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segunda-feira, janeiro 19, 2026

No rescaldo da 1ª volta

 

Votei no Almirante, mas a preocupação que me levou a votar nele não foi partilhada pela maioria dos votantes pelo que, com pena minha, os portugueses não o levaram à 2ª volta.

E, em coerência com o que sempre disse, passando o Seguro e o Ventura, não hesito nem por um segundo: o meu voto vai, incondicionalmente, para o Seguro. 

Tenho muitas dúvidas na firmeza, na criatividade, no punch de Seguro como Presidente da República: não sei se é pessoa para fazer frente a Montenegro quando isso for preciso e tenho muitas dúvidas de que tenha capacidade, energia e autoridade para se impor como deve ser caso um dia venhamos a ter a infelicidade de Ventura chegar a 1º ministro. Mas as coisas são o que são. Step by step. O cenário agora é Seguro contra Ventura para Presidente da República. Portanto, sem hesitar, o meu voto só pode ser um: em Seguro.

Há uma linha vermelha muito clara: de um lado está a democracia, de outro está a anti-democracia, o populismo. Estarei sempre do lado da democracia, e estarei sempre com absoluta firmeza e convicção.

Portanto, tentando abstrair-me de que vejo o Tó Zé Seguro como o Menino da Lágrima com pose de Rainha de Inglaterra, vou concentrar-me nos seus aspectos positivos: é democrata, é humanista, é civilizado, supostamente é um homem sério -- e isso, para já, é o mais relevante. 

Na reacção aos resultados, Ventura, eufórico, ufano, já mostrou ao que vem: vem para a lama. Tentará enlamear Seguro e o que o rodeia. Voltaram as mentiras, os insultos, o apelo ao medo, voltou ao 'nós' contra 'eles', voltou ao 'nós, os puros, os portugueses de primeira', contra ' eles, os socialistas, os corruptos'. O discurso xenófobo, racista, divisionista, radical, não inclusivo, trumpista esteve ali bem presente. 

E eu só espero que quem votou no Almirante, no Marques Mendes ou em Cotrim rejeite isso e saiba posicionar-se a favor do País, da seriedade, da honestidade intelectual, do civismo, da democracia, da bondade e, mesmo que o seu coração penda mais para a direita e para o conservadorismo, dê primazia à decência e aos verdadeiros valores democráticos.

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Sobre Cotrim Figueiredo não tenho muito a dizer, a não ser que fiquei com a ideia de que ficou com vontade de fazer qualquer coisa com os votos que recebeu. Não sei o quê pois tenho para mim que os últimos dias o queimaram. Tendo uma conversa genericamente arejada, espalhou-se ao comprido ao dar a entender que poderia votar em Ventura (contra Seguro) e ao mostrar não ter estaleca para aguentar embates. Depois da notícia sobre o assédio e de ter visto o pasmo de muita gente com a sua não rejeição do voto em Ventura, foi-se completamente abaixo, mostrou-se arrasado, atirou em todos os sentidos de uma forma pouco estruturada. Com isso, mostrou não ter fibra para o cargo para que estava a candidatar-se.

Tirando este aspecto, há que registar o falhanço brutal da candidatura de Marques Mendes e do posicionamento de Montenegro, um falhanço em toda a linha. Com as suas opções e o seu apoio muito activo à candidatura fraquíssima de Marques Mendes, Montenegro derrapou à força toda, e derrapou para debaixo da pata de Ventura. Com isto, Ventura, o grande oportunista, o demagogo que funciona just-in-time, já veio apresentar-se como o líder da direita. Tempos agitados, estes próximos. Com um governo minoritário, com falhanços sucessivos e muito graves em áreas críticas como as da Saúde, da Habitação e da Segurança, Montenegro vai passar a caminhar no fio da navalha, sobre brasas. 

Outra candidatura cujo falhanço é também de registar é a de António Filipe, ou seja, do PCP. Claro que também a votação de Catarina Martins foi um desastre e, por acaso, tenho pena pois fez uma bela campanha. Mas o Bloco é um desastre pelo que desastre por desastre pouco adianta. A de Jorge Pinto, que, nos debates, mostrou estar muito bem preparado, foi outro disparate. Ao baralhar-se todo com o apoio ao Seguro, esvaziou completamente o seu eleitorado. Agora António Filipe, político experiente, esteve a fazer o quê? Qual a lógica do PCP? Mostrar à evidência que já não vale nada? Sendo um partido com um historial que merece respeito, qual a lógica de andarem a exibir uns desgraçados 1,6%? Não percebo. E, no discurso da noite eleitoral, aparecem com a mesma estafada conversa de que os portugueses podem continuar a contar com eles... Mas contar com eles para quê? Não percebem que já não riscam para coisa nenhuma? Não percebem que poucos mais votos tiveram que o Manuel João Vieira...? Caraças. Que pena que me dão. 

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Desejo-vos uma boa semana

segunda-feira, outubro 13, 2025

E mais alguns apontamentos sobre as autárquicas
--- A palavra ao meu marido ---
: 4º post no rescaldo das Autárquicas 2025 :

 

O PSD ganhou as autárquicas. Não terá sido uma vitória tão expressiva como ambicionavam nas capitais de distrito mas ganharam os distritos mais populosos que provavelmente não pensavam ganhar. 

O José Luís Carneiro após três meses à frente do PS e tendo, na minha opinião, feito um trabalho sério e persistente, conseguiu, ao contrário do que desejariam alguns grupinhos do PS e certamente pretendiam alguns comentadores encartados, repor o bipartidarismo e recolocar o PS como um partido de alternativa de poder à AD. Foi uma derrota mais doce do que amarga e foi também a consolidação da liderança que eu espero que tenha bastante sucesso do José Luís Carneiro. 

A derrota da Alexandra Leitão em Lisboa deve ser a derrota final do Pedro-Nunismo. Se olharmos para os resultados freguesia a freguesia percebe-se que as freguesias onde tendencialmente residem os mais abastados tiveram medo do "radicalismo" da Alexandra e das companhias mortáguas com que se rodeou. 

O Moedas que nunca quis discutir Lisboa, apostou sempre na mensagem do radicalismo e isso, como se constata, fez o seu caminho. Uma coisa é certa: fui recentemente passear no Chiado, na Baixa  e na zona ribeirinha e fiquei chocado com o estado da cidade. Estive também em Alvalade e a quantidade de lixo no chão é uma vergonha. No entanto, parece ser este estado de coisas que os lisboetas preferem. É o que é! 

O Ventura ganhou dez por cento do número mínimo de câmaras que tinha como objetivo ganhar e ficou atrás da CDU e do CDS, coisa que ele tinha declarado impensável aqui há dias. Como populista que é, veio cantar vitória quando na verdade teve uma derrota estrondosa só (relativamente) comparável  à da IL que ontem tentou passar por entre os pingos da chuva e parece-me que nem falou à malta.

Sobre a CDU já aqui escrevi ontem, não atingiu os mínimos mas ainda não foi totalmente corrida. Percebi ontem, depois da intervenção do Raimundo, que são como a ministra da saúde, definem estratégias que só dão porcaria mas insistem no erro para fazerem ainda mais porcaria. Um apontamento, a esquerda unida, incluindo a CDU, tinha ganho Lisboa e Porto. 

Quanto ao CDS alguém tem que dizer ao Nuno Melo que já basta de dizer tanta parvoíce.

Há uma outra conclusão, o pessoal está-se nas tintas para questões éticas e para comportamentos eventualmente duvidosos. Que o digam o Montenegro, a Maria das Dores Meira e o rapaz de Braga. 

E viva o Isaltino! Espero que tenha comido um belo lavagante.

Em Lisboa, Alexandra Leitão foi um tiro no pé do PS (um tiro disparado por Pedro Nuno Santos)
E os ganhadores e perdedores destas eleições

 

Na altura, em Janeiro, referi-o: Alexandra Leitão foi uma péssima escolha para presidente da Câmara de Lisboa

Pior ainda quando Alexandra Leitão, com o apoio do PS da altura, resolveu ressuscitar parte da Geringonça, atracando-se à tóxica Mariana Mortágua. Com isso, não foi um tiro, foram dois tiros. A vitória do insignificante e pantomineiro Carlos Moedas conseguiu ser expressiva quando, com o desastre que foi o seu primeiro mandato, facilmente qualquer outra pessoa -- que não Alexandra Leitão (com a Mortágua à ilharga) --, o bateria.

Aliás, basta ter ouvido a nulidade do discurso de derrota da palavrosa Alexandra Leitão para perceber a vacuidade e a inconsistência daquela pessoa. Uma nulidade de discurso que envergonha. Por comparação, atente-se no brilhante, embora humilde, comovente até, discurso de Pizarro, um grande democrata.

Tenho a certeza de que fosse José Luís Carneiro a ter feito a escolha e outro teria sido o resultado de Lisboa. 

Claro que, como o meu marido abaixo referiu, a cegueira política e a estupidez encartada do PCP foi uma preciosa ajuda para o Moedas. Não é de espantar: mais depressa o PCP dá a mão a gentinha desqualificada do que se une a alternativas de esquerda. Corresponde a 100% à definição de idiota: uma pessoa que faz coisas estúpidas que não beneficiam ninguém nem o próprio.

Mas agora foco-me no PS. O PS tem gente muito boa. Duarte Cordeiro ou Mariana Vieira da Silva, por exemplo, tirariam a Câmara de Lisboa de letra. E reconquistar a Câmara de Lisboa era importantíssimo pois Carlos Moedas, para além de um caguinchas e um oportunista, é uma lástima como presidente da maior autarquia do país.

O que me anima é pensar que o Pedro Nuno Santos já não fará mais disparates em nome do PS. Felizmente agora temos um pragmático, um determinado, um assertivo, um lutador, um trabalhador incansável, uma pessoa decente, um líder muito capaz. Sempre defendi que com José Luís Carneiro outro galo cantaria no PS, e a sua actuação enquanto líder tem vindo a comprová-lo. O PS voltou a erguer a cabeça e acredito que o País só tem a ganhar com pessoas sérias e competentes como ele.

Quanto a outras autarquias tenho ainda a dizer que algumas vitórias que não apreciei foram mais demérito de alternativas de fraquíssima qualidade do que mérito dos fracos autarcas que ganharam. Há ainda um caminho de maturidade democrática por alcançar, desde logo na conquista de prestígio ao exercer cargos autárquicos. Não faz sentido que em algumas listas, um partido grande como o PS, que tem gente altamente qualificada, avance com gente pouco convincente, fraquíssima. 

Finalmente o Porto. Teria ficado contente se Manuel Pizarro tivesse ganho. Gosto dele. É um verdadeiro democrata, humanista, republicano de gema. E simpaticíssimo. Mas acredito que o Pedro Duarte vai ser um bom presidente de Câmara. Pelo seu discurso de vitória e pela forma como se referiu a Manuel Pizarro confirmou ser um tipo decente. E tenho-o em conta de um tipo capaz, enérgico. Por isso, acredito que o Porto vai ficar bem. Foi uma boa escolha de Montenegro. E desejo-lhe boa sorte.

De resto, claro que o PSD ganhou inequivocamente. E não há dúvida que Montenegro, apesar das suas trapalhices spinunvívicas e das grandes debilidades em algumas áreas relevantes da governação, tem conseguido sobrevoar os escolhos e seguir adiante. É resiliente e dúctil e isso são qualidades físicas que conferem resistência e durabilidade a qualquer material. Disso não tenhamos dúvidas. Portanto, chapeau.

Quanto aos derrotados destas eleições são, de forma muito clara: 

  • a CDU, que, de derrota em derrota, caminha cega e resolutamente para a absoluta irrelevância, 
  • o BE, que me parece que já não existe, 
  • o simpático Livre que, autarquicamente, se dilui e desaparece,
  • a IL, que autarquicamente é invisível,
  • e o Chega, o partido que alavanca a fanfarronice do Ventura e que, sem a lábia dele, vale menos do que um .... (ai a palavra que me ia saindo...)

João Ferreira, o idiota útil
-- A palavra ao meu marido --

 

Estou a escrever o post sem saber quais são os resultados finais das autárquicas. A esta hora parece podermos concluir que não houve a hecatombe eleitoral do PS que tantos previam e desejavam e que a almejada e sonhada conquista pelo Chega de câmaras com muita importância populacional também não vai acontecer. Mas uma coisa é certa: o João Ferreira fez mais uma vez o papel de idiota útil. Tenho para mim que este tipo é inteligente e que conhece os assuntos -- como provou nos debates sobre Lisboa em que foi quem se saiu melhor. No entanto, presta-se a este papel de idiota útil seguindo a política absolutamente suicida do PCP e apresentando-se sozinho a eleições sem qualquer perspetiva de vitória. Parece que objetivo do PCP e do João Ferreira é, sobretudo, derrotarem o PS  nem que para isso tenham tacitamente que apoiar o PSD. 

Com esta política, acabarão por perder a pouca influência que ainda têm na política portuguesa. 

Ontem falava com um ex-militante comunista e ainda apoiante do PCP que me recordava as enormes traições que o PS tinha feito há cinquenta anos. Este  discurso, que é comum nos comunistas que ainda não percebem que muito mudou em cinquenta anos, é uma das principais razões pela quais não conseguem atrair simpatizantes e cada vez perdem mais votos. Receio que, no fim da noite, mesmo com todos os artifícios que costuma usar na noite da campanha eleitoral, o PCP tenha que meter a viola no saco e nem meia vitória consiga gritar. Apetece-me dizer-lhes que qualquer dia nem servem para beber um vodka com laranja.

terça-feira, setembro 16, 2025

João Ferreira: a julgar pelo debate na SIC, se eu votasse em Lisboa, seria nele que eu votaria

 

É certo que tem aquele pequeno problema de ser do PCP. É sabido que sinto sempre alguma perplexidade quando vejo uma pessoa que parece ser lúcida e racional manter-se no PCP. Provavelmente há questões psicológicas que o justificam mas a mim, que não as conheço, faz-me confusão. 

Contudo, a nível autárquico, o que em minha opinião deve prevalecer é a capacidade de fazer, a visão de ver ao perto e ao longe, a sabedoria para vencer obstáculos, a paciência para ultrapassar as chachadas da pequena política (que a nível autárquica parece tender a ser coisa muito rasa), a energia para se dedicar de corpo e alma ao bem estar dos habitantes ou dos visitantes da cidade. E, do que vi, pareceu-me que o mais estruturado, o mais assertivo e talvez competente, seria o João Ferreira.

Claro que é também o mais bonito e isso, parecendo que não, também conta.

terça-feira, maio 20, 2025

Reflexões na ressaca

 

Isto não está fácil, confesso. Não me apetece escrever. No domingo à noite deitei-me tarde, atordoada. Os resultados das eleições viraram-me do avesso. Eram seis da manhã e ainda não dormia. Já o dia clareava e eu sem sono. Depois acordei às oito e picos e parecia-me que já não tinha sono. Forcei-me a dormir mais um pouco. Mas pouco mais. Íamos ao ginásio e depois ainda tínhamos várias coisas a fazer. Ou seja, mal dormi.

Por isso, de tarde, lá para as cinco, deitei-me ao sol, na espreguiçadeira, e adormeci. Não muito pois as nuvens passavam a vida a cobrir o sol e ficava frio. 

Há pouco, estávamos a ouvir o Paixão Martins, adormeci de novo. Micro-adormecimentos mas o suficiente para não ter conseguido acompanhar com seguimento.

Ainda não recuperei do entorpecimento, do estupor catatónico em que, interiorente, fiquei.

Do que me chega, há pessoas bem na vida, instaladas, umas que ainda guardam ressentimentos do 25 de Abril e que votam no Chega pois acham que o Ventura vai ajustar contas com esse passado. Outras, quadros em boas empresas, querem simplesmente rebentar com 'isto tudo'. Se calhar, pessoas mal sucedidas na sua vida pessoal (mas isto já sou eu a dizer). Quando pergunto a quem conhece essas pessoas o que é que, na verdade, elas acham que o Ventura pode fazer por elas, a resposta é que isso não é questão que se ponha. Não pensam tão longe, limitam-se a querer rebentar com as coisas. O que vem a seguir é tema que não lhes ocupa o pensamento. Outro caso, nos antípodas, um conhecido que não estudou muito, que começou a trabalhar, trabalho pouco qualificado, faz uns 'ganchos' ao fim de semana para compor o ordenado. Vota no Chega porque diz que os 'outros' não fazem nada por ele, acredita que o Ventura é capaz de fazer. Pergunto: mas fazer o quê, em concreto? A resposta é a mesma: o pensamento dele não vai até esse ponto.

No outro dia, vi na televisão uma dessas que vive certamente numa realidade pobre, suburbana, mas que deve sentir que vive numa realidade alternativa ao viver permanentemente nas redes sociais. Percebe-se que, certamente, tem como ídolos algumas conhecidas influencers. Usava várias vezes a expressão: 'quero tudo a que tenho direito'. Ao ver as influencers andarem pelos hotéis, pelos ginásios, institutos de beleza e restaurantes, sonha, certamente, atingir esse patamar. Pela conversa, acredito que vote Chega. Deve ser daquelas que acha que o Ventura diz tudo o que tem a dizer, não tem medo de nada, tentam calá-lo mas ele não se fica. Ou seja, veem-no como um líder que merece ser seguido. Claro que se lhe perguntarem o que é que o Ventura pode fazer por ela, não saberá dizer. Isso já é uma segunda derivada e o raciocínio não vai tão longe. Se lhe perguntarem também em que é que os 'poderosos e corruptos' de que o Ventura tanto fala a prejudicam, claro que também não saberá o que dizer. 

O Ventura navega nestas águas turvas da ignorância, do ressabiamento, da ilusão. Em bom rigor, de concreto ele não promete nada. Aliás, de concreto, ele não diz nada. Limita-se a apresentar-se como um líder, o que está aqui para salvar os descontentes, o enviado de Deus, o que vai vingar os que se sentem prejudicados. As pessoas acreditam nele sem precisarem de provas, tal como acreditam em Deus sem precisarem de provas ou tal como, antes, acreditavam no PCP sem cuidarem de saber em que país é que aquele modelo comunista funcionava. As pessoas que votam no Chega, em larga maioria, fazem-no por uma questão de crendice, de fezada.

Numa reportagem de há pouco tempo, um pastor evangélico, no Seixal, um que aluga quartos num armazém sem condições, dizia que recomendava o voto no Chega. Os iguais reconhecem-se.

Porque é que nestes subúrbios há tantas igrejas maná, evangélicas, do sétimo dia e coisas assim? O que é que aqueles pastores fazem pelas pessoas? Nada. Ficam-lhes com o dinheiro e prometem coisas, umas divinas, outras estratosféricas. E as pessoas acreditam, gostam.

Não sei como se combate isto. As pessoas com ética, com sentido de responsabilidade, honestas, não recorrem à mentira, às promessas vãs, não se prestam ao papel de fazerem vídeos estúpidos, manipulados ou falsos, apelando à vingança ou  difundindo mensagens xenófobas ou racistas, nem usam a ignorância das pessoas para explorarem as suas emoções, os seus medos, os seus anseios. Ou seja, as pessoas decentes não são capazes de usar as mesmas 'armas' que os populistas. No fundo, o terreno está livre para que os do Chega, os das igrejas alternativas ou outros movimentos do género, possam ocupá-lo e aproveitar a crendice, a ingenuidade ou os ressabiamentos de quem ali se sente entre iguais.

Como se explica a uns e a outros, ao milhão e trezentos mil que votaram no Chega, que o que está a ser feito no País é isto e aquilo, que há contas e orçamentos, que, no caso dos que ganham menos, não pagam impostos e podem usufruir de tudo (hospitais, escolas, policiamento nas ruas, etc.) sem pagarem nada. ou que há um défice demográfico no País e os imigrantes são necessários, úteis e deveriam ser recebidos de braços abertos? 

Como falar com pessoas que não querem ouvir coisas 'complicadas', cujo tempo de atenção se esgota com uma frase de cinco palavras, que não querem saber da ética dos líderes que adoram? Que apenas querem imaginar um eldorado em que elas serão tratadas como princesas com tudo a que têm direito e eles serão machos, viris, ricos, com grandes carrões?

Aqui, em França, na Alemanha, em Itália, nos Estados Unidos... agora ou há cem anos... como se combate o populismo? 

Acresce a isso, a circunstância presente, ubíqua, desregulada: como se combate o efeito nefasto das redes sociais?

Não sei.

Ou será que nem vale a pena matar a cabeça a tentar matar a charada? Será que é esquecer esta franja que sempre votará irracionalmente? Ou não? Será que deve é haver um pacto entre a comunicação social para não dar cobertura aos populistas? Ou quem está no Governo deve, simplesmente, focar-se em resolver problemas concretos e divulgar eficazmente a sua resolução? Ou não é bem isso e o melhor mesmo é ser-se capaz de criar uma utopia -- mas uma utopia realizável -- e deixar que as pessoas que precisam de acreditar em miragens tenham algo com que sonhar... e depois concretizar esses sonhos?

Em paralelo, enquanto se pega pelos cornos (ou de cernelha) o populismo, tentando impedir que cheguem mesmo ao topo, há que construir uma alternativa. Vi na TVI uma caracterização do eleitorado do Livre e da Iniciativa Liberal: um alinhamento entre escalões etários (gente mais jovem do que nos outros partidos) e formação académica (largamente com formação superior). Reforçou a minha convicção de que o futuro passa por aqui. Tivesse eu menos uns quantos anos e era bem capaz de fazer de tudo para explorar as convergências entre eles e tentar arranjar uma plataforma que fosse o motor de um movimento progressista, dinâmico, arejado, que atraísse mais gente, que gerasse iniciativas agregadoras, que avançasse com propostas de melhoria nos diversos sectores da sociedade, que mobilizasse mais gente para participar na construção de novas propostas de acção.

Enfim. Ando para aqui às voltas, preocupada com o mundo cada vez mais estúpido, disfuncional e distópico em que vivemos.

Vou ver se durmo melhor esta noite. E vou ver se, durante o dia, me entretenho mais a olhar e a fotografar as florzinhas que estão por todo o lado. Estão viçosas, lindas, os campos estão cobertos, felizes da vida como se a os temas da política lhes passassem totalmente ao lado.

sábado, março 08, 2025

Se eu fosse eu

 

Há um texto muito conhecido de Clarice Lispector que explora essa possibilidade. Reza assim:

Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura se revela inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir. 

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser levemente locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas, e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo o que é meu, e confiaria o futuro ao futuro.

“Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.

Neste caso paradoxal em que Montenegro, para não se desenredar a ele próprio, enredou todo o País, se eu fosse eu -- e se eu tivesse poderes mágicos para conseguir que se fizesse o que eu queria -- haveria algumas coisas que eu faria de imediato:

1ª - Corria com o Montenegro do PSD. O quanto antes.

O caciquismo laranja no seu pior, vestígios daquele cavaquismo que, em seu tempo, alastrou por todo o País, o amiguismo feito de esquemas, e aquele espírito videirinho em que se fala por meias palavras ou, de preferência, nem se fala para que possa sempre dizer-se que não foi isso que disse, em que uma mão lava a outra, em que há sempre quem contrate alguém para que um dia que seja necessário e etc. -- tudo isso vejo em Montenegro. Das pessoas mais incompetentes que conheci até hoje, um que era cavaquista, que estava administrador de uma empresa, tendo já passado por outras administrações, sem saber fazer nada de nada de nada (nem se esforçar por isso). Amigo de um amigo. Falava muito do Marques Mendes e do outro de que já nem me lembro o nome, um ministro com bigode que também andou metido em trabalhos. Este artista de que falo tinha uma bela casa, tinha uma outra bela casa, tinha um belo carro, a empresa pagava-lhe motorista, exigência dele, frequentava todos os convívios em que os amigos dos amigos estavam, gostava de ostentar o seu poder. Mas, fazia género, dá ideia que se considerava mesmo um bom trabalhador. 

Um fulano como Montenegro está a ser muito mau para o País mas também para o PSD. Não sei se, neste momento, há alguém de jeito no PSD para suceder a Montenegro mas, mondando bem, talvez descubram alguém que seja um bocadinho melhor que ele.

2ª - Arranjava maneira de seguir uma sugestão que Leitor bem pensante aqui teve a amabilidade de deixar: avançava com José Luís Carneiro como candidato a Primeiro-Ministro

Pedro Nuno Santos é um bom rapaz, é boa pessoa, é bem intencionado, é voluntarista, parece genuinamente honesto -- mas, em minha opinião, falta-lhe uma qualquer quelque chose. Parece que ainda não está sólido, parece que lhe falta pulso, punch, mão firme. 

Contudo, que não se faça confusão: entre Montenegro e Pedro Nuno Santos, claro que Pedro Nuno Santos. Estão em planos diferentes. O plano de Montenegro é o dos chicos-espertos, que usam a política para engrossar (ou, pelo menos, manter) a sua carteira de clientes. O plano de Pedro Nuno Santos é um plano em que há ainda utopia, desejo de uma vida ao serviço do País, há alguma nobreza na forma como se entrega de corpo e alma. Mas ainda não está no ponto. 

3ª - Arranjava maneira de ter uma direita decente, liberal, democrática. Havendo uma direita moderna, arejada, talvez esvaziasse a direita civilizada que se bandeou para o Chega

4ª - Tentava ter uma esquerda moderna, inteligente, lúcida, com compreensão para o que são os reais problemas das pessoas, uma esquerda despretensiosa, não ortodoxa, aberta. Talvez se conseguisse esvaziar o que resta do PCP, o que resta do BE, do PAN e do Livre, e criar uma força política nova, com os pés assentes da realidade actual (não no passado, não noutra qualquer geografia). Talvez assim a esquerda ganhasse força e talvez conseguisse cativar os que só encontraram 'amparo' junto do Chega.

Com um panorama político assim, acredito que o País seria outra coisa, seria governável, inteligente e eficazmente governável.

De qualquer forma, mesmo que a reorganização da esquerda e da direita não fossem para já, parece-me que seria saudável para o País que a 1ª e a 2ª medida fossem, desde já, seguidas. A 1ª seria não apenas saudável como higiénica.

Tirando isso, claro que havia ainda outra coisa:

5ª - Também gostava que tivéssemos um Presidente da República em acção e agindo de acordo com a Constituição e com o bom senso, e com uma visão rigorosa e ponderada cobre o País e sobre o Mundo. Mas, no actual contexto, acho que esta já seria talvez pedir de mais.

quinta-feira, agosto 15, 2024

As surpresas desta vida.
Putin, Trump, Kamala Harris, Zelensky

 

Desde que criei o Um Jeito Manso até a Rússia cobarde e barbaramente invadir a Ucrânia, eu mudava periodicamente o aspecto do blog: alterava a imagem de abertura, mudava as cores. Várias vezes por ano, mudava tudo. 

Mas, quando a Ucrânia se viu atacada, invadida, destruída, resolvi vestir o blog com as cores da Ucrânia e colocar, na abertura, a imagem de uma criança, corajosamente confiante na reconquista da tranquilidade e da paz em solo ucraniano.

Claro que já mil vezes me apeteceu mudar. A novidade e a vontade de mudança está-me nos genes. Mas neste caso não mudo. Deixar de aqui ter as cores da Ucrânia seria aceitar que já não vale a pena continuar, seria assumir algum cansaço, uma certa desesperança. 

Não. Aqui continuarão até que a Ucrânia vença esta guerra, até que a Rússia retire as patas ensanguentadas do solo ucraniano. Mesmo abdicando do que, creio, era a imagem de marca do meu blog, manter-me-ei firme a mostrar o meu apoio à Ucrânia e a minha convicção de que a vitória será sua. Sua e do mundo civilizado.

Os segismundos, as estátuas salgadas e demais comunas ressabiados bem podem chamar-me lunática, bem podem vir para aqui destilar o seu fel contra a democracia e contra quem gosta da liberdade, e assegurar que a Rússia tem um poderio desmesurado e, que, quando quiser, pisará de vez a Ucrânia, que a mim tanto se me dá. A mim não me convencem. Sei que a (grande) coragem dos que resistem e a (pequena) coragem dos que os apoiam irão derrotar o ditador, o tirano, o psicopata Putin e os que o apoiam. Sei. Tenho a certeza.

Ao fim deste tempo todo, Putin ainda não conseguiu o que queria. Pelo contrário, têm sido desaires atrás desaires e agora é o que sabe: a humilhação de ter a Ucrânia a causar beliscaduras em solo russo.

Há muita gente que ainda não aprendeu que o primeiro milho é para os pardais e que o bem, por muito que custe e por muito que dure a atingir, acaba sempre por prevalecer.

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Numa outra geografia e numa outra escala mas havendo pontos de intersecção, Trump. O obtuso, populista, trambolho, troglodita Trump.

Quando se pensava que, com Biden a soçobrar, a patinar e a não querer desistir, Trump já lá estava... eis que, de repente, há uma reviravolta. O panorama seria terrível para todo o mundo se Trump voltasse a ser presidente dos Estados Unidos.  Trump está mais próximo de Putin, de Xi e de Kim do que mundo democrático e isso é um risco para o mundo.

Podem os Estados Unidos estar carregados de gente bronca -- bronca e burra e estúpida a ponto de apoiar Trump --, mas há muita gente inteligente, informada, culta, bem formada, amiga e defensora da democracia e da liberdade.

Por isso, tenho também para mim que Kamala vai ser a próxima presidente dos Estados Unidos. 

E um dia vamos acordar com o Putin apeado e com a Ucrânia livre do pesadelo terrível por que está a passar.

Tenho esperança de ainda viver tempos de paz no mundo, tempos felizes, tempos de desenvolvimento.

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A propósito:

Jon Stewart on Why Trump Wants Biden Back So Badly He's Reusing His Old Attacks
| The Daily Show

Donald Trump thought he was cruising to victory against Joe Biden, but now he's facing a hard fight against Kamala Harris. Jon Stewart looks at Trump's half-hearted attempts to adjust to the new challenge and wonders if he's hatching a devious plan to help Biden take back the nomination, January 6th style


Peace and love

sexta-feira, agosto 02, 2024

Considerações da UJM sobre o que se passa na Venezuela e na cabeça dos maduros do PCP

 

Estes dias têm sido bem animados e poucas notícias tenho visto. Há pouco pus-me a ver os Jogos Olímpicos, momentos exultantes, e, em vez de me pôr a exultar também, adormeci profundamente. Deve ter sido coisa de cinco minutos, não mais, pois logo de seguida o meu marido chamou-me para jantar. Ainda havia arroz de salmão de ontem ao almoço, era só aquecer e juntar salada de alface. 

Das notícias do dia há uma que me está a fazer espécie: a libertação de prisioneiros pela Rússia e pelos Estados Unidos. Parece que foi uma troca. Não sei a que se deve, a que propósito, porquê agora. Alguma coisa é. Se calhar, se me debruçar sobre os Guardians desta vida, facilmente me esclareceria -- mas isso fica para depois, agora ainda estou meio abananada de ter sido acordada à pressão.

Também li (mas só o título) que a temperatura no Antártico está 10º acima da média e palpita-me que isso não são boas notícias. Caraças para as alterações climáticas. Tenho medo.

E também vi a indignação do Partido Comunista Venezuelano ao saber que o PCP apoia a 'vitória' do Maduro. Situação extraordinária esta... O PCP português, sempre, sempre, ao lado dos tiranos e dos ditadores, agora até já actua em contramão em relação aos partidos congéneres desses países que, como se vê, se demarcam da actuação anti-democrática do regime vigente. Uma vergonha. O PCP continua a sua deriva a caminho da extinção. Ninguém os obriga a isso. São eles mesmos que estão determinados nisso. Situação bizarra.

Há dois dias tinha feito um daqueles meus vídeos mas, em vez de falar de abelhas ou da minha voz de Castelo Branco ou de Dona Lady Betty, falava do apoio do PCP ao que se passava na Venezuela. Ainda não sabia da barracada acima referida. Por isso, de certa maneira, o vídeo está um pouco desactualizado.

Mas, por hoje, é o que me apraz partilhar convosco. 

Ainda tenho que ir ali pôr creme hidratante no corpo porque, há bocado, tomei banho e não o pus pois com miúdos cá é tudo tão à pressa que não dá para frioleiras dessas. De manhã, quando fui ao supermercado, comprei um de azeitona e estou curiosa. Só espero que não me deixe a cheirar a azeite. 

In heaven não se fala só de abelhinhas e de coisinhas fofas, também se fala das cavaladas do Maduro e das maluquices do PCP


Dias felizes

segunda-feira, junho 10, 2024

Europeias 2024 -- primeiras impressões

 

A nível nacional:

Continuo triste e apreensiva com as elevadas taxas de abstenção. Não me interessa que seja menos 1 ou 2% ou por aí face às últimas. Mais de 60% das pessoas não se darem ao trabalho de votar.

Continuo triste a apreensiva com a capacidade de análise e com a inércia na reacção dos votantes, ao verificar que, sendo patente a inequívoca falta de qualidade, a todos os níveis, da AD e a estupidez que foi pegarem num comentador arrogante e agressivo (o facto de ter 28 anos até é pormenor) para cabeça de lista, ainda há tanta gente a votar neles.

E, para já, neste momento, só isso é certo.

Face à votação em mobilidade, como o Pedro Magalhães explicou, as sondagens à boca das urnas que serviam para a abertura das notícias este ano não estão calibradas. Portanto, não se consegue garantir a sua fiabilidade dentro dos intervalos que, noutras condições, era seguros.

Portanto, com as devidas reservas:

  • A ser verdade que o PS não descola, fico apreensiva por os Socialistas ainda não terem percebido que os tempos são outros. Se já nem os anteriores votantes no BE e na CDU votam neles, a que propósito o PS continua enleado na doutrina gerincôntica? 
Além disso, verifica-se que a nível de votantes, a faixa maioritária é a das pessoas com mais de 55 anos. Ora isto não é bom. Se um partido não sabe perceber e responder aos anseios dos mais novos e dos intermédios, acaba como o PCP... (ie, à medida que os mais velhos forem desaparecendo, o partindo tende para a extinção. Claro que ainda está longe disso mas os sinais já aí estão)
  • Não me espanto com o que se anuncia como a subida da Iniciativa Liberal. A ver vamos.
  • Ficarei bastante contente se se verificar que o balão do Chega desinflou. Mas vou esperar pelos resultados.´
  • Não fico admirada ao verificar que a esquerda-esquerda continua a caminho da extinção. O PCP e o BE bem podem reflectir. 
  • Gostava que o Paupério fosse eleito. Nos tempos que correm, o Livre é a esquerda inteligente e era bom que continuasse a subir e a ser reconhecida.
A nível europeu:
  • Estou deveras apreensiva com o que aconteceu em França. Muito.
  • Aparentemente, é uma tendência geral na Europa, embora talvez não tão acentuada como em França. O que sempre temo, que a democracia "por delicadeza se deixe matar", pode acontecer se não formos capazes de pensar com uma cabeça nova, uma mente aberta.

NOTA: Interessante a análise que o Sérgio Sousa Pinto tem vindo a fazer na CNN.

terça-feira, maio 21, 2024

A propósito da posição do PCP sobre a guerra da Rússia contra a Ucrânia, é favor ler Der Terrorist

 

Como já aqui o confessei diversas vezes, custa-me muito ouvir as pessoas do PCP a dizerem inanidades quando confrontadas com o que Putin está a fazer à Ucrânia. Não se percebe que são tontos, se são aluados, se são lelés da cuca, se acreditam no pai natal ou se, apenas, sofreram alguma lavagem cerebral ou lobotomia. Ou se julgam que estão a falar com burros. 

Alguma coisa é, pois aquela conversa não é normal. Chega a ser patética. Avança um energúmeno pelas fronteiras de um país, destrói, mata, arruína, e os do PCP a única coisa que dizem é que querem a paz. Como se fossem os desgraçados dos ucranianos que estivessem a provocar a guerra.

E quando os russos avançam, tomam à força a terra que é dos outros, matam e esfolam, vêm os do PCP e falam na guerra da Nato como se fosse a Nato e não a Rússia a provocar a guerra.

E, quando os questionam sobre a sua posição hipócrita ou parva, não apenas dizem coisas ridículas, pueris, como, para se justificarem, invocam coisas que ou não vêm a propósito ou são até contraditórias face ao que estão a dizer.

Foi o papelinho (o papelão!) que João Oliveira hoje fez no debate na SIC. Coisa patética, absurda, coisa que mostra bem porque é que o PCP está a entrar pelo ralo da política portuguesa. Mas quem evidencia a dimensão do absurdo é Der Terrorist. Leiam, por favor, Ninguém leu a puta da acta

sexta-feira, maio 17, 2024

Ao ouvir João Oliveira a rabear em volta do tema da invasão da Ucrânia por parte da Rússia só me ocorre a dúvida: como é que as pessoas inteligentes do PCP não se demarcam da absurda e hipócrita posição oficial do partido?

 

Coloco esta questão pois admito que haja pessoas inteligentes no PCP. É que, se admitisse que não, então estaria explicado. Mas sei que há pessoas com boa cabeça. Mas, se têm boa cabeça, como é possível que se prestem ao papelinho, ou melhor, ao papelão de andarem às voltas do próprio rabo, a dizer coisas que não vêm a propósito, a desconversarem, a atirarem poeira para os olhos, a ver se conseguem passar entre os pingos da chuva, mas, na prática, incapazes de criticarem Putin, incapazes de dizerem que, para a guerra acabar, a Rússia deve tirar as patas ensanguentadas do país soberano que invadiu e que, barbaramente, estupidamente, quer anexar.

quinta-feira, março 14, 2024

Tempo para os deixar poisar


Há coisas que a gente pode ser levada a pensar que são objectivas, inequívocas. Mas não. Do mais subjectivas e flexíveis que há. 

Para começar, a saúde. Perante a mesma situação, cada médico diz a sua coisa. Uma pessoa pode ficar sem saber para que lado se há-de virar. Sobre os meus joelhos já ouvi de tudo. Já fiz artroscopia porque, segundo o ortopedista, era imprescindível, e já ouvi vários médicos dizerem que tinha sido uma estupidez, que não havia qualquer critério para isso. Sobre a conclusão que se retirou da observação lá dentro, as conclusões foram igualmente díspares, contraditórias. E as recomendações para a prevenção de crises são igualmente para todos os gostos. Parece mentira mas é verdade.

Outra coisa que é que tal e qual é a legislação. Dir-se-ia que deveria ser fraseologia destinada a regular a existência, sem desvio, sem equívocos. Mas não. Por cada frase é preciso ouvir um monte de juristas e cada um fará a sua interpretação. 

Perante a questão do dia, se o que vale é a coligação ou se é cada partido que a compõe, já ouvi de tudo. E confesso que não sei quem tem razão pois os constitucionalistas opinam como tendo conhecimento de causa, mesmo para defenderem posições contrárias e eu, pobre de mim, sou leiga na matéria.

Também há aquilo de ainda faltarem os votos dos emigrantes que, face à escassa diferença existente, poderem vir a alterar os resultados, em especial se o que valer for a contagem dos partidos e não a da coligação.

Contudo, entre as opiniões de uns e outros, Marcelo já começou com as audições. Não faço ideia se faz bem se faz mal. Diria que, uma vez mais, está a falar antes de pensar. Mas isso sou eu.

Mas que está aqui um caldinho, está. Marcelo, na ânsia de correr com o PS, fez de tudo para o concretizar. Sempre embrulhou as suas intenções na desculpa da estabilidade. Mas sempre foi ele o principal agente de instabilidade e, como se isso não fosse suficiente, este seu lindo serviço da dissolução da Assembleia da República conduziu ao que se vê, um resultado que é do mais assimétrico e instável que há. 

Tal como tenho aqui dito, face ao ponto a que chegámos, se entramos todos em histeria -- cada um a espingardar para seu lado -- não vamos a lado nenhum.

O PCP, como sempre sem perceber nada do que se passa à sua volta, já nos presenteou com uma rejeição precoce. Ainda a coisa não começou e já eles estão a (não direi a ejacular mas a...) disparar. 

É que, em termos concretos, ainda ninguém sabe a composição do Governo e, muito menos, o seu programa. Mas isso não é coisa que incomode o bom do Raimundo que, por via das dúvidas, já anunciou que vai avançar com uma moção de rejeição. Por causa das tosses, diz ele (ou se não é por causa das tosses é por causa de outra coisa qualquer).

A Mortágua, bem longe da imagem de sombria cruella, parecendo querer que a gente se esqueça dela armada em vingadora e dominatrix, aparece-nos agora toda sorrisos e vestuário colorido, patética, a bandear-se, armada em chefe das cheerleaders da esquerda. É vê-la por aí a lançar desafios aos que ela acha que podem, com ela à frente, animar os saudosos da geringonça. Caso para dizer que já o carapau tem tosse. Não percebe que, o mais que faz, é estatelar-se ainda mais perante o eleitorado que, em tempos, lhes deu algum crédito. 

O PS parece que lhe disse que sim mas espero que tenha sido só por uma questão de boa educação e, sobretudo, por inexperiência. É que não sei se o PNS já aprendeu a mandar banho ao cão por outras palavras ou se ainda tem que comer muito pão com broa. Mas o Raimundo, um fofo, tão naïf, parece que a levou a sério e disse que sim. Sim... mas calma aí. Sim mas só se a Mortágua não estiver a pensar passar-lhe a perna, dilui-lo. Essa é que era boa, diz o Raimundo a fazer biquinho de valentão. Ora. Aprendam com ele.

Atilado, como tem sido seu apanágio, o Livre. Valha-nos isso.

Do outro lado, a IL já saltou fora do que poderia ser uma aliança alargada, AD+IL. Palpita-lhes que a coisa pode não ir longe e não querem ficar conotados.

E o Ventura, por seu lado, desdobra-se em entrevistas em que, perante a opinião pública, se mostra como o santo pronto a sacrificar tudo para o deixarem sentar-se à mesa dos grandes. Diz que, se for preciso, cede em tudo. Na prática, pretende encostar a AD à parede: ou a AD aceita negociar com eles ou chumbam-lhes os Orçamentos. Mas, claro, tudo a bem da estabilidade.

Felizmente o PS tem estado sereno, a ver no que isto vai dar. Só espero que aproveitem o compasso de espera para reflectir, para se reorientarem. 

Portanto, resumindo e repetindo-me. Moral da história: é deixá-los poisar. Isso é que é inteligente. 

Entretanto, partilho um vídeo que me parece interessante.

It doesn’t matter if you fail. It matters *how* you fail. 
| Amy Edmondson for Big Think +


Desejo-vos um dia bom

Saúde. Inteligência. Paz.

quarta-feira, março 13, 2024

Foi o Marcelo? Foi a Lucília? Foi a Comunicação Social...? Sim, foram eles todos.
Mas... e agora, o que fazer? Fazer coro com o Chega para deitar o governo da AD abaixo...?

 

O que eu digo, disse-o hoje António Costa. As legislaturas, em princípio, são para cumprir. Nesse sentido, não me parece que, a menos que a AD esteja a propor asneira da grossa, o PS se coloque ao lado do Chega para deitar o Governo abaixo. Se a AD estiver a executar o seu programa, para o qual supostamente terá legitimidade e, do que propõe, não houver consequências gravosas para o País, penso que é mais inteligente o PS abster-se do que andar feito baderneiro a votar contra só porque sim. O papel de chantagista e arruaceiro deve ser deixado para o Chega.

O PS deve portar-se com idoneidade, com inteligência, com respeito pelos cidadãos e percebendo que, em aspectos críticos e estruturantes, pode ser vantajoso para o País que haja, com o PSD/AD, pontualmente, pactos de regime.

Chamo ainda a atenção, e repito-me, para o facto de que o PSD está a herdar uma situação assaz confortável podendo fazer flores que agradarão ao eleitorado. Quem impeça o governo de as pôr em prática será forçosamente mal compreendido por grande parte da população. O PS pode e deve chamar a atenção para o que for pertinente mas, se as medidas estiverem no programa do Governo e não forem de lesa majestade, será preferível que se abstenha e as deixe passar.

Esta é a altura para a cabeça fria, para a inteligência racional. Repito: não é altura para revanchismos, para pensamentos regados a testosterona, para clubites ou ajustes de contas.

Esta é a altura para interiorizar que o primeiro milho é para os pardais. 

O Chega, se lhe dermos corda, vai mostrar, mesmo aos mais cegos, que é um bando de oportunistas, de vira-casacas, de gente impreparada, ressabiada, reaccionária, muitas vezes boçal. A população que votou neles precisa de perceber que votar em gente que diz uma coisa e o seu contrário, que promete tudo e um par de botas, e que assenta a sua actuação no princípio de que os 'outros' não prestam, vai acabar por perceber que a os do Chega não apenas fazem parte dos tais 'outros' como são do pior que a sociedade produz, são o verdadeiro rebotalho.

Outro aspecto: não é claro para mim que o PSD tenha mais votos que o PS no final da contagem mas é claro para mim que, se o PS formasse Governo, a AD, o Chega e o Presidente Marcelo não o deixariam governar.

E ainda outro aspecto: concordo que quem tramou tudo isto foi Marcelo. E foi o Ministério Público. Mas foi também a Comunicação Social. E foi a campanha massiva das redes sociais capitaneadas pelo Chega e pelos movimentos que o apoiam (e era bom que tal fosse investigado). E foi o movimento corrosivo dos professores, dos médicos, dos polícias, movimentos corporativistas, certamente infiltrados por gente que, cavalgando o legítimo descontentamento dos seus profissionais,  quer a baderna, a confusão.

E quando, lá em cima, me refiro a 'isto' refiro-me à instabilidade sistemática, explícita ou implícita, que os acima referidos foram instilando na opinião pública, refiro-me ao clima de suspeição malsã contra incertos (todos os 'poderosos', todos os 'políticos' em geral), refiro-me à maledicência generalizada, refiro-me à omissão pelos inquestionáveis bons resultados que os Governos de António Costa obtiveram apesar da conjuntura desgraçada.

Mas se houve um caldo social que criou a apetência, por parte dos eleitores, pelo voto num partido que é um saco de vento e de sound bites populistas e incendiárias, a verdade é que há, e isso há que humildemente aceitá-lo, um fundo real de justificação para que parte da população tenha votado no Chega e isso deve ser escalpelizado e estudado com objectividade.

Não valerá tanto a pena perder muito tempo com os ignorantes, os burros e os ressabiados crónicos, gente de todos os estratos sociais, já que são, na maioria, casos perdidos, mas vale a pena perceber os fenómenos de não inclusão, de marginalização, de grandes dificuldades que parte da população enfrenta bem como os casos de jovens que não valorizam a democracia e a liberdade nem o bem comum e que, acefalamente, vão atrás de quem mais parece um dirigente de uma claque futebolística. E compreender isso e avaliar a melhor forma de lidar com isso é trabalho a que o PS deve dedicar-se.

A Mortágua, toda sorrisos, esquecida do seu lado de justiceira castigadora e esquecida das vezes em que o Bloco se juntou a quem calhou para impedir o PS de governar ou para vetar orçamentos socialistas, agora anda a bandear-se para o lado do Pedro Nuno Santos, a querer conversinhas com a CDU, com o Livre e com o PAN. Espero bem que o PS a mande dar uma grande volta. Há que não esquecer que quem gosta do BE e da CDU vota neles e que, no conjunto, valem 7% dos eleitores. São, de facto, dois pequenos partidos, partidos de nicho. Não é com eles que o PS deve perder tempo.

O PS deve reorientar-se por si. Como aqui o tenho defendido, deve abrir-se à sociedade, perceber como melhor colher os reais anseios da população e como melhor comunicar com ela nesta era das redes sociais e da comunicação directa e em tempo real. Dos agentes políticos actuais, vejo, e repito-me, que seria proveitosa uma aproximação com o Livre.

Não tenho falado muito na AD que, aparentemente, vai formar Governo. Não sei o que vai sair dali, não sei quem vão ser os ministros, não sei se vai ter pernas para andar. Espero que não vá desencantar múmias, gente de má fama. Seja como for, se um eventual Governo AD for cumprir o programa com o qual ganharam os votos, é legítimo e democrático para quem está na oposição fazer uma política séria, construtiva e civilizada.

A par do Crescimento Económico e da Fiscalidade, temas basilares e centrais que tem inúmeras derivadas, há os temas emergentes. Os temas da Saúde, do Ensino ou da Segurança estão longe, muito longe de se extinguir nas questões sindicais: há temas de fundo, de organização, de modernização, de reformulação de práticas. E são temas que têm que ser agarrados de forma séria, racional, ponderada, urgente e, não menos importante, musculada. A AD terá as suas ideias e é bom que sejam válidas e, se o forem, que seja bem sucedida a implementá-las. Mas o PS, mesmo que na oposição, tem a obrigação de estar na linha da frente do estudo de soluções para tão graves problemas. O País saberá reconhecer quem se interessa pela resolução séria dos seus problemas.

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Podem tresler o que escrevi, podem acusar-me de tudo e mais alguma coisa mas já sabem que me dá igual. Penso pela minha cabeça e, perdoem-me a imodéstia, não me considero mentecapta. 

Pelo contrário, vê-se o resultado que conseguiram os que acham que o caminho é o da viragem à esquerda (ou seja, convergir com os 7% do eleitorado). E, quanto aos que acham que, a partir de agora, a actuação correcta é o bota-abaixo, em concorrência com o Chega, também acho que estão altamente equivocados. O Chega, afinal, também apenas obteve 18%. Há todos os outros eleitores que não vão nas cantigas e não se reveem nas práticas do Chega. 

Mas o tempo o dirá.

terça-feira, março 12, 2024

E agora? Que faremos com estes resultados...?

 

Em 2015, o Bloco e o PCP valiam 18,4% do eleitorado. Isso correspondeu a 36 deputados. Apesar de tudo, tinham uma expressão não negligenciável.

Agora valem apenas 7,7%. Menos de metade do que era naquela altura. Dizendo de outra maneira: mais de metade das pessoas que se reviam nas políticas do PCP e do Bloco mudaram de ideias, fartaram-se.

Ou seja, a esquerda que eles representavam é hoje marginal. 

Hoje são 9 deputados (num total de 230). Ou seja, na verdade são apenas 4% dos deputados da Assembleia. Sejamos objectivos: quase nada.

Isto significa que a sociedade tem vindo a cansar-se e a desiludir-se do que o PCP e o Bloco têm para oferecer.

O eleitorado privilegia agora outras coisas. 

O eleitorado deslocou-se para o centro. 

O PS perdeu também eleitorado para a direita.

Por isso, o PS deverá perceber que o eleitorado tem hoje outras aspirações, diferentes das de há uns anos. Hoje o eleitorado já não quer ver-se livre da austeridade, do láparo, dos vestígios do cavaco, naquela gente que vendia o país ao desbarato. 

A página foi virada e os problemas, reais ou percepcionados são outros. Hoje as pessoas querem estabilidade, qualidade nos serviços (educação, saúde, segurança), quer retorno do resultado do seu trabalho (melhores rendimentos e uma carga fiscal menos pesada), quer qualidade de vida. 

Por isso, sempre que a conversa for dirigida para o que era o eleitorado de esquerda em 2015 falhará o objectivo de cativar mais eleitorado.

Quanto ao Livre, penso que é diferente. Rui Tavares mostra-se europeísta, civilizado, uma esquerda 'moderna', não caciquista, não anquilosada, não justicialista. A população urbana, que dá valor á democracia, à liberdade, a causas humanitárias e ambientalistas, tende a rever-se no programa do Livre. Os eleitores do Livre, em meu entender, não vêm do Bloco ou do PCP mas sim do PS.

Por isso, aqui referi que teria sido inteligente se o PS e o Livre tivessem feito uma aliança pré eleitoral. Haveria menos votos perdidos por via do método Hondt.

Não o fizeram antes das eleições mas estão ainda a tempo de se aproximar e pensarem em conjunto o futuro.

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No rescaldo destas eleições antecipadas, o PSD/AD está a herdar uma situação fértil. O PS fez um trabalho fantástico (que o PS e Pedro Nuno Santos não souberam louvar e divulgar de forma eficiente). Hoje há dinheiro em caixa (o défice é mínimo ou inexistente), há dinheiro nos cofres (há uma almofada, ie, reservas), há dinheiro a cair (do PRR). Portanto, a AD tem margem para fazer as flores que quiser. Tem margem para pôr em prática medidas que vão impressionar muito favoravelmente parte do eleitorado tradicional do PS bem como muito do eleitorado do Chega. 

E pode, se assim o entender, pôr em prática as suas medidas eleitorais sem ter que submeter um Rectificativo a votos.

E, portanto, pode seguir até ao OE 25 sem grandes sobressaltos.

Mas, se a AD for antes a votos, à luz da leitura que hoje faço dos factos, eu, se fosse ao PS, apostaria na abstenção, deixando o Rectificativo passar. E isto porque se um Rectificativo chumbasse e se se entrasse numa crise com novas eleições ainda este ano, não vejo como é que o PS poderia melhorar os seus resultados pois parte do eleitorado, que sentia que iria ser beneficiado com as medidas da AD, penalizaria quem chumbasse esse Orçamento. 

O que o PS deve fazer agora é perceber como deve reorientar a sua estratégia. Para começar, deve ver-se livre do que ainda subsiste de aparelhismo, de assessores e da lógica ainda instalada dos jobs for the boys. E depois deve orientar-se para o que os eleitores realmente querem: estabilidade, qualidade de vida. Os mais jovens querem condições para ter filhos e para poder proporcionar-lhes uma boa vida. A população em geral quer segurança nas ruas e isso significa integração das populações mais marginais (imigrantes, nomeadamente), quer segurança a nível de saúde com Centros de Saúde e Hospitais funcionais, quer boas escolas e professores a cumprirem os horários, quer paz social.  Claro que os ordenados devem subir mas, para isso, o mundo laboral tem que deslocar-se para profissões mais especializadas, em que a produtividade seja significativa. E todos querem receber uma parte maior do que ganham já que hoje, em especial os que passam a ser um pouco mais que remediados, a carga fiscal é um peso que custa a aceitar. Se queremos que os que emigraram regressem e que os que estão a pensar sair não vão, temos que assegurar-lhes maior liquidez, seja por via de salários mais altos seja por um expressivo alívio na carga fiscal.

Depois há os pensionistas, uma fatia enorme de qualquer eleitorado. Aqui o que há a assegurar é que as pensões acompanham o crescimento da economia e que haverá igualmente um alívio fiscal. E, também aqui, que o SNS seja uma resposta efectiva às necessidades. Hoje é muito difícil. Em especial nos grandes meios urbanos, que são os que melhor conheço, é muito complicado. Dou o meu exemplo. Mudei de casa vai para quatro anos e não consegui mudar de médico de família pois, onde agora vivo, não há médicos de família disponíveis. Mas com o meu também não é fácil pois, se marcar hoje uma consulta, só tenho vaga para Junho. E não é um exemplo inventado, é a realidade. E um dia destes vou fazer exames. Se alguma coisa não estiver bem, tenho que esperar por Junho ou, em alternativa, ir às oito da manhã, ou antes, para arranjar vaga para o dia, podendo ser atendida por um qualquer médico. Se estiver com alguma coisa que requeira análises ou RX tenho que ir para as Urgências do Hospital sujeitar-me a longas horas. Sei pelo que passei diversas vezes com os meus pais. Como tinham seguro, por vezes fomos para o Privado e aí, claro, as condições são outras. Ora é indispensável reorganizar todo o SNS por forma a que a resposta do SNS seja equivalente à dos Privados. Se enfrentar horas de espera, estar estendido horas a fio em macas em corredores pejados de gente, em que a privacidade e a dignidade das pessoas é posta em causa, é muito mau para toda a gente, ainda é mais ingrato para pessoas frágeis, de idade.

E é também indispensável que se perceba que essa larga faixa eleitoral é composta por uma população felizmente a viver até cada vez mais tarde em que o pão nosso de cada dia são os problemas complicados. E, por isso, deve haver mais Unidades de Cuidados Continuados ou Paliativos e deve haver muito mais Residências assistidas, dignas, com qualidade, e a preço acessíveis. Hoje a oferta com alguma qualidade é caríssima (acima de 3.000€/mês, o que não está ao alcance da maioria da população). 

Para além disso, há as grandes questões de fundo: a demografia e as alterações climáticas.

Por isso, o PS tem muito em que pensar. Tem que se reorientar e tem que ter tempo para isso.

Não sou de clubites nem tenho testosterona a correr-me nas veias em vez de sangue. Penso com a cabeça e não com as hormonas. Quero paz e desenvolvimento e não guerra e ajustes de contas.

Assim, acho que é de deixar a AD fazer o que se propôs e para o qual recebeu os votos dos eleitores (e que se entendam ou deixem de se entender com o Chega). Ou seja, que não possam alegar que não podem satisfazer as aspirações dos eleitores por culpa do PS.

A política, em meu entender, requer políticos que, no dia a dia, pensem no melhor para os cidadãos, e no médio e longo prazo, no melhor para o País. Requer políticos que pensem sob diferentes perspectivas, que estudem as matérias, que planeiem as suas medidas e avaliem os seus impactos.

Com uma abertura ao futuro, com generosidade, com abnegação pessoal, com os pés na terra e com uma proximidade atenta aos cidadãos, será possível ao PS preparar-se para as próximas eleições.

Se souberem ser uma oposição ponderada, bem informada, bem intencionada, próxima das pessoas, serão reconhecidos.

É o que eu penso.

sexta-feira, março 01, 2024

Alô, alô Pedro Nuno Santos! Alô, alô senhores do PS!
Querem ganhar as eleições? Então descolem das políticas do PCP e do BE!

 

Se eu gostasse das ideias e das políticas defendidas pelo PCP, votava no PCP. Ora, nas legislativas, nunca votei no PCP e, embora haja aquela posição prudente de dizer 'nunca digas nunca', aqui acho que não há o risco de errar se disser que jamais votarei no PCP. São retrógrados, lunáticos, sectários, fechados à realidade. Nem pensar.

Se eu gostasse das ideias e das políticas defendidas pelo BE, votaria no BE. Ora nunca votei e, tal como no caso acima, acho que jamais votarei Bloco de Esquerda. São frequentemente populistas, são desleais, são sectários e, se forem maioritariamente, como a líder Mortágua, há ali um ímpeto justicialista, castigador, inquisitório.

Quando voto no PS, apesar de, por vezes não concordar com algumas políticas, voto por, em geral, me identificar com a ideologia do PS e não para que não sejam implementadas políticas defendidas pelo PCP e BE e que não fazem parte do programa político do PS.

Por isso não me agrada minimamente a possibilidade do PS poder vir a governar com as muletas do BE e do PCP. Minimamente. 

Acredito que, tal como eu, muita gente, ao pensar que o Pedro Nuno Santos está disponível para se chegar ao PCP e ao BE, fica arrepiada. E, se o arrepio for grande, muita gente poderá sentir-se tentada a fugir para a AD.

Se achei uma boa coisa há uns anos, quando era preciso correr com o Láparo & Cia de má memória -- que venderam o país ao desbarato, que correram com os jovens do país e que empobreceram tudo e todos excepto alguns happy few que compraram algumas das nossas melhores e mais estratégicas empresas--  agora gostaria que nem se chegassem perto do poder.

Outra coisa, que me parece bem diferente do PCP e do BE, é o Livre. O Livre parece-me civilizado, inteligente e parecem ser boas pessoas, informadas e sensatas.

Também tenho ideia que no PAN, se forem quase como a Inês Sousa Real, também será gente equilibrada.

Talvez tivesse sido ajuizado que, face aos riscos reais da direita subir (muito graças ao Chega), o PS tivesse feito uma aliança eleitoral com o Livre e o PAN, deixando claro que já estava mais que escaldado com o PCP e com o BE.

Mas não fez pelo que não vale a pena agora chorar sobre o leite derramado.

Contudo, tenho pena que o PS não tenha ainda percebido que deveria afastar-se das ideologias do PCP e do BE, mas afastar-se de forma muito clara, e, em contrapartida, que deveria mostrar que quer apoiar e acarinhar a classe média. Mas a classe média de verdade, não apenas os remediados que enganosamente são apelidados de classe média.

Hoje, e muito pela mão do PS (ainda muito agarrados aos laços da Geringonça), consideram-se ricos os cidadãos que não passam de classe média-média. Isso significa que a partir de uma fasquia muito baixa a malta é taxada e espoliada como se fosse milionária.

Isso é terrível e achata a pirâmide, fazendo com que o salário médio (líquido) seja muito baixo e com que muita gente nova nem pense duas vezes quando lhes aparece a oportunidade de trabalhar fora do País.

Isto provoca ainda que, para quem cá fica, haja uma grande apetência pela fuga ao fisco, seja pelo recurso a expedientes (criar empresas que, na prática, são fictícias, para acomodar custos e pagar muito menos impostos) seja pelo recurso a uma economia paralela.

Acredito que muita classe média se sente tentada a deslocar-se para a AD na esperança de ver a carga fiscal aliviada. Compreendo. 

Se a AD fosse constituída por gente confiável (e não é) e se se conseguisse perceber alguma coisa de concreto do que prometem (e não se percebe) ou se não houvesse o risco real de ficarem na mão do Chega (e há), até eu sentiria tal tentação (mas, por tudo o que disse e por mais ainda, não sinto). 

Mas o PS deveria pensar seriamente nisto: parte significativa da população quer respirar de alívio. Claro que os que ganham menos nem sequer pagam IRS. Esses já estão aliviados. Mas ainda mal começaram a tirar o pé da lama e já aí está o fisco a saltar em cima e a sugar o sangue dos que deveriam ser incentivados a ganhar até mais.

Tenho vários amigos médicos. Vários reformaram-se o ano passado ou no início deste e os que estão a trabalhar só trabalham dois dias por semana pois dizem que mais que isso é ir tudo para impostos. Ora isto, este esbulho fiscal, não faz sentido.

O último escalão de IRS deveria começar nos 150 ou 200 mil por ano. Quem ganha pouco achará isto um exagero. Mas pense-se nos dirigentes empresariais, nos médicos, nos advogados, etc, e perceber-se-á que se queremos fixar gente válida, atrair os que foram para o estrangeiro, se queremos desincentivar a emigração qualificada, se queremos evitar a fuga ao fisco, é essencial que se mude a fasquia fiscal e mental.

E depois há também a questão dos Alojamentos Locais em que muito boa gente se sente defraudada. Não conheço bem essa realidade mas a verdade é que o turismo é um alicerce, um suporte e uma alavanca económico-financeira e a verdade é que há procura para os Alojamentos Locais. Portanto, querer que sejam os senhorios ou os pequenos empresários que investiram nessas unidades a suportar os custos de uma política de desinvestimento em habitação social é outro embaraço para quem gostaria de votar no PS. Que se reconvertam instalações públicas ou militares desocupadas, que se invista na habitação pública ou se apoiem as cooperativas para que haja habitação a preços baixos. Mas não se queira que sejam os privados, os senhorios, a ser sacrificados e a suprir lacunas que são da responsabilidade de toda a sociedade e não daqueles que têm no alojamento local ou no arrendamento a sua forma de rendimento.

Transcrevo um comentário que um Leitor, a quem agradeço, fez ao post que o meu marido escreveu ontem pois creio que se o PS percebesse bem tudo isto e os anseios e as preocupações da classe média, certamente teria uma vitória folgada nas eleições.

Mas esses bons resutados foi à pala do turismo e agora querem acabar com o AL, que é responsável por 40%. E porquê? Porque não construíram casas durante 15 anos? Mas os hotéis que venham, não é?, só porque não são detidos por pequenos empresários, mas sim grandes investidores estrangeiros... Venha o Nadal para o Rossio, que no prédio dele não cabiam famílias... Uma vergonha. Eu tenho 4 pequenos apartamentos que estavam abandonados e que recuperei ao longo do sacrifício de anos e agora vão-me confiscar 10.000€ ao ano, €2500 por cada. Sem sequer deduzir no lucro, que praticamente não tenho, já agora - em Portugal não se faz riqueza com nada, exceto os grandes merceeiros (Pingo Doce, Continente...), a EDP e os bancos. Não há empresas médias, quanto mais grandes, que produzam riqueza e possam crescer. Uma enorme traição do PS, que andou a vangloriar-se das "taxas e taxinhas" que pagaram o novo Museu à pala do turismo e que andaram anos, Medina e Costa, a enganar-nos ao regulamentar uma atividade que afinal era para abolir. PS nunca mais. Para ser enganado e deixado na miséria, eu e os meus funcionários que terei de despedir, voto noutros. E ainda falam do ressabiamento da direita: o PS entrincheirou o país à esquerda, recusando qualquer abertura para falar com PSD por escolha própria, assim fazendo crescer o CHEGA. O PS matou a direita moderada ao aliar-se exclusivamente à esquerda radical (sim, Bloco é comunista radical, as leis do arrendamento, as leis com novos Impostos e contribuições extraordinárias que propõem, a impossibilitação de acesso a creches e hospitais privados, etc., tudo o mostra). Eu que era PS, vejo-me nesta situação horrível, sem outra escolha que não a AD para me safar. Ou devo, já que estamos assim, votar direto no CHEGA? Que lástima, que país miserável.

Não estou confiante quanto aos resultados das eleições de 10 de Março. A minha esperança é que o PS atine e perceba que se quer ganhar as eleições e ganhar a confiança dos eleitores deve apontar ao centro e não à esquerda.

quinta-feira, fevereiro 15, 2024

Parem tudo! Ontem esqueci-me de contar uma extraordinária...

 

Ainda o fofo Raimundo. Ontem, num programa na RTP 1, um programa bastante interessante em que os candidatos, isoladamente, respondiam a Cândida Pinto, perante a questão 'O que faria em caso de crise nuclear?' (acho que não foi 'crise', pode ter sido 'atentado' ou 'guerra'), o que respondeu o fofésimo Raimundo? 

Estando eles a ser ouvidos na qualidade de líderes de um partido, portanto, estando a candidatar-se à Assembleia e podendo, até, vir a ter um cargo governamental, seria lógico que a resposta tivesse minimamente em conta a responsabilidade da sua função, actual ou futura. 

Pois bem. 

Perante um desastre nuclear, o que faria o Paulo Raimundo?

Pasme-se.

Pausa.

Pasme-se.

Havendo uma calamidade nuclear, o que o Raimundo faria seria... pôr-se debaixo de uma mesa.

Fiquei de olhos arregalados. 

Debaixo de uma mesa? Mas para quê? Para quê, senhores? O mundo a ser destruído, intoxicado, queimado, retorcendo-se em agonia... e o Raimundo agachado debaixo de uma mesa....? E cagava para o resto do pessoal? (pardon my french). Pelos vistos, sim. E acharia que escapava a alguma coisa...? Ai...

Não é extraordinário?

[E, se não acreditam, ponham a coisa a andar para trás e vejam com os vossos olhos e ouçam com os vossos ouvidos]

quarta-feira, fevereiro 14, 2024

Legislativas 2024 -- os debates
E eu...? Não posso ser comentadora...? Ora essa...

 

Posso não ser ilustrada ou bem-falante, posso não ter canudo de Relações Internacionais ou de Ciências da Comunicação. Mas posso dizer o que me vai na alma, ou não posso?

Portanto, com vossa licencíssima, aqui vai.

Vi um bocado de Paulo Raimundo e Rui Tavares.

Se eu fosse comentadora diria que o Paulo Raimundo é um fofo. Parece que anda sempre um bocado ao lado mas isso ainda aumenta mais a sua fofura. Perguntam-lhe se aquela posição fofa sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia não estará a contribuir para o afastamento dos eleitores do PCP. E ele, com aquele seu narizinho arrebitado de menino que se quer atrevido, diz que há uma questão central que é a legislação laboral.

O Rui Tavares de vez em quando inclinava um bocado a cabeça, certamente preocupado, a pensar que o Raimundo não tinha percebido a pergunta. O moderador também a fazer um ar apreensivo sem ver onde é que o raciocínio do Raimundo o ia levar, ensarilhado que parecia estar com a conversa da legislação laboral. 

Finalmente lá voltou ao tema. Com ar valentão, disse que não queria fugir a ele. E lá veio outra vez com a das forças da paz. O Putin invade a Ucrânia e, para o PCP, a solução é a malta querer paz. Só isso. Coisa simples. Quiçá a Ucrânia pôr-se à janela com um lencinho branco na mão. Uma pombinha fofa, o Raimundo.

No outro dia, num outro debate, parecia que ia virar a mesa, mudar o rumo da conversa. Lançou, imagine-se, que ia dizer uma coisa a talhe de foice, uma coisa de que ninguém falava: a cultura. Mas, em vez de desenvolver o tema, não senhor, disse que era para ver se alguém lhe pegava. Uma coisa inédita, a dar tópicos para outros brilharem. E fez aquele seu sorrisinho que pretende ser ladino mas que é apenas muito fofo.

Hoje o Rui Tavares disse que ia agarrar o tópico lançado pelo Raimundo: a cultura. E desenvolveu. O Raimundo, coisa mais fofa, fez um sorriso todo contente. Afinal alguém estava a agarrar o tema que ele tinha lançado. 

Mas lançou só por lançar pois, a bem dizer, que se tivesse percebido, o tema da cultura para ele, e desenvolveu só para não ficar atrás do Rui Tavares, tem sobretudo a ver com os precários da cultura. É que, não esqueçamos, seja qual for o assunto, guerra ou cultura ou whatever, para o Raimundo a malta não deve desviar-se do tema central que é um e só um: a legislação laboral.

Uma palavra para a elegância de Rui Tavares ao referir o que tinha em comum com o PCP quanto à política internacional (União Europeia, Nato, etc). Disse que o PCP é um partido coerente: ao menos sabe-se o que pensam e, como pensam sempre o mesmo, não há que enganar.

O Raimundo sorriu com ar agradecido, pensou que o outro estava a fazer um elogio. De uma enternecedora naïveté, o Raimundo. Uma fofura. 

Sem ofensa e com toda a consideração, acho que, quando ele fala, as televisões deveriam aplicar-lhe um filtro daqueles que põem asinhas nas pessoas, asinhas com penas fofas e branquinhas, um anjinho mimoso com uma aura a pairar-lhe sobre aquela cabecinha ovalada, e coraçõezinhos a palpitar-lhe na carinha laroca. Depois de um bailarino simpático --  Jerónimo, o último moicano -- temos agora o símbolo perfeito para o Dia dos Namorados, o fofíssimo Raimundo.

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Também vi a Mortágua com o Ventura. Se fosse comentadora teria dificuldade em comentar. Como resumiu o Paixão Martins, foi uma peixeirada. Ora, como se comenta uma peixeirada: quem é que atirou mais peixes à cara do outro? Não sei. Sei é que o Ventura é execrável. A todos os títulos. Portanto, nem consigo comentar.

A Mortágua é de um outro campeonato. É gente educada e que sabe estar à mesa da democracia. O trauliteiro-mor não, é gente que nunca deveria ter conseguido pôr o pé no Parlamento. Que não haja confusão. Mas, verdade seja dita, o BE tem sido um partido a quem o chinelo puxa muito para o populismo e para a facada nas costas dos supostos aliados e, claro, o que tem feito mina o terreno que pisa. Portanto, ao estar frente a frente com um arruaceiro, ela teria sempre dificuldade. E teve. 

Provavelmente, quer um, quer outro, conseguem extrair dali sound bites para as suas redes sociais. Como é meio que não frequento, passo à frente.

Só um aparte relativamente à Mortágua: aquele seu sorriso que afixa e congela não lhe é natural. Mais vale que se apresente com aquele seu ar de castigadora e deixe o papel de fofinho para o Raimundo

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Desejo-vos um bom dia

Saúde. Cabeça fria (mas coração quentinho). Paz.

segunda-feira, fevereiro 12, 2024

Não me peçam para comentar o lado positivo e as coisas grossas de que o PCP gosta.
Vou antes contar como foi o meu dia, incluindo o telefonema da minha amiga sobre a minha mãe

 


Dia chuvoso e sem grande atractivo. Mais um dia em casa da minha mãe, mais um dia confrontada com armários e roupeiros cheios que nem ovos, coisas boas, mal empregadas para serem deitadas fora, e nós sem as querermos para nós, porque não temos falta, porque não temos onde pô-las, porque não nos serve ou não são o nosso género.

Tudo muito, muito, tudo infindável.

Valeu-me a minha filha que fez um bom rastreio e que consegue ter um desapego que eu não tenho.

Começo a pensar que, se a minha mãe guardou durante toda a vida, é porque era importante para ela e, se era importante para ela, dá-me pena deitar fora.

Mas tem razão, ela (e do meu marido nem falo pois, por ele, não aproveitava nem um só copo) pois poderia ter importância para ela mas teve-as guardadas longe da vista, durante décadas. A nós pouco nos diz e, a guardarmos tudo aquilo, seria também para ter encafuado, sem qualquer préstimo. E vamos ter as nossas casas atafulhadas de coisas que vão estar escondidas e que são inúteis?

É verdade, reconheço.

Portanto, enchemos vários sacos com coisas que considerámos lixo. 

E voltei a deixar a cama com uma pilha imensa de roupa que a senhora -- que lá ia a casa e que lá irá até esta monda estar feita -- fará o favor de ver se quer alguma coisa para ela e, o que não quiser, tratará de lhe dar destino. Contou que uma rapariga brasileira que veio para Portugal quase só com a roupa que trazia no corpo delirou com a leva anterior, que lhe assenta tudo bom, que está feliz da vida. Fico contente.

A minha filha levou algumas coisas, eu trouxe coisas que acho que têm valor e não podem ir para o lixo e que ela não quer e o meu filho ainda menos.

Ela também já levou alguns livros e eu trouxe também uns quantos. O meu filho diz que fica com o Eça. Mas espero que ele fique com mais alguns pois há muitos, muitos. Eu depois verei se há alguns que  não tenha ou que minimamente me interessem. Depois... nem quero pensar.

E de copos nem sei que dizer. Várias prateleiras cheias de copos. Ora, ninguém quer mais copos, e eu não tenho mesmo onde pô-los. É de loucos, não sei como é possível ter tantos copos. E eu, que ali vivi e que toda a vida frequentei aquela casa, nunca tinha reparado em tal. A gente, à força de tanto ver as coisas, parece que deixa de vê-las. Penso que vamos ter que embalá-los e serão mais alguns caixotes que ficarão na garagem. Como já aqui o referi, só espero que os meus netos, quando estiverem a 'montar' as suas casas, queiram ficar com todo o material que cá estará à sua espera.

Entretanto, quando estava lá, ligou-me uma amiga. Gostei imenso de falar com ela. Conhece a minha mãe desde os nossos dez anos. Contou-me que tem uma grande admiração por ela desde essa altura pois, nesse tempo, entre o nosso grupo de amigas e amigos, era a única mãe que trabalhava. Todas as mães estavam em casa. Lembra-se de estar em minha casa e gostar imenso de falar com ela e de, outras vezes, passarmos pela escola em que ela dava aulas e vê-la, com a sua bata branca. E isso, para ela, era o máximo. Achei graça ela dizer isto. Nunca tinha visto isso segundo essa perspectiva. Para mim era natural a minha mãe trabalhar, tal como era natural que todas as outras mães estivessem em casa. Depois, voltou a estar frequentemente com a minha mãe pois era médica no Centro de Saúde onde a minha mãe ia e, portanto, conversavam sempre e, através dela, ia sabendo sempre notícias de mim. Tal como eu ia sabendo notícias dela. Mas, diz ela, que, do que conhecia a minha mãe, não estranhou a decisão de não nos contar a doença que tinha, não se deixar aprisionar pelos exames e tratamentos que, vendo bem as coisas, não iam servir para salvá-la e iam estragar-lhe a qualidade dos últimos meses de vida. Assim, teve uma morte muito rápida. Quando eu disse que ainda me custa acreditar e que me custa perceber como é que ela esteve tão bem, sem que ninguém percebesse nada, até cerca de mês e meio antes de cair a pique, disse ela: 'Mas ainda bem, não é? Ainda bem que esteve bem quase até ao fim, não é?'. Pois, nessa perspectiva, sim. Esta minha amiga nunca foi médica dela mas conversavam muito e diz que também nunca lhe percebeu nenhum mal estar ou que sofresse daquilo que viria a morrer. Mas reforçou várias vezes: 'Ainda bem que foi assim'.

Hoje, lá em casa, vi as flores que plantou, ela própria, no canteiro do meio, perto do portão, pouco antes de ir para a residência. Estão floridas, alegres. São a prova viva da força dela.

Queixava-se de mil pequenos sintomas, coisas que atribuía sempre aos comprimidos que tomava, achava que mais valia não tomá-los pois vivia melhor sem os seus efeitos secundários. Pelos vistos também não os tomava todos. E, se calhar, dada a conjunção de maleitas e dada a sua idade, mais valia gozar a vida como se tivesse vinte anos, sem medicamentos e, quando tivesse que ser, isto é, quando chegasse a sua vez, chegava. E chegou. Para o mês que vem faria noventa e um anos. 

E toda a gente fala dela como uma pessoa jovial, independente, bem disposta e muito sociável. Uma vez, ao princípio de estar na residência, eu estava a falar-lhe de uma senhora que tomava as refeições na mesma mesa, uma senhora muito interessante, escritora. Como havia lá mais duas, uma delas, uma das quais sua amiga, a minha mãe perguntou a qual me referiu eu: 'Qual, a velhota?'. Fiquei como sempre ficava quando ela se referia às pessoas da idade dela ou mesmo mais novas como 'velhotas'. Mas, de certa forma, percebia. É que, se as outras pareciam ter a idade que tinham, a minha mãe não parecia nada uma velhinha. Nada. Uma vez, ela tinha que ir aos Correios. Disse-me que não ia em dada altura do mês porque estava 'cheio de velhos que iam receber a pensão'. Só que ela parecia bem mais nova mas, na realidade, já era nonagenária. Mas não se sentia. Nunca se sentiu velha. Quando se queixava que os medicamentos para o coração lhe provocavam a sensação de cabeça vazia e tinha receio de ter tonturas, eu e os médicos dizíamos que, se calhar, por segurança, podia usar uma bengala. Nem pensar. Nunca usou. Para ela usar bengala devia ser sinónimo de ser velha. E, de facto, ágil e desembaraçada como era, uma bengala não tinha nada a ver com ela.

Enfim.

Por vezes penso que pode parecer estranho eu, tão cedo, estar a querer dar destino às coisas da minha mãe. Não sei explicar. Como fui várias vezes a casa dela não estando ela lá (quando foi para a residência, como já contei, nas duas ou três primeiras semanas, enquanto ainda estava bem, queria mais casacos, mais sapatos, calças de fato de treino, etc). Por isso, entrar em casa sem ela lá estar não me faz impressão. E acho que, resolvendo já isto, me custa menos do que estar muito tempo sem lá ir e depois ir a uma casa abandonada, triste. Não sei explicar. Cada um vive e gere as suas emoções da forma que lhe é mais natural. Eu parece que fico mais tranquila se souber que as coisas que lhe eram mais queridas estão connosco, em nossas casas. Parece que assim, arrumando e organizando e vendo as suas coisas (como, por exemplo, as cartas, as fotografias, etc), estou a honrar melhor a sua memória, não deixo as suas coisas por lá, tristes e sem razão de ser.

Hoje descobrimos uma coisa que nos fez rir. Num dos roupeiros, numa bolsinha de crochet feita por ela para supostamente trazer, à tiracolo, com o telemóvel ou com a carteira, meia escondida no meio de uns casacos compridos, descobrimos cadernetas antigas da CGD, envelopes de cheques, uns antigos, outros actuais e, no meio, completamente ocultado, um molho de fotografias. Eram fotografias minhas com aquele namorado de quem já tantas vezes aqui falei. Nem me lembrava que as tinha. Ou seja, deu-lhes sumiço, escondendo-as completamente. Provavelmente foi para que nunca se corresse o risco de o meu marido ou os miúdos darem com elas. Mas que mal fazia? Não sei. Só sei que ela nunca engraçou com ele. Não quis que, de alguma forma, ele fosse tema. Fartámo-nos de rir.

Assim, parece que, às tantas, vamos encarando com mais naturalidade o que aconteceu e que tanto nos abalou e que tanta tristeza nos trouxe.

Afinal é o que se diz, a vida continua.

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Chegámos a casa ainda a tempo de vermos o Montenegro com a Inês Sousa Real, uma coisa sem história, pelo menos pela parte que me toca. Nada que se lhe diga. E vimos o infeliz Raimundo que, coitado, não consegue dar uma para a caixa a debater com a Mortágua. Também nada a dizer a não ser que o Raimundo arranjou dois tópicos: o PCP está ao lado do que é positivo e que só vale a pena o que é grosso. Quem viu e ouviu poderá confirmá-lo. Ora não explica o que é isso das coisas serem positivas e, quanto àquilo de só valer o que é grosso, nem vou querer saber até porque a língua portuguesa é traiçoeira. Tirando isso, é uma mão cheia de nada e que, quando quer dizer qualquer coisa, não é capaz. E quando se esforça, como no caso da Ucrânia e da Rússia, é uma infelicidade, vem com a conversa das 'forças da paz' sem que ninguém consiga perceber o que é isso das forças da paz. Uma conversa de pombinha, ainda por cima titubeante. 

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Uma boa semana a começar já nesta segunda-feira

Saúde. Ânimo. Paz.