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terça-feira, dezembro 15, 2020

Devagar, despreocupadamente, caminhamos para o fim da luz, para o fim dos tempos?

 



Acho que o mundo está a entrar num caminho estreito. E não sei se, no fim desse caminho estreito, há uma saída.

Não é só isto da pandemia 

(embora também o seja, pois não podemos desvalorizar uma pandemia que faz colapsar a economia em todo o mundo e em que, ao fim de quase um ano, ainda permanece o mistério sobre como funciona este vírus, transmutando-se e escolhendo uns e não outros e matando uns e não outros), 

é também tudo o que aí vem com as alterações climáticas e, não menos grave, o que está por vir com a dependência total de tecnologias omnipresentes, ubíquas, baratas, ao alcance de todos... e não apenas desreguladas como impossíveis de regular.

Esta segunda-feira vários serviços da Google estiveram em baixo. O impacto que isto tem na vida de muita gente é incalculável. Claro que grande parte das pessoas nem pára para pensar que tem parte da sua vida alojada e processada em computadores longínquos, geridos por gente que ninguém sabe quem é... e que, ao não pagar um tostão por nada disso, dificilmente pode algum dia reclamar o que quer que seja. Mesmo que o queira fazer vai ter a maior dificuldade em saber a quem se dirigir e de que forma o poderia fazer.

E não estou a falar só de gmail, hangouts, blogger, youtube, etc, que, para muita gente não é apenas coisa lúdica mas sim profissional, social, familiar. Estou a falar também de uma miríade de equipamentos, dispositivos e toda a espécie de objectos que, sem nos apercebermos, estão ligados sabe-se lá onde. Um carro que recebe actualizações automáticas e que está permanentemente a ser localizado para poder ter o gps a funcionar ou para receber informações do trânsito, por exemplo. E nem falo dos telemóveis: ligados a tudo, apps a ferver ligadas a bancos, a fnacs e bertrands, a supermercados, a cartões de tudo e mais alguma coisa, a todo o lado. Falo de fábricas, falo da alimentação eléctrica das cidades, falo de painéis de sinalização de autoestradas, falo de tudo. Tudo automatizado, tudo ligado a tudo... e cada vez mais. A internet das coisas. Tudo automatizado, tudo com inteligência, tudo com algoritmos. Machine learning. Ah pois é. E tudo tem o seu inegável lado bom, óptimo. Mas está à mão de semear para quem o queira usar para o mal. E o pior é que não há como controlar. Por perversidade, por brincadeira, por pirraça, por dinheiro, por descaso... tudo está aí à disposição de quem queira fazer o que lhe apetecer como, por exemplo, deixar um país às escuras, fazer os carros irem uns de encontro aos outros, atirar com fábricas pelos ares. E não digo mais para não dar ideias.

Não falo apenas de ataques cibernéticos, dos hackers que entram onde não devem muitas vezes a soldo de Estados que praticam ingerência noutros Estados, não falo de espionagem industrial em larga escala, não falo em sabotagem cuidadosamente orquestrada. Não falo porque tudo isto é real, existe, é conhecido. Falo, sim, porque é o que mais preocupa, de quando as máquinas se programarem a elas próprias, de quando os humanos se tornarem redundantes face à fiabilidade dos algoritmos, falo de quando os sistemas ficarem descontrolados e os humanos, indefesos, isolados, sem saberem como sobreviver.

Claro que o Marcelo andar a meter-se onde não deve é uma chatice e um déjà-vu sem os quais passávamos bem, claro que o Marques Mendes ser a alcoviteira do regime é daquelas para as quais já não há paciência, claro que haver um populistazeco de meia tigela a subir nas sondagens e levado ao colo pelo PSD e pela comunicação social é uma daquelas chatices que corre o risco de vir a acabar mal, claro que o meu País ter um serviço onde se pratica a tortura e o desrespeito pela dignidade e pela vida humana é insuportável, inaceitável e, se isso acontece, alguma coisa de muito grave se passa e, mais do que apenas pedir a demissão do ministro, deve haver garantia de que coisas assim jamais poderão voltar a acontecer (exames psicológicos e rastreio de álcool e drogas aos agentes, vigilância dupla, não sei), claro que, nesta altura, os professores andarem a falar em greve pela reposição do tempo de serviço é deslocado e despropositado, claro que tudo isso e muito, muito mais é verdade. 

Mas a gravidade e a urgência do que está por vir é de uma outra magnitude, ultrapassa o circunstancial. 

O tsunami múltiplo de desaires que está à espreita é global (tal como esta pandemia é avassaladoramente global), incontrolável e com tudo para ser dramático, talvez de consequências irreversíveis. E para isso ninguém parece estar atento. E o pior é que, mesmo que, aos poucos, alguns comecem a estar atentos, não sei se se vai a tempo. E quando falo em 'alguns' não falo em mim ou nuns quantos cidadãos mais preocupados e mais informados que eu. Estarmos ou não estarmos atentos e apreensivos é igual ao litro, não dá em nada. 

Falo, sim, que deveria haver uma urgência política reconhecida como a grande prioridade do mundo, falo numa espécie de abalo colectivo de tipo 'pára tudo!' que leve os Estados a encarem de frente, muito a  sério, os riscos e darem ordem expressa para que todas as baterias lhes sejam apontadas. 

E mais do que isso: um travão às quatro rodas, repensar tudo, criar mecanismos de não dependência absoluta das tecnologias. 

Mas não sei se vamos a tempo. 

O tempo de reacção política é um tempo lento, feito de cautelosas diplomacias, de demoradas negociações, de concessões, de sucessivos nivelamentos por baixo. E o tempo da tecnologia é o oposto, é o tempo do imediato, o tempo de quem age por si, o tempo de quem tem todos os meios à disposição, a baixo custo, o tempo de quem age por gozo ou por malvadez ou por mercenarismo ou por ambição, sem freios. De um lado está a malta do sistema, os totós que se acham o máximo e que não vêem um palmo à frente do nariz querendo apenas zelar pelos interesses mais próximos. Do outro estão os serviços de inteligência, os bandidos, os jogadores, os aventureiros, os novos piratas, os que desconhecem as leis ou conceitos tão abstractos como o bem ou o mal. 

Não sei se vamos a tempo.

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E, assim sendo, com estas preocupações em mente e com um dia cheio de manobras para pôr uma máquina em movimento, pouca disponibilidade física e mental me sobrou para ficções ou ilusões.

Cirandei pelo jardim mas pouco, fotografei, tentei que a cor das flores animasse o dia tão cinzento, tão escuro (tal como agora o faço, incluindo-as para que o post não fique demasiado sombrio), observei pela janela, enquanto falava ao telefone, os pequenos pássaros, tão frágeis, aparentemente tão despreocupados. Ao fim do dia estive a ler Adélia Prado, uma lufada de ar fresco. A cada frase espanto-me, surpreendida pela graça, pela irreverência da escolha das palavras, pela leveza dos pensamentos que dançam tão inocentemente sobre assuntos tão íntimos. Gosto muito. Gostava de ser capaz de decorar para agora, aqui, sem consulta, vos contar sobre algumas passagens -- mas não sou capaz e, ao mesmo tempo, não o tento. Sempre achei que quem decora muito e sabe tudo dificilmente se deixa encantar pelo que, de novo, for descobrindo. Esforço-me por preservar a minha ignorância e desprendimento.

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Desejo-vos um dia feliz.
Saúde. Boa disposição.

segunda-feira, novembro 02, 2020

Sempre existirão dentro de nós
[e, ainda, a despropósito, aquelas insignificantes minudências de que a vida é feita]

 


Não há um dia específico para lembrar aqueles que partiram. No outro dia a minha mãe, ao conversar comigo sobre uns amigos de juventude, ia referindo um e outro e acrescentava 'já morreu' e a seguir 'também já morreu'. Às tantas, resumiu: 'desses tempos, só já cá estou eu e ...' e referiu mais umas duas ou três pessoas. Depois acrescentou que isso lhe faz um bocado de impressão. Imagino. Penso algumas vezes como será quando eu tiver a idade dela, vendo-me cada vez mais perto do fim da linha. 

De todos os que, da minha família, se foram nos últimos tempos, guardo memórias que acarinho. Não tenho para elas um dia em especial. As memórias vêm quando vêm. Não penso neles como seres ainda com matéria que justifique uma visita. Para mim, fisicamente já não existem. Uns estão enterrados, outros foram cremados. De uns foram depositadas as cinzas, de outros havia a ideia de as deitar ao vento em lugares que lhes eram queridos. 

Por isso, o dia em que se recordam os que partiram não tem, para mim, qualquer significado. É apenas mais um dia. 

A vida é isto mesmo, um daqueles tapetes rolantes em que entram uns, saem outros. Quanto tempo nos vamos aguentar em cima dele é uma incógnita. Tenho um amigo que organiza a sua vida em função de quando for mais velho, chegando mesmo a equacioná-la caso fique viúvo. Aliás, ele não o explicita, diz apenas: 'não quero isso pois, se um se for e o outro se vir sozinho, não sei como seria...'. Eu, que sou optimista militante e despreocupada, penso em função do que vale a pena. Se agora é bom, já vale a pena. Pode ser bom apenas durante uns dias, mas já vale a pena. Pode acontecer uma hecatombe e o futuro não ser nada daquilo que se pretendia mas se, enquanto durar, for bom, então, já vale a pena.

E, durante um bocado da nossa vida temos connosco amigos e família que, aos poucos, vão ficando para trás e, ao mesmo tempo, vão entrando outros. É assim. Não vale a pena pretender que seja de outra maneira.

Hoje, aproveitando estarmos no mesmo concelho, fomos de manhã à praia e encontrámo-nos lá com a parte da família que também cá mora. Todos de máscara apesar do ar livre. Os meninos andam na escola, os mais pequenos sem máscara, portanto nunca se sabe. Também é um dado adquirido que resisto mal a manter-me afastada deles. Portanto, para me protegerem, não tiram a máscara. Enquanto os pais foram correr, eu joguei ao disco com a menina, fiz buracos na areia com o mais pequeno, fiz pizas com o do meio, organizei saltos em altura e em comprimento com todos. Ar livre, aquela leve neblina que nasce junto ao mar, a companhia dos meus. Tão bom. Bom tempo, apesar de tudo. Uma temperatura branda, poucas pessoas, um areal amplo. A água estava boa mas apenas molhei os pés. Depois deles terem ido, fomos nós dois fazer uma caminhada.

De tarde, andei, de novo, de volta dos livros. Na primeira leva, houve uns maus passos. Não sei como, algumas autobiografias, biografias e correspondência que não de língua portuguesa vieram parar à estante dos autores de língua portuguesa. Provavelmente por falta de espaço nas estantes lá de cima. Em contrapartida, vários de língua portuguesa foram parar às estantes onde supostamente só devia haver autores que não de língua portuguesa. Por isso, andei abaixo e acima a trocar a questão das nacionalidades. Depois a reorganizar: uma zona para correspondências, outra para entrevistas, outra para diários, outra para autobiografia, outra para biografias. E outra para crónicas. Em baixo tudo isto mas de autores de língua portuguesa. Em cima a mesma coisa mas para não de língua portuguesa.  Também autonomizei numa pequena estante, os livros que falam de livros, que falam de literatura ou de crítica literária. E ainda vou arranjar uma prateleira específica para literatura pornográfica/humorista/picante. Constatei que tenho pouco deste género. Não sei se há mesmo pouca, se sou eu que tenho pouca. Acho que, um dia que tenha tempo, hei-de tentar compor o ramalhete.

Tive que interromper pois tinha mais que fazer pelo que esta segunda-feira terei que arranjar tempo para ver se concluo a empreitada.

Não tive foi tempo de ir arrumar as roupas que vieram no outro dia e que ainda estão em sacos. Tenho que ver bem como as separo e guardo. A roupa guardada durante muito tempo fica a cheirar a mofo, parece que fica áspera. 

Este domingo fiz uma máquina com toalhas turcas que vieram no outro dia. A maioria já tinha vindo. Estas estavam esquecidas lá num roupeiro. Apesar de estarem lavadas, não consegui guardá-las assim. Parece que a roupa perde a vida quando está esquecida. Mas tudo isto dá trabalho. O meu marido queixa-se, diz que nesta casa não consegue descansar, há sempre coisas para fazer. É verdade, tem razão. Mas é porque ainda estamos na fase de instalação. Também todas as caixas que trouxemos no outro dia, tupperwares, jarros, medidores de líquidos, coisas assim, é tudo lavado antes de ser guardada. Uma trabalheira. E decidir onde se guarda, outro desafio. Para as coisas não ficarem atravancadas, para ficarem acessíveis, para ficarem arrumadas de forma lógica... é preciso cá uma ginástica mental...

Estes armários da cozinha vão até ao tecto. Há, pois, muita arrumação. Contudo, só com escadote alto eu conseguirei chegar às últimas prateleiras. Por isso, aquilo que o meu marido tem posto lá para cima, é bem capaz de também ficar meio esquecido. Quando penso em voz alta sobre estes profundos dilemas, o meu marido remata sempre: se deitasses fora tudo aquilo de que não precisas já não tinhas tantos dilemas... E aí eu calo-me.

Tirando isso, o que sei é que este ano, ao estar afastada das zonas de consumo, não sei como estão as lojas. Já devem estar a antecipar o natal mas imagino que seja um bocado triste. As lojas devem estar meio vazias de fregueses e mais ainda hão-de ficar. E os proprietários e os empregados devem estar assustados. Compreendo. O comércio, com o tempo, vai deslocar-se para o online. As grandes superfícies tal como os grandes espaços de escritórios devem ter o destino traçado. Mas outras coisas surgirão. Há-de desenvolver-se tudo o que tenha a ver com a natureza, creio. E com a proximidade, onde possamos ir a pé, onde nos conheçamos todos. O regresso ao espírito de aldeia. E isso talvez seja bom. A sociedade há-de ajustar-se e adaptar-se a tendências sociais que vão surgindo. É isso: uns saem do tapete rolante, outros entram. Pessoas, hábitos. 

Ficam as memórias. Sempre as guardaremos dentro de nós.

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Rianne van Rompaey aqui é fotografada por Mikael Jansson ao som de Always on my mind numa interpretação de The Webb Sisters.

E Tom Hiddleston diz Do not go gentle into that good night de Dylan Thomas 

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Desejo-vos uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira.

segunda-feira, março 23, 2020

Mais um dia neste limbo de incerteza, rodeada de uma paz que parece de um outro mundo,
mas pensando no incerto caminho que temos pela frente

-- Do not go gentle into that good night --





Este meu domingo voltou a ser atípico. Parece que, por uma qualquer convulsão, simultaneamente temporal e espacial, tivéssemos vindo aqui parar. Esta não é a nossa condição habitual.

Sobretudo, faz-me muita impressão não ter conhecimentos para poder ver o futuro menos enevoado do que agora o vejo.

Levantei-me com mais motivação e fui arrumar roupas e outras coisas que para aqui tínhamos trazido e que, com a loucura que foi a semana, foram ficando fora de sítio. Não trouxemos muita roupa. A saída de casa, tal como tinha sido a saída dos dois escritórios onde habitualmente trabalho, foi algo desorientada, mal pensada, triste. Saímos sem saber por quanto tempo. Não trouxe quase nada, apenas o mínimo, quase uma ida para férias mas sem se saber quando se volta, uma sensação algo angustiante. Para quem me lê e já não trabalha ou trabalha em casa isto pode não se perceber bem mas a verdade é que a sensação que senti foi a de estar a haver um tremor de terra e em que, sem se saber o que vai acontecer, a gente pega em meia dúzia de haveres, os básicos, e sai sem saber se regressa.


E ainda não me habituei bem à ideia de estar em minha casa e, em vez de poder estar vestida à vontade e andar a fazer o que me der na bolha, ter que estar dentro de horários, a atender telefonemas, a ter que estar arranjada, a participar em video-conferências. E a mostrar a minha casa como agora toda  a gente a mostra. 

Temos comido bem e acho que equilibradamente. Fomos ao supermercado creio que na terça-feira da semana passada (ou na quarta? - já não tenho ideia, parece que também ando desorientada com os dias da semana) e, com o que trouxemos, tem-se conseguido variar. E, pelas minhas contas, ainda conseguiremos aguentar-nos com o que temos até ao fim da semana. Com aquela coisa do covid se aguentar activo sobre as superfícies até cerca de 3 a 4 dias, em especial no plástico, a semana passada pusemos em quarentena, no estúdio, tudo o que não fossem frescos. Temos a sorte de podermos dispor de um espaço para estas habilidades.

De tarde, fui lá para fora ler, mas arrefeceu. Fui buscar uma mantinha e estive ali bem confortavelmente. Se me abstraísse das circunstâncias, quase poderia dizer que estava feliz da vida. Mas claro que não estava. Sinto-me inquieta. Depois arrefeceu ainda mais. Vim para dentro. Quando estava a vir, vi no chão uma peça brilhante, colorida. Fui ver o que era. Uma pedrinha de vidro transparente, colorido. Não sei de onde veio. Pensei que pudesse ser da almofada mas não, não tem pedrinhas, apenas missangas. Não faço ideia. Mistérios. Coloquei-a em cima do livro e fotografei-a. Assim ocupo o meu tempo.


Em casa, no sofá, dormitei um pouco. Depois fomos fazer uma caminhada. O meu marido olhou para o céu e disse: 'antes víamos sempre aviões'. E era. Na cidade em que os temos sempre por cima da cabeça já nem damos por eles. Aqui no campo, olhávamos para o céu e lá iam, um pontinho branco deslizando no azul e deixando um véu de tule branco à sua passagem. Era normal vermos dois e três, cada um em sua rota. Parece que foi há muito tempo, num outro tempo. Agora olha-se não se vê nem um. Não se ouvem motas ao longe, não se ouve nada. Apenas o cair da chuva ou o suave som da aragem a correr sobre os ramos das árvores e, sempre, o canto dos pássaros, felizes e desconhecedores de todo este caos.

Entretanto, recebi documentos de trabalho para reuniões desta segunda. Não consegui ler tudo, não me apeteceu ler tudo.


Estive a ler, isso sim, algumas coisas sobre esta maldita pandemia. Passo ao lado de teorias da conspiração e parvoíces para me focar nos aspectos que mais me preocupam: 
  • Em primeiro lugar, como vamos viver até que a imunidade esteja instalada, sendo que a vacina vai demorar e que ainda não estão no terreno alternativas de forma a podermos aguentar o embate até lá. Vamos viver enclausurados durante mais um ano e tal? Como o aguentaremos? Vamos isolar os mais velhos e os mais vulneráveis, mantendo os demais em circulação? Como suportaremos fazer isso? E como suportariam os mais velhos e os mais frágeis a tristeza de tal isolamento?
  • O que vai ser, entretanto, de todos os que vivem de actividades que dependem da circulação ou da concentração de pessoas? Sectores como o turismo, restauração, comércio massificado, todas as formas de espectáculo, viagens, etc, vão viver de quê? E não só esses: sectores como os das limpezas de escritórios, agora que os escritórios estão fechados, e tantos, tantos outros.
  • E o que vai ser o day after, seja ele quando for? Daqui por um ano ou ano e meio, tendo as pessoas interiorizado uma outra maneira de viver, como vai ser? Os escritórios vão voltar a encher-se? Não vão. Não vão até porque as empresas não aguentarão continuar a pagar pesadas rendas durante os meses em que as pessoas estão em casa, grande parte das empresas paralisadas e mal tendo dinheiro para pagar ordenados. E os centros comerciais vão voltar a encher-se? Tenho dúvidas. Com as lojas fechadas ou com a clientela reduzida por tempo indeterminado, grande parte delas fecharão. E os hotéis que estavam cheios de turistas vindos do mundo inteiro como se aguentarão agora que os turistas estão impedidos de sê-lo e que nem tão cedo poderão voltar a sê-lo? Muitas incógnitas. E, certamente, muito desemprego, muitas falências. O mundo, e desculpem se me repito, vai ser outro. Tem que haver muita criatividade, muita reflexão. Tem que se perceber para onde vai o mundo e, até que lá se chegue, tem que se saber como manter vivas tantas pessoas que vão ficar sem ocupação nem rendimentos.

Talvez eu esteja a ver o filme mais negro do que será, no futuro. E, de cada vez que penso em futuro, não sei onde situar-me. Lá para finais de Maio ou em Junho, se tudo correr bem, estaremos a sair da hibernação. Mas não sairemos completamente pois, sem 70% da população imunizada, para que a catástrofe não se abata de novo sobre nós, teremos que limitar fortemente a nossa movimentação. 

Ou aquilo do soro do sangue dos recuperados resulta e aí talvez se consiga antecipar o regresso à normalidade ou se descobre um cocktail que, sem danosos efeitos secundários, consegue atalhar o efeito do bicho no organismo, ou o futuro vai tardar a chegar e, quando chegar, ver-nos-emos chegados a um cenário que não vamos gostar de ver.

Claro que a UE e os Governos, se tiverem juízo, se unirão para fazer frente a uma hecatombe e o mundo não acabará. Mas temos todos que ser criativos, disponíveis para ajudar, temos que deixar de ser comentadores de bancada, maledicentes, clubistas, medíocres. Temos que ter visão, temos que ser generosos.


Acredito mesmo que esta pode ser a oportunidade para fazermos a viragem para um mundo mais inclusivo, mais inteligente, mais saudável e equilibrado, respeitando o planeta na sua infinita variedade e beleza. 

Mas temos que lá chegar. E é esse espaço, esse caminho até lá, esse labirinto que ainda vejo envolto em névoa e incerteza, que me assusta um bocado. Isso e haver tanto estúpido e bronco à solta.

Mas haveremos de lá chegar. Isso eu sei, de certeza. E também sei que, uma vez lá chegados, será um mundo melhor.




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sábado, outubro 25, 2014

Blind eyes could blaze like meteors and be gay; Rage, rage against the dying of the light.


Agora já estou no campo. Cheguei cansada a casa, à cidade, quilómetros de autoestrada depois de dois dias de reunião, grande parte em inglês, com almoços, jantares, cocktails e coffee breacks sempre com conversas de trabalho. E na noite de quinta para sexta dormi mal. Não consegui ler, a luz era fraca. Ora, acostumada que estou a ir para a cama já a dormir, ali arranjei uma espertina que não vos digo nada. Quando cheguei, perdida de canseira, o meu marido achou que o melhor era jantarmos fora e assim fizemos e, de seguida, ala moço que se faz tarde, heaven com eles.

Pelo caminho vinha a tentar não adormecer, mas só a muito custo não me deixei tombar; depois estive a ver a telenovela da SIC, a D. Constância toda derretida com o neto escurinho ao qual mandou dar o nome de um filho que perdeu em pequeno. Bonita esta telenovela brasileira que se chama Lado a Lado.

Entretanto, agora, enquanto tento escrever, tenho isto na TVI, 4 brilhantes comentadores a falarem da Casa dos Segredos. A Fanny, tatuada e veterana, disserta sobre a estratégia do jogo dos outros, outro, bicha assumida e de quem agora não me lembro do nome, um com colete e lacinho ao pescoço, parece ser o intelectual do serviço mas na versão 'bicha intelectual da moda e dos big brothers', outra é a Carla Pinto, bonita e simpática, e a moderadora é aquela que também esteve no Big Brother e se casou com o Marco do pontapé, uma Marta que antes era morena e agora está loura.


Falam de coisas que não percebo, intrigas insignificantes, de um Odim, que me parece que é um de cabeça rapada que ali está com uma crista esquisita, de uma Daniela e de uma tal Agnes mas tudo o que ouço dizer parece desprovido de sentido. No meio do comentário, passam uns bocados da vida dentro da gaiola e as conversas são também de anedota.

Antes tinha espreitado a net e vi que o Carrilho e a Bárbara andam outra vez na capa das revistas a acusar-se mutuamente de violência, directamente ou por interpostas pessoas, um vómito. 


E eu penso que a vida em Portugal está a tender para a ópera bufa. Nem é miserável, é apenas ridícula, rábula barata.

E eu perdida de sono. Não sei de nada sobre o que falar pois tenho a cabeça vazia. Nem consigo ir à procura de nada pois não faço outra coisa senão bocejar enquanto tento não me deixar cair a dormir.

Ontem ao jantar, mesa quadrada para 12 pessoas à larga, uma de várias mesas da sala, perguntava-se a um colega inglês se conhecia escritores portugueses. Nem fui eu que puxei essa conversa, apanhei a conversa neste ponto. Nenhum. Não fazia ideia. Saramago?, perguntou um dos convivas. Nunca tinha ouvido falar, Sorry. Outra insistiu: ... Prémio Nobel? Zero. Camões, Pessoa? Nada.

Perguntei: E inglês? Não percebeu. Esclareci: E algum escritor inglês, conheces...? Atirou-se para trás na cadeira. Se eu estava a gozar com ele, e riu desconfiado. Insisti: Nomes. E ele insistiu também, Kidding me...? E eu, Names, please. Os outros calados. Pensei, conhecendo-o bon vivant, todo dado a ténis, golfe, futebol, viagens, que literatura era coisa que não lhe assistia. E ele sorrindo, como que a querer virar o jogo: De que época? Esperto, a ver se me apanhava. Qualquer. Nomes. E então, picado, desatou a dizer. Vários e dos bons. E sorriu olhando para mim e para os outros, querendo colher os louros. Os outros sorriram, ele tinha ganho um ponto e merecia a recompensa de um sorriso.

Lembrei-me, então, das minhas personagens femininas. Imitei-as: E um poema? E ele muito admirado: Um poema? Os outros calados, sorrindo, a ver onde ia parar a conversa. Confirmei: Sim. um poema. Um. Vá.

What? Queres que eu diga um poema?. Respondi, Sim. Um. Mas, entretanto, pensei, Se a mim alguém agora à mesa me pedisse para dizer um poema provavelmente não me lembrava de nenhum ou, mesmo que me lembrasse, não me estava a ver a recitar numa mesa cheia de colegas. Mas deixei-me de rebuços e insisti, Vá. Um poema, estamos à espera.

Então, como se é isso que queres, prepara-te porque vai ter, chegou a cadeira para trás, afastou o corpo mas com o braço esticado em diagonal e com a mão apoiada na mesa, pose de bardo, começou a dizer Dylan Thomas

Pensei, que não era possível, que aquilo não estava a acontecer. O alto e bronzeado inglês, todo dado a paródias e boa vida, ali estava declamando um inesperado poema.

Poderão vocês, meus Caros Leitores, achar que estou a divagar mas juro, é verdade.

A mesa em silêncio, estupefacta, e ele 

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,

Because their words had forked no lightning they

Do not go gentle into that good night.



Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.




Dylan Thomas reads "Do Not Go Gentle Into That Good Night"




A vida passa a vida a surpreender-me e cá estou eu pronta para ser surpreendida.

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Tirando este pequeno episódio não me ocorre mais nada. 

Por isso mostro-vos apenas interiores que vão bem com o Outono e maquilhagens que vão bem com o que se veste, Vi-os na Harpar's Bazaar. Não tem nada a ver com o que tinha estado a escrever mas também, a bem dizer, não tinha escrito sobre nada em particular.


















































E agora só sei que tenho que me ir deitar. São quase duas e meia e eu dou por mim de olhos fechados.


Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.


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