Gerou celeuma na caixa de comentários eu ter dito que, do que tinha visto das (creio que) duas vezes em que fui à Festa do Avante, me tinha parecido sobretudo um encontro de campistas e excursionistas. Mas é, na realidade, a ideia com que fiquei: excursionistas e campistas todos cumprimentando-se por não se verem desde o ano anterior, todos numa de camaradas para aqui, camaradas para acolá.
Tão assim que até a mim, quando me apanharam a jeito, me trataram por camarada. Juro. E por tu. Tudo na maior intimidade. Contei isso, algures por aqui. A mim que me faz imensa impressão que pessoas que não conheço de lado nenhum me tratem por tu, imagine-se, 'Camarada, queres fria ou natural? Ok, toma lá. Tens trocado?'. Isto quando fui comprar uma garrafa de água ou coisa do género. Aquilo ali é como se fosse tudo deles. Não descansei enquanto não me raspei de lá, claro.
Coisa a atirar para o quase deprimente, desfasada da realidade, uma coisa muito na base do público do 'domingão', pela faixa etária dominante tudo mais na base do encontro de reformados e, quase todos, seguindo um dress code muito peculiar, um temático demasiado vintage, quase cómico.
Pois bem, diz Rui Bebiano (historiador, professor de história contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais. Atual diretor do Centro de Documentação 25 de Abril) no seu post Quatro tópicos sobre a Festa do Avante!:
A Festa é em larga medida a romaria, o farnel, o convívio, o namoro, a música, as exposições, e só depois outra coisa.
Isso. Exposições tenho ideia que vi uma razoável mas mal apresentada. De resto, feira de artesanato do mais banal que há. A parte política nunca frequentei, já seria demais para a minha capacidade de encaixe.
Em conversa posterior com outra pessoa e lembrando-me das pessoas que lá vi
-- umas de boina à Che, outras de echarpe aos quadradinhos pretos e brancos à OLP, quase todas ataviadas com adereços evocando um tempo passado em que ainda havia quem acreditasse que por onde o comunismo se instalou não tinha havido ditaduras, restrições à liberdade (de expressão e físicas) já para não falar em assassinatos à descarada e, tantas vezes, em larga escala --
ocorreu-me que, no fundo, era uma coisa folclórica muito parecida com aqueles encontros que há nos Estados Unidos entre os amantes do Elvis. Uns acreditam que ele está vivo, outros acham que foi do melhor que houve, quase todos também se arranjam evocando os adereços típicos do Elvis. No fundo é a mesma coisa.
Com a excepção de aqui, na Festa!, é mais grave, aqui não é coisa de brincadeirinha, aqui apoiam mesmo regimes de fugir, daqueles que faz favor.
De novo a palavra a Rui Bebiano no mesmo post:
(...) de acordo com a suas fidelidades políticas, o partido acolhe na festa representantes de regimes censórios, repressivos e de partido único, como tem acontecido, de uma forma particularmente questionável pelos da Coreia do Norte, da China ou mesmo de Cuba, entre outros. (,,,)
E já nem falo sobre a hipócrita posição do PCP sobre os miseráveis e inaceitáveis crimes de guerra de Putin contra a Ucrânia. Passo antes, de novo, a palavra ao Prof. Rui Bebiano.
Este ano a Festa tem a pairar sobre si os fantasmas levantados pela guerra de invasão da Ucrânia pela Rússia. O mote escolhido «Pela Paz! Contra o imperialismo, o fascismo e a guerra!» sublinha a posição oficial do PCP, que contra o imperialismo norte-americano exclui do seu universo de crítica o russo e o chinês, que adere à narrativa de Putin sobre o governo «nazi» de Kiev, que culpabiliza pela situação apenas o chamado Ocidente e que chega ao ponto de considerar a Ucrânia o país agressor. Uma posição muito pouco justa e racional, que não pode ser ignorada.
Enfim. Adiante. É o que é. Há gostos para tudo. Também não há aqueles encontros das Testemunhas de Jeová? Também não se acham todos uns iluminados? Que com eles é que o mundo era melhor? E vá lá a gente tentar convencê-los que nada do que dizem faz sentido... É o tipo de crenças que vira do avesso a cabeça de algumas pessoas. Parece mentira mas é verdade.
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A propósito de Rui Bebiano, cujos textos me parecem sempre de meridiana clareza, permito-me ainda transcrever parte de um outro que também me pareceu interessante e cuja leitura integral recomendo:
(...) Já o prosélito tende a persuadir o conformista. O proselitismo representa uma forma de conversão de pessoas ou grupos, entendido por quem a pratica como uma incessante missão, destinada a obter um apoio integral a determinada causa, doutrina, ideologia ou religião. O seu objetivo supremo é gerar outros prosélitos, pessoas convertidas à sua orientação, que depois continuam junto de outros a missão de convencimento. Encontramos sobretudo duas grandes formas de proselitismo, a religiosa e a política, que recorrem a técnicas de persuasão antiéticas e muito agressivas, não hesitando com frequência em mentir, deturpar ou caluniar, denegrindo outras ideias e convicções, para de forma mais rápida e eficaz, através da catequização e da total ausência de um verdadeiro diálogo, alcançarem os efeitos que procuram.
O prosélito é socialmente nocivo e perigoso, uma vez que se aproxima do fanatismo e do pensamento único, contrariando as ideias ou escolhas que, por pouco que seja, desmintam o seu programa e as suas certezas. Deste modo, é com frequência um promotor ou um defensor de ditaduras e regimes autoritários, sejam os do passado ou os do presente, e um inimigo dissimulado ou declarado das formas de democracia, se bem que frequentes vezes declare falar em nome desta. Desenvolve a sua missão em nome de ideais sedutores que podem parecer positivos aos olhos do cidadão comum, como os de fé, de salvação, de igualdade, de solidariedade, de justiça, de resistência, de povo, de pátria, de nação, de paz, de progresso, de ordem ou de liberdade, mas que na sua boca acabam sempre adulterados ou diminuídos.

Através da história, encontramos casos de proselitismo sobretudo entre adeptos fanáticos e irredutíveis de certas religiões, ideologias ou causas, ou de determinados partidos e movimentos políticos, em particular entre aqueles que recusam dialogar com todos os que escapam ao seu círculo de influência e aos seus critérios de verdade, rejeitando desde logo os que, por um dia terem dialogado com as suas convicções e delas terem divergido como apóstatas, mais perigosos se tornam para as suas certezas e objetivos táticos. Contra eles estão até dispostos a usar a maior violência, seja esta verbal ou, se as condições o permitirem, mesmo física. (...)
in Conformismo, proselitismo e inconformismo
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E para que não se pense que desvalorizo o Elvis, o original, aqui o afirmo a pés juntos: não desvalorizo, não senhor. Um rei. Ainda por cima um rei com sentido de humor.
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E, sim, volto a dizer (para que não voltem a lembrar-mo), não me esqueço nem nego o valor do PCP na luta contra o fascismo antes do 25 de Abril. Não é isso que está em causa. Há umas décadas atrás o PCP fez sentido (actuando muitas vezes de forma questionável, com aquilo dos controleiros e etc., já carregados de ortodoxias, já não querendo ver que a utopia que defendiam tinha pés de barro e mãos sujas de sangue -- mas, enfim, adiante).
Também considero que o País precisa de partidos de esquerda, mais à esquerda do que o PS. Mas falo de uma esquerda moderna, aberta aos desafios do tempo presente, sabendo interpretar o futuro. Não é o caso do PCP que, tal como hoje é, não faz falta nenhuma ao País.
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Nota: Claro que no espaço de Rui Bebiano, A Terceira Noite, não há cá gifs ou macacadas: as imagens que aqui aparecem são, como é bom de ver, escolha minha. As suas palavras são as que neste post aparecem em itálico. E, claro, fui eu que resolvi destacar duas das palavras, não ele.
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Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Paz
(Paz da verdadeira, não da rendição aos imperialistas e aos criminosos, claro)