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quinta-feira, março 05, 2020

As mulheres que gostam de livros são perigosas...?
Ou, simplesmente, não são muito boas da cabeça...?





Estou numa fase de pré-lançamento para ainda não sei exatamente o quê mas, como muitas vezes acontece, movimentando-me numa twilight zone enquanto, à vista desarmada, nada se passa. Não desgosto da clandestinidade. Há quem suspeite de que alguma coisa está para se passar e me ronde e vigie e me prense. Mas sou boa nisso, sou mestre em poker face: concluirão que no pasa nada. E eu, sabendo o que talvez se vá passar, forço-me a não pensar em nada para chegar ao momento que talvez esteja para chegar como se tivesse sido apanhada de certeza. 

E, enquanto isso, muito trabalho e muita reunião e muito bau bau*. Ora acontece que, em momentos assim, a minha beleza implora por um break mental. Portanto, à hora de almoço, ala moça que se faz tarde e aí vai ela, toda flauteada, fazendo de conta que o tempo não está contado. Mentalmente o cilício de sempre, pregado à carne: não é para trazer nada, é só para ver.

Mas sei que é mais do que ver: é impregnar-me. Estar entre livros, ver o que há de novo, folhear, deslizar como uma gata por entre as letras é bálsamo, é fascínio, é vacina contra o que virá durante a tarde, é mel, é perfume, é bênção, é estar à janela a respirar ar puro e da janela ver o mundo.

Claro que quase tudo o que ali vejo me repele: desde os títulos dos livros, às respectivas capas, passando pelo nome daquela gente que vive de parir livros como quem faz estalar grãos de milho em sala de cinema. Passo ao largo tal como passo ao largo da fast food cujo cheiro enjoa. E penso que tanta tralha em forma de livro é bem capaz de ser mesmo mau para a cervical. É que eu posso passar ao largo mas há quem tenha que sacrificar o corpo vivendo entre aquilo. 

Passo, pois, ao largo dos best sellers e, como sempre, busco as franjas, desloco-me pelas margens. Mas não é para trazer, é só para ver, vou repetindo.

Até que vi um livro de Paolo Cognetti. Tentação. Gosto tanto dele. Mas tentei resistir, encontrar pretexto para não sucumbrir: fui ver se o tradutor era o Pedro Tamen. Não era. Pensei: não vai ser a mesma coisa. Pedro Tamen sabe que a toada, o balanço e a poesia na fala são indispensáveis para a gente se apaixonar.  Segui sem ele. Depois fui dar com um do Casimiro de Brito. Folheei. Gostei. Pensei: tem que ser, é só este. 

Mas não foi só esse. Tive que trazer também o Paolo Cognetti. 

Vim feliz. E a minha vontade era, a seguir, ir para o Jardim, deitar-me na relva ou sentar-me encostada a uma árvore, ouvir ao de leve a aragem a rumorejar por entre as ramagens das árvores  e passar a tarde entregue a eles dois. 

Mas o cilício não me martiriza apenas para me lembrar para não trazer livros, impele-me também a deixar de lado os desejados prazeres, indo enfiar-me num escritório mais do que prosaico.

Contudo, durante a tarde, de vez em quando, antecipava o prazer de, à noite, os ler, os ler mesmo que à minha maneira. No início das leituras sou aleatória, procuro a impressão. Sou impressionista. Depois, se me deixo tentar, sou devota.


À noite, ao chegar e ao estacionar o carro, peguei no computador, na capa de lã, na carteira e mais nem sei em quê e, estúpida, deixei o pacote de papel com os dois livros no carro. Quando dei por ela, já estava em casa, descalça, sem o traje de luces. Disse que ia ao carro buscá-los, mas tinha que ir vestir-me e calçar-me e o meu marido demoveu-me. E eu, preguiçosa, deixei-me demover. E agora, pobre de me, aqui estou, longe deles, em estado de carência. 

E quem não perceber este amor por livros não percebe nada de mim. Se calhar nem conhece bem o que é gostar de livros. Ou mostra um supremo desconhecimento das coisas da vida. Ou nem sonha o que é uma mulher que ama livros. Isso, sim, é o mistério dos mistérios. Pior: o perigo dos perigos.

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Mais ou menos a propósito, partilho um vídeo com muitos livros dentro
Transcrevo: Antiquarian booksellers are part scholar, part detective and part businessperson, and their personalities and knowledge are as broad as the material they handle. They also play an underappreciated yet essential role in preserving history. THE BOOKSELLERS takes viewers inside their small but fascinating world, populated by an assortment of obsessives, intellects, eccentrics and dreamers.

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domingo, março 03, 2019

Como um rio que se funde noutro





Olho-me nos olhos. Nunca tive medo de espelhos. As pálpebras, o rosto, as rugas hesitantes que me atravessam a testa. Os cabelos brancos e abundantes. O torso ainda firme e um pouco mais compassivo. O desejo discreto mas imparável. A fala fácil mas um nadinha mais ponderada. Onde está a minha idade? ´Vai aos ziguezagues', diria Sabato. Atiro-me para as nuvens, como sempre fiz, agora mais diurnas. Mais próximas da mão. Deixo-me envolver por elas, 'nuvens que envolvem o tempo', leio num dos poemas da loucura de Hölderlin. Agarro como posso os restos da minha própria. Restos? Olhando para o mar é como se ela, a loucura normal, fosse uma variante do meu olhar nos espelhos da casa, entre estantes caóticas, como gosto que sejam as estantes dos outros, jamais as minhas, encontrar o que não espero encontrar, mas o que mais me concentra nesta casa é o mar, o espelho do mar, o seu peso oscilante, como se ele fosse outro rosto meu, vacilante como o meu, enquanto o olhar de Myah, de todos o mais brilhante, não entra pela casa dentro. Onde estás tu? Como um rio que se funde noutro.


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Palavras de Casimiro de Brito in 'Uma lágrima que cega' ao som de Yann Tiersen com The lost notebook. As fotografias são de Emma Tempest. 

No fim, "On Growing Old" de John Masefield é lido por Tom O'Bedlam e os bailarinos de Introdans dançam Unfold numa coreografia de Robert Battle ao som de uma ária da ópera Louise de Gustave Charpentier

Mas essa já é outra história




Passou por aqui, devorou o leite das minhas terras e deixou-me a celebrar as nuvens que passam. E deixou recados, 'sou  um bocadinho do vento que te amacia', e de facto bebeu-me as arestas, 'as tuas mãos sobrevoam o meu corpo como plumas', e de facto senti-me pássaro mais de gruta íntima que de céus altos, 'noites de eterno luxo', e cada instante foi de facto uma imersão na abundância que deve ser o eterno, 'mais leve do que uma pena apesar do peso', que não senti, o amor bem temperado é assim, um animal imenso que se pode transformar numa flor carnívora, e tu és uma fera, uma boca terrível que não perde nada e se encontrou no outro, que felizmente fui eu, 'uma das que sou', bruxa, luxuosa e mais ainda porque bebeste no meu luxo mas depois disse-te que não, que não nos amaremos outra vez porque me estou a deixar prender nas tuas mãos, que são asas e nuvens e garras, e eu não quero, quero ficar livre e pairar e sofrer outros pesos, se os houver, e 'ó meu amor que pena não te deixares prender'. Amar é também renunciar. Mas essa já é outra história, que depois viverei, e direi.


Palavras de Casimiro de Brito in 'Uma lágrima que cega' ao som de I want you na voz de Tom Waits com fotografias de  Clara Melchiorre


quinta-feira, fevereiro 28, 2019

O meu vício





Sempre ouvi dizer que os alcoólicos nunca deixam de sê-lo: conseguem é ter força de vontade para deixar de beber. Contudo, têm que manter uma disciplina férrea. Por exemplo, não podem aproximar-se do álcool pois sabem que, se abrirem uma brecha, logo a oportunidade voltará a transformar-se em necessidade e o caldo lá voltará a entornar-se. 

Com o tabaco é capaz de ser a mesma coisa. Deixei de fumar e nunca mais toquei num cigarro. Não sei como seria se abrisse uma excepção. Até pode ser que me soubesse mal e me arrependesse para todo o sempre. Contudo, não arrisco. Na altura, quando a memória estava mais fresca e os gestos mecanizados ainda inseridos na habituação, sentia a falta de levar o cigarro à boca, sentia aquela falta de, em determinadas situações, aliviar a tensão através das longas inspirações e expirações. Mas não cedi. Todos os dias, quando entro ou saio no escritório, passo por pessoas que estão num recanto ao ar livre junto à porta que separa o edifício do estacionamento. Fumam. Uns estão sozinhos, meditando, soltando longas baforadas, outros estão aos pares, conversando. É inevitável que aspire algum do fumo que paira no ar. Não me desagrada aquele cheiro embora me incomode um pouco a perspectiva de estar a inalar ar poluído. Nunca me senti tentada a pegar num cigarro e matar saudades. Penso que, se calhar, nunca fui verdadeiramente viciada no tabaco. 

Tenho ideia que isto de uma pessoa ter vícios é coisa genética, uma propensão para se ficar agarrado e, se não for isto, é aquilo. Uma adicção, uma tendência inelutável para a dependência.


E é isto que sinto com os livros. Sei que, para mim, a solução é não me aproximar das livrarias. Sei que, estando eles por perto, caio na tentação, cedo ao vício.

Penso que talvez seja como com os cigarros: eu dizia e sentia e tinha a certeza de que no dia em que decidisse deixar de fumar o conseguiria e que seria para sempre. Só que esse dia levou trinta anos a chegar. Talvez o dia em que ficarei indiferente aos livros ainda esteja para chegar.

Mas reparem nos meus mixed feelings em relação a isto. Parece que digo uma coisa e o contrário. Não consigo ter certezas. E isto porque com os livros não consigo ter opiniões muito racionais e, na verdade, não tenho claro que esta dependência seja demolidora para mim e que fará sentido cortar de vez com a vontade de ter novos livros.

Quando comprei as últimas estantes e reorganizei a biblioteca, deixei aqui, ao meu lado, fora das estantes, uns quantos livros, uma meia dúzia. Entretanto, já se transformou numa pilha bastante jeitosa e, um dia destes, ficará arriscado continuar a pôr os novos em cima dos outros.


Andei de umas para outras, hoje, com música boa na antena 2 enquanto conduzia, momentos tranquilos. Mas, nos entretantos, cenas agitadas, aquele stressezinho macaco que só não é maior porque, com o tempo, aprendi a cultivar um saudável distanciamento. Mas, à hora de almoço, tombei. A culpa foi do Jorge Carreira Maia que veio trazer notícia de um livro novo de Mathias Enard. Em tempos o Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes tinha-me cativado. Com a referência dele a este livro, fiquei curiosa. Fui à livraria só mesmo para ver, para folhear. E para ver se o tradutor era o Pedro Tamen. Pedro Tamen a traduzir um livro é atestado de coisa boa.

Fui. Não estava no escaparate. Procurei na estante, na devida ordem alfabética. Lá estava. Fui conferir. Não escondo a decepção. Não era Pedro Tamen, era Ana Cristina Leonardo. Fiquei na dúvida porque nunca avaliei a qualidade dela nesta vertente mas, enfim, muito má não haverá de ser, sosseguei-me. Ou seja, resolvi apostar. E jurei: só este.


Mas, ainda assim, já que lá estava, até pareceria desconsideração não prestar uma atenção ao que por ali chamasse por mim. Mas sempre bem comportada, selectiva, superior -- ceder a tentações nem pensar. Com a Bússula na mão, melhor orientada não podia estar.

Até que vi Uma lágrima que cega. Na contracapa: 'o vinho sem ti é água' e 'sem ti a água não arde'. Senti que começava a salivar. Folheei. Aquela coceirinha boa da atracção. Casimiro de Brito armado em prosaico. Peguei. É só mais este.

Depois vi o Kaiser icónico em black e white. Paris Photo by Karl Lagerfeld. Folheei. Bom demais. Impossível deixar para trás. Uma coisa mesmo na base do dever.

Já com os três livros, pensei que tinha que fechar o espírito e sair de lá. Mas, no caminho, ainda um outro: Photographers A-Z. Conferi. Útil demais.

E, portanto, aqui os tenho comigo e tenho estada encantada como se tivesse ganho o melhor presente do mundo, como se tivesse descoberto um tesouro raro com jóias muito preciosas. Livros tão bons. Uma companhia tão boa, tão gratificante, uma sensação tão boa. Uma fotografia especial, uma conjugação de palavras tão perfeita.


Penso: se isto é vício, porque é que não me curo? Porque é que não me arrependo?

Mas não sei responder. Quando era ainda muito pequena descobri a emoção que pode vir dos livros e essa emoção não se esbateu ao longo do tempo. É a mesma. É maior.

E é total: não são apenas as palavras ou as imagens. É também a elegância da paginação, é o toque do papel, é o cheiro do papel impresso, é a beleza da capa. É a infindável magia das palavras mas é também o prazer de ver, de tocar o objecto livro.

Gostava de poder partilhar convosco um pouco destes livros mas não é fácil pois um livro é um todo, não um excerto. Se fosse mais cedo talvez, apesar de tudo, o fizesse mas, assim, não o farei.

São caros os livros e percebo bem que, quem não tem muitas posses, não pode dar-se ao luxo de gastar tanto dinheiro neles. Mas depois penso: quantas pessoas não podem comprar livros mas conseguem ter dinheiro para os cigarros? E não faço ideia mas imagino que devem estar bem caros. Portanto, vício por vício talvez seja preferível este dos livros: não faz mal à saúde e fico com preciosidades ao meu dispor.


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As fotografias fazem parte das melhores do The Sony World Photography Awards 2019

E a música é de Max Richter - Mercy 

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Um dia feliz a todos

segunda-feira, julho 30, 2012

Sobre o amor: a grande música, a voz dos poetas, a imagem dos fotógrafos, os corpos em movimento


Que amor não me engane, por favor

José Afonso





                                                                  Cuidado. O amor
                                                                  é um pequeno animal
                                                                  desprevenido, uma teia
                                                                  que se desfia
                                                                  pouco a pouco. Guardo
                                                                  silêncio
                                                                  para que possam ouvi-lo
                                                                  desfazer-se.






                                                         Senão todos algum
                                                         de nós reproduz diversos os mesmos lugares.
                                                         E aquela que entra no verso para o
                                                                                                                  percorrer
                                                         atrás da tua sombra serei eu.






                                                        Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
                                                        e quase ia morrendo com o receio de que ele não
                                                                                                          te coubesse no dedo.






                                                                Adormeço sempre com o teu mamilo
                                                                entre os dedos da minha mão
                                                                E o meu sono é tranquilo
                                                                como o das rosas





                                             Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

                                             Mal de te amar neste lugar de imperfeição
                                             onde tudo nos quebra e emudece
                                             onde tudo nos mente e nos separa





                                              Que nenhuma estrela queime o teu perfil
                                              que nenhum deus se lebre do teu nome
                                              que nem o vento passe onde tu passes.

                                              Para ti eu criarei um dia puro
                                              livre como o vento e repetido
                                              como o florir das ondas ordenadas.


*

A grande dança sobre a grande música
Jirí Kilián coreografa a música de Mozart: Petite Morte (leia-se: orgasmo)

Nederlands Dans Theatre


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Os poemas são respectivamente de Casimiro de Brito (sem título), Fiama Hasse Pais Brandão (com o título: Poetas de Amor), Jorge de Sousa Braga (com o título, respectivamente: Poema de Amor e Sono de Primavera) e Sophia de Mello Breyner Andresen (ambos sem título).

As fotografias são todas da talentosa dupla de fotógrafos Mert and Marcus, ambos nascidos em 1971. O primeiro chama-se Mert Alas e nasceu na Turquia e o segundo chama-se Marcus Piggott e nasceu no País de Gales. São dos mais conceituados fotógrafos de moda da actualidade, com presenças nas grandes revistas de moda e trabalhando para as grandes marcas. Reconhecem a influência de Guy Bourdin, fotógrafo cujos trabalhos já foram mostrados aqui, por várias vezes. A mulher retratada nas duas últimas fotografias é Kate Moss, musa inspiradora de todos os artistas de quem se fala neste género de fotografia.

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E esperando que os meus Caros Leitores amem e sejam amados ou estejam em vias disso, desejo uma bela semana a começar já por esta segunda feira.
 Peace and love.

sexta-feira, junho 01, 2012

Tempos de incómodo, inquietação, fratricídio. Tempo para uma pausa de reflexão. E momentos de beleza e mistério.


Música, por favor

Banda sonora do filme Platoon (Adagio for Strings, Samuel Barber)

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1. Fiquei incomodada por saber que - é certo por regulamentação a que é alheia - Christine Lagarde não paga impostos. Haverá razões para que isso tenha sido decidido mas a minha reflexão aqui vem apenas no sentido de que quando as pessoas se encontram afastadas da realidade quotidiana, acabam por não perceber as dificuldades de quem não tem outro remédio senão viver de acordo com as circunstâncias correntes.



Christine Lagarde, ao falar no pagamento de impostos, deu o chamado tiro no pé (mais um pouco e era na cabeça)


Há na Grécia um problema grave de fuga de impostos mas essa fuga se calhar não é fuga, é assim porque é assim e porque, lá como cá, manda quem pode, obedece quem deve. 

Os grandes isentos em termos fiscais são os armadores e a igreja ortodoxa. Ou seja, não é o zé povinho, não são os pais das crianças com dificuldades. 

Christine Lagarde sabe disso e só por uma desatenção que soou a fria arrogância se saíu com a afirmação que chocou o mundo, respondendo a quem lhe perguntava se não pensava nas crianças gregas, que pensava é que os seus pais deveriam pagar impostos. Pagasse ela impostos e estivesse ela a ser apertada pela máquina fiscal até à asfixia, talvez falasse menos displicentemente dos pais das crianças gregas. Agora diz que foi mal interpretada. Talvez. Ou talvez se tivesse explicado mal. Ou talvez esta instável realidade seja tão incerta que qualquer palavra soará sempre desajustada.

*

2. Num plano totalmente diferente a todos os níveis, fiquei também muito incomodada com o assassinato de Ana Cristina Bívar - ex-assessora de Gabriela Canavilhas, actual subdirectora do IGESPAR, coisa que para aqui não vem ao caso, casada com um deputado do PSD, António Prôa, coisa que também não vem ao caso e mãe de 4 filhos - pelo que leio às mãos do próprio irmão.



O ódio, segundo autor não conhecido (pelo menos por mim)


De vez em quando ouve-se que, em algum lugar recôndito do país, em que nada mais vale na vida que a própria terra que se pisa, por questões que se prendem com terrenos, serventias, partilhas, um homem se desentende com outro e desfere uma sacholada de morte. Agora que numa cidade, com pessoas certamente com vistas mais alargadas, pessoas com vivências diversas e alargadas, por partilhas e desentendimentos familiares, um homem atropele e esfaqueie na rua as próprias irmãs, uma delas, Ana Cristina, até à morte, deixa-me perplexa. O testemunho de um homem que assistiu a tudo é de arrepiar: a aparente frieza, a incontida raiva do irmão. Custa acreditar como irmãos que brincaram juntos em pequenos, que partilharam afectos e memórias, podem tornar-se inimigos a este ponto. É uma coisa brutal que vai para além do meu entendimento, uma desumanização que nada explica. 

*

3. Em dia de incómodo, e mudando de novo para um outro plano, digo que hoje também fiquei incomodada - mas não admirada - por novo erro do Ministro das Finanças. A quebra das receitas fiscais estava a ser mal calculada, foi agora revelado pelo trabalho da UTAO (Unidade Técnica de Apoio Orçamental). Resta saber se foi mais uma nabice ou se foi ocultação de incompetência. A receita aplicada é um fiasco e afinal um fiasco superior ao que tinha sido anunciado. 



Vítor Gaspar explica-se, falando como se estivesse a falar com burros
Ao lado, Passos Coelho assobia para o lado


Tudo isto é aflitivo de mau. E tanto mais aflitivo quanto, apesar do descalabro que os números mostram, os responsáveis pela dita 'receita' continuam a não perceber que é imperioso alterar estas desastrosas medidas.

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4. Hoje estive a ler 'Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos' da autoria de Tony Judt. Há vozes lúcidas com quem sempre se aprende e Tony Judt, infelizmente já desaparecido, era uma delas. É importante reflectirmos sobre o rumo que o mundo tomou, sobre o papel das esquerdas, sobre a falência dos modelos a que estávamos habituados.


Tony Judt quando ainda não era prisioneiro do seu corpo


A ver se amanhã consigo avançar um pouco mais na leitura para tentar aqui dar-vos conta de alguns dos aspectos abordados. 

Para vos dar o mote, transcrevo já hoje as primeiras palavras: Há algo de profundamente errado na maneira como hoje vivemos. Durante trinta anos considerámos ser uma virtude a procura da satisfação material. 

E, mais à frente A qualidade materialista e egoísta da vida contemporânea não é intrínseca à condição humana. Muito do que hoje parece 'natural' remonta aos anos 80: a obsessão pela criação de riqueza, o culto da privatização e do sector privado, as crescentes disparidades entre ricos e pobres. E sobretudo a retórica que vem a par de tudo isto: admiração acrítica dos mercados sem entraves, desdém pelo sector público, a ilusão do crescimento ilimitado. Não podemos continuar a viver assim.

*

5. Para não ser apenas matéria soturna, deixem que vos diga que, apesar das inquietações e inseguranças, nada deve fazer-nos esquecer que ainda há, e sempre haverá, momentos de tranquilidade e beleza. Podem não passar de fragmentos passageiros, de breves instantes, de palavras soltas, de uma sombra que escorre por uma parede, de gestos, de sorrisos. Mas que valem por eternidades, que valem como bálsamos.



O relógio está fixo nas 3:20. Mas o tempo passa devagar nos veleiros brancos que cruzam o rio, na elegância da ponte Vasco da Gama que se baixa para acariciar as águas. O tempo passa devagar para que o apreciemos com vagar.


Água, quando dormes - deusa
horizontal
invadindo lentamente as terras secas
de quem fui antes de me deitar
contigo. Água e boca.



Das belas e arruinadas paredes do Ginjal saem, por vezes, seres aluados. Esta gata negra de olhos verdes andou atrás de mim e deixou-se fotografar em várias posições, arisca e tentadora. Seres mágicos e belos num local mágico e belo.


Ando por aqui a ver o mundo
e só vejo buracos e ruínas. Pudesses tu regar
as folhas secas que me invadem o sexo
com o teu mel   com as tuas lágrimas.


***

Os poemas acima são de Casimiro de Brito e podem ser lidos no livro 'Amar a Vida Inteira'

E, por falar neste belo livro, se estiverem para isso, gostaria de vos ter lá no meu Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras voam, cheias de um amor que voga no rio, em torno de um outro poema deste livro e ao som de Händel.

***

E tenham, meus Caros Leitores, uma bela sexta feira. 

Tentem, meus Caros, descobrir a beleza à vossa volta para que ela atenue os incómodos que, de vez em quando, surgem por aí.

quarta-feira, maio 23, 2012

Miguel Relvas e a vida privada, Álvaro Santos Pereira e o coiso, Vítor Gaspar e os números ao lado, Passos Coelho e os desempregados e as inúmeras oportunidades. Stop. Mudança de cena. Stop. Agora coisas com interesse: Casimiro de Brito e 'Amar a Vida inteira'


Meus amigos, com as respostas aos comentários e com o que escrevi no Ginjal, estive até agora e já é quase 1 da manhã. Vou, portanto, tentar ser breve.

*
Música, por favor


Quim Barreiros e os Pêlos do Coelhinho

*


O Ministro de quem se fala, Miguel Relvas, aqui provavelmente
recebendo um clipping telefónico do seu amigo  maçon e ex-espião,
Jorge Silva Carvalho,
informaçõezinhas que, ao que parece e a ser verdade o que a direcção do Público diz e
que a ERC irá tentar apurar se é verdade, e segundo se comenta por todo o lado,
 são capazes de dar muito jeito quando quer intimidar alguém


Estava cheia de vontade de vir dizer que acho do além que um ministro ameace uma jornalista dizendo que vai publicar na internet dados da sua vida pessoal (onde os obteve ele?). Mas, tratando-se do nosso bem conhecido Miguel Relvas, essa distinta figura da nossa politiquice nacional, não me espanto.

*


Álvaro Santos Pereira, o ministro do Coiso, da Deseconomia e de outras 'coisas',
aqui a espremer uma borbulha enquanto pensa nos coisos


Estava também cheia de vontade de vir dizer que acho do além que o Ministro da Economia, do Emprego e mais não sei do quê, ao referir-se ao 'desemprego' não lhe ocorra a palavra e diga 'o coiso'. Mas tratando-se do nosso bem conhecido Álvaro, esse insigne ministro que tanto tem feito pelo rápido afundanço da economia e pelo descalabro no desemprego, não me espanto.

*


Vítor Gaspar, o ministro cuja carinha não engana e que até hoje ainda não acertou uma
(e que é o único que se espanta por serem todas ao lado), aqui num exercício de fala gestual,
provavelmente referindo-se ao coisinho


Estava também cheia de vontade de vir dizer que o Vítor Gaspar não acerta uma. Todas as estatísticas internacionais (como as da OCDE) e todos os relatórios (como os elaborados pelo Conselho das Finanças Públicas presidido pela insuspeita Teodora Cardoso) mostram que a trajectória que está a ser seguida pelo actual governo são um desastre, que é gente que não sabe sequer fazer projecções pelo que andam sistematicamente enganados e admirados pela desgraça que provocam. 


Passos Coelho e o seu Número 2, aqui, aparentemente,
um assoando-se à mão e o outro preparando-se para lhe  aplicar um justo  correctivo
ou, não sendo isso,
um fazendo um briefing a partir do clipping e outro fingindo que não ouve, tapando o nariz


Mas tratando-se do Governo do inteligente e sensível Passos Coelho que acha que estar desempregado é uma oportunidade (pois é: com tantas oportunidades que há, não é...?) e do governo de rapaziada como o Relvas e o Álvaro ou Gaspar, não me espanto.

E, portanto, assim sendo, não gasto a minha energia com gente que não me espanta e passo para temas mais interessantes.

**

Música, de novo, por favor

Banda sonora do filme O amante 
(baseado na obra homónima de Marguerite Duras)



Intercalando com fotografias tiradas na beira do Tejo e com Lisboa em pano de fundo, vou mostrar-vos três poemas de um livro que hoje adquiri e que é uma preciosidade. 'Amar a vida inteira' de Casimiro de Brito, que ele dedica assim: 'Para os meus filhos. Para as águas que me têm iluminado'. Não é uma dedicatória linda?

Acho que vêm mesmo a propósito depois do romance que começou entre Eva e Tomás.





Quem toca na espuma
mergulha no mar.
Assim comecei a amar-te.
Primeiro uma gota
invisível. Agora
no sexo que me abres
na saliva que me sacia
a terra toda e todos 
os seus rios.





Fui jovem nas danças quando nos teus braços
respirei, no doce vazio que me deixava 
entrar. E cantei. Não fales,
não digas nada se te resta algum segredo
na boca. Deixa-me ser triste,
a tristeza enrouquece-me e já não sei 
se o amor é possível ou já caído.
Fui jovem nas danças.
Não digas nada, se acaso te resta
algum sabor nas bocas mais íntimas
do corpo. Deixa-me respirar
a flor efémera que nada sabe
do seu mistério.




Deus
é o teu corpo
nu. Deusa
quando te dispo
e ajustas
ao meu corpo.
Mulher apenas:
água e vinho
quando te bebo e me
embriago.


***

E, por hoje, é isto. Espero que tenham gostado tanto como eu dos poemas. Acho-os belíssimos. 

E, por falar em poesia.... Bem hoje a coisa estava animada ali para os lados do meu Ginjal e as minhas palavras ajoelham e logo verão porquê em volta de um pouco inocente poema (vou já avisando...) de João Paulo Cotrim. A música é do melhor que há, a bella figlia dell' amore e continuamos, obviamente, com Verdi.

***

Tenham, Magníficos Leitores, uma bela quarta feira. E divirtam-se à grande, está bem?