No post abaixo, já falei do nosso fofinho mais lindo deste governo de gente feia e má, o nosso Lombinha que agora anda a chamar os emigrantes. Vem, Vem..., diz ele, mas, tadinho, o nossa coisinha mai'linda parece que está a pensar para aí nuns 40 e, tadinho, com isso acha que resolve o problema dos milhares e milhares que antes foram daqui corridos a pontapé. Tudo aquilo em que ele se mete dá nisto. Uma anedota.
Mas sobre isso falo mais abaixo. Aqui, agora, continuo numa de passeio.
Se ontem disse onde gostaria que uma pessoa me levasse, hoje digo onde gostaria eu de levar essa pessoa.
Se eu pensar numa viagem normal, nada agora de me ir enfiar no centro da terra, nada de caminhar por entre tigres azuis e enormes árvores verdes, e se pensar que quereríamos ambos um passeio sereno, só para nós dois, só para podermos estar juntos, em paz, é em Itália que eu penso.
Penso na luz dourada de Itália, nos campos coloridos, mas de uma cor suave, penso numa casa no meio do campo.
E a casa será grande, clássica, confortável, e terá cadeirões de veludo onde cada um poderá sentar-se a ouvir música, a ler, a olhar um para o outro ou a olhar os campos através das janelas. E na sala - junto a uma lareira que, nessa altura, estará apagada mas da qual se soltará ainda o acolhedor perfume da madeira queimada - haverá um amplo sofá de tecido florido, com almofadas macias, onde nos afundaremos, abraçados, em silêncio.
E dali sairíamos a passear, e os campos exalariam um perfume a rosmaninho, alfazema e alecrim, e ouviríamos as abelhas, as cigarras ao longe, e andaríamos de mão dada, sem pressa.
E, à tarde, sentar-nos-íamos num amplo terraço, beberíamos uma bebida fresca, talvez comêssemos pão molhado em azeite, talvez comêssemos azeitonas temperadas, e deixaríamos que o olhar percorresse as suaves curvas do horizonte. E olhar-nos-íamos nos olhos, surpreendidos por estarmos ali, os dois.
Teríamos sempre connosco um livro que, de vez em quando, abriríamos ao acaso procurando um poema que melhor que nós dissesse o momento,
mas desistiríamos, preferiríamos olhar a luz dourada sobre a nossa pele, fazendo brilhar ainda mais o nosso olhar, o nosso olhar despojado, indefeso, nu.
De manhã sairíamos dali em busca do mar. Vestir-nos-íamos com roupas leves e iríamos, leves nós também.
Andaríamos a pé pelas ruas das pequenas vilas, eu fotografando tudo, encantada, estas são as cores dos meus sonhos, diria eu, e tu puxar-me-ias pela mão para que eu não me detivesse em frente a cada porta, a cada janela florida, anda, anda. E eu deixar-me-ia levar pela mão.
Sentar-nos-íamos então junto à água, respirando o ar fresco a cheirar a maresia. Não teríamos pressa. Olhando o mar, iluminados pela luz suave reflectida nas águas, ouviríamos as vozes alegres de quem por ali passasse mas ninguém nos incomodaria, felizes e serenos, inundados de silêncio e afecto.
Subiríamos então a um restaurante num primeiro andar com janelas abertas sobre o cais. Com prazer, saborearíamos o peixe fresco, o sabor a tomate temperado com azeite, o vinho branco muito fresco.
Depois, de tarde, deixar-nos-íamos ficar por ali, junto ao mar, ou talvez subíssemos até ao campo circundante, talvez nos deitássemos à sombra de um pinheiro, sentindo o calor bom, o sossego, a proximidade, uma proximidade tão boa, tão impossível duas pessoas sentirem-se assim tão próximas.
À tarde percorreríamos as ruas, comeríamos um gelado, entraríamos numa pequena livraria que venderia não apenas livros mas também gravuras, pequenos objectos antigos. Traríamos algumas coisas, felizes pelos achados, coisas raras, simples, nossas. Saberíamos então que essas seriam, mais tarde, recordações queridas desses dias tão felizes.
E regressaríamos à nossa grande casa no campo envolta em luz dourada. Descansaríamos no quarto e descansar seria metáfora e depois, abraçados, desceríamos até à sala onde, de novo, nos afundaríamos, sempre abraçados, no grande sofá.
À noite deixar-nos-íamos ficar na varanda do quarto, olhando o céu, conversando, e teríamos tanto para nos contar, tanto, tanto, e por mais que nos descobríssemos mais nos quereríamos descobrir, porque um no outro nos descobrimos e construímos. Depois, em segredo, dir-me-ias,
Noturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo
e eu responderia que
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
e me denuncio
e a noite seria nossa outra vez.
E, no dia seguinte, voltaríamos aos nossos pequenos passeios junto ao mar, à forma simples de sermos felizes, caminhando pelas pedras, junto ao mar, sentando-nos nas amuradas, a luz rosada e doce envolvendo a nossa pele, e nós sempre perto um do outro, e escolheríamos o melhor sítio para almoçarmos, e eu, deslumbrada com a luz, faria fotografias para mais tarde comprovar que tinha vivido um doce sonho e tu contar-me-ias de reis, de poetas, de pintores, e eu escutaria as tuas palavras com muita atenção, como que querendo guardar dentro de mim aqueles momentos preciosos, breves, inventados.
No último dia, abraçada a ti, abraçada por ti, dir-te-ia que a vida é efémera, a beleza é imensa mesmo que passageira, a doçura é uma dádiva quando acontece, e, mesmo que tudo não passe de ilusão e sonho, vale bem a pena. E tu afagar-me-ias o cabelo, o rosto, e dir-me-ias que eram essas as palavras que tinhas para me dizer.
E depois desta viagem, cada vez mais próximos, um na pele do outro, o coração batendo em uníssono, regressaríamos ao nosso mundo de sempre, tranquilos, confiantes, sabendo que esses dias de sonho e paz para sempre viveriam dentro de nós.
E, de cada vez que fecharmos os olhos, saberemos que dos nossos sonhos muitos outros vão nascer e que esses sonhos, envoltos em luz dourada e doçura, trarão uma rara ternura aos nossos dias.
.......
O título deste post e os três excertos em itálico compõem um poema de Mia Couto.
A música é Pelagia's Song do filme "Captain Corelli's Mandolin" numa interpretação da Royal Philharmonic Orchestra.
........
Quase em surdina, para não estragar o momento, deixem que vos diga que do Lombinha trato a seguir.
........
Desejo-vos, meus Caros Leitores, um sábado muito feliz.
...