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terça-feira, agosto 09, 2022

Eram jovens, belos, os melhores.
Depois, aqui, já não eram jovens, já havia outros tão ou mais belos, outros igualmente grandes.
Agora já cá não estão.

Tempus fugit

 

Há pessoas que se acham melhores que outras. Acham que são mais jovens, mais inteligentes, mais cultas, mais fortes. Devem esquecer-se que não são eternas, que a vida não ficará estacionada para que possam manter-se no altar reservado aos seres superiores. Por isso, acham que podem desdenhar ou maltratar outras.

Pessoas assim parece que se esquecem que são perecíveis e, de alguma forma, descartáveis. Algures no tempo, perceberão que a sua juventude se foi, que estão a ficar flácidas, enrugadas, frágeis como aquelas que, em tempos, foram por si desprezadas ou, mesmo, insultadas.

Pessoas assim acabam solitárias, amargas, tristes. Aos poucos vão sendo abandonadas por todos. Não foram criados laços de generosidade ou afecto que sobrevivam à passagem do tempo e que sejam a seiva da vontade de viver. Pessoas assim acabam por perceber que, cegas pela sua vaidade ou intransigência, desbarataram todos os seus talentos, afugentaram todos os amigos e amores, ignoraram a finitude da vida.

Quando acordam é tarde demais.

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Para todos os que talvez ainda estejam a tempo de inflectir a trajectória ou que talvez ainda consigam fazer o mea culpa e iniciar um caminho de apaziguamento, tolerância, bondade e respeito pelos outros, aqui fica um vídeo que, pelo menos a mim, me faz ter vontade de aproveitar cada bocadinho de vida, cada oportunidade de harmonia e carinho, cada pequeno momento. Pelo menos a mim este vídeo parece-me um banho de humildade para quem a não tem.

Frank Sinatra interpreta As Time Goes By para Ingrid Bergman

Aqui, Ingrid Bergman e Frank Sinatra tinham ambos 64 anos.  Aqueles que em tempos tiveram toda a beleza e sucesso do mundo, à altura do vídeo, já estavam na fase dos tributos, o tempo já tinha passado por eles. Ingrid morreria apenas 3 anos depois.  Ele um bom par de anos depois. E agora já não estão entre nós e, dentro de algum tempo, já pouca gente se lembrará deles.


Para os que não conhecem ou não recordam a cena de Casablanca, aqui fica (com Humphrey Bogart, outro imortal):


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Desejo-vos um dia bom
Saúde. Recomeço. Paz.

domingo, outubro 06, 2013

'Escrevo-te, logo existes'? - Emma Bovary e Flaubert, Rui e Dulce Maria Cardoso, Milena e Lídia Jorge, refere, a título de exemplo, Ana Soromenho na Revista do Expresso. [A (des)propósito: alguém sabe o que é feito de Eva? Ou se a Lídia e o Paulo terão adoptado uma criança?]


Na Revista do Expresso, Ana Soromenho escreve um interessante artigo sobre personagens literários que ganham contornos de gente de verdade e que acabam por ficar para a história de forma vívida, como se tivessem existido de verdade.


Vários exemplos são referidos, alguns escritores foram ouvidos (incluindo o Valtinho a quem parece que toda a gente teima em incluir na categoria dos escritores). Se há um Mário de Carvalho que cria, usa e depois arruma os seus personagens, há os outros que, de forma geral, ficam com eles a viver uma vida paralela dentro da sua cabeça.




Tenho pensado por vezes nisto. 




Quem é mais real? Personagens como uma Maria Eduarda (de Os Maias de Eça de Queirós) ou um Ravic e Joan Madou (do Arco do Triunfo de Erich Maria Remarque) ou Robert Jordan e Maria (de Por quem os Sinos Dobram de Hemingway), e tantos, tantos outros, que quem teve o prazer de conhecer não mais esquecerá, ou o Zé Maria dos Anzóis que teve carne e osso mas de quem nem os bisnetos se calhar ouviram falar quanto mais eu e você, meu Caro Leitor?



(Foi pura coincidência a repetição da Ingrid Bergman. Lembrei-me dos personagens dos livros e, apenas ao escrever sobre eles aqui, me dei conta de que, em ambos os casos, foi Ingrid Bergman que lhes deu corpo. No entanto, a própria Ingrid Bergman já se foi há uns anos e são essencialmente as personagens que interpretou que ficarão na nossa memória, mais do que, propriamente, a vida real dela - que, por acaso, até foi uma vida bem cheia de romance e aventura)




Na minha vida fora da internet não sou nada de me colocar no centro da conversa mas, aqui, em que não posso ouvir as vossas opiniões, tenho eu que fazer a conversa toda. Por isso, trago à liça tantas vezes o meu caso pessoal. Percebam que não me considero referencial para coisa nenhuma mas, à falta de quem aqui exerça o contraditório, tenho eu que me chegar à frente.

Vem este aparte agora a propósito de que, também a mim - que não me considero escritora, mas nem de longe nem de perto mas que na minha useira e vezeira insustentável leveza do ser, já me deitei a ficcionar por estas bandas uma dúzia de vezes - me acontece ficar com alguns personagens a viverem ao meu lado, uma existência quase paralela à minha.

Lídia, a mulher triste, Eva, a sedutora, Isabel, a ciumenta (cuja história nunca foi acabada), Tomás, o carpinteiro calado e digno, Paulo, o homem que restituíu o sorriso a Lídia, são alguns em quem penso muitas vezes. O que andarão a fazer? Por onde andarão? 

Por vezes, dou por mim curiosa como se eles fossem gente de verdade. Para mim são. Dei-lhes um bom bocado da minha vida e depois ganharam vida própria. Quando me sentava aqui a escrever nunca sabia o que ia sair, eram eles que me contavam o que faziam. Afeiçoei-me a eles. De cada vez que acabei uma das minhas histórias foi sempre com pena por me ir separar deles.

Ora se isto acontece comigo e com os meus personagens, imagino o que se passará com escritores de verdade.

O mundo é habitado por muitos seres, uns a quem o sangue alguma vez correu nas veias e outros que, apesar de sempre terem sido intangíveis, são eternos.

*

E, já agora, por insustentável leveza do ser, aqui vos deixo o trailer da adaptação do livro homónimo de Milan Kundera, com realização de Philip Kaufman


Daniel Day-Lewis é Tomas, Juliette Binoche é Tereza e Lena Olin é Sabina

(E não me venham dizer que Tomas, Tereza e Sabina nunca existiram... Então eu não li a história deles? Eu não os vi depois? Não me lembro eu tão bem, até, do cão que a Tereza tinha e do desgosto tão grande no fim? Então não me lembro? Vão agora dizer-me que inventei tudo?)


*

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo.

quinta-feira, agosto 23, 2012

Sobre Ernest Hemingway e sobre Madame Hemingway, The Paris Wife, a sua primeira mulher


Música, por favor: Nora Bayes, uma cantora que Hemingway ouvia muito nos seus anos de Paris


Over There [tentei encontrar a música que ele mais ouvia, o Make Believe, mas não descobri]

*

Um dos livros que li na minha adolescência e que me marcaram bastante foi, sem dúvida, Por quem os sinos dobram.  Na altura devia ter, creio, uns catorze anos e desejei ser a intrépida Maria que era sofrida, ingénua e bela, determinada e justa, que andava nas montanhas e que tinha um cabelo curto, incerto, espetado, onde os dedos de um homem corajoso e apaixonado mergulhavam, com carinho e desejo.

Lia-o como lia omnivoramente tudo o que me aparecia à frente (e já várias vezes aqui falei disso). Lia o que havia em casa, tudo, lia o que as amigas da minha mãe me emprestavam (comentando, em voz baixa, que se calhar não era coisa adequada à minha idade), lia o que encontrava na biblioteca do liceu e, pouco tempo depois, lia o que comecei a comprar com o dinheiro que recebia pelos anos ou pelo Natal. Por isso, li este livro depois de ter devorado a obra completa de Fernando Namora, a de Ferreira de Castro e na sequência de Somerset Maugham, Pearl Buck, Erich Marie Remarque, Dostoievsky, D. H. Lawrence e sei lá que mais.

Dado que a minha mãe também trabalhava, fui habituada, desde cedo, a ser bastante independente e, por isso, lembro-me de ter ido sozinha ao dentista e de ele - dada a intervenção algo complexa que não me lembro se era desvitalizar ou arrancar um dente - ter perguntado, muito admirado, se eu tinha ido sozinha e ter comentado, também muito admirado, que o livro que eu tinha ao colo, sentada na sua cadeira dos horrores, era um livro muito bom e, com ar curioso, perguntar se eu estava a gostar.

Registei a sua admiração sem a perceber bem pois eram coisas a que estava muito habituada e que fazia com naturalidade: andar sozinha a resolver o que havia a resolver e ler tudo o que estivesse à mão de semear.

Apenas bem mais tarde tive conhecimento que havia um filme; e, quando o vi, apesar de gostar tanto de Ingrid Bergman, não achei que ela fosse a Maria que eu tinha imaginado: era menos agreste, menos selvagem que a Maria que eu tinha idealizado anos antes. E o filme romanceava demais uma história que eu recordava como uma história de resistência, pó, dureza, dificuldades extremas, valentia. Mas sei lá. Foi há tanto tempo.





Ernest Hemingway foi, na altura em que comecei a lê-lo, um prazer, não era literatura de salão, não havia dramas existenciais (se bem que eu, na altura, não traduzisse o que achava através destas palavras), havia ar puro, a voz da terra, a voz do mar, a voz do corpo, tudo muito autêntico, muito genuíno, muito directo, uma vida em que os homens eram muito viris, em que a natureza era quase excessivamente poderosa. A seguir, entusiasmada,  procurei tudo o que encontrei dele e parei na pequeno e maravilhoso O velho e o Mar, um dos livros a que, de vez em quando, volto.



Ernest Hemingway, americano, 21 de Julho de 1899 - 2 de Julho de 1961, maior que a vida
Recebeu o Pulitzer em 1953 e o Nobel em 1954


E, depois, havia o terrível mistério. Na minha cabeça era incompreensível que alguém com tanta vida pudesse ter-se suicidado e, sempre que o lia, tentava descobrir nas suas palavras algum enfraquecimento, alguma sombra atrás da qual a vida se esgueirasse. Mas não me lembro de alguma vez ter detectado algum sinal disso.

Portanto, para mim, Ernest Hemingway não era apenas o fantástico escritor, era também o indecifrável homem.

Era e ainda é. Sempre que há qualquer coisa sobre ele não deixo de ler. Por exemplo, li com insaciável apetite a sua entrevista que consta na bela tradução de Carlos Vaz Marques, 'Entrevistas da Paris Review'. Conhece-se aí o lado mais seco de Hemingway. A entrevista foi feita em 1954 e ele pôs fim à sua vida em 1961, à beira de fazer 62 anos. Talvez volte um dia a esta entrevista. Hemingway fala dos seus hábitos de escrita. 



Ernest Hemingway, um trabalhador incansável, organizado, escrupuloso  e um bon vivant  absoluto


E quando lhe perguntam quais os escritores que mais o influenciaram, refere muitos entre os quais Flaubert, Stendhal, Tchékhov e vários outros mas, pelo meio, inclui Bash, Giotto, Van Gogh, Mozart e vários outros que não são escritores e diz que não explica porque aprendeu tanto com uns como com outros porque seria preciso mais um dia para poder explicá-lo.

Vem isto que estou a escrever a propósito do livro que estou a ler. Originalmente chama-se The Paris Wife, é colheita recente, 2011. Em Portugal chama-se Madame Hemingway e é uma tradução de Maria João Freire de Andrade. A autora é Paula Mclain, licenciada em Poesia, autora de dois livros de poesia, um livro de memórias e um outro romance. É um livro muito bem escrito, que se lê com curiosidade e prazer.



O dia do primeiro casamento para ambos: Elizabeth (Hadley) Richardson e Ernest Hemingway


O livro ficciona (com base em acontecimentos e personagens verdadeiros) a história da primeira mulher de Hemingway, Hadley Richardson, o primeiro encontro, o tempo em que Ernest já era amado pelas mulheres, o período de intensa correspondência, o namoro, o casamento, o início da carreira de escritor de Nesto, a vida em Paris, o apoio inicial de Gertrude Stein que, quando ele a visitava, conversava com ele no canto dos homens enquanto Hadley conversava com Alice Tocklas no canto das mulheres. 


Pintura de Hilary Harkness com o título Girl with a Basket of Flowers
A pintura mostra o célebre quadro de Picasso que figurava na salão de Gertrude,
mostra um  quadro de Matisse, mostra Toklas segurando a cabeça de Hemingway,
mostra Gertrude Stein de namoro com uma senhora,
ou seja,  alude aos tempos de convívio em Paris


No ponto em que vou, Hadley e Ernest eram ainda um casal feliz que vivia a vida e se apoiava mutuamente. Hemingway ainda não tinha conseguido que qualquer editora aceitasse as suas obras mas trabalhava, trabalhava afanosamente, com uma inabalável convicção da sua vocação e do papel que um dia teria no panorama literário internacional. Era humilde, frágil, especialmente quando recordava o seu acidente de guerra, era encantador, aventureiro. Hadley apoiava-o e amava-o incondicionalmente.



Jovens (Hemingway uns anos mais novo que Hadley), cúmplices, enamorados - um casal
que vivia feliz nos ardentes anos de Paris



Talvez volte a este tema, à vida de Hemingway. Entretanto, deixo-vos com Paula McLain, uma pessoa que deve ser muito simpática. Nunca consigo encontrar versões legendadas. Não sei se não há ou se sou eu que não sei procurar. Aos que não conseguem perceber, as minhas desculpas.




*

E, por hoje, meus Caros leitores, é isto.

Juro que, ao começar, estava decidida a escrever pouco para não vos maçar para além da conta. Agora que acabei e devia rever, reparo que, uma vez mais, isto me saíu grande demais e, se até para mim, é chato agora passar os olhos por tudo o que escrevi, imagino para vocês. Que coisa esta. Acho que vou passar a cronometrar, tipo relógio de ponto, e, quando tocar, acabo, esteja onde estiver, a ver se me disciplino. Ora esta...!

Desejo-vos uma quinta-feira muito amável. 
A vida é melhor se também for vivida com amabilidade (acho eu).