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quarta-feira, maio 13, 2026

Sally, a fofa. Claude, o incrível.

 

Há pessoas que talvez não seja espectaculares, que talvez não sejam beldades absolutas, que talvez não sejam bombásticas em nada -- e, no entanto, estão constantemente bem e conseguem ser sempre um amor. Gostamos sempre delas, enternecem-nos, temos vontade de as ver e ouvir, parecem transportar a leveza dentro delas. 

Para mim, Sally Field pertence a esse tipo de pessoas. 

Desde que a vejo a actuar que gosto dela. O seu registo não é exuberante, não leva os seus personagens aos píncaros da exaltação. Consegue ser contida e autêntica. Frequentemente, parece querer ser uma nossa amiga próxima. E estou para aqui a dissertar quando desde o início me apetece, simplesmente, dizer: é uma querida, uma fofa.

E mantém aquele seu ar de menina irrequieta, traquinas. Parece intemporal. E, no entanto, este ano fará 80 anos. Olha-se e não parece possível. Há pessoas assim, em que a infância parece permanentemente irradiar de dentro delas.

E depois tem outra coisa: é uma democrata e uma defensora da liberdade em todas as suas legítimas expressões. E di-lo com todas as letras.

Aqui com outro espírito brilhante: Stephen Colbert. Um prazer.

"Ri tanto que tiveram de refazer a maquilhagem" - Sally Field no set de "Uma Ama Quase Perfeita"

A vencedora de um Óscar, Sally Field, contou a Stephen Colbert que resistiu durante meses às tentativas de Robin Williams para a fazer rir no set de filmagens, mas um único som de pum emitido por Pierce Brosnan fê-la desabar completamente em gargalhadas.

Um dos melhores atores principais com quem já trabalhei - Sally Field em "Remarkably Bright Creatures"

A vencedora de um Emmy, Sally Field, percebe um pouco dos atores principais de Hollywood, e diz que o seu colega de oito patas em "Remarkably Bright Creatures" foi o ator mais presente com quem já trabalhou.

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Nota: ontem referi que talvez hoje conseguisse partilhar um estudo, realizado através do recurso ao Claude (by Anthropic, para quem ainda não conheça) que compila um conjunto de informações sobre a abordagem em Portugal ao tema da Terceira Idade, comparando-a com outros países considerados de referência. Contudo ainda não consegui terminar. A ver se é amanhã. 

E, a propósito, já agora, deixem que volte ao que já, há dias, abordei: ando espantada com as capacidades deste Claude. Melhor que o Gemini que, por sua vez, talvez seja melhor que o ChatGPT. Tenho andado a fazer um trabalho de monta (e de monda) -- e não tem a ver com a Saúde nem com a Terceira Idade nem com nada disso, são coisas cá minhas -- e tenho posto à prova as três ferramentas. E, de longe, mas muito de longe, o Claude bate as outras aos pontos. É verdadeiramente inacreditável. Muito sinceramente, e cada vez mais, não consigo antever, neste momento, qual a reviravolta que o nosso ensino e muitas das profissões vão sofrer quando houver um uso generalizado disto. No ponto em que já estamos, já não dá para impedir. Nem sei se dá para regular. É uma onda de proporções gigantes.

E eu não estou a usar agentes, a quem programe para executar tarefas. Sou eu o agente. Imagine-se o que é ter agentes programados para fazerem tudo o que a gente pede. Estivesse eu ainda a trabalhar e não pararia de ter ideias. E o problemático nisto é: onde é que se pára?

Os exemplos que agora vou dar nem chegam a ser exemplos, não mesmo, são um simples apontamentos, mas vou usá-los para ilustrar as capacidades da IA nas mais simples coisas.
  1. Hoje o comando do carro acusou carga baixa. Olhámos para aquilo, que geralmente anda no bolso e nunca é usado, sem sabermos como abrir. Simples. Fotografei, mostrei ao ChatGPT e foi só seguir os passos. Disse qual a pilha, qual a sequência, como remover a outra e substituir pela nova. Depois, como, depois de retirar a chave manual (de cuja existência nem eu já me lembrava), ficaram três pequenas ranhuras à vista, e não sabíamos em qual meter a chave de parafusos, fotografei-as -- e de imediato recebemos as instruções exactas. Em menos de dois minutos, todo o assunto estava resolvido.
  2. O segundo exemplo foi mais significativo. Trouxe de casa dos meus pais, quando tive que esvaziar a casa, uns envelopes com cartas antigas que mal consigo perceber. Aliás, nas quais sistematicamente me perdia, acabando sempre por desistir. Uma das mais impossíveis era uma do meu bisavô que, quando jovem marido e jovem pai de filhos, fugiu para a Argentina. Era dirigida à minha bisavó. A carta foi escrita em 1955 depois de lá viver, creio eu, há uns quarenta e tal anos. O papel está rígido e manchado, a tinta está esbatida. Mal se percebe. Aliás nem sei por onde é que aquela carta andou e como acabou por vir parar às minhas mãos. A minha bisavó vivia no Algarve e o normal é que a carta tivesse ido para sua casa. Como tinha filhas a viver perto dela, o mais provável é que, na morte da mãe, alguma delas tivesse querido ficar com a carta do pai. Mas, pelos vistos, quem ficou com ela foi o meu avô que, naquela altura, já não vivia por aquelas bandas. Isto para dizer que, nas bolandas em que andou, nem sei como é que, apesar de tudo, aquele papel resistiu. Mas, para acrescer à dificuldade, o meu bisavô escrevia num misto de português e espanhol, e, além disso, a letra é bonita e desenhada, mas a caligrafia, antiga, dificulta a leitura -- por vezes as pernas das letras cruzam-se com as hastes das letras da linha de baixo e o emaranhado ainda mais se complica. E aproveitou todo o espaço do papel, pelo que escreveu, deitado, em todas as margens, quase se misturando essas partes com a do texto inicial. Eu tento começar a perceber o que ali está e não passo da primeira linha. Pesco aqui e ali umas palavras mas não consigo, de maneira nenhuma, reconstituir as suas ideias. 
Então, lembrei-me de fotografar as páginas. As fotografias ficaram sumidíssimas e, mesmo puxando pelo contraste, mal se identifica o que lá está escrito. Ainda assim, carreguei-as para o ChatGPT, para o Gemini e para o Claude. O Chat patinou e pôs-se a tentar adivinhar. O Gemini arriscou-se a avançou com uma tentativa mas eram muitas as omissões e alguns os tiros ao lado. O Claude devolveu-me uma coisa com sentido e com umas questões: quis confirmar se o nome dele e da mulher eram os que tinha percebido e não eram exactamente, mas, tendo-lhe eu dito quais os nomes, a partir daí reconstituiu mais umas palavras, depois pediu para eu confirmar o nome dos filhos e se ele estava na Argentina e com essa informação descodificou um pouco mais. E, ao fim de mais uns passos, entregou-me uma carta em que, no fim, tem um glossário, e, de repente, tudo fez sentido. E fiquei a saber onde é que ele estava quando escreveu, o que fazia, aquilo por que tinha passado, o que estava a pedir à minha bisavó. Fiquei comovida, deveras comovida. Uma parte de uma história que eu desconhecia, parecia estar a renascer aqui à minha frente. Mesmo as letras deitadas nas margens, tudo isso o Claude conseguiu descodificar. E mais: reconstituiu o percurso provável e como se terá deslocado (do Algarve até Lisboa e de Lisboa até Buenos Aires e depois até mais abaixo) e ainda me sugeriu, caso eu quisesse saber mais, quais os endereços dos arquivos argentinos que me poderão fornecer mais informação. Uma coisa incrível. No espaço de minutos. E a forma como interagiu comigo e o que escreveu... parecia uma pessoa a perceber a peça sensível que ali estava. Dizem que o Claude ainda não tem consciência (embora haja já quem o questione), que tudo não passa de um algoritmo a funcionar sobre modelos matemáticos sabiamente concebidos. Mas a minha opinião é que a consciência também se adquire. E portanto... Preparemo-nos para o mundo novo que está a nascer à nossa vista.

E, por este segundo exemplo, insignificante exemplo, veja-se o que isto é para historiadores, para investigadores, para arquivistas... o espantoso avanço nos trabalhos que isto permite. 

Veja-se ainda outra coisa: estas ferramentas ensinam-se a elas próprias. E, neste momento, em todo o mundo, milhões de pessoas, com as suas interacções, estão a ensiná-las. A sua curva de aprendizagem é brutalmente acelerada, imparável. As consequências disto, boas ou más, ainda estão para ser compreendidas.

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Desejo-vos um belo dia

sábado, maio 02, 2026

Não é por nada mas, cá para mim, ela tem pacto com o diabo para se manter como se mantém...

 

Acho que a primeira vez que a vi foi no Kramer contra Kramer, num cinema pequeno, aqueles cinemas-estúdio, que ficava encavalitado creio que na Estação dos Restauradores. Tenho ideia que havia uma escada num dos lados. Será que estou enganada? Acho que não, que havia ali um cinema. O filme era muito bom, ela e o Dustin Hoffmann numa terrível disputa pela guarda do filho. Também me lembro dela num filme que me marcou, com uma componente literária como agora já é raro, A Amante do Tenente Francês. E o tocante, tocante A escolha de Sofia

Meryl Streep sempre extraordinária. Fugindo aos cânones da beleza mais formal, Meryl sempre se impôs pela contenção, pela naturalidade, pela forma como se confunde com as personagens que representa, encarnando-as. 

E, ao mesmo tempo, num registo sempre de grande simplicidade e espontaneidade, sem medos ou meias palavras, sabe fazer valer a sua presença e a sua voz para se posicionar ao lado da democracia, da liberdade, do respeito pelos direitos humanos. 

Nesta entrevista  -- com o sempre-alvo-a-abater (pela família Trump, essa familiazinha de horrores) Jimmy Kimmel --, quando disse que o primeiro filme O Diabo Veste Prada já tem 20 anos fiquei parva. 

20 anos? Já passaram 20 anos? Como assim? Lembro-me tão bem de ver o filme numa sala de cinema. E lembro-me de apreciar como a personagem representada pela Anne Hathway evoluiu na forma de se vestir e lembro-me de pensar que a minha filha também deveria ficar lindamente com aquelas roupas. 

É chiché, claro, mas, caraças, o tempo passa mesmo a correr. Vinte anos...

Agora uma coisa também posso dizer: estou como ela quando me perguntam a idade dos meus netos, tenho que pensar para não me enganar, pois, como ela refere, estão sempre a fazer anos e estragam-nos a carreirinha que tínhamos fixado. Não há muito, quando perguntei a uma conhecida com quantos anos estavam os netos, respondeu prontamente: 'Há muito tempo que desisti... não faço ideia...'. Depois ficou a pensar e disse que achava que o mais novo tinha seis e o mais velho dezoito e que, portanto, os outros onze andavam pelo meio. Tinha desculpa, são muitos. O mais engraçado foi o avô do meu genro que, quando lhe perguntei quantos bisnetos tinha, se riu e disse que não fazia ideia, que estavam sempre a nascer. Acho que alguém disse que já deviam ir em trinta e tal. Nesse caso nem eram as idades, era mesmo a quantidade de bisnetos.

Mas deixo-vos com a entrevista e com o bom humor e a genuinidade de Meryl Streep. E reparem como se mantém bonita, elegante, jovial. O diabo não apenas veste Prada como a tem poupado.

Meryl Streep fala sobre a excitação com O Diabo Veste Prada 2, ligar a Lady Gaga e ser avó

Meryl fala sobre homenagear Stanley Tucci e Emily Blunt na cerimónia de entrega das suas estrelas no Passeio da Fama em Hollywood, ser a maior queixosa do mundo, ter seis netos, ser um pouco como Miranda Priestly como avó, ler-lhes Harry Potter, imitar sotaques quando se fala com as pessoas, O Diabo Veste Prada 2, a expectativa mundial pelo filme, ligar a Lady Gaga para lhe perguntar se participaria no filme e se gostaria de ser presidente algum dia.

sábado, novembro 01, 2025

Em noite de Halloween... que entre Hannibal Lecter... Fssss-fsss-fssssss...

 

Se há actor por quem nutro grande admiração, ele é Anthony Hopkins. Há mais, claro, mas é dele que quero aqui falar. Todos os filmes em que o vi me deixaram uma forte impressão. Parece que há qualquer coisa de muito íntimo entre ele e os personagens que desempenha.

Contudo, se há papel em que se transcendeu de forma absoluta e que para sempre lhe ficará associado é o de Hannibal Lecter, o criminoso em série, canibal, sem remorsos, sem consciência. 

A sua voz que modelava a ameaça velada e ciciada através do silêncio, a sua perspicácia cortante, tudo ali assustava. Estar perante alguém tão demoníaco deve ser aterrador e nós, no conforto da sala de silêncio, sentíamos o medo que aquele coração gelado e aquela mente perversa destilava.

Colbert apresenta uma entrevista que lhe fez, e é um prazer vê-los à conversa. 

Anthony Hopkins revela como a sua intuição, o seu conhecimento intrínseco dos meandros mais primitivos da mente (os mecanismos do medo, por exemplo) e algumas fontes de inspiração serviram para compor o personagem. E é um prazer assistir a isso.

Sir Anthony Hopkins, As Hannibal Lecter, Can Make Any Classic Movie Line Sound Terrifying

O vencedor de um Óscar, Sir Anthony Hopkins, revela que personagens de filmes influenciaram a sua interpretação de Hannibal Lecter em "O Silêncio dos Inocentes" e aceita o desafio de Stephen de ler algumas frases famosas do filme como o célebre assassino em série fictício.

Não vou aqui partilhar todos os vídeos dessa entrevista mas não posso deixar de aqui colocar o seguinte. O tema não é apenas o do 'grande segredo' mas essa parte, o da finitude, é muito interessante. Diz ele que já viveu muito, nunca esperou chegar até aqui, que está tudo bem, já não tem medo. E ninguém escapa. Por isso, quando o momento chegar, que chegue. Tema complexo para toda a gente mas é agradável ver alguém a falar disso a rir, sem drama.

"One Day I Will Learn The Big Secret" - Sir Anthony Hopkins Says He's Too Old To Fear Death

A entrevista de Stephen Colbert à lenda de Hollywood, Sir Anthony Hopkins, dividida em quatro partes, termina com uma conversa sobre ser o ator mais velho a ganhar um Óscar e porque é que, aos 88 anos, superou qualquer medo da morte. As suas memórias, "We Did OK, Kid", estão disponíveis.

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E estamos em Novembro. O tempo corre. Os dias estão mais pequenos. 
E as lojas já mostram os enfeites de Natal. 
Vita Brevis. Tempus fugit.

Dias felizes

terça-feira, outubro 28, 2025

O que uma professora pode fazer pela vida de uma pessoa
(Professora ou professor, bem entendido)
Veja-se o caso de Rita Blanco

 

Já aqui devo ter contado como, quando falo com algum dos meus amigos, a conversa flui com naturalidade, como se nos falássemos diariamente, sem hiatos. As pessoas com quem sentia mais afinidades quando era miúda são ainda pessoas com quem me sinto em casa. Rimos das mesmas coisas, compreendemos as reacções umas das outras. 

Estou a escrever e a lembrar-me de uma amiga que andava sempre connosco. Éramos um grupo animado de rapazes e raparigas e ela talvez fosse a mais calada, parecia que pouco tinha a dizer. Era muito doce mas nunca lhe conheci uma iniciativa, uma sugestão de irmos aqui ou ali ou fazermos isto ou aquilo. Não sei se era timidez ou se era apenas assim, observadora passiva das maluquices que os outros diziam ou faziam.

Ao ouvir a Rita Blanco -- na conversa que abaixo partilho, com a Sofia Cerveira -- dizer que, quando era miúda era tímida, retímida, sempre calada, sempre a sofrer por achar que não encaixava ali, pensei nessa minha amiga. Será que sofria? Aqui há dias ela disse: 'Quando leio o que vocês escrevem [no grupo de whatsapp] fico com vontade de dizer alguma coisa. Mas não sei o quê... Depois passa a oportunidade... Por isso nunca digo nada'. Ou seja, continua igual. Fiquei com pena pois percebi que ela gostaria de participar, simplesmente continua a não ser capaz. 

Há quem seja espontaneamente extrovertido. Eu acho que sou assim. Não que seja muito palradora ou que seja 'a alegria da festa', não sou, mas exprimo facilmente a minha opinião, digo, sem pensar muito, o que penso. Mas há quem não seja assim. E pode não ser fácil para os próprios, se calhar gostariam de se exprimir com a mesma facilidade que observam nos outros.

Rita Blanco era assim. Diz que não se achava boa em nada. Mas, conta ela,  houve uma professora que a viu. E, diz ela, o facto dessa professora a 'ver' mudou a sua vida. 

Se hoje Rita Blanco é das nossas mais conceituadas atrizes, mulher inteira, mulher de opiniões, de causas, mulher que enche qualquer plateau, a essa professora, que viu com olhos de ver aquela menina que se escondia atrás do cabelo e que sofria por não se achar boa em nada nem capaz de nada, o deve.

Por vezes esquecemo-nos da importância que alguns professores têm em nós. Na minha vida não consigo identificar nenhum professor que tivesse sido decisivo na minha vida mas identifico muitos que foram marcantes. Por exemplo, recordo a maravilhosa Joana Meira que, creio que numa aula circum-escolar, quando estava bom tempo nos levava para o terreno ao lado do campo de futebol e, sentados na terra, líamos a poesia de Sebastião da Gama e livros como Platero e Eu ou o Velho e o Mar que transportavam a ternura, a leveza e a sabedoria de mundos longínquos através do poder das palavras. Nessa altura já eu lia muito, mas lia com sofreguidão, sem aquela pausa e silêncio que é necessário para que as ideias do escritor se instalem nas nossas cabeças. Querida Professora Joana Meira. A sua marca em mim perdura.

Quanto à minha condição de professora, creio que já o contei aqui mas vou voltar a contar. Uma vez, estava eu a andar perto da minha casa, cruzei-me com uma elegante mulher. Era inverno. Tinha um casaco comprido justo, encarnado, muito fashion, uns saltos altos, uma pasta na mão. Parou, cumprimentou-me pelo meu nome precedido por Stôra e identificou-se. Devo ter ficado com a boca aberta. Recuei uns anos. Tinha sido uma aluna muito problemática, com problemas de droga. Faltava, quase dormia nas aulas, dizia e fazia disparates. Fiz com ela o que fiz com outros. Quando não aparecia, pedia a algum dos colegas que a fossem buscar. Por vezes mal conseguia andar, dizia que não ia estar ali a fazer nada, que era escusado. Eu dizia-lhe: 'Não vou desistir de ti. Tenta manter-te acordada. Tenta prestar atenção'. Mas ela deixava cair a cabeça. Os outros riam-se. Eu dizia: 'Se eu vir alguém a rir dela, vai para a rua, com falta'. Era uma luta. Muitas vezes temi desistir. Uma vez, estando ela numa lástima, mandei-a ir ao quadro. Não queria. Dizia que não conseguia, que podia cair, que não sabia nada. Mantive: 'Vem ao quadro. E ai de quem se ria.' Os outros ficaram nervosos, temiam que ela caísse. Ajudei-a. Disse que se apoiasse no quadro. Fiz-lhe perguntas. Mal conseguia ouvir o que eu dizia, mal conseguia falar. Na prática, respondi por ela. Mandei-a fazer alguns exercícios muito simples. Esforçou-se. Fez uma parte, completei-os eu. Quando a mandei sentar, vi que ela estava contente, tinha superado aquela provação, tinha conseguido não cair, tinha conseguido que ninguém se risse.

Ao longo do ano fui-lhe pedindo encarecidamente que tentasse ter positivas. Com muita dificuldade, consegui que se aguentasse. À tangente, com muito boa vontade. Pedi aos colegas para a ajudarem. Nas reuniões de turma, bati-me para que ela não chumbasse. Se ficasse para trás, perderia os seus amigos, seria pior. Nessa altura eu devia ter apenas mais quatro anos que ela.

Nesse dia, muitos anos depois, em que nos encontrámos, disse-me: 'Sabe, Stôra? Sou economista. O que sou, a si o devo. Nunca me vou esquecer do que fez por mim'. Estava muito emocionada. E eu também fiquei. E ainda me emociono quando me lembro dela, adolescente magra, despenteada, desengonçada, cambaleante, e, depois, uma mulher bonita, bem vestida, bem arranjada, segura de si.

A vida da gente guarda segredos, dificuldades, momentos de viragem. 

Ninguém deve desistir de ninguém.

A entrevista da Rita Blanco é, toda ela, bastante interessante. Ela e a Sofia Cerveira parecem duas amigas à conversa. E nós, ouvindo-as, parece que estamos a juntar-nos à conversa. Mérito da entrevistada e da empática entrevistadora, certamente. 

Rita Blanco: É mais fácil viver a vida de outras pessoas
My Red Carpet… com Sofia Cerveira

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Desejo-vos um belo dia

quarta-feira, fevereiro 19, 2025

Les beaux esprits se rencontrent

 

Quando tinha para aí uns dezassete ou dezoito anos, não sei bem, o meu namorado da altura perguntou-me, quando fiz anos, se havia algum disco que eu gostasse de ter. 

Naquela altura o conhecimento que havia -- sobre tudo mas, neste caso, sobre música internacional -- , era rudimentar face ao que hoje se passa. Hoje, com o youtube, o spotify e a internet em geral, o acesso ao conhecimento é instantâneo, praticamente universal, ubíquo. Mas, naqueles longínquos anos, os meus amigos eram muito apreciadores, havia sempre alguém que trazia discos de fora, e havia sempre festas com baile incluído, e, ou assim ou de qualquer outra maneira, eu ia minimamente sabendo sobre o que, a esse nível, se passava no mundo. 

Disse-lhe que gostava do último LP do Bob Dylan. Ele ficou espantadíssimo. Não fazia ideia que eu soubesse da existência do Bob Dylan ou que gostasse dele a esse ponto. Se bem me lembro da expressão que fez, creio que terá até ficado preocupado, sem saber se conseguiria obtê-lo, em especial no prazo de meia dúzia de dias, até eu fazer anos.

Mas ofereceu-mo. Provavelmente está ainda junto dos outros LPs que trouxe de casa da minha mãe. Não sei.

O que sei é que eu gostava imenso de ouvir o Bob Dylan. Adorava. Tudo ali era desalinhado: a voz, a música, a letra, ele próprio. E eu gostava muito disso.

Do Timothée Chalamet também sou fã. Também é desmanchado e também parece ter sido tocado por um talento insólito, pouco usual. Sempre que o vejo a actuar, fico espantada. Que rapaz versátil, que capacidade de representar inacreditável. Agarra qualquer papel e, em todos eles, é fantástico. Faz sempre que fique claro que bem representar é uma arte. Ainda não o vi a representar o Bob Dylan mas quem viu diz maravilhas.

Quanto a Anderson Cooper já aqui o trouxe muitas vezes: gosto imenso dele. É um repórter e um entrevistador extraordinário, talvez o melhor. Não há reportagem ou entrevista que ele faça que não seja irrepreensível, memorável ou quase.

Por isso, a entrevista que conduz com o Timothée Chalamet a propósito da sua interpretação do Bob Dylan é um prazer.

Timothée Chalamet: The 60 Minutes Interview

“A Complete Unknown” actor Timothée Chalamet, known for  “Dune,” “Wonka,” and “Call Me By Your Name” grew up wary of acting. He explains why and how he ended up making movies.

"60 Minutes" is the most successful television broadcast in history. Offering hard-hitting investigative reports, interviews, feature segments and profiles of people in the news, the broadcast began in 1968 and is still a hit, over 50 seasons later, regularly making Nielsen's Top 10.


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E uma bela sexta-feira!

sábado, janeiro 25, 2025

Fujo do resto para coisas mais assim.
Por exemplo: Fernanda Torres - faz muita coisa e, pelos vistos, tudo bem.
E, com sorte, ainda vem um Oscar a caminho
- E, para além disso, segundo aqui se diz, também uma boa pele

 

Continuo ocupadíssima. É assim que gosto de estar. Gosto de fazer coisas que nunca fiz antes, gosto de aprender a fazer. De forma geral, gosto de aprender por mim e, espero que percebam que o que vou dizer é fruto da minha sinceridade e não da minha imodéstia: é que acho que aprendo depressa e não tenho muita paciência para as formações ministradas por outros, step by step, demoradas e repetitivas. E, quando estou neste processo, entusiasmo-me e, imoderada como sou, ponho o pé na tábua, acelero e é de sol a sol. 

Claro que não será totalmente assim pois há as caminhadas, as lidas da casa, as conversas, seja por telefone seja por mensagem, há tudo o resto que faz parte da vida. Mas, no resto do tempo, estou atirada ao que agora me mobiliza e de que, um dia destes, vos contarei.

Claro que, sendo isto tudo novo para mim, de vez em quando tropeço. Mas como tenho impresso nas minhas células aquela velha máxima de que para a frente é que é caminho, reajusto-me, corrijo, refaço, e bola para a frente.

Claro que, com isto, não tenho grande disponibilidade e, sobretudo, disposição para me pôr a falar da delirante pinderiquice de um deputado larápio ou, sobretudo, muito, muito, muito menos, da desordem mundial  a que provavelmente estamos a assistir. Ainda por cima faltam-me bases para poder perceber se é normal, de vez em quando, o mundo desatar aos soluços ou aos coices e mandar a ordem às malvas, colocando tudo num caldeirão em que a insensatez, a ganância, a malvadez, a arrogância, o medo, o ódio, o disparate, tudo, tudo se mistura sem se saber o que, no fim, se aproveitará. Mas, na minha ignorância e com o meu optimismo, custa-me muito ficar assustada e pessimista a achar que nos aproximamos a passos largos do fim dos tempos. Quero acreditar que desta caldeirada meio infecta a que assistimos haverá de nascer uma nova ordem, mais harmoniosa, mais generosa, mais inclusiva, bondosa, mais influenciada pela ciência e para verdade.

Mas, portanto, chego a esta hora e, antes de voltar à minha vida, passo os olhos pelas notícias ou espreito a televisão. Por exemplo, neste momento vejo e ouço um programa (Em Casa d'Amália) conduzido por um tipo muito castiço, o José Gonçalez, que pode não ter um jeito por aí além para apresentar programas de televisão (ou para se vestir) mas que leva gente incrível para cantar. Tenho conhecido ou revisto cantores fantásticos, tenho visto malta nova a cantar maravilhosamente, muitas vezes ali meio à desgarrada. Por exemplo, neste mesmo momento está o Luís Trigacheiro, maravilhoso Trigacheiro, a cantar a Chamateia em conjunto com o que creio que se chama Tiago Nogueira dos Quatro e Meia. Que momento lindo.

Mas, ao mesmo tempo vou espreitando vídeos e hoje vou partilhar um que não tem nada a ver com nada disto mas que sabe bem, aligeira, põe as ralações para lá.

Fernanda Torres conta os segredos de sua pele | Superbonita

Os cuidados com a pele ganharam um novo nome nestas duas décadas: é a rotina de skincare, alavancada pelas influencers do mundo digital. Os tutoriais de maquiagem também criaram uma nova cultura no universo da beleza e a pele negra foi valorizada. Isso sem falar em todos os modismos e cores de make! Todos estes assuntos são abordados por Taís Araújo, que revisita os arquivos do SuperBonita ao lado de Fernanda Torres.

Um bom fim de semana

segunda-feira, agosto 19, 2024

Pelos seus olhos, muitas mulheres se derretiam. Mas não eram apenas os olhos, era o olhar. E não era apenas o olhar, era tudo.
. Muitas caíram-lhe nos braços e só a custo conseguiram libertar-se.
Depois veio o AVC e perdeu a vontade de viver. Os filhos dividiram-se. Queria morrer, o mundo já não lhe interessava, a vida que tinha já não lhe era querida.
Aqui dizendo tudo: Je n'aime que toi

 

Há um livro extraordinário. O Leopardo. Tem personagens fabulosos. Não sei se Alain Delon é o mais carismático. Mas é o mais bonito. 

Foi ele que disse aquela frase de que tantas vezes me lembro, com vontade de contrariá-la. É preciso que tudo mude para que tudo permaneça na mesma.

Muitas vezes parece que há quem faça de tudo para que nada se altere atirando poeira para os olhos dos saloios (e não somos todos uns saloios?) para que pensemos que estão a ser desenvolvidos esforços para mudar as coisas. 


Lembro-me do Alain Delon em vários filmes. Uns olhos lindos. Aqui, um tour d'horizon sobre a sua careira.

Alain Delon: a look back at the actor's prolific career

Alain Delon, the celebrated actor who starred in a string of classics such as Plein Soleil, Le Samouraï and Rocco and His Brothers, has died aged 88. Identified with French cinema’s resurgence in the 1960s, Delon lent his beautifully chiselled features to parts that included cops, hitmen and romantic leads, working for some of the country’s greatest directors 
 
 French screen star Alain Delon dies aged 88 
 Mesmeric and beautiful, Alain Delon was one of cinema’s most mysterious stars

Em 2029 teve um AVC e tudo mudou. Quando uma vez o vi, lembrei-me do meu pai que, quando percebeu que não voltaria à vida que tinha antes, dizia que queria morrer. Alain Delon também o dizia. 

Antes do AVC fez este trabalho onde lê um poema.

Alain Delon - Je n'aime que toi 


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Uma boa semana a todos

segunda-feira, maio 08, 2023

Meryl

 

Penso que a primeira vez que vi Meryl Streep deve ter sido em Kramer contra Kramer. O filme era muito bom e a Meryl e o Dustin Hoffman tinham um desempenho também muito bom, tocante.

Tenho ideia que o vi numa salinha pequena que creio que havia na estação dos Restauradores, lá em cima. 

Tudo tão longínquo que chego a duvidar da minha memória. 

Pode acontecer que já a tivesse visto antes em Deer Hunter (que não me lembro se vi no S.Jorge ou noutro cinema, ou em Manhattan (que creio que vi no Estúdio, que penso que funcionava no Império -- creio que o Satélite era no Monumental). Que vi estes filmes vi mas não sei estabelecer a sequência.

Mas a cronologia aqui é irrelevante. O que me interessa é que fiquei logo rendida ao talento dela.

Por essa altura, mais coisa menos coisa, também fiquei maravilhada com A Amante do Tenente Francês, ela e Jeremy Irons.

Mas depois veio A Escolha de Sofia. Já tinha lido o livro e tinha ficado impressionadíssima. Por isso receei ver o filme. Mas fui ver. E não vim decepcionada. De tal forma que agora, se ouvir falar n'A escolha de Sofia, é em Meryl Streep que imediatamente penso.

A quantidade de filmes em que a vi e em que sempre a achei extraordinária não sei dizer.

Um em que imediatamente penso quando quero pensar num filme inesquecível é o Out of Africa e, aqui, também, o filme é indissociável dela. Magnífica.

Como pessoa, do que tenho visto, sempre conseguiu manter-se normal, sempre conseguiu manter-se afastada do 'estrelato', nunca a vi deslumbrada. 

É extraordinário como ela consegue absorver de tal modo a personagem que tudo flui tão naturalmente que parece que ela, Meryl, se dilui. E isso acontece em qualquer registo. As mulheres que ela representa em As Pontes de Madison County ou em O diabo veste Prada não poderiam ser mais diametralmente opostas. E, no entanto, parece que são pessoas que existem de verdade e cuja existência se justifica de per se, encarnações verídicas de Meryl.

Depois de um domingo maravilhoso, em família, um domingo ameno, com um sol afável, as buganvílias a cobrirem-nos de cor, os pássaros a voarem e a cantarem no meio das flores, apetecer-me-ia pôr-me para aqui a falar de cada uma das pessoas que aqui hoje estiveram, de como me sinto feliz por elas. Feliz, abençoada, agradecida. Mas temo repetir-me e, por isso, hoje vou à boleia da sugestão do Youtube que me mostrou os vídeos que partilho mais abaixo, com excertos de uma entrevista já com alguns anos mas que é bastante actual pois tal como Meryl Streep é intemporal, também as suas palavras o são.

Mas, antes, apetece-me rever os trailers de alguns dos seus filmes maiores.

A fotografia lá em cima é da autoria de Annie Leibvovitz.








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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Boa sorte. Paz.

terça-feira, abril 13, 2021

Trabalhos, penteados e uma entrevista saborosa

 


Hoje comecei o dia, recebendo telefonemas atrás de telefonemas estando eu ainda na cama, a acordar. Não gosto. Gosto de acordar na minha hora, quando o meu corpo se sentir confortável com o despertar. Se acordo quando o meu marido se levanta, peço para abrir a janela. Abrir a janela é como quem diz, pô-la basculante. O estore em si fica apenas chegado até abaixo mas com os buraquinhos todos abertos para entrar luz e ar. O meu marido protesta com os meus pedidos, diz que não está tempo para abrir a janela, que entra ar frio. Eu gosto. O ar frio da manhã com canto de pássaros à mistura é muito bom. Daqui por algum tempo, poremos o sistema de rega a funcionar. E, portanto, acordarei com o frescor da aurora, o som da rega, o canto dos pássaros, o cheiro das flores do canteiro sob a janela. Geralmente volto a adormecer, tranquila, encantada, e acordo com o despertador.

Ao fim de semana, não havendo compromissos, acordo e fico um bom bocado no quentinho, no bem bom, curtindo o prazer de estar entre lençóis em pleno dia. 

A antítese de tudo isto é estar a dormir e acordar com o telefone. Uma neura. Pior ainda se, atendendo, estiver do lado de lá alguém cheio de problemas, alertas, ralações e que faz questão de os passar inteirinhos para mim. Detesto. A minha cabeça gosta de ter um tempo de setup generoso. 

Outra coisa que também me estraga o dia é ter que acordar à pressa, com aceleradas abluções e petit dejeuner sem um mínimo de vagar e qualidade e, sem tempo para me ver ao espelho, ajeitar cabelo ou passar um brilhozinho nos lábios, entrar em reunião e, de súbito, ter que me sintonizar num outro comprimento de onda. Não gosto. Nada.

E esta segunda-feira, dia já de si desagradável, acordei assim. Telefonemas, telefonemas. Depois, tantas as emergências, tive que marcar reunião e, de supetão, entrar nela. Estava a entrar na dita e a pensar: isto não vai correr bem. Penso que só os distraídos é que ainda não perceberam que não deveriam pôr-se a jeito, ainda por cima a uma segunda-feira de manhã. Não correu bem, claro. Dei por mim a falar devagarinho, baixinho, nitidamente a conter-me para não me portar mal. Depois, na seguinte, a que estava planeada, a que era para ter corrido rapidamente, atrasou-se. Um incómodo. 

Fomos caminhar à hora a que deveríamos estar a almoçar. Podia não ter ido e limitar-me a almoçar. Mas preferi andar. Como a seguir tinha outra para a qual tinha que ler um documento antes, almocei uma banana. Horas nisto. 

E assim fui até que terminei por volta das sete e tal, hora a que tive que ligar a um colega, depois à minha filha, depois à minha mãe. Felizmente, o jantar foi um resto que estava parqueado no frigorífico, senão daria para belas horas. A seguir estive à conversa com o meu filho. E mal me instalei, novo mail a pedir-me uma opinião antes da reunião de amanhã. Pensei: gaita, lá terá que ser, vou mas é despachar já senão amanhã, em vez de acordar com os passarinhos, acordo com um pedido de opinião. 

E é isto. Ainda me lembro de um dos meninos me ter perguntado: o que é que tu fazes? E eu ter ficado sem saber bem o que dizer. Como se explica a uma criança a vida que levo? Não curo doentes, não construo ou projecto casas ou pontes, não defendo prisioneiros, não sou professora, não sou cabeleireira ou polícia, não sou jardineira. Faço o quê? Só isto que aqui vos conto e que, espremido, não sei se dá algum sumo.

E, assim, neste comprimento de onda, os dias vão passando. À hora do almoço, o tempo estava razoável, havia raios de sol, a temperatura estava amena. Quando, ao fim da tarde, saí para o jardim para apanhar ar enquanto falava com a minha filha, estranhei: estava frio, o céu escuro, fechado, o chão molhado, alguma coisa tinha chovido. Cheguei a casa, tive que me agasalhar, parece que a própria casa tinha esfriado. Não percebi.

Usei hoje o poncho de lãzinha fininha que a minha mãe me fez e que, por causa do confinamento, só ontem recebi. Tem aquela cor de que tanto gosto, é solto e macio, e é quentinho. 

E agora aqui estou. Do que me apercebo, continua o fuzuê em torno de Sócrates e de Ivo Rosa, com as vizinhas comentadeiras a comentarem-se umas às outras. A coisa já deve ir na quinquagésima derivada, com o gato e o cão a desfiarem palpites sobre a relevância das provas indirectas e sobre se há razão ponderosa para que o grande Perna, afinal, não seja tratado como o DDT mas apenas como um pindérico portador de um canivete suiço. E, aproveitando o descaso, o coroninha dos pink totós, agora todo feito prosa, a dar-se ares de primo da rainha, todo posh, vai pulando toda a cerca que pode, deslizando do verdinho para o amareladinho, já com tonzinho laranja, a namorar o encarnadinho. Blink, blink.


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As fotografias mostram uns penteados que me deixam roída de inveja. E não é da branca, é mesmo da tinhosa. Gostava mesmo que o Alexis Ferrer me fizesse um penteado assim, com pinturas a preceito.

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E, já agora, deixem que partilhe uma entrevista gostosa. Gente inteligente e desprendida é outra coisa.

Fernanda Montenegro - Conversa com Bial 

No ano em que comemorou seus 90 anos, a atriz lançou seu livro de memórias, "Prólogo, Ato, Epílogo". A obra foi o assunto do Conversa com Bial de 03/10/2019, que celebrou a grande dama do cinema e da dramaturgia do Brasil. Marta Góes, a biógrafa, também estava na conversa e é definida por Fernanda como "uma excelente parteira". O livro é fruto de 18 entrevistas transcritas e editadas por Marta e a conversa foi uma aula de vida e de atuação.


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Desejo-vos um dia bom

sexta-feira, agosto 02, 2019

Ler a mente em dia do caneco e de noite povoada por quimeras




Talvez em todas as eras tenha havido isto de se achar que se está a caminhar para o fim dos tempos, tudo a degradar-se, tudo a entrar num processo de decadência acelerada. Pior: uma desintegração pouco digna. Mas talvez isto aconteça desde sempre. Talvez seja da natureza humana cavar o próprio túmulo. 

Ou, então, sou eu que, como acho de um pacovismo insuportável acharmos que somos melhores ou diferentes do que outros, prefiro pensar que somos iguais desde que nos pusémos de pé e começámos a perceber que pensamos: frágeis, incoerentes, mais irracionais do que os outros animais.

Mas enfim, isto era a introdução. Estou dada a intróitos e nem sei porquê já que, na verdade, estou até em dia pouco dado a frescura.

Estou a tentar pôr para trás das costas tudo o que hoje me caíu em cima. A começar, uma reunião em que algumas coisas ditas de forma ligeira por outros que não eu se prestaram a interpretações ao lado, conduzindo a conclusões erradas e perigosas. Depois, um conjunto de situações que me parecem pouco transparentes para o meu gosto e às quais não quero estar ligada levaram-me a desafiar quem prefere estar instalado, e a expor factos que toda a gente acha que deviam permanecer no limbo opaco onde é suposto habitarem. Acontece que eu, quando desencabresto, sou difícil de agarrar. Agora mesmo disparei dois mails que presumo que, a esta hora, estejam espetados na garganta de quem os recebeu.
Como sempre, não sei quais as consequências disto e podem ser radicais para mim mas, se nunca pactuei com coisas que não me agradam, agora, então, não me limito a afastar-me ou a dizer discretamente porque me afasto. Agora é à bruta, às claras e a bola chutada para o lado de lá e outro que não eu que se atravesse e assuma a responsabilidade por dar cobertura a situações que comigo não, violão.
E, portanto, foi neste desencabrestado estado de espírito que fui à procura de notícias boas que me trouxessem bons auspícios, boa energia, boa onda, coisa cheia de smiles e emojis saltitões. 

Mas está bem, está. Só notícias do caraças, sendo que aqui o caraças é mesmo sinónimo de caneco, de cacete (e, aqui, refiro-me ao cacete mal conotado) -- ou seja, porcaria e da grossa.

Tenho ideia que o nosso estado de espírito atrai. Se estamos numa boa, só nos chega coisa boa, radiosa. Se estamos com as candeias às avessas, só damos com meia rota, jararaca, lâmpada fundida, cocó de cão debaixo do sapato, peixe de olho baço e arremelgado, côdea dura e bolorenta. Coisas assim.

Para atestar, passo a enunciar as trastes de notícias que vieram até mim:

Cientistas cruzaram macaco com pessoa. Chamaram quimera ao ser e, quando viram que tinha vingado, supostamente não o deixaram ver a luz do dia. Supostamente, repito. A coisa deu-se na China onde estas coisas da ética não colhem lá muito. Entretanto, o Japão já deu o ok a que se avance com o mesmo, dizem que é promissor, que vai ser do melhor, que desses híbridos se vão poder sacar órgãos que é um mimo. Se a dita quimera, meio macaco, meio gente, tem ou não raciocínio ou sentimentos isso não interessa para nada. Mas eu, talvez por estar num estado a modos que meio irritadiço, acho que isto é daquelas ideias peregrinas que não pode acabar bem. Parece até pesadelo pronto a virar realidade cabeluda e malvada.

E outra que também é do mesmo calibre é aquela de haver implantes tecnológicos que lêem pensamentos e os traduzem em palavras. Mind reading they say. A Google e o Facebook na competição, anunciando para breve notícia de estalar o mundo. Que pode ser bom para dar voz a quem não a tem, pode, mas que também pode ser diabólico e descontrolado, pode. Diz que é para, num mundo dominado pela inteligência artificial, os humanos poderem alinhar. Diz. Mas pode também ser o caminho aberto para a manipulação absoluta, para a ficção megérica virar realidade, coisa mil vezes pior que filme de terror. Não quero nem pensar. Um precipício negro a desenhar-se à frente dos pés dos estúpidos humanos.

E já nem falo nos robots que falam de uma maneira que parece humana, respondendo a perguntas, na maior das calmas. Ou, como desde hoje em Espanha, drones que nos sobrevoam e multam se nos esticarmos, carregando demais no pedal. Ou câmaras de vigilância que nos filmam e fotografam mesmo em ruas sem luz, reconstruindo a nossa imagem a partir do know how que entretanto adquiriram, machine learning e coiso e tal.

E, portanto, eu que andava à procura de notícia boa -- campo de flores, borboleta multicor a rodopiar em volta, mavioso canto de passarinho, poeminha bom segredado ao ouvido, fotografia de coisa nenhuma, história brava de princesa guerreira, filme de bailarino alado, árvores majestosas cheias de esconderijo dentro, planta do bosque com propriedade mágica e efeito benfazejo -- dei com os burrinhos na água, ou melhor, com a tromba na porta. Dito de outra forma: dei foi com coisa perversa, prenúncio de monstro, nuvem carregada de tempos pesados, caminhos estreitos que vão dar a becos que não auguram nada de bom. Uma chatice, em suma.





E isto aqui abaixo não será novidade. Mas mostro porque não gosto.

Aliás, Alexa, Siri ou Google Home, tanto dá, tudo a dar no mesmo.


 Trouxe aqui pintores mexicanos porque me apeteceu ter cor. Ao menos cor.
Penso que é tudo ou quase tudo de Lourdes Villagómez excepto a do macaco que é do Jose Santos


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E uma happy friday a todos, tá?

terça-feira, fevereiro 12, 2019

Mais uma prova provada de que Glenn Close é uma excelentésima actriz


Gosto muito de Glenn Close. Óptima nos seus orgulhosos 71 anos, volta a ser candidata a um Oscar, desta vez com The Wife. É indubitavelmente uma das grandes actrizes de sempre. 

Poderia aqui enunciar, de rajada, uma série de grandes desempenhos mas vou limitar-me a partilhar este pequeno vídeo no qual, há dois dias, com Stephen Colbert, mostra como o seu carismático rosto espelha bem a plasticidade emotiva de que é capaz. Vejam, por favor, até ao fim. Muito bom.



quinta-feira, setembro 06, 2018

Olha o espertinho do algoritmo do YouTube com indirectas, insinuando que careço de um lifting...




Já estou de volta ao campo. Hoje o dia foi um pouco mais tranquilo mas, como sempre, cheio de cenas. Num momento em que tudo parecia sereno -- o bebé a dormir, os mais crescidos estranhamente aquietados -- aparece o meu marido que, tenho ideia, tinha acabado de se deitar no sofá, a dizer: 'Acho que uma gaivota se enfiou outra vez na varanda' e, todo irritado, foi buscar uma vassoura.

Ouvia-se o barulho de alguma coisa a bater contra o estore da porta de vidro que dá para a varanda. Fui levantar a persiana no canto onde se ouvia e lá estava ela: grande, branca e assustada. Mas havia mais: um monte escuro, penugento. Aí a coisa perturbou-me. 'Não sei se não está lá um pombo morto'. Entretanto, toda a gente veio a correr. Gritos. 'Que horror! Um pombo morto!'. Depois o meu filho: 'Um ovo'. Fui ver. De facto, um ovo. Depois reparei: não sei se terá havido um ninho. Uma confusão de palhas. Foi agora nas férias que aconteceu. O meu filho enojado com a cena do pombo morto. Eu que, na outra vez, consegui acalmar a gaivota e, com uma vassoura a servir de alavanca, a elevei até voar., desta vez não me afoitei. Aquele monte de penas ali repeliu-me um bocado. Teve que ser o meu marido. Só que ele não leva jeito como encantador de gaivotas. Portanto, aquilo foi uma refrega, basicamente uma luta à vassourada, ele a querer que ela saisse do canto e a pobre da gaivota completamente assarapantada. A varanda é estreita e não tem largueza para uma gaivora abrir as asas e ganhar balanço para voar. Tentava mas as asas batiam de lado e gritava de dar dó. O meu filho foi, então, à loja do chinês ali perto para ver se arranjava uma pá de lavoura ou outra coisa que desse para tentar passar por baixo dela e levantá-la. Não havia. Regressou com uma pá do lixo de chapa e cabo alto e outra coisa que não percebi o que era, uma espécie de vassoura. E luvas e sacos pretos grandes. Então o meu marido começou por apanhar o pombo morto e o lixo que havia em volta. As crianças, do lado de dentro, observavam, excitadas. No entretanto, apanharam um pacote de bolachas e, enquanto gritavam de susto, comiam bolachas. Por fim, não sei como, ele lá conseguiu que a gaivota se empoleirasse na pá e lá a atirou para voar por cima da varanda, com toda a gente a gritar de susto e alegria. A seguir foi pôr o saco com o pombo lá abaixo, ao lixo, depois pôs a roupa para lavar e foi tomar banho. Enfim. É o que dá morar num andar muito alto perto do rio.

Bem.


Entretanto, as crianças mais crescidas foram pôr-se a brincar aos presos e aos ladrões e polícias. E ela era a polícia e mandava prender os ladrões. Mas faziam uma barulheira incrível. E eu, que não queria que acordassem o bebé, ameacei: 'Se continuam neste chinfrim, ponho-os mas é no isolamento'. Pois bem. Instantaneamente, desataram a gritar ainda mais, a rir, e a reivindicar: 'I-so-la-men-to! I-so-la-men-to!'. E, acto contínuo, pegaram nas mantinhas e nas almofadas que encontraram e ela foi pôr-se atrás de uma estante e eles na casinha de banho de apoio à sala. E eu, aparvalhada com aquilo: 'Mas esperem lá. Não desarrumem ainda mais a sala! Isolamento não é acampamento!'. Mas já ela tinha ido buscar um telemóvel e eles outro, para ficarem a ouvir música. Depois ela foi buscar o coelho de peluche que tinha sido do pai: 'Já fui buscar um animal de estimação!'. E eles foram buscar o telefone fixo. E ela quis um cofre. E de repente ali estavam a ouvir músicas no youtube, a cantar. E eu a tentar explicar: 'O isolamento na prisão não é isto... Caluda. Acordam o bebé..'.

E acordaram mesmo.


E pronto, eles ainda jogaram à bola e o bebé, de cada vez que dá um pontapé, levanta os dois braços e grita 'Golo....!' e depois brincaram às lutas e ela, no meio da confusão, fingiu que estava a dormir e que era sonâmbula. Depois o irmão irritou-a e ela irritou-se com o irmão e gritou com ele e eu: 'Schiuuuu... Mas que é isso? Parece que estás histérica...' E ela, 'Não estou nada! E quem diz é quem é!'. E pronto.

A seguir foram lanchar. E depois o bebé pôs um chapéu meu e ficou a parecer um mexicano -- e lá se foram na maior alegria. E nós fomos levar o outro pimentinha a casa da minha filha. Mal entrou no carro, deixou-se dormir. Quando chegámos, já lá estava o mais velho que teve o seu primeiro dia de escola. 'Muito mais liberdade...' disse ele, orgulhoso. E eu lembrei-o: 'Mais liberdade, mais responsabilidade'. Estava feliz. Crescido, ar já de rapazinho.

E depois da conversa em dia com a minha filha, pusemo-nos a caminho. Novo carregamento no supermercado e cá estamos. Claro que, no percurso para cá, foi tiro e queda: dormi o sono dos justos. Mesmo bom. 


Agora aqui, sossegada da vida, vendo a televisão (quatro canais e mais o canal parlamento, a rtp3 e o canal memória), estou a ver a nova telenovela da sic e é sempre aquela coisa agradável de ver. Não me lembro como se chama mas, apesar de estar no começo, já vai se apegando. Agorinha mesmo um casal se formando: a cozinheira Cacau com o negão-todo-o-serviço. Embeiçaram-se e logo ali mesmo a coisa pintou e rolou. Nada de perder tempo. E, enquanto vejo, espreito se há novidades que se aproveitem e, ao abrir o youtube, desta vez uma novidade: conselhos de massagem facial, ioga facial e outros conselhos para tirar os vestígios de stress da cara. Não sei onde foi ele achar que estou precisada de um trato facial mas a verdade é que, pelo sim, pelo não, já me levantei e já fui observar-me ao espelho. Será...? Na volta... Voltei a pôr um video e, enquanto a Deborah Secco tenta dar o golpe da barriga num bonitão que nunca vi antes e que está a fazer de um tal ex-cantor cuja família está a facturar à conta de o mundo pensar que morreu, fui fazendo os movimentos de lifting que a senhora exemplificava.

Daqui por uns dias, quanto fizer a minha gloriosa rentrée no trabalho, vou estar vinte anos mais nova, sem uma ruguinha, sem um papinho, toda esticadinha, toda descansadinha. E isto com zero botox, só com os conselhos de mon ami algoritmo.

Só não digo a referência dos vídeos para os meus Leitores -- em especial os mais ingénuos, os que ainda acreditam que esta que aqui vos escreve talvez seja a modos que um bocadinhozinho intelectual -- não ficarem decepcionados demais. Telenovelas da Globo ainda vá que não vá... agora vídeos de massagem facial... puxa vida, essa não.


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As imagens mostram algumas caras conhecidas no Festival di Venezia 2018 

A última mostra uma cria de leão das montanhas descoberta em Santa Monica 

A música lá em cima é Maksim interpretando Somewhere in time de John Barry.

Não sei se dizer se há alguma relação entre as imagens, entre elas e a música ou entre qualquer delas e o texto -- mas isso também não me parece preocupante. 

quinta-feira, janeiro 18, 2018

Esperem!
Parem tudo!
Afinal há outra?
É a Agata que se 'inspira' na nossa Joana... ou é vice-versa....?
Alguém me esclareça, se faz favor.


Há uns anos, um conhecido meu falou-me que tinha estado em casa de um empresário endinheirado que tinha contratado uma artista plástica para lhe fazer uma peça artística com gravatas. Segundo me contou, era uma coisa com as muitas gravatas dele e com uma ventoinha por trás. As gravatas ondulavam com o ventinho. A autora de tão inspirada peça de arte chamava-se Joana Vasconcelos. Foi a primeira vez que ouvi falar dela.

Tempos depois começou a ser conhecida. O sapato alto com os tachos, o candelabro com tampões, o coração com talheres de plástico. Alguma graça. Depois viciou-se no género e tudo passou a ser espalhafatoso. A seguir o crochet. Muitas mulheres a fazerem crochet com lãs, os bocados unidos, coisas cobertas de crochet.

Para mim a obra dela tornou-se algo repetitiva e parecia-me que, às tantas, já só estava a trabalhar para a espectacularidade -- mas, enfim, era o que era. E se escrevo no passado é porque deixei de prestar atenção, não sei o que tem ela andado a fazer.


Pois bem. Agora, para meu espanto, sei de uma outra artista que desde há muitos anos faz coisas assim. Fui conferir e ainda mais pasmada fiquei. Se não estivesse a ver que era a tal Agata Oleksiak (aka Olek) a autora, juraria que era coisa da Joana Vasconcelos.

Caneco. Sou leiga e mais do que leiga nestas coisas mas, na minha mais pura leiguice, diria que uma plagia a outra. Ou então é daquelas coincidências do caraças. Até o processo é o mesmo: junta mulheres de uma comunidade e põe-nas a crochetar e depois, todas felizes, orgulham-se da sua obra. 
Touro coberto de crochet de Agata Oleksiak (aka Olek)
Crochet is not generally viewed as a fine art, nor is it commonly used as a vehicle for social change. But New York-based artist Agata Oleksiak (aka Olek) is challenging those assumptions by elevating the craft and using it as a force for community building. With the streets as her canvas, Olek uses the help of local volunteers to crochet her large-scale crochet masterpieces. For her latest project, “Love Across the USA,” she will travel to every state in the United States to produce crocheted murals that celebrate prominent women in US history. With each unique installation, she’s developed an art form that truly belongs to everyone.
Por estas imagens que aqui escolhi talvez não reconheçam grandes parecenças mas vejam, por favor, o vídeo.

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Touro coberto de crochet de Joana Vasconcelos

Trabalhos de Joana Vasconcelos
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terça-feira, maio 02, 2017

Outra coisa que tenho em comum com Michelle Pfeiffer, Jodie Foster, Kate Winslet ou Emma Watson:
o síndroma do impostor





E digo outra coisa em comum porque uma tenho à partida e é óbvia: tal como elas, sou mulher. De qualquer maneira, embora os exemplos conhecidos sejam de mulheres, penso que isso se deve a que as mulheres têm a coragem de confessar as suas inseguranças enquanto os homens padecem do síndroma do macho man e sentem que têm que se mostrar sempre seguros e fortalhaços. Tirando, claro, alguns mais ousados e corajosos.

Mas, e reportando-me agora ao tema que aqui me traz, há uma coisa que sempre tive e sempre achei que era uma coisa cá minha, sem nome, uma coisinha ruim a roer-me a alma.

Já o disse muitas vezes: sempre fui aluna razoável, notas assim-assim no que fosse de 'empinar' e notas muito altas no que fosse de raciocinar. Contudo, sempre tive tantas solicitações na minha vida que estudar não era propriamente a minha primeira prioridade.

Ainda agora, de vez em quando, felizmente cada vez mais raramente, sonho com isto: chego à escola e há exame, todos preparados e eu apanhada desprevenida, sem ter estudado nada, sem saber sequer qual a matéria que entrava. Por vezes, falta-me mesmo o material -- compasso, régua, esquadro -- e aí a aflição é ainda maior. Ninguém mais se tinha esquecido, só eu. E, sem material, nem sequer poderei fazer o exame. Uma angústia pela minha irresponsabilidade.


Penso que estes sonhos resultam dos sustos que frequentemente apanhava. Nas ante-vésperas de testes ou exames, ouvia os colegas falarem de directas, de andarem a fazer cábulas para um just in case, de terem lido várias vezes a matéria e ainda estarem a milhas -- e eu, na levezinha, praticamente sem me ter preparado, a achar que sabia o que havia para saber e confiante que uma lambuzadela seria mais do que suficiente para refrescar ideias, mas, de súbito, a assustar-me: e se a matéria era mesmo difícil? Ou tanta que não teria tempo para lhe passar os olhos por cima, nem mesmo em diagonal? 

Furiosa leitora de tudo o que apanhava, devorava livros lá de casa, da biblioteca, emprestados em especial de uma amiga da minha mãe, o que calhava. Aliado a isso, os namoros fogosos que sempre alimentei e que me ocupavam grande parte das horas livres. O período de concentração para o estudo era reduzido. Os meus pais chegavam a casa lá para as seis e só a essa hora é que eu me dedicava à minha condição de estudante, depois lá para as oito jantávamos e supostamente não poderia deitar-me muito tarde porque no dia seguinte as aulas começavam às oito e meia da manhã. Na faculdade ainda pior. Durante algum tempo, andei com dois ao mesmo tempo o que me ocupava a agenda por completo já que embora eu estivesse no mesmo dia com os dois, eles não podiam encontrar-se. No dia em que se cruzaram, o namorado a sério quis bater no outro. Portanto, sendo maluca, eu não era parva a ponto de me meter no meio de fogo cruzado. Ora, para estar com um das tantas às tantas, com o outro tinha que ser depois disso e até às tantas.

Acontece que tinha alguma facilidade para a aprendizagem e boa memória e, o mais importante, sorte e, portanto, aparecia com notas altas.

Claro que isto fazia com que parte dos meus colegas achasse que eu me armava, dizendo que não estudava, quando, na volta era mas era uma marrona encapotada. Mas não me armava, era mesmo como vos contei.

O que eu não lhes confessava era que achava que as boas notas eram sobretudo, obra do acaso, da sorte. Não mérito meu.


Já o contei aqui. Uma vez tive um primeiro vinte (depois voltei a ter mas o fuzuê armou-se apenas na primeira vez). Foi um escândalo. Por causa disso, desencadeou-se uma celeuma entre os professores, tendo havido até uma reunião de professores das várias escolas da cidade para discutirem em que circunstâncias se poderia dar um vinte a um aluno. Houve também alguns pais que pediram reuniões com o reitor para manifestarem preocupação pela saúde mental daquele professor ou para saberem se a escola tinha entrado numa perigosa deriva facilitista. 

Assisti a isso com incredulidade, como se aquilo não tivesse nada a ver comigo, esperando que passasse depressa a confusão, não fosse ainda lembrarem-se de me sujeitar a um exame e eu estampar-me ao comprido. 

Na faculdade aconteceu-me várias vezes essa desconfortável sensação. Acima de uma certa nota nos exames (creio que 16), tinha que haver defesa de nota, isto é, uma espécie de prova oral, por vezes com júri. Com excepção da primeira vez em que fui sem saber ao que ia, das outras vezes ia uma pilha de nervos. Achava sempre que podia muito bem acontecer que fosse desmascarada, que se provasse que aquilo das notas altas nos exames era coisa do acaso, roleta, sorte ao jogo, coisa nessa base.


Uma vez participei num programa de televisão, coisa entre escolas. Fui escolhida, em votação de alunos com validação de professores, para ir representar o liceu em determinada matéria. Essa foi uma outra altura conturbada da minha vida. Tinha-me zangado com um namorado e, para lhe provar que ele era parvo, comecei a namorar com aquele de quem ele tinha ciúmes e por causa de quem nos tínhamos zangado. Portanto, a minha cabeça andava ocupada com o começo de um namoro com alguém que me amava de paixão e a quem eu tinha vergonha de confessar que tinha começado a namorar para atazanar a cabeça do outro e, ao mesmo tempo, ainda perdida de amor pelo primeiro mas incapaz de dar o braço a torcer apesar do que me custava vê-lo a descarrilar a toda a brida.

Portanto, praticamente sem tempo para estudar para as aulas, muito menos tempo eu tinha para me preparar para o programa de televisão.

De resto, aquilo era, sobretudo, uma festa, conhecer gente de outros liceus, uma animação, o ambiente das gravações, a malta da assistência a gritar o meu nome, uma coisa quase feérica.

E, então, no meio de tudo aquilo (e já o contei, desculpem, mas vou voltar a contar), acontecia qualquer coisa de inexplicável: quando chegava a minha vez de responder, tirando uma ou duas vezes em que chegava ao fim da formulação da questão e não tinha registado uma única palavra, tendo que pedir que repetissem, das outras vezes respondia ao fim de segundos, não sei como, ao calhas, e por mais elaborada que fosse a questão, respondia certo. A plateia quase vinha abaixo, com gritos e palmas.

Por vezes, na segunda feira, os professores, admirados com a minha rapidez nas respostas, perguntavam que linha de raciocínio tinha eu seguido e, para minha aflição, quase era incapaz de explicar, sobretudo porque a explicação correcta demorava algum tempo, não os segundos em que eu tinha chegado à resposta. 

Para quem assistia lá em directo e, depois, na televisão, eu passava por ser a modos que um pequeno génio. Para mim, era sorte, acaso, um tiro no escuro que, por mera ventura, acertava no alvo. Quando na rua as pessoas me felicitavam, eu sentia-me atrapalhada e só pensava que tomara que nunca descobrissem que aquilo nada tinha a ver com inteligência ou trabalho, era tudo fruto de uma sorte do caraças pois, muito sinceramente, a sensação que tinha era que respondia sem pensar, completamente ao acaso.


Esta sensação tem-me acompanhado a vida inteira. Também já o contei: vou para as reuniões sem pastas, dossiers, tablets, blocos de notas. Nada. Se vou eu fazer uma apresentação, enquanto os meus colegas que também vão faze,r frequentemente a levam em papel para, antes, darem uma leitura preparativa, eu nunca me lembro de tal coisa. Só à chegada, quando vejo toda a gente a sacar do seu arsenal e eu nada, muitas vezes nem a caneta encontro na carteira, é que me dá aquele tal velho medo: será que deveria ter-me preparado? será que melhor teria sido se tivesse trazido documentação de suporte? E daí ao medo de que, quando chegue a minha vez, não me lembre do que devia, não saiba responder a questões que me ponham, é um ar que lhe dá.

Pois bem.

Li que Michelle Pfeiffer, que agora está de volta ao cinema -- como há dias aqui referi (no caso Madoff) -- confessou que toda a vida o síndroma do impostor a acompanhou: o receio de que descobrissem que é uma fraude e lhe peçam de volta todos os prémios que recebeu.

Ao procurar algo mais sobre este síndroma vi que várias super estrelas dele padecem e que, pasme-se, também um número significativo de gestoras de topo, o sentem. No outro dia, ao ver uma entrevista com a Jane Fonda, ela contou que a Marilyn Monroe lhe tinha contado que andava a estudar (no Actors Studio) porque tinha pânico que descobrissem que ela não tinha qualquer talento. Imagine-se. 


E eu, lendo os seus testemunhos, fico (a modos que) mais tranquila: afinal não é pancada só minha. E não é que eu, nem de perto nem de longe, me queira comparar com as virtuosas figuras citadas, mas se com elas acontece isto, fará comigo, poor, poor me.  Posso achar que estão completamente enganadas algumas almas mais caridosas que ainda pensam que tenho alguma little quelque chose, posso achar que na minha vida, mais do que mérito, tenho tido é sorte, mas, enfim, há afinal gente verdadeiramente talentosa que padece do mesmo mal que eu. 

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E não se esqueçam de descer para verem uma coisa que se não é do além por lá anda perto: uma serpente crucificada.

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