Música, por favor
Johann Strauss - Valsa de Viena
Na noite do baile, Ana dançou com o altivo carpinteiro (que surpreendeu toda a gente, de tal forma estava outro), dançou com o dono da oficina, com o presidente do município, com o rapaz das tintas e com vários outros pares. Se as mulheres a olhavam de soslaio, enciumadas pelo interesse que ela despertava nos homens, era coisa que não a afectava. Se falavam veladamente sobre algum possível romance com o carpinteiro, era coisa que também não lhe despertava qualquer interesse. Sempre fez o que quis, tendo como únicas preocupações o não magoar ninguém e o agir de acordo com a sua consciência. Se queriam comentar, censurar, especular, era coisa que não a preocupava minimamente. Sempre assim fora, não era agora que ia mudar. Se tivessem alguma coisa de relevante a dizer, que lhe dissessem a ela; se consideravam que era irrelevante e preferiam falar pelas costas, melhor, era da maneira que não a maçavam.
Naquele ambiente de baile e festa, Ana sentia que o carpinteiro estava talvez pouco à vontade mas era um homem orgulhoso, que respirava dignidade e, portanto, disfarçava muito bem a insegurança, ostentando altivez e indiferença. Ana apreciava muito a atitude, e, por vezes, atravessava o salão de braço dado com ele, mas com naturalidade, deliberadamente mostrando que não tinha nada a esconder.
Mas, sem saber porquê, estava um bocado inquieta. Talvez sentisse que aquela fase da sua vida estava a chegar ao fim, talvez sentisse saudades do que tinha deixado para trás, talvez a visita do outro dia a perturbasse, talvez não quisesse pensar na ideia de deixar a vila, estas pessoas tão afáveis, talvez lamentasse afastar-se do altivo carpinteiro - não sabia, era uma inquietação difusa.
No final do baile, o carpinteiro foi levá-la a casa. Ana convidou-o a entrar. Tenso, sem perceber bem qual o intuito e pensando também que no dia seguinte não se falaria noutra coisa, lá entrou.
No final do baile, o carpinteiro foi levá-la a casa. Ana convidou-o a entrar. Tenso, sem perceber bem qual o intuito e pensando também que no dia seguinte não se falaria noutra coisa, lá entrou.
Música, de novo, por favor
Bach, Misha Quint interpreta Air in the G String
Foram para o quintal, Ana escolheu uma música, depois foi pôr-se mais à vontade, arranjou um sumo fresco para cada um. 'Conte-me alguma coisa de si', pediu-lhe.
'Não sou disso, de conversas. Nem tenho nada a contar; mesmo que quisesse, não tenho nada, é tudo muito normal, sem interesse', disse em voz baixa o carpinteiro. Estas intimidades deixavam-no muito pouco à vontade.
'Tem, com certeza que tem, conte-me algumas coisas da sua vida, gosto de ouvir... conte-me...', Ana insistiu, queria mesmo escutar uma conversa mansa, lenta. Conversar sem pressa tranquilizava-a. Apetecia-lhe imenso ouvir a voz do carpinteiro, apetecia-lhe imenso ouvir uma conversa vinda da alma. 'Pode ser uma recordação marcante, memórias de outros tempos, ou então, fale de coisa nenhuma, ou do que pensa quanto está na carpintaria a afagar a madeira, qualquer coisa'.
Então ele começou na sua bela voz profunda, e a fala fluía, densa mas intangível: Aquilo de que me lembro (num presente que me parece também já passado) está cheio não só de estranhezas e improbabilidades mas igualmente de vazios, de hesitações e imprecisões, pois se calhar não me recordo de factos mas da minha recordação deles. Pode por isso suceder que o que recordo não seja o que ouvi; ou que o tenha ouvido a outra pessoa, noutro lugar, noutras circunstâncias; ou mesmo que o tenha eu próprio sonhado ou imaginado. Ouvi e li muitas coisas desde a minha distante primeira viagem ao estrangeiro, onde tudo (pelo menos aquilo de que me lembro) começa. Talvez, quem sabe?, nem essa viagem tenha acontecido, ou eu a tenha lido, ou ouvido contar a alguém. A matéria da memória é indefinida e insegura e nela, como na matéria da vida (e a vida é provavelmente apenas memória), se confundem acontecimentos e emoções, imagens e conjecturas, cuja origem nem sempre nos é dado com clareza reconhecer e cuja finalidade a maior parte das vezes nos escapa. E, no entanto, é tudo o que temos, memória. Lembro-me, pois, como quem procura alguma coisa ou alguém, e amparo-me por isso cuidadosamente às minúcias como se caminhasse sobre um chão incerto ou como se receasse perder-me. Porque é talvez a mim mesmo (isto é, à minha memória) a quem, tantos anos depois, falo daquilo que me lembro.
Ana ouvia-o abismada, imóvel e em silêncio, não fosse a magia do momento perder-se. Ele falava baixo, era uma toada, e as palavras soavam a Ana como uma estranha música em que finalmente tudo parecia fazer sentido. A memória, o sonho, a interiorização, a matéria das emoções, a beleza das palavras puras, o assombro.
Ana sentia que as lágrimas estavam prestes a saltar-lhe tal a emoção que sentia. Não conseguia falar.
E o carpinteiro continuou falando assim e Ana sentia-se embalada, num colo, num berço macio.
Depois, já muito tarde, já toda a inquietação tinha saído do seu corpo, estava já ela tapada com uma manta e o carpinteiro ainda dizia, falando, então, da solidão na sua carpintaria:
O dia sobe sobre os surdos ruídos da casa
sobre os calendários que ninguém teve tempo de
tirar das paredes e agora prolongam nos nossos olhos
paisagens de rios e açudes que nunca
existiram em lado nenhum a não ser
na saudade que alguém há-de ter deles
pelo meio de uma infância de aldeias
morrendo ao sol
e abrimos os livros que tínhamos deixado
nas estantes cobertas de silêncio
e agora escorre a noite pelas paredes
desta casa que a tua ausência torna
subitamente enorme
mas, então, já Ana tinha adormecido, já não ouviu a última parte. E vendo-a assim, aninhada e adormecida, o carpinteiro pegou nela com muito cuidado e levou-a ao colo para o quarto. Depois tapou-a com carinho. Quando ia a sair, voltou atrás e deu-lhe um beijo na testa, chegando-lhe o cabelo para o lado.
O texto em prosa em itálico é um excerto do livro 'Os papéis de K.' de Manuel António Pina e o texto em itálico mas em poesia é um excerto de um poema de Alice Vieira pertencente ao livro 'O que dói às aves'.
E, já agora: hoje, lá no meu Ginjal e Lisboa as minhas palavras são confessionais e voam em volta do meu amor e de um poema de Maria do Rosário Pedreira. A música é de Donizetti.
Desculpem que me repita: caso tenham aterrado agora aqui e queiram ler a história de Ana desde o princípio, poderão procurar 'Ana muda de vida' nas etiquetas aí ao lado, mais para baixo.
Ana sentia que as lágrimas estavam prestes a saltar-lhe tal a emoção que sentia. Não conseguia falar.
E o carpinteiro continuou falando assim e Ana sentia-se embalada, num colo, num berço macio.
Depois, já muito tarde, já toda a inquietação tinha saído do seu corpo, estava já ela tapada com uma manta e o carpinteiro ainda dizia, falando, então, da solidão na sua carpintaria:
O dia sobe sobre os surdos ruídos da casa
sobre os calendários que ninguém teve tempo de
tirar das paredes e agora prolongam nos nossos olhos
paisagens de rios e açudes que nunca
existiram em lado nenhum a não ser
na saudade que alguém há-de ter deles
pelo meio de uma infância de aldeias
morrendo ao sol
e abrimos os livros que tínhamos deixado
nas estantes cobertas de silêncio
e agora escorre a noite pelas paredes
desta casa que a tua ausência torna
subitamente enorme
mas, então, já Ana tinha adormecido, já não ouviu a última parte. E vendo-a assim, aninhada e adormecida, o carpinteiro pegou nela com muito cuidado e levou-a ao colo para o quarto. Depois tapou-a com carinho. Quando ia a sair, voltou atrás e deu-lhe um beijo na testa, chegando-lhe o cabelo para o lado.
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O texto em prosa em itálico é um excerto do livro 'Os papéis de K.' de Manuel António Pina e o texto em itálico mas em poesia é um excerto de um poema de Alice Vieira pertencente ao livro 'O que dói às aves'.
E, já agora: hoje, lá no meu Ginjal e Lisboa as minhas palavras são confessionais e voam em volta do meu amor e de um poema de Maria do Rosário Pedreira. A música é de Donizetti.
Desculpem que me repita: caso tenham aterrado agora aqui e queiram ler a história de Ana desde o princípio, poderão procurar 'Ana muda de vida' nas etiquetas aí ao lado, mais para baixo.
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E, já sabem, desejo-vos, meus Caros Leitores, uma belíssima quinta feira.
Aproveitem bem cada pequeno instante da vossa vida. E, claro, divirtam-se, está bem?