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domingo, abril 10, 2016

O que dizem os seus olhos?


Depois de, abaixo, ter falado de milagres, falo agora de mistérios. Falo, não. Pergunto: o que somos está escrito nos nossos olhos?

Eu gosto de olhar de frente com quem falo e gosto de perceber a reacção das pessoas através do seu olhar. No entanto, alguns olhares são opacos. Assustam-me olhos assim, secos, inexpressivos. Outros são luminosos, empáticos - atraentes.

Se me olho nos olhos, olhando-me no espelho, não sei dizer o que dizem os meus olhos. No entanto, quem me conhece bem, conhece o que penso ou sinto apenas através do meu olhar. Talvez o meu olhar seja um véu transparente que me une ao mundo.

Mas não sei. 

Um olhar diz o que vai na alma de quem nos olha? Que responda quem souber que eu que de pouco sei.
(...) Francis Giacobetti (Marselha, 1939) começou sua carreira de fotógrafo ainda jovem, em 1957. Ficou mundialmente famoso por suas fotografias de moda e design, e ainda por seus nus. Trabalhou entre as décadas de 1960 e 1980 como fotógrafo e repórter da revista masculina francesa "Lui". Em seu currículo ainda estão passagens pelas revistas "Paris Match", "Life" e "Look". Atuou como diretor de arte da empresa de cosméticos "Shiseido" e desenvolveu projetos de câmaras de fotografia e vídeo para a empresa Canon.
Para o "Projeto Hymn," Giacobetti recorre a seu olhar mais inquieto e através de uma serie de 300 trípticos realiza um inventário da genialidade humana contemporânea. Um tributo em que o fotógrafo registrou a íris, o rosto e as mãos de personalidades como Stephen Hawking, Jacques Costeau, Oscar Niemeyer, Akira Kurosawa, Federico Fellini, Luciano Pavarotti, Gabriel García Márquez, Sebastião Salgado, Roy Lichtenstein, Aung San Suu Kyi, Nelson Mandela e Mikhail Gorbatchov. (...)
Alguns desses trabalhos estão aqui abaixo. Juntei, por baixo de cada composição fotográfica, um vídeo onde se podem ver e ouvir as pessoas representadas. Talvez que alguns de vocês, Caros Leitores, consigam perceber se há relação entre a íris, as mãos, os rostos e o que as pessoas que os têm são.

Mikhail Baryshnikov (agora com 66 anos)

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Gérard Depardieu - agora com 67 anos

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Aung San Suu Kyi - agora com 70 anos

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Ray Charles - (1930 - 2004)

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Não consigo resposta para as minhas perguntas. Por isso talvez seja preferível procurar milagres. 
São já abaixo.


domingo, abril 22, 2012

Num tranquilo sábado de Abril, uma inesperada Poesia deslizando no Tejo, uma noiva subindo uma escada branca no Ginjal, flores brancas de uma robinia ainda despida de folhas e outros pequenos fragmentos de vida


Música, por favor

Ray Charles - Somewhere over the rainbow



Abril é um mês cheio de esperanças, de promessas. Poderia até dizer que é um mês prenhe de vida: cheio de surpresas, de vigor, subtilezas, de revelações.

Depois de uma semana cansativa e algo complexa, cheguei a sexta feira exausta. Quando, quase o dia a cair, fui à janela, estava um rio de uma suavidade quase irreal. Sobre o rio, um navio parecia pousado ao de leve e a Ponte Vasco da Gama, por trás, era um bordadura leve, quase transparente, ondulante. Fiquei ali, parada, encantada. Mil vezes que vá à janela e veja o rio, mil vezes me surpreendo e me emociono.



Talvez o fim de semana fosse, enfim, sereno. Senti que, olhando este rio tão belo, a sua paz passava para dentro de mim. Os grandes espaços tranquilizam-me.

Eis, pois, que cheguei a sábado e, ainda com receio que as coisas pudessem complicar-se, fui andando e agora, já depois da uma da manhã, posso confirmar que foi um dia maravilhoso.

Logo de manhã, fui de novo à janela. Os tons macios da véspera tinham desaparecido e um requintado tom cinzento revestia a paisagem, tudo parecia banhado a prata, belíssimo.


Do lado do sol nascente vinha uma luz coada que atravessava a névoa para se reflectir, branca, no Tejo. O dia anunciava-se, pois, cinzento, chuvoso. Bom para caminhar.

E lá fui.



Caminhar na cidade, olhar as ruas, as casas, as pessoas, fotografar - e assim eu descanso, porque a forma como eu melhor descanso é fazendo as coisas que mais gosto, é andar à solta.

Claro que os meus passos me levaram ao lugar onde o ar é mais fresco, onde se sente a maresia: a beira do Tejo. Por essa altura, o sol começava a despontar, o ar estava mais leve, o céu mais azul.

Comecei pela Boca do Vento, de onde Lisboa se mostra toda, onde se pode ver o rio a vir das cidades até chegar ao mar largo, ao oceano. Na encosta reparo naquela casa misteriosa, vazia, uma boa casa para acolher espíritos livres que voem neste grande horizonte aberto.


Local habitado por gaivotas, por sonhos, por gente imaginária, aquele é um sítio aberto aos ventos, à maresia já filtrada pelas alturas. Tenho que ver como se chega lá, acho que aquela seria uma casa boa para mim ou, pelo menos, para a minha alma de ave vadia (soa kitch esta da 'alma de ave vadia' não é...? Mas paciência... é o que é!).

E, então, levada pela transparência leve que me transporta quando aqui estou, fui andando, lavando o meu olhar, todas os cansaços e preocupações da semana vão ficando tão lá para trás.

Foi, portanto, quase sem surpresa que, no meio do verde intenso do jardim, surgida do nada e envolta em silêncio, vi uma noiva subindo aquela escada que não leva a lado nenhum. Branca, esvoaçante, no meio de sedas, tules, rendas, lá estava ela, loura, radiosa.



O vestido sem mangas e ela, aparentemente sem frio, ali andava, um ramo de flores brancas, muito bonita, certamente cheia de esperança - e tomara que a vida lhe seja sempre assim, leve, cheia de luz.

Claro que estive também com o pequeno pássaro preto de bico cor de laranja que sempre por aqui vejo.



Hoje estava pensativo, sonhador. Costuma olhar para mim, avaliar os meus movimentos, medir a minha aproximação. Hoje não, hoje desfrutava com atenção e tranquilidade o ambiente, talvez estivesse admirado com aquela aparição branca. Eu também nunca tinha visto uma noiva por aqui mas eu sei que aquela figura leve e branca é uma noiva; ele talvez não percebesse isso. 

Ou então estava intrigado com uma outra fantástica aparição.

Um enorme navio, um paquete grande como eu nunca tinha visto, avançava, glorioso pelo Tejo. 


Os outros navios pareciam insignificantes perante a dimensão deste imenso navio branco, Lisboa quase parecia uma cidade de brincar com as suas casinhas às cores, as suas igrejas bem feitinhas, os seus guindastes pequeninos.

Talvez fosse com isso que o meu amigo passarinho preto estivesse admirado. Também eu, que tantos navios sempre vejo, estava admirada. Quantas pessoas lá estariam dentro, quase uma metrópole ali, deslizando sobre o rio.

Continuei a caminhar. Hoje a porta do armazém estava aberta. Eu sei que é feio espreitar mas, olhem, fazer o quê?, a atracção foi grande.


Não sei o que é, se é uma oficina para reparar barcos, se é um simples armazém para guardar sonhos. Vejo barcos, barquinhos, brinquedos de criança quando comparados com o grande paquete que ali vai, cruzando o Tejo, e bandeirinhas, fotografias, pinturas inocentes, recordações de quem ama o rio, de quem se faz ao mar pelo prazer infantil de descobrir prazeres sem mácula. Que sítio fascinante e com que ternura aqueles objectos ali foram pendurados. Quase me apetece transpor a porta mas, claro, não o faço até porque mais me parece um local de culto.

Depois, quase duas horas depois de ter saído, regresso a casa.

Mais tarde, vou ver de perto o grande paquete. Lisboa à beira Tejo transborda de gente com ar de outras paragens. No cais junto a Santa Apolónia eis, então, o imenso edifício flutuante, altíssimo, imenso, imponente. Aproximo-me, quero ver de perto. E, então, eis que vejo, pasmada, o nome do navio.


O grande cruzeiro transatlântico chama-se POESIA. Nem queria acreditar. Uma imensa poesia branca deslizando nos mares, entrando majestosa no Tejo.

E assim, depois destas aparições e surpresas, cheguei a meio da tarde aqui onde estou, in heaven.

Chuviscava e a terra tinha aquele cheiro quente e molhado, aquela doçura húmida dos meses de Abril. Respiro fundo, apetece-me mergulhar neste cheiro a terra fértil (apesar de ser uma terra agreste, pedregosa, com uma vegetação tão rústica, tão livre).

A robinia pseudoacacia está toda florida, flores em cachos brancos, tão puros, tão bonitos. Poderia levá-los para oferecer à noiva que sobe as escadas do Ginjal ou aos viajantes do Poesia.



Os ramos estão quase nus, as flores precederam as folhas. Quanta beleza, uma beleza tão despojada. 

Depois de respirar o ar do mar, aqui estou agora, respirando o ar do campo, abrigada pela grande serra, longe das torres de vidro que habito durante a semana, longe de problemas, longe do trânsito, longe de tudo, longe, longe, longe, livre.



É Abril ,. Flores do campo com gotas de chuva, ramos secos, elegantes, o cheiro limpo do campo. Nesta fotografia a flor cor de rosa da salvia está em primeiro plano e, em segundo, pode ver-se um canteiro que pintei, às cores, figuras coloridas e que não são nada, apenas figuras coloridas que existem na minha cabeça.



Este é um local habitado pela poesia. Ela está no ar aberto e limpo, ela está nas árvores, no mato, nas pedras, nos pássaros que cantam, felizes, na luz e nas sombras, no vento, está escrita nos muros, nas paredes e, neste caso, num canteiro que rodeia uma azinheira.

In heaven os poetas têm o seu espaço e eu tenho grande parte da minha vida.