quinta-feira, dezembro 01, 2022
Três valorosos cidadãos do mundo - corajosos, sonhadores, resistentes, poderosos
quinta-feira, março 31, 2022
Flores num local de paz em tempo de guerra.
E viver na selva e fingir que se vive numa boa casa
E viver na selva e fingir que se vive numa boa casa
Hoje não consegui caminhar ao fim da tarde. Cheguei a casa quase de noite. Quando estacionei, vi o meu marido a vir com a feríssima pela trela. Quando se aproximaram e ele percebeu que era eu que estava a sair do carro, ficou fora de si, tal a alegria (quando digo 'ele', refiro-me à feríssima). Fez peões no ar, saltos quase com flic flac à rectaguarda, uma alegria borbulhante. O meu marido, incapaz de competir, apressou-nos: 'Vá, já chega". Depois, já no jardim, por uns instantes sentou-se a olhar para mim e via-se que sorria, os dentões todos à vista mas com o semblante aberto e feliz (continuo a referir-me à feríssima). Mas foi mesmo apenas uns segundos pois, de imediato, se pôs ao alto para que eu o abraçasse. Abracei-o, fiz-lhe festinhas, disse-lhe palavrinhas fofas. Um amigo exuberante.
Na parte da manhã tinha tido reuniões e, ainda por cima, estava cheia de sono. De manhã, ou melhor, praticamente de madrugada, estava ainda a dormir, senti-o a tapar-me melhor (e agora, sim, estou a falar do meu marido). Eu, de noite, abro o vidro pois gosto de sentir o frio nocturno e ele, quando se levanta e me vê meio destapada, acha sempre que estou com frio. Ou melhor, dá essa desculpa. Só que, ao tapar-me e ajeitar a roupa, acorda-me. Já lhe disse mil vezes que, se faz aquilo para ter a certeza que estou viva, não faça. Se estiver morta, mais hora menos hora, não faz diferença. Por isso, deixe-me dormir. Ri-se e diz para eu me deixar de disparates. Desde que me aconteceu aquilo do coração, acho que gosta de se certificar de que estou viva. O pior é que acordei quase duas horas antes da hora. E se há coisa que me deixa em défice durante todo o dia é privarem-me das minhas preciosas horas de sono. Ele desculpa-se: tapo-te quase todos os dias e uns dias acordas e outros não. Como se a culpa ainda fosse minha. Zango-me. Não me mexas, deixa-me dormir destapada ou como me apetecer. Mas tenho a sensação que continuará a fazer o mesmo.
Quanto ao que aconteceu no mundo durante o dia, não consegui aprofundar. Passei por alto pelas notícias e fiquei sem certezas. Começa a ser claro que o grande czar tem patas de barro e orelhas de burro. Mas, psicopata como é, até se estatelar no chão, vai continuar a mentir, a agredir, a matar, a destruir.
Como sempre, depois das notícias escritas, sigo para o Youtube. Abaixo já partilhei a rábula do Hitler que mete o neo-Hitler à mistura e agora, num outro comprimento de onda, partilho dois vídeos muito tocantes embora em sentidos opostos.
No segundo vídeo, uma outra realidade, uma já bem conhecida. A cor da pele é outra mas não estou certa de que isso seja determinante. Talvez a questão da baixa escolaridade que mais pese. Mas não sei. Neste caso, ao contrário do primeiro, a maioria dos que deixaram tudo para trás é masculina. Aqui onde estão e no lugar para onde querem ir não são bem acolhidos. Trazem sonhos de uma vida melhor e, ao contrário do que acontece com os ucranianos que pensam vir por pouco tempo para voltarem logo que regresse a paz, neste caso penso que quererão fazer vida por cá. Sabem que de onde vêem não terão muitas oportunidades para concretizarem os seus sonhos. Estão em França a tentar chegar ao Reino Unido. As condições em que vivem são mais do que precárias. Tudo muito triste -- e ainda mais quando o jovem conta as dificuldades em tentar iludir a mãe para que ela não perceba as condições em que vive. Clandestinos, indesejados, perseguidos e maltratados.
São duas faces de uma realidade que é dura para quem tem a pouca sorte de se ver no lado traiçoeiro da vida.
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Ukrainian refugees shelter with monks in Romanian monastery - BBC News
Ukrainian refugees have found shelter living amongst monks at a Romanian monastery, until one day they can return home to their country.
Iryna and her family, who are staying the Carpathian monastery in north-east Romania after fleeing from Kharkiv, said they have settled into life there.
“Only here, at the monastery, I stopped hating. Last Sunday, I even prayed for Putin,” said Iryna.
Almost four million refugees have fled Ukraine so far following Russia’s invasion of the country.
Life as a refugee in Calais: 'the Ukraine war is a wake-up call'
After the Ukraine invasion, hundreds of people found themselves stranded in Calais as they tried to navigate the UK visa process.It put a spotlight on the city where many young refugees have been living outside all winter in harsh conditions, while NGOs struggled to provide the most basic services. The UK has given millions of pounds to France to try to prevent border crossings but people continue to attempt to get to Britain. Meanwhile, the residents of Calais complain of an increasingly militarised city.
terça-feira, março 29, 2022
Os que sobrevivem
Um conhecido hoje dizia-me que tem discutido com a mulher e com as filhas sobre se devem receber alguma família ucraniana em casa. Por ele receberiam mas a mulher, que também trabalha, diz que lhe faria impressão, durante o dia, deixar a casa nas mãos de estranhos. As filhas indignam-se, perguntam de que é que a mãe tem medo. O meu conhecido diz que, de certa forma, compreende mas que, ao mesmo tempo, acha que são preocupações sem razão de ser pois são pessoas que deixaram a vida para trás e que apenas precisam de um amparo enquanto não conseguem ter a sua independência financeira. Depois, com lágrimas nos olhos, falou-me de uma imagem que não lhe sai da cabeça, a de uma criança a chorar enquanto se despedia do pai. Nessa altura, desviei o olhar. Os homens não gostam que a gente lhes perceba a emoção.
O tema do acolhimento de famílias é um tema que também me perturba. Qual a melhor maneira de integrar estas pessoas que fogem da guerra?
Uns amigos de Lisboa tiveram durante anos um casal de ucranianos a viver numa sua herdade no Alentejo. Tinham vindo da Ucrânia num outro êxodo. Tinham a herdade por sua conta e gostavam muito de lá estar. Quando os donos e amigos lá iam, ficavam todos contentes por terem companhia, era como se estivessem a receber convidados. Eram pessoas simpatiquíssimas. Tinham uma filha na Ucrânia e, na última vez em que lá estive, tencionavam lá ir visitá-la. Não sei o que é feito deles, tenho ideia que regressaram há algum tempo. Se assim foi, devem estar outra vez a viver um pesadelo. Não sei que profissão tinham na Ucrânia nem sei como chegaram ao contacto com esses meus amigos mas imagino que sentissem aquela sua estadia ali como uma bênção. Tinham alojamento, largueza de acção, um ordenado e, sobretudo, paz.
Quando a minha sogra teve um avc estando o meu sogro já doente, tivemos que arranjar, quase de um dia para o outro, uma pessoa para os acompanhar em casa a tempo inteiro. Lembro-me que um dia, do hospital, me ligaram a dizer que mandássemos uma ambulância buscá-la. Eu estava no norte, o meu marido estava não sei onde e os meus cunhados estavam também na sua vida. Ela não andava, estava completamente dependente, e não tínhamos a casa minimamente adaptada à sua nova condição. Nunca imaginámos que lhe dessem alta estando ela ainda assim. Fiquei preocupada, sem fazer ideia do que fazer. Um colega ouviu os meus telefonemas e, percebendo a minha aflição, sugeriu que contactasse o Serviço Jesuíta aos Refugiados. Assim fiz. Expliquei a situação. Pouco depois, ligaram-me a perguntar se estaríamos disponíveis para acolher uma médica moldava que o pouco que sabia de português tinha sido aprendido numa breve passagem por Angola. Contactada a família, obviamente aceitámos. Pareceu-me que melhor não poderia ser. Ajudou-nos em situações complicadas, nomeadamente despistando, de forma certeira, alguns sintomas que requeriam atenção urgente. Queria aprender português e gostava de ali estar. Infelizmente, naquela altura, os meus sogros ainda não estavam bem conscientes do seu estado de saúde e preferiam alguém mais vocacionado para o tratamento da casa do que da sua saúde. O facto dela pouco saber de português também lhes fazia confusão. A minha sogra queixava-se que ela não sabia pôr a mesa como devia ser ou que não arrumava a roupa a seu gosto. Tentei de tudo para que percebesse que isso era de somenos. Importante era ela saber vigiar a saúde deles, saber ajudar na sua recuperação, acompanhar a fisioterapia, etc. Terem uma médica a viver com eles era mesmo uma sorte. Mas a minha sogra não valorizava isso e queixava-se que ela queria era aprender a falar português, não ligando nenhuma para aprender a tratar da casa como devia ser. Eu reconhecia que era bom também para a médica pois tinha um tecto e um ordenado mas que os maiores beneficiados eram eles os dois, que estavam doentes. Mas não tive sorte. Ao fim de algum tempo tinham-na mandado embora, coisa de que ela também não se deve ter importado muito pois já devia estar saturada de quererem uma empregada doméstica quando estava mais do que na cara de que precisavam mesmo era de apoio clínico.
E penso que deve ser muito isto que por vezes acontece no acolhimento de pessoas de outra nacionalidade com fraco domínio da língua, em especial quando as expectativas mútuas não convergem. Ter alguém em casa com quem não se tem empatia deve ser horrível.
Esta segunda-feira, na empresa, em diversas situações, recomendei que se tentasse recrutar refugiados ucranianos: se calhar conseguir-se-á encontrar pessoas com as habilitações adequadas e, se falarem minimamente inglês, já estará bem. Numa das vezes, notei uma certa desconfiança, quase como se houvesse o risco de que os ucranianos viessem 'roubar' o trabalho aos portugueses. Receio infundado. Neste momento, pelo menos em funções técnicas, não existe desemprego em Portugal, existe é escassez. Por isso, nem que fosse apenas por isso e não por razões humanitárias, já era bom haver a possibilidade de se poder recorrer a mão de obra que hoje nos falta. Mas, ao darmos trabalho a novos cidadãos com os quais não tivemos que investir na sua formação e que vão ser novos contribuintes, estaremos a ter um ganho líquido para o país.
Portanto, a integração de refugiados, em especial se estiverem aptos a trabalhar, é sempre uma coisa boa. E crianças...? Que bom para o país. Claro que ainda melhor será se por cá acabarem por ficar: que boa injecção demográfica isso seria... Isto, claro, para não falar na prática da generosidade e na multiculturalidade que são gratificantes sob qualquer ponto de vista.
E isto vale para refugiados e/ou imigrantes de qualquer nacionalidade ou raça. Que se sintam bem, que queiram cá ficar, que integrem a nossa realidade, que nos ajudem a desenvolver o país.
'My mother was still alive while she was on fire': Teen describes horrific attack
15-year-old Andriy recounts to CNN's John Berman the moment his family was forced from their home at gunpoint in Chernihiv, Ukraine, and the attack that claimed his mother's life
Ukraine war creates largest refugee crisis since WW2 - BBC News
Four weeks since Russia invaded Ukraine and the lives of millions have been turned upside down.
"Children were killed and teenage girls were raped, we had to leave, they were shooting at the cars as we tried to escape," Ukrainian mother Yulia Kirienko said.
Almost a quarter of Ukraine's population has fled their homes, with around 60% going to Poland.
Ukraine War: Town of Izyum hit by heavy shelling
quarta-feira, junho 09, 2021
De que se alimentam os que quase ultrapassam as leis da vida?
-- A dieta nas Blue Zones --
(E outros breves apontamentos e desapontamentos)
-- A dieta nas Blue Zones --
(E outros breves apontamentos e desapontamentos)
Os meus dias andam verdadeiramente atípicos. Não fossem as circunstâncias e até poderia dizer que têm sido uns bons dias.
Tenho trabalhado mas a um ritmo mais tranquilo e tenho conseguido estar no jardim durante o dia. Voltei a ler as revistas e vou descobrindo aspectos em que não tinha reparado na primeira vez.
Em vez de fazermos a caminhada à hora de almoço, como estava muito calor, preferimos ir ao fim da tarde. Mas como recebi uma chamada de trabalho, longa, acabei por nem desfrutar bem o passeio.
De manhã tinha estado numa sala onde estavam outras pessoas. Um casal de idade, miudinhos, quase iguais, ela mais despachada e atenciosa, ele talvez já um bocado saturado de tanta atenção. Às tantas a senhora levantou-se e desapareceu da nossa vista. Passado um bocado, veio com uma máscara na mão. Com ar firme, disse ao marido: 'bebe água e, depois de beberes, troca a máscara por esta'. O marido ficou como se nem tivesse ouvido. Ela insistiu. Ele, então, disse: 'não mudo nada, esta é nova'. Ela insistiu: 'já a deves ter molhado'. Ele negou: 'não molhei nada'. Ela, já impaciente: 'então para que é que fui buscar a máscara?'. Ele ficou como se não estivesse nem aí. Ela ficou a olhar para a máscara que tinha na mão.
Do outro lado, uma supé-tia, talvez pela minha idade, e a sua mãe. Mal se instalaram, pegou no telemóvel e com a voz assertiva e possante das supé-tias, disse: 'Oi Mafalda, tá boa? E, olhe lá, o dia tá a ser bom?' Riu. 'Olhe, querida, é para lhe desejar um dia muito bom e p'a dar os parabéns'. A outra disse qualquer coisa e ela disse: 'Amanhã passo por aí. Se quiser, vamos almoçar'. A outra lá deve ter dito mais qualquer coisa. E ela: 'Olhe, Mafalda, a minha mãe está aqui a mandar-lhe um grande beijinho e os parabéns'. A mãe estava à procura de qualquer coisa na carteira, nem levantou a cabeça. Quando percebeu que a filha tinha terminado, perguntou-lhe: 'A Mafalda faz anos, é?'. A filha já estava a mandar uma mensagem, nem respondeu.
E eu ali, observando, transparente. Gostava de andar com a máquina fotográfica e ter coragem para chegar ao pé das pessoas e pedir-lhes que me deixem fotografá-las, dizendo que vou escrever sobre elas. Mas não tenho coragem. Imagino que ficariam desconfiadas.
Agora aqui, mais descansada do que é habitual, querendo deitar-me mais cedo que o costume, espreito as notícias.
Uma esmagou-me. The short life and long journey of Artin, found dead on Norway beach. Nem consegui ler tudo. A vida interrompida de Artin cujos pais sonharam com uma vida melhor. Vi as fotografias e fiquei com os olhos cheios de lágrimas. Muita, muita tristeza. Só um mundo virado do avesso, de costas para a vida, poderia permitir dramas assim. Deveria ser um mundo sem fronteiras, todos focados em preservar o planeta e a vida humana em tudo o que a justifica, incluindo o direito à dignidade e à esperança e, em vez disso, é um lugar perigoso, mau, desumano, absurdo. Mas fiquei tão triste e esmagada que acho que tudo o que diga ficará muito aquém do que deveria ser.
Também li sobre Mona Arshi, poetisa que usa a voz dos pássaros. Do Norfolk birds speak Punjabi? Mona Arshi, the poet transcribing bird calls. Estive a ver mas tenho que ver melhor. Parece-me muito interessante.
Quando conhecer melhor, talvez aqui fale. Há coisas que são diferentes, especiais. Não devem ser vulgarizadas por quem não fale delas, honrando-as. Portanto, por ora nada digo.
Rendo-me a uma coisa mais à minha medida: alimentação. Mas não uma alimentação qualquer. A dieta de quem vive mais do que o comum dos mortais, os habitantes das chamadas Blue Zones. Comida de que gosto. Comida simples. Sopas, legumes, frutas, frutos secos, petiscos. E, certamente, uma vida simples, ao ar livre. Na volta não é preciso muito mais para se ter uma vida longa e saudável. Talvez também amor e alegria na dança dos dias.
The foods that people living to 100+ — in Sardinia, Italy; Okinawa, Japan; Nicoya, Costa Rica; Ikaria, Greece and Loma Linda, CA. (aka Blue Zones) — eat.
quinta-feira, março 25, 2021
Pessoas como nós
Não há o que se possa dizer. Há uma crueldade profunda em todos os que condescendem com o que se passa aqui -- em todos nós. Vêem-se as imagens e percebe-se o autismo de que colectivamente padecemos ao vivermos normalmente como se ignorássemos as condições em que vive parte da humanidade. Somos todos corresponsáveis. Somo-lo tal como foram todos os que fingiam ignorar o que se passava nos campos de extermínio em tempos não muito longínquos. Podemos não ser individualmente responsáveis mas, colectivamente, não podemos deixar de ser considerados cobardes, cruéis, desprezíveis.
Não sei como é possível que se viva como se vive aqui ou em qualquer outro campo de refugiados. É tão mau, tão humilhante (para os que lá vivem e para os que ignoram), tão desumano. E é tão vergonhoso, tão, tão insuportável vergonhoso que custa a ver.
Não vou dizer mais nada. Não há palavras que se possam dizer ao ver estas imagens. É tudo de uma dimensão avassaladora. É devastador. Deixa-me reduzida a nada.
Hundreds of people missing after Rohingya refugee camp fire
At least 15 people have been killed and another 400 are missing after a fire tore through Balukhali camp near Cox’s Bazar late on Monday. More than 17,000 shelters were destroyed, leaving 45,000 people displaced. Emergency services, volunteers and Red Cross staff worked for several hours to control the blaze. The camp houses about 124,000 people, although the surrounding area shelters approximately 1 million Rohingya refugees
sábado, janeiro 11, 2020
Instinto maternal
E se há lugares do mundo sobrelotados, outros há que estão num caminho oposto, em que a população está em decréscimo, a envelhecer. País com fraca natalidade é país velho, tendente para o empobrecimento. Num país como Portugal, nada há de mais relevante a nível político do que conseguir inverter a queda demográfica. Creches gratuitas com horário alargado, redução de horário para pais com filhos pequenos, flexibilidade de horário para pais com filhos em idade escolar, escolas com espaços de tempos livres também gratuitos e também em horário alargado. Coisas assim. Coisas que ajudem as mães a ser mães, a terem vontade e gosto em serem mães.
(E esta derivação para a demografia apareceu aqui a modos que fora do contexto, especialmente se atentarmos às duas fotografias; mas pronto, a minha cabeça é mesmo assim, dada a caminhos diferenciais)
sábado, junho 29, 2019
O que eles levam com eles
quinta-feira, junho 27, 2019
Oscar e Valeria e todos os outros que tentam atravessar montanhas, desertos, rios e mares na esperança de alcançar um mundo melhor
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terça-feira, maio 29, 2018
Um anjo da guarda chamado Mamoudou
De vez em quando o homem aparece. No inverno, quando chego é muito de noite. Ele põe-se no recanto junto à porta. Ali é abrigado, não chove, não bate o vento. Quando se vem da rua, não se vê. Apenas quando se vira para entrar no prédio é que de vê. Assusto-me sempre. Não se vem à espera de ver um vulto ali no chão. Não via se era novo ou velho, estava escuro e ele deitado. Se era mais cedo, por volta das oito e picos, estava soerguido, encostado à parede que lhe serve de cabeceira. Assustada, não tentei nunca olhar bem, creio que por pudor, respeito pela sua privacidade.
De manhã, por mais cedo que seja, já lá não está. Nem vestígios dele.
Admiro-os desde que vi uma reportagem na televisão. Gente digna. Gente muito pobre. Nada têm e, no entanto, do pouco que conseguem fazem uma casa. Diziam, na vizinhança, que são pessoas simpáticas, bondosas. Apenas não conseguem trabalho, apenas lhes falta suporte, apenas se viram despojados de tudo.
Vi sem perceber como era aquilo possível. Como é que uma pessoa normal trepa a um quarto andar em meio minuto, sem cordas, sem qualquer apoio? Se eu visse uma criança suspensa num quarto andar, desatava a gritar, a chorar, haveria de querer ligar para os bombeiros e não saberia que número ligar, talvez me pusesse de braços abertos cá em baixo sabendo que de nada serviria, impotente, aflita. Não me ocorreria trepar para salvar a criança. Não sou ginasticada, por muito que tentasse não o conseguiria. Mas será que o Mamoudou alguma vez suporia que seria capaz de tal milagre? Se calhar não. Conseguiu-o porque a generosidade falou mais alto, porque a coragem superou o medo.
Emociono-me ao ver o filme. Já vi algumas vezes sem perceber como é que um vulgar ser humano consegue subir a um quarto andar mais depressa do que voasse pelas escadas. Talvez Mamoudou seja um anjo, talvez os seus fortes braços sejam longas asas, talvez seja o anjo da guarda do menino que estava sozinho em casa, o menino cujo pai se calhar também tem uma vida complicada e cuja mãe, noutro país, se calhar também não tem uma vida fácil. A vida não é fácil para os pobres, para os despojados. O que os salva é a sua força de deuses e o seu coração de fazedores de milagres.
(No post que se segue a conversa é outra. De resto, nada de mais: é sabido que eu é mais bolos)
quarta-feira, dezembro 27, 2017
Por quem sois, claro que isto não é um balanço de 2017
Ok, estupidez, sei que sim. Um livro lido não é um livro morto. Idem para o resto. Foi uma metáfora não apenas sinistra mas também estúpida. Mas é que não quero já saber do que fiz, a única coisa que me interessa é o que vou fazer.
- o Salvador Sobral. Menino talentoso, invulgar. O coração que o acompanhou enquanto levou a canção da mana Luísa aos quatro cantos do mundo já não é o que agora lhe bate no peito. E eu desejo, mas desejo muito, que saia desta, que o transplante vingue, que todos os seus órgãos reajam bem e que, cedo, cedo, volte a estar bem, que recupere totalmente e que, um dia destes, já aí o tenhamos de volta, cantando e encantando, irreverente e alegre -- por muitos e bons anos;
- e Alma Deutscher, essa menina prodigiosa que compõe, improvisa, interpreta. Sonatas, concertos, óperas. Canto. Uma coisa inacreditável.
É bom viver.
Convenhamos: 2017 não foi um ano mau de todo.
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2017 está, pois, quase a acabar.
E que acabe em beleza que cá estaremos para as despedidas e para receber, com esperança, 2018
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