a não querer sair derrotada. Pus-me, então, a fazer mais zapping. Se lhe parecia ver o Láparo, a Cristas ou qualquer outro desses, logo: 'Eh pá, isso é que não'. Até que passei pela SIC Caras e estava a dar um programa chamado Passadeira Vermelha. Decretei: 'Pronto. Fica aqui.'. Ele não reagiu. Pensei: 'Agora vais ver a pastilha que eu tenho que gramar...' Ficou mesmo ali. Estava o Cláudio Ramos, uma Liliana qualquer coisa, uma de quem não me lembro o nome mas que tem uma voz meio abrutalhada e cabelo cor-de-laranja e a Luisa Castel-Branco. Pelo cartaz que aqui coloquei, vejo que faltava a Ana Marques, apresentadora por quem tenho simpatia, até pela sua querida mãe. Falavam nem se sabe bem de quê. Pois bem. Dei por mim a olhar para aquilo, estupefacta. E, para meu espanto, o meu marido também acordadinho e a olhar atentamente para aquilo. Gozei: 'Olha, olha... Quem havia de dizer... Olha a atenção dele...'. Assentiu: 'Eh pá, ainda não percebi o que é isto'. Fui eu que não percebi: 'Não percebeste o quê?'. E ele: 'Eh pá, não percebo nada: não sei de que é que elas estão a falar, não percebo nada do que dizem'. E eu: 'Mas olha, vi-te todo acordado a olhar para elas. E ele: 'Eh pá, a ver se consigo perceber alguma coisa'.

De facto. Uma maluqueira sem explicação. Não se aproveita nada.


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Momento publicitário: Moda unisexo. 

Roupa cor de rosa para meninas que gostam de ser meninas e roupa azul para meninas que gostavam de ser meninos


Models walk the runway at the Pam Hogg show during London Fashion Week
(The Guardian)

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Um gato no telhado


📞 - Alô, é dos Bombeiros?
         🚒 - É sim!
📞  - Ouço um miar debaixo do telhado. O que devo fazer?
        🚒  - É só você tirar a telha que o bichano sai.
📞  - Tá bom, obrigadinho.

(E olha o que aconteceu...)


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Jorge Jesus, the only and only, explica que isso de ganhar sempre ou de haver sempre goleadas (não percebi bem) não existe, só na PlayStation. E não se preocupa em dizê-lo com sotaque shakespeareano




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Publicidade politicamente incorrecta

Van Heusen, 1952. ‘The world’s smartest shirts’ -- Life

(Hoje completamente impensável)

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Brinde

Hit the road, Jack --  pelas pouco convencionais Sweet Sisters




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E, para já, é isto.

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