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segunda-feira, setembro 02, 2024

A fruta do Dragão

 

Chego a esta provecta idade  carregada de ignorâncias. Por exemplo, no outro dia, estávamos no supermercado e o meu marido chamou a minha atenção para um fruto, perguntando: 'Será bom?'. Nem ele nem eu sabíamos de que fruto se tratava. Vi a etiqueta. Pitaia. O nome era conhecido mas o conteúdo não.

Atraiu-me, sobretudo, a sua cor, a sua beleza. Escolhi uma e trouxe. Fotografei-a. Aqui está, numa tacinha cá em casa.

Isto foi a semana passada, estávamos no campo.

Acontece que com isto e aquilo e mais com as barrigadas de figos que tinha apanhado, fui protelando a inauguração do belo fruto.

No último dia, quando íamos já na autoestrada a caminho da cidade, o meu marido lembrou-se que lá o tínhamos deixado. Fiquei preocupada. Não tinha sido especialmente barato, se calhar era frágil e temi que, ao regressarmos, déssemos com ele já mole e estragado.

Por isso, quando cá chegámos fui logo apalpá-lo. Pareceu-me que ainda estava íntegro, em boa forma.

Entretanto, já a papámos. Não posso dizer que tenha um sabor extraordinário. Não tem. Tem um sabor neutro. Come-se bem, não cansa, justamente porque quase não sabe a nada. Mas é fresca, molhada, escorrega bem (obviamente, estou a referir-me à pitaia). 

Esta que trouxemos é a branca. Fui ao meu amigo ChatGPT saber se, pelo menos, tinha virtudes compatíveis com a beleza do exterior. Cá está:

A pitaia, também conhecida como fruta do dragão, é uma fruta tropical originária da América Central e do Sul, mas atualmente é cultivada em diversas partes do mundo, incluindo o Sudeste Asiático. Existem diferentes tipos de pitaia, sendo as mais comuns a pitaia branca (Hylocereus undatus) e a pitaia vermelha (Hylocereus costaricensis).

Os benefícios da pitaia branca incluem:

  1. Rica em Antioxidantes: A pitaia é rica em antioxidantes, como a vitamina C, que ajudam a combater os radicais livres, protegendo as células do corpo contra o envelhecimento e doenças.

  2. Fonte de Fibras: A pitaia é uma excelente fonte de fibras alimentares, que são essenciais para o bom funcionamento do sistema digestivo, ajudando a prevenir a constipação e promovendo a saúde intestinal.

  3. Baixa em Calorias: A pitaia branca é uma fruta de baixa caloria, o que a torna uma excelente opção para quem está tentando perder peso ou manter uma dieta equilibrada.

  4. Hidratação: Com alto teor de água, a pitaia ajuda a manter o corpo hidratado, especialmente em climas quentes ou durante o exercício físico.

  5. Promove a Saúde Cardiovascular: A pitaia pode ajudar a reduzir os níveis de colesterol ruim (LDL) no sangue, devido ao seu conteúdo de ácidos graxos saudáveis e fibras, o que é benéfico para a saúde do coração.

  6. Ação Anti-inflamatória: A pitaia possui propriedades anti-inflamatórias que podem ajudar a reduzir inflamações no corpo, aliviando sintomas de doenças inflamatórias crônicas.

  7. Fortalecimento do Sistema Imunológico: A vitamina C presente na pitaia é importante para fortalecer o sistema imunológico, ajudando o corpo a combater infecções.

  8. Controle dos Níveis de Açúcar no Sangue: Estudos indicam que a pitaia pode ajudar a regular os níveis de açúcar no sangue, sendo benéfica para pessoas com diabetes.

  9. Benefícios para a Pele: O consumo regular de pitaia, devido ao seu conteúdo de antioxidantes e vitamina C, pode ajudar a manter a pele saudável e retardar o envelhecimento cutâneo.

  10. Prevenção da Anemia: A pitaia contém ferro, essencial para a produção de hemoglobina no sangue, o que pode ajudar a prevenir a anemia.

A pitaia branca, além de ser saborosa e refrescante, pode ser consumida de várias formas, incluindo fresca, em smoothies, saladas, ou como parte de sobremesas.

Só virtudes. Portanto, aprovada. 

E, por hoje, nada mais havendo a reportar, dou o expediente por encerrado.

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Uma boa semana a todos a começar já nesta segunda-feira

quarta-feira, março 20, 2024

No reino de Kafka

 

Ao fim da tarde, andei a fotografar florzinhas como, por exemplo, as flores da laranjeira, delicadas, cheirosas, os botoezinhos do limoeiro que coexistem com os limões que, uma vez apanhados, exalam um belíssimo odor cítrico, e os frutos, as nêsperas a tingirem-se de dourado, a natureza a embelezar-se para receber a primavera.

Fotografei também o recanto do terraço onde estão os dois pequenos cadeirões e a mesinha que a minha mãe pintou de azul claro, que vieram de casa dela e que têm por trás as hastes arqueadas e floridas do jasmim amarelo.

Ia, pois, falar dos perfumes, das cores, da beleza.

Mas vou antes falar do que tem acontecido comigo e com o meu marido. 

Não quero fazer generalizações, dizer que tudo funciona mal. Não sei, não faço ideia. Posso apenas falar da realidade que conheço e que me toca de perto.

O que concluo do que vou contar, e antecipo já, é que há ainda muito a fazer. E, como sempre, o principal tem a ver com organização. Definir processos ágeis, realistas, eficientes e honestos é sempre o mais importante. Geralmente as empresas ou as instituições tendem a pensar que a primeira coisa a fazer é informatizar, gastar pipas de dinheiro a automatizar -- e isso é um erro, começar por aí é apenas deitar dinheiro para cima dos problemas.

Uma das novas modas e encontro-a nos portais das Finanças e agora constato que é o mesmo no da Segurança Social é decretar que o assunto sobre o qual reclamámos está em análise e, ao decretarem isso, dão a reclamação por resolvida e, portanto, fecham-na. 

Por exemplo, estando um assunto meu por resolver há quase um ano e tendo eu enviado diversas reclamações, estão todas dadas por resolvidas porque escreveram lá que estão na mesma, em análise.

Idem com o meu marido.

Eu conto qual a minha situação, que tem na base a mesma situação que meu marido.

Ambos trabalhámos a vida praticamente toda em empresas, descontando para a Segurança Social. Ambos somos agora pensionistas da Segurança Social. Mas, no início da nossa vida profissional, descontámos para a Caixa Geral de Aposentações (CGA), eu como professora e ele também como professor e depois na Marinha.

Por isso, quando solicitámos a reforma, pedimos a pensão unificada, ou seja, o somatório das duas parcelas, uma da SE e outra da CGA. Em alternativa, poderíamos receber duas pensões separadas. Preferimos, uni-las. Na altura informaram-nos que não tínhamos que enviar comprovativos dos tempos de serviço inerentes aos descontos para a CGA, pois a CGA tinha lá essa informação. Mas, por via das dúvidas, enviámo-los na mesma.

Passado pouco tempo de termos requerido a reforma, fomos notificados com o valor provisório, isto é, sem a componente da CGA. E foi isso que começámos a receber.

Decorridos 6 meses, recebi uma segunda notificação já com a indicação do valor completo. 

Para quem não sabe, nessa altura recebe-se um conjunto de folhas, frente e verso, com números, fórmulas, cálculos. Diversas parcelas, médias ponderadas, penalizações, bonificações... uma coisa quase impossível de conferir. Os cálculos remetem para os decretos respectivos e só os entendidos na coisa poderão validar tudo aquilo.

Mas, a olho nu, duas coisas chamaram a minha atenção. 

A primeira é que, às tantas, no meio daquela babilónia de cálculos, aparece uma operação aritmética. Agora não estou para ir ali dentro buscar a papelada para aqui pôr os números tal e qual mas imaginem que aparece qualquer coisa como

3.000 x 80% = 2.100

Aparece assim, com o enunciado do cálculo.

Olhei e pensei: estão doidos? O cálculo está errado, o correcto é 2.400.

E depois é o valor errado que entra na sequência de cálculos, portanto fazendo com que tudo esteja mal até ao fim.

Numa outra folha, onde aparecem os valores que vêm da CGA, aparece a data de início e a data de fim dos descontos. E vejo que a data de fim está mal, acaba 11 meses mais cedo. Ou seja, deve influir negativamente nos cálculos e no tempo de serviço.

Liguei para lá a referir aqueles dois erros e diz-me a menina que me atendeu: 'Ah, pois é, se calhar a minha colega que tratou do seu processo enganou-se...'.

Fiquei de boca aberta. Julgava que tudo aquilo era automático, que não haveria margem para erros humanos. 

E diz-me ela: 'Mas o que tem que fazer é apresentar uma reclamação, expondo esses erros.'

Assim fiz. No 1º semestre do ano passado. 

E nunca mais nada.

De cada vez que ia ao portal e apresentava reclamação por não ter resposta à reclamação (e voltava a repetir as minhas razões), recebia a resposta de que estava em análise e pimbas, reclamação dada por resolvida.

Mandei mails, telefonei, coloquei reclamações. Nada.

Hoje resolvi não largar.

Quando se liga para estes sítios, a gente tem que ir com paciência, determinação... e muito tempo pois vai marcando os números correspondentes ao assunto, se quer isto digite 1, se quer aquilo o 2, etc, e depois de estarmos para ali a escrever números, esperamos, esperamos pois aquilo toca, toca, toca, e nada. Até que a chamada cai.

Mas tanto insisti que finalmente fui atendida. A senhora disse-me que a Segurança Social é a porta de entrada mas que os cálculos são da responsabilidade do Centro Nacional de Pensões (CNP) pelo que iam transferir a chamada. E aqui novo castigo: toca, toca, toca até que se atinge o tempo limite e a chamada cai automaticamente.

Continuei a insistir.

Finalmente, do CNP atenderam. Sim, viam que o assunto estava em análise. E que, portanto, eu teria que esperar. Disse-lhe que daqui a nada há um ano que estava em análise e que me dissessem o que é que estava a emperrar, se havia algum problema, se haveria alguma coisa que eu pudesse fazer. Ela leu o teor da reclamação. Disse: 'Mas é que o assunto tem duas coisas: uma é um cálculo que você diz que está errado e outra tem a ver com a CGA. Por isso, temos que esperar que eles digam alguma coisa.'

Perguntei: 'Mas do CNP já enviaram o pedido para a CGA?'

A senhora disse: 'Devem ter enviado porque aqui o que tenho é que está em análise.'

Ainda tentei que tentasse ver em que data tinham enviado o pedido para a CGA. Disse-me que isso não conseguia saber.

Resolvi, então, ligar para a CGA. Já com aquilo quase a fechar fui atendida por um senhor muito simpático. Para meu espanto disse que não havia nenhum pedido da CGA relacionado comigo, nada. 

Quando me mostrei espantada e sem saber o que fazer, sugeriu-me que eu enviasse um mail para a CGA a dizer que no CNP me tinha informado que estavam à espera da resposta da CGA. E que eles me responderiam que ninguém lhes tinha pedido nada.

Lá mandei o mail, e acrescentei, de minha lavra, que fizessem o favor de verificar aquilo das datas e que informassem o CNP das datas correctas.

Não sei se o farão nem sei quando é que este nó estará desfeito. 

Uma coisa aparentemente tão simples...

No caso do meu marido, ainda está um passo atrás, pois a mim já juntaram a parcela da CGA, penso que errada mas já estão a pagá-la. Ao meu marido nem isso. Ainda está apenas com a pensão provisória pois ainda não juntaram a parcela da CGA. Já fez a mesma coisa: reclamações, mails, telefonemas. 

Até que hoje também não desarmou. Na SS, disseram-lhe que o tema está no CNP. Ligou para o CNP: que estão à espera dos cálculos da CGA. Ou seja, a resposta de sempre: o assunto está em análise. 

Então ligou também directamente para a CGA. E, para espanto dele, a resposta é que não fizeram nada porque não lhes enviaram os comprovativos. Ora quer no pedido da pensão quer nas reclamações e mails ele juntava sempre os comprovativos. E isto apesar de nos dizerem que não são precisos. Mas... se agora, afinal, são precisos e não os têm, então não pedem...? E da CNP não estranham passarem meses sem resposta e não questionam a CGA?

Lá enviou um mail para a CGA com os ditos comprovativos.

Vamos ver qual a evolução. Mas é asfixiante. Uma pessoa esbarra em paredes, parece que não vai conseguir furá-las, parece que fica sem saber o que fazer, parece que fica a descrer de alguma vez conseguir resolver os assuntos.

Como aconteceu com a minha mãe. Porque tinha insuficiência cardíaca, porque tinha sido operada a cancro do cólon e mais uma série de coisas, a médica de família tinha-lhe feito um relatório médico que ela enviou para a Segurança Social, para efeito de qualquer coisa chamada Multiusos, que lhe daria direito a ter algum desconto no IRS. Enviou no início de 2021. Responderam que agendariam uma inspecção numa Junta Médica. O tempo ia passando. Volta e meia eu mandava um mail para lá a saber como estava aquilo. Respondiam que se tinha atrasado tudo com a Covid, que esperasse. E o tempo passando. Para aí em Novembro, numa altura em que a minha mãe estava pior, mandei um mail a dizer que o estado de saúde da minha mãe se agravava e que já lá iam 2 anos e tal. Ligaram-me no dia do velório para, então, agendarem uma Junta Médica. Dei-lhes a notícia: tarde demais. Poderiam, ainda assim, ter emitido um relatório pois ainda há que pagar o IRS de 2023. Mas não. Morreu, morreu, azarinho, fecha-se o assunto e é menos um assunto em aberto .

Provavelmente haverá mil razões: falta de organização, falta de pessoal, falta de formação do pessoal. Mas que isto deixa os cidadãos a quem acontecem situações destas a sentirem-se impotentes e desanimados, lá isso deixa...

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Mas não quero que isto abale os meus alicerces, muito menos a minha boa disposição. 

Portanto, que entre o talentoso Jacob Collier (com Tori Kelly)

Witness Me


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Desejo-vos um bom dia

Saúde. Pachorra e ânimo. Paz.

domingo, novembro 26, 2023

O do costume + heaven, oh so beautiful.

Ponto. Parágrafo. Espaço. (para não contaminar o resto do post)

Os passistas, os moedistas, os rangelistas, os cavaquistas, as galinhas histéricas e a múmia que foi abençoar os mencionados mais o risonho Montenegro com o seu pouco saudável bafo

 

Havia um ténue cheirinho bom a queimada. Quase parecia um cheirinho a lareira vindo de longe. Tudo bom, tudo bonito. Adoro lá estar. Adoro, adoro.

Mas tivemos que vir. 

Lanchámos com parte da família. Chegar e abancar soube-me bem. Tínhamos pensado parar algures para não aparecermos de mãozinhas mas recebemos indicações de que era para levar nada, nada. Portanto, foi isso. O meu marido disse: 'Bom, se já lá há lanche, só se formos comprar menus do mcdonalds...'. Informei, não fosse isso causar algum mal-estar. Mas também fomos impedidos. 

Portanto, de mãozinhas mesmo, foi mesmo apenas lanchar. E o lanche bem bom.

O pior foi o telefonema. A crise, o desespero, o alarme, o drama de sempre. Depois, ao tentar perceber o que se passava, já não era bem aquilo, era coisa que, a meus olhos, é menor. Ainda por cima, omite indicações que ajudam a dimensionar o que diz. Reporta as coisas descontextualizadamente, exageradamente. E, na cabeça dela é, como sempre, como todas as vezes, uma situação terminal. Para a equipa clínica deve ter valido zero pois não me ligaram e o médico nem a foi ver. Já devem estar a perceber o que se passa pois nos primeiros dias ligavam-me sempre. 

A verdade é que, apesar de ser o mesmo todos os dias de há bastante tempo a esta parte, fico num stress, preocupada, sem saber o que devo fazer, sempre no receio de que desta vez seja a valer. Bem que a família me diz que agora já não sou eu que tenho que fazer alguma coisa pois por alguma razão ela agora está num sítio com equipa clínica diária. Mas como o médico não a vê todos os dias (porque já deve ter percebido que nada daquilo corresponde ao drama que ela pensa que é), fica ainda mais insegura, exponenciadamente aflita, com medo de estar a ser descurada. E então ainda mais empola e dramatiza, certamente para conseguir que o médico vá lá amanhã de propósito (como já aconteceu no fim de semana passado).

Bem posso tentar relativizar mas é uma pressão tão, tão, permanente, tão, tão, em crescendo, que a minha cabeça não tem tempo para se restabelecer antes do drama que se segue (porque não há um dia, um só dia, em que ela não pense que está em estado gravíssimo, sem retorno, e que aja como se quisesse convencer-me de que devo tomar imediatas providências -- mas quais...? quais, senhores...?).

Mas, enfim, adiante. Adiante. Adiante. Adiante. (Tenho que me puxar da fossa em que parece que estou a enterrar-me). ´

Entretanto, ligou-me há pouco uma amiga que, ao contar-lhe eu esta situação, me perguntou se não seria já uma forma de demência. Os meus filhos e o meu marido acham que é. Eu não. Mais me inclino para depressão, paranoia, coisa assim. O raciocínio dela e todo o discurso bem como a memória estão intactos, tudo funcional, surpreendentemente bem. Dizem-me todos que pode ser algum tipo de demência em que não controle as emoções nem consiga raciocinar para relativizar os medos. 

Contou essa minha amiga que o pai, um dia, do nada, saiu-se com uma conversa desprovida de sentido deixando todos sem perceber o que era aquilo. E que, a seguir, se tornou agressivo, desconfiado, via coisas, imaginava coisas, tornou-se uma ameaça. 

Ora isso corresponde ao tipo de demência que se identifica enquanto tal, ao passo que, no caso da minha mãe, se é demência, nunca de tal tipo ouvi falar.

Mas, pronto, vou parar com isto. Stop. Stop. Stop. Interrompam-me, digam-me que não volte a falar nisto, enfiem-me numa camisa de forças.

Vá, adiante. 

Cá vou.

Já em casa, a jantarmos uma pizza que comprámos pelo caminho, vimos parte das notícias.

E não dava para acreditar no que via. Em Almada, o encontro dos festivaleiros laranjas. Tudo gente datada, fora de prazo. Montenegro, sorrisinho matreiro, a dizer insanidades, disparates atrás de disparates. Depois vi o Rangel a fazer olhinhos e trejeitos enquanto o Montenegro esparvoava. Provavelmente, também falou e imagino bem os trocadilhos, os esgares, a vozinha escaganifada. Ou seja, a barraquinha ainda deve ter sido maior. E, se calhar, enquanto falava, estava o Montenegro com aquele seu sorrisinho de quem não percebe nada do que se passa à sua volta pelo que mais vale sorrir a ver se disfarça.

Ouvi também o Moedas e é outro daqueles esganiçados que não dá para levar a sério. Cantam de galo mas não passam daqueles galinhos da Índia que fazem muito barulho mas a que ninguém, na capoeira, presta qualquer atenção.

Para cúmulo dos cúmulos, vi que apareceu por lá a célebre múmia que, de vez em quando, aparece a dar à mandíbula, parece que quer ganhar balanço para bolsar a azia em forma de palavras, com aquele arzinho ressabiado de quem não consegue conviver com a vida real. Falou, falou e não conseguiu dizer uma que se aproveitasse. Contudo, atrás dele, o Montenegro parecia satisfeito por ter recebido a visita daquela assombração e isso diz muito sobre ele. Se fosse eu corria a sete pés. Foge. 

A seguir, a televisão mostrou o omnipresente Ventura a troçar, de alto, do Montenegro e do PSD no conjunto.  Não sendo nada, o Chega, fruto de ser permanentemente levado ao colo pela comunicação social, consegue parecer que é alguma coisa. Um partido fascistóide, populista, vazio de propostas concretas, constituído por gente desclassificada, vários a contas com a justiça, e aí anda sempre nos écrans das televisões. Uma aberração parida sobretudo pelas televisões.

O IL a desfazer-se, o CDS inexistente, o Chega que não passa de um populista com um bando de saudosistas de outros tempos atrás, e, para ajudar à festa, um PSD que mais parece um conjunto de salvados de um naufrágio qualquer. Até a Marilú dos Swaps eu lá vi naquele circo que montaram em Almada. 

Face a este pindérico panorama, teria o PS que se pôr a dormir na forma para não agarrar uma maioria confortável nas próximas eleições -- e isso não vai acontecer. 

Tomara é que a abstenção, em especial por parte das pessoas que têm neurónios, não dê cabo da lógica. 


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As fotografias, como é bom de ver, foram feitas in heaven. Como poderão reparar, apesar de não serem um luxo, não as quis contaminadas pelo bafo do Cavaco nem pelo dos seus descompensados apoiantes. Por isso, coloquei-as fora dessa parte do texto. 

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Isto está um bocado maçador, não está?

Se estiverem de acordo, vamos mas é dançar. Boa?

Paolo Conte - It's wonderful - Via con me


Desejo-vos um bom dia de domingo

Saúde. Ânimo. Paz.

quarta-feira, agosto 10, 2022

Um chouriço estrelado e um saco de luxo

 

Este mundo é cheio de mistérios e eu não sei é mais nada. A gente vai andando e, se estiver com atenção, é surpresa atrás de surpresa. Só se ficarmos fechados sobre nós mesmos é que não divisamos nada do que, à nossa volta, aparece. Quando olhamos e vemos ficamos a pensar que devemos ter nascido na véspera ontem para nunca antes termos dado por nada.

Comigo é assim. 

Sempre achei que sabia pouco e até ficava a recear que se descobrisse que ainda sabia menos do que eu e toda a gente pensava. E, talvez até por isso, sempre tive uma insaciável vontade de aprender. Sempre com curiosidade e sempre a querer descobrir coisas novas. Sempre aflita por haver tanta coisa ainda para aprender. Mas, desde há algum tempo, comecei a perceber que o tempo é curto demais para tudo o que há para saber. Não vale a pena. Vale a pena é prestar atenção, dedicar carinho e cuidado ao que nos rodeia, aproveitar bem o prazer dos instantes. 

E achar graça às coisas, às pequenas coisas: à graça dos pássaros, à graça das flores, à graça das palavras, à graça das crianças, à graça das sombras que as árvores desenham nos muros, à graça dos sons perfeitos, à graça dos momentos felizes.

Hoje estive no campo, trabalhei a partir de lá. À hora de almoço fui dar uma volta e surpreendi-me com a suave carnadura que os figos já mostravam. Deitei mão a um e, nisto dos figos, da mão à boca vai menos que um segundo. Estão com aquela gota que brilha ao sol. Figos pingo de mel. Comi vários. Todas as épocas do ano são tentadoras para quem é dado a tentações. O natal é porque é o natal, depois são os aquários que aparecem a pedir parabéns, depois os carneiros, algures por aí a páscoa, dos caranguejos nem se fala, festas, bolos de anos, férias, leões à mão cheia, e, como se não bastasse, pelo meio, os figos. Um e outro e outro e outro, uma fiada deles a caminho da boca. Gordos, carnudos, doces, dulcíssimos. 

Claro que a seguir virão as uvas, pérolas sumarentas, doces, macias. E antes já tinham vindo as nêsperas, néctar suave e dourado a desfazer-se na boca.

Como resistir-lhes?

Ao fim do dia, reguei as laranjeiras que estão tão secas. Que pena me dão. Receio que passem muito mal até ao fim desta secura. A terra está toda ela uma tristeza, ressequida. Até os arbustos mais campestres dão mostras de desidratação. Olhei para o céu na esperança de descobrir uma nuvem, mesmo que furtiva. Nada. Uma aflição.

Depois fui apanhar figos. O urso felpudo andava maluco, também a querer apanhá-los, a mordiscá-los. Enchi um saco e estou com vontade de comê-los em todas as formas e feitios: com kefir, no forno a acompanhar assados, com queijo e mel. Uma irresistível tentação.

No regresso, já de noite, deu-me uma daquelas vontades. Yoggy cherry. Bom, com aquela acidez boa do iogurte e o travo intensificado da cereja, mas muito doce, devem ter-se distraído na quantidade de açúcar. Mas comi-o todo, na mesma.

Claro que jantámos tardíssimo. 

Aqui, fui espreitar as notícias. Tenho sempre aquela curiosidade de ver se aconteceu uma grande descoberta, um feito inaudito, uma inspiração divina. Qualquer coisa que faça com que o dia tenta valido a pena. É isso que procuro. Aconteceu alguma coisa que mude o rumo dos acontecimentos? Que mude a nossa perspectiva sobre os grandes dilemas da existência?

E... não é que aconteceu...?

Étienne Klein, um cientista, tirou uma fotografia a uma rodela de chouriço e inventou que era um novo astro fotografado pelo Webb. E a malta caiu. E a graça maior é que o cientista não é um qualquer cientista maluco. Não senhor. É, imagine-se, físico e filósofo (uma mistura explosiva): é francês, diretor de investigação da Comissão Francesa de Energia Atómica. 

E depois de ter caído que nem uma pata, já babando perante a Proxima Centauri, a malta, para não dar parte de fraca, virou virgem ofendida -- e agora o pobre do Étienne teve que vir pedir desculpa. Sentido de humor é coisa que as virgens ofendidas não têm.

Pedir desculpa por uma ideia tão genial? Tirar uma fotografia a uma rodela de chouriço e anunciar ao mundo que o telescópio tinha feito uma sensacional descoberta...? Caraças. Como é que alguém se ofende com uma destas...? Eu acho o máximo. Uma rodela de chouriço a ser tomada por uma estrela em vias de ser descoberta. O máximo. Tão de excepção que até me apetece encher o texto de lol, lol, lol, loh. Ou ahahahahaha.

Ao que comecei por não achar o máximo mas a que acabei achando foi uma outra que quase parece brincadeira de mau gosto. 

Saco de plástico, daqueles do lixo, a lembrar os sacos que os refugiados enchem de pertences quando fogem em busca de um destino mais seguro -- mas vendido pela marca Balenciaga. No fim do desfile, até houve um piscar de olhos de solidariedade para com a Ucrânia. 


Uma coisa a modos que bizarra. Já para não dizer descabida. Mas, vai-se a ver e parece que o saco não é propriamente de plástico, que não é de lixo coisíssima nenhuma, saco de luxo é que ele é, pele ou lá o que é, e que custa nada mais, nada menos que a módica quantia de 1.400€. 

Coisa de doidos, dir-se-á. Mas, pensemos, se é coisa inócua e se há doidos que gostam e que dão dinheiro por isso, então, a ideia é capaz de não ser tão má assim (e melhor seria se a marca doasse o que ganha com os sacos a organizações que apoiem os refugiados).

Ou seja, pensando bem, há malucos para tudo e se calhar a mais maluca de todos sou eu que ainda não percebi bem isso.

Tirando isso, está tudo bem. Ou seja, tá-se.

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Desejo-vos uma boa quarta-feira

Saúde. Coragem. Paz.

sábado, outubro 02, 2021

Romãs a caminho de serem rubras-romãs para retribuir a gentileza da autora dos Atalhos de Campo

 

Quero agradecer-lhe as suas lindas romãs já com o rubor de Outubro. Mas, sem caixa de comentários aberta ou endereço de mail para onde se possa escrever, tem que ser mesmo aqui, desta forma a modos que esdrúxula. 

Estão lindas, T, certamente com uns belos e sumarentos bagos, bons para trincar. E a fotografia fá-las parecer ainda mais sedutoras.

As minhas são umas meninas do coro ao pé das suas que já se mostram maduras e prontas para serem degustadas. 

Como abaixo de pode ver, as minhas estão quase todas inocentemente verdes com excepção de duas que começam a dar o ar de sua graça. E já caíram umas duas cujos bagos não provei pois, quando dei por elas, já estavam rodeadas por uma nuvem de mosquitinhos que chegaram antes de mim.




E, sendo escassos os meios de agradecimento, para ver se o meu obrigada aparenta ser um pouco mais composto, permita que se nos junte um jovem que me traz cativa: Sheku Kanneh-Mason, aqui interpretando Blow The Wind Southerly


Obrigada, T.!