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sexta-feira, fevereiro 26, 2016

N' O Instante antes do beijo diz o meu nome





Não quero o primeiro beijo:

basta-me 
O instante antes do beijo.

Quero-me 
corpo ante o abismo, 
terra no rasgão do sismo. 

O lábio ardendo
entre tremor e temor, 
o escurecer da luz 
no desaguar dos corpos: 
o amor 
não tem depois. 

Quero o vulcão
que na terra não toca: 
o beijo antes de ser boca. 


[O Instante Antes do Beijo de Mia Couto, in 'Tradutor de Chuvas']


Diz o meu nome 
pronuncia-o 
como se as sílabas te queimassem 
                                  [os lábios 
sopra-o com a suavidade 
de uma confidência 
para que o escuro apeteça 
para que se desatem os teus cabelos 
para que aconteça 

Porque eu cresço para ti 
sou eu dentro de ti 
que bebe a última gota 
e te conduzo a um lugar 
sem tempo nem contorno 
(...)


(...)
No húmido centro da noite 
diz o meu nome 
como se eu te fosse estranho 
como se fosse intruso 
para que eu mesmo me desconheça 
e me sobressalte 
quando suavemente 
pronunciares o meu nome 


[Excerto de Diz o meu nome de Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho']

_____

A escultura lá em cima é Psyché ranimée par le baiser de l’Amour de Antonio Canova (1757 - 1822)

A primeira fotografia é de Doisneau: Le baiser de l’Hôtel de Ville, 1950

A terceira mostra Alain Delon e Romy Schneider durante a rodagem do filme 'A Piscina', 1968

A dança é Paris Is Kissing pelos bailarinos do Dot Move sobre «Dans Tes Yeux» originalmente interpretada por Anis, cantada por Tiwayo.

...

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira

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sábado, dezembro 05, 2015

E irei pelos teus olhos, até o mundo voltar a ter princípio





Fecho os olhos e, cega, deixo-os correrem por campos azuis, mares brancos, grutas que entram pelo fundo do mar adentro, e lá dentro há nuvens, brumas, pássaros de mil cores, sóis serenos, pedras preciosas, signos misteriosos e escadas, muitas escadas, e espelhos e lagos de águas flutuantes onde pousam mãos dóceis, flores eternas, transparentes espumas, sorrisos. Nas paredes dos céus que cobrem as grutas há palavras ditas por corações apaixonados ou escritas por outros cegos que desenharam também juras de amor eterno, beijos cintilantes, abraços apertados e ternos. E eu, de olhos fechados, cega, caminho por estes labirintos que se desenrolam neste espaço infinito que os meus olhos, mesmo se abertos, jamais alcançariam.

Se eu desço essas escadas chego a uma varanda de onde parte outro lanço de escadas. Nessa varanda, que me parece suspensa, há árvores muito verdes, flores, sombras afáveis. Quando aí chego, vem na minha direcção uma pessoa que não sou eu. Sorri como eu sorrio e no seu rosto eu vejo a minha surpresa. O seu olhar é o meu e eu procuro o espelho que reflecte assim a minha alma. Não sei do espelho e não sei de onde veio essa pessoa. Depois descemos juntos a escada e eu não sei se sou eu, cega, que o invento, se foi ele que me inventou a mim. Descemos, pois, envoltos em sorrisos, nós, anjos improváveis que pousaram um dia numa varanda solta no ar, cheia de árvores, flores, asas, brisas suaves como carícias.

Quando abro os olhos, já não o vejo, apenas vejo as suas palavras. Desapareceu mas deixou em mim o seu perfume, a sua voz gentil e as suas palavras que desde então me habitam, que se aninham no meu peito, que me abraçam muito, muito. Procuro os espelhos que me reflectem e apenas estou eu, espreito atrás do espelho e apenas vejo a ausência de luz, encosto o ouvido às flores e a respiração que ouço é a que vem da terra, não do coração daquele que um dia nasceu da minha imaginação numa varanda suspensa cheia de sombras e cores perfumadas.

Conto os dias, subo as escadas do tempo, procuro os esconderijos misteriosos onde as palavras se escondem. Fecho os olhos. Descalço-me, percorro os caminhos de terra, levanto as pedras, sinto o musgo, deito-me e cheiro o húmus e os bichos silenciosos, olho a lua, aspiro o vento. Passo as mãos pelos troncos das árvores, levanto as cascas, espreito as palavras que aparecem escritas no ar, saudades, ausências, amores perdidos, desencontros. Repito: saudades, ausências, amores perdidos, desencontros. E as minhas palavras cruzam-se no ar com outras iguais, espelhos infinitos, ecos.

Não sei de nada. Inocente como se tivesse nascido hoje, pronta para descobrir o mundo e as palavras que importam, pronta para ver pela primeira vez, pronta para aprender os afectos, os olhares límpidos, a luz que emana dos seres que vêm de outros tempos para nos trazerem ao colo. Inocente como uma cega que vê pela primeira vez, como quem não sabe o sentido das palavras, como quem navega no sangue de quem nos habita. Eu dentro do outro que está dentro de mim e eu dele e ele de mim, um espelho dentro do meu corpo e eu espelho dentro dele e as mãos unidas e os lábios soletrando as mesmas palavras, os olhos olhando os olhos que não se vêem, o olhar reflectindo o olhar, o mar, o mar, a mar.


E quando,
de novo, me encerras,
volto a dormir
como dormem os rios
em véspera de serem água.

A saudade
é o que ficou
do que nunca fomos.
...

Vem, junta-te a mim, toma-me nos braços, desce comigo as ruas coloridas dos meus sonhos.

...

As imagens animadas são da autoria do artista cego George Redhawk.

Lá em cima Benjamin Clementine interpreta The People And I 

O excerto do poema pertence a 'Sazonais eternidades'. O título deste post pertence a 'Lembrança'. Ambos os poemas fazem parte de 'Tradutor de Chuvas' de Mia Couto.

Por fim, ao som dos OK Go interpretando Skyscrapers, Moti Buchboot & Trish Sie percorrem as ruas coloridas dançando, corpo a corpo.
....

É tarde. Fui ao cinema. Não vi televisão, não li notícias. Não sei se o mundo ainda está no mesmo sítio. Por isso, hoje fico-me por aqui e relevem se o que escrevi não fizer sentido. Há dias assim, de injustificação.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado, muito feliz.

...

sábado, outubro 31, 2015

Traz de novo, meu amor, a transparência da água - dá ocupação à minha ternura vadia


Enquanto escrevo ouço a chuva a bater com força na minha janela. A noite está densa, um manto escuro cobre o rio, quase cobre a grande cidade. Ouço a música, ouça a chuva. De vez em quando o som torna-se mais pesado, parece que se abate um dilúvio, uma queda constante e torrencial. Depois abranda, fica a chuva mais mansa e as gotas que caem no parapeito são ritmadas. Ouço também o vento. Penso nos que estão longe dos que amam, dos que sentem o frio da saudade. O tempo assim traz tristeza.




Magoa-me a saudade 
do sobressalto dos corpos 
ferindo-se de ternura 
dói-me a distante lembrança 
do teu vestido 
caindo aos nossos pés 
Magoa-me a saudade 
do tempo em que te habitava 
como o sal ocupa o mar 
como a luz recolhendo-se 
nas pupilas desatentas 




Seja eu de novo tua sombra, teu desejo 
tua noite sem remédio 
tua virtude, tua carência 
eu 
que longe de ti sou fraco 
eu 
que já fui água, seiva vegetal 
sou agora gota trémula, raiz exposta 


Traz 
de novo, meu amor, 
a transparência da água 
dá ocupação à minha ternura vadia 
mergulha os teus dedos 
no feitiço do meu peito 
e espanta na gruta funda de mim 
os animais que atormentam o meu sono 



....


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 George East fotografou as Skeleton Flower.  
Joni Niemelä fotografou as gotas de água.
Mia Couta escreveu Saudade.
Polina Semionova e Roberto Bolle dançam Dancing in the Rain que Marco Pelle coreografou

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom sábado.

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quarta-feira, março 18, 2015

O perigo das Quimeras e das Emboscadas. Ou não. Talvez seja apenas um caso em que 'Les beaux esprits se rencontrent'


Depois da entrevista de Obama (que pode servir de bitola para se comparar com as entrevistas caseiras aos nossos políticos), mudemos de assunto que a noite ainda é uma criança.

Uma combinação improvável: Mia Couto, Kate Mosse (por Paolo Roversi), Albert Delègue (por Mario Testino) e Madeleine Peyroux.







Já me cansa
ter esperança.

De tanta quimera desfeita
aprendi a existir de sobras,
neste tempo de quases e nuncas.

Morro
de tanto vida por viver.

Calo-me 
de quanta palavra esbanjada.

Desvaneço
de tanto beijo adiado.

O meu quarto
é o mundo inteiro sem mundo.

Quem me dera ser anjo
e sentir leve a terra
sob os meus pés alados.

Quem me dera
uma casa de nascença,
quem me dera um lume de crença,
um incêndio de todos os recomeços.

Quem dera
o quarto fosse de barro tenro,
um lugar de príncipe e princípios.

No sono
em que finjo adormecer
perco a noite
e o seu balouço de sonhos.

Sob o umbral da insónia
dou de beber a anjos
que se extinguem
na poeira dos desertos.





Sou dente para o teu beijo,
garra para a tua beleza.

Abro a casa
para o teu silêncio.

Mas não tenho leito
para o teu cansaço.

O que nosso amor acende,
luz cega,
não nos deixa ver,
distintos, um e outro.

Embriagada visão
do que é metade,
só vejo o que é tudo.

Eis o meu vício:
o que bebo não tem medida.

O que a minha sede busca
não é a bebida,
mas a sombra da água
onde eu,
numa outra vida,
morei sem voz nem mágoa.



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  • O primeiro poema chama-se Quimeras e o segundo Emboscada e são ambos de Mia Couto do livro Vagas e Lumes da ed. Caminho
  • A canção interpretada por Madeleine Peyroux é Don't wait too long. 
  • Kate Moss é 'Painted Lady', veste criações de grandes casas de alta costura e foi fotografada por Paolo Roversi para a W Magazine April 2015. 
  • Albert Delègue é um homens dos retratados por Mario Testino que pode ser visto no livro Sir onde Mario Testino, por esta vez, fotografa homens.


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O homem que se segue também tem muito que se lhe diga: Obama no seu melhor já aqui abaixo.

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sábado, março 14, 2015

Sabes agora para o que venho e por isso me desconheces


No post abaixo, já falei do nosso fofinho mais lindo deste governo de gente feia e má, o nosso Lombinha que agora anda a chamar os emigrantes. Vem, Vem..., diz ele, mas, tadinho, o nossa coisinha mai'linda parece que está a pensar para aí nuns 40 e, tadinho, com isso acha que resolve o problema dos milhares e milhares que antes foram daqui corridos a pontapé. Tudo aquilo em que ele se mete dá nisto. Uma anedota.

Mas sobre isso falo mais abaixo. Aqui, agora, continuo numa de passeio.

Se ontem disse onde gostaria que uma pessoa me levasse, hoje digo onde gostaria eu de levar essa pessoa.







Se eu pensar numa viagem normal, nada agora de me ir enfiar no centro da terra, nada de caminhar por entre tigres azuis e enormes árvores verdes, e se pensar que quereríamos ambos um passeio sereno, só para nós dois, só para podermos estar juntos, em paz, é em Itália que eu penso.

Penso na luz dourada de Itália, nos campos coloridos, mas de uma cor suave, penso numa casa no meio do campo.

E a casa será grande, clássica, confortável, e terá cadeirões de veludo onde cada um poderá sentar-se a ouvir música, a ler, a olhar um para o outro ou a olhar os campos através das janelas. E na sala - junto a uma lareira que, nessa altura, estará apagada mas da qual se soltará ainda o acolhedor perfume da madeira queimada - haverá um amplo sofá de tecido florido, com almofadas macias, onde nos afundaremos, abraçados, em silêncio.

E dali sairíamos a passear, e os campos exalariam um perfume a rosmaninho, alfazema e alecrim, e ouviríamos as abelhas, as cigarras ao longe, e andaríamos de mão dada, sem pressa.

E, à tarde, sentar-nos-íamos num amplo terraço, beberíamos uma bebida fresca, talvez comêssemos pão molhado em azeite, talvez comêssemos azeitonas temperadas, e deixaríamos que o olhar percorresse as suaves curvas do horizonte. E olhar-nos-íamos nos olhos, surpreendidos por estarmos ali, os dois.

Teríamos sempre connosco um livro que, de vez em quando, abriríamos ao acaso procurando um poema que melhor que nós dissesse o momento,

                                                                Peito que em mim respira
                                                                olhar em que me despojo

mas desistiríamos, preferiríamos olhar a luz dourada sobre a nossa pele, fazendo brilhar ainda mais o nosso olhar, o nosso olhar despojado, indefeso, nu.

De manhã sairíamos dali em busca do mar. Vestir-nos-íamos com roupas leves e iríamos, leves nós também.




Andaríamos a pé pelas ruas das pequenas vilas, eu fotografando tudo, encantada, estas são as cores dos meus sonhos, diria eu, e tu puxar-me-ias pela mão para que eu não me detivesse em frente a cada porta, a cada janela florida, anda, anda. E eu deixar-me-ia levar pela mão.

Sentar-nos-íamos então junto à água, respirando o ar fresco a cheirar a maresia. Não teríamos pressa. Olhando o mar, iluminados pela luz suave reflectida nas águas, ouviríamos as vozes alegres de quem por ali passasse mas ninguém nos incomodaria, felizes e serenos, inundados de silêncio e afecto.

Subiríamos então a um restaurante num primeiro andar com janelas abertas sobre o cais. Com prazer, saborearíamos o peixe fresco, o sabor a tomate temperado com azeite, o vinho branco muito fresco.

Depois, de tarde, deixar-nos-íamos ficar por ali, junto ao mar, ou talvez subíssemos até ao campo circundante, talvez nos deitássemos à sombra de um pinheiro, sentindo o calor bom, o sossego, a proximidade, uma proximidade tão boa, tão impossível duas pessoas sentirem-se assim tão próximas. 

À tarde percorreríamos as ruas, comeríamos um gelado, entraríamos numa pequena livraria que venderia não apenas livros mas também gravuras, pequenos objectos antigos. Traríamos algumas coisas, felizes pelos achados, coisas raras, simples, nossas. Saberíamos então que essas seriam, mais tarde, recordações queridas desses dias tão felizes.

E regressaríamos à nossa grande casa no campo envolta em luz dourada. Descansaríamos no quarto e descansar seria metáfora e depois, abraçados, desceríamos até à sala onde, de novo, nos afundaríamos, sempre abraçados, no grande sofá. 

À noite deixar-nos-íamos ficar na varanda do quarto, olhando o céu, conversando, e teríamos tanto para nos contar, tanto, tanto, e por mais que nos descobríssemos mais nos quereríamos descobrir, porque um no outro nos descobrimos e construímos. Depois, em segredo, dir-me-ias,

Noturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo
e eu responderia que

                                na rouquidão da tua carne
                                me inicio
                                me anuncio
                                e me denuncio

e a noite seria nossa outra vez.

E, no dia seguinte, voltaríamos aos nossos pequenos passeios junto ao mar, à forma simples de sermos felizes, caminhando pelas pedras, junto ao mar, sentando-nos nas amuradas, a luz rosada e doce envolvendo a nossa pele, e nós sempre perto um do outro, e escolheríamos o melhor sítio para almoçarmos, e eu, deslumbrada com a luz, faria fotografias para mais tarde comprovar que tinha vivido um doce sonho e tu contar-me-ias de reis, de poetas, de pintores, e eu escutaria as tuas palavras com muita atenção, como que querendo guardar dentro de mim aqueles momentos preciosos, breves, inventados. 

No último dia, abraçada a ti, abraçada por ti, dir-te-ia que a vida é efémera, a beleza é imensa mesmo que passageira, a doçura é uma dádiva quando acontece, e, mesmo que tudo não passe de ilusão e sonho, vale bem a pena. E tu afagar-me-ias o cabelo, o rosto, e dir-me-ias que eram essas as palavras que tinhas para me dizer.




E depois desta viagem, cada vez mais próximos, um na pele do outro, o coração batendo em uníssono, regressaríamos ao nosso mundo de sempre, tranquilos, confiantes, sabendo que esses dias de sonho e paz para sempre viveriam dentro de nós. 
E, de cada vez que fecharmos os olhos, saberemos que dos nossos sonhos muitos outros vão nascer e que esses sonhos, envoltos em luz dourada e doçura, trarão uma rara ternura aos nossos dias.
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O título deste post e os três excertos em itálico compõem um poema de Mia Couto.

A música é Pelagia's Song do filme "Captain Corelli's Mandolin" numa interpretação da Royal Philharmonic Orchestra.

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Quase em surdina, para não estragar o momento, deixem que vos diga que do Lombinha trato a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um sábado muito feliz.

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domingo, janeiro 18, 2015

Cristiano Ronaldo e Irina Shayk estão separados. As suspeitas foram confirmadas pelo agente de Irina, a ex-futuro membro do clã Aveiro. O mundo de repente torna-se mais animado: afinal o CR7 está outra vez solteiro! [Fotografias dos tempos de namoro e a poética do amor nas escolhas de Rosa Pinto]


Tinha já eu repescado para aqui as escolhas poéticas da Leitora Rosa Pinto quando ouvi que Irina Shayk tinha mandado dizer pelo agente que sim senhores, se tinha mesmo separado de Cristiano Ronaldo, o tal que, de sobrancelhas arranjadinhas, brinquinho reluzente, arrebatou no outro dia a sua terceira bolinha (tem três bolinhas e de ouro!) e que, em vez de agradecer também à namorada, soltou um grito que por pouco não fez a audiência sair dali a fugir não fosse aquilo querer dizer que ele tinha visto o lobo mau no meio da sala.


Portanto, perante tão estimulante notícia, tenho que fazer a agulha e reorientar o post. Um assunto destes, que vai deixar os fãs de um e outro cheios de expectativas, não poderia deixar de merecer um espaço aqui no Um Jeito Manso que, como é sabido, é como a casa da mãe Joana, cabe cá tudo.

Ora bem, vejamos lá o que tenho a dizer sobre este facto.

Não sou entendida em futebol mas os factos falam por si e tenho que reconhecer que o rapaz tem jeito para a bola. É uma máquina de marcar golos e de fazer dinheiro. E, como portuguesa, orgulho-me do facto. Não sei bem porquê, e também não posso dizer que seja coisa que me faz vibrar por aí além mas, seja como for, é português o melhor jogador do mundo da actualidade e isso é bom.

Dizem-no focado, disciplinado, de uma entrega total quando tem uma bola nos pés e que, não menos importante, é boa pessoa. E não é de grandes teorias, não é de modéstias coitadinhas, não se perde com conversas inúteis - e isso também abona a favor dele.

Onde eu já vacilo é na estética da coisa. Tem feições certinhas, tem um corpo bem feito e bem trabalhado, é certo, mas, que hei-de eu fazer?, não faz nada o meu género. Todo depilado, desde as pernas às sobrancelhas passando pelas axilas... E aqueles penteadinhos e aqueles brinquinhos... Não dá, nada a fazer. 

Este sábado estava a almoçar num restaurante cantonês ali à Almirante Reis e ao nosso lado um jovem casal. Ela parecia saída de uma capa de revista, cabelo preto nem tratado, corte Bob com franja, cat-eye com um eye-liner perfeito, um casaco de pêlo alto azul claro, jeans justos, botas de salto bem alto. Impec. O namorado não lhe ficava atrás, jeans, camisola salvo erro em preto e bordeaux, um cachecol nos mesmos tons enrolado ao pescoço, barba, cabelo bem penteado com um pouco de gel. Pensei: dariam uma bela sessão de editorial numa revista de moda. 
Mas, às tantas. o meu marido pergunta-me em voz baixa: Já viste as unhas do gajo?
Olhei e ele estava a fazer-lhe uma festa no braço e só vi uma unha. Estava pintada de cinzento escuro brilhante. Ainda pensei: entalou o dedo, ficou com a unha preta e, para disfarçar, o vaidosão pintou a unha.
Mas logo ele rodou a mão no braço de pêlo azul e vi que tinha uma unha de cada cor: uma encarnado pujante, outra azul marinho, outra castanho rosado... Devo ter ficado de boca aberta.
Ou seja, às tantas os homens arranjarem-se desta forma, com estes pormenores que eu ainda acho abichanados, é coisa banal e eu é que estou a ficar antiquada.

Enfim. O que a mim me desagrada no Ronaldo enquanto exemplar masculino, às tantas é o que faz entrar as meninas em delírio, sei lá, já não digo nada.

De resto, sempre me fez um bocado de confusão como é que uma rapariga como a Irina, que circula em tudo o que é palco da alta roda mediática, encaixava naquele clã tão cheio de Aveiros. A Elma, a Kátia, a D. Dolores - que devem ser mesmo umas queridas e que devem mimar e proteger o seu querido Cristiano e mais o Cristianinho - dariam o espaço vital de que Irina Shayk parece precisar? Sempre me pareceu duvidoso mas, enfim, para dizer a verdade nunca foi tema que atormentasse a minha mente.


Parece que o comunicado do agente de Irina diz que a separação não tem nada a ver com o clã Aveiro e eu acredito que não, que o problema deve mesmo ser outro, deve ter a ver com o todo o package.

Irina vem assim juntar-se a Merche Romero e outras que provaram e que, por algum motivo, não gostaram ou não se adaptaram ou a quem eles passou ordem de marcha - coisa lá deles.

E, assim sendo, não sabendo que mais dizer sobre o tema, passo ao registo recordatório: imagens de quando o CR7 e Irina eram o casal de ouro, os namorados mediáticos que a indústria da moda e da publicidade disputavam. As primeiras imagens pertencem à sessão fotográfico produzida para a Vogue e que esteve a cargo de Mario Testino, a penúltima é da autoria de James Houston e a última não faço ideia.





Se concordarem, introduzimos aqui uma nota dissonante: vamos com Agnes Obel - Fuel to Fire



Do you want me on your mind or do you want me to go on
I might be yours as sure as I can say
Be gone be faraway


E, agora sim, chamo agora Rosa Pinto a juntar-se à festa, trazendo as suas escolhas literário-poéticas.

Espero que nem ela nem os mais puristas se ofendam por eu trazer para aqui, à mistura com mundanidades e outras frioleiras, alguns grandes nomes da literatura mas eu acho que a literatura fica bem em qualquer lado e - digo eu - tomara que todos os albergues espanhóis (tipo de alojamento no qual este blogue se insere) acolhessem bem as almas dadas à poesia.



E quando me escrevias, era tão belo o que me contavas que me despia para ler as tuas cartas. Só nua eu te podia ler. 
(...)

Mia Couto




MOTE 
«Não te beijo e tenho ensejo
Para um beijo te roubar;
O beijo mata o desejo
E eu quero-te desejar.» 
GLOSAS 
Porque te amo de verdade,
'stou louco por dar-te um beijo,
Mas contra a tua vontade
Não te beijo e tenho ensejo. 
Sabendo que deves ter
Milhões deles p'ra me dar,
Teria que enlouquecer
Para um beijo te roubar. 
E como em teus lábios puros,
Guardas tudo quanto almejo,
Doutros desejos futuros
O beijo mata o desejo. 
Roubando um, mil te daria;
O que não posso é jurar
Que não te aborreceria,
E eu quero-te desejar!

O Beijo Mata o Desejo, António Aleixo




Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem tanta vez enquanto vivem,
são eternos como é a natureza. 
Pablo Neruda



Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.


Soneto do Amor Total, Vinícius de Morais




Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada... 
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio... 
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo... 
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós! 

David Mourão-Ferreira, in "Infinito Pessoal"



Dá a surpresa de ser. 
É alta, de um louro escuro. 
Faz bem só pensar em ver 
Seu corpo meio maduro. 

Seus seios altos parecem 
(Se ela tivesse deitada) 
Dois montinhos que amanhecem 
Sem Ter que haver madrugada. 

E a mão do seu braço branco 
Assenta em palmo espalhado 
Sobre a saliência do flanco 
Do seu relevo tapado. 

Apetece como um barco. 
Tem qualquer coisa de gomo. 
Meu Deus, quando é que eu embarco? 
Ó fome, quando é que eu como ? 

Dá a Surpresa de Ser, Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

___



Bye bye Irina Aveiro. Good luck Irina Shayk.

___


E, prontos, é isto.

Agora vou ali ler mais um bocado do Expresso ou ver o episódio de ontem do Borgen e talvez ainda cá volte. Logo vejo. Até já.

...

segunda-feira, junho 09, 2014

Tarde de domingo com escritores dentro. Teolinda Gersão, J. Rentes de Carvalho, Mia Couto, Rita Ferro, Lídia Jorge, Ondjaki, Mário Zambujal e outros. A Feira do Livro de Lisboa a bombar. E uma dúvida: autógrafos - como pedi-los?


No post abaixo já conversei com a Leitora JV na sequência de um interessante comentário que ela escreveu. Dei a esse post o título Viver ou amar. Ler ou fazer amor. Esperar ou procurar

Claro que o 'ou' que usei não deve ser lido de forma exclusiva - mas isso muitas vezes não se escolhe. Por vezes a vida é mesmo avara. No entanto, nada nos impede de reflectir sobre o assunto pois, da reflexão, pode, quem sabe?, surgir uma atitude diferente perante a vida. 
Não sei se sou a pessoa mais indicada para este tipo de reflexões mas isso não me inibe: dou a minha opinião com espontaneidade e sem receio de que alguém possa desdenhar da sua simplicidade porque gosto de pensar que as minhas palavras podem ser de alguma utilidade ou, pelo menos, que sejam um entretenimento razoável enquanto ouvem a música que escolho e vêem as imagens que coloco. 

Mas, enfim, isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.


A palavra a um escritor: Bate-me à porta, em mim




Fui à Feira do Livro.

Durante anos e anos percorri uma e outra e outra vez a Feira do Livro. Primeiro, menina ainda, com os meus pais. Depois com um namorado. Depois com um outro que se tornou marido. Depois com os filhos. Depois de novo apenas com o marido. Hoje com o marido, a filha e já os filhos dela (o meu filho não quis ir, achou que ia ser uma aventura conseguir controlar as quatro crianças. Fez bem pois, mesmo só com dois, já foi o bom e o bonito e, pelo meio, até apanhámos um susto que nos deixou gelados: por uns instantes deixámos de ver o mais pequeno, parecia que o tínhamos perdido; o pavor que senti nem queiram saber; mas afinal estava por perto só que, numa fracção de segundo, mudou de direcção e não estava em nenhum dos lugares onde seria expectável que estivesse; mas foi uma sensação de pânico - que a mim me sugou o interior, nem sei explicar - enquanto não o vimos a brincar, na boa, até perto de nós). 

Bom, mas falava eu da Feira do Livro.

Antes não havia internet, o acesso à informação era mais difícil. Então, eu ia uma primeira vez apenas para percorrer os stands e recolher catálogos; nesse primeiro dia, para além dos catálogos, apenas trazia os livros que fossem livros do dia e nos interessassem. Depois, em casa, fazia listas com os livros que eu e o meu marido queríamos e fazia contas, depois voltava atrás e riscava uns quantos até que a selecção fosse comportável. A seguir, passava a limpo e fazia um roteiro. Quando lá voltava já sabia o que queria comprar em cada stand.

Falei no plural mas quem tem mais a pancada dos livros sou eu pelo que, para ele, tudo aquilo era excessivo.

De facto, o meu marido e os meus filhos acabaram por ficar um bocado traumatizados porque quer a primeira incursão quer a segunda implicavam fazer o percurso completo e, às tantas, já estavam fartos, cheios de calor, cansados. E no segundo dia regressávamos carregados como burros de carga. Por vezes, apetecia-me voltar uma outra vez e era sempre uma luta, não queriam, se iam, iam contrariados.

Ultimamente quase não vou lá. A Fnac, parecendo que não, com os seus descontos para aderentes e com as suas promoções e as feiras de livros que volta e meia se encontram por aí, vieram democratizar a aquisição de livros. E, sobretudo, cada vez mais, para comprar um livro, preciso de o folhear, tomar-lhe o pulso, perceber como flui a escrita. Ora, no meio da balbúrdia que é a Feira, isso não me é possível. Só se lá fosse a um dia de semana à noite mas, durante a semana à noite, apetece-me é estar em casa.

Os locais com muita gente parecem-me incompatíveis com a aquisição de livros, coisas que, cada vez mais, gosto de associar a algum vagar, a algum recolhimento. 

Mas a minha filha queria ir com os miúdos e, claro, não conseguiria arrastar para isso o marido pelo que nos sugeriu uma ida dominical. Depois de tanto a ter sacrificado em miúda, não poderia recusar-lhe isso.

Pelo meio compraram-se bolas de berlim da praia, waffles, e houve gelados e, já ao fim do dia, às sete e tal, uma fatia de pizza, e estivemos na relva a lanchar e depois, com os miúdos no parque infantil, e foi, apesar de tudo, uma bela tarde, uma festa para os rapazinhos que até receberam balões.

E, para descansarmos, abancámos debaixo de um toldo onde se vendia o Mar de Ricardo Henriques com ilustrações de André Letria e onde os miúdos estiveram entretidos a fazer um chapéu de pirata e desenhos e recortes.


Eles estiveram entretidos e nós estivemos à sombra, sentados, sossegados e encantados a vê-los a fazer os seus trabalhos. 

O André Letria tem um jeitão com crianças, conseguiu pô-los a trabalhar com a maior das facilidades.


A minha filha comprou uns quantos livros. Eu não. Ela até estava admirada comigo, habituada que está à minha compulsão. Mas não consegui mesmo. Sempre com medo que algum deles se escapulisse, depois ora não queriam andar de mão dada, ora queriam ir espreitar não sei o quê, e depois gente e mais gente. Impossível.

Por isso, com uma mão a ver se segurava algum deles pela mão ou pela gola e com a outra a ver se dava para tirar alguma fotografia, assim foram as minhas andanças.

Mas o que quero referir aqui é outra coisa. Os escritores. Há (sempre houve) o hábito de haver escritores junto aos stands das respectivas editoras a dar autógrafos. Dantes, quando não havia as grandes megas-editoras, eles estavam em pequenas mesas, por vezes com chapéu de sol, ao lado dos ditos stands. Agora as grandes editoras têm grandes espaços com muitas cadeiras, toldos, palcos, onde se concentram, por vezes, vários escritores.


Vejo-me sempre perante uma dificuldade: geralmente já tenho o livro que lançaram recentemente e outros. Por isso, não me faz muito sentido ir comprar livros repetidos apenas para ter um autógrafo.

Depois, é frequente vê-los a conversarem animadamente uns com os outros. Que jeito dá chegar ali, interromper a conversa? Até parece falta de educação. 

Depois há os que estão desoladamente sozinhos, sem que ninguém ali pare. Dá pena. O Embaixador Seixas da Costa também já falou disto. Vários escritores ali à espera que algum leitor se digne parar, sozinhos durante uma tarde inteira; ou, então, com algum amigo que nitidamente ali está para ajudar a passar por aquela provação. Custa-me tanto ver. Por vezes tenho vontade de me acercar mas temo que pareça que o faço por pena, que se sintam envergonhados. Cobardemente, faço de conta que nem vejo.

O meu marido ontem até perguntava, Porque será que se sujeitam a isto? Se calhar faz parte do contrato que têm com as editoras, admito eu.

Mas depois, para quem supera estas barreiras, há o acto, em si, de pedir o autógrafo. O que dizer?


Mia Couto, um escritor/escultor e um homem muito bonito,
aqui a olhar para a minha filha

Hoje à minha filha aconteceu uma coisa. Ela adora o Mia Couto. Quando o viu, foi a correr comprar o último livro e ali foi para lhe pedir um autógrafo. Ela é uma óptima comunicadora e nunca se inibe quando tem que falar seja com quem for. Pois, para seu próprio espanto, sentiu-se tolhida e apenas pediu que Mia Couto lhe assinasse o livro e, com voz quase sumida, pediu para escrever o nome dela e dos filhos. Mal se afastou, já vinha a morder-se por não ter sido capaz de lhe dizer o quanto gostava da escrita dele. Achou que podia soar a bajulação, não foi capaz.

Comigo aconteceria o mesmo. Uma pessoa chega e, do nada, começa a gabar o autor...? Imagino que ao autor a coisa até soe a postiço, ou a vulgar, ou a despropositado. Não sei. Sei é que eu também não sou capaz.

Por todas estas razões, apesar de lá ter visto autores de que gosto e de quem não me importaria de ter um livro assinado, não fui procurá-los. Limitei-me a fotografá-los. Em vez de ter o seu nome escrito nas páginas dos livros, tenho-os aqui, em pessoa (em pessoa é como quem diz: em imagem). Talvez seja a minha forma de mostrar o meu reconhecimento pelo trabalho que têm e pelo esforço que fazem, estando ali presentes durante longas tardes de calor e exposição pública. Um escritor é para mim um ser especial. Os escritores de verdade, claro.


Teolinda Gersão, alguém que pode muito bem ter sido inventado


José Rentes de Carvalho, feições e escrita esculpidas em pedra


Ondjaki,
um escritor especial, com uma presença amena


Rita Ferro, uma mulher carismática, com uma presença forte
 e Lídia Jorge, uma mulher de feições suaves, cara de boneca de porcelana


O sempre jovem Mário Zambujal em contra-luz e Não-Sei-Quem
(mas que também tinha um belo ar, lá isso tinha) -
só que eu, ora bolas!, queria era ver a Helena Sacadura Cabral ...


Para o ano há mais e talvez eu descubra uma maneira de me organizar e de conseguir comprar livros e obter autógrafos. 

Mas, independentemente disso, é um prazer estar num lugar que é muito belo e onde se podem adquirir livros e ver escritores e, não menos importante, estar num lugar que atrai tanta e tanta gente, tão heterogénea mas tão unida pelo gosto da leitura.


Na Feira do Livro de Lisboa 2014 - parte central do Parque Eduardo VII
(e a Estátua do Marquês de Pombal, a seguir a Avenida da Liberdade com o arvoredo central, depois o Tejo, e ao fundo, a Margem Sul)


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O vídeo lá em cima, da autoria de Cine Povero, é Herberto Helder :: Bate-me à porta, em mim / Dito por Luís Lucas

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Relembro: sobre a vida, sobre ansiedades e dúvidas, sobre amor e sobre os dilemas de como o encontrar ou aproveitar, fala-se a duas vozes no post já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana já a começar por esta segunda-feira.

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segunda-feira, maio 27, 2013

Mia Couto vence o Prémio Camões 2013 - um prémio para a reinvenção da língua portuguesa. A mestiçagem e a poesia da língua de Camões em festa! Grande prémio para o abensonhador de estórias!



Mia Couto, quase a fazer 58 anos, moçambicano, biólogo e escritor
- e giro todos os dias!






Aurorava. O sol dava as cinco. As sombras, neblinubladas, iam espertando na ensonação geral. No topo das árvores, frutificavam os pássaros. Toda madrugada confirma: nada, neste mundo, acontece num súbito. A claridade já muito espontava, como lagarta luzinhenta roendo o miolo da escuridão. As criaturas se vão recortando sob o fundo da inexistência. Neste tempo uterino o mundo uterino. O céu se vai azulando, permeolhável. Abril: sim, deve ser demasiado abril. Agora, que a aurora já entrou neste escrito, entremos nós no assunto.




Toda a estória se quer fingir verdade. Mas a palavra é um fumo, leve de mais para se prender na vigente realidade. Toda a verdade aspira ser estória. Os factos sonham ser palavra, perfumes fugindo do mundo. Se verá neste caso que só na mentira do encantamento a verdade se casa à estória. O que aqui vou relatar se passou em terra sossegada, dessa que recebe mais domingos que dias de semana.




Não sou homem de igreja. Não creio e isso me dá uma tristeza. Porque, afinal, tenho em mim a religiosidade exequível a qualquer crente. Sou religioso sem religião. Sofro, afinal, a doença da poesia: sonho lugares em que nunca estive, acredito só no que não se pode provar. E, mesmo se eu hoje rezasse, não saberia o que pedir a Deus. Ou não se dará o caso de Deus ter perdido fé nos homens? Enfim, meu gosto de visitar as igrejas vem apenas da tranquilidade desses lugarinhos côncavos, cheios de sombras sossegadas. Lá eu sei respirar. Fora fica o mundo e suas desacudidas misérias.




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Os textos foram escolhidos ao acaso e são o início de três 'estórias abensonhadas', a saber 'O poente da bandeira', ' O cachimbo de Felizbento' e 'A velha engolida pela pedra' - um dos muitos livros abensonhados de Mia Couto.

As imagens são pinturas de Miguel Barceló, pintor espanhol que muito tem pintado África.

Referências anteriores no UJM ao novo Prémio Camões podem ser vistas aqui.

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(Ainda cá volto)

domingo, abril 28, 2013

A poesia salva vidas? Na Revista do Expresso desta semana, Mia Couto conta como, a ele, salvou. E uma rara entrevista dele sobre as suas influências familiares e os seus métodos de escrita. (E eu aproveito a boleia e conto como a poesia também 'salvou a vida' a um colega meu, ou melhor, a dois)




Uma vez eu tinha um colega que estava a ser muito atacado pelo que se passava na área pela qual era responsável. Eu ouvia já falar na inevitabilidade de o afastar. Dali só vinham problemas, problemas, e as soluções tardavam. E, no entanto, muito amiga desse meu colega, eu conhecia bem as dificuldades pelas quais ele passava. Com uma equipa de segunda linha muito fraca, gente sem grande perfil para as funções, ele debatia-se: por um lado não queria desculpar-se com eles, não queria correr o risco de se ver confrontado com a necessidade de os afastar, tentava tirar deles o que eles não conseguiam dar, por outro levava tareia todos os dias. 

Uma reorganização mais ampla que retirasse alguns desses elementos para outras funções, talvez até para fora da sua área, seria o ideal mas a lealdade dele para com os subordinados, levava-o a desdobrar-se até ao limite do possível e a esconder a inadaptabilidade deles para a função. De facto, estavam em causa sobretudo dois, sendo que, de cada um desses dois, dependiam muitas pessoas que, estando a ser deficientemente conduzidas, causavam sistemáticos problemas à organização.

Um dia, estando eu em conversa com o presidente da altura, em que ele me dizia que, por muito que lhe custasse, alguma coisa teria que fazer pois não era possível fingir que as coisas estavam a correr bem, quando o não estavam mesmo nada. Alertei-o, então, que seria errado afastar esse meu colega, pois o grande problema não era ele mas sim que que ele estava sozinho à frente daquele grande 'barco'. Dos dois que deveriam ser os seus braços direitos, um estava a pouco tempo de se reformar e já não estava para se ralar; o outro não tinha o mínimo de jeito para chefiar pessoas, perdia-se em raciocínios muito elaborados e teóricos, sem sentido prático.

Esse presidente ficou surpreendido pois o meu colega nunca lhe tinha dado sequer a entender que se debatia com problemas desse género, muito pelo contrário, defendia sempre intransigentemente os seus colaboradores. Estava mesmo admirado, esse presidente, e interrogou-se como, tendo sabido por mim, poderia abordar o assunto sem quebrar a confiança dos outros em mim. Sugeri que não fizesse muita fé nas minhas palavras e que arranjasse maneira de ir ele mesmo avaliar a situação, in loco, vendo com os seus próprios olhos.

Pessoa muito experiente, com uma forte costela política, e com vários cargos em governos anteriores, sabia fazer as coisas como deve ser.

Assim, foi sem surpresa que, na reunião seguinte da equipa de gestão, o vi, com o ar mais natural do mundo, a dirigir-se a esse meu colega e a outros com funções equivalentes, dizendo-lhes que queria reunir com as equipas directas deles para trocarem opiniões sobre a actividade, problemas, projectos, etc. Toda a gente achou natural. Logo ali marcou as reuniões. 

Passados uns dias entrou-me no gabinete, decidido como sempre, dizendo-me. Tem razão. Já lá estive. Fizemos uma reunião com ele e com a primeira linha toda, cada um fez uma apresentação, fiz perguntas. Fiquei a topá-los. Tem razão. Coitado. Como não haverá ele de ser ver aflito, com uma malta daquelas...? Mas já estamos a negociar a saída do mais velho, do que estava para sair. Perguntámos-lhe se queria acelerar a saída com indemnização e ele esfregou as mãos de contente, era mesmo isso que queria. Já está em marcha a admissão de alguém para o lugar dele. Quanto ao outro, que coisa... como é que é possível...? É pá...! Ri-me e perguntei-lhe o que tinha achado dele. Um poeta! respondeu-me.

Daí para a frente, quando se referia a esse, dizia-me sempre, aquele tipo, o poeta.




Claro que de poeta não tinha nada. Era um chato, um maçador que não se aguentava, para cada coisa aparecia com teorias do além e expunha-as como se estivesse a fazer o discurso da vida dele, um palavreado rebuscado completamente a despropósito. 

Foi mudado de funções. Por consideração para com ele, foi-lhe dado um lugar onde aquela maneira de ser improdutiva não fazia mossa. Na verdade, aproveitou esse pousio para escrever um livro sobre história, não me lembro se história do local onde vivia ou de onde tinha nascido. Penso que nunca foi tão feliz na sua vida profissional como naquela altura em que ninguém o maçava, nem ele maçava ninguém. Entretanto, já se reformou (e é pai de uma combativa deputada da nossa praça, da qual tem razões para se orgulhar).

E o meu colega e amigo viu reforçada a sua equipa e pôde, finalmente, mostrar resultados e viver mais tranquilamente.

Salvou-os a 'poesia'.


Mas vem isto a propósito de quê? Vem a propósito da ideia, por vezes pouco apreciativa, como as pessoas se referem aos poetas. Eu própria, quando estou na minha vertente profissional, quando ouço argumentos pouco sólidos, elaborados mas pouco pragmáticos, é vulgar sair-me qualquer coisa como 'Vamos a coisas concretas, deixemo-nos de poesias'. Por dentro fico a rir-me (ouvindo-me, quem ali diria que sou apaixonada por poesia?)




Ocorreu-me escrever isto depois de ler a entrevista de Mia Couto ao Expresso, publicada na Revista deste sábado dedicada a Moçambique.

(Já agora, deixem-me que vos diga que gosto muito dos moçambicanos. Na faculdade havia muitos estudantes de Moçambique, negros retintos, alguns com um físico espectacular, todos simpatiquíssimos. Habia um que tinha um xodó por mim e que, vá lá saber porquê, tinha sempre iogurtes para me oferecer. Nunca os aceitei embora ficasse com pena por não saber retribuir a simpatia dele. Devia achar que oferecer-me um iogurte era um gesto especial. 

Eu usava o cabelo comprido e o meu cabelo é forte, espesso, caía pesado e, ao cair, era levemente ondulado. Ele gostava muito do meu cabelo. Às vezes sentava-se ao pé de mim e ficava, calado, a olhar para mim e, em especial, para o meu cabelo. Um dia resolvi cortá-lo. Quando me viu assim, teve um sobressalto e ficou numa desolação que só vista. Nem queria acreditar que eu o tivesse feito, triste, triste.  Porquê? Porquê? Não lhe expliquei que tinha mudado de namorado e que o meu novo namorado preferia ver-me assim, talvez por ter sabido que o anterior gostava muito dos meus cabelos compridos.

Depois, quando dei aulas, tive um aluno moçambicano, alto, magro, sempre sorridente, muito bonito. Inteligentíssimo. Dei-lhe notas muito altas. Nunca mostrou vaidade, apenas um orgulho muito digno.)




Mas divergi. Estava a falar de poesia.

Volto a Mia Couto e transcrevo:




E foram tantos os momentos de aventura nos tempos de oposição.

Como aquele em que se ofereceu para ser membro da Frelimo, e foi aceite numa cerimónia secreta. 

"Fui para uma casa à noite, nem pude ver qual era o caminho para não saber onde ficava. Quando cheguei lá, os candidatos tinham que contar uma história que era a 'narração do sofrimento'. Cada um tinha de mostrar quanto sofreu para merecer a honra de estar ali. E todos tinham razões profundas, e eu, que fui o último a falar, não tinha nada. Era um privilegiado, uma pessoa feliz. estava aflito, comecei a pensar 'tenho de inventar um sofrimento instantâneo'. Mas quando me pus em frente da assembleia, o fulano reconheceu-me e perguntou 'você é aquele que publica aqueles poemas no jornal! Ah, você é poeta! Precisamos de vocês!' E não tive de contar história nenhuma. A poesia afinal tinha algum serviço. A mim salvou-me!"



Vida, amor, poesia - Pablo Neruda
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Poema da Despedida (muito bem) dito por Elisabete Luís





Transcrito do YouTube: 
Entrevista rara com um dos escritores contemporâneos mais notáveis da actualidade.
Mia Couto partilha com o jornalista António Mateus uma viagem ao interior do imaginário e a intimidade familiar de quem redesenha o escrever do sentir em português.
(Um trabalho assinado em Joanesburgo em 2003)



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Caso queiram continuar comigo e, sobretudo, com poesia, convido-vos a virem até ao meu Ginjal e Lisboa onde hoje há poesia dita e cantada. Eugénio diz o seu Sorriso, Natália diz o Romance da Paloma e Filipa Pais canta Em todas as ruas te encontro de Mário Cesariny. Dia grande por lá.

E, no post a seguir a este, poderão, ainda, ler a minha opinião sobre os desaguisados entre Paulo Portas e Vítor Gaspar e o seu adjunto, Passos Coelho. Estará para breve o fim deste pesadelo? A seguir.

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E por hoje fico-me por aqui. Tenham, meus Caros Leitores um belo domingo.
Be happy! Enjoy! Smile!