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quarta-feira, julho 18, 2012

Num dia de grande calor, nada melhor do que ir a banhos. Venham comigo: sintam a doçura da beira do rio e a magia do fundo do mar


Música, por favor

Manuel de Falla - Esteban Sánchez interpreta Nocturno para piano

*

Hoje esteve um calor brutal, pelo menos por estas bandas. Dado que agora pouco tenho saído, hoje, por ter que ir ao médico, resolvi aperaltar-me. Roupa de ir à missa, roupa de ir ao senhor doutor - sou uma mulher de preceitos, como é sabido. Vestido sem alças, claro, porque a elevada temperatura ambiente faz com que não tolere nada nos ombros, tenho que sentir o pescoço e o colo desabrigados. Depois, um chapéu, claro, porque, com este sol, e estando eu a convalescer, tenho que proteger a cabeça, não é?




Para o vestido, escolhi os tons de azul, que me parece ser uma cor refrescante e que sobressai bem com o meu tom de pele, ainda nada bronzeado. Como chapéu, um muito pequeno, muito simples, preto. Uma roupa adequada, portanto, para a ocasião solene (sim, porque ir ao médico ainda tem o seu quê de solene). Poder-se-ia dizer que ia dressed to impress mas não, nada disso, foi apenas a toilette que, dadas as circunstâncias, me apeteceu vestir.

Pelo caminho ainda parei um pouco junto a um jardim, que saudades de estar num jardim.

Contudo, o vestido acabou por resultar um pouco quente. E, então, mal me despachei dos meus afazeres, só me apeteceu tirá-lo e meter-me tna água.

Procurei a beira do rio que estava linda. 




Há quanto tempo não estava por aqui a esta hora, quando a tarde se dissolve no rio, quando as cores doces tingem os rostos das pessoas, dos monumentos, tingem os nossos corações. Soa muito doce? Ainda bem, porque era mesmo uma grande doçura o que eu sentia no ar, respirando a tepidez rosada deste fim de dia de verão.

Esperei, então, que anoitecesse. 




As pessoas começaram a recolher a suas casas, os veleiros iniciavam o caminho de volta e que belos são os veleiros a esta hora do dia, envoltos em dourado, que belos; e eu, pacientemente, esperei que a luz se esvaísse. O que queria fazer não podia ser testemunhado.

Nestes dias compridos de verão, a noite tarda em cair. Mas, então, quando mais ninguém restava na beira do rio, com prazer e vagar, pedi ao meu amor que me desapertasse o vestido, que me ajudasse a despi-lo. Não lhe pareceu nada bem que eu o fizesse ali mas acabou por me fazer a vontade, sabe que eu sou bicho do mar.

Depois do vestido, tirei os sapatos altos, depois o pequeno chapéu. Fiquei então apenas com o corpete e com a armação do vestido. O meu amor disse que eu ficava bonita assim, ali, à beira da água. E beijou-me e o beijo também foi quente e doce.




Não gosta que eu entre no rio quando já é de noite, não gosta. Então, como é cauteloso, atou-me  uma fita para me poder puxar caso eu me distraísse e precisasse de ajuda para encontrar o caminho de volta. Um fio de Ariadne ao contrário.

E, finalmente, mergulhei. Mergulhei, mergulhei e lá em baixo a água é fresca, escura, e a luz que se vê lá de cima é a luz coada dos candeeiros da beira do cais. Nestes dias só aqui é que se está bem, que maravilha.

Desci, desci e vocês já sabem para onde vou, quando desço assim até ao fundo do mar. Mas devem estar intrigados. Se o meu amor estava na beira mar a segurar a ponta da fita dourada, quem me esperava no castelo do fundo do mar? Ou será que, desta vez, ninguém me esperava nas salas atapetadas a limos de veludo e com cortinas de algas douradas?

Se me conhecem bem, saberão que, no fim das longas e venturosas viagens, gosto de me acolher nos braços de quem me saiba envolver.

(Mas, compreenderão que, noblesse oblige, não vou aqui entrar em pormenores.)

Posso apenas contar-vos que, nos espaços submarinos para onde gosto de ir quando quero isolar-me, quando quero tirar de cima de mim o peso do mundo, quando quero refrescar-me, purificar-me, a luz é azul, a beleza é imensa, a quietude encontra-se suspensa, acaricia-nos quando por ela passamos.

E há seres fantásticos, e algumas outras mulheres livres como eu, e crianças anfíbias, puras e alegres que brincam em volta de esferas de luz, crianças cujas mães zelam por perto, frequentemente levando-as ao colo com desvelos mil, e há homens fantásticos que parecem peixes inventados em inspiradas acrobacias, e animais coloridos que dançam como pessoas, e plantas sinuosas de cores extravagantes. Ah meus amigos, como eu gostaria de vos poder levar também comigo.




O fundo do mar é imenso, silencioso, mas, por vezes, ouve-se uma música e não percebemos se sai das esferas de luz que existem no fundo do mar, se sai do castelo de prazer onde me acolho, ou se, extraordinariamente, vem cá de cima, da terra, da terra onde vivem prisioneiras as pessoas que não ousam tirar os pés da terra firme, as pessoas que não ousam libertar-se das sombras, das quatro paredes onde, dia após dia, deixam que a sua existência se vá esgotando. Talvez venha mesmo dali, talvez no meio das pessoas que se deixam moldar, domar, e que não encontram ânimo para fazer nada de diferente nas suas entediantes vidas, talvez haja ainda alguns que procurem a fractura, a música transcendente, a palavra de revolta e emancipação, o voo, a luz, a liberdade, o sonho, o futuro. Talvez.

*

No mar passa de onda em onda repetido
o meu nome fantástico e secreto
que só os anjos do vento reconhecem
quando os encontro e perco de repente




No fundo do mar há brancos pavores,
onde as plantas são animais
e os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
a agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
no desalinho
dos seus mil braços,
uma flor dança,
sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
tem um monstro em si suspenso.



*

A primeira fotografia é de Mario Testino, as duas do meio são minhas, de hoje, e as duas últimas são de Zena Holloway. Os dois poemas são de Sophia de Mello Breyner Andresen, o primeiro não tem nome, o segundo tem por título 'Fundo do mar' e encontram-se ambos na Antologia de nome Mar.

*

Permitem que ainda vos convide a visitar-me no meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa? É que gostaria muito de vos ter por lá, onde as minhas palavras se despedem por hoje, muito tristes em torno de um poema de Ana Marques Gastão. Na música, continuamos, claro, com Béla Bártok.

*

E já é quarta feira. 
Que seja um dia agradável e, caso tenham muito calor, já sabem: metam-se debaixo de água... 
Be happy!

terça-feira, junho 05, 2012

Mergulho até onde as palavras se dissolvem, abstractas. Mergulho e deixo que o silêncio limpe e acaricie o meu corpo


Música, por favor

Ryuichi Sakamoto - Solitude



As palavras parecem-me excessivas. Tanto ruído. Cansam-me. Tantas palavras escorrendo fel pelo canto das sílabas. E tanto floreado inútil. Tanto ruído, tanto, tanto. E tanta vacuidade. Um vazio ignominioso, fútil,  cinzento, amargo, baço, pequenino, vulgar.

Apetece-me o silêncio. Quanto muito algumas palavras muito simples, contidas, essenciais.

Ou, de preferência, palavras abstractas. Ou dissolvidas. Palavras abstractas em solução aquosa.

E, então, penso que mergulho.

Fecho os olhos. Fecho os olhos e sinto-me a respirar. Tomo consciência do meu corpo que respira. Devagar. A superfície do meu corpo respira, silenciosa, e, aos poucos, começo a deslizar dentro de mim própria. Como se mergulhasse. Devagar, em silêncio, atravesso a superfície do meu corpo e deixo-me descer, desço, desço lentamente.

Estou agora dentro de um líquido. Pode ser um qualquer líquido. Talvez água.




O cabelo sobe, prolonga a minha presença na água, sobe como uma medusa silenciosa. E eu desço, de olhos fechados, e a frescura da água começa a invadir o meu corpo. Devagar, a superfície da água abre-se para me acolher. Depois, já quase no fundo, abro os olhos e vejo a água que me envolve, límpida, azul, tão fresca que é quase verde, e vejo o meu corpo que flutua, lento, na água.

Elevo-me um pouco para me aproximar mais da superfície. Vejo então a luz que se funde com a água, e quase toco com as mãos essa mistura feliz, água e luz. Há, então, uma doçura fluida e o meu vestido solto adquire movimentos e subtilezas que só eu e outros seres marinhos tais como eu podemos testemunhar.




by Alix Malka


Faço lentos movimentos e é como se o tecido branco, macio e leve que flutua à minha volta fosse o meu par de dança e eu sinto-me acariciada com desvelada ternura e rodo e, rodando, sou abraçada com uma leveza apenas sonhada, uma etérea carícia, um afago invisível que me envolve lenta, lentamente. 

Em minha volta flutuam palavras soltas, palavras que vêm do princípio dos tempos, intocadas, e ouço a voz silenciosa das águas e fecho os olhos para as sentir, para sentir essa fala abstracta bem junto à minha pele.

Reparo, então, com um assombro quase humano que, no recanto mais profundo, onde o silêncio é mais absoluto, onde a luz ficou retida pelas sombras, onde a água é quase esmeralda, um homem escreve poemas, imparavelmente. E, enquanto o poeta escreve, a sua voz também quase humana, vai dizendo, devagar - quase um murmúrio, numa leve, quase silenciosa toada - palavras puríssimas, bondosas, soltas.



by Jason Taylor


E são essas palavras que eu vejo junto a mim, enfeitando os meus cabelos, beijando os meus seios, sorrindo junto aos meus lábios, flutuando entre as minhas pernas permissivas.

Sinto, então, que os meus cabelos flutuam, soltos, as minhas vestes quase se soltam do meu corpo e em minha volta, como pássaros iniciais, e as palavras envolvem-me, tocam-me, livres, livres eu e as palavras e as águas em que mergulho.



by Zenna Holloway


Não há diferença, então, entre esta sensação de liberdade e doçura e a de voar num espaço aberto, sobre os montes, sobre os rios, juntamente com outros pássaros. Não há peias, não há pesos e a água que me envolve é limpa, transparente, suave. Não há corações intranquilos, não há olhares duros, não há mãos fechadas: há apenas uma leveza absoluta, uma luz fluida e sedutora, o som silencioso das palavras que voam nestas águas abstractas.



by Alix Malka


Depois, quando o meu corpo e a minha alma se encontram limpos, saciados, livres, começo a desprender-me das águas, solto as vestes, despeço-me da limpidez, da pureza inocente e primordial e, lenta, lenta, lentamente,  regresso à superfície.

Depois, com educada paciência, volto a vestir-me.



by Alix Malka


Passado pouco tempo já me poderão ver, de novo, camuflada, protegida, envolta em correntes e raízes, apta a enfrentar a selva de palavras ruidosas, amargas, baças, vulgares. Pronta, portanto, para mais um dia.

***


Reflections in Pink - Iara Mandyn



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Hoje, lá no meu Ginjal e Lisboa escrevi um texto que tem muito a ver com este e que me deu, também, muito prazer a escrever. As minhas palavras, por lá, deslizam num veleiro em volta de um poema de José-Alberto Marques. Acompanha com um dueto fabuloso, Renée Fleming e Cecilia Bartoli, e, claro, é ainda Mozart, desta vez As Bodas de Figaro. Se estiverem para isso, gostaria muito de vos ter também por lá.

***

E, por hoje, é isto. Tenham, meus Caros Leitores, uma bela terça feira.

Bons mergulhos!