Mostrar mensagens com a etiqueta Max Richter. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Max Richter. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, outubro 28, 2024

O tempo dos cogumelos

 











Hesitei ao dar o título a este post. Pensei em escrever 'o tempo da magia'. Para mim, o que se passa é mágico. Até há pouco tempo a terra estava seca. Agora, com as chuvas, todos os dias dela irrompem estes pequenos seres. 

Já ontem aqui falei neles. Aliás, todos os anos, por estas alturas, falo deles. Fascinam-me. Nascem já feitos. Vêem-se a levantar a terra e as folhas secas que têm em cima. Se são grandes, nascem logo grandes. E, apesar de virem de dentro da terra molhada, vêm limpos. Os brancos, por exemplo, vêm imaculados. Dá ideia que depois sacodem os grãos de terra pois aparecem polvilhados mas depois ficam limpinhos.


E, com o auxílio da Lens do Google, já vi que tenho cá uns lindos branquinhos que são super-venenosos, nomeadamente os que aqui mostro. Vamos ter que arrancá-los pois embora o nosso cão nunca tenha mostrado interesse por cogumelos, não fico descansada enquanto eles ali estiverem.

Alguns, no dia ou dias seguintes, aparecem com bocados a menos, presumo que haja quem ande por ali a banquetear-se.




A propósito, há bocado fiz iscas para o jantar. Quando ia cozinhar, resolvi ir apanhar umas folhinhas de louro e um pé de alecrim. Mas, com a mudança da hora, já era de noite. Liguei a lanterna do telemóvel e lá fui. Pois bem, digo-vos: fez-me um bocado de impressão. Ao pé de mim, ouvi correr. Não sei se era gato, coelho ou outro bicho mas nitidamente ouvi uns pezinhos a correrem ao meu lado. Depois uns barulhinhos não identificados. Voltei rapidamente enquanto pensava que para a próxima tenho que me abastecer durante o dia. Nem tão cedo me apanham em incursões nocturnas...

Mas não é só da terra que irrompem os cogumelos. Até das nesguinhas de musgo que se formam de  pequenas brechas nos caminhos de pedra eles nascem. Uma coisa extraordinária (mágica, não é?)

Depois, ou porque são comidos ou porque secam, ao fim de poucos dias desaparecem. Nem fica rasto deles.

Fiz não sei quantas fotografias. Encanto-me.

E, ao fim do dia, com o sol dourado por entre as árvores, foi aquela paz que me invade e que me deixa feliz e agradecida.


E portanto, para resumir, o que posso dizer é que por aqui ando, tranquila, descansada e bem disposta, um misto de estar de férias, de ser turista e de ser uma criança à descoberta de tudo.

____________________________________________________

Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira.

Saúde. Boa disposição. Paz.

terça-feira, outubro 01, 2024

Como sou bem mandada, cá estão eles...

 

Enquanto as televisões dão conta de foguetório aceso lá pelos médios orientes, com algumas botas a marcharem a caminho de terreno proibido, refugio-me no meu mundinho suave, banhado a outono e a ouro, onde ninguém maltrata ninguém, onde se fala de escritas e de leituras, em que se cultiva a afabilidade e não a animosidade.

Portanto, é por aí que hoje vou.

Ando geralmente pelas margens. Tento descobrir a escrita genuína, aquela em que não se encontram bolas de efeito, em que as palavras estão junto à respiração, em que não há banalidades enfatuadas mas em que se escreve sobre verdades desabitadas, em que se visitam ruínas ocupadas pelo silêncio.

É verdade que muitos dos blogs em que a escrita escorreita fluía vão rareando. Desmotivaram-se os seus autores, desertaram talvez para redes mais socialites; ou simplesmente cansaram-se. Muito gostaria eu que o Pedro Mexia, a Ana de Amesterdão, o Vítor das Âncoras e Nefelibatas e todos os outros que na minha lista de Frescos e Bons (à direita) aparecem bem cá para baixo já que não publicam há séculos voltassem a aparecer e a aquecer a blogosfera. 

De qualquer forma, vou continuando a acompanhar os fiéis e devotos que ainda se mantêm no activo. E ainda os há dos bons. 

E, também eu, não perco o que dizem. São apontamentos, são registos no livro de horas dos seus autores, são desabafos, são conselhos. São boas companhias.


No outro dia foi a Susana que falou na Maria Judite de Carvalho e nas suas saborosas crónicas. Agora, mais recentemente, foi o Mr. Xilre que falou na Alba de Céspedes com o seu Caderno Perdido (também aqui). Também a Maria do Rosário Pedreira referiu o Escrever de Stephen King e o Hoje Caviar, amanhã Sardinhas da Carmen Posadas e do irmão Gervasio.

Portanto, fui em busca desses frutos que se anunciaram gostosos, maduros.

Juntei-lhe um livro da Martha Medeiros pois tenho lido que os seus livros de crónicas se vendem como pãezinhos quentes e eu, que gosto tanto de ler crónicas (apesar de me dizerem que em Portugal o género Crónica é mal amado e pouco procurado), quero perceber quais as razões de tal sucesso.

E o Nexus do Harari porque claro que sim, é muito cá de casa, e porque o meu marido tem lido de fio a pavio todos os livros dele e estava à espera que este cá chegasse, e um outro também para ele, A História do Mundo do Peter Frankopan de quem já leu As Rotas da Seda.

Nos idos de outras eras, antes de nos termos desiludido de vez com o Expresso, gostava de ler as suas críticas literárias. Mas também havia críticas muito balofas, muito tontas. 

Por isso, agora, sem Expresso e sem gurus a opinarem sobre isto e aquilo, bebo com avidez sugestões que vou colhendo aqui e ali, nomeadamente na nossa querida blogosfera. 

Vamos é agora ver como me oriento para me deitar a eles (refiro-me aos livros, claro), tanto mais que as pilhas dos não lidos vão crescendo nos lugares estratégicos, ameaçando desabar quando lá pousar o próximo.

Mas é tão bom ver chegar bichinhos novos, cheios de mundinhos por descobrir, cheios de palavrinhas boas...

_____________________________________________________

E, agradecendo aos bloggers que se mantêm no activo, despeço-me por hoje desejando a todos, bloggers e não bloggers, uma bela terça-feira. 

segunda-feira, setembro 19, 2022

Uma tarde dourada de um verão que está prestes a entregar-se nos braços do outono

[Post com uma espécie de culinária dentro]

 



Tarde em família. O sol bom, a temperatura amena, o ambiente tranquilo. Os meninos sempre felizes por estarem juntos. Aliás, primeiro chegou a turma da minha filha e os meninos, em especial o mais novo, estavam numa inquietação, só a querer que ligássemos ao tio, já inquietos com receio que se atrasassem ou não viessem. Por fim, apesar de insistirmos para se deixar estar quieto, acabou ele ligando ao tio. Para eles, quaisquer deles, quando sabem que vão estar todos, parece que a tarde não se concretiza enquanto não estão todos. 

De manhã, depois da nossa caminhada e antes de almoço, fomos os dois ao supermercado. Não sabíamos bem o que fazer para o lanche e, por isso, indo os dois, íamos validando as opções. Gosto de fazer lanches reforçados pois, como a tarde dá sempre para tarde, na prática, se quiserem, podem ir daqui quase jantados. Além disso, como felizmente apetite não lhes falta, mais vale jogarmos pelo seguro.

  • Começámos por escolher dois pães grandes com aspecto de pão de forma, um de Rio Maior e outro, salvo erro, de centeio da Baviera. Coloquei-os logo na máquina de fatiar, fatias finas. Para a próxima será mais prudente fatiar mais um daqueles pães. É que, apesar de nos parecer muitas fatias, voaram todas.
  • Para uma espécie de sobremesa, trouxemos também bolas de Berlim, por acaso sem creme, e uns muffins de chocolate. E também gelados.
  • Vieram também nectarinas e uvas. Gosto sempre que comam fruta. Apesar da fruta se dever comer depois da sobremesa, eu inverto a ordem dos factores para os motivar a comer fruta e gosto de dizer que sobremesa apenas para quem come primeiro a fruta.
  • Comprei um frango assado. Comprei batatas fritas. 
  • Comprei tomate maduro. 
  • E queijo fresco de barrar, guacamole, presunto e salmão fumado.

E, portanto, quando à tarde vi que estavam já a ficar com apetite, dirigi-me à cozinha onde o meu partner já me esperava para a preparação.

TOSTAS

Pus o forno a aquecer e, enquanto isso, o meu marido encheu as grelhas com fatias de pão. Quando o forno estava quente, deu-se início à operação. Só foram retirados quando o pão já estava não apenas quentinho mas, sobretudo, mais sequinho, mais tostadinho.

Entretanto, numa tigela coloquei um tomate grande, maduro, sem pele, cortado aos bocados. Juntei um bom bocado de azeite e um pouco de orégãos. Com a varinha mágica, triturei até estar uma pastinha quase macia. Num prato, colocámos tostas, com o pão de Rio Maior, barrado com essa pasta de tomate.

Outro prato ficou com tostas barradas com guacamole e com presunto por cima. 

Outro com tostas barradas com queijo e com salmão por cima. 

E mais dois pratos mistos.

Quando perguntei ao meu novo o que gostava mais no pão, respondeu: 'ovos mexidos' e eu pensei cá para mim: 'oh caraças... e era mesmo para ter feito também tostas com ovo mexido em cima... e, caneco, esqueci-me...!'. Já combinei com o meu marido que, para a próxima, não podemos esquecer-nos. Foi uma gaffe e tanto.


Fiz ainda um tabuleiro de ursa. Creio que já aqui expliquei como faço mas, just in case, aqui vai de novo. 

URSA

Desossei e cortei aos bocadinhos o frango assado e coloquei-os no tabuleiro. Por cima, cortei uma meia dúzia de tomates maduros aos cubinhos. Por cima, coloquei batatas fritas. Temperei com um pouco de maionese e um bocado de ketchup. Envolvi. Antes tinha cozido meia dúzia de ovos que depois coloquei em água fria mas mais facilmente descascar e para os arrefecer. Piquei-os por cima e polvilhei com orégãos. 

Era para ter comprado azeitonas pretas descaroçadas mas esqueci-me. Originalmente, deverá levar um pouco de cebola picada mas, para nenhum menino embirrar, não pus. Ainda pensei colocar uma maçã cortada aos cubinhos pois a maçã fica sempre lindamente, refresca, mas também me esqueci. Mas, ainda assim, ficou boa. Pelo menos, gostaram.

Para beber, água e a bebida preferida dos meninos: bongos. Os mais crescidos também gostam.

Eu só provei um pouco da tosta com tomate. Não costume lanchar, não tenho fome a esta hora. O meu marido também apenas tasquinhou. Para ele, preparou um gin. Mas, para mim, preparou um copo com bongo, rum, gelo, raspa de lima e dois bagos de uva. Bem bom.

Depois da turma do meu filho sair, eu e o meu marido e a minha filha fomos caminhar. O resto do pessoal ficou em casa pois estavam a ver um jogo de futebol que devia ser importante. 

E é isto. Um dia muito bom. Daqui a nada começa o outono e estas tardes longas em que podemos estar na rua até ao cair da noite já apenas serão possíveis com um casaquinho. Mas no problem, todos os dias são bons para estarmos juntos.

_____________________________________________________________

As pinturas são da autoria de J. M. W. Turner e vêm na companhia de On the Nature of Daylight de Max Richter por Sophie e Josie Davis, violino, Colin Wheatley, viola, Ju Young Lee, violoncelo

____________________________________________________

Desejo-vos uma boa semana, a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Afecto. Alegria. Paz.

segunda-feira, junho 20, 2022

E esta sou eu

 


Qual a vez em que foi mais feliz?
Mais ainda do que quando nasceram os meus filhos -- e foi uma felicidade imensa--, quando nasceu cada um dos meus netos. 

Qual o seu maior medo?
Tudo o que se relacione com a saúde e/ou a felicidade dos meus filhos, dos meus netos, do meu marido e da minha mãe

Qual a pessoa viva que neste momento mais admira e porquê?
Zelensky. A coragem, a determinação e o respeito pelo voto que recebeu dos seus eleitores merece-me muito respeito e admiração

Qual a característica que mais deplora em si?
A impaciência

Qual a característica que mais deplora nos outros?
A desonestidade intelectual

À parte as casas, qual a coisa mais cara que já comprou?
Livros

Descreva-se em três palavras.
Optimista, determinada, curiosa

O que a torna infeliz?
Ver como o populismo, a hipocrisia e a estupidez são ilimitadas, omnipresentes e poderosas

O mais lhe desagrada na sua aparência?
Os quatro ou cinco quilos que tenho a mais. Para me ver livre deles terei que abdicar persistentemente de comer o que me apetece e, como abdicar do que gosto e ser disciplinada são coisas que não estão no meu ADN, é com pena que constato que, se calhar, nem tão cedo me livrarei deles.

Se pudesse dar vida a alguma coisa já extinta, o que escolheria?

Um pinheiro grande, lindo, plantado pelo meu pai, que tombou e se perdeu irremediavelmente num dia de ventania

Que livro se envergonha de não ter lido?
Não sou muito dada a vergonhas. No caso dos livros, se há livros que gostaria de ler, espero ainda lê-los.

Preferiria fama ou anonimato?
Anonimato, claro.

Qual o seu prazer mais pecaminoso?
Não sei o que são pecados. Actos reprováveis, sim. Todos os meus prazeres são altamente aprováveis.

O que deve aos seus pais?
Não sei se devo (no sentido de ser algo que tenho em dívida por regularizar). O que aprendi com eles e que tenho sempre muito presente é o valor do trabalho e, também, o valor da honestidade absoluta, seja sob que perspectiva for, seja em que circunstância for. 

O que ou quem é o maior amor da sua vida?
Os meus filhos e os meus netos, o meu marido

Já alguma vez disse ‘amo-te’ sem que isso tivesse qualquer significado?
Não me dá jeito dizer 'amo-te'. Não me soa bem. Sílabas mudas não me parece que representem bem um sentimento que se quer bem forte. Também não sou muito de andar a dizer 'gosto de ti'. Acho desnecessário, uma redundância. A quem o digo de forma espontânea é aos meus netos mas isso é porque tudo com eles é novo, inocente, ainda não vulgarizado. Gosto de lhes dizer 'gosto muito de ti'. De resto, em geral, provo o meu amor em actos. De todas as vezes que o digo, sou totalmente sincera.

Qual o pior trabalho que já teve?
Quando era professora do ensino secundário, o período de mês e meio em que estava a fazer o estágio. O orientador era maluco, era preciso fazer planos, fichas e mais não sei o quê, coisas que me pareciam uma perda de tempo, uma macacada. Tudo aquilo me parecia uma banhada, uma absurda burocracia, um pesadelo. Mudei de trabalho sem pensar duas vezes.

Qual foi o seu maior desapontamento?
Na sequência de um processo de fusão, houve uma reorganização e uma redistribuição de funções e eu, que antes acumulava duas funções, perdi a função de que mais gostava porque o administrador que tinha o pelouro era do outro accionista e escolheu uma outra pessoa da sua confiança, por sinal incompetente e desonesta.

Qual a sua maior conquista?
Conseguir ter uma vida profissional motivante e recompensadora mantendo sempre como primeira e inalienável prioridade a família.

Qual o seu contacto mais próximo com a lei?
Não terá sido o mais próximo mas, de todos, o que mais me tocou foi o primeiro: quando fui testemunha de um amigo cuja mulher lhe tinha movido um processo injusto e infame. 

O que lhe tira o sono?
O cansaço extremo

Preferiria ter mais sexo, mais dinheiro ou mais fama?
Dinheiro, porque sexo tenho que baste e fama não quero.

Qual a lição mais importante que a vida lhe ensinou?
Que tudo é efémero e que os que se julgavam todo-poderosos, eternos e arrogantes, também adoecem, também ficam vulneráveis, também morrem

Como quer ser lembrada?
Gostava de ser lembrada com carinho. Mas, na realidade, como cá não estarei para o testemunhar, não penso nisso, não estou nem aí.


-------------------------------------------------------------------------------------

As perguntas a que acima respondi são as que Rosanna Greenstreet colocou a Fran Lebowitz no Guardian

Em alguns casos, gostei tanto das respostas que a minha vontade era papagueá-las. Mas não. Estas são mesmo as minhas. Sem pensar muito e, em alguns casos, francamente redutoras. Mas não vale a pena complicar. Noutro dia posso responder outra vez e, provavelmente, as respostas sairão diferentes, quiçá mais fiéis ao que sou. Mas, também, sei lá quem sou... 

Cheguei à entrevista pela mão do João.

 As fotografias foram feitas in heaven.

Era para ter escrito isto ontem mas, para mal dos meus pecados, não consegui pois, inesperadamente, foi dia e noite de juízo, uma directa das antigas. Cheguei a casa às sete da manhã, felizmente com notícias razoáveis e a minha mãe já em casa, sentindo-se bem e livre do susto que apanhámos. Pelo meio, de madrugada, enquanto esperava pelo resultado de exames e tentava espantar os receios, consegui escrever o post-ito a que dei o desinspirado nome de Vinham os dois ali mas só o mais alto se vê

------------------------------------------------------------------------------

Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

Saúde. Confiança. Força. Paz.

sexta-feira, junho 17, 2022

O mamilo da freira que habita in heaven

 


Tentei não castigar as almas mais sensíveis, lembrei-me de tapar o mamilo da portuguese nun com uma flor. Mas não fui bem sucedida. O mamilo está visível. Que desvie o olhar quem não suporte ver o botão florido de um seio de mulher.

A impudica monja que segura o seio desnudo com a sua mão oferece-o aqui à vista de quem quiser olhá-lo. Não sei porque está ela assim. Estará a pensar no seu bem amado? Chorará o seu inacessível amor amparando a tristeza de um seio abandonado? Ou estará a ver-se ao espelho, a explorar a sua própria sensualidade, sonhando no que poderá fazer com ela?

Quem souber que guarde o segredo para si. Há segredos que devem permanecer assim, envoltos em mistério, em lembranças, em subtis e evanescentes rêveries.

quarta-feira, agosto 25, 2021

O medo de se ficar sozinho

 


Nunca vivi sozinha. Enquanto pequena vivi com os meus pais, ficando, por vezes, em casa dos meus avós. 

Quando acabei o liceu fui em passeio com sete ou oito conhecidos e mais uns trinta desconhecidos passar um mês num país africano. 

Namorava nessa altura. Lembro-me do meu namorado muito emocionado no aeroporto e eu já toda entusiasmada com a aventura que se perspectivava. Foi um mês de múltiplas revelações. Acho que nem por um dia senti saudades do namorado. E não sei se isso diz muito sobre o que eu sentia por ele ou se diz da minha natureza. O que for.

Quando regressei, fui viver para uma residência de estudantes. Apesar de me dar bem com os meus pais, continuar a viver permanentemente com eles afigurava-se-me fora de questão. Tinha acabado de fazer dezassete anos. O ambiente de bairro e o controlo que a comunidade exercia nos seus membros e o receio que os meus pais tinham de que eu me tornasse objecto de falatório era-me insuportável. Ansiava por liberdade. Depois, por razões diversas, saí da residência e fui para um quarto. O namorado e os amigos eram uma presença constante com a graça adicional de que, entretanto, me tinha apaixonado por um desconhecido que me trazia de coração alvoroçado. Pouco depos, durante uns meses, vivi uma vida dupla. Nuns dias namorava com um, noutros andava inseparavelmente com outro.

Já o contei várias vezes pelo que abrevio.

Quando se tornou impossível gerir a situação, acabei com o namorado e caí nos braços do desconhecido. Algum tempo depois casei-me com ele. Tinha vinte anos. E algum tempo depois veio uma filha e algum tempo depois um filho. E vieram os primos dos filhos e os filhos dos amigos. A casa estava sempre cheia. E o tempo passou a correr e a filha arranjou um namorado e o meu filho uma namorada. E os namorados vieram cá a casa. E algum tempo depois a minha filha saiu para ir viver com o namorado e depois foi o meu filho que saiu para ir viver com a namorada. Entretanto casaram-se e começaram a chegar os filhos deles. Cinco. A casa foi-se enchendo.

E tal como os meus filhos vieram com os seus companheiros, um dia destes hão-de os meus netos começar a trazer os seus próprios companheiros e serão muito bem vindos.

A preocupação é o tamanho da mesa ou haver mesas adicionais que se juntem. E cadeiras. E bancos adicionais.

Por isso, viver sozinha nunca vivi. Nunca fui sozinha à praia ou ao cinema. Nunca levei o carro a lavar. Nunca usei um berbequim. 

Mas uso este 'nunca' com a convicção que, no dia em que precisar, irei, farei. É assim porque aconteceu assim. Calhou ter tido a sorte do desconhecido me ter saído melhor do que a encomenda e de ter nele o companheiro presente, atento e dedicado, compreensivo e amoroso, bem humorado, culto, bom pai e bom avô, bom genro e bom amigo que justifica a sua presença ao meu lado há tantos anos. Se o não fosse já o teria rifado há séculos. Não suportaria ter dentro de casa alguém que não fosse o meu homem, sendo que, para ser o meu homem, tem que ter tudo o que acho fundamental e não apenas uma parte. Nestas coisas não se podem fazer concessões: ou se é tudo ou não se é nada. Não tem que ser perfeito ou não tem que ser um santo: tem é que ser o nosso homem. Isto no meu caso que sou hetero. Se fosse homo, seria a minha mulher mas teria que ser identicamente completa. Um meio homem, um meio companheiro, uma mariazinha que uns dias sim mas outros não, um zé cueca que põe a sua agenda à frente da vida a dois, um coiseca que se acha o máximo descurando a atenção e mimo que eu acho que mereço, eu e qualquer mulher ou qualquer homem, seria rifado de imediato. Santa paciência.

Teria que ir à praia sozinha, teria que atinar com o berbequim ou teria que ir sozinha ao restaurante. Acredito que não seja a melhor coisa do mundo mas é certamente melhor do que uma pessoa anular a  sua autoestima para fazer de conta que tolera ou que aprecia a pouca coisa que o pouca-coisa tem para dar. 

E depois há a família e os amigos para fazerem companhia. E há as oportunidades que estão sempre a aparecer, assim a gente esteja disponível para as perceber e aproveitar.

Não posso falar de experiências que não tive. Posso apenas imaginar.

Se vivesse sozinha não teria a quem me encostar nas noites frias. Mas, pelo contrário, não teria um corpo quente a encostar-se a mim nas noites de calor. Há sempre um lado bom em tudo.

Sinceramente, não sei como seria comigo se me visse sozinha, sem companheiro. Se me puser a pensar nisso, acho que depois da estranheza de ter que me virar sozinha em coisas com que hoje não tenho que me preocupar (colocar pesados varões para cortinados, pintar muros, andar com uma roçadora a cortar mato ou coisas afins), me sentiria como me senti quando, adolescente, estive um mês num país africano que não conhecia, maioritariamente rodeada de desconhecidos, a viver situações até então desconhecidas... e feliz, feliz da vida, cada dia uma descoberta, cada dia um imenso sentimento de liberdade. À distância de algumas décadas penso que foi pena foi não ter aproveitado ainda mais. Se fosse hoje, com as facilidades que hoje há, provavelmente teria ido viver (fosse para estudar, fosse para trabalhar), nem que fosse durante uns meses ou um ano, num país desconhecido. Gosto do desconhecido.

Mas, na altura, com a cultura e os hábitos de então e porque o lado familiar sempre esteve muito presente em mim, foi como foi e ainda bem que assim foi. Mas sei bem que há muitas maneiras de uma pessoa se sentir realizada e feliz e muitas delas não passam por um casamento de longa duração como o meu.

E vem isto a propósito de um vídeo que hoje me apareceu: The high price we pay for our fear of loneliness

Ainda hei-de perceber o racional do algoritmo do YouTube. Creio que muitas vezes atira o barro à parede e, a partir dos vídeos que despertam o meu interesse, levando-me a abri-los e vê-los até ao fim, vai desenhando o meu mindset: Esta gosta de macacada, de arte, de arquitectura, de decoração, de política, de jardinagem, de música, de dança, de psicologia, de poesia... e, portanto, deixa cá ver o que é que se arranja para aqui a ver se ela morde o isco.

Quando eu partilho alguns vídeos deve ser a apoteose algorítmica e, portanto, a partir daí é iguaria que não falha no menu.

E estava a ver o vídeo acima referido e, a seguir, apareceu um outro que também me pareceu relevante. The fear of being alone and narcissistic relationships. Muito interessante e, creio, muito esclarecedor.

Pode a maioria das pessoas andar preocupada com matérias mais filosóficas ou mais prementes na actualidade e toda esta conversa soar a nonsense típico da silly season. Talvez. Mas acredito que, para além do eu-social ou do eu-político, há em todos nós o eu-eu que dá atenção a temas que têm a ver com assuntos mais pessoais. Por isso, tenho esperança que o tema deste post seja útil para alguns de vós que, aí desse lado, me ouvem a respirar.

________________________________________________

The High Price We Pay for Our Fear of Loneliness

We often make some very peculiar and regrettable choices on the basis of a hidden and unmentioned fear: that of being alone. But once we realise that there isn't, in fact, anything to fear about being on our own, we'll be liberated to make some far healthier decisions.


The fear of being alone and narcissistic relationships



__________________________

Fotografias de Niki Colemont photoshopada por Necromechanimal ao som de Max Richter em Flowers Of Herself

Nota: Tive dúvidas no título. Deverá ser como escrevi 'O medo de se ficar sozinho' ou 'O medo de se viver sozinho' ou 'medo de se estar sozinho ' ou 'o medo da solidão? Não sei. O que acham?

______________________________________

Desejo-vos um dia bom.
Saúde. Alegria. Confiança. 

terça-feira, junho 29, 2021

O amola-tesouras, o teletrabalho, o ritmo da vida

 



Íamos a fazer a nossa caminhada, agora mais breve que antes, quando passou um senhor a pé, com a sua bicicleta ao lado. Depois puxou da sua pequena harmónica e fez aquele toque que é chamamento e que, antes, diziam que prenunciava a chuva. Fiquei quase tão admirada como se tivesse visto um ET. Aqui? Um amola-tesouras? 

Havia um senhor, recordo que mantinha a distância, um desconhecido que passava de vez em quando no bairro onde moravam as minhas avós ou, raramente, na rua onde morava com os meus pais. Não sei se seria o mesmo. A ideia que tenho é que era uma pessoa esquiva. Mas isso foi num outro mundo, nuns outros tempos.

Agora... aqui...? Ao fim de tanto tempo, ainda se afiam facas, tesouras ou restauram chapéus de chuva? Há instrumentos de afiar a baixo custo por todo o lado. E, por defeito ou por definição, os chapéus de chuva não se deitam fora quando se partem? 

Fiquei intrigada. Por vezes acontecem umas coisas que parecem vindas de outra galáxias, pessoas que respiram de outra maneira e vivem num outro comprimento de onda. Tendo a imaginar que serão pessoas especiais, com muitas histórias de vida, algumas capazes de andar com um cortejo de borboletas atrás ou com mil livros na cabeça. Mas se calhar é romantismo meu. 

Também ando intrigada com os passarinhos que por aqui andam. Aproximam-se cada vez mais. De manhã, gosto de abrir a porta da cozinha e ficar ali, junto ao pequeno terraço onde está o estendal e um estreito canteiro. Do outro lado da vedação há dois arbustos altos que tombam para aqui e que pertencem à casa dos vizinhos. De vez em quando o meu marido apara-os pois diz que fazem muita porcaria. Não me incomoda aquilo a que ele chama porcaria pois, na verdade, são florzinhas que caem. Varro-as para o canteiro. Mas ele diz que não está para andar curvado para não bater com a cabeça nas hastes carregadas de flores. Mais do que flores, são florzinhas e bagas e são uma tentação para os pássaros. Por vezes ficam no ar, parados, a bater as asas, enquanto decidem o que vão fazer. Depois mergulham rapidamente para logo depois saírem com umas baguinhas no bico. Não se importam que eu esteja ali mesmo ao lado. E eu fico fascinada a ver aqueles bailados aéreos. 

E cantam muito. Uns trinados de dar gosto. Verdadeiros concertos. Nós ali e eles cantando na maior liberdade e alegria.

No domingo, eu a mostrar à minha mãe o vasinho da hortênsia, vimos um passarinho a saltitar por ali, depois pousado no beiral do vasinho. Nós tão perto e ele ali, a brincar. Sentem-nos como inofensivos, apenas uns seres de uma qualquer outra raça que não os incomoda.

Tenho conseguido, agora, descansar mais e dosear melhor a carga horária do meu trabalho. 

Leio que o mundo laboral não vai voltar a ser o que era antes da Covid. Espero bem que sim. Mas ainda há muitos velhos do restelo em lugares de poder, gente incapaz de perceber que as coisas podem mesmo mudar. Nem todas as profissões se prestam ao teletrabalho mas aquelas em que é indiferente o local em que a pessoa está deveriam favorecê-lo bastante, sempre que as pessoas assim o desejem. Pode acontecer que as pessoas não tenham condições e prefiram deslocar-se diariamente. Se assim for, deverá ser possível. O que isto significa é que terá que haver flexibilidade. O teletrabalho a cem por cento não me parece absolutamente bom pois algum contacto físico, de vez em quando, será sempre saudável -- mas em conjunto entre o trabalhador e o empregador deverá ser possível chegar a um bom compromisso para ambas as partes. A vida profissional não deve sugar a vida pessoal. Conseguir equilibrar o trabalho com a vida familiar e pessoal parece-me ser um dos grandes desígnios a prosseguir nos próximos tempos. Só espero que gestores retrógrados e sindicatos anquilosados consigam ver um pouco mais além e perceber que uma sociedade feliz é melhor para todos. 

Mas se a vida pessoal deve ganhar o destaque que merece, ao mesmo tempo, a vida profissional não deve ser desvalorizada, subalternizada. Não deve ser apenas uma forma de garantir a subsistência: deverá ser uma fonte de motivação e superação. E, se não é, deve encontrar-se maneira de ser.

E, ao dizer isto, só me ocorre que bem prega Frei Tomás. Ainda no outro dia a anterior proprietária desta casa voltou a desafiar-me para cursar jardinagem. E o que eu gostaria. Mas expliquei o que sempre explico: não consigo acomodar outra actividade. 

Mas devia. 

Jardinar, fotografar, ler, preguiçar, passear, conviver, ler todos os livros adiados. 


E devia ser capaz, ainda, de outra coisa: aprender a não esperar pela noite para escrever. Coisas assim. Coisas simples.

_______________________________________

Rhythm of Life

Life is like a dance, sometimes we know the steps and sometimes we make them up. Sometimes we follow the music and sometimes we make up our own tune. Sometimes we get our toes stepped on and sometimes we step on others toes. Sometimes you dance with a partner, and sometimes you dance alone. There are even times when we decide to sit out for a dance or two.  But the good thing about life is that we can always join the dance again when we are ready.

And it doesn’t matter if we know the steps or not, we can make them up as we go along. 

Perhaps it is time to try a few new steps?

________________________________________________________

As ilustrações são de Lisa Aisato que, aqui, se faz acompanhar por Max Richter que interpreta Storybook

_________________________________________________________

Desejo-vos um dia feliz
Saúde. Alegria. Força.

quarta-feira, março 31, 2021

Massajar o cérebro: extremely fucking satisfying

 



O meu dia foi, outra vez, cheio como um ovo. Hoje o meu marido, ao ver-me a colocar a roupa na máquina, referiu uma toalha que estava em cima da mesa. Perguntei-lhe de que mesa estava a falar. Disse-me que na mesa grande. Perguntei-lhe de que toalha estava a falar. Não estava a ver. Ele encolheu os ombros e disse: 'Não deves viver cá em casa'. Depois elucidou: uma toalha que eu própria tinha posto na mesa quando os miúdos cá estiveram para evitar que a riscassem já que, sem pensarem duas vezes, lá pousavam o que quer que fosse que tivessem na mão. Depois acrescentou: 'Trabalhas de mais, esgotas-te no trabalho'. E eu não disse nada. Penso que ele deve ter razão. De facto, este meu trabalho actual é esgotante. Mas, se calhar, sou eu que faço tudo tão intensamente, querendo resultados imediatos, querendo alcançar a meta para logo traçar outra, que não consigo trabalhar (e viver) de outra maneira.

Deste que me levantei até há pouco estive a trabalhar apenas com um breve intervalo para uma curta caminhada e um rápido almoço. Confesso que nem consegui tomar o pequeno-almoço pois, quando ia fazê-lo, recebi uma chamada que se prolongou até me deixar apenas tempo para colocar uns brinquinhos, prender o cabelo com um travessão e sentar-me, airosamente, em frente do computador para a primeira de várias reuniões. 

Por isso, se aqui estou não é que esteja descansada e precise de me entreter ou que me sinta inspirada ou porque tenha que aqui estar a pagar alguma promessa: é mesmo só porque me descansa a cabeça. E porque, também, faço o gosto aos dedos que gostam de se portar como inconsequentes bailarinos, saltitando sobre o teclado, indiferentes a cansaços, motivos ou descasos. O espírito espairece, os dedos brincam.

Já o contei muitas vezes: em tempos idos fazia tricot (camisolas, mantas), crochet (toalhas de renda), bordados (quadrinhos bordados a ponto pé de flor), tapetes de arraiolos, pinturas, colares e pulseiras. Pelo meio, durante uns tempos escrevi um livro (que se evaporou). Tudo noite adentro. Agora, e desde há uns anos, escrevo aqui, palavras que solto ao vento, sem fazer ideia do paradeiro que escolhem mal se soltam de mim. Mas penso que o motivo é sempre o mesmo motivo: arejar a cabeça, libertar as mãos.

Claro que, se fosse só distrair a mente, poderia deixar-me ficar a olhar para o líquido colorido ou o pó dourado escorrendo pelas ampulhetas ou pelas clepsidras que tenho aqui em casa mas não me dá muito para isso. Gosto imenso destes belos e delicados objectos mas vejo, viro, vejo e está visto. Também gosto de dar corda às duas caixinhas de música: ouço, vejo o mecanismo a rodar, gosto mas, quando a corda chega ao fim, está feito. Mas falta-me qualquer coisa: a minha interacção, as minhas mãos em acção.

Contudo, lembro-me do fascínio que alguns objectos de movimento infinito com imaginativo design me despertaram quando, na companhia de um casal amante de design, visitei galerias e lojas em Amesterdão. Quanta imaginação, quanta arte e engenho. Que surpresa eu sentia perante cada um.

Hoje descobri no The Guardian outro fantástico designer: Andreas Wannerstedt.

E leio: 

‘It can be quite meditative’

Scrolling through Andreas Wannerstedt’s Instagram is the digital equivalent of walking into a spa. There are soothing soundscapes and pastel tiles. It’s a curated escape from the mess and stress of the outside world.

This is all deliberate. The Swedish artist posts each animation – from a slowly twisting velvet rope to two halves of a brass ball clicking into place – with hashtags like #relax #calm, #satisfying and #sleep. He has nine volumes of a series called Oddly Satisfying, which fans lovingly describe as “soothing”, “hypnotising” and “extremely fucking satisfying”.

Vejam, por favor, o vídeo e, se quiserem ler o artigo completo, é só clicar no link: Hypnotic loops and self-soothing sounds: the rise of #OddlySatisfying and visual ASMR


The Swedish artist creating oddly satisfying visual ASMR



________________________________

Imagens das peças de Andreas Wannerstedt ao som de Mari Samuelsen a interpretar Fragment de  Max Richter

____________________________________________

Um dia feliz

terça-feira, março 16, 2021

Como as andorinhas na Primavera, os meus meninos começam a regressar

 



Esta semana começou especial, como ontem contei. Como é sabido, a semana começa ao domingo, dia de descanso. E dia de encontros. Vieram buscar as bicicletas para darem um passeio por aqui. E, mal chegaram, desataram a brincar, a andar de balouço, o mais novo foi logo buscar os carrinhos ao baú, a menina já tão crescidinha, o mano do meio cheio de força, num ápice a subir pela corda até ao cimo da árvore. Mas foi visita rápida, confinamento oblige. Fechados durante tanto tempo, hoje dois deles retomaram a escola e, portanto, a véspera foi para desopilar. 

E assim, boa, está a continuar esta minha semana. Tenho hóspedes. Têm a casa em obras, mudaram-se para cá. Como têm estado confinados e nós também, acreditamos que não vamos contagiar-nos uns aos outros.

Chegaram maiores, cabelos grandes, bem dispostos. Agarrei-me logo a eles. De dentro, o meu marido gritou por mim, com ar zangado. A minha filha adivinhou logo: 'ouviu'. Quando estou cheia de saudades, os meus beijos viram beijocas, efusivas e ruidosas. Quando entrei em casa, estava aborrecido: 'não tens cuidados nenhuns, a primeira coisa que fazes é agarrares-te a eles aos beijos'. Expliquei que acredito que estão desinfectados e, ademais, foi no pescoço, mais concretamente na nuca. Mas abracei-os, bem juntinhos a mim, e vá de beijocas. Não há-de ser nada. As saudades já eram muitas.

Mal mudaram de roupa e lancharam, foram para o andar de cima, cada um para o seu lugar preferido. E ao jantar, rica saúde, dá gosto vê-los, comeram que nem uns desalmados. Sopa de legumes e costeletas com couscous. Quando estava a fazer as costeletas, achei que eram demais, um exagero. Hesitei. O meu marido que, na altura, passava por ali, disse: 'Faz tudo, fica para o almoço'. E quando estava a cozinhá-las, tantas, pensei outra vez: um exagero. Afinal sobraram três. A minha filha diz que não sabe o que lhes dá, parece que ficam varados de fome. Comem, comem, e não ficam barrigudos e, segundo dizem, nem se sentem cheios. 

Quando acabaram, voltaram a correr para o andar de cima: o mais velho, que está mesmo quase da minha altura, para o cadeirão relax, com uma mantinha de veludo macio por cima, o mais novo, na mesa. Ambos jogando, felizes por estarem ali. Aquele espaço, todo só para eles, é o seu reino. 

Agora já dormem, claro. Estão em aulas. Ao jantar, a conversa foi sobre história de Portugal. O mais novo tem teste. Sabia bem a matéria. A fundação do reino. Batalhas, disputas, dramas familiares. O mano mais velho também ainda a tinha fresca. Quando passaram para a dinastia seguinte, o avô contou mais pormenores mas o mais crescido aconselhou o irmão a não usar essas informações pois não fazem parte da matéria escolar e a professora poderia não aceitar. Achei graça. 

Contudo, a nível profissional, o meu dia voltou a não ser especialmente fácil. Como em tudo na vida, também aqui há altos e baixos. Não é fácil agradar a gregos e troianos. Onde uns se sentem motivados e agradecidos, outros sentem-se pressionados ou pouco reconhecidos. E não andam à mesma velocidade e, por vezes, há quem tenhas sérias dificuldades em acertar o passo. Não é fácil orquestrar um grupo grande demais para tocarem todos afinados. Tenho, muitas vezes, que invocar todas as minhas forças para me manter firme, esperançada, com energia para convencer uns a fazer isto, outros aquilo, para explicar porque não podem ter isto se, antes, não fizerem aquilo, para os convencer a falar menos e focarem-me mais. Muito difícil. A Manuela Ferreira Leite disse uma vez que, para se conseguir uma certa coisa, só se houvesse ditadura durante uns tempos. Às vezes, isso ocorre-me. Seria mais fácil. Felizmente, é pensamento que rapidamente voa para bem longe. E, assim, no meio da saudável democracia, aturo queixas de uns e outros, assisto quase impotente a como se desfocam e perdem tempo e energias a discutir o que não interessa para nada.

Mas, enfim, esta semana vou tentar que tudo isso, todas as preocupações que diariamente se sucedem,  passem um pouco para segundo plano. Não me será fácil mas acho que devo tentar. Se pudesse tirava até uns dias de férias. Por sorte o tempo está a ajudar, um solinho quentinho de dar gosto. Uma primavera a vir devagar e com ares de vir a ser boa.

_______________________________

Hoje estou numa de rosas de Van Gogh. E, se me permitem, deixem que partilhe mais um vídeo de decoração. 

Tenho uma amiga que comprou um prédio na Baixa e dele fez uma casa com vários pisos e que, inclusivamente, tem um pequeno jardim e horta nas traseiras. Obra de arquitecto, claro, que soube transformar um prédio de pequenos e antiquados apartamentos numa casa incrível, ampla, moderna, cheia de luz. Claro que tem alguns escolhos. Por exemplo, diz que tem que ter um aspirador em cada piso para não andar a carregar com ele pelas escadas. Já está estruturada para poder vir a ter um elevador interior pois, como ela brinca, 'esta casa não é para velhos'. Tem a cozinha no que era a cave, a grande sala de estar no rés do chão, os quartos no primeiro andar, a biblioteca e o atelier nos dois últimos pisos. E tem um gato que se sente a viver num palácio.

E lembrei-me dela ao ver o vídeo abaixo.

Architect Barbara Weiss takes us on a tour of her upside-down house, a converted pub in Westminster


------------------------------

Uma feliz terça-feira
Sorrisos. Afectos. Sol.

sexta-feira, março 12, 2021

Sentámo-nos à sombra de uma árvore e ninguém tinha o coração por inimigo

 



Hoje de manhã estava numa reunião remota quando vi que tinha chegado uma mensagem de uma jovem, aliás já não tão jovem quanto isso, que não trabalhava directamente comigo na outra empresa mas em quem sempre reconheci muito mérito e com quem sempre simpatizei, valorizando-o junto da respectiva hierarquia e incentivando-a a nunca baixar os braços. Ao ver a sua mensagem, curiosa, pelo canto do olho, fui espreitar. Dizia-me que tinha sido promovida e que estava muito contente e que achava que eu também ia ficar contente por saber. Como estava em reunião, não pude deixar que a emoção que senti se manifestasse. Mas fiquei verdadeiramente feliz. Vai para uns nove ou dez meses que saí da empresa e ela nem sequer trabalhava comigo e, no entanto, agora lembrou-se de mim para partilhar a sua alegria. Não há muito foi outra jovem que me ligou para me dizer que tinha terminado o mestrado e para me dizer que tinha tido uma boa nota. Fiquei igualmente feliz. Incentivei-a, fiz com que lhe facilitassem a vida para poder suportar melhor os custos e para estudar. Quando me ligou, fiquei surpreendida. E, depois de ouvi-la, fiquei mesmo contente.

Hoje de tarde estive outra vez na empresa. Grandes mudanças, reviravolta das valentes, frutos já visíveis: quis estar junto de quem anda a dar o corpo ao manifesto. Para uma das missões mais impossíveis, trabalho duro sob todos os pontos de vista, achei que deveria ser um jovem que, à altura fazia um trabalho que nada tinha a ver. Ninguém percebeu a minha ideia, muito menos o próprio que achou que estava a ir de cavalo para burro. Disseram-me que ele dizia que não sabia que mal tinha feito para o irem enfiar a fazer aquilo. Tentaram demover-me. Sugeriram-me várias alternativas. Mas, quando meto uma na cabeça, vai lá vai. 

Pois bem: o trabalho que ele está a fazer é notável. Nunca tal imaginei. Na minha cabeça não havia outro que não ele para fazer aquilo que eu queria que fosse feito. Mas julguei que só se veriam frutos daqui por algum tempo. Está bem, está... Uma motivação, uma genica, um entusiasmo que me emociona. Depois de ele me levar a visitar o trabalho que tem feito, chefiando com denodo uma equipa que não era fácil, disse-lhe: 'Não queria vir para aqui, lembra-se?' Ele sorriu e disse que sim com a cabeça. Perguntei-lhe: 'E está a gostar do que está a fazer, não está?'. Ele sorriu de novo e disse que sim, que está a trabalhar muito porque há muito trabalho para fazer mas que, sim, está a gostar do que faz. E ouvi-lo dizer isso e vê-lo tão motivado, encheu-me de alegria. 

Passei por outro local. Antes um espaço em parte quase ao abandono, pessoas apáticas, hoje fervilhava de actividade. Ao chegar lá, parecia que tinha entrado num outro filme. A máscara não ajuda mas não conheci ninguém. No entanto, eles cumprimentavam-me e vi que sabiam quem sou. Acredito que eles não imaginam como gostei do que vi e como gostei que me tivessem cumprimentado da forma como me cumprimentaram. Pensei que gostaria de, para a próxima, lhes levar flores para lhes oferecer e para agradecer. 

Vim de lá feliz. 

Os dias vão passando. Não tarda, o risco de contágio estará mais controlado. Com Abril à vista, o tempo melhor começa a aproximar-se, o número de pessoas vacinadas vai aumentando, o suave sabor da liberdade de movimentos começa a fazer-se sentir. E isso é muito bom. 

Claro que, no meio destas boas expectativas e das alegrias que vão chegando até mim, algumas saudades pesam no meu peito: saudades pelos que o meu coração ama e têm estado fisicamente distantes, saudades pelos que se foram para sempre, saudades por aqueles com quem gostava de conversar e que se perderam na vida, saudades de alguns momentos com pessoas que antes estavam perto. Ainda no outro dia, ao conversar, lembrei-me de alguns colegas e amigos que me divertiam, inteligentes e bem humorados. Ao relembrar-me algumas situações, voltei a rir-me de gosto. A vida, tantas vezes, vai-nos levando por caminhos distintos. E a vida é mesmo assim, não conseguimos manter-nos sempre junto de todos os que vamos conhecendo, especialmente quando a vida nos vai levando por novos caminhos e trazendo novos caminhantes.

_________________________________________

E é isto. É tarde e não tarda tenho que estar a pé e, pior, sem tempo para acordar calmamente. Se há coisa que vai contra o meu biorritmo é ter uma reunião mal acabo de me pôr a pé, em especial quando sou forçada a estar a pé a horas impróprias para consumo. Mas, enfim, há quem funcione noutros fusos horários e, portanto, o que não tem remédio remediado está. O pior é que ontem ainda estava na cama e já estava a receber um telefonema que tive que atender. E, portanto, estou aqui e a pensar que já devia era estar a dormir. 

Mas antes de me ir deixem que partilhe convosco um poema de Luís Filipe de Castro Mendes dito por Catarina Walenstein que se calhar não tem nada a ver com o que antes escrevi mas é assim mesmo: as coisas, tantas vezes, não têm muito a ver umas com as outras. É também do mesmo poeta o poema do qual extraí o título deste post que, identicamente, não faz questão de ser coerente com tudo o mais que aqui está.

As fotografias de Giuseppe La Spada vêm ao som de She remembers de Max Richter


EM VOZ ALTA OS NOSSOS POETAS | 

Mozart a um anjo de Luís Filipe Castro Mendes por Catarina Walenstein


_______________________________________

Uma sexta-feira muito sexta-feira para todos
Alegria. Esperança. Saúde.