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quarta-feira, outubro 09, 2019

A noite num não-lugar





Estávamos varados de fome e o meu marido tinha lido que o McDonalds estava aberto 24 horas por dia. Dirigimo-nos para lá. Dá, pois, para perceber o tamanho da fome. Eu hamburger não me estava a ver a comer àquelas lindas horas mas, em contrapartida, já só pensava numa coisa frita com puré de maçã por dentro que eles lá tinham e que eu só pensava que tomara que ainda tivessem. Afinal, estava fechado, já passava da meia noite. O que estava aberto as tais 24 horas por dia era o McDrive. Mas ir para uma fila, que estava de bom tamanho, e trazer um saco para casa ou ficar a comer ali no carro, isso não. Portanto, desandámos.

Vínhamos no carro e só falávamos no que haveríamos de comer. Eu disse: noutros tempos eu pensaria numa tosta com queijo a derreter lá dentro, fiozinhos de queijo cheiroso a derreter-se-me na boca. Mas, então, ao entrar em casa, ocorreu-me: temos ainda um bocado de pão de espelta, temos um resto do frango que assei no domingo, temos alface. Oh pá, que belo pitéu em perspectiva. E assim foi. Deliciosa. Uma sandes para cada um. Depois uvas brancas fresquinhas e, a rematar, um quadrado de chocolate preto e dois cubos de gengibre cristalizado (passados por água para tirar o açúcar). Um jantar e pêras. Agora passa da uma e meia e estou bem, confortada.

À vinda do trabalho, vinha a pensar que tinha que falar aqui da múmia que saíu da marquise para vir louvar a Marilú dos Swaps, aquela que falhou todos os orçamentos, que corporizou a austeridade para além da troika. Saíu da marquise para mostrar que não aprendeu nada, a múmia, o marido da cavaca. E pensei também que tinha que falar naquele da IL, o liberal que também gagueja e que tem cara de maluco, mais ainda que o emplastro com quem tem perigosas parecenças.

E tinha ainda um tema privado para dele aqui desfiar uns fiozinhos e vinha a pensar como haveria de disfarçá-lo para que dele não sobrasse aparência reconhecível. 

Mas, isto, a gente nunca sabe. Aparecem imprevistos e nem sempre agradáveis.

Acontece. Portanto, lá fomos.

E o que tenho a dizer, porque só gosto de falar do que não me faz mossa, é que há lugares que são não-lugares. Lugares de não-permanência. Lugares de despojamento. Por vezes de solidão.

E em lugares assim a gente percebe que há momentos em que somos todos iguais: novos e velhos, homens e mulheres, ricos e pobres. Olha-se à volta e nada no comportamento os distingue.

Por exemplo, poderia falar da mulher que não percebi se era nova ou assim-assim e que talvez fosse drogada ou alcoólica e a quem faltavam dentes, a pele escurecida, muito magra. Estava com alguém que talvez fosse amiga. Mandavam sms uma para a outra, olhavam para o que tinha chegado, teclavam com rapidez, quase de olhos fechados. Ou podia falar do homem bonito, alto, bem constituído, de calções de ganga, blusa de algodão com decote em bico, cabelo grisalho curto, e que tossia como se lhe doessem as costas, como se quisesse conter a tosse para evitar a dor, que mal conseguia abrir os olhos, como se estivesse cheio de febre ou sedado e que, de vez em quando, com muito esforço, se levantava e ia lá fora fumar. Estava sozinho e eu pensei que, naquele estado, deveria sentir-se triste por não ter ninguém ali consigo. Ou a senhora que falava muito, contava coisas, revelava grande auto-estima, relatava a forma assertiva como tinha resolvido situações, mas eu olhava e via e pensava que aquilo não era assertividade, era  exibicionismo. Em frente, duas outras, muito atentas e deslumbradas. E então disse que tinha 66 anos e as outras não queriam acreditar, quiseram que ela repetisse, e ela repetia e as outras quase se derretiam a gabá-la 'está óptima!' e ela sorria, superior, jovem forever. E não percebi se alguma delas estava doente ou se estavam a acompanhar doentes por quem não se importassem nem um bocadinho. Podia, talvez, falar da jovem esbelta, altíssima, de quem a minha mãe disse que podia ser modelo. E eu olhei e pensei que sim, que tinha uma altura e uma elegância incomuns. E também não percebi se estava doente. Em contrapartida, numa fiada de cadeiras, um rapaz gordo dormia ferradamente. Tinha uma fita amarela. Também estava sozinho. Um segurança foi tentar acordá-lo, levantou-o, tentou perguntar-lhe qualquer coisa mas o rapaz nem abriu os olhos, voltou a deitar-se. Ou poderia falar das ciganas gordas, do casal de namorados, do casal que não abriu a boca, como se não se conhecessem. E outros.


Podia um dia pedir autorização para fotografar estas pessoas, estas ou as que se vão sucedendo, todas parecidas. Gostava mesmo.

Mas não tirei. E agora já são quase três da manhã. Pelo meio disto tenho parado sem querer, estou cansada, com sono.

Fico-me, pois, por aqui.

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Sade canta Kiss of Live e a Paula Rêgo faz-me companhia.

Não consigo responder a comentários os mails. As minhas desculpas, A ver se consigo durante o dia.

E sorte, saúde e felicidade para todos.

sábado, abril 27, 2019

Que mundo é o de Sophia?
[Sophia, a robot humana]





Já não gotejo. Em contrapartida, estou como se estivesse sedada. Um comprimido por dia, ainda por cima de ínfima dimensão, e fico assim, neste estado. E esta noite vou tomar a terceira dose a ver se deixo de estar congestionada como ainda estou. Quero voltar ao normal. Nem tenho dormido com o vidro da janela completamente aberto pois receio que o frescor da noite, que me sabe tão bem, me faça pior. Tenho ideia que é à terceira que isto se cura. Não tive febre pelo que deve mesmo ser coisa de nada, só resfriado, influenza benigna, coisinha de gente retardada que se constipa quando os outros já curaram meia dúzia. O pior é que me diminui a energia a um ponto que não se imagina. Ainda eu estava apenas a sentir-me doente, sem ter tomado nada, e já estava inerte. Imagine-se agora, com um comprimido letal por dia. Para que se perceba: cheguei a casa e nem me despi. Vá lá, descalcei-me. Mas vim para o sofá com a roupa do dia. Quando dei por mim, estava o meu marido a perguntar-me o que jantávamos. E eu a querer acordar para lhe responder e só a adormecer. Quando o ouvi dizer que podíamos comer atum lá arrebitei: fiz um esforço e, ao fim de um bocado, consegui abrir os olhos. Arrastei-me até ao quarto, troquei de roupa e lá consegui chegar à cozinha. Liguei o forno no máximo. Descongelei salmão. Num tabuleiro coloquei pera aos quartos, depois os lombos de salmão em cima, temperei-os com sal, orégãos e azeite e levei ao forno. Nessa altura, baixei a temperatura. 

Regressei à sala e adormeci de novo. 


Acordei com ele a chamar-me. Felizmente o salmão não ficou esturricado. Mas também não se queimaria pois deixei a temperatura nos 150º. Quanto muito, secaria. Mas não secou. 

Lá fui. A mesa estava posta. Havia também arroz e salada. Comi um poucode salmão com salada. Também consegui lavar os pratos. Mas, mal cheguei de novo ao sofá, voltei a adormecer.  Já passava das dez, acordei de novo: era ele a perguntar-me se já tinha falado com os filhos. Liguei ao meu filho e, logo a seguir, tocou o telefone e era a minha filha. Não sei se voltei a adormecer mas sei que acordada não estou.

E agora aqui estou. 


Porque será? Porque estou aqui? É esta coisa de os meus dedos quererem dançar no teclado,  dançar mesmo que seja sozinhos, escreverem palavras que nem eu sei o que vão ser. Pois que seja, não me importo. É como se fosse outra, alguém que não sei quem é e que escreve sem me pedir autorização. Só sei o que escreve quando vejo escrito.

E isto faz-me pensar. Deve ser o primeiro pensamento que tenho hoje: e se eu não fosse eu mas 'alguém' que tivesse sido clonado e que se fizesse passar por mim? 'Alguém' não: uma coisa.

Pensamento meio delirante.

E se, num salto quântico, o tornar completamente delirante, vou parar lá onde todos os caminhos vão convergir.


Ao mesmo tempo que temo o uso perverso e desregulado da inteligência artificial, atrai-me muito. Pode ser uma ajuda potentíssima. E pode ter utilizações múltiplas e cada uma mais insólita que a outra.

Estive a ver a Sophia a conduzir uma sessão de meditação.

Cada vez vão humanizando mais o objecto. Sorri, tem rugas de expressão, semicerra os olhos, abre-os, diz piadas. Não tardará o dia em que conversará connosco de uma forma tão inteligente e sensível que preferiremos a sua companhia à dos humanos. Virá o dia em que as pessoas se apaixonarão pelos seus robots. O Her deixará de ser ficção. A inteligência das coisas será cada vez menos artificial. 


E chegará o dia em que poderei accionar uma opção no computador ou numa pequena coluna em que eu digo aqui uma coisa e, do outro lado, um robot escreverá outra ou eu direi, com esta minha voz, alguma coisa e, do lado de lá, daí, chegar-me-á alguém que lerá os vossos pensamentos e mos dirá com uma voz estranhamente humana. E quando eu disser maluquices ouvirei alguém a rir ou a querer corrigir-me. A emocionar-me. Chegará o dia. E não faltará muito.

O mundo está a caminhar rapidamente e quando percebermos que estamos a ser ultrapassados... só espero que não seja tarde demais.


Mas, enfim, não é dia para conversas dessas. Precisaria de ter grande parte dos neurónios activos e o que se passa é que nem um, único, deve estar em condições.

Vou, pois, introspeccionar-me de olhos fechados, a pensar na lua a banhar o rio, esteja ela como estiver, loura, esbelta, gélida, esquálida, promissora, fugidia. Tanto faz. O rio é tolerante, sempre uma boa cama.


Mas, antes, vou partilhar convosco um vídeo em que se vê como Sophia tem aprendido umas coisas. Jimmy Fallon até fica desconcertado.  Até já canta, ela, a coisa.


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sábado, setembro 09, 2017

Deslizar elegantemente até à fímbria do mar.
[4º de 6 posts]






O mar pôs-se branco, encheu-se de sedas e tules, fez-se delicado, baixou a crista da onda, estendeu suavidades e espumas pela areia -- e toda esta cortesia, todo este adoçar para melhor se apresentar à jovem mulher que, de branco, passo elegante, se aproximava.

E assim ficaram os dois, envoltos em luminosa doçura, serenos e tímidos, prontos um para o outro.