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quarta-feira, abril 17, 2024

Homens que escrevem são perigosos...?

 

Tenho ideia que se costuma dizer que as mulheres que escrevem são perigosas. Mas, se calhar, é mais abrangente. 

Na verdade, muita gente tem achado Salman Rushdie perigoso e ele já tem pago, de todas as formas possíveis, as consequências dos riscos que corre ao escrever. 

Se antes, as ameaças, o viver sob protecção e tudo aquilo por que passou, certamente lhe deixou algumas marcas, a última situação, o atentado à facada, deixou-lhe marcas físicas muito evidentes. E traumas que parecem também evidentes.

Tudo o que envolve o crime perpetrado contra ele é terrível, a começar pelo sonho premonitório. Nem imagino o que é ter um pesadelo, ficar assustado, ficar sem vontade de ir, e, depois, viver essa situação, sentir-se apunhalado, catorze vezes a faca a entrar-lhe no corpo, não conseguir defender-se, cair a sentir que estava a esvair-se, o chão a encher-se de sangue... Estar às portas da morte depois do terror pelo qual passou deve ser terrível, não saber a extensão e as implicações das lesões... tudo terrível.

Mas ele tem conseguido vencer as ameaças, as más lembranças, os fantasmas, transformando-os em palavras. 

Knife

Um livro com uma capa belíssima.

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Salman Rushdie: The 2024 60 Minutes Interview

Andersen Cooper, como sempre, mostra que é um dos grandes entrevistadores do nosso tempo

Salman Rushdie has come to terms with the attempt on his life the only way he knows: by writing about it in his new book. He details the experience in his first television interview since the attack.


quarta-feira, agosto 30, 2023

Um heaven quase civilizado, uma caldeirada de cabeça de safio e, como quem não quer a coisa, conversa/conselhos de escritores

 

Nunca antes tínhamos procedido a tamanha devastação. Décadas a lutar contra isto. Dei o peito às balas por cada pé de alecrim, de rosmaninho, de orégãos. E agora cedi.

Os caminhos quase tinham desaparecido sob a espessa camada de caruma e folhagem seca que já tinha fixado terra. Os arbustos, com esta seca, estavam ressequidos, quase sem vida. E, embora o meu marido já tivesse subido muitas copas, com as árvores a desenvolverem-se, já se tornavam baixas e compactas demais.

Acresce que este homem que ele desencantou e que vem com mais dois é gente que vive de limpar terrenos. Têm máquinas e experiência. E zero contemplações perante as minhas fantasias. Avançam a direito, deixando atrás de si uma camada de resíduos triturados, que mal se notam.

E depois, como já referi, ao ver, não desgostei de todo. 

Este lugar é agora outra coisa. Nunca tinha visto a terra assim. Antes era só mato rasteiro e pedras. Depois árvores pequenas. Depois árvores maiorzinhas e os arbustos autóctones a desenvolverem-se. Agora, depois desta operação (ainda em curso), é diferente: árvores grandes e quase zero arbustos. Vão rebentar com força na Primavera, asseguram-me. Espero bem que sim.

Hoje um pinheiro que estava seco já foi abaixo. Amanhã deve ir um gigante e dois cedros mortos. Uma tristeza. Mas tão ou mais triste é ver as árvores mortas e de pé.

E vários pinheiros já têm a copa lá em cima. E vários caminhos reapareceram.

A entrada da gruta foi limpa. Parece maior.

Já não ando, aflita, atrás deles. Coração ao largo.

Enquanto este trabalho decorria no exterior, trabalhei de sol a sol, na minha labuta. Hoje o meu marido sugeriu-me uma outra colectânea. Nunca nisso tinha pensado e é capaz de ser boa ideia.

Hoje para o almoço fiz uma caldeirada que ficou muito saborosa. Não deveria chamar-se caldeirada pois só tinha um peixe mas, como fiz da mesma maneira, chamo-a assim à mesma. Andava a apetecer-me caldeirada mas, no outro dia, só conseguimos ir ao supermercado por volta das oito da noite. Por isso, já apanhámos pouca coisa a nível de peixe. Tinham peixe para caldeirada mas não gostei, pareceu-me uma indigência, umas postazinhas com aspecto vintage, mal encaradas. Mas tinham lá cabeça de safio. Trouxe duas e pedi para as abrirem ao meio. O sabor do safio é muito bom e a cabeça tem as espinhas próprias das cabeças de peixe mas não misturadas como é o caso das postas do rabo. Ou seja, para quem goste de dissecar cabeças de peixe (como é o meu caso), é muito bom.

Fiz assim:

Num tacho largo coloquei cebolas grandes em rodelas grossas. Depois tomate maduro aos bocados, uma boa camada dele. Depois bocados de pimento e um bom ramo de salsa aos bocados. Por cima, batatas às rodelas grossas. Por cima as quatro metades das cabeças de safio. Por cima um pouco de sal. Depois mais uma camada de tomate aos bocados, outra cebola gigante às rodelas, o resto da salsa, um pouco mais de pimento. Depois uns dentes de alho, umas folhas de louro e um pouco de alecrim. Reguei com azeite. 

Foi ao lume, no máximo, com o tacho tapado. Quando ferveu, coloquei no mínimo e deixei cozinhar, sempre tapado, até que as batatas ficaram macias.

Ficou bem saboroso. E deu para o almoço e para o jantar. 

O meu marido torrou umas fatias de pão e pusemo-las no fundo do prato.

Sobrou caldo e com ele poderia ter feito uma massinha. Não fiz porque me deu preguiça.

Entretanto, ao espreitar o youtube, alguns vídeos que vi de gosto. Interessantes. Não sei se para vocês também terá interesse mas, se encarar que isto aqui é também, de algum modo, uma espécie de diário, vou aqui colocá-los.

Salman Rushdie: The One Thing You Can't Teach about Writing

"Every exceptional writer has some very personal relationship with the English language." Salman Rushdie talks to Charlie Rose about what can -- and can't -- be taught about writing.


Salman Rushdie on Writing as a Process of Discovery

University Distinguished Professor Salman Rushdie participated in a class discussion of "The Moor's Last Sigh" led by Associate Professor of English Deepika Bahri with undergraduate students at Emory University on March 7, 2012. Here he discusses writing as partly a process of learning about the characters and allowing the book to shift and take on a life of its own.

Advice for aspiring writers | Ian McEwan

Ian McEwan gives three pieces of advice for developing writers


Desejo-vos um dia feliz
Saúde. Alegria. Paz.

domingo, janeiro 11, 2015

O medo. Os ratos. E Raef Badawi que foi chicoteado em público e por quem Doudi, a filha, tantas saudades sente. E Salman Rushdie e tantos mais que afirmam corajosamente a demência de tudo isto. E os Anonymous por todo o lado que juram não dar tréguas a quem atentar contra a liberdade de expressão. Talvez haja, pois, uma esperança de liberdade. Para que se possa dançar nos céus de Paris. E que essa esperança se espalhe aos céus, às estradas, às escolas, aos campos de todo o mundo.


A Leitora Rosa Pinto lembrou muito bem O Poema Pouco Original do Medo de Alexandre O'Neill - é que, não nos esqueçamos, se nos deixarmos levar pelo medo cedo alcançaremos a condição de ratos.

Arvo Pärt: The Deer's Cry


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O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis  
Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos  
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
       (assim assim)
escriturários
       (muitos)
intelectuais
       (o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles  
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados  
Ah o medo vai ter tudo
tudo 
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer) 
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos 
Sim
a ratos 

Alexandre O'Neill, in 'Abandono Viciado'; pinturas de Francis bacon

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Centenas de espectadores numa praça pública em Jidá viram, sexta-feira, Raef Badawi a ser chicoteado 50 vezes. Durante 15 minutos, em silêncio e sem chorar, Raef Badawi foi sujeito ao castigo decidido pelas autoridades da Arábia Saudita que incluem, além de dez anos de prisão, mil chicotadas repartidas por 20 semanas por ter insultado o Islão.


Uma testemunha anónima contou à Associated Press que o co-fundador do site Rede Liberal Saudita, e laureado em 2014 com o prémio Repórteres sem Fronteiras, estava algemado mas com a cara descoberta. Foi transportado da prisão para o local, pouco depois de terem terminado as orações do meio-dia numa mesquita próxima. Cumpriu, assim, as primeiras 50 chicotadas por ter criticado o poder dos líderes religiosos na Arábia Saudita, no blogue que fundou com a activista dos direitos das mulheres Suad al-Shammari e onde defendeu o fim da influência da religião na vida pública daquele país.

Outra testemunha disse à Amnistia Internacional que a multidão se juntou em círculo. "Quem passava juntou-se e a multidão cresceu. Mas ninguém sabia porque é que Raif estava a ser castigado. Era um assassino? Um criminoso? Não reza?", perguntavam. Depois, "um polícia aproximou-se por trás e começou a bater-lhe. Raif levantou a cabeça em direcção ao céu, fechou os olhos. Estava em silêncio mas era visível pela expressão do rosto e movimento do corpo que estava a sofrer". O polícia bateu nas pernas e nas costas, contando até 50.


no Público de 10.Jan.2015


No vídeo abaixo, em Novembro do ano passado, Doudi, a sua filha de 10 anos, escrevia uma carta a Raif Badawi que está preso na Arábia Saudita, condenado a 10 anos de prisão e a 1.000 chibatadas por ter um blogue no qual defendia um debate social e político no seu país. 






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Salman Rushdie fala com Bill Maher a propósito do que aconteceu no Charlie Hebdo, fala do Islão e de toda esta cegada. Maçãs podres. O pomar estragado. Diz Bill Maher.





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Os Anonymous, um pouco por todo o lado, juram vingar os que, por defenderem a liberdade de expressão, caíram mortos às mãos dos terroristas. Os Anonymous afirmam a sua defesa da liberdade de expressão como um pilar da democracia e juram não dar tréguas aos terroristas.


Aqui em espanhol.



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O Irão condenou o atentado de Paris. A moderação a fazer o seu caminho. Talvez. Mas até há pouco tempo atrás a realidade era outra.


Rosewater - Uma esperança de liberdade



Irão, 2009. Decorre a campanha para as eleições presidenciais. Maziar Bahari (Gael García Bernal), jornalista iraniano-canadiano, regressa à sua Teerão natal para entrevistar Mir-Hossein Mousavi, líder da oposição a Mahmoud Ahmadinejad, o polémico e autoritário presidente em exercício. Quando a vitória deste é anunciada, as ruas enchem-se de protestos dos partidários de Mousavi. Bahari divulga imagens dos tumultos, mesmo sabendo o risco pessoal que esse acto acarreta. É detido pelas autoridades iranianas, que o retiram da sua casa. É acusado de espionagem. Uma das "provas" é um "sketch" com uma entrevista satírica emitida pelo programa "Daily Show", de Jon Stewart. Ao longo de 118 dias, vendado e sem saber quando (se?) voltará a ver a mulher, grávida, Bahari será submetido a violentos interrogatórios levados a cabo por um homem (Kim Bodnia) cujo nome e rosto desconhece, mas cujo perfume lhe fica marcado na memória: o senhor "Rosewater" ("água de rosas").

"Rosewater - Uma Esperança de Liberdade" marca a estreia na realização de Jon Stewart, o popular anfitrião do programa televisivo "Daily Show", e foi rodado numa prisão jordana. Baseia-se nos factos relatados no "best-seller" "Then They Came for Me", do próprio Maziar Bahari, que foi detido quando fazia a cobertura das eleições presidenciais iranianas para a revista "Newsweek". Apesar da relação entre o vídeo do "Daily Show" e a sua detenção, Bahari não guardou qualquer rancor a Stewart ("Podia estar na 'Rua Sésamo' e eles acusariam o Elmo de insubordinação", esclareceu o jornalista quando regressou ao programa). Mais: colaborou com Stewart na escrita do argumento e como consultor nas filmagens.




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E a beleza de Paris e a liberdade. E o voo junto ao céu de Paris.

Viver sem medo.

HAUT VOL




Bailarinos: Léonore Baulac e Allister Madin do Ballet da Opera de Paris 

Realizado por Louis de Caunes

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom domingo em liberdade, sem medo.

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