Música, por favor
Pablo Casals, de quem amanhã ou depois vos falarei, interpreta "The Swan (O cisne)" de Saint-Saens em 1925
(A pessoa que colocou o video no YouTube refere que I put the silent film footage of the famous Russian Ballerina, Anna Pawlowa (1881.2.12 ~ 1931.1.23), dancing her most famous work, "The Dying Swan", choreographed for her by Michel Fokine in 1905. This footage was filmed by Pathe Freres company on June 18th, 1907)
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50 Livros que toda a gente deve ler |
Volto ao suplemento Actual do Expresso desta semana.
50 livros que toda a gente deve ler. Ana Cristina Leonardo, Clara Ferreira Alves, Henrique Monteiro, José Mário Silva, Luísa Mellid-Franco e Pedro Mexia pronunciam-se e
João Cristóvão ilustra (e ilustra muito bem!).
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Franz Kafka, autor de O Processo, um dos 50 recomendados |
Sobre esta lista de 50 livros já
Eduardo Pitta se pronunciou notando a falta de Os Lusíadas e do Livro do Desassossego e reparando que apenas 5 dos 50 são de autores de língua portuguesa. Também eu tinha notado isso.
Nestas alturas de veraneio é costume os jornais ou revistas aparecerem com sugestões de leituras para férias e, portanto, aparecem aqueles livros mais ligeiros, publicações recentes, coisa para se pegar entre uma sesta e uma ida à praia.
Não é isso que aparece aqui nesta lista de 50 livros. Aqui aparecem, sobretudo, os clássicos, as grandes obras. E compreende-se.
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Da esquerda para a direita: Virgina Woolf, Marcel Proust, Emily Brontë, James Joyce |
Um ou outro dos chamados a sugerir ousou um pouco e avançou para terrenos menos neutros, menos conservadores. Mas, de forma geral, os livros que aqui aparecem são os pilares (Odisseia), os grandes russos (Guerra e Paz, Crime e Castigo), os grandes murais, as epopeias, as grandes vivências humanas (Os Miseráveis, A Montanha Mágica, Ulisses, A Divina Comédia,...), os grandes dramas românticos (O Monte dos Vendavais, Madame Bovary, Retrato de uma Senhora), etc, etc, etc.
Em português de Portugal temos apenas O ano de Ricardo Reis de Saramago, Os Maias de Eça de Queirós, a Poesia de Álvaro de Campos, a Obra Poética de Sophia de Mello Breyner Andresen. Tão pouco.
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Fernando Pessoa (ou, mais concretamente, dado que foi o escolhido, Álvaro de Campos) e Eça de Queirós |
Claro que construir uma lista dos 50 melhores livros de sempre é uma ingrata tarefa, é uma coisa redutora, forçosamente injusta. Mas custou-me muito ver tantos livros extraordinários deixados de fora e, sem chauvinismo o digo, uma tão fraca representação portuguesa quando a nossa literatura é tão rica.
Mas o mal (se é que de mal se pode falar numa coisa destas) não está nos jurados mas na missão. Um conjunto de apenas cinquenta livros é forçosamente uma amostra pequena demais. Quem tem que escolher tão poucos, tende, forçosamente, a jogar pelo seguro, pelo indiscutível.
Além do mais, penso que ajudaria o leitor (ou o potencial leitor pois penso que é, sobretudo, a potenciais leitores que um artigo destes mais interessa) se houvesse uma arrumação em géneros, já que quem não é muito dado a leituras, vai lá mais facilmente se for dirigido.
No entanto, que não se pense que estou a achar negativa a iniciativa de recomendar os melhores livros. Não, pelo contrário. Acho este exercício muito interessante e acho que deveria ser aprofundado. Sugeriria que se estabelecessem, pois, tipos ou géneros e, dentro de cada um, então se seleccionassem uns quantos, uns dez talvez. Penso que seria útil que, ao longo das semanas, fossem saindo, com formato idêntico ao desta edição - isto é, convidando vários entendidos em que, cada um, faria a resenha do que escolhesse.
Por exemplo: os 10 melhores policiais; os 10 melhores livros de poesia universal; os 10 melhores livros de poesia em língua portuguesa; as 10 melhores biografias ou autobiografias; os 10 melhores romances russos; os 10 melhores romances portugueses; etc, etc.
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A árdua tarefa de escolher um livro ou a árdua tarefa de arrumar livros |
Acho que seria uma preciosa ajuda para quem deseja constituir de uma forma avisada uma biblioteca bem estruturada.
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Boudu caminha ao lado do Sena em passos lascados, saltos de cabra velha, um Baco de barbas hirsutas e anárquicas.
Boudu vai matar-se.
O cão que beijando-o o lambia, o único húmido focinho a que ele dava beijos, fugiu-lhe ou perdeu-o ele na sua labiríntica liberdade. O desgosto atira-o ao rio.
Seria a morte de Boudu, se Monsieur Lestingois, tão refinado livreiro como voyeur, não estivesse, para desespero da ciumenta criada sua amante, a espreitar por um óculo as damas das margens do Sena. O livreiro lança-se ao rio e desafoga o vagabundo.
Lestingois é um reformista nato. Olha para Boudu, magnífico animal, e antevê a obra civilizadora: transformar a besta em cavalheiro.
Boudu tem uma electricidade neurológica caótica: inferniza a mesa do jantar, cospe com naturalidade nas doces páginas da 'Fisiologia do Casamento' de Balzac e, saudade dos beijos de cão, tenta beijar a boca de Anne-Marie, a amante do seu salvador.
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Boudu em acção
(representado pelo actor Michel Simon que, segundo referido no texto,
é ele mesmo anarquista, pornógrafo e misantropo) |
Beijará sim, fazendo soar trombetas, a boca de Madame Lestingois, bem precisada de uma brisa no decote e de uma musiquinha de realejo nos ouvidos.
No fim, o admirável troglodita (...) regressará, sem adeus e muito menos agradecimento, à sua desabrigada liberdade. Monsieur Lestingois consola-se a olhar o rio, o carinhoso braço direito apertando a criada, o esquerdo a terna esposa, um degrau de felicidade acima no firmamento balzaquiano.
Este excerto - extraído da crónica semanal
O cinema dá o que a vida rouba com o
saboroso título 'Dá-lhe beijos um cão', que se refere a um filme de Renoir - apesar de ser um pequeno e salteado excerto, mostra bem a qualidade de escrita de Manuel S. Fonseca, um dos mais interessantes cronistas do suplemento Actual do Expresso, um dos que, em minha opinião, melhor escreve, sempre com uma liberdade e uma frescura que se repete de semana para semana, ou melhor, que vem em crescendo de semana para semana. Manuel S. Fonseca escreve também no blogue
Escrever é Triste e os seus textos são sempre uma maravilha.
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E, para já, nada mais. Uma nova semana de Agosto está a começar e eu desejo-vos que, para vós, comece muito bem. Uma boa segunda-feira!