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quarta-feira, fevereiro 16, 2022

Tá lá? É da guerra? Aqui fala do inimigo.

 

Ia dizer que a máquina de guerra tem os motores a aquecer na expectativa de encomendas das valentes mas que a malta não é maluca a ponto de desencadear uma guerra só para fazer a vontade aos mesmos de sempre. Eles e os do petróleo. Ia dizer... mas já não digo nada. 

Não hei-de esquecer-me de estar numa reunião daquelas que juntava umas quinze pessoas em volta de uma magnífica mesa ovalada em nogueira e de se falar na previsível queda do BPP e de 'a ver se um dia destes não vai o BES' e eu dizer e insistir que o BPP ainda vá que não vá embora me custasse a crer mas que o BES e o GES eram too big to fail: impossível, as quebras haveriam de ser brutais, impossíveis de acomodar, que o risco da queda era maior do que as chatices de limpar o que houvesse a limpar. Insistiam que a coisa estava a ficar feia, que cuidado com o que andava a passar-se, que algumas guerras intestinas às vezes acabavam mal e eu que aquilo era uma daquelas conversas fatalistas que podiam resultar mal, que começa um a dizer isso, outro repete, um terceiro ouve dois e faz-se eco e que, às tantas, o que não era nada passava a ser um big buraco. Por fim, estávamos dois em posições bem definidas: ele a a dizer que eu não me fiasse na sensatez dos políticos e de alguns decisores e eu a dar a entender que ele era um conservador fatalista, um pessimista daqueles que ajuda a espalhar o medo, um descrente da democracia. 

Algum tempo depois andava a fazer-se as contas às imparidades, à dimensão do risco, a avaliar protecções e salvaguardas, a analisar os colaterais, a encarar a forte probabilidade de encaixar vultuosas perdas, os advogados e consultores e auditores a trabalharem a todo o gás, todos atordoados com o que estava a acontecer.

Nunca ele me lembrou: então? quem é que tinha razão? Mas eu, que sou humilde, várias vezes o referi: tinha razão e eu não, enganei-me redondamente, nunca pude sequer imaginar tal coisa.

Depois disso ainda mais incerta fiquei nas minhas certezas. Juraria que não vai haver guerra coisíssima nenhuma. Os russos e os americanos podem parecer parvos mas burros não são. Ou o contrário: podem parecer burros mas parvos não são. 

A gente vê aqueles tipos, um com cara de pero saloio, a pares, numa mesa com vários metros de comprido, um em cada ponta, numa sala com uma decoração à Monty Python e fica à espera que apareça um conselheiro a andar com passo maluco ou um psiquiatra alucinado a recolher um dos que ali está, feito parvo, a dizer coisas sem qualquer sentido. 

Mas isto sou eu, tolhida pela lembrança de todos os meus muitos anteriores juízos errados, cheia de incertezas. 

E se, apesar de tudo, estou uma vez mais enganada e um destes dias acordamos com guerra às portas de casa? 

Não dá para acreditar, temos todos mais que fazer, certo....? 

Mas, com tanto doido varrido por aí à solta, às tantas estou eu aqui no maior cepticismo, armada em engraçadinha, achando que anda por aí muita histeria, os media todos empolgados, a acharem que não precisam de inventar assunto, com os comentadores do corona e da vacina e do estado de emergência, os mesmos das eleições e da seca e das alterações climáticas, agora já especialistas em geopolítica... e já por aí anda a tropa em treinos, os campos de tiro todos numa efervescência, tiro aos pratos a doer, todos a marcharem para aprenderem a disciplina de marcar passo para o mesmo lado...


Na volta até já aqui, pelo burgo, anda malta em exercício. O nosso charmoso Vice-Almirante capaz até de já andar a treinar task-forces para desentupirem os canhões, a malta dos paióis, Tancos included, a fazer contagem de munições (e, se não houver balas, que se usem supositórios) e o nosso ubíquo Marcelo já a mandar recados motivacionais aos soldados e, todo enciumado, a mandar bocas ao Putin por não o ter recebido na big mesa oval. 


Vamos lá a ver. Não há pachorra para palhaçadas, invasões, tretas que já só encaixam em cenas para rir. Era só mesmo o que faltava. 

Portanto, repito: não acredito. Mas...

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Desejo-vos um dia feliz
Saúde. Bom senso. Alegria. Esperança. Paz.

sábado, julho 01, 2017

Pois eu, com vossa licença, a propósito do roubo de munições do paiol de Tancos,
se fosse ao Costa, demitia o Ministro da Defesa Azeredo Lopes.
E, naturalmente, se eu fosse o Ministro, antes que fosse preciso chegar a esse ponto, demitia-me eu.
[A menos, claro, que queira suceder ao Solnado nas suas rábulas da guerra]

E o Presidente Marcelo, Comandante Supremo das Forças Armadas, agora não tem nada a dizer...?


Não sou de reacções emocionais que se sobreponham à racionalidade -- ou, pelo menos, acho que não sou. Acho que se devem perceber as razões, avaliar as responsabilidades, perceber se há ou não negligência ou culpa antes de desatar a clamar pelo pescoço de alguém. Até prova em contrário, toda a gente é inocente e há causas naturais de tal intensidade ou extensão que os meios dimensionados para situações dentro da média não podem dar resposta -- por exemplo. Ou seja, não é o primeiro que caíu em desgraça junto de alguns jornalistas ou que se chegou à frente numa situação de tragédia que deve arcar com culpas que, se calhar, não são de ninguém em particular.

Por isso, não condeno na praça pública José Sócrates já que ainda nem acusado foi (quanto mais condenado) e, também por isso, não ando para aqui a pedir a demissão da ministra Constança Urbano de Sousa.



Contudo, há situações e situações. Por exemplo, acho que o que se passou nisto do roubo de material de guerra do paiol de Tancos é de tal forma grave, aberrante, incompreensível e perigoso que acho que o responsável pela área deve assumir as suas responsabilidades. Deve. Não digo que 'tem que', digo que 'deve'. É uma questão moral face à gravidade e ao risco potencial do que está em causa.

Numa altura em que se sabe bem da difusa ameaça terrorista, não posso entender nem aceitar que armazéns carregados de munições de toda a espécie e feitio estejam sem videovigilância nem, tão pouco, equipados com um banal alarme. Os meliantes entraram, circularam, roubaram tanta e tanta coisa e não tocou uma campainha, não disparou uma buzina, não há um vídeo, não há nada. Um paiol com uma protecção à Pai Adão. Surreal. Ridículo. Indesculpável.


Se não tinham dinheiro para montar um sistema capaz, fizessem um contrato com a Prosegur ou com a Securitas. E pode parecer que estou a ironizar mas não estou. Proteger uma casa, um armazém ou o que for não é nenhuma fortuna. Não é, mesmo. E que fosse. Os riscos de haver granadas, lança-morteiros, munições de calibre não sei quantos e sei lá que mais nas mãos sabe-se lá de quem são imensos. E imensamente graves.

Pode ser que a culpa seja dos militares. E os responsáveis bem podiam pôr as barbas de molho. O chefe do Estado-Maior do Exército, general Rovisco Duarte, deveria ser o primeiro a aparecer perante o País a assumir as responsabilidades, batendo em retirada para que alguém mais confiável viesse ocupar o seu lugar. Mas, independentemente disso, a responsabilidade primeira por tão absurdo e grave roubo é política -- e é do Minsitro.

Tenho pena mas é isto. Não confio num ministro em cujas barbas é cometida tal coisa. E pode ele nem ter barbas ou não ter estado lá dentro a facilitar as movimentações dos ladrões: não interessa. Com uma coisa destas não se brinca e os paóis têm que estar bem guardados, à prova de bala --  e não vulneráveis e desprotegidos como provaram estar. Que se ande em convénios internacionais a debater a segurança, em encontros com os congéneres europeus a traçar planos contra o terrorismo e que, afinal, não se cuide de garantir que todo o material sensível à guarda das Forças Armadas está seguro parece-me de uma gravidade extrema. Ou seja, e uma vez mais, lamento dizer isto mas não tenho como não dizê-lo: o ministro Azeredo Lopes deveria sair pelo seu pé ou, se não, então, o Costa deveria indicar-lhe o caminho da porta. 


(E, de carrinho, idem com o responsável pelo paiol, o responsável pelo quartel... e todos os que estão na linha hierárquica até chegar ao general Rovisco Duarte).


E, Marcelo, sempre tão lesto a comentar tudo, agora fica caladinho...? 

Não é ele o Comandante Supremo das Forças Armadas?


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Isto, claro, porque, não fazendo isto, ficar-se-á em risco de as Forças Armadas passarem a ser alvo de chacota e de o pessoal civil passar a ter um medo danado dos militares que guardam as armas e armamentos e da gandulagem que lá vai aviar-se nas calminhas.

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Nem digo quem é que estou a ver a fazer figuras destas.



Só que agora o caso não é para rir.

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