Recebi por mail uma fotografia -- a que encabeça este post. Sem qualquer texto ou legenda na fotografia, o mail tem apenas como título 'contribuição para o blog'.
É como receber um título e a gente que se desengome a parir uma redacção. Ou, quando frequentei um curso de uma certa língua que agora não vem ao caso, e a professora nos dava uma fotografia e a gente que escrevesse em não sei quantos caracteres o que ali via.
Portanto, bem mandada como sou, aqui estou a divulgar a fotografia e a tentar compor um texto que a acompanhe. Não sei qual a intenção de quem ma enviou. Talvez mostrar que os apoiantes que ainda sobram no PCP são uns bacanos, malta mais ou menos nova e descontraída e que alguns são até bizarros, quiçá até alternativos (como o senhor da mochila amarela, casaco camuflado, banquinho desdobrável e um chapelinho de sol nas cores do arco-íris).
Vejo que, ao fundo, o Camarada Jerónimo discursa. Ouvi-o, ao fim do dia, quando vínhamos no carro. Naquele seu tom declamado, numa entoação tão característica e afastada dos hábitos urbanos de um eleitorado que já pouco sabe das lutas anti-fascistas, disse o de sempre, lançou suspeições sobre as intenções dos socialistas, apelou ao voto. Não traz nada de novo, cada vez trará menos.
Já ninguém acredita em amanhãs que cantam -- e os velhos ideais comunistas ruíram, deixando a nu que a defesa dos interesses do 'proletariado', sempre que existiu, foi feita à custa de repressão, à custa do condicionamento dos mais elementares direitos à liberdade, nomeadamente ao de expressão.
Já ninguém, nos dias de hoje, aceitaria tal coisa nem os crimes cometidos em nome do 'povo' hoje poderiam ser escamoteados como foram antes. São tempos que pertencem ao passado.Acresce que os trabalhadores, hoje, em especial os jovens que entram no mercado de trabalho, já estão longe das reivindicações das estruturas sindicais do PCP. E, em geral, já ninguém, entre os que não viveram lutas antigas, tem paciência para conversas sobre velhos ódios, rivalidades do passado. Por isso, a sua base de apoio vai minguando à medida que os velhos militantes são desaparecendo. Está exígua essa base, daqui a nada é metade da do BE, esse partido errático que, apesar de algumas posições válidas e de algumas análises correctas, se estatela frequentemente, aliando-se a amigos impróprios, denunciando o seu forte pendor populista.
No entanto, apesar da fraca base de apoio comunista (já abaixo dos 7%), há que contar com a sua voz e há que reconhecer que Jerónimo de Sousa é um homem digno, um respeitável parceiro, alguém com quem se pode contar. E é um líder.
De resto, obviamente que o PCP está também tocado pelo compadrio entre correligionários. Não é um partido imune a 'cunhas', a 'jeitos'. Não são puros (e agora até me apetecia fazer um trocadilho com os charutos cubanos mas seria muito básico) e a sua implantação autárquica tem propiciado a distribuição de 'empenhos' entre amigos. E, portanto, também por isso, essa também não é bandeira que possam erguer.
Talvez por tudo isto, olha-se para a audiência de Jerónimo e, tirando, os funcionários das bandeirinhas, lá à frente, o que ali se vê é a escassez de gente, a escassez de entusiasmo.
Juntam-se anualmente na Festa, há aquela mística do companheirismo, a graça de montarem e desmontarem as barraquinhas, de se encontrarem, de estarem uns com os outros naquele ambiente informal, tudo tu cá, tu lá, camarada para aqui, camarada para acolá. Misto de acampamento, de excursão, de trabalho de grupo, de despedida de solteiro, de encontro de reformados ou de ex-alunos, o ambiente deve ser pouco mais do que essa nostalgia, sentimento sempre tão bom para deixar morninho o coração -- mas pouco mais que isso. Ora, do que conheço, aquilo não colhe junto de quem não faz parte do grupo. Mantém, junto dos afiliados e simpatizantes, a ilusão de que o clima é de Festa! quando, na verdade, tende, desde há anos, para um irreversível fim de festa.
Há muita gente que facilmente aderiria a uma formação política se ela desse resposta a questões que hoje partidos mais tradicionais deixam de fora. Estamos numa altura de clivagem tecnológica que acarretará uma clivagem social e não há quem se debruce sobre isso. Há a questão climática, séria, e o que se vê é os partidos à babugem da moda do tema e não a agarrá-lo pelos colarinhos. Há a percepção clara de que a globalização tem tanto de bom quanto de perigoso e há uma inquietação sobre como marcar uma posição que não seja idílica, tonta. Há a questão demográfica com elevados riscos associados e não há orientações sérias, estudadas, racionais, de como inverter a tendência que, a manter-se, terá sérias implicações de toda a ordem. E há outros hábitos como o de viajar, o do uso intensivo das redes sociais com os riscos que acarretam, etc, etc, e não há quem estude esses fenómenos e proponha regulação a sério, legislação virada para o futuro.
E não é o PCP, partido tão agrilhoado a causas do passado, algumas das quais completamente ficcionadas, não é o BE, partido tão vocacionado para surfar causas ou ir atrás da espuma dos dias, não é o PAN, partido talvez bem intencionado mas um partido de franjas, algumas perfilhando alguns conceitos questionáveis. O PS ainda será quem mais consistentemente tenta agarrar alguns desses temas mas o PS é um partido que sustenta quem tem que garantir a governação, quem tem que manter os serviços a funcionar, quem tem que assegurar que as pontas estão todas agarradas para que as contas estejam certas e o país a cumpir compromissos dentro e fora de portas. Deveria ser um outro partido, que não o PS, um partido mais livre de compromissos, um partido de reflexão e estudo, de disrupção, a puxar pela carroça da mudança. E o normal seria que fosse um partido de esquerda a fazer este tipo de agitação e separação de águas. E não há nenhum. Uma pena. E não é só pena: é preocupação, é caso para fazer tocar algumas campainhas.
O PCP, apesar dos homens jovens e bonitos que lá tem e de alguma gente competente, em especial na gestão autárquica, é um partido que não soube reinventar-se. Muito tem durado ele, é verdade, quando em comparação com o que tem acontecido noutros países europeus mas a grande diferença é que, enquanto os outros se afundaram a pique, este vai mais devagarinho.
E, portanto, sobre a fotografia, que agradeço, é isto o que tenho a dizer. E quem tiver coisa diferente a contrapor que faça o favor de se chegar à frente. Agradecida,
E, portanto, sobre a fotografia, que agradeço, é isto o que tenho a dizer. E quem tiver coisa diferente a contrapor que faça o favor de se chegar à frente. Agradecida,
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E, estando a começar uma nova semana, desejo que seja boa, bela, bem disposta, frutuosa e que venha com saúde e alegria. A começar já por esta segunda-feira, bem entendido.