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sexta-feira, fevereiro 06, 2026

E hoje uma coisa completamente diferente

 

Não vou falar das árvores que nos caíram, o que tanto desgosto me dá, não vou falar da preocupação, essa sim baseada em dramas de outra dimensão -- por tantas pessoas terem ficado sem casa, tantas empresas terrivelmente danificadas, tantas pessoas ainda sem eletricidade e sem água canalizada, tantas estradas colapsadas, tantas árvores arrasadas, tantas casas completamente alagadas com prejuízos incalculáveis -- nem vou falar de guerras, de escândalos, da miséria moral de tanta gente que deveria ter um comportamento exemplar e que, afinal, como os ficheiros Epstein tão cruamente revelam, são sórdidos, cruéis. Não vou falar de nada que me perturbe.

Poderia falar das presidenciais já que isso não me perturba. 

Não vou votar com entusiasmo, o Seguro nunca me pareceu um personagem inspirador, não me parece que motive alguém. Mas a alternativa é imprestável pelo que se o Ventura fosse a votos com um calhau eu votaria no calhau, se fosse a votos com um buraco negro eu votaria no buraco negro. Por isso, claro que vou votar no Seguro. É decisão tomada. Na primeira volta votei no Almirante e na segunda, obviamente, voto no Seguro (e, claro, que estou a conter-me para não o tratar por ToZé). Esteja frio, chuva ou ventania, claro que vou sair de casa e vou votar. Portanto, isso nem sequer já é tema.

Mas também não é das presidenciais que vou falar.

Vou falar de uma coisa completamente diferente. 

Vou falar de cães. Quando comecei este blog, estava eu ainda no período de luto pela nossa doce cãzinha, a boxer mais querida e mais amiga do mundo, que nos enchia o coração de amor. Toda a família se derretia com ela.

Tal o desgosto com a sua partida que tinha resolvido, em definitivo, não voltar a ter outro cão. Durante anos mantive-me firme. O meu marido também. Ele que tanto gosta de cães, estava também em luto profundo.

Mas, já aqui nesta casa, com os meninos todos a quererem um cão, de repente senti que o meu coração se abria. Enfrentando ainda a resistência do meu marido, fui abrindo caminho. Depois das peripécias para adoptar um cão abandonado e de termos constatado a maluquice que é aquilo, desistimos.

Até que fomos até a um monte alentejano ver um cão bebé, de um pastor. E foi amor à primeira vista. Peguei logo ao colo aquele pequeno tufo de pelo. E ele aninhou-se em mim. Adoptámo-nos instantaneamente. O meu marido enterneceu-se, rendeu-se.

Tornámo-nos inseparáveis.

É um cão temperamental, teimoso, vigoroso, territorial, possessivo, e excelente guardião. Mas meigo, amigo, muito brincalhão, inteligentíssimo. Não passamos sem ele e ele sem nós. 

E estou a falar nisto pois vi um vídeo que me comoveu. Já tinha visto vídeos com esta forma de adopção, em que são os cães que escolhem os seus futuros donos. Mas este é especial. 

Este cão de abrigo rejeitou todas as famílias... e então fez algo que partiu o coração de todos.

Durante oito meses, Max viu famílias passarem em frente ao seu canil. 

Grande demais. Energético demais. Não tem o tamanho ideal. 

Mas a verdade era mais simples: Max não estava à espera de uma família. Ele estava à espera de uma pessoa. Este vídeo conta a história real de um cão de abrigo que recusou todas as adoções, de um menino que teve que ir embora e da promessa que nenhum dos dois esqueceu. Às vezes, os cães entendem a lealdade melhor do que nós. E às vezes, as melhores coisas da vida valem a pena esperar.

AVISO: O vídeo foi feito com o auxílio de inteligência artificial, mas retrata uma situação que realmente aconteceu de uma forma emocionante.


Desejo-vos um bom sábado

terça-feira, fevereiro 25, 2025

O amor de (ou por) um pequeno ser

 

No outro dia, quando, ao fim da tarde, dávamos o nosso passeio, o nosso cão, que odeia outros cães -- cães, género masculino; porque, se forem cadelas, desfaz-se em simpatias, cheira-as, deixa-se cheirar, andam em volta um do outro -- atiçou-se todo contra um outro, pequeno, que andava à solta.

Sendo um cãozito pequeno, não houve drama. Cães à solta são um caso sério, e, ainda mais, se não houver dono por perto para ajudar a separá-los. Já tivemos várias cenas complicadas, com cães que atacam o nosso e vice-versa, e em que nos vimos à nora para os separar. Mas com um canito, a coisa é mais tranquila pois o próprio cão pequeno acaba por ter receio e afastar-se. Mas, neste caso, o problema é que, andando à solta, não apenas poderia afastar-se da sua casa como ser atropelado.

Estava uma outra caminhante a passar e ficou igualmente sensibilizada, com receio do que pudesse acontecer-lhe.

Olhámos em volta e não vimos nenhum portão aberto. Resolvi ir até à zona mais comercial, saber se teria passado por ali algum dono a perguntar por um cão perdido. Não, ninguém sabia de nada.

Telefonei, então, para a Polícia inquirindo o que se poderia fazer. Disseram-me que só a Câmara pode mandar a brigada de resgate de animais mas que, àquela hora, já estariam fechados. Mas avisaram-me que, se o apanhassem, o levariam para o canil.

Enquanto eu tinha ido fazer as inquirições, a outra senhora ficou perto do cão para tentar impedir que ele fosse para a estrada. E o meu marido tinha-se afastado um pouco com o nosso, para não estarem a provocar-se mutuamente.

Quando cheguei ao pé da senhora, já a pensar no que faríamos, já ela andava a tocar às campainhas. 

Numa das casas apareceu um homem que reconheceu o cãozinho e disse que já no outro dia ele tinha fugido e disse qual a casa. Fomos, então, até lá.

Apareceu uma jovem, aflita, com crianças em volta. Andavam à procura dele no quintal e não o achavam. Explicou, então, que o cãozinho se escapava por entre a sebe que serve de vedação e que tem que estar fechado em casa. Mas a filha, pequena, tinha pena dele e abria-lhe a porta para ele brincar no jardim. Agarraram-se logo a ele, felizes.

E eu e o meu marido lá fomos à nossa vida, e a senhora-caminhante lá foi à vida dela.

No outro dia, eu que gosto de dormir com a janela aberta (mas, agora só a abro quando o meu marido se levanta pois ele recusa-se a dormir de janela aberta quando está frio), acordei a ouvir a voz de um homem e a voz de uma mulher a chamar 'Dula!', 'Dula!'. As vozes eram de aflição e percebia que andavam de um lado para o outro. Depois deixei de ouvir.

O meu marido contou-me que eram uns vizinhos de uma casa lá mais para a frente, na rua, que tinham ido buscar uma cadela ao canil mas que ela, nem eles tinham percebido como, se tinha escapado. Foram encontrá-la mais à frente, no quintal de outra casa.

Com este nosso, quando era pequenino, apanhámos um susto. Fugiu para a rua e corria, corria, atravessava a rua de um lado para o outro, numa brincadeira maluca. Eu e o meu marido a mandarmos parar os carros e ele, feito doido, numa brincadeira. Até que o meu marido conseguiu agarrá-lo.

E com a nossa boxer doce como mel também apanhou, ele, um susto. Tinha ido passear com ela ao jardim que havia não muito longe de casa e ela tinha conseguido escapar-se dele. Já era de noite. Ele chamou por ela, chamou, chamou, andou por ali à volta à procura dela. Quando foi para casa, inconsolável por ela se ter perdido, estava a pequena patifa à espera dele à porta de casa. 

A estima que uma pessoa desenvolve pelos animais, em especial pelos nossos, mas, também, de forma geral, por todos, é sempre tocante. É uma questão de respeito, de generosidade, de afecto -- não sei.

O vídeo abaixo é exemplo disso. A natureza é fascinante e quando sabemos respeitá-la e amá-la geralmente ela recompensa-nos.

Homem resgata um colibri preso numa teia de aranha e o que aconteceu depois foi incrível

Um homem compassivo chega a casa e descobre um pequeno colibri preso em teias de aranha no seu jardim. Neste comovente documentário sobre a natureza, testemunhamos uma bela demonstração de bondade humana enquanto ele ajuda cuidadosamente o colibri a escapar da sua sedosa prisão. A sua abordagem gentil com os animais e a sua dedicação à natureza criam um vínculo caloroso, à medida que cria um refúgio seguro para o seu pequeno amigo, com um alimentador para colibris.


Um dia feliz

quinta-feira, janeiro 16, 2025

Nos tempos do Chat GPT que nos coloca toda a inteligência e conhecimento ao alcance das mãos, olhem bem a graça desta cadela que reconhece mais de 200 objectos pelo nome...

 

Quando tínhamos a nossa boxer mais linda e mais fofa, eu dizia: 'Vai buscar o pau'. Ela olhava-me de lado para ter a certeza de que tinha percebido bem e lá ia ela. Andava, andava, até que aparecia com um pau. 

Depois eu pedia: 'Agora a bolinha,' e ela lá andava a espreitar e a cheirar debaixo de sofás e, um bocado depois, lá aparecia com a bolinha. Mas se eu pedia: 'Onde é que está a bola?' ela ia e aparecia, algum tempo depois, com a bola maior. E havia uma coisa a que eu não sabia que nome dar e chamava 'brinquedo'. Ela pensava e lá me aparecia com aquilo. 

Com este cãobeludo, teimoso e temperamental mas que talvez seja mais inteligente que ela, as coisas não são bem assim. Só faz quando lhe apetece. Traz o que é suposto mas só quando está para aí virado. Outras vezes vai buscar o que pedi mas não me dá, fica de longe com as coisas, a olhar para mim. Mas, se eu não lhe ligar, vem-me dar uma mordiscadela para ser eu a ir brincar com ele. 

Penso que identifica todas as pessoas da família e arredores tal como percebe quando lhe digo que vem cá alguém a casa. Outras vezes, apesar de usarmos conversação normal, ele percebe. E quando vamos a casa por exemplo da minha filha ou do meu filho, como o carro fica sempre longe, ele vai a puxar, a puxar, na maior impaciência, e passa por ruas e casas até que, sem hesitação, vai dar a casa deles. 

E tem outra coisa: não gosta que nos afastemos, tenta agarrar-nos, bate castanholas no ar. Quando estou a passear à beira da praia, se começo a ir na direcção do restaurante onde costumo comprar sushi, muito antes de lá chegar, já ele vai a pôr-se à minha frente, a olhar de lado para mim para perceber se vou para lá, quer ele chegar à frente para me impedir. E faz isto com a farmácia, com o talho, com o papelaria. Reconhece o percurso, reconhece as lojas e logo começa a fazer marcação.

Esta border collie é inteligente e fantasticamente obediente. É espantosa. Ver para crer.

A border collie brasileira que sabe 200 palavras e virou estrela de pesquisa

Gaia, uma border collie brasileira de 6 anos que vive em Londres, tem um dom raro: sabe o nome de mais de 200 brinquedos.

Ela faz parte de um pequeno grupo, apelidado por pesquisadores de "cães gênios", com um talento excepcional para aprender nomes de objetos – uma habilidade cognitiva que separa seres humanos de outros animais.

Até agora, apenas 41 cachorros no mundo foram identificados com essa habilidade, segundo um grupo de pesquisa da Universidade Eötvös Loránd, em Budapeste (Hungria).

quarta-feira, março 01, 2023

Coisas mais fofas

 

Durante quase treze anos tivemos na nossa família uma cãzinha muito meiga, uma santa que, a esta hora, deve estar a olhar por nós a partir do céu dos cães. Nunca desobedecia, nunca rosnava, era uma ternura, uma brincalhona. Os meus filhos adoravam-na e nós também.

Quando o meu filho começou a trabalhar (a minha filha já trabalhava há mais tempo pois é mais velha), deixando de poder levá-la à rua a meio do dia (morávamos num apartamento), passei a ir levá-la a casa dos meus pais à segunda de manhã, indo buscá-la à sexta à tarde. Custou-nos. Mas era melhor para ela.

Nessa altura foram os meus pais que se afeiçoaram fortemente a ela. O meu pai levava-a a passear à praia ou ao campo e a minha mãe dançava sob o seu olhar atento. Contavam-me as suas proezas e meiguices quase como se falassem de um neta mais nova.

Daqui
Depois foi o meu pai que teve o AVC e, com a revolução que isso representou lá em casa, era totalmente impossível ela lá continuar.

Foi uma época complicada para toda a família. 

E para a nossa cãzinha mais fofa também: passou a ficar todo o dia sozinha em casa. Não me lembro se o meu marido de vez em quando dava um salto a casa à hora de almoço. Só que, nessa altura, já ela estava com os problemas de saúde que advinham da sua idade avançada.

Sofri com os seus desmaios, sofri com a sua falta de força resultante de uma anemia, sofri quando tinha que ser internada ficando a olhar-me com tristeza, sofri, sofri muito, mesmo muito, quando aceitámos o que a veterinária nos vinha dizendo, que já não fazia sentido continuar a prolongar-lhe o sofrimento. Chorei como se chorasse a morte de um ente muito querido. 

Durante anos não consegui falar dela, tantas as saudades que tinha e tanto que a nossa decisão me tinha pesado.

Por isso, nem queria pensar em voltar a passar por tal situação, achava que não suportaria outro idêntico sofrimento.

A nossa fera derretida com o mimo de um dos meninos

Até que há um ano e meio, depois de filhos e netos muito insistirem na alegria que seria voltarmos a ter um cãozinho na nossa família, o meu coração abriu espaço para um outro amigo.

Depois de algumas tentativas falhadas, fomos ver um peludinho cuja mãe era pastora num monte alentejano. Quando ligámos ao dono, um pastor, mal o ouvíamos, só se ouviam badalos. Apareceu-nos depois, vindo directamente do monte, e tinha um tufo de pelo no banco do carro. Peguei-o imediatamente ao colo e ele logo se aninhou em mim. Amor à primeira vista.

Um Serra de Aires, um puro cão pastor, não tem nada a ver com uma Boxer. É teimoso, irrequieto, tem uma vontade muito própria, é refilão, de vez em quando mostra os dentes (embora cada vez menos), de vez em quando rosna (embora cada vez menos, cada vez mais baixinho, ficando depois a olhar de lado a ver se ficámos zangados) e tem um energia infindável. Mas é uma companhia alegre, é inteligentíssimo e de uma doçura que talvez supere a da nossa querida cãzinha. É-nos de uma total dedicação e tem manifestações de uma tocante ternura. E adora toda a família.

Sei que um afecto assim dificilmente se compreende por quem não tem ou nunca teve um cão. Mas quem já conheceu o amor verdadeiro e incondicional de um cão certamente compreende.

O nosso urso mais fofo agora com o pêlo em vias de ficar igual ao que era antes da tosquia

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Este vídeo aqui abaixo mostra como são afectuosos estes queridos amigos.

Beije o seu cão e registe a sua reacção


Um dia bom
Saúde. Amor. Paz.

sexta-feira, setembro 17, 2021

Ainda tantas saudades da minha cãzinha querida....

 

Há decisões muito difíceis. No dia em que nos despedimos (e mandámos abater) a nossa cadelinha mais linda jurei para nunca mais. Disse e pensei e disse e pensei e durante anos disse e pensei: 'não volto a passar por isto'.

Os seus últimos anos foram muito difíceis: teve um tumor maligno, foi operada, teve anemias severas, teve que levar transfusões. Teve que ficar internada e era tão doloroso para ela quanto para mim. Ela não devia perceber que estivesse tão fraca e tão doente e que eu a deixasse ali. Olhava-me com aqueles olhos meigos e tristes que se cravavam no meu coração. E eu pensava que sofria tanto por ela quanto sofria pelas pessoas da minha família que estavam doentes. Ou mais porque as pessoas percebiam e ela se calhar não percebia.

Quando estava em casa e estava doente por vezes estava muito bem e, sem aviso prévio, olhava-me e caia, inerte. Eu gritava, aflita, temia que ela tivesse morrido. Depois vinha a ela mas ficava trémula, cansada. Eram simples desmaios mas eu ficava aterrorizada com medo que nos morresse.

Nos últimos dias estava muito mal, não tinha força. Ela, que nunca fizera as suas necessidades em casa, não aguentava e fazia-as na porta do prédio ficando depois muito nervosa e envergonhada pelo que tinha acontecido. 

Lembro-me de num desses dias, nos últimos, eu ir à janela e ver, lá em baixo, o meu marido com ela. Ela quase não conseguia andar, o meu marido quase tinha que transportá-la. Era tão triste. Os dois tão tristes. Eu tão triste vendo-os pela janela.

A médica já nos tinha dito que a qualidade de vida dela estava a degradar-se acentuadamente, que já não havia muito mais que pudéssemos fazer. Estava quase com treze anos o que para uma boxer já era idade avançada.

Naquele dia ela estava mesmo muito mal. Olhava-me com muita tristeza, quase sem conseguir mexer-se. Queria levantar-se e não conseguia. Olhava-me, pedia-me ajuda, e eu tentava ajudá-la mas ela não conseguia. A tristeza dela era imensa. E a minha também. Tinha vontade de chorar só de ver a tristeza dela certamente por não perceber o que estava a acontecer-lhe. Ou, então, por perceber o que estava a acontecer-lhe.

Nesse dia levámo-la, uma vez mais, à clínica veterinária. Eu temia e intuía o que ia acontecer. Nas outras vezes ela levava uma transfusão, ficava a soro, algum tratamento. E ficava melhor por uns dias. Mas eu sabia que já estávamos a prolongar a vida dela para além do aceitável. Sabia que já não havia salvação possível. 

E então cometi o acto mais cobarde e imperdoável da minha vida. Quando lá chegámos, não consegui sair do carro. O meu marido levou-a e ela, milagrosamente, ainda conseguiu ir pelo seu próprio pé. Foi como se o seu corpo, num último acto de resistência, quisesse dizer-nos que ainda não estava no fim. Ficou no passeio parada a olhar para trás. Uma vez mais não percebia. Eu a vê-la a olhar para mim, admirada por eu não ir com ela, eu a saber que devia estar a vê-la pela última vez. Eu a pensar que deveria ir, deveria ficar a abraçá-la. Eu sem ser capaz. Não posso esquecer-me. Por mil anos que viva não me esquecerei dela, virada para trás, a olhar para mim e eu, coração destroçado, fechada no carro, a chorar.

Foi o meu marido sozinho com ela. Ia carregado de tristeza. Não falava. Nenhum de nós conseguia falar. Ele entrou na clínica e eu fiquei no carro a vê-los entrar.

Quando me ligou, já eu estava no meu gabinete. Não conseguia falar. Mas também não precisava de falar. Desatei a chorar. Quando um colega meu entrou no meu gabinete, encontrou-me lavada em lágrimas, destruída pela tristeza.

Ainda agora, enquanto escrevo, não consigo evitar: estou a chorar. Tantos anos depois, ainda não me recompus da perda daquela cãzinha doce e meiga que fez de nós a sua família.

E durante todos os anos tenho pensado: não aguentarei passar por outro desgosto assim.

Mas não posso pensar apenas nos seus últimos tempos pois antes houve todos os anos de imensas alegrias. As vezes que corria na praia, as vezes em que ia no carro e muito anos de chegarmos à praia já estava numa alegria, a animação em que ficava quando íamos para o campo, as vezes que saltava de alegria quando chegávamos a casa, as vezes em que, mal adivinhava que íamos sair, se punha à porta à nossa espera, as vezes em que se abraçava aos meus filhos, aconchegada, recebendo e retribuindo a mais pura ternura, as vezes em que nos desafiava para a brincadeira, as vezes em que mostrava que nos compreendia e nos amava incondicionalmente. Não posso esquecer o afecto que nos ofereceu nem a nossa alegria por percebermos que adorava o nosso afecto.

Ao fim de tanto tempo consigo escrever sobre esse ser tão especial que habitou as nossas vidas.

Se calhar isso quer dizer que, finalmente, estou preparada para ter outro cão.

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O título do post é o título de um livro muito comovente de Manuel Alegre

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Uma boa sexta-feira