Mostrar mensagens com a etiqueta Gravidez. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Gravidez. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, dezembro 05, 2024

Está a chegar o tempo dos pós-humanos?


A ciência deve, forçosamente, ser um dos mais importantes pilares do desenvolvimento. Um outro deve ser a ética. Outro o humanismo. E há mais mas agora não virão tanto ao caso.

Nas empresas, em especial em empresas em que há áreas de investigação e desenvolvimento, recorre-se cada vez mais à figura dos 'gémeos digitais'. No fundo, são réplicas dos processos reais com tudo o que há de interacção entre eles. Deste modo, quando se pretende testar qualquer inovação, seja de que tipo for, em vez de arriscar danos se o teste for feito em ambiente real, usa-se o gémeo digital.

Não é fácil nem económico ter 'gémeos digitais' que sejam réplicas perfeitas, fidedignas. Claro que os meios actuais ajudam: por exemplo, já não é preciso ter Data Centers ultra dispendiosos, pode recorrer-se ao alojamento e gestão na 'nuvem'. Mas, ainda assim, não é fácil. E tem que haver pessoas, muito, muito entendidas, que saibam validar se o gémeo digital é fiável e se os resultados obtidos são de confiança ou se o 'gémeo digital' está coxo e não permite extrapolar algumas conclusões.

Mas uma coisa é ter réplicas do funcionamento de fábricas ou de empresas em geral. Outra, muito diferente, é ter réplicas do funcionamento do corpo humano. Não é só o que isso permite de bom... é também o que permite fazer se as intenções não forem as melhores.

E falo nisto como poderia falar em pegar numa célula qualquer e daí conseguir obter um óvulo e um espermatozóide, conseguindo, pois, 'conceber' um ser humano.

As possibilidades são infinitas. Muitas incríveis, maravilhosas. Outras aterradoras.

E não falo de promessas, de expectativas. Falo de possibilidades reais, cientificamente disponíveis.

Convido-vos a ver o vídeo abaixo. É possível colocar legendas em português.

How Tech Is Breaking the Rules of Biology | Posthuman with Emily Chang

From birth to death, tech is stretching the boundaries of biology. In this episode of Posthuman, we explore the discoveries that could transform reproduction, healthcare and how we die.

Technology that once seemed like science fiction is rapidly becoming reality, transforming the very essence of our existence. In this four-part series, Emily Chang unravels the future of being human in an age of unprecedented innovation.


domingo, outubro 17, 2021

Isto é uma mama

 



Quando estive grávida as roupas eram largas, as então chamadas 'roupas à mamã'. Por minha conta e risco ousei uma coisa na época infrequente: uma adaptação das calças normais, abrindo-as do lado e unindo as partes com um elástico largo que ia sendo ajustado. E depois usava uma espécie de camisas quase normais mas em largo, umas camisas com motivos florais. Mas, na maioria, os vestidos eram daqueles que desciam largos a partir do peito. Para a praia também havia os fatos de banho à mamã. Desses nunca tive nenhum. Pedi à minha mãe que prendesse uma espécie de cortina na parte da frente do soutien do biquini, em tecido parecido com o do biquini. Na altura, era impensável usar o biquini normal com o barrrigão à vista. 

À luz do olhar de hoje tudo isto é absurdo. Que pudor haveria em mostrar um ventre dilatado, com uma criança dentro?

Hoje exibem-se orgulhosas barrigas e ainda bem que assim é.

Tenho ideia que foi com a fotografia da Vanity Fair de uma Demi Moore gravidíssima que Annie Leibovitz ajudou a acabar de vez com o estúpido tabu.

Agora é com naturalidade e, diria eu, ternura que se olha o belo corpo de uma mulher grávida. Vejam-se estas duas que encontrei aqui: Féminin pluriel : la mode célèbre toutes les silhouettes:




Acho uma maravilha. Só tenho pena de não ter fotografias minhas assim. As fotografias que tenho quando estava grávida são sempre completamente vestida. O que a vida era antes, na maior parte dos aspectos, era um atraso de vida. Não se celebrava a vida. Pelo menos, não em festa, não com orgulho.

Com a amamentação era outra tourada. 

Amamentei a minha filha até quase aos treze meses. Andava, falava, levantava-se sozinha de um lado do colo quando esvaziava um peito e mudava de mama por sua alta recreação dizendo: 'a outa'. O meu filho acabou mais cedo. Apenas mamou até mais ou menos aos quatro meses e depois, por insistência minha, talvez até aos seis ou sete, nem sei bem. Era um desatino, era muito sôfrego, engasgava-se, depois incomodava-se, não queria. Cedo começou a querer comida normal, odiando leite, papas e tudo o que fosse apropriado para bebé. Para conseguir que bebesse leite tinha que o apanhar bem ferrado para lhe dar um biberon sem ele dar por isso. Senão, mal lhe enfiava a tetina na boca, desatava aos vómitos.

Na altura, eu usava soutiens de amamentação, uns soutiens em que a parte da frente se prendia por um colchete, descendo quando era a hora. Usava camisas que pudesse desabotoar, depois abria a parte da frente de cada lado do soutien e, com a criança a mamar, punha uma fralda (que, na altura, eram de pano branco) que descia do ombro e cobria a criança. Desta forma encobria a mama. Até aqui tudo bem. O pior era quando o meu filho se engasgava e era preciso pô-la rapidamente ao alto, soprando-lhe e tentando que se desengasgasse. A manobra tinha que ser tão rápida que não dava tempo a encobrir a mama. Pior ainda: eu sempre tive mais leite que uma vaca leiteira. Como ele mamava com sofreguidão, ainda mais estimulava a produção do leite. Então, quando interrompia por estar engasgado, a mama continuava a esguichar. Mas esguichava com força, muitas vezes molhando-o todo, deitando-lhe leite para os olhos o que o fazia chorar com toda a força. 

Agora imagine-se quando isto se passava fora de casa. Tinha que procurar um lugar escuso, tinha que me isolar. Não podia correr o risco de ficar de mama de fora e, ainda por cima, a jorrar leite como um fontanário.

Hoje, felizmente, tudo isto é uma coisa mais natural. Uma mãe que amamenta não tem que se esconder ou ficar num stress com medo de expor o seio nu.

Para além da questão da amamentação, já fiz muito topless embora, confesso, sempre me sentisse mais à vontade em praias pouco frequentadas. Acho que há qualquer coisa de íntimo na exposição dos seios pelo que nunca achei muita graça à banalização de andar de mamas ao léu no meio de multidões. Mas a verdade é que não era pelo topless que procurava praias pouco populadas, era mesmo porque, para mim, estar na praia tem que ser um contacto muito livre com a natureza e isso não é compaginável com estar numa toalha e com pessoas desconhecidas a cercarem-me, toalha com toalha, a ouvir-lhes as conversas, a respirar o seu cheiro. Isso para mim é a antíteses do que é bom na praia.

Vem isto a propósito do que li no Madame le Figaro. Parece que uma fotografia de uma marca francesa de artigos para mães e filhos foi censurada pelo Instagram por, justamente, aparecer uma mama com uma gota de leite (a primeira fotografia deste post).

Des tétons et des femmes allaitantes affichés dans Paris pour contrer une censure d'Instagram

Tajinebanane - Manifesto

Num movimento de protesto, em várias ruas de Paris apareceram cartazes com essa fotografia juntamente com mães a amamentar.

E eu que sou a favor da amamentação, a favor do corpo da mulher, a favor do direito a fazer com ele o que se quiser, que abomino os enredos que envolvem os conceitos de pecado e de culpa associados ao corpo da mulher, daqui deste meu insignificante poiso, junto a minha voz a todas as mulheres que, em qualquer parte do mundo, lutam pela dignidade do seu corpo e pela liberdade de o afirmarem.

__________________________________________________

[E estou a ilustrar com fotografias com mulheres grávidas ou a amamentar mas o direito ao respeito pelo corpo e o direito a fazer com ele o que se queira (desde que não se esteja a fazer mal a outrem) podem apresentar-se de muitas outras formas. E não há que querer escondê-lo como se fosse um gerador de pecado. Pelo contrário, o nosso corpo é das poucas coisas nesta vida que temos como verdadeiramente nossa. Não teremos nunca razão para escondê-lo ou sentir vergonha dele. Seja uma mama a pingar leite, seja um ventre rasgado por cicatrizes, um seio amputado, seja o que for]

____________________________

O José Afonso está aqui a cantar o 'Menino d'Oiro' pois foi certamente a canção de ninar que mais entoei para os meus filhos. 

___________________________________

Desejo-vos um belo dia de domingo

domingo, janeiro 10, 2021

Beatriz Gosta, embaraçada, despe-se para se fazer fotografar em toda a sua nudez

 

Gosto muito desta mulher. É genuinamente divertida. Os vídeos da série Beatriz Gosta, embaraçada, onde vai mostrando a evolução do seu corpo, onde vai contando como está a reagir à gravidez, são épicos. As coisas que ela diz... Desta vez está numa sessão fotográfica onde mostra a barriga, os seios, onde mimetiza sessões de celebridades. O que ela ri...

domingo, outubro 25, 2020

Beatriz Gosta, grávida, conta como foi e quem é o pai da criança

 

Gosto imenso de Marta Bateira, aka Beatriz Gosta. Penso que gostaria imenso dela ao vivo, como pessoa, não apenas como personagem ou como comediante. Gosto. Simpatizo. É daquelas pessoas que acho inteligente, rápida no gatilho, boa pessoa, querida e, claro, com um fantástico sentido de humor.

Já várias vezes aqui esteve e espero que muitas mais venha a estar. Esta é uma casa em que será sempre bem acolhida. Quando no outro dia soube que estava grávida senti logo ternura por ela. Vai ser uma mãe fantástica, amorosa. Desejo-lhe as maiores felicidades. 

Os vídeos abaixo mostram-na a contar como lá chegou e como se desforrou do confinamento. 




Boa sorte para a Beatriz e para o rebento (e para o pai do rebento também, claro)

_______________________

E não esperem que me pronuncie sobre as futilidades do BE e sobre as incongruências do PSD a propósito do OE2021. Não merecemos. Ninguém merece. Ainda por cima numa altura destas. 

terça-feira, janeiro 28, 2020

Um sonho que me fez acordar a rir





A minha profissional é tão longa que daria para dividi-la por disnastias. Um dia que escreva as minhas memórias falarei de muita gente conhecida e direi de minha justiça: qual a dinastia mais simpática, qual a mais competente, e qual o maior escroque ever and ever, quais os mais inteligentes, quais os mais burros, quais os provavelmente mais permeáveis, etc. Mas estabelecerei também uma divisão em períodos divertidos, épicos, gloriosos, decadentes, sem graça.

Mas isso é coisa para depois, para quando for livre. Agora tenho que estar caladinha como um rato. E só espero que, no au revoir, não me façam assinar nenhum NDA -- senão bye bye mémoires

Mas, enquanto tenho que estar caladinha, posso relembrar outra vez o período épico, o meu preferido, em que tudo parecia possível. Os directores eram quase todos da mesma idade, todos homens, excepto eu que não apenas era a única mulher como era um bom par de anos mais nova. Sem problema. Éramos todos amigos e divertíamo-nos como se não houvesse amanhã. Não me lembro de outro período em que a qualidade da gestão fosse superior. Mas isto para dizer que todos gozavam uns com os outros, a ironia era praticada em larga escala, a paródia era permanente, e não havia nada que se dissesse que não fosse virada do avesso e transformada numa anedota. E as decisões de gestão eram tomadas de forma desdramatizada, sem peso, sem conversa fiada à mistura. Ninguém queria parecer um executivo. Queríamos, simplesmente, estar na boa e fazer o melhor que soubéssemos. Andávamos motivados e todas as nossas equipas também.

Os tempos mudaram, o ambiente também. 

Agora os tempos estão para gente muito focada, muito politicamente correcta. Ninguém parte um prato. Civilizados desde o berço, todos foram amamentados a chá. Pode mudar-se completamente de look que toda a gente faz que não repara. Ou não repara mesmo. Pode alguém ter comportamentos estranhos que ninguém está nem aí. Eu também já estou assim. Por fora deixei-me contagiar mas por uma simples razão: não tenho parceiros para a maluquice. Por vezes tenho vontade de fazer ou dizer uma coisa completamente disparatada a ver se alguém reage. Volta e meia já praticamente o faço mas parece-me ver algum susto no semblante dos outros; então, apiedo-me e resolvo poupá-los. Provavelmente pensam que me passei e querem disfarçar para eu não reparar que o pensam. Somos assim, gente que sabe controlar as suas emoções e refrear os pensamentos -- comme il fault.



E este é um dos substractos para o que vou contar a seguir.

O outro substracto é aquela que já aqui contei, de um ex-colega se ter reformado antecipadamente, levando uma talhada das valentes na pensão de reforma mas isto porque a seguir foi trabalhar para outro lado.

Tudo isto fermentou na minha cabeça e a noite passada, pela madrugada avançada, a coisa aconteceu.

Mas tenho ainda que contar que, no domingo, tendo dormido uma sesta durante a tarde, ao ir para a cama à noite fui sem sono. Ora isso, para mim, é o fim da picada. Espertina. Mas das feias. Pus-me de lado, fiz a conchinha em convexo, depois em côncavo, deitei-me de costas, de bruços -- nada. Pensei nisto, naquilo e no outro. Até que, no meio desta insónia, me deu para contar o tempo que falta para poder reformar-me ainda que com penalização. Tipo contar carneirinhos. Depois multiplicava por uma percentagem mas, como não sabia qual era, fazia vários cenários. Perto das cinco, furiosa com a porcaria da espertina, levantei-me e vim para a sala. O meu marido espantado. Mas vim. Pus-me a ler. Nada de sono. Até que finalmente bocejei. Achei que era um sinal e desliguei a luz. Entretanto, ouvi o despertador do meu marido. E penso que aí, finalmente, adormeci. Quando o meu despertador tocou, estava ferrada no sono e a sonhar. Raramente me lembro dos sonhos mas este ainda estava quentinho e eu no primeiro sono; por isso, lembrei-me de tudo. E estava a rir. 

Conto o sonho.

Tinha chegado junto do meu chefe e tinha-lhe dito: 'Estou grávida'. 

     Ele a olhar para mim, ar estupefacto. 

E eu: 'Como sabe, acima dos 35 é gravidez de risco'. 

     Ele sem reacção, calado a olhar para mim. 

E eu: 'Agora imagine o risco acima dos 40'. 

      Ele quase a levantar as sobrancelhas, de espanto, mas a controlar-se. 

E eu: 'Portanto, o médico quer que eu fique em casa. Para a gravidez vingar, está a ver...? Acresce que a baixa de parto agora é de 1 ano'. 

      Ele a dar mostras de preocupação. 

E eu: 'Medidas para estimular a natalidade. Acho bem.'. 
    
       Ele parvo com a conversa. 

E eu: 'Com os meus mais velhos, a baixa era de 3 meses mais 1 de férias, só estive 4 meses em casa. Agora vai ser diferente. A seguir ao 1 ano, tenciono ficar mais 1 com redução de ordenado. Quero ser uma mãe mais presente'.  

     Ele visivelmente estarrecido mas, como sempre, controlado. 

E eu, morta de riso por dentro mas poker face por fora: 'Portanto, acho que tem que se arranjar alguém para me substituir porque até pode acontecer que possa ficar ainda mais um ano'. 
Ou seja, a arranjar pretextos para parar de trabalhar mas sem me tramar com um corte dos valentes na pensão. E cheia de vontade de rir com aquela minha conversa e com a reacção dele.
Quando o meu marido chegou da sua caminhada matinal contei-lhe. Disse-me: 'Estás maluca'. Respondi-lhe: 'Ai é? Estou maluca? Queres ver que fiz a criança sozinha..?.'. Foi a vez dele fazer uma cara preocupada: 'Eh pá, não durmas não...'

E foi isto. Talvez por ter sido um sonho que me deu vontade de rir, a verdade é que não tive sono nenhum durante o dia. Só quando há bocado me reclinei no sofá é que dei por mim a querer pegar no sono. Mas, sobre isso, a ver se conto a seguir.

_________________________________________________


Samantha Kaplan é a autora das duas primeiras pinturas que retratam sonhos e Gagik Parvanyan e Noelle Rollins os autores das duas últimas sobre a gravidez. Rodrigo faz La Fête.


________________________________________________________________________



Volto aqui apenas para dizer que não tenho feito outra coisa senão adormecer. Tinha dois posts para fazer, um sobre o Chicão a ser entrevistado pelo Miguel Sousa Tavares, outro sobre o Rui Pinto o todo-poderoso hacker. Mas não consigo mesmo.

Beijinhos, abraços e carapaus para o gato.

quarta-feira, setembro 06, 2017

Linha de moda para grávidas de 12 anos


O mundo em que vivo é quase perfeito. Ao que não me agrada eu fecho os olhos, do que não tem a ver comigo eu guardo distância, do que me assusta eu fujo, do que me fere eu protejo-me.

Contudo, há situações em que a realidade -- imperfeita, irracional, maldosa, vulgar -- vem ter connosco. Nessas alturas eu encolho-me, tento fazer-me de invisível, tento resguardar-me. Mas nem sempre é possível e, de uma maneira ou de outra, alguns salpicos chegam até mim. Animo-me, tento acreditar que logo, logo, eu vou poder regressar ao meu mundo e aí ficar sossegada, sem fazer mal a ninguém, resguardada, livre de desconfortos ou sustos. Mas não sou nem mais nem menos do que toda a gente e pena, pena, é que o mundo não tenha cuidado de anular as maneiras de ser mais virulentas por forma a que a vida fosse melhor para todos.

Leio algumas notícias e fico aflita. Aquela notícia de Maëlys de Araújo, a menina de 9 anos que estava numa festa de casamento em França e que, desde essa altura, ficou desaparecida, incomoda-me. Leio que desconfiam de um homem que já teve episódios de violência sexual com menores e que já confessou que teve a menuina no carro. O que me custa ler este tipo de notícias nem consigo dizer-vos. Quanta loucura e maldade para alguém molestar uma menina de 9 anos... Leio que o tal suspeito, entretanto, terá lavado e vendido esse carro. Assusto-me quase como se se tratasse de uma menina minha conhecida. Mas qualquer criança que sofra me faz sofrer. O que uma criança pode sofrer às mãos de um tarado é coisa que me apavora.

Há bocado, durante pouco tempo, vi um programa na RTP 1. Falava da Casa das Mães e ouvi uma jovem, já com um filho, falar que, quando engravidou, a mãe quis que ela abortasse porque o pai da criança era negro. E, a seguir, pobrezinha, foi expulsa de casa pelo padastro, diz que ficou na escada, sem ter para onde ir. Foi a escola que sinalizou a situação e a encaminhou. Pior: conta que não quer voltar para o ex-namorado porque ele lhe batia e que, quando soube que ela estava grávida, a esmurrou na barriga. E, do que percebi, a jovem não quer sair da Casa que a abriga, tem medos indefinidos. Mas como não os ter? Coitada, mil vezes coitada. Em que casa desestruturada vivia ela antes para ser expulsa de casa, grávida, e para aceitar namorar um rapaz que a agredia? Que violência é esta que se inflige a outros e que esses outros aceitam...? Que vidas tão tristes são estas...?

Não sei o que podemos nós fazer, os felizes desta vida, os que cultivamos vidas perfeitas como quem cultiva rosas raras, para ajudar a impedir situações destas. Tenho a sensação que será como estar á beira mar, com as mãos abertas, a querer impedir o movimento das marés. Mas, ainda assim, talvez valha a pena, de vez em quando, abrir uma janela e espreitar o mundo imperfeito que existe lá fora. Nem que seja para que mais pessoas, como eu, pensem um pouco nisto e vejam se, de algua maneira, podem ajudar.

Não é só em África ou em lugares recônditos que as meninas são tratadas como escravas, como objectos, como pequenos-nadas. E que fosse. Não é só o que se passa junto a nós que deve assustar-nos. Embora, dada a nossa vida curta e o curto alcance das nossas vontades, seja compreensível que o nosso raio de atenção seja também curto.

A campanha que abaixo se mostra mostra uma menina de 12 anos grávida, uma situação real. A linha de moda é ficcional mas a situação para a qual se pretende chamar a atenção é bem verdadeira.



_______________

E queiram continuar a descer, caso vos apeteça, voltar já, já, para um mundo feliz, sem mácula.
  The One em duo.

_____________________

domingo, abril 02, 2017

Perguntas e respostas relativas à gravidez


Pergunta: Devo ter filhos depois dos 35?
Resposta: Não, 35 filhos são suficientes.

P: Estou grávida de dois meses. Quando é que o meu bebé se põe a mexer?
R: Com alguma sorte, há-de pôr-se a mexer quando acabar os estudos.

P: Qual o método mais fiável para saber o sexo do bebé?
R: O nascimento.

P: A minha mulher está grávida de cinco meses e anda com um tal feitio que mais parece um ser irracional.
R: Afinal qual é a sua pergunta?

P: O meu instrutor do parto sem dor diz que, durante o parto, não vou sentir dor mas, sim, pressão. Ela tem razão?
R: Sim, da mesma forma que um tornado pode ser designado por uma corrente de ar.

P: Há alguma coisa que eu deva evitar quando estiver a recuperar do parto.
R: Sim. A gravidez.
P: O nosso bebé nasceu a semana passada. Quando é que a minha mulher vai voltar a sentir-se e a agir normalmente?
R: Quando as crianças estiverem na escola.
_____________


Isto que acima vos mostrei em tradução mais ou menos livre, encontrava-se no cartaz exposto numa clínica de Obstetrícia e que alguém resolveu divulgar.


__________________

Já agora, a propósito do assunto, dois vídeos que também ajudam a tirar dúvidas sobre o assunto.

O milagre do nascimento



Cenas mexicanas

_____

E queiram, por favor, descer e ver a forma engenhosa como a cidade do México encontrou para sensibilizar os machões lá do sítio.

_____

terça-feira, novembro 15, 2016

Dar à luz


Os homens que me perdoem. E as mulheres que não puderam ou que não quiseram também. Mas não há nada no mundo que se possa comparar à experiência milagrosa de ter uma outra pessoa dentro de nós. Nada, nada, nada.



Qualquer homem se ache superior a outra pessoa, por mais argumentos que elenque -- que sabe as declinações de cor e salteado, que fala cinquenta línguas, que sabe dizer de cor a Odisseia, a Ilíada, os Lusíadas, o D. Quixote de la Mancha, o Ulisses de Joyce ou, até, sei lá, o Código da Vinci, que sabe toda a teoria da física, da química, da matemática e que é pro em nanotecnologia e filosofia aplicada, que sabe montar móveis do Ikea sem instruções, que consegue fazer a maratona ao pé-coxinho, que sabe tocar ao violino e sem partitura todos os nocturnos de Chopin ou que faz voluntariado 24 horas por dia, sete dias por semana -- nunca, mas nunca, vai estar perto de chegar aos calcanhares de uma mulher.

Mesmo as que nunca passaram pela experiência da gravidez ou do parto sabem que a possibilidade de passarem por isso esteve lá e só isso já é uma maravilha.

Já falei várias vezes de quando estive grávida. Era quase uma miúda mas estava desejando, desejando. Queria tanto ser mãe. Quando soube que estava à espera de bebé foi uma alegria imensa. E a alegria não foi menos imensa e intensa da segunda vez. Uma alegria tão absoluta. Uma felicidade suprema, na altura achava que era a maior de todas. Anos mais tarde, para minha surpresa, descobri que podia haver uma felicidade ainda maior.

Quando engravidei da segunda vez e tive disso a confirmação calhou o meu pai dar uma queda de um lugar muito alto, na empresa, e partir não me lembro se uma, se mais costelas. Estava eu no trabalho, ligou-me. Disse que me ligava ele para eu ver que ele estava bem. Contou-me que tinha caído de uma altura grande, que tinha acontecido aquilo das costelas, que tinha ido ao hospital mas que já estava em casa. Estava de pé quando atendi o telefone e não sei se foi do susto ou de estar grávida, senti uma fraqueza, parecia que ia desmaiar, tive que me sentar. Ele percebeu que eu estava a desfalecer, perguntou se não estava eu a ver que ele estava bem. Sempre tive a pressão arterial muito baixa, talvez também fosse isso.

Fui lá a casa vê-lo: estava de cama, com dores. A minha mãe aborrecida, que ele não tinha cuidado, que podia ter morrido. E, então, achei que devia dar a boa notícia. Não estava nada à espera daquela reacção, eu tão contente e diz o meu pai assim, num tom de repreensão: 'isto está mesmo bom para isso...'. Fiquei siderada. A minha mãe também. Vinte e poucos anos eu, já mãe de uma menina então com dois anos, e eu feliz, feliz da vida e sai-se o meu pai com aquele inesperado remoque. Havia, naquela altura, desemprego, ordenados em atraso, uma crise profunda no país. Mas queria lá eu saber da crise, nem me passaria pela cabeça achar que isso poderia ensombrar a alegria de ir ser mãe outra vez. A minha mãe desculpou-o pelas dores. 

Mas foi a única vez. Logo depois já estava contente e foi, para ele, uma alegria ter um neto rapaz, depois de uma neta menina.

Mas desviei-me da conversa. Estava a falar da minha felicidade. Não havia representações 3D do pequeno ser que crescia dentro do meu corpo nem se faziam ecografias a torto e a direito. Era sobretudo magia. 

Adorava sentir a minha barriga cada vez maior, os movimentos lá dentro, tentava perceber onde estava o rabinho, os joelhinhos, os pezinhos do bebé. De vez em quando um altinho: um pezinho, um pontapé. Gostava tanto de os sentir. E falava com eles, fazia festinhas na minha barriga que se agigantava. Quando estava lua cheia, ia para a varanda e mostrava a barriga à lua, para que o luar agraciasse os meus bebés.

Ao mesmo tempo os meus seios também cresciam, os mamilos maiores -- todo o meu corpo se preparava para o milagre da criação.

Sempre gostei muito de música e punha música para que eles a ouvissem. Imaginava-os quentinhos, a banharem-se dentro de mim, felizes por se sentirem tão queridos, por poderem ouvir música, por sentirem as festinhas que eu lhes fazia.

As minhas barrigas cresciam desmesuradamente e eu não me inibia de nada. O médico dizia que eu estava bem e, se me sentia bem, não fazia mal nenhum aquelas barrigas que pareciam transportar duas crianças de cada vez.


Porque já antes aqui falei disso, não vou repetir com pormenor o que foi o parto, idêntico nos dois casos, vou abreviar. Nasceram no limite do tempo e teve que ser parto provocado. Porque pedi encarecidamente que cesariana só em último caso -- queria ter os meus filhos pelas vias normais, sem anestesia, completamente ao natural -- acabei por suar as estopinhas. Quando a minha filha nasceu ainda eu acreditava que, se fizesse as respirações, não ia doer nada. Na verdade, o que aconteceu foi que pensei que morria de dores. Teve que ser puxada a ferros e tive dores dilacerantes. Podia ter aprendido a lição. Não aprendi. Quando foi a vez do meu filho, a minha vontade foi a mesma. Pensei que o caminho estava desbravado, pôr a criança cá fora haveria de ser canja. Nada. Pior ainda. Pesava mais de quatro quilos, tinha a cabeça grande. Não saía nem por mais uma. Ferros, puxar, puxar, e eu a achar que não ia resistir, tantas as dores, a cama alagada em transpiração. E, depois de se romperem as águas, as dores eram mais secas, mais profundas, mais violentas, a cama encharcada, a barriga retesada de contracções e, de cada vez que vinham novas contracções, eu rasgava-me por dentro, como se um ser poderoso estivesse a despedaçar-me. Estava a soro, o parto induzido e sem anestesia é de loucos, mas eu quis assim, queria estar bem acordada e que nenhuns químicos pudessem alguma vez molestar os meus bebés. 

Mas, mal saíam, era um alívio instantâneo, tudo passava, tudo. Tê-los em cima de mim, tê-los depois os meus braços, amamentá-los, sentir o seu calorzinho bom, sentir como se aninhavam no meu colo, compensava o suplício que quase tinha cabado comigo. Nem mais me lembrava disso.

Sensações únicas e inesquecíveis.

Depois disso, não têm conta as vezes em que tive vontade de voltar a engravidar. Saudades de sentir um serzinho a crescer dentro de mim.
A vida longe do apoio familiar, as dificuldades em viver e trabalhar em lugares de muito trânsito, a aflição para conseguir chegar a horas aos colégios com o trânsito congestionado e não ter a quem pedir ajuda. Éramos só os dois, a trabalhar longe um do outro, com trabalhos exigentes, a querermos que eles sentissem que estavamos sempre próximos e a querermos conciliar tudo -- não foi fácil. Mais que dois filhos parecia-nos ingerível. Tivesse eu tido os meus pais perto de mim e teria ido à meia dúzia. É que não é apenas a felicidade de os ter: para mim é também aquela sensação muito animal de sentir no corpo o milagre da reprodução.
Vem isto a propósito de um vídeo fantástico que estive a ver e que aqui partilho convosco: desde a explosão orgásmica até que umas sementes caudaludas e destravadas vêm por aqui adentro, a querer atingir o santo graal e, mal o vêem, forçam a entrada com a cabeça e, depois, o milagre, o milagre de as células se irem juntando, harmoniosamente, e os órgãos se irem formando, e, depois, já todos formadinhos, já com as feições a definirem-se, já a sentirem vontade de descobrir o mundo, o milagre da vinda ao mundo. Uma pessoazinha pronta para vingar em meio tão adverso. Nós.


_____________

  • Lá em cima Josefa de Castilla Portugal y van Asbrock de Garcini, grávida, é pintada por Goya
  • Pregnant Therese é uma pintura de Helene Knoop
  • Judy Collins interpreta Amazing Grace que não tem a ver com o tema mas cuja sonoridade e cujo título me agradam para aqui estar
____________________


------------------------------------

domingo, setembro 13, 2015

Joana Amaral Dias na Vidas: a nudez, a gravidez, a política. "É menina! Oxalá seja mulher com liberdade". É isto uma mensagem eficaz em tempos de campanha eleitoral. Nestas alturas vale tudo?
[A propósito, recordo as duas vezes em que estive grávida]
E termino com uma sugestão ao Carlos Abreu Amorim


Quando engravidei, ao princípio, nunca ninguém dava por nada. Usava jeans que a minha mãe abria de lado e onde colocava um elástico que eu ia ajustando. E usava umas camisas floridas, larguinhas. Como não tinha enjoos, desejos ou daqueles sintomas usuais, é que ninguém sequer suspeitava; e eu não sentia necessidade de andar a alardear, achava que era coisa minha.

Depois, quando a barriga estava maior, e já era verão, usava vestidos à mamã (como, na altura, se dizia), larguinhos, coloridos. Lembro-me de um que a minha mãe me fez, encarnado claro com umas pintinhas, sem mangas, amplamente decotado com um folhinho à volta. Vejo-me nas fotografias, ar de miúda, vestido de miúda, sempre a rir... e com uma barriga que impunha respeito.

Na altura não era costume usar blusas justas sobre barrigas muito grandes. Também não era usual estar na praia com o barrigão à vista. Usava um biquini próprio, que tinha uma espécie de véu preso no soutien e que encobria a barriga. Quando não estava gente por perto, destapava-a para que os bebés sentissem melhor o sol.

Gostava muito da minha barriga que crescia imenso; das duas vezes toda a gente dizia que eu teria gémeos apesar de eu garantir que era só um. 

Gostava muito de, à noite, quando havia lua cheia, me pôr na varanda com a barriga ao léu. Achava que a luminosidade lunar haveria de ser boa. Nunca pensei porquê. Talvez achasse que traria felicidade. Mas quando estava quarto crescente eu também apresentava à lua, à noite, na varanda ou na janela do quarto, os filhos que viviam dentro de mim. Aí, se calhar, era para ver se cresciam bem.

Nunca pus cremes para estrias e, por sorte, nunca as tive. Gostava mesmo de ver a minha barriga, especialmente quando se mexia. 

A minha filha fazia movimentos curtos, mexia os braços, as mãos, os joelhos, os pés. Era possível, colocar as mãos sobre a barriga e ficar a senti-la a mexer-se. Punha música e falava com ela. Nasceu uma menina calma, sorridente, bem comportada. Dormia bem, mamava a horas certas, brincava sossegadinha.

Com o meu filho era muito diferente. Parecia que dava cambalhotas, os movimentos eram intensos, todo ele se revolvia, e com força. Chegava quase a ficar incomodada, quase mal disposta. Devia dar sapatadas que se reflectiam no estômago, sei lá. Sempre foi tremendamente irrequieto.

Nasceu enorme, não sei se se sentia apertado apesar do tamanho do barrigão. Ao fim de pouco tempo de nascer, tive que o tirar do berço porque dava voltas, punha a perna em cima, quase virava o berço.

Também era sôfrego a mamar, engasgava-se e quase sufocava, dormia mal, não parava sossegado, ia dando comigo em maluca pois não me deixava dormir mais que uma ou duas horas de seguida. E, como mamava daquela maneira, depois vomitava, tinha que mudar a roupa da cama. Ou seja, era cá fora aquilo que se adivinhava que seria quando estava dentro da barriga. 

No entanto, apesar da experiência traumática que foram aqueles primeiros meses do meu filho, durante muitos anos, eu sentia a nostalgia da gravidez, uma saudade enorme de sentir uma pessoinha a criar-se dentro da minha barriga, a ganhar vida própria, a adquirir a sua maneira de ser. 

Já contei muitas vezes que apenas pela vida que tinha - sem apoio familiar por perto, a viver numa cidade e a trabalhar noutra, tudo muito difícil, com problemas sempre que algum ficava doente - é que não tive uma meia dúzia de filhos. O meu corpo pedia para se transformar mais vezes - eu é que não lhe dei ouvidos.

Quando os meus filhos nasciam, tinha leite que não acabava; e eles, alimentados só com leite, sem suplementos, aumentavam a olhos vistos, saudáveis, cheios de vitalidade, felizes. 

Depois, vieram os momentos da gravidez da minha filha e da minha nora. Vivi esses momentos com felicidade mas de uma maneira muito diferente, com uma ansiedade que não tive quando tinha os meus filhos dentro de mim. Verdadeiramente só descansei, de cada uma das quatro vezes, quando os vi cá fora, bem, e as mães também bem.

Tenho verdadeira devoção perante uma barriga que transporta um filho em formação. Acho das coisas mais maravilhosas do mundo esta capacidade de uma vida se formar a partir de duas ínfimas células, multiplicando-se de forma inteligente, misteriosa, perfeita.

Uma barriga de uma mulher grávida é, para mim, uma coisa de uma beleza sobrenatural.

Talvez por isso me sinta chocada com a instrumentalização que Joana Amaral Dias anda a levar a cabo com a sua barriga, a sua gravidez. Há ali qualquer coisa de vulgar, como se, em política, valesse tudo, até a exposição da parte do corpo que, transformando-se para acolher um outro ser humano, pudesse ter o mesmo efeito que um cartaz de campanha.

É que uma coisa é pensar o corpo como um elemento estético, belo, uma mulher com outra pessoa dentro de si; e outra, muito distinta, é, em campanha, isso ser aproveitado de forma gratuita, perdendo o sentido mágico e transcendental, apenas para servir de bandeira eleitoral.

E se a fotografia anterior na capa da Revista Cristina já me parecia uma coisa sem jeito, a capa agora da revista Vidas do Correio da Manhã - em que aparece espalhafatosamente chocarreira - ainda mais vulgar me parece, quase chocante.



Joana Amara Dias, candidata do AGIR


Não me tenho por conservadora pois quer política, quer esteticamente, acho que estou o mais possível aberta à diversidade, à irreverência, ao inesperado. Mas acho que há coisas que merecem algum respeito: a beleza de uma barriga grávida não deveria ser instrumentalizada com vulgaridade.

Só falta, um dia destes, o Carlos Abreu Amorim, desesperado, numa de ver se salva a sua pafiosa coligação, nos aparecer também assim:


O actor Johnny Vegas aqui fotografado por Karl J Kaul,

....

Bem. E a propósito dos pafiosos ou pafientos, desloquem-se por favor até ao post abaixo a fim de contribuirem para o peditório organizado pelo ainda Primeiro-Ministro para ajudar os pobrezinhos lesados do BES a pagar as despesas de porem o BES ou o Novo Banco em tribunal. Uma cena de crowd funding a la Láparo, não sei se estão a ver. Uma coisa esperta. Mais uma.

....

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.


quinta-feira, janeiro 16, 2014

Teresa Caeiro está grávida? A que é que a Clara Ferreira Alves foi operada? A Clara Ferreira Alves é casada? A Manuela Moura Guedes tem a casa à venda? O Passos Coelho não tem vergonha na cara? A namorada do Hollande está grávida?


No post abaixo partilho convosco dois vídeos que, tendo já algum tempo, não deixam de ser relevantes como documentos que ajudarão a perceber melhor a nossa história recente. Ou não. Ou seja, ou são documentos históricos ou  peças de humor. Eu ainda não me decidi. Vocês ajuizarão.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. Cusquice pura e dura.

*

Volta e meia, vou aqui às estatísticas do blogue e espreito as palavras que as pessoas colocam nos motores de busca e, através de quais, vêm parar aqui, ao Um Jeito Manso. Como já aqui o referi algumas vezes, os motores de busca, dos quais o google será o mas conhecido, utilizam algoritmos complexos que, pegando nas palavras que as pessoas escrevem, vão percorrer biliões de sites por todo o mundo, ordenando-os segundo a forma como o site parece corresponder melhor ao que a pessoa pretende com as palavras que escreveu.

Ora, sabendo isso, só posso concluir que ou o Google utiliza algoritmos cheios de bugs ou eu esqueço-me do que aqui escrevi pois a verdade é que é para mim um mistério o que aqui encontro.

Tirando as palavras-chave que percebo e, claro, que são em maior número ('um jeito manso', 'blogue um jeito manso', 'quem é a autora do blogue jeito manso'), as perguntas mais recorrentes da última semana são as que puderam ler no título da mensagem. Ora, quem aqui entrou à procura de respostas, não as encontrou pois eu, tirando uma, em relação a qualquer das outras, não faço ideia.

(Uma coisa é certa: muitas vezes soube que havia coisa através das palavras que usam para aqui chegar. As pessoas ouvem rumores, tentam confirmá-los no google - e, depois, ao fim de algum tempo, chega a confirmação).

Mas, então, para que as pessoas não se sintam defraudadas entrando aqui e não encontrando nenhuma resposta às suas dúvidas, vou pronunciar-me.


A Teresa Caeiro está grávida?


Não sei. Não estará apenas gordinha? É preciso não esquecer que estamos a sair das festas de Natal, Ano Novo, Reis. Além disso, o maridão gosta de cozinhar. O que sei (wikipedia dixit) é que faz 45 anos no próximo dia dos namorados e, portanto, se é para vir um maninho para o seu filho, terá que se apressar. Já o maridão, o Miguel Sousa Tavares, a vir aí bebé, tê-lo-á quando tiver 62 anos e sendo, provavelmente, já avô. Mas, enfim, esteja a Teggy grávida ou não, e apesar de ser do CDS, partido mal afamado, só desejo é que, entre ela e o marido, corra tudo pelo melhor.



A Clara Ferreira Alves foi operada? E é casada?


Também não sei responder a nenhuma das perguntas. O que sei é que, de facto, faltou a vários Eixo do Mal (não sei se compareceu ao último porque eu estava in heaven e lá só apanho os 4 canais generalistas) e, de cada vez que não estava, os colegas de mesa diziam que ela estava a recuperar bem. Também sei que não há-de ter sido nada de grave pois manteve as crónicas no Expresso, certinhas, direitinhas, com a qualidade de sempre. Seja como for, o que desejo é que esteja bem, que não tenha sido nada de grave. Gosto da forma frontal e lúcida como se exprime, quer verbalmente quer por escrito. Quanto a ser casada, não faço ideia. Que seja feliz - casada, solteira, viúva, divorciada ou amancebada - é o que lhe desejo.



A Manuela Moura Guedes tem a casa à venda?


Não faço ideia. Há muito boa gente a desfazer-se de casas grandes e caras cuja manutenção é onerosa e cujos impostos são proibitivos. Também conheço quem se desfaça de casarões e os troque por apartamentos mais pequenos apenas porque acha que já não tem idade para casas grandes e quase sempre vazias (pensam isso geralmente depois dos filhos saírem de casa). Não faço ideia do que se passa com a Manuela Moura Guedes no que à casa diz respeito (aliás, nem à casa nem a nada mais).



O Passos Coelho não tem vergonha na cara?


Devo dizer que esta pergunta é recorrente. Às vezes, em vez de Passos Coelho a pergunta refere-se a Paulo Portas.

Não conheço pessoalmente nenhum deles mas, do que me é dado ver, a esta acho que posso responder sem correr o risco de me enganar: acho que, quer um, quer outro, não têm qualquer vergonha na cara.

Nenhuma.



A namorada do Hollande está grávida?


Esta pergunta apareceu várias vezes ontem. Não sabia (e não sei) mas, de facto, fui pesquisar e parece que a imprensa diz que sim, que Julie Gayet está grávida de 4 meses. 


A ser verdade, o Hollande é mesmo uma fera, um touro, um ser apaixonado, um sedutor, um garanhão, qualquer coisa (porque qualquer coisa é, não me venham com coisas; não parece, nem se percebe o que seja mas, enfim, algum trunfo secreto ele tem).

Agora uma coisa vos digo: gostei da segurança dele na conferência de imprensa, sem expor a sua vida e sem se armar em santo, sem moralismos escusados. Não há dúvida que a França é o reino do amor, parece que ninguém consegue fugir a um belo e picante romance. Pois que sejam todos muito felizes é o que eu lhes desejo.


***

Recordo: desçam, por favor, até ao post seguinte pois há dois vídeos singulares (e mais não digo para não estragar a surpresa).

***

E, por hoje, fico-me por aqui. 
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta feira! 
E animem-se, está bem? 

domingo, agosto 11, 2013

Um parto muito triste. Podia até, talvez, ser 'O da Joana' mas, infelizmente aquele de que vos vou falar não foi ficção, foi bem real.


No texto abaixo transcrevo parte de um artigo de Pedro Santos Guerreiro que penso ser de leitura obrigatória nestes dias que correm. Aos poucos vamos começando a ter uma pálida ideia da poderosa e ubíqua teia que nos cerca. 

Pedro Lains, no seu blogue, também não se tem cansado de alertar para a relação que existe entre a austeridade a que estamos a ser submetidos e a força obscura mas implacável dos bancos que parecem dominar por dentro o governo de Passos Coelho, como se o sistema financeiro estivesse a obrigar políticos frouxos, maleáveis, a sugar a população para alimentar a insaciável fome de banqueiros sem moral. 

Mas isso é no post a seguir a este.

Aqui, agora, a conversa é outra e, lamento, mas o tema também não é dos mais animados. Ocorreu-me ao ler o artigo e a crítica literária ao livro 'O da Joana' da autoria de Valério Romão.


|||


Há anos, quando eu estava eu grávida da minha filha e em termo de gestação, era domingo e eu acordei com contracções. 




Era então quase ainda uma menina, eu. Casei muito cedo, ainda estudante, e um ano e pouco depois, engravidei. Foram tempos de felicidade. De índole maternal, sentir um serzinho a crescer dentro de mim enchia-me de ternura e alegria. Nunca tive enjoos, inchaços de pés, nada. Uma gravidez perfeita vivida na maior descontração (ao contrário da gravidez seguinte, por um susto que viria a revelar-se infundado mas que me atormentou enquanto a dúvida não se dissipou). Tinha uma barriga enorme que me enchia de orgulho e não via a hora de conhecer o meu bebé, de tê-lo nos meus braços, de o amamentar, de o ver crescer saudável e feliz.




Avisada que estava de que aquele seria o alerta para que o parto estava iminente, demos início ao controlo do tempo entre as contracções. Não tinha grandes dores, apenas moinhas no baixo ventre idênticas às que sentia quando estava com o período. As contracções foram sendo mais seguidas, o incómodo foi aumentando. A mala estava pronta. Quando percebemos que era chegada a hora, metemo-nos no carro e lá fomos.

Observada pela parteira de serviço, a decisão foi a que se esperava: já estava com alguma dilatação, tinha que ser internada, o parto estava para breve. 

No hospital em questão, o Hospital Particular de Lisboa (que, entretanto, já fechou), a dilatação era feita não no quarto mas numa sala própria, com assistência de enfermeiras/parteiras. Quando se atingia o momento de expulsão, seguíamos então para a sala de partos onde já se encontrava o médico.

Na sala de dilatação podiam estar várias parturientes. Estávamos isoladas umas das outras por espessas cortinas verdes e o espaço para cada uma era razoável. Podíamos ter junto a nós uma pessoa. Eu tinha o meu marido que, aliás, assistiu aos partos com um estoicismo que me surpreendeu, tanto mais que não foram partos fáceis e foram absolutamente a sangue frio.




Fui para a sala de dilatação de manhã. Às tantas puseram-me a soro para acelerar o processo, mas o tempo ia passando e o tempo entre contracções, em vez de encurtar, mantinha-se. A dilatação aumentava mas não o suficiente. 

Não via as mulheres que lá estavam também pois, como disse, estávamos isoladas por cortinas.

Ouvia que chegava uma, gemia, arfava, gritava, ouvia palavras masculinas de consolo, depois ia para a sala de partos, passado um bocado ouvia o choro de um bebé. E eu nada. Passado um bocado, gemidos, gritos, outro choro de bebé. E eu nada. Até que começo a ouvir gemidos entrecortados por choro, um choro de aflição. Uma voz de homem tentava acalmar, mas mais parecia um lamento. Depois gemidos, arfar e logo depois um choro. E as contracções da mulher apertavam, e eu ouvia-a gritar e, mal parava de gritar, chorava como se chorasse com desespero e a voz do homem também dava pena, falava baixo mas, às tantas, já me parecia que chorava.

Eu, que estava incomodada com dores, já um bocado angustiada por o meu parto parecer não se aproximar, ainda mais impressionada estava pelo que se passava no compartimento perto de mim.




Às tantas o meu marido foi lá fora e demorou-se. Quando voltou contou que os meus pais estavam numa aflição, que a minha mãe já chorava. Ouviam aquele choro todo à distância e pensavam que era eu. Ele teve dificuldade em explicar-lhes que, apesar de eu estar lá há horas, estava bem, não gritava, que não era eu que estava naquela aflição.

De cada vez que uma enfermeira vinha observar-me, eu interrogava-a sobre o que se passava no outro compartimento, se estava tudo bem. A enfermeira desvalorizava, que nem todas as pessoas são iguais, se eu nunca tinha ouvido dizer que há senhoras que gritam muito, e concentrava-se em mim, a ver se esse bebé se despacha, então esse bebé preguiçoso não quer sair? e, profissional eficiente, com ar tranquilo, seguia para outra parturiente. O meu marido também me dizia que eu não ligasse, que se calhar era mesmo o que me diziam, uma coisa normal - mas eu via que ele também estava incomodado.

À tarde veio o meu médico para me observar. Resolveu que eu tinha que se fazer um exame com uma sonda que filmava, para ver se o meu bebé estava bem. Os batimentos já tinham revelado que sim, mas ele queria saber se o líquido estava com oxigénio suficiente, se as imagens revelavam que o bebé estava bem posicionado e com movimentos normais. Voltou mais tarde com esse equipamento. Lembro-me que ele quis que eu visse as imagens no écran mas, no estado em que eu estava, não consegui perceber nada do que via.

Eu que sou naturalmente calma, que não sou de gritar, começava a estar enervada com o que se passava ali ao meu lado, aqueles gritos e aquele choro lancinante desestabilizavam-me emocionalmente. Apesar de muito jovem, percebia bem que aqueles não eram os normais gemidos e gritos de dor de um parto. Era algo de mais, era um sofrimento que ia para além da dor física, um sofrimento profundo, que vinha da raiz do corpo.




Perguntei ao meu médico o que se passava ali ao lado. Começou por sorrir, dizer que algumas senhoras gritam mais que outras, tentou gracejar, simular um ar ligeiro. Mas eu insisti, disse que aquilo não era normal, que não percebia porque não acudiam  aquela mulher.

Eu tinha desenvolvido uma certa amizade com aquele médico, então ainda muito jovem. Agora ele é um obstetra prestigiado, talvez o mais prestigiado do país. Mas, na altura, teria uns trinta e poucos anos. Talvez por essa relação de uma certa empatia que existia entre nós, não deve ter conseguido mentir-me. Disse-me então: 'O bebé dela está morto.'. Fiquei siderada. 'Morto?'. Nem percebia. Senti um verdadeiro horror. Toda a gravidez eu tinha andado realizada, feliz, sentindo o meu bebé a mexer-se dentro de mim. Imaginei, então, ao ouvir aquilo, o pânico que seria deixar de sentir o bebé, ter uma barriga grande com um bebé morto lá dentro. E como era possível ter um filho morto e ter que o dar à luz como se estivesse vivo? Parecia uma coisa mórbida, um suplício a que uma mãe deveria ser poupada. Ele, então, de semblante fechado, triste, confirmou 'O coração deixou de bater. Os exames confirmaram. E não pode ficar lá dentro, não é? Poderia operar-se para o tirar mas uma operação é uma operação, é melhor para ela que o tenha pelas vias normais.'

Nunca mais me esqueci. Fiquei em suspenso, aflita por ela, pensando na angústia imensa que deveria estar a ser passar pelas dores todas de um parto para dar à luz um filho morto.

Passado um bocado ouvi que a levavam mas daquela vez não ouvi a seguir o choro de um bebé.

A mim, à noite, porque as contracções tinham vindo a espaçar-se até que pararam, mandaram-me para casa. A minha filha nasceu quase duas semanas depois desse dia, quase às quarenta e duas semanas, e o parto teve que ser provocado. Parecia que, por vontade dela, ficava dentro de mim.




Quando se tem a sorte de tudo correr bem, facilmente esquecemos a infelicidade traumatizante das mulheres a quem acontece uma desgraça como a que acabei de relatar. Podia ser esta, talvez, a mulher de que Valério Romão fala no seu livro e sobre quem José Mário Silva, no suplemento Actual do Expresso desta semana, diz tratarem-se de coisas própria do escuro.



*

[Volto a lembrar: o artigo de Pedro Santos Guerreiro de que, já aqui abaixo se dá conta, é, em minha opinião, de leitura quase obrigatória.]

*

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom domingo!

sábado, janeiro 05, 2013

Assunção Cristas está grávida do quarto filho, ou seja, vai nascer o 1º bebé do Governo Passos, Relvas e Gaspar; Paulo Portas deve ser o padrinho (tema de fim de semana nº 2)


Continuando na senda do post anterior (coisa que certamente diz muito da minha inteligência - e, sobre isso, é descer um pouco mais), continuo o meu relato.

Estava eu, de novo, entregue à leitura do Expresso dos 40 anos, quando ouvi na sala: com a vida que temcomo deve ser só de vez em quando, e, católica praticante como é, como não deve ter cuidados, olha,  lá calhou

Não percebi. Olhei.

A imagem de Assunção Cristas na televisão. Falava do Tiago e de como se ocupa impecavelmente dos filhos.



Assunção Cristas, grávida do quarto filho


E logo a seguir, a viúva minhota anunciava que a gravidez já vai nas 12 semanas e que Assunção Cristas já tinha comunicado a Passos Coelho e Paulo Portas.



Judite de Sousa diz que Assunção Cristas já vai para o 4º filho


Espero que tudo corra bem e desejo-lhe felicidades, tal como desejo a qualquer mulher que esteja grávida. A gravidez é uma bênção e o país precisa que as taxas de natalidade arrebitem.

sexta-feira, maio 27, 2011

Pedro Passos Coelho e o aborto - ou quando a estupidez ultrapassa os limites da razoabilidade




Conheço uma mulher que hoje é professora do ensino secundário que, enquanto fazia a licenciatura à noite, trabalhava de dia como secretária. Vivia, na altura, em casa de uma irmã ligeiramente mais velha.

Era muito trabalhadora, muito prestável e, pela própria formação académica, destacava-se das colegas.

Toda a gente gostava muito dela.

Lá, conheceu um rapaz, que estava nas mesmas circunstâncias de trabalhador-estudante e, decorrido algum tempo, começaram a namorar. Eram um casal bonito, simpático, ambos muito prestáveis, muito eficientes.

Um dia aconteceu uma coisa inesperada. Sem mais nem menos, caiu no chão do escritório, esperneou, espumou, etc, e, percebendo o que estava a acontecer mas sem que ninguém soubesse de antecedentes, chamaram a emergência médica. Era, obviamente, um ataque epiléptico.

A seguir fez exames que confirmaram o diagnóstico e teve que começar a fazer tratamento preventivo.

Eis senão quando, algum tempo depois, soube que estava grávida.

Havendo probabilidades que o tratamento tivesse afectado o feto, a viver em casa da irmã, a estudar, a gravidez foi, pois, uma notícia indesejada.

Na altura ainda não havia os meios de diagnóstico que existem hoje, nem sequer ecografias. Depois de muita indecisão, muito sofrimento (ainda mais, sendo católica praticante), resolveu interromper a gravidez. Como é óbvio, toda a gente a apoiou.


Lembro-me bem dela nesse dia ao fim da tarde. Branca, olheirenta, cheia de frio, a tremer de frio ou de angústia, infeliz, lágrimas a quererem romper-lhe dos olhos. Contou como foi, o andar ao cimo de umas escadas, a marquesa num quarto inóspito, a parteira muito insensível, a sensação de que aquilo não devia estar a ser feito naquelas condições, e depois o pagamento, o vazio. Lembro-me de mim, muito novinha, muito cheia de pena, sem saber como consolá-la.

Durante muito tempo não conseguiu falar do assunto, foi um bocado dela que foi arrancado e nada preenchia esse buraco.

Mais tarde casaram, um casamento muito bonito, felizes, felizes. Algum tempo depois, no entanto, uma enorme desgraça abateu-se sobre eles mas isso não faz parte da história de hoje.


Uns anos mais tarde (mas ainda antes do referendo), um colega meu passou por uma situação também nefasta.

A mulher contraiu rubéola durante a gravidez e foi comprovado que o feto estava afectado de forma irreversível. Foi medicamente aconselhada a abortar e, havendo este motivo, foi aconselhada a fazê-lo no hospital. Contudo, para cumprir com todas as regulamentações, teve que fazer uma série de exames, esperar por resultados, ir a outras consultas, etc. O tempo ia passando, a barriga ia crescendo e o processo andando. A angústia dela e do marido eram indescritíveis. Só queriam que o pesadelo acabasse.

Salvo erro já ia no 5º mês, uma barriga bem redondadinha, quando finalmente foi admitida no hospital para abortar. Contudo, o processo acabou por ser duplamente insuportável. Induziram-lhe o parto. Ou seja, passou pelo período das contracções, dores, expulsão pela via normal, e agora não sei exactamente o que se passou mas lembro-me de ele ter dito que tinham cortado o feto dentro da barriga.


O processo foi de tal forma traumatizante que ela acabou por ficar com uma forte depressão, durante algum tempo teve pesadelos e ele ficou também bastante afectado.

Além disso, teve que tratar do enterro do feto e passado algum tempo recebeu um aviso de que tinha que registar, dar nome. Era uma menina. E eles não conseguiam escolher nome, registar um feto a quem tinha acontecido o que aconteceu. Mas foram obrigados a fazê-lo. (Ao escrever isto não sei precisar se a sequência foi esta ou o contrário)

Ele só dizia que mais valia que o tivessem feito clandestinamente.

São dois casos reais distintos mas ambos traumatizantes.

Poderia referir outros que, cada um à sua maneira, seria igualmente traumatizante.

Ninguém consciente interrompe uma gravidez de ânimo leve. É sempre um processo doloroso, interiormente doloroso, fisicamente dilacerante.

Não há maior benção para uma mulher do que ter um filho. Qualquer mulher, quando está grávida, o que mais deseja(ria) é ter o filho e que venha bem. Nenhuma mulher vai decidir abortar apenas porque a lei o permite. Se resolver interromper a gravidez é porque motivos imensos, incontornáveis, assim o obrigam. E decido-lo-á com infinita tristeza.

Da série dedicada ao Aborto: Paula Rego

Pode acontecer que em meios depauperados, de pobreza absoluta, ou em meios de droga ou de extrema carência, as mulheres percam a noção dos valores da vida e não lhes custe abortar. Mas são casos em que a intervenção deve ser no sentido de ajudar essas mulheres e não de as proibir do que quer que seja.

Agora, em condições mais ou menos normais, nenhuma mulher interrompe a gravidez por desporto. Se o decide fazer, é certamente por desespero, por infortúnio.

Levá-la a fazê-lo clandestinamente, à margem da lei, sem condições médicas, é um crime. Levar uma mulher traumatizada, infeliz, vazia, a enfrentar a justiça por ter feito um aborto clandestino, sentando-se no banco dos réus, é um crime.

Mulher de paula Rego

Eu nunca abortei e, se por algum motivo, alguma vez tivesse tido uma gravidez indesejada ou problemática, não sei se teria tido coragem para o fazer porque amo crianças, amo a vida, sou fanática pelo mistério e milagre que é a maternidade. Mas só quem está a viver as circunstâncias é que pode ajuizar das suas próprias razões pois, tal como eu amo a vida, também todas as mulheres que o fizeram a amam.

Demi Moore grávida fotografada por Annie Leibovtz

E é justamente pelo que eu sinto, pelo que eu sei, pelo que conheço, que afirmo aqui com toda a minha convicção que só alguém muito estúpido, mas mesmo muito estúpido, é que pode, numa campanha eleitoral, numa altura em que o país atravessa uma crise financeira e económica tão grave, vir levianamente relançar o tema da IGV, falar em voltar a fazer um referendo, como se isto pudesse ser tratado como um tema banal, como mais uma arma de arremesso na campanha.

Mas ainda pior: a minha impressão é que isto foi coisa do momento, resultou da pergunta que lhe fizeram, não de convicção interior dele (se é que ele tem alguma verdadeira convicção). A ideia com que fiquei é que,  sendo uma cabeça de vento, uma maria vai com as outras, foi o que lhe veio à cabeça quando lhe fizeram a pergunta numa entoação que o levou a inflectir nesta direcção.

Ora este é um tema sério, sensível e, sobre ele, a sociedade portuguesa já reflectiu, já se manifestou de forma inequívoca. O que decorreu do referendo, a despenalização dentro de determinadas circunstâncias, tem estado a ser executado sem sobressalto.

O que dizem os médicos é que o número de IGV's é inferior ao previsto, vai decrescendo de ano para ano e é inferior à média praticada em países congéneres. Claro que há casos, em número não significativo, em que ainda não se conseguiu educar as mulheres para a necessidade da contracepção: são casos marginais, associados a vidas in the border line. Mas estes casos não resultam da lei, resultam da desestruturação da vida destas muheres. Fá-lo-iam em qualquer circunstância. Há ainda um esforço de educação e sensibilização a fazer nesta área mas é um work in progress. Como em tudo na vida, há sempre aspectos a melhorar.

Por isso, acho imperdoável e miserável que, num momento em que Portugal enfrente uma crise política, social, económica e financeira grave, Passos Coelho tenha falado com ligeireza eleitoralista de um tema tão íntimo, tão sério. Seja qual o motivo que o levou a lançar para a rua, numa altura destas, o tema do aborto, revolta-me. É demais. É estupidez a mais.

Espero bem que as mulheres não lhe perdoem. Espero bem que, nas urnas, lhe dêem uma resposta inequívoca. A vida que as mulheres têm a capacidade de transportar dentro de si merece um tratamento mais digno. Não pode ser usada como um argumento eleitoral na boca de um palerma.