Hoje foi o Relvas. Com aquele seu ar de velha sabida, com um sorrisinho de quem tem alguma na manga, veio corroborar a afirmação de Passos Coelho - que quem não tem trabalho cá que emigre, que Portugal tem um longo historial na emigração e que até é uma boa coisa termos gente capaz lá fora.
Felizmente ouvi-o na televisão e não ao vivo, felizmente estava bem longe de mim. Respirar o mesmo ar que ele far-me-ia ter, certamente, um rash cutâneo (no mínimo!).
Passo a explicar os nervos que isto me dá:
1. É um facto que há professores a mais, tanto mais que a demografia está numa perigosa recta descendente, havendo cada vez menos crianças. Há professores a mais, advogados a mais, jornalistas a mais e um montão de gente das mais diversas profissões a mais. O desemprego está a aumentar e está a ferir dramaticamente as camadas mais habilitadas da população. É um facto.
2. É um facto que, com o trabalho a rarefazer-se, cada um que se veja nesta dramática situação equacionará a melhor forma de sobreviver e quantos, quantos, fazem as malas, dizem adeus à família e vão para outro país...! Mas cada um é livre de fazer o que quer, especialmente quando estão em causa necessidades primárias e é, pois, mais que legítimo que partam.
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A. É um facto também - e agora vou fazer uma analogia - que numa família, ao ver o desemprego a bater à porta e o dinheiro a escassear, alguns pais olham para os seus filhos e dizem «que cada um se faça à vida, vão para a rua, peçam esmola, roubem, façam o que quiserem'. Mas outros pais há, felizmente a maioria que, nas mesmas circunstâncias, pedem ajuda, reaquacionam a sua vida, viram-se do avesso, mas nunca deixam de se sentir responsáveis pelos filhos que têm a seu cargo.
Governar é idêntico, é ser responsável por gerir o presente e o futuro de um país - não de cada pessoa em particular, não de cada grupo de pessoas, mas de toda a gente em geral. Ora um Governo sacudir a água do capote, dizer que cada um vá à vida, que vão morrer longe, é desumano, irresponsável, é inaceitável.
B. É um facto também que Portugal tem um gravíssimo problema de desequilíbrio económico e financeiro - há cada vez mais pessoas a receberem subsídios e pensões (porque há mais pessoas no desemprego, porque as pessoas vivem mais anos) e cada vez menos pessoas a descontarem. A linha demográfica deveria sofrer uma inflexão, fomentando fortemente a natalidade. Outra forma seria estimular a imigração pois é gente que entra no país e começa logo a fazer descontos, a pagar impostos. Ora emigrar nesta altura é fazer o reverso. Demograficamente é um disparate. São pessoas em cuja educação o País investiu e que vão usar os seus conhecimentos noutro país, pagar impostos noutro país. Que seja o Governo a estimulá-lo é de uma ignorância e incompetência que assusta.
C. É claro que não havendo emprego cá, as pessoas não estariam a pagar impostos. Claro. Mas mandá-las embora é fazer disparate em cima de disparate.
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E agora, depois destes considerandos, a ver se chuto à baliza:
Remate nº 1 - Um país desenvolve-se com população qualificada. Professores, advogados, jornalistas (e já nem falo de engenheiros, economistas, etc) são pessoas qualificadas que podem ajudar a desenvolver o país. Pode acontecer que não haja, de momento, lugar para eles na sua exacta profissão. Contudo, sendo gente com habilitações superiores, podem certamente ser muito úteis mesmo fazendo outras coisas. Cabe ao Governo traçar linhas estruturais e desenvolver políticas que as incentivem. Se o Governo perceber isto poderá começar a dirigir as suas políticas estrangeiras no sentido de atrair investimento para criar, por exemplo, empresas de Shared Services de multinacionais. Este tipo de empresas tem como objecto fazer a gestão administrativa das empresas (área financeira, área jurídica, área de informática, etc), empregando, portanto, mão de obra qualificada nas áreas financeiras, jurídicas, informáticas, etc, e gente que saiba falar línguas. Grande parte das grandes empresas mundiais tem a sua gestão espalhada por empresas deste tipo em vários países (Irlanda é um local prevalente). Portugal tem todas as condições para ser um destino privilegiado para a instalação deste tipo de empresas. Ex-professores, advogados, gente formada em comunicação social, relações internacionais, gestores, etc, é gente perfeitamente qualificada para trabalhar nestas empresas.

Empresas de manutenção e desenvolvimento de software são outra hipótese. Empresas multinacionais de informática têm recorrido muito à Índia mas a coisa não tem corrido bem. Há questões linguísticas, questões culturais, grandes diferenças horárias. Portugal seria excelente para isso.
E poderia dar mais exemplos.
Portugal tem uma população que é early adopter nas novas tecnologias, o que revela a sua enorme plasticidade na rápida assimilação de novas ferramentas de trabalho; Portugal tem uma população que na maioria sabe mais que uma língua e que rapidamente percebe outras línguas ou dialectos; Portugal tem um excelente clima e uma geografia que agrada a outros povos; Portugal tem boas estradas, bons acessos, boas comunicações; Portugal tem um povo afável e hospitaleiro e tem uma cultura de tolerância. Portugal tem todas as condições para atrair investimento de qualidade do tipo que referi.
É assim que o Governo deveria pensar. O Governo deveria pensar que, ao fazer o contrário, dizendo para pessoas qualificadas se irem embora, está a condenar o país ao definhamento, está a alijar responsabilidades, está a desviar impostos para outros países, está a rejeitar pessoas que se deveriam sentir acarinhadas, está, em suma, a agir miseravelmente.
Remate nº2 - Poderia dizer-se que este Governo e este Primeiro Ministro, em particular, mais o Relvas e outros que tais, estão apenas a constatar o óbvio, a ser francos, a não dourar a pílula e que isso é que se quer: quem nos dê más notícias todos os dias. Talvez haja quem ache que os portugueses andaram a viver à tripa forra e que é bom que agora lhes tirem o pão, o chão, lhes dêem estaladas na cara se necessário for.
Errado, erradíssimo.
Quem viveu à tripa forra e fez mal a este país não foram as pessoas que agora estão a ser incentivadas a sair do país,
[Abro aqui um parêntesis: sempre me revoltei contra o Sindicato dos Professores. A luta que Mário Nogueira e que tais travaram, de uma forma conservadora, egoísta, corporativa, fez muito mal à classe. Mas uma coisa é o Sindicato dos Professores e outra é agora cada um dos que está desempregado]
quem faz mal ao país mas mal a sério foram os especuladores financeiros agindo impunemente (como ainda hoje o fazem), foram os que formaram grandes fortunas sem terem que trabalhar, quem se endividou avidamente para apostar em acções, em empresas, deixando depois enormes vebras incobráveis nos bancos, foram os corruptos, os incompetentes e gananciosos, quem fez mal foi também o sector financeiro que assentou a sua estratégia comercial na concessão ad hoc de crédito a quem nitidamente nunca poderia pagar - e, portanto, estou a falar de oportunistas de toda a espécie que, ao longo de décadas, na ânsia do enriquecimento rápido e fácil, na ânsia de oferendas e prebendas de toda a espécie, deixaram que a economia fosse destruída e as finanças desequilibradas.
Ou seja, não foi o Zé Povinho, individualmente, que causou isto para que agora seja ele a pagar de todas as maneiras que à Merkel, ao Passos Coelho, Moedas, Relvas, Gaspar, ocorra.
Há quem tenha fortemente arreigado um sentimento de culpa e que, a cada desgraça, ache logo que há culpa que lhe assista e que, portanto, há que expiar essa culpa. Ora não é assim. Qual culpa, qual carapuça. Que paguem os culpados, não as vítimas.
O que há que fazer é repensar a política toda, há que se ser exigente (onde é que se viu pessoas como um Passos Coelho, um Relvas, um Álvaro, uma Cristas e outros que tais serem ministros? E ainda por cima numa altura destas em que se exigia gente competente, experiente...), há que ser ambicioso quanto ao futuro do País, há que apelar ao sentido de inovação e empreendedorismo, há que cativar os melhores - e não escorraçá-los como cães sarnentos!
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Por isso, alguém me faz um favor? Se alguém os conhece, podem dizer-lhes que me recuso a ouvi-los em mais conversas destas? Se não há lugar para todos, que vão eles, xô, xô...!
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Ah, que até estou cansada de tanto escrever...
E, então, agora vou-me embora acabando assim...?
Ná... Já passa da 1 e meia da manhã, já estou com sono (coisa habitual...) mas ainda vou ali ver se descubro uma coisinha boa. Já venho.
Ok, cá está. Mudança de ares.
A bela e de fortíssima presença em palco Ute Lemper interpretando dois clássicos da música francesa. Bora lá. La vie en rose é tudo o que eu desejo e sim, é verdade, je ne regrette rien.
Enjoyez!
(PS: Se encontrarem letras trocadas, coladas às palavras indevidas, etc, relevem, que eu estou com sono, não tenho paciência para ainda ir reler, ok?)