Mostrar mensagens com a etiqueta Meryl Streep. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Meryl Streep. Mostrar todas as mensagens

domingo, maio 03, 2026

Vou reincidir, claro que vou. Agora numa era em que não vivemos sem telemóveis.

 

Não vou a um cinema há já algum tempo. Perdeu a mística. Em vez de cheiro a cinema, cheira a pipocas. 

E os cartazes dos filmes já nada me dizem. Muita imagem de violência, de bonecada. Olha-se para aquilo e adivinha-se a chinfrineira, perseguições, derrapagens, violência, gente a saltar de prédios, ou seres do outro mundo, monstros, zombies, macacadas. E eu gosto de filmes normais, com uma história como deve ser, e com sossego, sem um ruído que fira as sensíveis membranas dos meus tímpanos e sem imagens que firam a minha inteligência e a minha sensibilidade.

Durante muitos anos, não perdia um bom filme. Era daquelas experiências imersivas que me cobriam de prazer estético e intelectual.

Mas não aprecio apenas os filmes assentes em obras literárias de boa qualidade, aprecio também filmes de humor, comédias ligeiras, vitaminas de boa disposição.

O Diabo veste Prada foi desses filmes ligeiros, bem dispostos, com um conjunto de boas interpretações, com um figurino de se lhe tirar o chapéu, e em que a coesão de tudo carimbava o sucesso garantido.

Como ontem aqui referi, duas décadas decorridas é com expectativa que vejo que os mesmos actores voltaram a juntar-se para se divertirem e nos divertirem a nós.

Diz Meryl Streep, na conversa que abaixo partilho, que, vinte anos depois, este é um mundo novo. A prevalência das comunicações instantâneas, o telemóvel como parte integrante da nossa forma de viver, com tudo o que esse objecto comporta, torna, hoje, difícil perceber como conseguíamos viver sem ele.

Conseguíamos.

Mas com severas limitações - reconheçamos.

As situações de atrapalhação de que mais me recordo por não ter como me comunicar prendem-se com aeroportos. E peço desculpa aos que me acompanham há mais tempo mas vou repetir-me.

Uma aconteceu numa era em que já os havia de forma permanente mas em que, por distração pura ou, melhor, por ainda ser um hábito relativamente recente e ainda não era normal tomarmos logo nota dos números uns dos outros, não tomei nota do número de nenhum dos que estavam comigo na viagem.

Tínhamos feito escala em Bruxelas e, não dando tempo de ir à cidade mas sobrando tempo até à hora de embarque, resolvemos dar uma volta pelas lojas. Entrámos na mesma, e creio que éramos três ou quatro, já não me recordo ao certo. Como sempre, perdi-me nos perfumes, talvez também nos chocolates. O que sei é que, quando fui pagar, já não os vi. Não me preocupei, pensei que estariam lá fora à minha espera. Não estavam. Mas ainda era cedo. Fui dar outra volta, tinha tempo. Passado um bocado, ouvi chamar para o voo e fui andando. Pensei que estariam na salinha junto à porta de embarque. Não estavam. Dei uma volta por ali a ver se os via. Nada. Pensei: 'Não iam entrar sem esperarem por mim...'. Voltei para trás, outra vez pelas free shops. E se aquele aeroporto é grande e uma barafunda de gente... Nada, desaparecidos. Só pensava que eles deviam estar como eu, a ver se me descobriam. E eu sem poder contactá-los. Por fim, já a última chamada. Pensei: 'Não vou perder o avião.'. Mas depois pensava: 'E se me meto no avião e eles ficam no aeroporto à minha procura?'. Fiquei ali mesmo atarantada sem saber o que fazer. Até que, in extremis, resolvi mesmo entrar.

Mal entrei no avião, vi-os. Fizeram de conta que não estavam ansiosos a pensar que eu ficar em terra. Sentei-me ao lado deles, como se não fosse nada. E eles nada me disseram, também como se nada se tivesse passado. Só depois soube que, na primeira loja, tinham deixado de me ver, pensaram que eu já tinha saído da loja sem esperar por eles. E que nunca mais me tinham posto a vista em cima.

Parece uma história ridícula nos dias de hoje, em que obviamente toda a gente se contacta com toda a gente a toda a hora.

Mas a pior situação aconteceu em Londres (e já a contei mais que uma vez pois foi quase traumática), longe ainda de se sonhar que um dia existiriam telemóveis e que ficaríamos dependentes deles. Tínhamos voo para cá a seguir ao almoço. Era eu e dois colegas. Eu, como sempre, queria trazer roupinhas para os miúdos. Era o tempo da Mothercare e eu adorava aqueles modelos, aqueles tecidos, uns veludos muito macios, uns impermeáveis muito alegres, aquelas cores. Dali, ainda fui espreitar o Marks & Spencer mas só por ir, porque nunca fez o meu género, parecia-me tudo roupa à velha e se nem agora eu gosto de me vestir à velha, imagine-se naquela altura. Ou seja, só lá fui perder tempo. Depois fui até à Selfridge para trazer uns brinquedos. Entretanto, havia a feira de artesanato afegão com carpetes maravilhosas. Trouxe uma grande e um tapete normal, ambos bordados à mão, motivos muito ingénuos, numas cores muito lindas. Por fim, tal o volume e o peso dos sacos, já não conseguia quase andar. Tinha combinado encontrar-me com eles em Westminster. E era suposto irmos à catedral, dar uma volta por ali, almoçarmos, e irmos para o aeroporto. Mas, carregada como estava, era impossível fazer aquele programa, carregada com a minha mala e mais com todos aqueles sacos e sacos, alguns ultrapesados. Portanto, não apenas não levantei a minha mala como também deixei essas compras no hotel. Pensei que, se fosse preciso, comia uma coisa rápida ao almoço para ter tempo de ir ao hotel e do hotel para o aeroporto. Mas isto já a stressar e a correr. Deixei a carga e meti-me no metro. Saí na estação, fui andando aceleradamente e, às tantas, perguntei a uma pessoa se Westminster ainda era longe. A pessoa respondeu-me, devolvendo-me uma pergunta: 'Westminster Abbey ou Westminster Cathedral?'. Ainda me lembro bem do calafrio. Se tínhamos combinado qual era, eu não me lembrava. Não fazia ideia. Lembrei-me de perguntar a essa pessoa qual a mais conhecida. Pergunta estúpida, claro, são ambas. Não me recordo da resposta. Só sei que lá fui, numa pilha de nervos. Se não os descobrisse, o que fazia? Quando me aproximei, uma multidão. Nestas coisas, a minha aflição nem era tanto eu ficar perdida deles pois sabia o caminho para o hotel e sabia como ir do hotel para o aeroporto -- era, sobretudo, pensar na preocupação que ia causar-lhes a eles, sem saberem de mim e sem saberem se deveriam embarcar para Portugal, possivelmente deixando-me para trás, em Inglaterra. Reparem: sem termos como nos comunicar! Mas os deuses protegem-me e, no meio daquela barafunda de turistas, eis que os vejo a eles, tranquilamente conversando um com o outro enquanto olhavam a ver se me viam. 

Claro que eles já estavam com a sua pequena valise, sem compras nenhumas, prontos para dali seguirem para o aeroporto, e eu ali estava sem mala nenhuma. Já contei antes que o esforço que fiz depois para, sozinha, conseguir carregar aquilo tudo é algo que não esqueço. Pensei que fisicamente o meu corpo não conseguia. Nem era os meus braços não terem força, era mesmo o meu coração não aguentar. Quando olho para a carpete de lã, pesada, que ainda hoje aqui está no activo, mais o tapete também de lã, penso que só isso já era obra. Agora em cima desse peso enorme, casacos e casaquinhos, calças e calcinhas, camisolas e camisolinhas, brinquedos e ainda mais a minha mala, nem sei mesmo como consegui. Só que não podia parar e descansar pois eles já tinham ido para o aeroporto e eu ainda andava naquelas bolandas a ter que lá chegar, quase sem conseguir dar passo. E a não conseguir combinar com eles irem esperar por mim à porta para me ajudarem. Nada. Incontactáveis.

Por isso, de facto, viver num mundo em que toda a gente se comunica, por voz, por escrito ou por imagem, com toda a gente, é uma vivência tão radicalmente oposta à que era antes que creio que já nem dá para acreditar.

Seja como for, resumindo e concluindo, e pedindo-vos desculpa por me ter desviado tanto, claro que será de gosto que irei ver O Diabo veste Prada, 2.

O elenco de ‘O Diabo Veste Prada 2’ reflete sobre o original.

Meryl Streep, Anne Hathaway, Stanley Tucci e Emily Blunt falam sobre a sequela de "O Diabo Veste Prada" e o que é preciso para ser a chefe.


Desejo-vos um belo dia de domingo
E para quem é mãe, um dia muito feliz. Para quem não é, um dia igualmente feliz.

sábado, maio 02, 2026

Não é por nada mas, cá para mim, ela tem pacto com o diabo para se manter como se mantém...

 

Acho que a primeira vez que a vi foi no Kramer contra Kramer, num cinema pequeno, aqueles cinemas-estúdio, que ficava encavalitado creio que na Estação dos Restauradores. Tenho ideia que havia uma escada num dos lados. Será que estou enganada? Acho que não, que havia ali um cinema. O filme era muito bom, ela e o Dustin Hoffmann numa terrível disputa pela guarda do filho. Também me lembro dela num filme que me marcou, com uma componente literária como agora já é raro, A Amante do Tenente Francês. E o tocante, tocante A escolha de Sofia

Meryl Streep sempre extraordinária. Fugindo aos cânones da beleza mais formal, Meryl sempre se impôs pela contenção, pela naturalidade, pela forma como se confunde com as personagens que representa, encarnando-as. 

E, ao mesmo tempo, num registo sempre de grande simplicidade e espontaneidade, sem medos ou meias palavras, sabe fazer valer a sua presença e a sua voz para se posicionar ao lado da democracia, da liberdade, do respeito pelos direitos humanos. 

Nesta entrevista  -- com o sempre-alvo-a-abater (pela família Trump, essa familiazinha de horrores) Jimmy Kimmel --, quando disse que o primeiro filme O Diabo Veste Prada já tem 20 anos fiquei parva. 

20 anos? Já passaram 20 anos? Como assim? Lembro-me tão bem de ver o filme numa sala de cinema. E lembro-me de apreciar como a personagem representada pela Anne Hathway evoluiu na forma de se vestir e lembro-me de pensar que a minha filha também deveria ficar lindamente com aquelas roupas. 

É chiché, claro, mas, caraças, o tempo passa mesmo a correr. Vinte anos...

Agora uma coisa também posso dizer: estou como ela quando me perguntam a idade dos meus netos, tenho que pensar para não me enganar, pois, como ela refere, estão sempre a fazer anos e estragam-nos a carreirinha que tínhamos fixado. Não há muito, quando perguntei a uma conhecida com quantos anos estavam os netos, respondeu prontamente: 'Há muito tempo que desisti... não faço ideia...'. Depois ficou a pensar e disse que achava que o mais novo tinha seis e o mais velho dezoito e que, portanto, os outros onze andavam pelo meio. Tinha desculpa, são muitos. O mais engraçado foi o avô do meu genro que, quando lhe perguntei quantos bisnetos tinha, se riu e disse que não fazia ideia, que estavam sempre a nascer. Acho que alguém disse que já deviam ir em trinta e tal. Nesse caso nem eram as idades, era mesmo a quantidade de bisnetos.

Mas deixo-vos com a entrevista e com o bom humor e a genuinidade de Meryl Streep. E reparem como se mantém bonita, elegante, jovial. O diabo não apenas veste Prada como a tem poupado.

Meryl Streep fala sobre a excitação com O Diabo Veste Prada 2, ligar a Lady Gaga e ser avó

Meryl fala sobre homenagear Stanley Tucci e Emily Blunt na cerimónia de entrega das suas estrelas no Passeio da Fama em Hollywood, ser a maior queixosa do mundo, ter seis netos, ser um pouco como Miranda Priestly como avó, ler-lhes Harry Potter, imitar sotaques quando se fala com as pessoas, O Diabo Veste Prada 2, a expectativa mundial pelo filme, ligar a Lady Gaga para lhe perguntar se participaria no filme e se gostaria de ser presidente algum dia.

quinta-feira, abril 09, 2026

Receita anti-Trump

 

Não consigo ter disponibilidade anímica para aceitar que o mundo inteiro fique em suspenso das decisões de um demente que deveria estar internado, e que não faça nada. Milhares de pessoas assassinadas, uma destruição tresloucada e absurda, o mundo atirado para uma instabilidade descontrolada, os combustíveis em preços loucos o que vai puxar todos os preços para cima, a ver se ainda não nos vemos enterrados numa recessão, a vida a andar para trás, os terroristas a parecerem sensatos e os supostos civilizados a mostrarem-se uns terroristas do pior que há -- e aparentemente parece que ninguém consegue fazer nada de útil para nos salvar desta gaiolas de malucos.

Se calhar daqui a nada ainda mostro um ou outro vídeo em que se fala sobre o assunto, mas, para já, não tenho saco. Chega a uma altura em que só me apetece dar um murro na mesa: já chega. Já chega de tanto estúpido. Já chega de tanta depravação. Caraças, já chega. 

No Instagram mostro os meus passeiozinhos pelo campo, falo de coisinhas nenhumas, e só me apetece alhear-me dos ventos insalubres que nos assolam. Ando pelo meio do verde, à chuva e ao vento, outras vezes ao sol, a varrer em fato de banho, e estou na maior. Aqui nem me apanha, penso eu, como se fosse um refúgio à prova de todo o mal do mundo.

Agora, por exemplo, entretenho-me de gosto a ver o encontro de duas mulheres incomuns. Meryl Streep já interpretou Anna Wintour e, quando se encontram, não apenas revelam uma cumplicidade quase enternecedora, uma afinidade de percepções, como mostram que se admiram. E é bom a gente deter-se em momentos assim. Eu, pelo menos, assim acho. Ou melhor, preciso de coisas assim.

Caraças, haja alguma serenidade, algum gosto em conversar, em partilhar experiências.

Meryl Streep encontra-se com Anna Wintour na Vogue

A dupla tem uma conversa franca e abrangente, repleta de humor e perspicácia. Muitos assuntos são revelados, desde os Papéis do Pentágono e a investigação de Mueller, o assédio sexual e o empoderamento feminino, até ao que Meryl e as filhas conversam à mesa de jantar.


quarta-feira, abril 08, 2026

Conhecemo-nos...?

 


Um encontro casual no elevador entre Anna Wintour e Miranda Priestly

(Afinal, iam fazer a capa da Vogue)


terça-feira, junho 25, 2024

As muitas Meryls
-- com orégãos e com um animal-mistério a despropósito

 

Não me lembro se a primeira vez que a vi foi no Kramer vs Kramer ou se foi em A amante do tenente francês. Sei que, desde sempre, fiquei fascinada com a sua capacidade de encarnar personagens, sempre com uma intensidade tal que parece que ela é os personagens que representa. Mas, ao mesmo tempo, parece haver nela uma leveza extraordinária, uma graça, uma espontaneidade. Podem ser exigências díspares, pode ser necessário ser o oposto do que foi na última vez mas, em todos os seus papéis, ela está inteira, de corpo e alma.

E agora que estou a escrever, lembrei-me do The deer hunter (que em Portugal acho que era 'O caçador') que creio que também foi dos primeiros. Ou em Manhattan?

Lembrar-me-ei sempre dela no pungente A escolha de Sofia ou no terno e romântico As pontes de Madison County ou no maravilhoso Africa minha ou no divertido O Diabo veste Prada. Ou a fazer a incrível Margaret Thatcher na Dama de Ferro.

E noutros.

Além disso, Meryl Streep, 75 anos feitos esta semana, não é apenas um nome grande do cinema (e também canta...): ela tem sabido usar o seu prestígio para divulgar causas como a da democracia e da cidadania informada ou a dos direitos das mulheres no cinema e não só.

O vídeo abaixo mostra-a em diversas actuações e numa gostosa entrevista.

(Dá para pôr legendas, claro, mas, neste caso apenas daquelas geradas automaticamente o que, já se sabe que, por vezes, são sai lá muito bem)

Meryl Streep: "The Many Meryls" | 60 Minutes Archive


___________________________________________

Enquanto ando, não resisto a ir apanhando mais uns pezinhos de orégãos. Tão bonitos. Hoje até me lembrei de que se um dia voltar a casar-me poderei levar, como bouquet, um molho de orégãos (e, no copo de água, servia caracóis, claro).


__________________________________________________

Já agora um mistério. O meu marido, quando andou a caminhar de manhã, encontrou outra vez um esquilo. Estava a andar. Por aí, começa a ser normal. Mas diz que, quando ia a passar ao pé de uma casinha de arrumos que temos cá em cima, não muito longe da casa, ouviu um barulho e, quando se virou, viu o vulto de um bicho grande que se enfiou no meio dos arbustos. Diz que lhe pareceu maior que esquilo ou gato mas não conseguiu perceber o que era.

Foi numa altura em que o nosso cãobeludo de guarda estava em casa pelo que não houve perseguições. 

Resta saber, pois, que bicharada por aqui anda. 

Hoje, por exemplo, estava a cozinhar e no tronco da figueira que está à frente da janela passeava-se um animal que parecia vindo dos Galápagos, nem sei se seria lagarto, se big lagartixa esbranquiçada e escamosa com umas patas de impor respeito. Ou, quando ia lá em baixo, senti o que me faz arrepiar, uma bicha a rabiar no chão, ondulando: uma cobra.

_____________________________

Dias felizes

segunda-feira, maio 08, 2023

Meryl

 

Penso que a primeira vez que vi Meryl Streep deve ter sido em Kramer contra Kramer. O filme era muito bom e a Meryl e o Dustin Hoffman tinham um desempenho também muito bom, tocante.

Tenho ideia que o vi numa salinha pequena que creio que havia na estação dos Restauradores, lá em cima. 

Tudo tão longínquo que chego a duvidar da minha memória. 

Pode acontecer que já a tivesse visto antes em Deer Hunter (que não me lembro se vi no S.Jorge ou noutro cinema, ou em Manhattan (que creio que vi no Estúdio, que penso que funcionava no Império -- creio que o Satélite era no Monumental). Que vi estes filmes vi mas não sei estabelecer a sequência.

Mas a cronologia aqui é irrelevante. O que me interessa é que fiquei logo rendida ao talento dela.

Por essa altura, mais coisa menos coisa, também fiquei maravilhada com A Amante do Tenente Francês, ela e Jeremy Irons.

Mas depois veio A Escolha de Sofia. Já tinha lido o livro e tinha ficado impressionadíssima. Por isso receei ver o filme. Mas fui ver. E não vim decepcionada. De tal forma que agora, se ouvir falar n'A escolha de Sofia, é em Meryl Streep que imediatamente penso.

A quantidade de filmes em que a vi e em que sempre a achei extraordinária não sei dizer.

Um em que imediatamente penso quando quero pensar num filme inesquecível é o Out of Africa e, aqui, também, o filme é indissociável dela. Magnífica.

Como pessoa, do que tenho visto, sempre conseguiu manter-se normal, sempre conseguiu manter-se afastada do 'estrelato', nunca a vi deslumbrada. 

É extraordinário como ela consegue absorver de tal modo a personagem que tudo flui tão naturalmente que parece que ela, Meryl, se dilui. E isso acontece em qualquer registo. As mulheres que ela representa em As Pontes de Madison County ou em O diabo veste Prada não poderiam ser mais diametralmente opostas. E, no entanto, parece que são pessoas que existem de verdade e cuja existência se justifica de per se, encarnações verídicas de Meryl.

Depois de um domingo maravilhoso, em família, um domingo ameno, com um sol afável, as buganvílias a cobrirem-nos de cor, os pássaros a voarem e a cantarem no meio das flores, apetecer-me-ia pôr-me para aqui a falar de cada uma das pessoas que aqui hoje estiveram, de como me sinto feliz por elas. Feliz, abençoada, agradecida. Mas temo repetir-me e, por isso, hoje vou à boleia da sugestão do Youtube que me mostrou os vídeos que partilho mais abaixo, com excertos de uma entrevista já com alguns anos mas que é bastante actual pois tal como Meryl Streep é intemporal, também as suas palavras o são.

Mas, antes, apetece-me rever os trailers de alguns dos seus filmes maiores.

A fotografia lá em cima é da autoria de Annie Leibvovitz.








oooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo








__________________________________

Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Boa sorte. Paz.

segunda-feira, dezembro 20, 2021

Desta vez sou eu que respondo ao Questionário Colbert

 


Sanduiche preferida?

Às vezes, ao almoço, comia uma sandes. Agora já não, ando a ver se como menos pão. Adoro pão mas quero ver se não engordo mais do que a conta. Mas, a escolher uma que comesse de bom grado, talvez feita em pão de sementes com alface, uma fina rodela de tomate, ovo cozido, salmão fumado. Também gosto de sandes com ovo mexido e, como verde, canónigos.

Coisa minha que deitaria fora?

Um chinelo roído (pela fera felpuda, claro). Ainda não deitei pois o outro está bom. Chateia-me deitar fora coisas que estão boas. 

Animal mais temido?

Cobra. No campo há algumas. Quando vou a andar e ouço daqueles barulhinhos tão típicos no campo, por vezes penso que ficaria assustada se uma viesse na minha direcção. Vi uma vez uma cobra a perseguir um rato e a comê-lo. E o pior é que o ratinho estava tão apavorado que se deixou comer. Penso que comigo aconteceria o mesmo. A cobra poderia engolir-me que eu, tal o pavor, nem me mexeria. Acho que uma cobra sibilante e sinuosa me daria um medo paralisante.

Maçãs ou laranjas?

Laranjas. Gosto muito de laranjas. Na época delas, e agora é quase sempre época delas, como uma laranja todos os dias (ao pequeno almoço). De todas, as laranjas da laranjeira mais antiga da minha mãe são as melhores. De longe, as melhores. Doces, sumarentas, frescas e bonitas.

Já alguma vez pedi um autógrafo?

Sim. Numa livraria no Chiado, vi o Fernando Namora. Gostava muito dos seus livros. Já os tinha lido todos. Então, fui à estante buscar um livro dele e pedi-lhe um autógrafo. E, feita estúpida, ofereci o livro ao meu namorado da altura. Foi-se, pois.

O que acontece quando morremos?

Descansamos. Deixamos de ser vistos como éramos. Apareceremos por aí de outras maneiras: uma árvore, um tapete de musgo junto ao tronco dessa árvore, um gato, uma nuvem, uma suave aragem, uma boa recordação. 

Filme de acção preferido?

Braveheart. Não sou grande apreciadora de filmes de acção. Este foi aquele de que primeiro me lembrei. Tenho ideia de que era um filme poderoso. Tenho ideia do Mel Gibson ter um poderoso grito de liberdade. Freedom!

Cheiro preferido?

O que sinto quando caminho in heaven. Uma mistura de pinheiro, de cedro, de eucalipto, de alecrim, de rosmaninho, de silencio e de paz. 

Pior cheiro?

Borracha queimada. Lixo. Batatas podres.

Exercício: vale a pena?

Claro que sim. Mas que pareça espontâneo. Caminhar, todo o ano. Nadar, no verão. Varrer, todo o ano. Rir, sempre.

Liso ou cintilante?

Não sei se percebo a pergunta mas, em abstracto, simples, liso, sóbrio.

App mais usada no meu telemóvel?

Google maps. O GPS do meu carro é estúpido. Prefiro o google maps. Mesmo para andar a pé, uso quando estou num sítio novo. O pior é quando me manda ir para noroeste ou coisa assim pois nunca sei para que lado fica isso. Nunca consigo situar-me. 

 Se só pudesse ouvir uma música até ao fim da vida, qual seria?

Lili Marlene. Gosto de tudo mas, sobretudo, do simbolismo. E, sobremaneira, na interpretação de June Tabor.

Em que número é que quem faz a pergunta está a pensar?

225.

Como descrever o resto da vida em cinco palavras?

Presumo que a pergunta se refira a como gostaríamos que fosse o resto da nossa vida. A ser isso, em cinco palavras: feliz, independente, interessante, venturosa, plena.
 ________________________________________________________________________

Sugiro-vos, Caros Leitores, que, na falta de melhor alternativa, também respondam. 

Meryl Streep e Sting juntam-se-nos à conversa com Stephen Colbert.




______________________________________________________________________

Pinturas de Walter Launt Palmer 
ao som, aqui pela milionésima vez, de June Tabor a interpretar, justamente, Lili Marlene

_____________________________________________

Desejo-vos, meus Caros Leitores uma boa semana a começar já por estar segunda-feira
Boa sorte. Alegria. Saúde. Ânimo.

terça-feira, outubro 19, 2021

Oito filmes razoavelmente eróticos

 



Segunda-feira nunca é um bom dia. É daqueles axiomas que é bom que ninguém ouse questionar. Segunda-feira é o início do que pode vir a ser uma sucessão de dias carregados de chatices. Numa segunda-feira as tréguas do fim de semana ainda estão longínquas. 

[Os Leitores reformados, ao lerem isto, esfregam as mãos de contentes: para eles todos os dias são fim de semana. Bem sei. São uns sortudos. Mas lá chegaremos, nós os pobres coitados que por aqui ainda andamos a trabucar.]

Enquanto não, tenta levar-se o melhor possível embora haja quem não se aguente sem moer a paciência aos outros. Para mim o pior é quando olho para a agenda e penso que tenho ali um buraquinho que virá mesmo a calhar para repousar a minha beleza e, acto contínuo, logo recebo uma chamada a pedir que arranje um bocadinho para uma reunião urgente. E uma pessoa tenta que não mas, às tantas, não tem como não e lá se vai o buraquinho à vida. 

[A língua portuguesa é traiçoeira, também sei]

Agora tenho aqui uma coisa a chamar por mim. Ainda antes de ir para a cama terei que ver e despachar esse assunto. Não me apetece nem um pouco pois estive a trabalhar até há pouco, estou mais do que saturada. Mas, quando o dever me chama, parece que não consigo entregar-me ao desfrute da escrita mesmo se de uma colecção de frioleiras postas em palavras se tratar.  Podia saltar por cima disto, do blog. Pois podia. Mas, enfim, ficar sem escrever também não consigo. Addicted to writing.

E, então, pensei escrever sobre uma coisa que li na Vogue francesa: as cenas mais eróticas do cinema. Fui conferir, curiosa. Como é costume nestas coisas, parece que quem escolhe os melhores livros, os melhores filmes, as melhores cenas faz de propósito para deixar os outros a sentirem-se ignorantes. Dos oito filmes, apenas conheço três. E das cenas que consegui ver, talvez por descontextualizadas, não achei grandes espingardas. Além disso, agora acontece uma coisa que me encanita solenemente: ao seleccionar um vídeo que contenha alguma ceninha mais encaloradita, o Youcoiso pede que comprove que sou adulta. Não estou para isso, era o que me faltava. Portanto, como não estou para fornecer comprovativos, marimbo-me para as ditas cenas. 

A beatice vai alastrando. Claro que há que acautelar que as coisas não sejam vistas por crianças. Mas, caneco, parece que preferia as salas de cinema em que a barragem era feita à porta. Agora aqui...? Não basta a publicidade em cima de tudo senão ainda isto...? Que seca, caraças.

Por isso, com tanto entrave e chachada, desisto das listas alheias. Acontece que, para listas próprias, tenho um problema do escambau: não as tenho anotadas, não as tenho de cabeça e, pior ainda, a cabeça não está formatada para fazê-las.

Posso aqui enunciar algumas cenas ou alguns filmes que tenho a certeza que amanhã me ocorrerão outros, provavelmente mil vezes melhores. E não estou certa de que o algoritmo que é mais lápis azul e beato que fedorentozinho de antanho me deixe abrir o vídeo para conferir. Vou tentar mas, acreditem, não garanto que seja muito para levar a sério. E são oito apenas porque não posso ficar aqui a noite toda a puxar pela cabeça ou a tentar encontrar vídeos que expliquem o critério. 

.  1  .

Lady Chatterly, na versão de Pascale Ferran, com Marina Hands e Jean-Louis Coulloc'h um filme belo demais. Mas, mais do que caliente, é belo, belo demais. As cenas mais eróticas apenas são disponibilizadas a quem provar que é adulto. Portanto, vai o trailer.


.  2  .

Dangerous Liaisons de Stephen Frears com Glenn Close, John Malkovich e Michelle Pfeiffer, um filme sensual da cabeça aos pés, passando pela insolente língua de Malkovich (e isto já para não falar do olhar, da voz, das mãos, do andar dele, o descaradão e perverso do Visconde de Valmont)


.  3  .

The Horse Whisperer de Robert Redford com ele e com Meryl Streep, envolvente demais


.  4  .

Damage de Louis Malle com Juliete Binoche e Jeremy Irons. Tem a chatice de não acabar bem mas, antes de acabar, é bom até dizer chea, a começar e a acabar na voz do Jeremy Irons


.  5  .

The Unbearable Lightness of Being de Philip Kaufman com Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche, Lena Olin, um filme para sempre, com cenas inesquecíveis (a Lena Olin ficará para sempre na minha memória com aquele seu chapéu)


.  6  .

Closer de Mike Nichols com Julia Roberts, Jude Law, Clive Owen
[Larry : You like him coming in your face?; Anna : Yes!  Larry : What does it taste like?; Anna : It tastes like you but sweeter!]



.  7  .

La vie d'Adèle de Abdellatif Kechiche com Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos
O azul definitivamente a cor mais quente


. 8  . 

The French Lieutenant's Woman de Karel Reisz com Meryl Streep e Jeremy Irons. 
Intemporal, belo.


----------------------

Desejo-vos uma boa terça-feira
Saúde. Alegria. Boa sorte.

terça-feira, maio 04, 2021

Ontem é história, amanhã é um mistério e hoje é uma dádiva. Por isso lhe chamam presente.

 



Uma segunda-feira que começa cedo e que vai de enfiada até ao fim do dia é uma segunda-feira para esquecer. Tanto saco, tanto pepino, tanto sapo. A meio de uma reunião que estava a deixar-me com os nervos em franja, já incapaz de disfarçar a minha impaciência, recebi uma mensagem: 'Temos quatro monos na sala'. Deu-me vontade de rir. Tal e qual. Logo de seguida, um outra: 'Pelo menos...'. A partir daí, atalhou. Percebemos ambos que dali, por mais que espremêssemos, não sairia sumo. Quando a reunião acabou, ligou-me: 'Qualquer dia estamos os dois sozinhos'. E eu, apreensiva que também ando: 'Pois. Mas não pode ser. A verdade é que o tempo passa e a conversa não evolui. Não desenvolvem. O que é que a gente faz?'. E sugeri que apostássemos na mais improvável. Concordou. Tenho cada vez mais a convicção de que quando a mudança é profunda, quando os desafios são dos valentes, quando é preciso pragmatismo e capacidade para cortar a direito, as mulheres são mais capazes. É para fazer? Então, faz-se. Não há cá converseta da treta, mas-mas, não há cá medo de ouvir um não: é pão, pão, queijo, queijo. 

Mas é uma canseira. 

A minha filha diz-me frequentemente que tenho que gerir as coisas no sentido do phasing out. Conhece alguns dos intervenientes e antevê que não me 'deixarão' sair tão cedo. Diz que eu é que tenho que pôr os pés à parede, gerir as coisas nesse sentido. E é o que quero. Mas, por outro lado, são largas, muitas, centenas de famílias que dependem da empresa. Sinto a responsabilidade de fazer o melhor possível. 

Da empresa de que saí o ano passado saí com a noção de que tinha cumprido a minha missão e que lá ficaria uma equipa, a 'minha equipa', gente competente e dedicada, que asseguraria a continuidade. Saí com a convicção de que tinha preparado bem a minha saída. 

Aqui é tudo muito diferente. Tudo diferente. 

O meu marido diz que me esgoto nesta luta. E é um bocado verdade. 

Estou in heaven mas mal consigo usufruir. À hora de almoço, saí para andar e para falar com a minha mãe. Ao fim da tarde também. A meio do dia, sempre que falei ao telefone, estive a andar à porta da sala, para a frente e para trás. Nestes telefonemas de trabalho não gosto de me afastar pois a toda a hora me pedem que veja o mail ou que veja a disponibilidade e dá-me mais jeito sentar-me ao computador enquanto telefono para este tipo de validações.

Mas, ao fim do dia, a app informou-me que tinha feito 12.929 passos, o que corresponde a 8 km. E, imagine-se, queimei 502 kcal. Menos mal. 

E isto é a maçadora síntese do dia. 

À noite, aqui, vi que Bill e Melinda Gates, o dream couple, vai separar-se. Fiquei deveras surpreendida, Dir-se-ia que já teriam ultrapassado todos os cabos das tormentas, que, casados há 27 anos, certamente já enfrentaram. Ele com 65, ela com 56, diria eu que já achariam que o divórcio é coisa para dar mais trabalho do que continuarem a resolver as diferenças. Afinal, o quarto homem mais rico do mundo e a sua mulher que, em conjunto, gerem uma das fundações mais poderosas do mundo, chegaram ao ponto de não retorno. É obra. Já em 2019, MacKenzie Scott, a ex de Jeff Bezos, ao divorciar-se conseguiu a proeza de se tornar a terceira mulher mais rica do mundo e, acto contínuo, fazer filantropia à sua maneira, sem cuidar de acautelar previamente os benefícios fiscais. 

Mas é isso: quem tem a ilusão que dinheiro é felicidade e que resolve todos os dramas, bem pode tirar o cavalinho da chuva. É ver quase todos os mais ricos desta vida: Gates, Bezos, Musk. Falta o alienado Zuckerberg. Ou o outro dream couple, a Angelina Jolie e o príncipe encantado de todos os sonhos, Brad Pitt. Dinheiro não lhes falta, sucesso também não. E, no entanto, na intimidade da casa, são como todos os outros casais, têm diferenças. E, por vezes, seja qual for a dimensão da fortuna, as diferenças são insanáveis.

Moral da história? Não há e ainda bem que não há. Detesto quando as histórias pingam moral. 

Até porque se é para falar de coisas sérias vou antes falar de outra coisa. Já aqui contei muitas vezes: nada me descansa mais e repousa, tranquiliza, refresca as ideias e me prepara para tudo do que um belo banho. Não sou de água fria. Pode ser tépida no verão mas, no inverno, convém que se lhe sinta o calorzinho. Em especial, fico outra, retemperada, poderosa, se lavo o cabelo. Uma bela shampoozada, água a correr-me em cima até que se vá toda a espuma, e eu ali, com vagar, a deixar que todos os cansaços, aborrecimentos e desconfortos se vão pelo ralo abaixo. Coisa boa. Por sorte não precisei ainda de psicoterapia ou medicação para ansiedades ou angústias. A minha terapia é o banho, em especial com lavagem de cabelo incluída. 

Pois bem. Acabo de ler no The Guardian que It’s like therapy’: how washing your hair can lift your mood – and change your life. Hairwashing can be a catharsis and a reset, the purifying sluice of water rinsing a bad day down the plughole (...) Li e pensei: olha, afinal, se calhar, não sou maluca de todo. Comentei com o meu marido. Confirmou, disse que com ele acontece o mesmo. Desatei-me a rir: 'Essa é boa. És careca!'. Não concordou. Disse que eu não devia fazer uma leitura tão literal, que o ponto está em como lavar a cabeça levanta o astral -- a cabeça, não o cabelo. Está bem, abelha. Na volta acontece-lhe é como às pessoas que perdem uma mão e que parece que continuam a senti-la: ainda sente como se tivesse cabelo. A vontade de rir que isso me dá. E calma, que não se pense que estou a depreciar. Nada disso. Sou como as demais que é dos carecas que mais gostam. 

Já contei, não contei? Uma vez, estando a ouvir a conversa de dois colegas sobre a queda de cabelo, um a dizer que não tinha problema nenhum e outro a dizer que estava a fazer um tratamento e que estava a resultar muito bem, saiu-me, sem querer: uma amiga que é médica, disse-me que a principal causa de calvície é a testosterona. Quanto mais, mais o cabelo cai. Ficaram os dois em silêncio. E eu com vontade de rebobinar e retirar o que tinha dito. A coisa propagou-se. Durante anos, ouvi toda a espécie de piadas. Quando aparecia algum cabeludo, havia sempre alguém que me piscava o olho ou que me dizia: 'Aquele... coitado...'. Uma vez estava numa situação social, com gente que não conhecia muito bem, e às tantas, alguém falou do cabelo farto de um qualquer. E, às tantas, para meu sufoco, um dos meus colegas disse: 'Aqui a nossa amiga tem uma teoria sobre isso...'. E todos, virados para mim: 'Ai é...? Conte...'. E eu, furiosa com ele: 'Desculpem mas não posso. É uma private joke... Não levem a mal'.

Mas, também calma aí, há cabeludos que eu também não rejeitaria. Por exemplo, o dito príncipe dos príncipes, Pitt, Brad Pitt. E outros. Ou seja, quem vê cabelos não vê corações. Nem corações nem o resto, bem entendido.

E é isto. Termino com uma citação que acho o máximo e que vem mesmo aqui a calhar: «Yesterday is history, tomorrow is a mystery and today is a gift, that is why it is called the present.» (Eleanor Roosevelt)


____________________________________________________________

Do melhor


_______________________________________

Uma boa terça-feira.
E, se não estiver a correr bem, façam o favor de tomar uma banhoca.

terça-feira, março 09, 2021

Compartimentos secretos, momentos mágicos, mulheres

 


Ando naquela fase em que, depois de um dia de trabalho tão preenchido, chego aqui e só me apetece pôr-me a ver televisão, seja lá o que for -- ou, melhor, não prestando atenção a nada -- ou ver os vídeos que me apareçam à frente. E não é só isso, confesso: é que, ao fim do dia,  colocaram-me questões que não sei bem como resolver e não me apetece pensar nisso pois as soluções costumam aparecer sozinhas mas, por outro lado, acho que devo pensar nelas pois as implicações são tantas que receio tomar decisões erradas por me ter esquecido de alguns factores. Depois, a noite passada dormi mal.  Fui para a cama sem sono e isso é trágico. E é igualmente trágico passar um dia com défice de horas dormidas (e logo a uma segunda feira).

E agora tenho sono. Sono, temas rodopiando na minha cabeça, e, pairando, vontade de ir ver como se pintam móveis de madeira, vontade de me entreter com coisas que me ocupem sem me trazerem preocupações. Estou aqui com a cabeça nas nuvens e os pés a quererem puxar-me para chatices terrenas. 

Não tenho respondido a comentários e bem sei que isso parece impossível. Deveria ter tempo de sobra para tudo e o que me parece é que não estou a saber geri-lo bem. Desculpo-me dizendo a mim própria que isto se deve à minha nova ocupação, àquela que abracei há uns meses, e que sabia de antemão que seria assim, tomador de todo o meu tempo e energia. Mas o facto de esta fase coincidir com este período de teletrabalho é propício a que o trabalho se expanda absorvendo toda a minha disponibilidade.

Por isso, chego a aqui e sinto-me quase vazia, sem nada de nada nada para dizer. Não sei de assuntos dos quais se possa fazer conversa. Das notícias que leio em diagonal pouca coisa me suscita vontade de opinar. Há aquilo de o medicamento que tem estado a provar bem no combate ao corona ser um que é usado no combate aos piolhos. Acho isso de uma ironia extraordinária. Pois não se está mesmo a ver que o corona é um bicho tinhoso, piolhento? Mas, para falar do assunto, deveria ter pedigree e não tenho. Farmaceuticamente falando, sou rafeira. Por isso, mais vale que fique caladinha.

Também li hoje que uma mulher, em Nova Iorque, sentindo frio em casa e sentindo que o frio era maior quando estava na casa de banho, como que uma aragem que até lhe fazia esvoaçar um ou outro cabelo,  resolveu tentar descobrir de onde vinha. Parecendo que a aragem vinha de dentro da parede, resolveu investigar. Até que percebeu que parecia vir do espelho. Então, resolveu tirá-lo. E aí, para sua surpresa e susto, descobriu um buraco. E, de lanterna na cabeça e esquecendo todos os riscos, fez o que não devia: entrou. E foi dar a um apartamento secreto de três divisões. Ao ver uma garrafa de água ainda mais se assustou. Mas depois percebeu que ninguém poderia sobreviver num apartamento sem janelas. Claro que não sei se será bem assim já que alguma corrente de ar deverá haver, senão não sentia a aragem. Mas, enfim, façamos de conta que sim.

Parece que quem lhe vendeu a casa também não tem explicação. Nem a empresa de construção a tem. 

E esta história verídica, sim, esta dá-me alguma vontade de me deter um pouco.

Quando viemos aqui visitar esta casa, caí de amores à primeira vista. Assim caio sempre quando caio de amores: à primeira vista, de caixão à cova, sem apelo nem agravo. Não há cá isso de não ficar muito convencida e de a coisa só lá ir aos poucos, à medida que se vai conhecendo melhor. Treta. Comigo não, eu sou mais de cair de amores na base do desconhecido. Total blind date com um instantâneo coup de foudre. Saímos daqui, fizemos logo uma proposta, passado um bocado veio a resposta e, assim, na hora, a coisa deu-se. Mas, dizia eu: estavam a mostrar a casa e tudo batia certo, o santo da casa a cruzar-se com o meu, tudo na mouche.

Na segunda vez, já o negócio feito, viemos para a minha filha conhecer e para eu tirar dúvidas. O meu filho tinha podido vir na primeira vez. Mas eu estava baralhadíssima. Queria descrever a casa e não atinava. Na minha cabeça, tudo se tinha misturado do ponto de vista geográfico. Não sabia onde estavam os quartos, onde estava a porta, como se ia para o piso de cima. Então, a dona, que eu estava a conhecer nessa altura (na primeira visita não estavam cá), ao mostrar-me tudo, ao chegar ao sótão, perguntou se eu já tinha visto um certo compartimento. Eu achava que não mas não sabia. E, então, para meu espanto, dou com um compartimento que parecia secreto, a biblioteca privada do marido, uma biblioteca toda feita por ele. Estava cheia de documentação técnica ligada à profissão dele. Foi a última coisa que foi esvaziada, contaram-nos eles depois. Quando os meninos vieram conhecer a casa, fui logo mostrar-lhes aquilo: deliraram. Parecia coisa de filme, um compartimento mesmo secreto, só quem sabe dá com ele. 

Está vazio. Ainda não pus lá nada. Para já, não preciso, tenho agora muito espaço para livros e para tudo. Mas também é outra coisa: parece que assim tem mais graça, um compartimento secreto, mágico, à espera do seu destino. Talvez seja ali que um dia vou pôr objectos especiais, velharias que resgate por aí, peças que eu construa. Não sei ainda. Só sei que não devemos precipitar as coisas. O que interessa acontece por si. Não temos que forçar nada.

E, pronto, não sei que mais dizer. 

Foi dia da mulher mas não ia pôr-me para aqui a deitar foguetes. Não é um dia que faz qualquer diferença. Mas tinha pensado contar qualquer coisa relacionada com a minha condição de mulher e o que me ocorria era falar do nascimento dos meus filhos. O parto que, das duas vezes, a meu pedido, foi a sangue frio. Eu a sentir o corpo a despedaçar-se por dentro, temendo não conseguir aguentar tantas dores, até que as crianças me foram arrancadas a ferros e vieram para os meus braços. Não há sensação melhor no mundo do que termos nos nossos braços os seres que se geraram dentro de nós. Aliás, há sim. Há sensação tão boa ou melhor do que essa: é vermos o amor, a realização e a sensação feliz dos nossos filhos com os seus filhos nos braços e é, a seguir, termos nos nossos braços os filhos dos nossos filhos. Amor maior, sem explicação, coisa visceral.

Mas depois resolvi que não, que não deveria falar nisso: há mulheres que ainda não tiveram filhos ou que não tiveram nem vão tê-los e que nem por isso são menos mulheres do que as que já tiveram a bênção de os ter. Por isso, deixei-me dessa conversa. E depois, acreditem, estou mesmo cansada, com sono, sem assunto. Que me desculpem os queridos Leitores que generosamente me deixam as suas palavras. Não levem a mal. Leio com gosto mas a esta hora já só dá para deixar que os dedos para aqui andem no vício. A cabeça já está encostada às boxes há algum tempo.

_________________________________

Pensei: pelo menos podia colocar aqui um vídeo com uma mulher e peras. Pensei: Paula Rêgo. Depois pensei: uma escritora. Depois pensei: uma médica. Depois: uma engenheira. Depois: uma sem abrigo. Depois pensei: uma professora. Depois: uma bombeira. 

Depois deixei-me disso. 

E resolvi colocar a Meryl Streep que gosta de se divertir e que não se leva a sério que é como as mulheres de bem devem ser.

E, portanto, cá está ela.

Meryl Streep's the most iconic moments



_____________________________________

As fotografias foram obtidas em: Women: an exhibition of British press photography.
Fotógrafos -- Teri Pengilley, Lindsey Parnaby, Ray Tang, Kiran Ridley, Katja Ogrin, Charlotte Graham

Maria João Pires interpreta Mozart: Piano Concerto No. 20, K. 466: II. Romance

_____________________________________________________

Desejo-vos uma terça-feira feliz

domingo, janeiro 19, 2020

Vamos dançar...?


Gosto de dançar, sempre gostei. Contudo, ultimamente, sempre que há circunstâncias que convidam à dança, nunca é dança a dois na versão dantes designada por slow. Agora é mais na base da libertação do corpo, mas a libertação como movimento individual. Tenho uma amiga que é certinha, sempre muito compenetrada e rigorosa, ponderada. Mas, mal sente o sopro de uma música bem batida, solta-se a fera que há dentro dela e assistimos a uma metamorfose. Work hard, play hard, desculpa-se ela quando vê o nosso espanto. Entrega-se em absoluto ao prazer de libertar o corpo e não quer saber de limites. Mas isso se for uma libertação a solo e com a música desencabrestada. Em registo slow nunca vi mas, na volta, seria a mesma voluptuosa entrega. A questão é que, quando há música para dançar, nunca é música slow. Agora slow é a food ou o living. O slow dancing parece ter caído em definitivo desuso. E, no entanto, há melhor forma para os corpos se aproximarem, se testarem, se conhecerem? Li uma vez, e achei bem pensado, que há amor quando dois corpos se reconhecem. Concordo. Amor que é amor a sério tem que ter corpo, toque, olhar, pele, tem que se sentir o calor que se evola do corpo do outro, tem que se sentir o abandono que se desprende do corpo daquele que se deseja, tem que se sentir a urgência das mãos do outro procurando o nosso corpo, tem que se sentir a sua respiração e o toque dos seus lábios na nossa pele.

Portanto, recordemos como é bom dançar assim e iniciemos um movimento a favor do regresso do slow dancing

E, já agora, let's dance? 








Até já

sábado, abril 13, 2019

Vamos embora, disse ele. Mas eu fiquei. A ouvi-lo.





Já estava um bocadinho atrasada mas o dia estava tão bonito que isso não foi tema. Quando cheguei ao pé do meu marido, ele disse-me: 'Não te disse? Tu disseste cinco para a uma e eu disse que se fosse à uma e cinco seria uma sorte'. Expliquei a razão do meu atraso. Quando estava a sair, tinha sido interceptada por alguém que teria muito para dizer mas cujas palavras interceptei. Então, ele contou: 'Mesmo agora passou por aqui o ex-ministro [e referiu a pasta] e hesitou, como se me conhecesse e viesse cumprimentar-me'. 'E tu?'. 'Eu desviei-me, disfarcei'. Mas logo a seguir apareceu o presidente [e disse o nome de uma associação patronal] e aconteceu  mesma coisa, vinha cumprimentar-me. A mesma coisa, exactamente'. 'Mas estavam juntos?'. 'Não, primeiro um, e entrou para o restaurante. A seguir o outro. E entrou também'. Achei graça e ele também tinha achado. E, assim conversando, dirigimo-nos ao simpático restaurantezinho que descobrimos há pouco tempo.


Pedimos aqueles gostosas entradinhas de que ambos tanto gostamos e estavamos no petisco e a conversar quando reparei que ele estava de olhos postos não sei onde que não em mim. Não gosto. Zanguei-me: 'Estou a falar e tu a prestares atenção não sei a quê'. E ele disse: 'É que acho que entrou a [e disse o nome de uma conhecida deputada europeia] e não pude deixar de reparar'. E, quando me virei para olhar, já ela vinha avançando para uma mesa perto de nós. Jeans, botins, maleta de viagem. Por uma vez não a achei pior nem mais baixinha do que se vê na televisão. Pelo contrário. Bonita, aspecto simpático. Sempre ao telemóvel mas, como é apanágio dela, sempre com um ar vagamente sorridente.


Quando saímos, comentando o ar primaveril e ele brincando com o facto de no prazo de menos de uma hora ter estado ao pé de três pessoas tão 'famosas', olho para o lado e quem vejo? Uma conhecida senhora com uma toilette primaveril, bouquet primaveril na mão e um sorriso encantado de quem tinha acabado de ser presenteada. Fiquei com vontade de ir cumprimentá-la: 'Ora viva! Então como está, Santa Mana?' mas comportei-me.


A seguir separámo-nos e seguimos em direcções opostas, cada um para o seu trabalho. Pensei que teria precisado de um almoço mais prolongado e de ter visto mais celebridades para aguentar melhor a sessão em que ia participar a seguir. Não gosto de me maçar antes de estar no meio das maçadas mas, neste caso, conhecendo do que a casa gasta, não pude deixar de me pôr a pensar no possível antídoto ao que me esperava nas próximas horas. Ia na Antena 2 mas apeteceu-me espevitar. Pus na TSF. E, então, para minha alegria, estava a começar os Sinais. Para se perceber como sou tão absurdamente primária, confesso aqui que, instantaneamente, me esqueci da reunião que ia ter e de tudo o mais à superfície da terra. Encantada, ouvi. Encantada. Como tantas vezes, com aquele arrepio que me percorre a pele. Felizmente o meu piloto automático funciona bem pois a verdade é que desligo. Desligo mesmo. Involuntariamente entrego-me à emoção que me toma: isto quando ouço os Sinais, um andante de Debussy, uma fuga de Bach, o canto de um pássaro, quando contemplo o voo de uma gaivota, a beleza de uma árvore, uma pintura, quando leio uma poesia, quando recordo um momento especial.

Vamos embora, intuí que se chamasse a crónica. Que bom poder testemunhar o prazer das palavras ditas por quem as tão bem sabe escrever e dizer.

Vamos embora -- disse o senhor Rádio, Fernando Alves de seu nome


E depois a reunião foi longa, longa, agitada, e, a meu ver, inconsequente. Mas o tempo o dirá. Penso, para me dar descanso, que não tenho que tentar evitar todos os meus passos que vejo à minha volta. Como nos disse uma vez um senhor da aldeia a quem pedimos que plantasse choupos num lugar que ele dizia inapropriado: 'Mas querem que eu ponha aqui os choupos, eu ponho. Em havendo dinheiro...'. 

E depois, já noite, vim para casa. Como habitualmente, vim conversando. Com a minha mãe, com a minha filha. Depois, já cá em casa, fizemos planos para o fim de semana. Mas, entretanto, em conversa com o meu filho, os planos levaram uma reviravolta. 

E, entretanto,  adormeci. 


E agora estou a ver de novo Out of Africa, um dos filmes que nunca me cansarei de ver. E estou a reparar como um dos actores é igual, igual, igual, a um colega meu. Porque é que nunca antes tinha reparado? Porque nas outras vezes que vi o filme ainda não o tinha conhecido? Ou porque o actor entretanto mudou de feições e de maneira de ser para se pôr igual ao meu colega? Mistério.

E agora estou a ver aquela cena de que tanto gosto, uma intimidade profunda, uma cumplicidade que é tão boa de (vi)ver.



E é isto. Vamos embora.

---------------------------------------

Um bom sábado a todos.
Que a alegria vos acompanhe.

--------------------------------------------

quarta-feira, agosto 15, 2018

A ternura é o novo erotismo?
O que define uma mulher sensual? E um homem sensual?




Leio na Madame le Figaro o artigo La tendresse est-elle le nouvel érotisme? que tem alguma piada.
Estampillée tisane du plaisir ou guimauve de l’alcôve, elle a pourtant une vertu : réveiller notre sensualité dans une existence ultraconnectée mais déconnectée du corps. Et si l’on redonnait à la tendresse ses lettres de noblesse ? C’est le désir du philosophe Charles Pépin. (...)
Não vou transcrever toda a entrevista. Limito-me às duas últimas perguntas.

Como definiria uma mulher sensual?
- Uma mulher que tem um corpo superiormente inteligente. E, talvez também, uma mulher que não teme o prazer.
E um homem sensual?
- Um homem que faz da sua vulnerabilidade o secredo do seu poder. E que se maravilha perante o prazer da outra pessoa.
..............................................................................................................

E, Caras Leitoras, não nos esqueçamos:


que é como quem diz: O que há de mais profundo num homem é a sua pele
[Paul Valéry, “L’Idée fixe”, 1932]

...........................................................................................................................................

Já agora, se me permitem, algumas imagens de ternura
... ou ...
quando a ternura precede o erotismo; ou melhor, acompanha o erotismo






................................