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quarta-feira, março 16, 2022

Raquel Varela é uma putinnete a sair do armário?
Num outro planeta, a humanidade do povo ucraniano e o seu amor pelos animais.
E algumas informações sobre o que se passa pela Ucrânia mártir, sobre como Putin se enredou numa armadilha e como parece difícil desalojá-lo.
E um momento ímpar de coragem e solidariedade que honra a União Europeia

 

No outro dia calhou passar pelo 'O último apaga a luz'. Discutia-se a invasão da Ucrânia pela Rússia e estava a Inês Pedrosa transtornada com o que a Raquel Varela tinha dito. Fiquei admirada. Esperei que a Raquel dissesse qualquer coisa para perceber o que se passava ali. E percebi. A Raquel Varela estava com um discurso a la Putin, na prática culpando os ucranianos pelo que estava a acontecer ou insinuando que tudo não passava de uma cabala ucraniana para desacreditar a Rússia. A Inês Pedrosa ouvia isto em estado de estupor catatónico, quase descomposta tal o descarado desconchavo da outra e eu, do lado de cá, estava igualmente estupefacta.

Nunca nutri simpatia pela dita Raquel, sempre arrogante, sempre naquele deselegante plano de quem se acha acima dos outros. Mas nunca me tinha apercebido da sua costela putineira. Também, confesso, não a acompanho com regularidade até porque, geralmente, quando o tom começa a ferir a minha paciência, mudo de canal. Mas, desta vez, fiquei surpreendida, muito desagradavelmente surpreendida. Uma pessoa inteligente não pensa o que ela pensa. Portanto, ou não é inteligente ou tem o raciocínio perversamente formatado ou está a fazer algum frete (mas, se é isto, um frete a quem? em concreto, a quem?)

Não vou aqui referir a conversa que não há muito tive com alguém com funções relevantes no SIS mas posso dizer que há situações que são tão bizarras que nos deveriam levar a pensar. 

E, pensando, acabamos por colocar as coisas em perspectiva. 

Por exemplo -- e não me refiro agora em concreto à Raquel Varela mas a qualquer situação que, de repente, nos aparece como dificilmente compreensível -- é quase impossível não pensarmos: Há quanto tempo esta pessoa anda a defender, ainda que sub-repticiamente, esses interesses? A troco de quê? O que é que já conseguiu? E a relação é unívoca ou biunívoca: ou seja, limita-se a defender os interesses do Estado X ou da empresa Y (ou o que for) ou passa-lhe também informações?

O que sei, e creio que qualquer pessoa que tenha visto a intervenção de Raquel Varela a favor de Putin o saberá também, é que é muito estranho que alguém em seu pleno juízo assista ao que diariamente assistimos e não sinta compaixão pelo pungente drama dos ucranianos e admiração pela sua sobre-humana coragem -- e que, pelo contrário, se empenhe tão acirradamente a papaguear a narrativa do Kremlin.

Fiz zapping, claro, enojada com o que ali estava a passar-se.

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Nos antípodas, o comovente êxodo dos ucranianos deixando toda a sua vida para trás e que, no meio do medo e das incomensuráveis dificuldades, trazem os seus animais de estimação, poupando-os ao abandono e mais do que certa morte.

Penso que uma pessoa que foge daquela guerra dizimadora tem que ter um grande coração para, apesar do pânico, do desgosto, da preocupação, de um esforço esmagador e do risco de vida, ainda arranjar forças para transportar consigo o cão, o gato, o passarinho. Acho tocante. Aliás, tudo nos ucranianos me espanta e emociona. Deveriam entrar já para a União Europeia, mesmo que apenas a título simbólico (pois sei que o processo tem os seus trâmites). Mas deveriam entrar já pois demonstram, uma vez mais, que são europeus de primeira água: defendem o direito à democracia e à liberdade com unhas e dentes, com a própria vida. 

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A young Ukrainian girl talks to her pet bird as she waits at Kraków train station. Charities and human rights groups say they have seen cases of children going missing in the chaos at border crossings.

Photograph: Miloš Bičanski/We Animals Media


A man holds his small dog on his lap at the reception centre in Medyka. He arrived cold and hungry after fleeing his home with only what he could carry.

Photograph: Miloš Bičanski/We Animals Media


A frightened cat looks up from a camp bed at Kraków train station, where a Ukrainian family has stopped for a much-needed rest after fleeing their home.

Photograph: Miloš Bičanski/We Animals Media


A Ukrainian girl from Kyiv carries her cat through a temporary refugee shelter in Przemyśl, Poland. The shelter was hastily set up in a former shopping centre to provide food and a place to sleep for the thousands of Ukrainian refugees arriving in nearby Medyka.

Photograph: Miloš Bičanski/We Animals Media


Anastasia, a Ukrainian refugee, sits with her dog in Medyka. She fled from an area of Kyiv devastated by Russian bombing and left her mother and brother in Lviv. From there, she travelled to the border with only her dog, and plans to continue on to Germany.

Photograph: Miloš Bičanski/We Animals Media

[Mais imagens no Guardian]

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E pro memoria alguns vídeos que, em minha opinião, são relevantes

Ukrainians in Lviv standing strong against growing Russian aggression - BBC News


Putin Has Fallen Into The 'Dictator Trap', Says Professor Brian Klaas


E, aqui, uma resposta (muito pouco animadora) às minhas dúvidas:

Putin being removed from power is ‘impossible’

Sky News host Chris Smith says the way to stop the Russia-Ukraine war is if the “evil megalomaniac” Vladimir Putin loses power.   

“The hope of justice at this time, involving Putin being removed - either internally or externally - looks as impossible as it ever has been,” Mr Smith said.


E, finalmente, um momento único nesta nossa Europa que parece estar a despertar para o que foram os seus princípios fundadores

'You are not alone': Three EU country leaders meet Zelenskiy in Kyiv

The prime ministers of the Czech Republic, Poland and Slovenia arrived in Kyiv in a show of high-level backing for Ukrainian president Volodymyr Zelenskiy, who briefed them on the war with Russia. Polish prime minister Mateusz Morawiecki and deputy prime minister Jarosław Kaczyński, their Czech counterpart Petr Fiala and Slovenia's Janez Janša all spoke after the meeting. Poland's Kaczyński called for a peacekeeping mission in Ukraine. The EU leaders thanked the Ukrainians for defending 'fundamental European values' and sent a message of reassurance, with Fiala saying: 'You are not alone. Our countries stand with you. Europe stands with your country' 
Ukraine will not join Nato, says Zelenskiy, as shelling of Kyiv continues 

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E é isso, querida Susana, desejemos todos muito a Paz, unamo-nos a favor da Paz, não deixemos que a maculem, que a firam, que a matem. Defendamos a Paz.

terça-feira, outubro 21, 2014

Milan Kundera, Caliban e a Portuguesa


No post abaixo já desvendei um segredo a propósito dos burros que vivem à babugem do poder. Foi a Lovely Lídia que me contou. Regressou e veio com tudo. Já fazia cá falta e é com alegria que lhe dou as boas vindas.

Mas isso é a seguir.

Aqui, agora, a conversa é outra. Livros, livros, livros.






Podia dizer o que já tantas vezes aqui o contei, que, desde pequena, era vidrada em livros, que lia os que tinha em casa, os que os amigos dos meus pais tinham em casa, os que havia na biblioteca do liceu, os que encontrava. Lia até altas horas da noite. Acendia a luz da mesa de cabeceira e lia até não aguentar mais ou até a minha mãe desconfiar e vir, pé ante pé, dar comigo a ler e me obrigar a apagar a luz. Pelos anos e pelo natal queria livros (a complementar outras coisas... que também não era propriamente rata de biblioteca) e, mal me apanhei com mesada, preferia comer menos ou comprar menos roupa e embrenhar-me nos alfarrabistas, nos saldos da Bertrand e onde calhasse.

Portanto não é de agora. Mas agora tenho um motivo suplementar: tenho medo de que um dia me aconteça um desaire, que fique desempregada ou assim, ou que aumentem o imposto sobre livros de tal forma que fiquem mais caros que trufas raras, caviar exótico, chanel nº 5, sei lá. E, então, dou por mim quase que a querer açambarcar não vá esgotarem-se e já não poder comprar novas edições, ou que a partir de certa altura, impossibilitada de comprar novos, tenha que me cingir aos que tenha em casa e que já não tenha nada de novo para ler.

Sei que não é razoável ou lógico pensar assim mas há aspectos da minha vida que se regem em contra natura, em contramão, como queiram.

Afogo-me em livros, não consigo dar vazão, mas não consigo deter-me. Parece-me que só o facto de os ter, de os folhear, de ler parte deles já me consola. Depois, aos poucos, aleatoriamente, vou voltando a eles e a muitos deles parece-me que já me são familiares e a esses eu dou saída, avanço por eles dentro. Em relação aos que não me dizem nada, aos que não me agarram o olhar ou o coração, aí dou folga, fica para a próxima.

Hoje o meu marido quis O Capital no Século XXI do Piketty e, por isso, fui com ele mas pensando que ia numa de chaperone. Mas então, fazer o quê? 

Claro que acabei por trazer outros, tentações tão fortes.


Vamos, por favor, com Manuela Azevedo - Carinhoso




[José Peixoto - guitarra clássica; Fernando Júdice - baixo acústico; música de Pixinguinha]




Chegaram ao apartamento de D'Ardelo duas horas antes do início do cocktail. 'É o meu assistente, minha senhora. É paquistanês. Peço desculpa, ele não sabe uma única palavra de francês.', disse Charles, e Caliban inclinou-se cerimoniosamente diante da senhora D'Ardelo, pronunciando algumas frases incompreensíveis. A indiferença delicadamente superior da senhora D'Ardelo, que não lhe prestou nenhuma atenção, confirmou a Caliban o sentimento de inutilidade da sua língua laboriosamente inventada e a melancolia começou a invadi-lo.

Felizmente, logo após esta decepção, um pequeno prazer veio consolá-lo: a criada a quem a senhora D'Ardelo ordenou que se mantivesse ao serviço dos dois senhores não conseguia descolar os olhos de um ser tão exótico. Dirigiu-se-lhe por várias vezes e quando percebeu que ele só conhecia a sua própria língua começou por ficar confusa, depois estranhamente descontraída. Porque ela era portuguesa. Já que Caliban lhe falava em paquistanês, tinha uma rara oportunidade para abandonar o francês, língua de que não gostava, e utilizar apenas, também ela, a sua língua natal. A comunicação em duas línguas que não compreendiam tornou-os próximos um do outro.

(...)

Em seguida Charles afastou-se até ao salão, deixando Caliban preparar as últimas bandejas. Uma rapariga muito jovem, segura de si, entrou na cozinha e virou-se para a criada:

- Não podes mostrar-te por um segundo que seja no salão! Se os nossos convidados te vissem, fugiriam! - Então, olhando para os lábios da Portuguesa, desatou a rir: - Onde é que foste desencantar essa cor? Pareces um pássaro de África! Um papagaio de Bourenbouboubou! - e saiu da cozinha a rir.

Com os olhos húmidos, a Portuguesa disse a Caliban (em português):

- A senhora é simpática! Mas a filha! Que malvada! Disse aquilo porque você lhe agrada! Na presença dos homens, é sempre má para mim! Dá-lhe prazer humilhar-me em frente dos homens!

Nada podendo responder-lhe, Caliban acariciou-lhe os cabelos. 

Ela ergueu os olhos para ele e disse-lhe (em francês):

- Veja, o meu batom é assim tão feio?

Rodava a cabeça para a esquerda e para a direita, para que ele pudesse ver bem a largura dos seus lábios.

- Não - disse-lhe ele (em paquistanês) -, a cor do seu batom é muito bem escolhida...

No seu casaco branco, Caliban parecia à criada ainda mais sublime, ainda mais inverosímil, e ela disse-lhe (em português):

- Estou tão feliz que esteja aqui.

E ele, arrebatado pela sua própria eloquência (sempre em paquistanês):

- E não apenas os seus lábios, mas também o seu rosto, o seu corpo, toda você, tal como a vejo diante de mim, é bela, muito bela...

- Oh, como estou feliz que esteja aqui - respondeu a criada (em português).




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O texto em itálico é um excerto da Quarta parte: Estão todos em busca do bom humor, na sub-parte intitulada 'Os casacos brancos e a jovem Portuguesa' do mais recente livro de Milan Kundera intitulado A Festa da Insignificância numa tradução de Inês Pedrosa.



Sétima parte: A Festa da Insignificância - um outro excerto




As imagens que escolhi para ilustrar o texto são de Sara Sampaio, a bela Portuguesa, e David Gandy que não é paquistanês mas que não seja por isso, está perdoado, é como se fosse.


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Um brevíssimo parêntesis

O que está a acontecer à PT deixa-me quase de rastos. Deixar os mercados à solta e nada fazer, assistir aos abutres a devorarem um corpo vivo é uma coisa que me parece inconcebível. O governelho português lavou as mãos, a CMVM está a ver o sangue a jorrar por todos os poros e nada faz (parece que agora vai proibir as vendas a descoberto, mas de que vale isso agora, quando já quase que só resta a carcaça e um coração latejante?) Uma situação ultrajante e dolorosa, uma humilhação e um rombo tremendo na economia e, a prazo, no emprego, no PIB, sei lá. Custa-me tanto isto que nem me apetece falar.


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Relembro: se quiserem saber a explicação para haver tanto burro à volta do Poder, desçam, por favor, até ao post seguinte.


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Incapaz de reler o que escrevi e, portanto, pedindo a vossa indulgência para as gralhas, fico-me por aqui e desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.

(Agora que já começaram os descontos de outono/inverno, eis que entrámos no Verão. Não faz mal. Voltei aos braços ao léu e isso sabe-me bem)


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