Não sei se a primavera começou hoje ou ontem. Pensava que era a 21 mas agora parece que é 20. E há o dia da Árvore o dia da Poesia e não sei se coincidem ou não. E eu que gosto tanto de árvores, de primavera e poesia, não sei se já foi se ainda é. Mas também não faz mal porque todos os dias o são.
Que a minha loucura seja perdoada
Pois metade de mim é amor
E a outra metade também
E hoje o meu dia teve tudo: primavera, poesia, árvores. E um rio grande como um mar.
De manhã andei rente ao rio. O dia estava um pouco cinzento mas junto ao rio a beleza é permanente. Olhar o rio traz-me paz, traz-me voos, traz-me saudades.
Levantai-vos, amigo, que dormis nas manhãs frias;
todas as aves do mundo diziam:
Alegre ando eu.
Levantai-vos, amigo, que dormis nas manhãs frias;
todas as aves do mundo cantavam:
Alegre ando eu.
Duas gaivotas chegaram-se à beira da muralha e eu, imóvel, segui os seus movimentos. São felizes as gaivotas. Vejo-as muitas vezes contemplando as águas que correm. Têm todo o tempo do mundo, têm total liberdade, as suas enormes asas levam-nas a atravessar o espaço, a cruzar o horizonte. Acho que um dia ainda hei-de ver duas gaivotas abraçadas, a cabeça de uma encostada no ombro da outra, silenciosamente sentindo o prazer de estarem juntas.
Todas as aves do mundo diziam;
do meu amor e do vosso tinham no pensamento.
Alegre ando eu.
Todas as aves do mundo cantavam;
o meu amor e o vosso recordavam.
Alegre ando eu.
Mais à frente, dois veleiros brancos seguiam com o vento, e eu pensei que talvez fossem as duas gaivotas que se tivessem transformado, que deslizassem para bem longe onde poderiam sonhar com praias desertas, tardes de sol e silêncio, noites de cumplicidade.
Depois fui até onde a primavera já se anuncia em festa. In heaven a natureza resplandece, as árvores crescem, e eu olhei a gaivota que voa sempre junto a mim, ou dentro de mim.
O meu amor e o vosso tinham no pensamento;
vós lhes arrancastes os ramos em que se sentavam.
Alegre ando eu.
O meu amor e o vosso recordavam;
vós lhes arrancastes os ramos em que pousavam.
Alegre ando eu.
Os pássaros andam felizes por lá, a terra é toda deles. Ando em silêncio e só a minha respiração os faz levantar, numa agitação de asas, numa alegria, e eu fico contente por cada vez mais os sinto próximos de mim. Outras vezes são os coelhos que saltam, correm, e eu penso que era assim que eu queria ser, e se calhar já quase sou, quase livre, a respirar o ar da terra tal como respiro o ar do rio, próxima dos bichos que os habitam.
Vós lhes arrancastes os ramos em que poisavam;
e lhes secastes as fontes em que bebiam,
Alegre ando eu.
A rocha está muito suave, azulada na sua ternura, e dela saem rebentos, pequenas flores esguias, delicadas. E eu passo a mão pela pele da rocha, e estava quase morna, o sol manso tinha estado lá a repousar. Gosto tanto destas pedras. Depois de chover ficam húmidas e, no sítio por onde a água mais escorre, ficam mais escuras. Mas agora, que não chove, estão apenas descansadas e belas na sua infinita sabedoria, acolhendo estas efémeras e belas flores cor de rosa.
Vós lhes arrancastes os ramos em que se sentavam;
e lhes secastes as fontes onde se banhavam,
Alegre ando eu.
O alecrim está todo florido, há um intenso perfume lilás no ar e o tojo também já floriu, amarelo, carregado de luz. Percorro o caminho muito devagar, sozinha, aspirando o ar, e constato que não vou a pensar em nada, penso que vou em processo de meditação. É como se todo o céu, todos os sonhos, todos os abraços inventados, todos os olhares imaginados, todas as palavras que em segredo deixo voar, me envolvessem. À minha frente, rente ao chão, vai a minha sombra, silenciosa também, e eu sei no que ela vai a pensar. Mas ela não mo diz e eu não lho pergunto. À terra, ao rio, às gaivotas, às rochas talvez todos os segredos se possam confiar. No coração da terra ou no fundo do mar, a sombra que se desprende de mim esconde os seus segredos mais puros, sabendo que um dia alguém os há-de ir lá buscar.
| Les + grands secrets se cachent dans la lumière |
.......
Lá em cima Pedro Lamares diz o poema Metade de Oswaldo Montenegro
As fotografias foram feitas este sábado.
O poema repartido sob as fotografias é de Nuno Fernandez Torneol, século XIII, e integra o livro Cem Poemas para salvar a nossa Vida, uma selecção de Francisco José Viegas
A música no final é de Ludovico Einaudi - Nuvole Bianche
....
Muito gostaria que me visitassem no meu Ginjal onde Mia Couta se junta a Manuel de Falla e onde falo de quem, com os seus dedos, recolhe gaivotas no raso voo sobre o meu peito.
.......
Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.
Muito gostaria que me visitassem no meu Ginjal onde Mia Couta se junta a Manuel de Falla e onde falo de quem, com os seus dedos, recolhe gaivotas no raso voo sobre o meu peito.
.......
Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.