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quinta-feira, março 13, 2025

Fui ao ginásio e dei no duro, fui a uma bela Biblioteca, vi uma exposição de pintura, passeei à beira mar, fotografei garças e barcos, apanhei chuva, apeteceu-me lanchar mas contive-me, cheguei a casa já tarde mas ainda fui fazer sopa.
E agora vou imaginar que sou eu que estou aqui a dançar o tango e, para que não pensem que me esqueci do tema do momento, transcrevo um texto imperdível de Rui Bebiano no seu magnífico 'A Terceira Noite'

 

E, antes disso, ainda acrescento que já peso menos dois quilos e picos, ou seja, já estou na média para a minha idade e altura, mas que a balança inteligente e sobredotada (comunica-me os resultados por telemóvel, faz gráficos e diz-me em que ponto da escala me situo em relação a cada indicador) diz que ainda tenho alguma gordura corporal a mais. Não é muito, creio que uns 4 ou 5% a mais (tenho o telemóvel a carregar noutro sítio, não me apetece levantar-me para ir ver o valor certo), mas não quero. Só que ver-me livre dela não está a ser pêra doce. O ChatGPT diz que tenho que fazer mais exercício ou consumir menos calorias. La Palice não diria melhor. Só que é uma dor de alma não poder comer o queijinho pelo qual me pelo, tenho que me limitar a um esquálido quadradinho de chocolate preto sem pingo de açúcar. E a fruta, que eu se fosse eu comeria às carradas, agora está mesmo limitada a 3 míseras peças por dia. 

E o pior é que sei que, mesmo quando estiver no ponto, para assim me manter, terei que me manter assim, à míngua. Ora eu sou tudo menos vocacionada para me forçar a provações.

Enfim.

Bora mas é tangar.

No es por ti - Grupo Corpo (Lecuona)


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E agora é mal empregado colocar aqui um texto tão objectivo, tão exacto, como o que vou tomar a liberdade de transcrever na íntegra. Mas as coisas são o que são. O autor é Rui Bebiano, de que já antes aqui fiz referência, e escreve no blog A Terceira Noite que eu sigo religiosamente.

12 de Março de 2025

De forma simplificada, são dois os motivos principais que levaram à rejeição da moção de confiança e à próxima saída de Luís Montenegro do cargo de primeiro-ministro. O primeiro, mais invocado, tem a ver com práticas profissionais que colidem com o dever de exclusividade de quem detém cargos de responsabilidade no governo, por motivos acrescidos quem dele seja a figura principal. O segundo motivo, menos mencionado apesar de também importantíssimo, prende-se com o facto de a empresa envolvida, a Spinumviva, ser apenas familiar, não tendo sequer sede própria e corpos gerentes, dedicando-se basicamente ao tráfico de influências realizado sob a capa de «aconselhamento» em negócios privados.

Nada disto deveria ter acontecido, e, a ser revelado como foi, deveria ter conduzido de imediato à apresentação da demissão do cargo que LM ocupa. Todavia, não só tal não foi feito, como depois da triste novela pública vivida ao longo destes dias, o mesmo LM declarou pretender apresentar-se de novo a eleições e afirmou nada ter feito que «qualquer português não fizesse». Se assim acontecer, o PSD irá arrastar o país para uma situação de impunidade legal e ética premiada. Sabemos que em países como os Estados Unidos da América de Trump isto está a tornar-se trivial, mas, caramba, nós ainda vivemos no democrático país de Abril. Por isso de modo algum pode acontecer.

Nem mais. É isso mesmo. 

quarta-feira, março 06, 2024

A minha escolha no dia 10 + Declaração de voto

 

Como gosto de me pôr à prova e tenho dificuldade em virar costas a um quizz ou a testes que me digam o que eu penso, experimentei as dating apps que os jornais disponibilizaram para podermos validar quais os partidos ou os líderes com que mais nos identificamos.

Muito consistentemente deu-me o que me costuma dar: em primeiro lugar o PS, em segundo o Livre. Cá bem em baixo, aqueles com que não tenho nada a ver como o Chega ou o PCP. Bate certo.

Dito isto, considero que a campanha do PS parece que ainda não percebeu que, para ganhar, tem que ir buscar votos a quem está a pensar votar na AD ou a quem, estando hesitante, não está muito convencido a votar no PS. Ou seja, tem que perceber as dúvidas ou os anseios da classe média que não se revê em políticas muito encostadas à esquerda. Como escrevi aqui no outro dia, o PS não tem que falar para quem gosta do PCP ou do Bloco pois esses vão votar no PCP ou no Bloco. Não é com esses que o PS tem que se preocupar. Tem que se preocupar com aqueles que, nas últimas legislativas, votaram no PS (com António Costa) e que agora estão preocupadas com receio que o Pedro Nuno Santos dê ouvidos ao Bloco e ao PCP, nomeadamente, com aqueles para quem a conversa da AD de redução de impostos é música para os seus ouvidos.

Apesar de eu compreender as dúvidas desses hesitantes ou de preferir e um PS mais social-democrata e mais virado para a frente, mais aberto às grandes questões do mundo, e, em contrapartida, menos agarrado às reivindicações corporativistas de várias classes profissionais, considero que, face às reais alternativas, o PS é a melhor aposta, a mais segura, a que me dá mais confiança, a mim e ao País. Apesar de votar onde poderia eleger deputados do Livre, não quero arriscar. O meu voto é consciente e é útil.

Jamais daria o meu voto a quem pode colocar em risco a democracia, a liberdade, os avanços sociais que já foram conseguidas, a aventureiros, a populistas, a gente desqualificada ou traiçoeira.

E agora, esperando que não levem a mal, vou importar para aqui as declarações de voto de duas pessoas cuja opinião prezo.

Da declaração de voto do Rui Bebiano (A minha escolha no dia 10):

O meu voto sempre esteve, no momento da decisão, associado à pluralidade da representação da esquerda e à escolha de políticas baseadas nos valores que esta fundamentalmente partilha. A saber, para mim e para tantas outras pessoas: a defesa da democracia e da liberdade, a promoção da justiça social e de um desenvolvimento material harmonioso, a propagação do bem-estar, da saúde e da educação, o progresso da cultura, a defesa dos direitos humanos e do relacionamento pacífico entre povos. Sempre ancorados no papel imprescindível, ainda que infinitamente em construção e aperfeiçoamento, do Estado-Providência. É este, na essência, o sentido da minha escolha no momento de votar. E é também esta a razão pela qual, com o gesto, procuro contribuir para afastar a direita, a extrema e a dita «moderada», que são o contrário de tudo isso.

Direto agora ao assunto apontado no título. O partido cujo programa, apesar de algumas pequenas discordâncias, está mais próximo das minhas convicções – a defesa integrada de universalismo, liberdade, igualdade, solidariedade, socialismo, ecologia e europeísmo – é o Livre. Todavia, sei que, no presente contexto e com a atual lei eleitoral, em muitos distritos levará a votos perdidos; assim, se votasse em Lisboa, Porto, Braga ou Setúbal, onde pode eleger, votaria no Livre, mas não sendo o caso, votarei sem hesitar no Partido Socialista. Este é o partido de esquerda mais forte e aglutinador, que pode impedir o regresso da direita e tem condições para governar. Mesmo discordando de algumas das suas escolhas e personalidades, creio ser a solução possível, de preferência em convergência à esquerda. Tendo simpatia por escolhas e por pessoas do Bloco de Esquerda, que por muitos anos apoiei, reconhecendo o seu importante papel, temo o seu desequilibrado sentido institucional, bem como algumas das suas prioridades no combate político, mas representará sempre uma opção progressista e combativa.

Nas últimas eleições sugeri o voto em qualquer dos partidos da esquerda, mas reduzo agora o leque, pois dois deles perderam a escassa confiança que neles ainda tinha. Um é PAN, sem coerência para além das suas causas pontuais, pactuando com diferentes campos sem uma orientação clara, desde que da escolha resulte a participação num quinhão de poder. Outro é o PCP – o PEV é, de facto, um partido sem vida própria – que, apesar da sua respeitável história e das muitas pessoas honradas que sem dúvida inclui, continua a revelar-se defensor de ditaduras, como as da China, da Coreia do Norte ou de Cuba, e de regimes autoritários, como o da Venezuela, o da Síria e o da Rússia neoimperialista. Ao mesmo tempo, tem pactuado com a invasão da Ucrânia, em nome de uma «paz podre», tem sido sempre anti-União Europeia, e, além de conservador no plano dos costumes, tem-se batido contra causas justas e urgentes, como a defesa da morte assistida ou o fim das touradas. Quem considere isto irrelevante, que me ignore.

A minha escolha é esta e a ela não voltarei até ao dia das eleições.


Da declaração de voto do Valupi:

(...) O meu voto no PS é paradoxal. Considero que esse partido suporta isolado a coesão da comunidade, ligando as carências de pobres, remediados e ricos em políticas que não ambicionam a revolução nem a perfeição. A história do PS como partido de poder confunde-se com a história da democracia como regime da inclusão e do desenvolvimento pragmático, realista, consequente. E estes predicados são os mesmos que me levam a considerar o PS como o principal responsável pela perigosíssima, e já trágica, disfunção dos órgãos de Justiça, Ministério Público como corporação e certos juízes incluídos.

No PS não existem respostas para essa crise do poder judicial tomado pelo justicialismo e cometendo crimes sistemáticos. Não existe sequer um discurso que permita ter esperança a respeito. Restam as pessoas a dar o seu melhor, confusas e assustadas com os poderes fácticos em acção. Sendo demasiado pouco, é nesta circunstância infinitamente melhor do que nada.

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Um dia bom

Saúde. Pés na terra. Paz.

domingo, setembro 04, 2022

O que diz Rui Bebiano

 

Gerou celeuma na caixa de comentários eu ter dito que, do que tinha visto das (creio que) duas vezes em que fui à Festa do Avante, me tinha parecido sobretudo um encontro de campistas e excursionistas. Mas é, na realidade, a ideia com que fiquei: excursionistas e campistas todos cumprimentando-se por não se verem desde o ano anterior, todos numa de camaradas para aqui, camaradas para acolá. 

Tão assim que até a mim, quando me apanharam a jeito, me trataram por camarada. Juro. E por tu. Tudo na maior intimidade. Contei isso, algures por aqui. A mim que me faz imensa impressão que pessoas que não conheço de lado nenhum me tratem por tu, imagine-se, 'Camarada, queres fria ou natural? Ok, toma lá. Tens trocado?'. Isto quando fui comprar uma garrafa de água ou coisa do género. Aquilo ali é como se fosse tudo deles. Não descansei enquanto não me raspei de lá, claro. 

Coisa a atirar para o quase deprimente, desfasada da realidade, uma coisa muito na base do público do 'domingão', pela faixa etária dominante tudo mais na base do encontro de reformados e, quase todos, seguindo um dress code muito peculiar, um temático demasiado vintage, quase cómico. 

Pois bem, diz Rui Bebiano (historiador, professor de história contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais. Atual diretor do Centro de Documentação 25 de Abril) no seu post Quatro tópicos sobre a Festa do Avante!:

A Festa é em larga medida a romaria, o farnel, o convívio, o namoro, a música, as exposições, e só depois outra coisa.

Isso. Exposições tenho ideia que vi uma razoável mas mal apresentada. De resto, feira de artesanato do mais banal que há. A parte política nunca frequentei, já seria demais para a minha capacidade de encaixe.

Em conversa posterior com outra pessoa e lembrando-me das pessoas que lá vi 

-- umas de boina à Che, outras de echarpe aos quadradinhos pretos e brancos à OLP, quase todas ataviadas com adereços evocando um tempo passado em que ainda havia quem acreditasse que por onde o comunismo se instalou não tinha havido ditaduras, restrições à liberdade (de expressão e físicas) já para não falar em assassinatos à descarada e, tantas vezes, em larga escala -- 

ocorreu-me que, no fundo, era uma coisa folclórica muito parecida com aqueles encontros que há nos Estados Unidos entre os amantes do Elvis. Uns acreditam que ele está vivo, outros acham que foi do melhor que houve, quase todos também se arranjam evocando os adereços típicos do Elvis. No fundo é a mesma coisa. 

Com a excepção de aqui, na Festa!, é mais grave, aqui não é coisa de brincadeirinha, aqui apoiam mesmo regimes de fugir, daqueles que faz favor.


De novo a palavra a Rui Bebiano no mesmo post:

(...) de acordo com a suas fidelidades políticas, o partido acolhe na festa representantes de regimes censórios, repressivos e de partido único, como tem acontecido, de uma forma particularmente questionável pelos da Coreia do Norte, da China ou mesmo de Cuba, entre outros. (,,,)

E já nem falo sobre a hipócrita posição do PCP sobre os miseráveis e inaceitáveis crimes de guerra de  Putin contra a Ucrânia. Passo antes, de novo, a palavra ao Prof. Rui Bebiano.

Este ano a Festa tem a pairar sobre si os fantasmas levantados pela guerra de invasão da Ucrânia pela Rússia. O mote escolhido «Pela Paz! Contra o imperialismo, o fascismo e a guerra!» sublinha a posição oficial do PCP, que contra o imperialismo norte-americano exclui do seu universo de crítica o russo e o chinês, que adere à narrativa de Putin sobre o governo «nazi» de Kiev, que culpabiliza pela situação apenas o chamado Ocidente e que chega ao ponto de considerar a Ucrânia o país agressor. Uma posição muito pouco justa e racional, que não pode ser ignorada.

Enfim. Adiante. É o que é. Há gostos para tudo. Também não há aqueles encontros das Testemunhas de Jeová? Também não se acham todos uns iluminados? Que com eles é que o mundo era melhor? E vá lá a gente tentar convencê-los que nada do que dizem faz sentido... É o tipo de crenças que vira do avesso a cabeça de algumas pessoas. Parece mentira mas é verdade.

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A propósito de Rui Bebiano, cujos textos me parecem sempre de meridiana clareza, permito-me ainda transcrever parte de um outro que também me pareceu interessante e cuja leitura integral recomendo:

(...) Já o prosélito tende a persuadir o conformista. O proselitismo representa uma forma de conversão de pessoas ou grupos, entendido por quem a pratica como uma incessante missão, destinada a obter um apoio integral a determinada causa, doutrina, ideologia ou religião. O seu objetivo supremo é gerar outros prosélitos, pessoas convertidas à sua orientação, que depois continuam junto de outros a missão de convencimento. Encontramos sobretudo duas grandes formas de proselitismo, a religiosa e a política, que recorrem a técnicas de persuasão antiéticas e muito agressivas, não hesitando com frequência em mentir, deturpar ou caluniar, denegrindo outras ideias e convicções, para de forma mais rápida e eficaz, através da catequização e da total ausência de um verdadeiro diálogo, alcançarem os efeitos que procuram.

O prosélito é socialmente nocivo e perigoso, uma vez que se aproxima do fanatismo e do pensamento único, contrariando as ideias ou escolhas que, por pouco que seja, desmintam o seu programa e as suas certezas. Deste modo, é com frequência um promotor ou um defensor de ditaduras e regimes autoritários, sejam os do passado ou os do presente, e um inimigo dissimulado ou declarado das formas de democracia, se bem que frequentes vezes declare falar em nome desta. Desenvolve a sua missão em nome de ideais sedutores que podem parecer positivos aos olhos do cidadão comum, como os de fé, de salvação, de igualdade, de solidariedade, de justiça, de resistência, de povo, de pátria, de nação, de paz, de progresso, de ordem ou de liberdade, mas que na sua boca acabam sempre adulterados ou diminuídos.

Através da história, encontramos casos de proselitismo sobretudo entre adeptos fanáticos e irredutíveis de certas religiões, ideologias ou causas, ou de determinados partidos e movimentos políticos, em particular entre aqueles que recusam dialogar com todos os que escapam ao seu círculo de influência e aos seus critérios de verdade, rejeitando desde logo os que, por um dia terem dialogado com as suas convicções e delas terem divergido como apóstatas, mais perigosos se tornam para as suas certezas e objetivos táticos. Contra eles estão até dispostos a usar a maior violência, seja esta verbal ou, se as condições o permitirem, mesmo física. (...)

in Conformismo, proselitismo e inconformismo

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E para que não se pense que desvalorizo o Elvis, o original, aqui o afirmo a pés juntos: não desvalorizo, não senhor. Um rei. Ainda por cima um rei com sentido de humor.


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E, sim, volto a dizer (para que não voltem a lembrar-mo), não me esqueço nem nego o valor do PCP na luta contra o fascismo antes do 25 de Abril. Não é isso que está em causa. Há umas décadas atrás o PCP fez sentido (actuando muitas vezes de forma questionável, com aquilo dos controleiros e etc., já carregados de ortodoxias, já não querendo ver que a utopia que defendiam tinha pés de barro e mãos sujas de sangue -- mas, enfim, adiante).

Também considero que o País precisa de partidos de esquerda, mais à esquerda do que o PS. Mas falo de uma esquerda moderna, aberta aos desafios do tempo presente, sabendo interpretar o futuro. Não é o caso do PCP que, tal como hoje é, não faz falta nenhuma ao País.

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Nota: Claro que no espaço de Rui Bebiano, A Terceira Noite, não há cá gifs ou macacadas: as imagens que aqui aparecem são, como é bom de ver, escolha minha. As suas palavras são as que neste post aparecem em itálico. E, claro, fui eu que resolvi destacar duas das palavras, não ele. 

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Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Paz
 (Paz da verdadeira, não da rendição aos imperialistas e aos criminosos, claro)

quarta-feira, abril 06, 2022

Tenho muita, muita, infinita pena que os ucranianos tenham que pagar com tanta dor, sangue e lágrimas, tantos com a própria vida, para que consigamos ver com clareza o que antes parece que não víamos

 


Tantas vezes aqui em casa me insurjo: caraças, será mesmo possível que não haja uma força internacional, isenta, que possa ir para o terreno impedir esta guerra, esta barbárie, travar os assassinos, abater aviões ou navios que estejam a disparar mísseis ou bombas sobre cidades e populações? Não há mesmo maneira de travar a insanidade criminosa de uns quantos, talvez até, sobretudo, de um único homem?
 

O meu marido é mais legalista, invoca os princípios e regulamentos, explica que uma coisa é ser uma força de paz, que existe justamente para defender uma situação de paz e outra, muito diferente, é ser parte de uma guerra. 

Até pode ser essa a razão -- mas não concordo. A Ucrânia estava em paz antes de ser invadida. Por isso, acho que faria todo o sentido que um país que é militarmente invadido por um outro país seja ajudado a defender a paz a que tem direito.

A mortandade, a sanha destruidora, a loucura encarniçada que as tropas russas têm demonstrado desde o primeiro momento em que iniciaram uma guerra injustificável e inqualificável tem que poder ser travada.

Se não vai lá com sanções, se não vai com tentativas de negociação, então que as estradas, as ruas e as praças da Ucrânia sejam ocupadas por capacetes azuis prontos para defender a paz da Ucrânia.

E, mais uma vez o digo, parece-me essencial que o Papa Francisco passe uns dias na Ucrânia, em especial nas zonas mais críticas e mais atacadas. E era bom que mais líderes religiosos se lhe juntassem.

Tal como primeiros-ministros de três outros países, a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, e, parece que dentro de dias, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deixam bem claro o apoio à Ucrânia, é ainda mais relevante do ponto de vista da opinião pública que os principais líderes religiosos mostrem ao mundo e à Rússia em especial, um total repúdio perante os bárbaros, atrozes crimes de guerra de Putin. 

Sei que a ida do Papa à Ucrânia está, finalmente, em cima da mesa. Mas devia ir já e demorar-se o tempo suficiente para que Putin seja forçado a fazer uma pausa. E uma pausa, em situação de guerra, é relevante a todos os níveis.

Bem sei que ainda há quem encontre explicações para que um regime criminoso invada um país e o destrua e massacre e tente exterminar o seu povo e bem sei que há quem invoque interesses geo-estratégicos para não condenar inequivocamente o brutal crime em massa que está em curso. Contudo, perante o que está a passar-se, não há explicações nem atenuantes possíveis. O que está a acontecer é imperdoável, injustificável, inaceitável.

Neste caso não tem muito que saber. Há uma linha vermelha, desenhada a sangue, e de um lado está Putin e os que o apoiam ou desculpam e do outro os que não aceitam a guerra, a violação de fronteiras, os massacres, a bárbara destruição.

Como chegámos aqui, como permitimos que isto esteja a acontecer, como não percebemos o que estava por vir (apesar de todas as evidências), como não arranjámos mecanismos para nos protegermos destes crimes de guerra, destes insanos delírios imperialistas, como -- perante crimes tão atrozes -- ainda há quem não os condene sem adversativas ou meias palavras, é um mistério para mim. 

Que, ao menos para nos fazer abrir os olhos e nos fazer as escolhas certas, sirva o sacrifício dos infelizes ucranianos.

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A Ukranian grandmother trapped at home as her quiet street became a war zone

Valentyna Omelchuk spent a month hiding out in her basement in Makariv, Ukraine, west of Kyiv, as shells landed in her yard and bullets shattered her windows. She is still trying to get in touch with her daughter and grandchildren in Kyiv

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Surviving Russian atrocities in a destroyed Ukrainian village

Russian troops withdrew from the village of Andriivka, west of Kyiv, after a month of waging war and terrorizing residents, leaving a trail of dead civilians and spent munitions in their wake. Similar scenes are being discovered across Ukraine, as experts gather evidence of possible Russian war crimes.
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Russia wants to turn Ukrainians into 'silent slaves', Zelenskiy tells UN
Volodymyr Zelenskiy has urged the UN to act and reform its system which gives Russia, a permanent member of the security council, a veto, saying everything must be done to ensure the international body works effectively.

In a passionate address on Tuesday, the Ukrainian president questioned the value of the 15-member security council, which has been unable to take any action over Russia's invasion of Ukraine because of Moscow's veto power

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Tanya Nedashkivska reacts as she recounts how her husband Vasyl Ivanovych, who served in the navy, was killed by Russian soldiers, as she stands near their residential building, amid Russia's invasion on Ukraine, in Bucha, Ukraine April 3, 2022. Vasyl was arrested by Russian soldiers. Tanya looked for him for days and found him in a building's basement where two bodies were lying, she recognized him by his sneakers, his trousers. "He looked mutilated, his body was cold. They turned him over a little. He had been shot in the head, mutilated, tortured" Tanya said. REUTERS/Zohra Bensemra
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As imagens (bem como a legenda da fotografia acima) podem ser originalmente vistas no artigo: 

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E, sobre as linhas vermelhas, permito-me transcrever na íntegra um texto que muito vivamente recomendo: trata-se do que Rui Bebiano publicou no seu blog A Terceira Noite (o que está a bold é de minha responsabilidade):

Desde 1968, o ano em que, com Paris e Praga, despertei para a necessidade de ter uma opinião política própria e de a exprimir, habituei-me – mesmo naqueles anos, entre 1971 e 1976, em que fui bastante inflexível – a tomar o lado esquerdo do futuro e da vida coletiva como necessariamente plural. Capaz de conter, a par de uma vontade transversal e profunda de justiça social e de fraternidade, uma grande diversidade nas formas de as conceber, de as conquistar e de as defender. Estas diferenças notam-se sobretudo quando olhamos os programas, as linguagens, as formas de organização e a base social, mas de uma forma muito particular quando se confrontam os valores da liberdade, da equidade e dos direitos humanos.  
Foi nestes domínios que cedo fui deparando com homens e mulheres para quem estes três fatores são, de facto, de uma importância relativa, sobretudo se o caminho que vislumbram para alcançar e conservar o poder político, o seu ou o dos seus aliados, requerer a sua relativização e a sua passagem para segundo ou terceiro plano, quando não a sua omissão. São pessoas que mantêm palavras sobre justiça, igualdade, paz, liberdade e democracia na ponta da língua, mas que as assumem, verdadeiramente, apenas dentro do seu próprio quadro de explicações e interesses, jamais como valores absolutos e inegociáveis, associados a uma humanidade plena e ao convívio na diferença das escolhas e opiniões. Consideram tais valores, na realidade, como luxos dispensáveis, e nos momentos críticos isso torna-se evidente.

É neste quadro que se torna possível compreender que não questionem os dois maiores sistemas concentracionários e tirânicos do século XX, a União Soviética de Estaline e a China de Mao, apenas contestando aquele outro, o da Alemanha de Hitler, que em número de vítimas – mortos, presos, torturados, deslocados, empurrados para campos de trabalho ou extermínio – de facto se encontra em terceiro lugar na negra contabilidade. Têm também defendido regimes tirânicos e de partido único desde que estes se apoiem numa verborreia «socializante» ou antiamericana, enquanto em outros momentos e lugares declaram defender os valores da esquerda democrática. Embora sabendo dessa ambiguidade, pois não sou ingénuo e conheço razoavelmente a história, fui convivendo politicamente com essas pessoas, sempre em nome de objetivos prioritários pelos quais poderíamos desfilar debaixo da mesma bandeira.

Existem, todavia, momentos em que esta contradição entre o que se prega e aquilo que se faz ultrapassa os limites, revelando, em quem a pratica, um fundo moral perante o qual é honestamente inevitável uma profunda desilusão. Se tivesse vivido o Pacto Germano-Soviético de 1939, talvez tivesse há muito experimentado algo desta natureza, como tantos comunistas e outras pessoas progressistas na época experimentaram com grande desilusão e uma amargura que nunca se extinguiu, mas admito que, em situação vivida na primeira pessoa, seja realmente agora a primeira vez que chego a um tal limite.

A guerra de invasão da Ucrânia e as chocantes posições de conciliação diante do espetáculo da morte e da destruição de um país e de um povo da parte dessas pessoas, a forma como pactuam com a mentira e até com teorias da conspiração, falando ocasionalmente de paz sem apontar o dedo aos agressores diretos, estão a fazer com que as transfira agora, provavelmente em definitivo, para o lado de lá barricada do combate pela minha noção de democracia, de justiça e também de honestidade pessoal. Não mais desfilarei ao lado de quem, como os fascistas ou os criminosos, contemporiza com a morte, a tortura e a devastação, aceitando recorrer à mentira ou à deturpação, ou desculpando-se com contextualizações ocas e contemporizadoras, não menos assassinas que as proclamações abertamente agressivas. Em questões desta natureza traço no chão linhas vermelho-vivo.
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Desejo-vos um dia tão bom quanto possível.
Saúde. Ânimo. Paz.

segunda-feira, janeiro 27, 2014

A Casa dos Segredos (ou O Desafio Final) na TVI: a abjecção não tem limites? Vale tudo em televisão? E, por coincidência, uma vez mais a palavra aos Leitores: "BORDEL CHEZ MADAME TÉTÉ"


Há pouco, para ver se o Professor Marcelo ainda estava na opinação com a Judite, parámos na TVI. E, sem querer, assistimos a uma cena que mais parecia uma cena de praxes. Era a Casa dos Segredos que agora, salvo erro, se chama Desafio Final. 


A TVI abusa daqueles pobres coitados que tudo fazem para aparecer ou para ganhar algum dinheiro. Que as pessoas se esforcem para assegurar a sua subsistência é mais do que compreensível. Mas, do que parece, mais do que por uma questão de subsistência, aqueles jovens estão ali para serem conhecidos para depois fazerem presenças. E, do que me parece, fazer presenças é o seu modo de vida.

É mais uma daquelas manifestações de uma realidade paralela. Mas que a TVI, para ter audiências, vá até ao ponto em que a dignidade das pessoas saia beliscada, já me parece demais.

O que se estava a passar ali era o seguinte: para que uma de duas miúdas, Érica ou Jessica, se bem fixei os nomes, pudesse estar na Final, teria que enfiar o braço para tirar peças de um puzzle de um frasco cheio de pequenos ratos. As miúdas enojadas, cheias de medo, sujeitaram-se a isso.


E, como se isso não bastasse, a seguir ofereciam 5.000 euros a quem tirasse uma certa chave de frascos com larvas nojentas. E sempre a Teresa Guilherme a incentivar, a gritar, a fazer trocadilhos maliciosos, uma coisa quase aberrante dado o que se estava ali a passar. 


Nesse ponto, fugi a sete pés daquele canal.

É mau demais. 

Como é que há jovens que se prestam a isto? E, tão estranho como isso, na assistência está (o que se percebe ser) a família a aplaudir. Em vez de se indignarem com os sacrifícios a que os jovens estão a ser submetidos, as famílias rejubilam.

Como é que a televisão chegou a este ponto? E em prime time num fim de semana?

É o que as pessoas querem ver, dirão os cínicos. Pois. Podia aqui recordar coisas que as pessoas, em tempos que já lá vão, também gostavam de ver. No entanto, gosto de pensar que isso foram coisas que ficaram lá para trás, nas dobras sombrias da história.

Tudo isto é estranho e inquietante. Que mundo é este?

Li um texto escrito por Rui Bebiano no seu interessante blogue, A Terceira Noite, que me deixou a pensar. Nem tudo resulta de um mau governo, claro que não. Mas de um mau governo, nascem más escolhas que depois fazem outras más escolhas, gente que faz más leis, que desregula o que deveria regular ou regula ao contrário do que devia.

Transcrevo a parte inicial desse texto:


Ainda sobre as medidas governamentais em curso objetivamente destinadas a desmembrar o mais depressa possível a investigação científica e a fazer com que Portugal regrida trinta ou quarenta anos neste domínio. Independentemente das dificuldades de tesouraria que todos sabemos existirem – e que servem para justificar formalmente os cortes arbitrários –, parece evidente que tais medidas de imposição da barbárie só podem ter como responsáveis, em última instância, pessoas que nem uma licenciatura fizeram com um mínimo de qualidade, e para as quais, por isso, é totalmente inimaginável aquilo que se faz ou deixa de fazer nos centros de investigação e nos domínios mais avançados da produção de conhecimento. É o cenário distópico, até há pouco inimaginável para qualquer professor, de um país governado pelos que foram os seus piores alunos.

*

Mudando agora de registo, até porque o humor por vezes é mais eficaz do que muitos sermões. Recebi da Leitora Lídia mais algumas das suas divertidas montagens e textos.

Transcrevo um dos textos, uma anedota. Diz a Leitora que se lembrou desta anedota vendo uma revista cor de rosa no escaparate:


Em Paris há um bordel chiquérrimo dirigido por Madame Tété. As demoiselles estão todas prontas esperando os clientes. Tocam à campainha e Madame Tété ordena a Mademoiselle Bébé: Vá ver quem toca. 

Era um gentleman de chapéu de coco e uma mala samsonite na mão, que lhe diz: Diga à sua patroa que eu sou um tarado sexual e quero  uma mulher obediente e pago tudo  o que ela quiser. 

Entrou discutiu o preço com Madame Tété que ordenou a Mademoiselle Mimi:  Acompanhe o cavalheiro ao quarto e faça tudo o que ele exigir.

Ela subiu as escadas e, chegada ao quarto, começou a despir-se. Ele indignado disse: Nada disso, vá à casa de banho, encha um copo de água e suba para cima do guarda fatos. Ele despiu a roupa toda, abriu a samsonite e começou a vestir um fato de mergulhador, pôs as barbatanas e o respirador.

Disse: Mademoille, com os dedos comece a atirar a água para cima de mim. E começou a gritar: Ai Mãezinha estou a gozar tanto, com tanta chuva. 

Passado um bom bocado gritou: Agora bata com os sapatos no guarda-fato. E ele gritava: Ai Mãezinha estou a gozar tanto, tanta chuva, tantos trovões. 

Passado outro bocado disse: Agora com o outro pé apague e acenda a luz. Aí gritou: Ai Mãezinha que tempestade monstruosa, tanta chuva, tantos trovões, tantos relâmpagos.

Passado um tempo, Mimi já não aguentava mais e disse. Oh Cavalheiro e quando vamos f.......?

E ele, indignado, respondeu: É maluca ou faz-se? Com um tempo destes? 

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E esta foi uma das montagens que a Leitora Lídia me enviou.

"Em noite quente na casa", "Doriana e Érica"

Nem de propósito
hoje aterraram aqui alguns visitantes

que vinham em busca de 'Érica nua',

não sei se era desta ou se há outras Éricas que andem nuas por aí.


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