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quinta-feira, dezembro 01, 2022

Três valorosos cidadãos do mundo - corajosos, sonhadores, resistentes, poderosos

 



Parece que não é a primeira vez que acontece. Talvez alguns não tenham sobrevivido. São pessoas como eu. E, no entanto, quantas mil vezes mais destemidos, mais lutadores, mais fortes, mais intrépidos que eu.

Três homens andaram 11 dias em equilíbrio sobre o leme de um enorme cargueiro, rente ao mar. Partiram da Nigéria e foram resgatados ao largo de Las Palmas. [Men survive 11 days on rudder of ship travelling from Nigeria to Canary Islands]

Fugiam de um destino com que não se conformam e sonham com um futuro melhor e, para o atingirem, arriscam a vida de uma forma que me comove muito. 

Quando foram resgatados estavam desidratados e em hipotermia. Não sei como conseguiram sobreviver onze dias apoiados num espaço tão, tão, pequeno, tão, instável, rente à água fria, dobrados. Não sei se tinham o que comer ou beber mas, se o tinham, seria tão pouco. Nem sei como conseguiram descansar, como conseguiram manter a coragem quando as águas se agitavam, quando conseguiram superar o medo quando caía a noite, quando duvidavam se conseguiriam sobreviver até chegarem ao seu destino. 

Nem sei o que imaginam para a sua vida. Clandestinos, sem documentos, como poderão alcançar uma vida segura e feliz? 

Mas há muitos que conseguem e tomara que estes venham a ter uma vida longa e feliz, à medida do que sonham. 

Todos os países, em especial os países envelhecidos e em especial aqueles em que há falta de mão de obra, deveriam acolhê-los de braços abertos, dar-lhes casa, ensinar-lhes línguas ou ofícios ou o que eles queiram estudar, arranjar-lhes documentos, trabalho, ajudá-los a formar família, ajudá-los a construir o caminho para o futuro com que sonharam. 

E deveria ser mandatório fazer-lhes uma estátua em cada cidade para que todos tenhamos sempre bem presente o quanto se arriscam os que vêm de longe almejando uma vida como a nossa, o quanto sofrem para terem aquilo que tantas vezes desprezamos, o quanto todos tanto lhes devemos.

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Um bom dia feriado
Saúde. Solidariedade. Paz.

quinta-feira, março 31, 2022

Flores num local de paz em tempo de guerra.
E viver na selva e fingir que se vive numa boa casa

 


Hoje não consegui caminhar ao fim da tarde. Cheguei a casa quase de noite. Quando estacionei, vi o meu marido a vir com a feríssima pela trela. Quando se aproximaram e ele percebeu que era eu que estava a sair do carro, ficou fora de si, tal a alegria (quando digo 'ele', refiro-me à feríssima). Fez peões no ar, saltos quase com flic flac à rectaguarda, uma alegria borbulhante. O meu marido, incapaz de competir, apressou-nos: 'Vá, já chega". Depois, já no jardim, por uns instantes sentou-se a olhar para mim e via-se que sorria, os dentões todos à vista mas com o semblante aberto e feliz (continuo a referir-me à feríssima). Mas foi mesmo apenas uns segundos pois, de imediato, se pôs ao alto para que eu o abraçasse. Abracei-o, fiz-lhe festinhas, disse-lhe palavrinhas fofas. Um amigo exuberante.

Eu vinha com a cabeça feita em água e vou precisar de dormir e do dia de amanhã para ver se me ocorre como processar tudo o que vi e ouvi. 

Na parte da manhã tinha tido reuniões e, ainda por cima, estava cheia de sono. De manhã, ou melhor, praticamente de madrugada, estava ainda a dormir, senti-o a tapar-me melhor (e agora, sim, estou a falar do meu marido). Eu, de noite, abro o vidro pois gosto de sentir o frio nocturno e ele, quando se levanta e me vê meio destapada, acha sempre que estou com frio. Ou melhor, dá essa desculpa. Só que, ao tapar-me e ajeitar a roupa, acorda-me. Já lhe disse mil vezes que, se faz aquilo para ter a certeza que estou viva, não faça. Se estiver morta, mais hora menos hora, não faz diferença. Por isso, deixe-me dormir. Ri-se e diz para eu me deixar de disparates. Desde que me aconteceu aquilo do coração, acho que gosta de se certificar de que estou viva. O pior é que acordei quase duas horas antes da hora. E se há coisa que me deixa em défice durante todo o dia é privarem-me das minhas preciosas horas de sono. Ele desculpa-se: tapo-te quase todos os dias e uns dias acordas e outros não. Como se a culpa ainda fosse minha. Zango-me. Não me mexas, deixa-me dormir destapada ou como me apetecer. Mas tenho a sensação que continuará a fazer o mesmo. 

Portanto, o dia começou assim e a coisa foi em crescendo. Mas valeu que, para jantar, só tive que me sentar pois, desde a confecção ao serviço, tudo correu por conta dele (e, claro, não me refiro à feríssima).

Quanto ao que aconteceu no mundo durante o dia, não consegui aprofundar. Passei por alto pelas notícias e fiquei sem certezas. Começa a ser claro que o grande czar tem patas de barro e orelhas de burro. Mas, psicopata como é, até se estatelar no chão, vai continuar a mentir, a agredir, a matar, a destruir.

Como sempre, depois das notícias escritas, sigo para o Youtube. Abaixo já partilhei a rábula do Hitler que mete o neo-Hitler à mistura e agora, num outro comprimento de onda, partilho dois vídeos muito tocantes embora em sentidos opostos.

No primeiro, Iryna, que fugiu da Ucrânia com a família, está abrigada num mosteiro. Vive em paz, sorri. Apesar dos horrores de que fugiu e das saudades e preocupações pelos que lá ficaram, agora sente-se tranquila. Vê as flores que despontam nos campos. Sente-se acolhida e protegida. Para trás deixou tudo, mas aqui está confortável, segura. 

No segundo vídeo, uma outra realidade, uma já bem conhecida. A cor da pele é outra mas não estou certa de que isso seja determinante. Talvez a questão da baixa escolaridade que mais pese. Mas não sei. Neste caso, ao contrário do primeiro, a maioria dos que deixaram tudo para trás é masculina. Aqui onde estão e no lugar para onde querem ir não são bem acolhidos. Trazem sonhos de uma vida melhor e, ao contrário do que acontece com os ucranianos que pensam vir por pouco tempo para voltarem logo que regresse a paz, neste caso penso que quererão fazer vida por cá. Sabem que de onde vêem não terão muitas oportunidades para concretizarem os seus sonhos. Estão em França a tentar chegar ao Reino Unido. As condições em que vivem são mais do que precárias. Tudo muito triste -- e ainda mais quando o jovem conta as dificuldades em tentar iludir a mãe para que ela não perceba as condições em que vive. Clandestinos, indesejados, perseguidos e maltratados.

São duas faces de uma realidade que é dura para quem tem a pouca sorte de se ver no lado traiçoeiro da vida.

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Ukrainian refugees shelter with monks in Romanian monastery - BBC News

Ukrainian refugees have found shelter living amongst monks at a Romanian monastery, until one day they can return home to their country.

Iryna and her family, who are staying the Carpathian monastery in north-east Romania after fleeing from Kharkiv, said they have settled into life there.

“Only here, at the monastery, I stopped hating. Last Sunday, I even prayed for Putin,” said Iryna.

Almost four million refugees have fled Ukraine so far following Russia’s invasion of the country.

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Life as a refugee in Calais: 'the Ukraine war is a wake-up call'

After the Ukraine invasion, hundreds of people found themselves stranded in Calais as they tried to navigate the UK visa process.

It put a spotlight on the city where many young refugees have been living outside all winter in harsh conditions, while NGOs struggled to provide the most basic services. The UK has given millions of pounds to France to try to prevent border crossings but people continue to attempt to get to Britain.  Meanwhile, the residents of Calais complain of an increasingly militarised city. 
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Pinturas de Igor Nekraha na companhia de Ganna Gryniva - Ukrainian Ethnic Jazz Ensemble

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E tenham um dia tão bom quanto possível
Saúde. Afecto. Boa sorte. Paz.

terça-feira, março 29, 2022

Os que sobrevivem

 



Um conhecido hoje dizia-me que tem discutido com a mulher e com as filhas sobre se devem receber alguma família ucraniana em casa. Por ele receberiam mas a mulher, que também trabalha, diz que lhe faria impressão, durante o dia, deixar a casa nas mãos de estranhos. As filhas indignam-se, perguntam de que é que a mãe tem medo. O meu conhecido diz que, de certa forma, compreende mas que, ao mesmo tempo, acha que são preocupações sem razão de ser pois são pessoas que deixaram a vida para trás e que apenas precisam de um amparo enquanto não conseguem ter a sua independência financeira. Depois, com lágrimas nos olhos, falou-me de uma imagem que não lhe sai da cabeça, a de uma criança a chorar enquanto se despedia do pai. Nessa altura, desviei o olhar. Os homens não gostam que a gente lhes perceba a emoção.

O tema do acolhimento de famílias é um tema que também me perturba. Qual a melhor maneira de integrar estas pessoas que fogem da guerra?

Uns amigos de Lisboa tiveram durante anos um casal de ucranianos a viver numa sua herdade no Alentejo. Tinham vindo da Ucrânia num outro êxodo. Tinham a herdade por sua conta e gostavam muito de lá estar. Quando os donos e amigos lá iam, ficavam todos contentes por terem companhia, era como se estivessem a receber convidados. Eram pessoas simpatiquíssimas. Tinham uma filha na Ucrânia e, na última vez em que lá estive, tencionavam lá ir visitá-la. Não sei o que é feito deles, tenho ideia que regressaram há algum tempo. Se assim foi, devem estar outra vez a viver um pesadelo. Não sei que profissão tinham na Ucrânia nem sei como chegaram ao contacto com esses meus amigos mas imagino que sentissem aquela sua estadia ali como uma bênção. Tinham alojamento, largueza de acção, um ordenado e, sobretudo, paz.

Quando a minha sogra teve um avc estando o meu sogro já doente, tivemos que arranjar, quase de um dia para o outro, uma pessoa para os acompanhar em casa a tempo inteiro. Lembro-me que um dia, do hospital, me ligaram a dizer que mandássemos uma ambulância buscá-la. Eu estava no norte, o meu marido estava não sei onde e os meus cunhados estavam também na sua vida. Ela não andava, estava completamente dependente, e não tínhamos a casa minimamente adaptada à sua nova condição. Nunca imaginámos que lhe dessem alta estando ela ainda assim. Fiquei preocupada, sem fazer ideia do que fazer. Um colega ouviu os meus telefonemas e, percebendo a minha aflição, sugeriu que contactasse o Serviço Jesuíta aos Refugiados. Assim fiz. Expliquei a situação. Pouco depois, ligaram-me a perguntar se estaríamos disponíveis para acolher uma médica moldava que o pouco que sabia de português tinha sido aprendido numa breve passagem por Angola. Contactada a família, obviamente aceitámos. Pareceu-me que melhor não poderia ser. Ajudou-nos em situações complicadas, nomeadamente despistando, de forma certeira, alguns sintomas que requeriam atenção urgente. Queria aprender português e gostava de ali estar. Infelizmente, naquela altura, os meus sogros ainda não estavam bem conscientes do seu estado de saúde e preferiam alguém mais vocacionado para o tratamento da casa do que da sua saúde. O facto dela pouco saber de português também lhes fazia confusão. A minha sogra queixava-se que ela não sabia pôr a mesa como devia ser ou que não arrumava a roupa a seu gosto. Tentei de tudo para que percebesse que isso era de somenos. Importante era ela saber vigiar a saúde deles, saber ajudar na sua recuperação, acompanhar a fisioterapia, etc. Terem uma médica a viver com eles era mesmo uma sorte. Mas a minha sogra não valorizava isso e queixava-se que ela queria era aprender a falar português, não ligando nenhuma para aprender a tratar da casa como devia ser. Eu reconhecia que era bom também para a médica pois tinha um tecto e um ordenado mas que os maiores beneficiados eram eles os dois, que estavam doentes. Mas não tive sorte. Ao fim de algum tempo tinham-na mandado embora, coisa de que ela também não se deve ter importado muito pois já devia estar saturada de quererem uma empregada doméstica quando estava mais do que na cara de que precisavam mesmo era de apoio clínico.

E penso que deve ser muito isto que por vezes acontece no acolhimento de pessoas de outra nacionalidade com fraco domínio da língua, em especial quando as expectativas mútuas não convergem. Ter alguém em casa com quem não se tem empatia deve ser horrível.

Esta segunda-feira, na empresa, em diversas situações, recomendei que se tentasse recrutar refugiados ucranianos: se calhar conseguir-se-á encontrar pessoas com as habilitações adequadas e, se falarem minimamente inglês, já estará bem. Numa das vezes, notei uma certa desconfiança, quase como se houvesse o risco de que os ucranianos viessem 'roubar' o trabalho aos portugueses. Receio infundado. Neste momento, pelo menos em funções técnicas, não existe desemprego em Portugal, existe é escassez. Por isso, nem que fosse apenas por isso e não por razões humanitárias, já era bom haver a possibilidade de se poder recorrer a mão de obra que hoje nos falta. Mas, ao darmos trabalho a novos cidadãos com os quais não tivemos que investir na sua formação e que vão ser novos contribuintes, estaremos a ter um ganho líquido para o país. 

Portanto, a integração de refugiados, em especial se estiverem aptos a trabalhar, é sempre uma coisa boa. E crianças...? Que bom para o país. Claro que ainda melhor será se por cá acabarem por ficar: que boa injecção demográfica isso seria... Isto, claro, para não falar na prática da generosidade e na multiculturalidade que são gratificantes sob qualquer ponto de vista.

E isto vale para refugiados e/ou imigrantes de qualquer nacionalidade ou raça. Que se sintam bem, que queiram cá ficar, que integrem a nossa realidade, que nos ajudem a desenvolver o país.


Mas se um dia regressarem ao seu país, se quiserem ir ajudar na sua reconstrução, se quiserem ir em busca das suas raízes, cá estaremos para os receber sempre que quiserem voltar para virem matar saudades.
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O que não podemos, penso eu, é deixar de sentir compaixão e solidariedade pelos que perdem entes queridos, que perdem a casa e a sua vida. Sobrevivem às perdas mas o que devem sofrer... E, ao mesmo tempo, a esperança que devem sentir em melhores dias, em felizes reencontros. São uns heróis.

'My mother was still alive while she was on fire': Teen describes horrific attack

15-year-old Andriy recounts to CNN's John Berman the moment his family was forced from their home at gunpoint in Chernihiv, Ukraine, and the attack that claimed his mother's life


Ukraine war creates largest refugee crisis since WW2 - BBC News

Four weeks since Russia invaded Ukraine and the lives of millions have been turned upside down.

"Children were killed and teenage girls were raped, we had to leave, they were shooting at the cars as we tried to escape," Ukrainian mother Yulia Kirienko said.

Almost a quarter of Ukraine's population has fled their homes, with around 60% going to Poland.


Ukraine War: Town of Izyum hit by heavy shelling

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Fotografias de John Dykstra na companhia de June Tabor interpretando Music of World War I

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Desejo-vos uma boa terça-feira
Saúde. Boa sorte. Esperança. Paz.

quarta-feira, junho 09, 2021

De que se alimentam os que quase ultrapassam as leis da vida?
-- A dieta nas Blue Zones --

(E outros breves apontamentos e desapontamentos)

 


Os meus dias andam verdadeiramente atípicos. Não fossem as circunstâncias e até poderia dizer que têm sido uns bons dias.

Tenho trabalhado mas a um ritmo mais tranquilo e tenho conseguido estar no jardim durante o dia. Voltei a ler as revistas e vou descobrindo aspectos em que não tinha reparado na primeira vez. 

Em vez de fazermos a caminhada à hora de almoço, como estava muito calor, preferimos ir ao fim da tarde. Mas como recebi uma chamada de trabalho, longa, acabei por nem desfrutar bem o passeio.

De manhã tinha estado numa sala onde estavam outras pessoas. Um casal de idade, miudinhos, quase iguais, ela mais despachada e atenciosa, ele talvez já um bocado saturado de tanta atenção. Às tantas a senhora levantou-se e desapareceu da nossa vista. Passado um bocado, veio com uma máscara na mão. Com ar firme, disse ao marido: 'bebe água e, depois de beberes, troca a máscara por esta'. O marido ficou como se nem tivesse ouvido. Ela insistiu. Ele, então, disse: 'não mudo nada, esta é nova'. Ela insistiu: 'já a deves ter molhado'. Ele negou: 'não molhei nada'. Ela, já impaciente: 'então para que é que fui buscar a máscara?'. Ele ficou como se não estivesse nem aí. Ela ficou a olhar para a máscara que tinha na mão.

Do outro lado, uma supé-tia, talvez pela minha idade, e a sua mãe. Mal se instalaram, pegou no telemóvel e com a voz assertiva e possante das supé-tias, disse: 'Oi Mafalda, tá boa? E, olhe lá, o dia tá a ser bom?' Riu. 'Olhe, querida, é para lhe desejar um dia muito bom e p'a dar os parabéns'. A outra disse qualquer coisa e ela disse: 'Amanhã passo por aí. Se quiser, vamos almoçar'. A outra lá deve ter dito mais qualquer coisa. E ela: 'Olhe, Mafalda, a minha mãe está aqui a mandar-lhe um grande beijinho e os parabéns'. A mãe estava à procura de qualquer coisa na carteira, nem levantou a cabeça. Quando percebeu que a filha tinha terminado, perguntou-lhe: 'A Mafalda faz anos, é?'. A filha já estava a mandar uma mensagem, nem respondeu.

E eu ali, observando, transparente. Gostava de andar com a máquina fotográfica e ter coragem para chegar ao pé das pessoas e pedir-lhes que me deixem fotografá-las, dizendo que vou escrever sobre elas. Mas não tenho coragem. Imagino que ficariam desconfiadas.

Agora aqui, mais descansada do que é habitual, querendo deitar-me mais cedo que o costume, espreito as notícias. 

Uma esmagou-me. The short life and long journey of Artin, found dead on Norway beach. Nem consegui ler tudo. A vida interrompida de Artin cujos pais sonharam com uma vida melhor. Vi as fotografias e fiquei com os olhos cheios de lágrimas. Muita, muita tristeza. Só um mundo virado do avesso, de costas para a vida, poderia permitir dramas assim. Deveria ser um mundo sem fronteiras, todos focados em preservar o planeta e a vida humana em tudo o que a justifica, incluindo o direito à dignidade e à esperança e, em vez disso, é um lugar perigoso, mau, desumano, absurdo. Mas fiquei tão triste e esmagada que acho que tudo o que diga ficará muito aquém do que deveria ser.

Também li sobre Mona Arshi, poetisa que usa a voz dos pássaros. Do Norfolk birds speak Punjabi? Mona Arshi, the poet transcribing bird calls. Estive a ver mas tenho que ver melhor. Parece-me muito interessante.

Quando conhecer melhor, talvez aqui fale. Há coisas que são diferentes, especiais. Não devem ser vulgarizadas por quem não fale delas, honrando-as. Portanto, por ora nada digo.

Rendo-me a uma coisa mais à minha medida: alimentação. Mas não uma alimentação qualquer. A dieta de quem vive mais do que o comum dos mortais, os habitantes das chamadas Blue Zones. Comida de que gosto. Comida simples. Sopas, legumes, frutas, frutos secos, petiscos. E, certamente, uma vida simples, ao ar livre. Na volta não é preciso muito mais para se ter uma vida longa e saudável. Talvez também amor e alegria na dança dos dias.

The foods that people living to 100+ — in Sardinia, Italy; Okinawa, Japan; Nicoya, Costa Rica; Ikaria, Greece and Loma Linda, CA. (aka Blue Zones) — eat.



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Fotografias de Lung-Tsai Wang,  Guido Villani, Fran Rubia,  Angel Fitor, Sarang Naik

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Um dia feliz

quinta-feira, março 25, 2021

Pessoas como nós

 

Não há o que se possa dizer. Há uma crueldade profunda em todos os que condescendem com o que se passa aqui -- em todos nós. Vêem-se as imagens e percebe-se o autismo de que colectivamente padecemos ao vivermos normalmente como se ignorássemos as condições em que vive parte da humanidade. Somos todos corresponsáveis. Somo-lo tal como foram todos os que fingiam ignorar o que se passava nos campos de extermínio em tempos não muito longínquos. Podemos não ser individualmente responsáveis mas, colectivamente, não podemos deixar de ser considerados cobardes, cruéis, desprezíveis. 

Não sei como é possível que se viva como se vive aqui ou em qualquer outro campo de refugiados. É tão mau, tão humilhante (para os que lá vivem e para os que ignoram), tão desumano. E é tão vergonhoso, tão, tão insuportável vergonhoso que custa a ver.

Não vou dizer mais nada. Não há palavras que se possam dizer ao ver estas imagens. É tudo de uma dimensão avassaladora. É devastador. Deixa-me reduzida a nada.


Hundreds of people missing after Rohingya refugee camp fire

At least 15 people have been killed and another 400 are missing after a fire tore through Balukhali camp near Cox’s Bazar late on Monday. More than 17,000 shelters were destroyed, leaving 45,000 people displaced. Emergency services, volunteers and Red Cross staff worked for several hours to control the blaze. The camp houses about 124,000 people, although the surrounding area shelters approximately 1 million Rohingya refugees


sábado, janeiro 11, 2020

Instinto maternal




No lugar onde trabalho uma percentagem razoável de mulheres não tem filhos. Provavelmente, umas ainda não têm mas talvez venham a ter, outras não levam qualquer jeito de que tal venha a acontecer, outras não me parece que tenham qualquer apetência por tal e outras não tiveram porque não calhou ou não conseguiram. Nunca lhes falo nisso. Há que respeitar. Não sabemos o que está por trás: se é incapacidade, se é falta de vontade, se é falta de oportunidade. São assuntos muito pessoais.

Sei que uma tentou durante anos e não conseguiu. Entretanto, já se habituou e já várias vezes, ao falar da vida livre que leva, viajando, fazendo o que quer, quando quer, com quem quer, diz que é o lado positivo de não ter tido filhos. E há outra, que o tempo veio a revelar ser uma mente perturbada, que durante muito tempo disse que andava a fazer tratamentos que sempre corriam mal, e contava histórias pungentes, e que agora toda a gente acredita que aquilo era inventado de ponta a ponta. Nunca faltava, nunca chegava atrasada, nunca saía mais cedo e, no entanto, contava que tinha andado a fazer tratamentos exigentes que exigiam repouso. Era sempre tudo tão estranho e pouco credível que ninguém tinha coragem de lhe dizer que tudo o que ela dizia parecia manifestamente impossível. Contudo, contava isso com voz martirizada, como se fosse verdade. Quando alguém leva lá os filhos, ela desdobra-se em gentilezas, tem lápis de cores, imprime folhas com bonecos, tem coisas nas gavetas. Mas aquele excesso de simpatia quase parece forçado e doentio. Se a conversa vai no sentido dos filhos, toda a gente desvia a conversa, como se não houvesse já muitas dúvidas de que há ali pancada da grossa.


Mas há outras que têm filhos e duas das jovens até já vão no terceiro. A uma que agora está de baixa de parto surpreendi eu um dia quando lhe perguntei se estava grávida, tendo ela, num sobressalto, dado uma resposta curiosa: 'Ainda não...'. Depois questionou-me: 'Mas porque pergunta?'. Expliquei-lhe que tinha olhado para ela e me tinha parecido. Estava então de poucas semanas e apenas uns dois meses depois, ou mais, divulgou o seu estado. Contou-me, então, que naquela altura, tinha acabado de saber e que não tinha percebido como tinha eu adivinhado. Pois bem. Hoje, uma das jovens, outra, ia à minha frente e, ao sentir os meus passos, voltou-se para trás, sorriu para me cumprimentar e depois continuou. Nesse relance em que a cumprimentei, pensei: 'Está grávida'. Depois pensei: 'Se calhar ainda não sabe'. E, no entanto, não vejo nela qualquer jeito maternal. Mas nunca se sabe. Há instintos que nascem quando se tem a cria nos braços. 

Outras vezes nunca acontece. Já contei aqui daquela minha amiga que de instinto maternal tinha zero. Nem sabia pegar na criança ao colo. Uma vez salvei a bebé de quase morrer asfixiada. Tinha dias. Era verão. Tinham ido para a casa de praia dos pais dela. Estava a dar banho à bebé no lavatório da casa de banho. Tinha a bebé sobre o braço, de bruços, e segura pelo pescoço. Quando entrei na casa de banho, estava a criança já meio roxa. Tirei-lhe a menina do braço e mostrei-lhe como era. Mesmo para dar de mamar, fazia-o sem contacto físico com a filha: em vez de a aconchegar junto ao peito, não, deitava-a sobre as suas pernas, em sentido oposto, tendo a criança que torcer a cabeça para alcançar um mamilo. Quando a menina começou a falar, chamava-me mãe e fazia birras quando se iam embora de minha casa ou eu de casa dela, tendo a mãe que a arrancar à força do meu colo. Muito estranho. Impressionava-me mesmo, imaginava como ela deveria ficar entristecida (embora nunca percebesse se ficava, mais me parecia que não, que não ligava). Por mais que eu tentasse ensiná-la a lidar com a filha, ela fazia tudo ao contrário. Quando se separou do marido, a filha ficou com o pai. Mais tarde, sei que teve outra filha mas, nessa altura, já nos tínhamos afastado. 

São assuntos complexos e não devem ser feitos juízos de valor por quem está de fora pois, nestes casos, cá para mim, a realidade geralmente é oculta ou inexplicável.

Mas, quando existe o instinto maternal, ele é bom, compensador, e, de certa forma, completa a mulher. Ou melhor: a fêmea. E não é nada que se aprenda: o que há vem de dentro, é espontâneo, é visceral, é incontornável.


Estava aqui a ver as notícias do dia e o que me atraíu foi, justamente, a prova provada da relação orgânica, animal, que há entre uma mãe e a sua cria (tenha a cria a idade que tiver e sejam quais forem as circunstâncias).

E se há lugares do mundo sobrelotados, outros há que estão num caminho oposto, em que a população está em decréscimo, a envelhecer. País com fraca natalidade é país velho, tendente para o empobrecimento. Num país como Portugal, nada há de mais relevante a nível político do que conseguir inverter a queda demográfica. Creches gratuitas com horário alargado, redução de horário para pais com filhos pequenos, flexibilidade de horário para pais com filhos em idade escolar, escolas com espaços de tempos livres também gratuitos e também em horário alargado. Coisas assim. Coisas que ajudem as mães a ser mães, a terem vontade e gosto em serem mães.

(E esta derivação para a demografia apareceu aqui a modos que fora do contexto, especialmente se atentarmos às duas fotografias; mas pronto, a minha cabeça é mesmo assim, dada a caminhos diferenciais)

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A primeira imagem é uma ilustração da autoria de Delphine Desane para a Vogue italiana, integrada num trabalho que intitulou como Madre Natura para a Dior. A segunda é uma fotografia feita na síria da autoria de Esra Hacioglu. Mostra Anud Suleiman, 25, com os filhos num campo de refugiados. A fotografia da mãe leoa e da sua cria foi feita em West Midlands Safari Park por Jacob King. Vi as duas no The Guardian.

Lá em cima, A Bailarina de Rodrigo Leão conta com a participação da filha, Sofia, e faz parte de um novo álbum que lançará em Fevereiro.

E o vídeo, no final, mostra imagens de uma tocante ternura. São animais como nós e o carinho e a graça como aquele bebé é cuidado, são uma maravilha.

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E talvez até já.

sábado, junho 29, 2019

O que eles levam com eles





Há temas que, quando aparece uma criança morta à beira de água, se tornam virais e, como tal, toda a gente se sente contagiada. Depois, coisa tão triste acaba por cansar e a gente já nem quer ver tal coisa. já dizemos que é exploração de desgraça alheia, que é falta de gosto tanta fixação na dor dos outros.

E, dias depois, já nem vale a pena falar porque a coisa já passou de moda. E quando a gente vê barcaças transbordantes de gente até parece que já chegou a época dos saldos de refugiados, tal a banalidade daquilo tudo.

E não queremos saber de como as forças políticas de extrema direita -- devidamente adubadas com apoios financeiros e outros tipos de apoio por parte dos Steve Bannons desta vida, hienas solitárias, ou por parte de regimes que preferem uma Europa enfraquecida -- se organizam de uma forma cada vez mais estruturada.

A extrema direita usa sempre a mesma arma: o medo. O truque é instilar no seio da população, numa parte da população, a parte mais inculta, mais vulnerável, mais facilmente influenciável, o medo. Medo seja do que for. Pode ser o medo de ver as ruas invadidas por gente desempregada, faminta, mal vestida, falando línguas incompreensíveis, pode ser o medo de ver os impostos aumentados para pagar a integração de refugiados, medo que, entre os refugiados, venham meliantes, terroristas. Medo. E eles, os salvadores da pátria, as mamãs (como a Le Pen), os papàs´s (como o Salvini), aparecem como os que afastarão os medos, protegerão os 'puros', os nacionais, contra os intrusos, contra os bandidos que querem entrar no país para roubar o que pertence a quem já lá está.

Com maldade suprema, Trump separa pais de filhos, trata seres humanas como se fossem animais,  seres humanos cansados, esfomeados, gente que apenas procura uma vida melhor para si e para a sua família. Mas não são apenas as fronteiras americanas que são palco de verdadeiros atentados humanitários nem é apenas Trump que é algoz. Cada um à sua dimensão mas a verdade é que culpados somos todos os que fazemos de conta que não existe.

Existe. E a indiferença com que aceitamos campos e campos de refugiados a perder de vista, uma coisa que nos deveria envergonhar, ou que aceitamos que milhares de pessoas façam quilómetros e quilómetros a pé para alcançar sabe-se lá o quê ou que aceitamos que o tráfego de armas e outros interesses geo-económicos prevaleçam sobre o respeito pelas populações, torna-nos também culpados.

A abstenção brutal nas eleições europeias é outra que nos deveria envergonhar. Como culpar a União Europeia de assistir impávida e serena a que tanta gente morra afogada no Mediterrâneo quando nem para votar nos demos ao trabalho? Como podemos censurar os que lá estão quando não nos demos ao trabalho de lá pôr quem defenda uma Europa mais humanitária, mais aberta, mais moderna?


Há quem tenha coragem e dê algum do seu tempo para ir ajudar os que estão em situações difíceis. Mas são poucos os que têm essa coragem. Eu nunca tive. De forma racional, penso que problemas desta dimensão não se resolvem com iniciativas individuais, apenas com políticas transversais, integradas, transnacionais. Mas isso sou eu a proteger-me porque sei que, mesmo não resolvendo o verdadeiro problema, se puder levar ensino, carinho e alguma atenção a quem nada tem já será muito. Portanto, é falta de coragem, sim. Mas, se a coragem não está connosco, ao menos que saibamos fazer tudo o que esteja ao nosso alcance para que o assunto do bom acolhimento de refugiados esteja na ordem do dia.

E, se os bons intuitos não vos assistirem, o que também é legítimo, ao menos não esqueçam os motivos egoístas: tal como no outro dia já aqui o referi, quando a natalidade não ajuda a demografia pois que se recorra à imigração. E nada melhor para um país do que a miscigenação: abertura total a todas as nacionalidades, a todas as raças e etnias, a todas as religiões, a tudo. Que se unam, se cruzem, se misturem, se reproduzam, que façam um mundo melhor. 


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As imagens que escolhi mostram pinturas de Carlos Jacanamijoy e é assim colorido que deveria ser o mundo de toda a gente.

quinta-feira, junho 27, 2019

Oscar e Valeria e todos os outros que tentam atravessar montanhas, desertos, rios e mares na esperança de alcançar um mundo melhor


É fácil a gente comover-se. Daí, é fácil a gente evoluir para a revolta. E ,se muita gente se comove e revolta, mais fácil é sentirmos que fazemos parte de um movimento colectivo que se comove e revolta com a situação, sentimo-nos confortáveis com a causa comum. E a causa comum esgota-se nisso, em comovermo-nos e em revoltarmo-nos. Ou seja, na realidade é uma causa inútil.

Difícil é sermos racionais, consequentes. Difícil é percebermos que escolhas devemos fazer para poiarmos quem saiba evitar que situações como as que nos comovem e revoltam voltem a acontecer.

Falo, neste caso, em defendermos, no nosso país, políticas de acolhimento de refugiados, falo em termos programas de acolhimento para crianças sem família, falo em termos políticas articuladas e sérias de imigração. Falo em não cedermos a populismos, em não ficarmos revoltados se o Correio da Manhã fizer reportagens a dizer que os nossos impostos servem para pagar casas para estrangeiros, sem cuidarmos de saber que os estrangeiros em questão são, afinal, corajosas pessoas que fugiram da guerra, da fome, da violência. Falo em escolhermos quem nos represente na União Europeia para defender a mesma coisa em todos os países da UE. Falo em apoiarmos quem, na UE, quer fazer frente aos Salvinis deste mundo. Falo em transformar a nossa comoção e revolta em coerência.



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Volto aqui para dizer que, depois deste, comecei a escrever outro post dedicado aos livros mas, à medida que ia escrevendo, ia pensando que não deveria publicá-lo senão este iria já lá mais para baixo. Há alturas em que temos que pôr de lado o nosso egoísmo. Apetecia-me escrever mas, na realidade, estaria a relativizar a importância do tema deste post. Não a importância do post que os meus posts valem zero. Mas o tema, esse, sim, é importante. Sem a nossa atenção, cuidado e alguma abnegação tudo continuará igual, imensas correntes de gente a enfrentar o perigo, tantas vezes soçobrando pelo caminho, tantas vezes devolvida como mercadoria indesejável, tantas vezes agredidos, tantas vezes separados dos seus. Por isso, é com este post que termino a minha jornada: desejando que o mundo rico acorde para a necessidade de acolher os que fogem da guerra, do medo e da pobreza.


terça-feira, maio 29, 2018

Um anjo da guarda chamado Mamoudou





De vez em quando o homem aparece. No inverno, quando chego é muito de noite. Ele põe-se no recanto junto à porta. Ali é abrigado, não chove, não bate o vento. Quando se vem da rua, não se vê. Apenas quando se vira para entrar no prédio é que de vê. Assusto-me sempre. Não se vem à espera de ver um vulto ali no chão. Não via se era novo ou velho, estava escuro e ele deitado. Se era mais cedo, por volta das oito e picos, estava soerguido, encostado à parede que lhe serve de cabeceira. Assustada, não tentei nunca olhar bem, creio que por pudor, respeito pela sua privacidade. 

Agora voltou e é de dia até mais tarde. No outro dia, não estava nada à espera, como sempre assustei-me. Nesse instante, desejei que ele não tivesse visto que eu me tinha assustado. Estava outra vez encostado à parede, em cima dos cartões, coberto por uma manta escura. Percebi que estava um vulto ao lado, talvez uma mochila ou um saco. Num relance vi que é de meia idade, talvez mais novo, talvez abaixo ainda dos quarenta, que tem barba, que estava vestido de preto. Desviei o olhar, abri a porta. Pensei que deveria ter dito boa noite. Mas não sei se o incomodaria com isso, talvez não queira ser visto assim. Não sei.

Faz-me impressão. Um sem abrigo a dormir à nossa porta é coisa que incomoda. Não sei definir porque me incomoda. Talvez porque é a constatação próxima do abandono. Ou a constatação de que o infortúnio pode apear qualquer um. Ou porque há uma tristeza muito grande numa situação assim e a gente não sabe o que fazer. Ou porque pensa que é um caso em muitos.

Um outro dia, era já mais tarde, regressávamos os dois, já ele dormia ou, pelo menos, estava deitado e todo tapado. Assustei-me com o vulto. Disse: 'Mas com tanta assistência, porque não procurará ele apoio? Não será que deveríamos avisar que viessem cá oferecer-lhe guarida?'. O meu marido achou que não, que o deixássemos estar em paz. Lembrei-me do curso que fiz, do que nos ensinavam, que deveríamos sempre respeitar as opções de cada um, que muitos sem-abrigo vivem na rua por opção sua.

De manhã, por mais cedo que seja, já lá não está. Nem vestígios dele. 

Quando passo na A1, na zona de Vila Franca, olho sempre aqueles prédios grandes que nunca foram acabados. Entre pilares, há sempre roupa estendida, uma cadeira, provas de que ali vive gente.

Admiro-os desde que vi uma reportagem na televisão. Gente digna. Gente muito pobre. Nada têm e, no entanto, do pouco que conseguem fazem uma casa. Diziam, na vizinhança, que são pessoas simpáticas, bondosas. Apenas não conseguem trabalho, apenas lhes falta suporte, apenas se viram despojados de tudo.

Há uns dois ou três anos vi um filme que me impressionou muito. Samba. A história de um imigrante, sem documentos, clandestino, vulnerável. Um filme extraordinário que mostrava a vida da gente invisível. Com medo de ser preso e de ser deportado, sujeitava-se a tudo, a toda a espécie de exploração e violência. Tinha um coração grande e era lindo. A rapariga do filme apaixonou-se por ele. É certo que as raparigas dos filmes gostam de se apaixonar pelos rapazes corajosos que se encontram em situações de fragilidade. Quando são bonitos, têm umas mãos generosas de quem sabe dar abraços longos e quentes e um olhar meigo e carente ainda mais.

Hoje vi aquele filme com o Mamoudou Gassama.

Vi sem perceber como era aquilo possível. Como é que uma pessoa normal trepa a um quarto andar em meio minuto, sem cordas, sem qualquer apoio? Se eu visse uma criança suspensa num quarto andar, desatava a gritar, a chorar, haveria de querer ligar para os bombeiros e não saberia que número ligar, talvez me pusesse de braços abertos cá em baixo sabendo que de nada serviria, impotente, aflita. Não me ocorreria trepar para salvar a criança. Não sou ginasticada, por muito que tentasse não o conseguiria. Mas será que o Mamoudou alguma vez suporia que seria capaz de tal milagre? Se calhar não. Conseguiu-o porque a generosidade falou mais alto, porque a coragem superou o medo.

A França rendeu-lhe homenagem mas é pouco. Todos os presidentes de todos os países da Europa deveriam fazer o mesmo. Todos deveriam abrir-lhe as portas, dar-lhe emprego. Todos deveriam abrir o coração aos imigrantes, aos pobres, aos que nada têm senão a sua alma, a sua força. A velha Europa precisa do sangue nobre desta boa gente.

Emociono-me ao ver o filme. Já vi algumas vezes sem perceber como é que um vulgar ser humano consegue subir a um quarto andar mais depressa do que voasse pelas escadas. Talvez Mamoudou seja um anjo, talvez os seus fortes braços sejam longas asas, talvez seja o anjo da guarda do menino que estava sozinho em casa, o menino cujo pai se calhar também tem uma vida complicada e cuja mãe, noutro país, se calhar também não tem uma vida fácil. A vida não é fácil para os pobres, para os despojados. O que os salva é a sua força de deuses e o seu coração de fazedores de milagres.



E o que Mamoudou, 22 anos apenas, já andou para ali chegar. O que ele já viu. O que ele já viveu.

E, no entanto, quando viu a criança pendurada apenas pensou em ir salvá-la. No vídeo abaixo ele conta.


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(No post que se segue a conversa é outra. De resto, nada de mais: é sabido que eu é mais bolos)

quarta-feira, dezembro 27, 2017

Por quem sois, claro que isto não é um balanço de 2017




Começo a ver balanços um pouco por todo o lado, está na altura deles. Não que me façam falta ou que me entretenham o desfastio. Mas tenho pena de não ser capaz de fazê-los. Se fosse, se calhar também não os fazia mas, enfim, não fazer era uma coisa voluntária. Assim não, assim é olhar para balanços alheios e pensar: para eu conseguir produzir um teria que fazer uma monda danada, como quando quero oferecer fotografias e tenho que passar em revista as milhares que fiz ao longo do ano. Penso: se calhar a coisa inteligente era, de cada vez que faço uma fotografia engraçada ou que acho algum evento marcante, fazer-lhe logo a devida assinaladela para, no fim do ano, as tarefas estarem praticamente aviadas. 

Acreditem. Os melhores filmes do ano, os melhores livros do ano, as frases mais inteligentes do ano, os actos mais fantásticos, as músicas mais maravilhosas -- assim de repente não me lembro de nada. Ou, então, começo a desbobinar aquilo de que me lembro e sei lá eu se foram os melhores.

Mas, lá está, que interesse tem estar a desenterrar os mortos para os glorificar?
Ok, estupidez, sei que sim. Um livro lido não é um livro morto. Idem para o resto. Foi uma metáfora não apenas sinistra mas também estúpida. Mas é que não quero já saber do que fiz, a única coisa que me interessa é o que vou fazer.

Listas. To do lists. Também nunca fiz. Não gosto de me programar. Gosto de me sentir livre para fazer o que me apetecer.

Lista de boas intenções. Nunca fiz. Não tenho boas intenções, só más.

Acho extraordinário quando aconselham as pessoas a fazerem uma lista de projectos ou de ideias a perseguir no ano que se segue. Eu nem pó. Nunca na vida fiz tal coisa. Sei lá o que é que devo fazer. Em vez disso posso entreter-me a ler horóscopos ou a deitar cartas de tarot. Claro que mal acabo, já me esqueci. Tem uma graça momentânea mas altamente perecível. Por exemplo, fui agora ver à Vogue o que me aguarda em 2018. Como sempre, espera-me: trabalho, desafios, a minha criatividade posta à prova. Coisas assim. Sempre isto. A nível de amor também um ano em grande, paixão transbordante e quem sabe se até um bebé. Pelos vistos, até a menopausa me vai passar. E eu tão descansada que ando que já nem me lembro dessa coisa dos anti-concepcionais. Bolas, bolas, bolas. 

Bem. Adiante. 


Isto para dizer que acho muito bem. Um diz que vai ler a Agustina, outro voa sobre o ano que voou, outra diz que vai ser assim e assado e até a Estrela Serrano distribui medalhas. Gosto de ver. Gente com a cabeça no sítio. Tomara eu.

Eu, que tenho a minha sempre na lua, o mais que consigo dizer é que o Marcelo é incontornável. Até de carrocel já o vi hoje na televisão. Ia de boné e quase podia parecer outro mas juro que era ele. De vez em quando diz uma ou outra com sentido. Mas parece que já quase esgotou o reportório de coisas assisadas. A maior parte das vezes já só o ouço a dizer irrelevâncias, a anunciar cuidados para daqui por um ano, a sugerir remoques contra incertos ou a querer que se façam casas sem projecto, se calhar na candonga, clandestinas, e sem orçamentos, sem nada, tudo na base do sempre a abrir. E quando vê que as casas até já foram efectivaente construídas -- e como deve ser, algumas boas como nunca foram antes e tudo certinho, direitinho -- aparece a dizer que isso não chega, tem que se fazer mais. E o engraçado é que ele diz isto sabendo que o Governo está mesmo a estudar a forma de repovoar o interior, de aí dinamizar a economia. Mas o Marcelo parte do princípio que as pessoas não sabem que o Governo está a trabalhar nisso e aposta em que, quando as coisas aparecerem feitas, a malta pense que foi graças a ele e às bocas que andou a espalhar aos microfones e perante as câmaras. Cansa-me este Marcelo. Não é tanto já me enjoar aquilo de ele andar sempre a escarafunchar no luto alheio e a dar beijinhos a tudo o que mexe, é mesmo a sua necessidade compulsiva de dizer coisas. Não interessa que coisas. Coisas. Sempre a dizer coisas. Sempre na televisão a dizer coisas, sempre metido em cenas a dizer coisas. Um cansaço.


É que eu, assim que me lembre, a quem devemos mesmo tirar o chapéu é a António Costa. Pisando terreno quase sempre minado, com uma oposição desmiolada e desavergonhada, com uma comunicação social acéfala e com uma agenda muito própria em que vale tudo, com uns amigos de geringonça que acham que, para não perderem o pé, devem andar sempre com ralhetes, ameaças e greves pela trela, e com um presidente ciumento e obsessivo-compulsivo relativamente à fama, Costa tem conseguido ultrapassar a barreira de fogo alimentada pelo coro de carpideiras que está sempre à espreita, escudada pela ideologia do neo-afecto, tem resistido ao facilitismo e tem conseguido ir equilibrando as contas, restabelecendo a confiança e restituindo a dignidade aos portugueses. Com a sua forte alavancagem pessoal até conseguiu que Centeno fosse a presidente do Eurogrupo e vamos ver se, uma a uma, as pedras do caminhos europeu não começam a apontar num outro sentido que não o da dispautérica austeridade. Nem tudo tem sido perfeito e alguns maus momentos para sempre pesarão na memória colectiva de 2017 mas António Costa fez o melhor que conseguiu e o que se vê é que não foi pouco.

Tirando isso. Não me apetece falar de um outro incontornável, um outro narcisista. Só que, a nível cultural, esse outro não chega aos calcanhares deste nosso. Nem tem de base uma matriz democrática nem lhe dá para andar a bater perna vinte horas por dia a distribuir afecto e a fazer-se à selfie. Este a que agora me refiro é estúpido, bronco, básico e perigoso. Trump. A anedota do século. 


Nem me apetece falar de algumas outras palhaçadas. Maus passos que a populaça, quando estimulada emocionalmente, volta e meia dá. Por algum motivo (e empresas como a Cambridge Analytica lidam bem com esses 'motivos'), uns resolvem atirar-se para fora da Europa e vão atrás do verbo insuflado de chicos espertos que, à primeira dificuldade, metem o rabo entre as pernas e arrepiam caminho, outros resolvem separar-se do país ao qual sempre pertenceram. Derivas independentistas que a razão desconhece e que, tarde ou cedo, darão com os burrinhos na água.

Também não vou falar dos que partiram -- e não foram poucos. Nos enterros há aquela velha máxima que toda a gente diz, encolhendo os ombros: é a lei da vida. Não sei se é, se não é. É o que é e nada se pode contra isso. Uns vão cedo demais, uns sofrem demais ao partirem, outros deixam um estranho vazio que se sabe que nunca será preenchido. 

Mas há também os que chegam, leves como o futuro inteiro que têm pela frente e a quem desejamos toda a sorte e felicidade do mundo. Transportam em si o tempo por viver e a esperança de melhores dias.


A nível artístico muitos foram os que me proporcionaram bons momentos mas há dois em que estou agora a pensar -- e, lá está, se eu fosse de elaborar raciocínios ponderados, talvez pudesse, em consciência, afirmar a pés juntos que são estes e nenhuns outros; assim, são apenas os que, neste instante, me estão a ocorrer. E são eles:
  • o Salvador Sobral. Menino talentoso, invulgar. O coração que o acompanhou enquanto levou a canção da mana Luísa aos quatro cantos do mundo já não é o que agora lhe bate no peito. E eu desejo, mas desejo muito, que saia desta, que o transplante vingue, que todos os seus órgãos reajam bem e que, cedo, cedo, volte a estar bem, que recupere totalmente e que, um dia destes, já aí o tenhamos de volta, cantando e encantando, irreverente e alegre -- por muitos e bons anos;
  • e Alma Deutscher, essa menina prodigiosa que compõe, improvisa, interpreta. Sonatas, concertos, óperas. Canto. Uma coisa inacreditável. 
Devia agora puxar pela cabeça para tentar falar também de pacifistas, ambientalistas, fotógrafos, bailarinos, escritores, políticos. Devia. Mas não vou fazê-lo. Ia falhar muito. 

Também não vou falar das grandes dores, das grandes vergonhas, de todas as traições feitas ao género humano ou cometidas contra seres vivos, em geral. Iria também falhar em toda a linha. Por cada pequena conquista, várias pesadas derrotas. E se para ilustrar este não-texto escolhi ao acaso algumas imagens que, por algum inconsciente motivo, me agradam, para terminar escolho duas que, por motivos totalmente conscientes, ilustram a barbárie que vive dentro de nós.



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Mas, não obstante a bestialidade cujas demonstrações nos ferem o coração, o mundo é ainda um lugar maravilhoso, múltiplo nas suas magias e encantos.
É bom viver.
Convenhamos: 2017 não foi um ano mau de todo. 



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2017 está, pois, quase a acabar.
E que acabe em beleza que cá estaremos para as despedidas e para receber, com esperança, 2018

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