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domingo, setembro 11, 2022

Amor, medo, noites sem dormir. O telefone ao lado da cama.

  



“É um triângulo impossível e todos se sentem magoados”, diz ela. “Algumas pessoas conseguem. Eu não. Foi uma situação destrutiva. É preciso coragem. Percebi perfeitamente o dano que isso pode causar. Para cada um de nós, foi doloroso. No entanto, não se consegue parar. É o que é. É como se tivéssemos que estar na frente de um dragão e tivéssemos que enfrentá-lo, sabe?” 

Porque é que não conseguia escolher entre os dois homens da sua vida? 

“Nós amamos de maneiras diferentes, acho que se pode dizer”, responde. “É como perseguir uma necessidade dentro de nós. Quando estamos no meio de uma situação destas, não percebemos porque é que acontece”

Penso no conselho que foi dado a Binoche aos 14 anos por uma amigo artista da sua mãe, quando ela não conseguia decidir entre atuar ou pintar. “Juliette: escolhe fazer tudo!”

Mesmo enquanto Sara está a planear encontros com François, ela convence Jean de que não há nada em andamento, que ela e ele foram feitos um para o outro. Porquê submeter os dois a essa tortura? "Tem que ser", diz Binoche decisivamente. “Ela está perante uma necessidade em si mesma, um apelo sexual, como uma onda de calor, talvez de amor. Tem que ser vivido. Ela tem que perceber o que é. Se ela não fizer isso, ela estaria a colocar-se entre parênteses, ou... no frigorífico! É o que a torna humana e verdadeira.”

 “Permitir-se passar por isso é incrível porque muitos de nós diriam: ‘Não, é muito destrutivo’ ou ‘vou perder o que já tenho’. Tornam-se conservadores antes mesmo de começar. Mas quando uma onda tão grande está a chegar, é difícil não dizer sim, eu acho. Ela pede para ter essa liberdade de ser ela mesma, sem saber qual será o resultado. Isso é tão corajoso. E terrível! Eu sei o quão doloroso e perigoso pode ser.”

Tradução livre do artigo: ‘I fell in love with two men – it was unbearable!’: Juliette Binoche on love triangles and ‘little boy’ Gérard Depardieu. A propósito do filme Both Sides of the Blade


Porque há Leitores que me acompanham há muito tempo não vou entrar em pormenores ao voltar a recordar os épicos tempos em que vivi uma situação de intenso triângulo amoroso. Durou três, quatro meses, não mais, mas foi o que Juliette tão bem descreve: amor, medo, noites sem dormir. 

E é tanto mais difícil quanto se decide expor a situação aos envolvidos. Pretendia ser franca, pensava eu, mas no fundo talvez esperasse que ambos aceitassem a situação. Melhor: nem sei bem o que esperava quando contei ao mais recente que eu já namorava, namoro firme, intenções de casamento já em andamento e quando contei ao legítimo namorado que achava que tinha conhecido o homem da minha vida. Não sei o que esperava quando me despedia de um dizendo que ia passar o fim de semana com o outro ou quando, ao domingo, me despedia deste dizendo que me ia encontrar com o outro no dia seguinte.

Claro que, se o 'intruso' começou por aceitar bem a situação, pois ele é que estava a entrar em terreno ocupado, já o outro aceitou pessimamente desde o início. E digo que aceitaram pois não podiam impedir-me e, portanto, deram por eles a viver essa situação. E claro que o 'intruso' ao fim de algum tempo também já não aceitava bem que eu me despedisse dele para me ir encontrar com o outro. Uma situação que se complicava de dia para dia.

E claro que, por fim, por defesa pessoal e também deles, eu já não podia ser completamente sincera. E não ser sincera dava cabo de mim. E claro que, por fim, já andava era sempre com medo que se cruzassem e que a coisa desse para o torto. Aliás, uma vez quase deu.

Não é fácil. Mas é o que Juliette Binoche diz: quando acontece parece que não há volta a dar, a tentação fala mais forte.

Até que um dia, inevitavelmente, há que tomar uma decisão, fazer uma escolha. 

No entanto, tenho para mim que a escolha só tem que acontecer porque os homens são muito territoriais. Se fossem menos picuinhas, talvez a convivência fosse pacífica. Para quê tanto drama?



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Já agora, e porque Juliette Binoche também pinta e são suas as pinturas que aparecem no filme Words and Pictures também referido no artigo acima citado, aqui fica o trailer desse filme em que contracena com um dos meus xodós, Clive Owen.


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E é verdade, Lucy, Juliette Binoche é uma das mulheres que aos 58 anos continua belíssima e sem problemas em mostrar a idade que tem. Belíssima, sedutora, fantástica actriz.

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A todos um bom dia de domingo
Saúde. Vontade de viver. Paz.

terça-feira, outubro 19, 2021

Oito filmes razoavelmente eróticos

 



Segunda-feira nunca é um bom dia. É daqueles axiomas que é bom que ninguém ouse questionar. Segunda-feira é o início do que pode vir a ser uma sucessão de dias carregados de chatices. Numa segunda-feira as tréguas do fim de semana ainda estão longínquas. 

[Os Leitores reformados, ao lerem isto, esfregam as mãos de contentes: para eles todos os dias são fim de semana. Bem sei. São uns sortudos. Mas lá chegaremos, nós os pobres coitados que por aqui ainda andamos a trabucar.]

Enquanto não, tenta levar-se o melhor possível embora haja quem não se aguente sem moer a paciência aos outros. Para mim o pior é quando olho para a agenda e penso que tenho ali um buraquinho que virá mesmo a calhar para repousar a minha beleza e, acto contínuo, logo recebo uma chamada a pedir que arranje um bocadinho para uma reunião urgente. E uma pessoa tenta que não mas, às tantas, não tem como não e lá se vai o buraquinho à vida. 

[A língua portuguesa é traiçoeira, também sei]

Agora tenho aqui uma coisa a chamar por mim. Ainda antes de ir para a cama terei que ver e despachar esse assunto. Não me apetece nem um pouco pois estive a trabalhar até há pouco, estou mais do que saturada. Mas, quando o dever me chama, parece que não consigo entregar-me ao desfrute da escrita mesmo se de uma colecção de frioleiras postas em palavras se tratar.  Podia saltar por cima disto, do blog. Pois podia. Mas, enfim, ficar sem escrever também não consigo. Addicted to writing.

E, então, pensei escrever sobre uma coisa que li na Vogue francesa: as cenas mais eróticas do cinema. Fui conferir, curiosa. Como é costume nestas coisas, parece que quem escolhe os melhores livros, os melhores filmes, as melhores cenas faz de propósito para deixar os outros a sentirem-se ignorantes. Dos oito filmes, apenas conheço três. E das cenas que consegui ver, talvez por descontextualizadas, não achei grandes espingardas. Além disso, agora acontece uma coisa que me encanita solenemente: ao seleccionar um vídeo que contenha alguma ceninha mais encaloradita, o Youcoiso pede que comprove que sou adulta. Não estou para isso, era o que me faltava. Portanto, como não estou para fornecer comprovativos, marimbo-me para as ditas cenas. 

A beatice vai alastrando. Claro que há que acautelar que as coisas não sejam vistas por crianças. Mas, caneco, parece que preferia as salas de cinema em que a barragem era feita à porta. Agora aqui...? Não basta a publicidade em cima de tudo senão ainda isto...? Que seca, caraças.

Por isso, com tanto entrave e chachada, desisto das listas alheias. Acontece que, para listas próprias, tenho um problema do escambau: não as tenho anotadas, não as tenho de cabeça e, pior ainda, a cabeça não está formatada para fazê-las.

Posso aqui enunciar algumas cenas ou alguns filmes que tenho a certeza que amanhã me ocorrerão outros, provavelmente mil vezes melhores. E não estou certa de que o algoritmo que é mais lápis azul e beato que fedorentozinho de antanho me deixe abrir o vídeo para conferir. Vou tentar mas, acreditem, não garanto que seja muito para levar a sério. E são oito apenas porque não posso ficar aqui a noite toda a puxar pela cabeça ou a tentar encontrar vídeos que expliquem o critério. 

.  1  .

Lady Chatterly, na versão de Pascale Ferran, com Marina Hands e Jean-Louis Coulloc'h um filme belo demais. Mas, mais do que caliente, é belo, belo demais. As cenas mais eróticas apenas são disponibilizadas a quem provar que é adulto. Portanto, vai o trailer.


.  2  .

Dangerous Liaisons de Stephen Frears com Glenn Close, John Malkovich e Michelle Pfeiffer, um filme sensual da cabeça aos pés, passando pela insolente língua de Malkovich (e isto já para não falar do olhar, da voz, das mãos, do andar dele, o descaradão e perverso do Visconde de Valmont)


.  3  .

The Horse Whisperer de Robert Redford com ele e com Meryl Streep, envolvente demais


.  4  .

Damage de Louis Malle com Juliete Binoche e Jeremy Irons. Tem a chatice de não acabar bem mas, antes de acabar, é bom até dizer chea, a começar e a acabar na voz do Jeremy Irons


.  5  .

The Unbearable Lightness of Being de Philip Kaufman com Daniel Day-Lewis, Juliette Binoche, Lena Olin, um filme para sempre, com cenas inesquecíveis (a Lena Olin ficará para sempre na minha memória com aquele seu chapéu)


.  6  .

Closer de Mike Nichols com Julia Roberts, Jude Law, Clive Owen
[Larry : You like him coming in your face?; Anna : Yes!  Larry : What does it taste like?; Anna : It tastes like you but sweeter!]



.  7  .

La vie d'Adèle de Abdellatif Kechiche com Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos
O azul definitivamente a cor mais quente


. 8  . 

The French Lieutenant's Woman de Karel Reisz com Meryl Streep e Jeremy Irons. 
Intemporal, belo.


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Desejo-vos uma boa terça-feira
Saúde. Alegria. Boa sorte.

quarta-feira, agosto 14, 2019

História encerrada
(?)


O que lerão mais abaixo vem no o seguimento de Manuel, o grande executivo, caíu numa armadilha 
que se seguia a Confissões. Meias confissões. Algumas omissões.
que já vinha no seguimento de Logo quando o cerco estava a apertar-se...
que veio a seguir a Manel contrata Clara que, por sua vez, 
vinha no seguimento de  Como definir o que não pode ser dito?
que já se seguia a A oradora-surpresa 
que foi, afinal, o início disto tudo


Não tardará terei que parar. Há fins de histórias que não podem ser revelados. E há histórias que não têm fim porque há nelas coisas que são eternas. Mas, enquanto não me interrompo (ou não sou interrompida), vou tentar avançar um pouco mais. No entanto, pouco mais há a contar.

Ou, pelo contrário, será que está tudo por contar?

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E foi assim que fiquei a saber que, de vez em quando, cada vez menos espaçadamente, o Manel era intimidado: quando menos esperava, como que aparecendo do nada, alguém lhe mostrava o vídeo em que lá estava ele naquela fatídica bem regada e louca noite de sexo com a correspondente de um órgão noticioso estrangeiro. Começou a ter ataques de pânico, mal dormia. Questionava-se sobre se estaria na altura de contar à mulher. Tremia de medo da reacção dela. Dela e dos filhos. E de toda a gente. Como poderia ter ele caído numa daquelas? Mil vezes lamentava o que tinha acontecido. Mil vezes se objurgava. Mas foi protelando a confissão, iludidamente na esperança de que tudo aquilo não passasse de um pesadelo. Mas não era apenas um pesadelo, era, na realidade, também um cerco.

Até que um dia, numa reunião com os representantes jurídicos de um sindicato bancário relacionado com uma operação de refinanciamento, no fim, um dos advogados pediu se poderia dar-lhe uma palavrinha. Nem lhe passou pela cabeça o que iria acontecer. Quando estavam os dois sozinhos, o advogado, por acaso de um outro país, disse-lhe (em inglês, que era a língua que adoptavam nestas reuniões): ‘Sabe o que se passa, não preciso de fazer uma introdução nem de lhe mostrar. Sabe que a prova está por todo o lado. Não se assuste. Saberemos ser discretos. A sua protecção é a nossa segurança. E não queremos nada de mais, queremos apenas que nos mantenha informado. Até à data em que tivemos acesso a todos os seus mails e documentos, sabemos tudo. Como já tem o seu computador protegido e reforçaram a segurança na vossa rede interna, já não queremos ir por aí. Daria mais trabalho e, como pode imaginar, não gostamos de correr riscos. Agora queremos manter-nos actualizados por outra via. E é simples: coloca os documentos ou informações relevantes numa pen e deixa-a onde lhe dissermos. Uma vez por semana. Mesmo se não houver nada de especial, deixa na mesma. Como sabe, teremos maneira de confirmar.’
O Manel contou-me que se sentiu a fraquejar. Apavorado. Quando alguém se sente seriamente ameaçado e sem escapatória, fica geralmente sem forças. É o que acontece, tantas vezes, em casos de assalto, ataque, violação. A vítima perde a força até para gritar, até para reagir. Paralisa. Assim estava ele. 
Nem sabia que lhe tinham apanhado o conteúdo do computador. Ficou a saber naquela altura. Sabia, sim, que tinha havido uma série de tentativas de intrusões na rede informática da empresa e que algumas equipas de experts tinham sido chamadas para reforçar os controlos. Mas não sabia que justamente o seu computador tinha sido pirateado. Nem sabia como é que alguém tinha descoberto isso (e, disse-me a Clara: 'Podes ficar descansada que. pelo menos por mim, não ficou a saber'). Tal como não tinha querido acreditar que a cilada em que tinha caído não era acto isolado de uma mulher perigosa. Tinha estado no centro de uma bem urdida operação e, até ver pela primeira vez o vídeo, nem sequer tinha desconfiado de nada.
O advogado, certamente habituado a manobras similares, não deve ter estranhado o estado de total apatia e torpor em que Manel mergulhou, tendo apenas dito o local em que ele deveria deixar a pen no dia seguinte ao fim da tarde e qual a respectiva chave de encriptação.

Confirmei: ‘E isto foi o Manel que te contou isto, certo?’

'Foi', e Clara pareceu hesitar, mas apenas por uma fracção de segundo. Depois falou com firmeza. ‘A duras custas mas foi. Acabei por conseguir que confiasse em mim. Percebe-se que é uma pessoa fechada, muito reservada, e, com tudo o que lhe estava a acontecer, sentindo-se cercado, acossado, ainda mais desconfiado ficou. Compreensível. Foi com muito esforço e muitas, muitas horas de conversa -- e de silêncios meus, para que ele não pensasse que eu queria saber alguma coisa -- que, aos poucos, foi desabafando. De início, por meias palavras, mudando de assunto, desvalorizando o que dizia, como se fossem hipóteses académicas. Só nos últimos dias, porque verdadeiramente atormentado, com vontade de confessar à mulher o que tinha acontecido e decidido a pedir a demissão, é que me contou tudo. Tudo. Tudo, tal como te estou eu agora a contar a ti.’

'E entregou quantas pens?’, perguntei.

Clara reagiu com firmeza,´Nenhuma.'

Não facilitei, 'Foi ele que te disse ou és tu que achas?'

Clara tentou disfarçar um leve tom de irritação: 'Não percebes. Ele estava decidido a enfrentar as consequências. Percebeu muito bem que a desistência do Fundo teve a ver com o que lhe estava a acontecer. Já tinham a informação toda que queriam, para quê continuarem com o disfarce da due diligence? Nunca estiveram interessados. Estavam interessados era na tecnologia, no mercado, nas operações. Quando se apanharam com tudo deixaram-se de conversas. Quantas vezes já vimos disto? E o Manel percebeu que agora estavam era contar com ele e resolveu portar-se como um homem. Foi no dia em que teve o enfarte.’

Não sou de muitas complacências: ‘Como um homem? Deixa-me rir. Estás muito benevolente, ó Clara. Então furou todas as regras de segurança, deixou que entrassem no computador dele e se servissem à vontadinha, depois, como se não bastasse, deixou-se envolver numa cilada que nem um patarata das berças… e vens dizer que resolveu portar-se como um homem…? Estás a brincar. Como um homem de calças na mão, queres tu dizer.’

Clara encostou-se à parede e, por um brevíssimo instante, fechou os olhos, como se querendo ver-se livre desta história. Mas logo voltou a si, abreviando a conclusão: ‘Deixa. esquece. Acabou. A coisa já escalou. Por isso, por agora vai parar. E o que os outros sacaram, já está sacado, nada a fazer a não ser diplomaticamente -- e, do que sei, está em curso. Mas isso já nos transcende. E ele agora tem é que se pôr bom e tomara que consiga recuperar. Aquilo não foi coisa pouca, como sabes. Coitado. Já vistes como um homem normal de repente vê a vida desgraçada?’ E respirou fundo. Cansada.

Olhei para ela sem dizer nada mas, apesar de não o demonstrar, também eu estava com alguma pena dele. Uma pessoa que se veja presa numa situação destas sente sempre medo, sente que a sua liberdade de movimentos está cerceada, é angustiante, há uma permanente sensação de que uma ameaça está a rondar por perto, de que a vida que se tinha antes acabou e de que a que se está a desenhar estará sempre presa por um fio. E se a isso se juntar o arrependimento, então a coisa fica verdadeiramente difícil de suportar. E se, em cima, para cúmulo dos cúmulos, acontecer um sério acidente de saúde, então a coisa fica, de facto, complicada. A sensação de queda num abismo. Pobre Manel.

No entanto, fosse como fosse -- e independentemente da pena que sentia dele -- estava era, sobretudo, incomodada por saber que ela não estava a dizer toda a verdade.

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Não sei se escolhi bem a Isabelle Huppert e o Clive Owen para serem a Clara e o Manel. Olho para eles e fico na dúvida.

Também chego a este ponto sem explicar porque gosto de aqui ter o Malandain Ballet Biarritz. 

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E não sei ainda se esta história vai ter continuação. Talvez tenha. Talvez não tenha.

terça-feira, agosto 13, 2019

Manuel, o grande executivo, caíu numa armadilha


O que lerão mais abaixo vem no o seguimento de Confissões. Meias confissões. Algumas omissões.
que já vinha no seguimento de Logo quando o cerco estava a apertar-se...
que veio a seguir a Manel contrata Clara que, por sua vez, 
vinha no seguimento de  Como definir o que não pode ser dito?
que já se seguia a A oradora-surpresa 
que foi, afinal, o início disto tudo


Retomo. Tentando manter alguma distãncia, tentando não expôr demasiado o que supostamente deve ser mantido na penumbra, vou ver se adianto um pouco mais desta história que, a bem da verdade, não se pode dizer que seja exactamente uma bela história.

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E encontrámo-nos. Eu e Clara. Como sempre, por mero acaso. Clara contou-me o que eu já sabia desde o início: alguém do país P 
(não posso dizer qual país; e ‘alguém’ também não será exactamente uma pessoa mas talvez um grupo de pessoas de uma empresa desse país, integrada na estratégia expansionista desse país) 
tinha obtido informação confidencial, completa, da nossa empresa. Tinham em seu poder o plano estratégico, o plano operacional, o project finance, relatórios de investimentos, estudos de mercado, análises detalhadas de custeios, os pricings nas diferentes geografias, os desenhos técnicos, etc. Tudo.

Do que se sabia, o computador do Manel tinha sido pirateado. Contrariamente às recomendações, não estaria encriptado. Também contrariamente a todas as recomendações teria usado as redes wifis abertas dos aeroportos e dos hotéis, o que, é mais do que sabido, é autêntica via verde para os hackers se servirem à vontade. Nada que espante quem acompanhe estas cenas: com receio de não se desembaraçarem sozinhas quando estão em solo estrangeiro, muitas pessoas aliviam nas medidas de segurança e são, sem o saberem, um apetecível alvo para quem procura informações críticas. E se só isso já seria grave demais, o pior foi o que ainda aconteceu em cima disso. 

A palavra a Clara: 'Nada de novo. Dos livros, estás a ver. Numa das viagens, uma mulher ao lado dele. A lição bem estudadinha, coincidências, afinidades, ele surpreendido com tantos pontos em comum. Mutuamente agradados, apresentam-se: ele diz quem é, onde vai, o que vai fazer. Ela diz que é correspondente. Mostra entusiasmo. Podia até preparar um artigo sobre as andanças dele pelo mundo dos negócios. Ele diz que não, que não tem interesse. Ela diz que tem, que ele tem até muito. Ele fica cada vez mais agradado. Morde o isco. Só se for não sobre ele mas sobre a empresa, coisa geral, sem pormenores. Ela acha bem, diz-lhe que seria bom em termos de imagem, sairia um artigo numa plataforma de referência lida em todo o mundo. Ele acede. Tudo a bem da empresa, disse ele. Sabes como é. Qual o homem que resiste à perspectiva de adulação por parte de uma mulher interessante? Nem tem a ver com ser bem ou mal casado. Sabes: aquela vontade de aproveitar o tempo, em fazer parar o tempo que passa, aquele prazer em experimentar uma aventura, o gosto em aflorar o interdito, o querer voltar a sentir o coração a bater como na adolescência. Sabes. A adrenalina de quem atravessa continentes, de quem enfrenta desafios. O consolo de um abraço apaixonado. Sabes como é.'

Eu ouvia-a em silêncio. Falava com tal paixão no olhar, tentava de tal maneira conter a emoção na voz que pensei que Clara falava dela própria.

Talvez percebendo o que eu estava a pensar, continuou mas em tom neutro, sorrindo, creio que simulando alguma complacência: 'Tudo by the book: trocaram contactos. Jantaram. Foram para um bar. Continuaram a conversar. Ele é um bom conversador. Ela pediu para gravar, para o artigo. Ele não viu mal. Havia jazz. Beberam. Ouviram, quase in love. No dia seguinte, à noite, quando ele já tinha cumprido a agenda, voltaram a encontrar-se. Repetiram. Uma boa companhia, ela. Animada. Ele todo inchado com o interesse dela. Continuou a conversa, continuou a gravação. Só que a noite acabou no quarto dele. Estava-se mesmo a ver, não é?'

Eu ouvia sem surpresa. Por mais avisados que estejam, é só aparecer quem queira que parece que caem sempre. E Clara tinha razão: quanto mais reservados, mais vulneráveis.

Conclui eu: 'E, portanto, deixa-me lá adivinhar: dias depois ele recebeu um porno-vídeo com aquela noite caliente?'

Ela fez que sim com a cabeça. 'Sim. Previsível, não é? Claro que ficou para morrer. Apavorado. Arrependido. Sem perceber o que lhe tinha acontecido. Ela tinha credenciais de correspondente. Tudo tão credível. Qual o propósito? Seria uma doida? Seria perigosa? Ficou atormentado temendo as consequências, tentando adivinhar se haveria próximos episódios de um filme que poderia ser de terror.'

Encolhi os ombros, sem qualquer pena: 'Caem que nem uns patos e depois, quando percebem que caíram na esparrela, ficam com medo. Totós. E depois que haja quem, na penumbra, vá atrás a limpar a porcaria que fazem. Estúpidos.'

Clara concordou, sorrindo de forma que pareceu irónica: 'Isso, na penumbra. Saber toda a espécie de histórias e fazer com que as histórias se esfumem.'

E continuou: 'Dias depois, numa outra viagem, num aeroporto de escala, um fulano qualquer dirigiu-se-lhe falando em înglês, dizendo-se partner de uma consultora que em tempos tinha trabalhado na empresa, que o conhecia, que até tinha tido reuniões com ele. O Manel desculpou-se, que conhece tanta gente, que talvez, quem sabe. O outro explicou que estava a preparar um business plan para um grupo internacional, que andava a colher informações. E, de repente, como se tivesse recebido uma notificação no telemóvel, pediu desculpa, olhou. E, vendo, fez um ar espantadíssimo. E disse: 'Esta é boa, um vídeo, diz que é urgente, deixa cá ver. E pôs o vídeo em play e, fazendo-se espantado, mostrou-o ao Manel. Estás a ver, não estás...?'

Estava a ver, claro. Não era difícil. 'Deixa-me adivinhar. Estarrecido, completamente aterrorizado, o Manel viu-se de novo como protagonista de um vídeo do mais escabroso que se pode imaginar...?'

'Bingo', confirmou a Clara.

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Não garanto que Clara seja completamente parecida com Isabelle Huppert e o Clive Owen, por acaso, nem é nada parecido com o Manel. Mas como nem a Clara é Clara nem o Manel é Manel, talvez faça sentido assim

E continuo com o Malandain Ballet Biarritz, desta vez com Marie Antoinette. Soa-me bem enquanto escrevo. E as coreografias são tão boas e dançam tão bem.


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E talvez continue.

quarta-feira, agosto 07, 2019

Manuel contrata Clara


No seguimento de Como definir o que não pode ser dito? que, 
por sua vez, 
já vinha no seguimento de A oradora-surpresa


Hoje pensei que o melhor seria parar. E agora ainda estou hesitante. Sei bem o que se passou com o Manel. Poderia passar já à descrição disso mas a questão é que acho que não devo fazê-lo. Por isso, sendo isso central na narrativa em que me meti, agora não sei bem como sair daqui. Por muito que tente ficcionar, alguma coisa poderá transparecer que seja inoportuno e, não podendo escrever à vontade, fico tolhida. Acreditem ou não é o que se passa. Há histórias que não são exactamente histórias.

Vou tentar mas, juro, não sei o que vou escrever. Pode até acontecer que escreva mais do que devo e que, chegando ao fim, apague tudo. Nao está fácil. A sério.

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A empresa contratou a Clara. É uma profissional de mão cheia, sabe da matéria e sabe como comunicar da melhor maneira. Tem ainda a perspicácia de saber adaptar a teoria geral às circunstâncias concretas com que lida. Toda a gente gosta de trabalhar com ela. Não há conselhos dela que sejam à toa, não há dinheiro que se lhe pague que não se dê por muito bem gasto.

De vez em quando aparecia por lá. Se calhava cruzarmo-nos, cumprimentávamo-nos com naturalidade embora com a distância de quem apenas se conhece superficialmente. 

O Manel nunca mais me falou no assunto. Passou a ser um tema profissional lá dele. Profissionalmente continuou como sempre: consciencioso, metódico, analítico e falando apenas do estritamente necessário. Além do mais, reservado como é, pouco deixa transparecer de humores ou estados de alma. Ao contrário de alguns que, de vez em quando, vão até à copa e ali ficam a dar dois dedos de conversa, grupo no qual me incluo, ele não. Bebe café no gabinete e muitas vezes nem sabemos se está no gabinete ou noutro país. A secretária é como ele pelo que ninguém a interroga.

Nos dias em que a Clara lá ia, creio que uma hora por semana, excepto se ele estava fora, a secretária  ia buscá-la à recepção e levava-a até ao gabinete dele. 

Um dia que não sabia que ela lá estava e precisando de uma opinião dele -- e não tendo validado com a secretária se ele estava disponível -- bati ao de leve como sempre faço e abri um pouco a porta, espreitando a ver se podia entrar. Estavam sentados na mesa de reuniões que está junto à janela. Percebi que conversavam animadamente, sorrindo. Quando me viram, interromperam a conversa. Ele, educadamente, levantou-se para me convidar a entrar, ela mostrou-se surpreendida por me ver mas cumprimentou-me simpaticamente. Eu disse que não era urgente, que iria depois, e saí. 

Nesse dia à noite ela ligou-me, quis saber porque não tinha eu entrado, disse que eu tinha parecido pouco à vontade. Expliquei-lhe que por acaso até fiquei mas não por ela, que ele é que é muito discreto, que não gosta de ser interrompido quando está com alguém e que, portanto, não ia interromper a conversa deles tanto mais que o meu assunto era interno, não para ser falado perante uma pessoa de fora. Mas, já que ela ligava, aproveitava para perguntar se já tinha conseguido alguma coisa. Senti que a minha voz, involuntariamente, estava a deixar transparecer alguma impaciência.
'Uma enguia', disse ela. E quase me pareceu sentir que estava a desculpar-se. No entanto, confirmou a suspeita. 'Que há coisa, há, e fizeste bem em reportar. Agora que ele tenha dito alguma coisa, nem pensar. Nada. Escorrega por todos os lados. Quer conselhos em abstracto. E se acontecer isto, o que aconselharia que se fizesse? E é seguro usar o wifi nos aeroportos e hotéis? E pode deixar-se o computador no quarto de hotel? E como é que se pode perceber se alguém está com segundas intenções? E ri como se fosse curiosidade abstracta, como se estivesse apenas a querer mostra-se consciencioso, talvez até apenas para me agradar.  E faz questão, a toda a hora, de dizer que é descuidado, que é muito ingénuo, que confia em toda a gente, que acha que não tem nada de relevante que alguém queira apanhar. E muda de conversa, graceja, ou fica parado a olhar para mim. Mal eu tento espetar o palito no bolo perguntando alguma mais direccionada, ele foge, muda de conversa. Mas, se eu faço perguntas sobre as suas viagens, sobre como é fazer viagens tão longas, andar por tantos países e lidar com tanta gente tão diferente, aí ele fica agradado com o meu interesse e põe-se a contar. Sabes? É notoriamente daqueles tipos solitários, nunca deve falar com ninguém. Por isso, acreditando que o meu interesse é genuíno, desbobina, desbobina. E tem graça na maneira de falar, sabes, o tempo passa num instante porque o tipo, curiosamente, revela-se um bom conversador.
E eu: 'E não saem do mesmo sítio, não? Só conversa? E, entretanto, sabe-se lá o que está a acontecer... Não será de se passar para outra abordagem...?'
'Calma. Tenho estado num registo muito pro, chego ao fim da minha hora, mais coisa menos coisa, vou-me embora. Mas vejo que ele fica sempre com pena, por ele ficava ali a desbobinar durante muito mais tempo. Para a próxima, deixo-me ficar, faço-me de distraída, como se estivesse presa à conversa', disse ela.
'Escuta. Ando a notar uma mudança de atitude nos fulanos que supostamente estão interessados em comprar uma daquelas nossas empresas lá no cu de judas', e disse-lhe o país. 'Como se o interesse estranhamente estivesse a esmorecer. Cá para mim, é por aí. Como se isso tivesse sido o pretexto e agora já não precisassem do pretexto.
E ela: 'É muito isso que, como sabes, costuma acontecer. E já te disse, cá para mim ele tem a ver com isso.'
'Pois, mas, olha lá, se é isso, é grave e não sabemos quão grave. E tem que ser estancado antes que seja tarde demais. E ele afastado.', disse eu.
'Calma, mulher, dá-me tempo. E já estamos a seguir outros vectores. Calma. Mais uma ou duas conversas. E, já te disse, estamos no terreno.'
Não fiquei tranquila com a conversa. Aquele não era o ritmo habitual dela. Faz sempre o trabalhinho de casa bem feitinho, é especialista na empatia espontânea, nas afinidades que se descobrem inesperadamente e que tanto facilitam a aproximação. E se o próprio não tem redes sociais, tem a mulher, têm os filhos, os irmãos, e as pistas e as dicas vão parar às mãos de quem delas precisa sem que tenha que haver algum esforço. Portanto, como é que ao fim de três ou quatro conversas de uma hora cada, ainda estava no mesmo sítio?

Ná. Não estava a perceber. O que é que estava a passar-se?

Aquela não era a Clara que eu achava que tão bem conhecia.

(Mas será que conhecemos, verdadeiramente bem, alguma pessoa?)


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Estou a usar a Isabelle Huppert como Clara e o Clive Owen como Manel. Felizmente não preciso de me representar a mim.

Não sei porque estou a colocar aqui os bailados da companhia Malandain Ballet Biarritz. Se disser que é apenas porque gosto não sei se soará convincente.

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Tentarei continuar com esta 'história' mas, acreditem, não sei se conseguirei.

quinta-feira, maio 04, 2017

What's in a name?
["Se ao menos eu pudesse mudar de nome", lamenta-se William Bradley Pitt]


A primeira vez que o vi foi no Thelma and Louise. Era um rapaz com uma sensualidade transbordante, uma malícia implícita cativante, um físico absolutamente convincente. 


Se até aí eu me enlevava com Richard Gere, que tinha conhecido -- eu, se bem me lembro, quase menina e moça, -- ele capaz de seduzir de uma assentada toda a população de um convento de freiras tal a sedução que dele emanava em American Gigolo, a partir daí mantive o J.D. debaixo de olho.



Não que seja dada a lourinhos, não sou, mas aquele moço tinha, à vista desarmada, uma boa 'pegada', coisa que mulher que se preze fareja à distância.

Por essa altura eu ia ao cinema muito amiúde. Adorava ir. Aquele escurinho, aquele cheiro, aquele ambiente fascinava-me. Ia muito ao Quarteto apesar de às vezes cheirar a esgoto e apesar do meu namorado da altura (em especial o que viria a ser meu marido) embirrar com o desconforto das cadeiras e com a falta de espaço já que as pernas não lhe cabiam e tinha que as dobrar à frente dele, quase até ao pescoço. E ia ao Satélite, ao Estúdio. E, claro, aos maiores: Império, Monumental, S.Jorge.


Os grandes filmes de Bergman, na época, conviviam, para mim, com o Oficial e Cavalheiro ou o Breathless (que era uma reprise do A bout de souffle) -- filmes que não podia perder para ver o Richard Gere, com aquele seu corpo gingão, aquela capacidade de bem beijar que não está ao alcance de qualquer um.


Acontece que a minha fidelidade é restrita a casos muito particulares e, portanto, depois de ter visto a arte de Brad Pitt, mantive o Richard em banho-maria e, muito santamente, passei a incluir-me entre as devotas do Brad.

O seu desempenho em Lendas de Paixão foi outro momento alto, tornando, só por isso, aquele filme um objecto de culto. 

[Aos destituídos de faro para a ironia, apresento mais um disclaimer: uso aqui a terminologia 'objecto de culto' a propósito deste filme tal como, há dias, usei 'mares do sul' para designar o mar que banha Cádiz. Sou dada a metáforas, se é que ainda não deu para perceber. E tenho dito. Adiante que o momento é de cinefilia e não de semióticas]


Entretanto Richard Gere foi ganhando patine (não perdendo o charme, mas...) e o Brad entrou naquela deriva mediática designada por Brangelina e eu, mais uma vez, fiz swing (and sorry for my french): passei a achar uma certa graça ao Clive Owen.


Enquanto isso, e num registo diferente, encantada pela voz deles, pulava a cerca* com o Jeremy Irons (como não, com aquela voz...?), com o John Malkovitch (aquela irreverência carregada de perversidade é um convite irrecusável) e, até, com o Ralph Fiennes que, parecendo que não, tem uma densidade enleante.
[Outro disclaimer: A cerca das devoções (como dizer?) cinéfilas, of course]





Mas, lá está, aqueles a quem um dia deitei o olho, debaixo de olho ficarão forever e, por isso, o Brad será sempre olhado com o carinho que se dedica aos antigos lover boys.

E, talvez por isso, foi com tristeza que li a entrevista que concedeu agora, confessando o problema de longa data que tinha com álcool, admitindo a sua responsabilidade pelo que aconteceu e que levou ao seu divórcio.


Parece que vive isolado, solitário, dedicando-se à escultura. Reapareceu na capa de uma revista com um ar que faz enternecer qualquer um, em especial aquelas que guardam um cantinho para ele no seu coração.
[Novo disclaimer: cantinho virtual, leia-se]

Magro como um cão sem dono, ar triste, diz até: 'se ao menos pudesse mudar de nome...'

E eu aí tenho que me pôr ao alto. Que é lá isso...? Nem pensar. Qual mudar de nome? No way.

Tanto mais que Brad é, afinal, William e um William não deve nunca renegar o seu nome.


E, afinal de contas, what's in a name?


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E um dia muito feliz a todos quantos por aqui passam.

Be happy.

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terça-feira, janeiro 19, 2016

A beleza num homem. E mulheres bonitas que gostam de homens feios.


Pronto. No post abaixo já falei da menina das unhas grandes que mereceu séria reprimenda do comentador-candidato e da pimpolha de olho gordo que diz que ela é que quer ser presidente da Junta. E falei também do presidente das cagarras que diz que tem mais que fazer do que gastar o seu santo latim com as eleições. E, portanto, com esse post que poderão ler a seguir, já fiz a minha boa acção do dia.

Agora, a propósito de um livrinho que aqui tenho --  Teresa Rita Lopes: Pessoa do meu Desassossego --  e vendo fotografias dela, linda, e do menos bonito António José Saraiva, e tendo estado antes a ler um artigo que Leitor, a quem agradeço, me enviou sobre assunto que me interessa (a beleza é um conceito objectivo?), resolvi alinhar no espírito marcelista e fazer de conta que isto que se está a passar no país é uma casting para um reality show e não uma eleição para a Presidência da República e, portanto, vou falar de tudo menos de política.

Dizia eu que, vendo o livro -- ela com um sorridente rosto bem desenhado, uns olhos claros e luminosos, um corpo jeitoso, e ele sem grande graça, feições acentuadas, só pêlo e cabelo, nariz pronunciado e assimétrico -- fez-me logo lembrar de um casal nosso amigo que, entretanto, tamanhas eram as guerras conjugais, acabou por se separar.

Vou mudar os nomes para evitar chatices mas tudo o resto é verdade: digamos que ela, médica conceituada, se chama Bia, e que ele, director de uma multinacional, se chama Zé.
...

Mas, já agora, se não se importam, vamos com música que vamos melhor. Vamos com a banda sonora de um belo filme, um filme que, ainda por cima, tem dois homens muito bonitos, sendo qu,e dos dois, um faz o meu género e o outro nem por isso. Mas aproximem-se, por favor. 

Closer

......

Continuando.

Agora imaginem-na a ela, à minha amiga: uma mulher bonita, feições perfeitas, corpo elegante, alta, toda ela vistosa e giraça, uma voz requebrada, diria que insinuante: o protótipo da mulher interessante.

E imaginem-no agora a ele: feiinho, carão comprido e assimétrico, mal jeitoso, moreno mas escuro demais (ou então, é por ser tão felpudo que a cor negra do cabelo e do pêlo o escurecem ainda mais), da mesma altura que ela, o que a obrigava a andar de sapatos rasos, ou, então, mais baixo -- quando ela se marimbava e se montava em cima de saltos altos.

Ele um paz de alma, bem disposto e bem humorado, tranquilo, um verdadeiro pachola.

Ela uma stressada, uma ansiosa e, imagine-se, uma ciumenta -- mas ponham ciumenta nisso.

Uma vez mandei-lhe, a ela, um amigo meu que estava precisado de consultar um médico da especialidade dela. Avisei-o: olha que ela é um bocado doida, boa gente, acho que boa médica, inteligente, mas olha, pirada mesmo. No outro dia, aparece-me ele, todo babado: mas olha lá, disseste que ela era uma maluca...? Só tu mesmo para a descreveres assim. Ela o que é é uma brasa, um mulherão, uma mulher interessantíssima. Aí lembrei-me que ele tinha razão mas que eu nem me tinha lembrado disso pois, na minha cabeça, era a doideira dela que sobressaía. 

Pois bem, e de onde vinha a crise permanente em que aquela interessante mulher vivia? Dos ciúmes. Desconfiava dele e de todas as mulheres que se cruzavam com ele, das colegas, de toda a gente. Felizmente nunca embirrou para o meu lado. Quando eu lhe perguntava se não tinha olhos na cara, nem me percebia. Eu explicava-lhe: quanto muito, era caso para ele ter ciúmes, não tu. Não vês que ele não tem gracinha nenhuma? Quem é que olha para ele, ó mulher...? Atina.

Ofendia-se. Que não, que ele era um homem de mão cheia. Eu ria-me, dizia: o amor é mesmo ceguinho, caraças. Mas ela, em voz alta, para que ele a ouvisse, dizia-me que preferia ser casada com um homem feio pois, assim, nenhuma mulher queria saber dele. 
Ao contrário de mim que andava com um pedaço de mau caminho ao lado, que fazia as mulheres ficarem todas a olhar para ele. Eu explicava-lhe: não tinha ciúmes, que olhassem à vontade, que achava compreensível,  mas que olhar não tira pedaço e, assim sendo, com os pedacinhos todos no sítio, tanto me fazia que olhassem para o meu marido como deixassem de olhar.
Geralmente ao fim de semana acabavam cá em casa. Ela não sabia cozinhar e, para além de tudo, andavam sempre de candeias às avessas. Então, iam de tarde para a praia ou para a casa de fim de semana, ela devia estar a moer-lhe a paciência horas a fio, discutiam, odiavam-se e, para evitarem estar no trânsito quase a esganarem-se um ao outro (com a filha pequena a presenciar), vinham asilar cá em casa. O meu marido passava-se. Eu, quando pensava no que havia de ser o jantar, já contava que eles me aparecessem. O meu marido dizia que, a tratá-los daquela maneira, então é que nunca mais deixavam de aparecer, que eu lhes desse conservas. Claro que não ia fazer isso. A verdade é ele não tinha paciência nenhuma para os ter cá aos fins de semana à noite, a discutirem um com o outro ou sem se falarem. Eu não me importava, gostava deles. De facto, também tinha pena dela.

O motivo das zaragatas era sempre ao mesmo: ciúmes doidos dela, uma coisa sem explicação.

O meu marido não disfarçava a impaciência, não descansava enquanto não os via pelas costas (apesar de ser bastante amigo dele, colega de curso). Ela, vendo-o assim, dizia-me: olha lá, ele devia ver isso, anda sempre ansioso. Eu tentava que ele não a ouvisse, senão dizia-lhe directamente que ela era doida varrida.

Por vezes estávamos com outro casal amigo e, aí, o outro dizia abertamente, Olha lá, ó Zé, mas como é que consegues aturar uma maluca destas? Manda-a passear, pá.

Penso que ele a aturou durante tantos anos por causa da filha, receava que ela não fosse boa mãe. E ela não queria separar-se dele nem à lei da bala, uma paixão doida. Mas ele também gostava dela.

Ainda hoje estou para perceber como era possível tal disparate sendo ambos pessoas inteligentes.

Separaram-se, claro, e, durante uns tempos ainda nos íamos encontrando, sobretudo com ele. Conhecemos-lhe não sei quantas namoradas. Íamos lá a casa, percebíamos que já tinham juntado os trapinhos, a coisa parecia séria. Na vez seguinte, já era outra. Intrigada com a saída que uma criatura daquelas tinha, chegava a pensar: na volta a Bia tinha razão, na volta, com este ar de santinho, de porreirão, este Zé ainda nos saíu um valente mulherengo. Não sei, nunca percebi. Ela também foi arranjando namorados. Uma vez estava a almoçar num restaurante, ouvi nas minhas costas uma voz familiar. Para não me virar à descarada, para me certificar, apurei o ouvido. Era uma conversa de engate, uma conversa de treta, mesmo um bocado chunga. Tinha a certeza que era ela mas, dada a situação, não quis que ela me visse, achei que poderia sentir-se envergonhada. Quando estava perto da porta olhei de soslaio mas ela estava tão entretida que não me viu. Continuava bonita, talvez até mais bonita, uma mulher deveras interessante, bem vestida, com muita pinta. Era, então, directora num dos grandes hospitais de Lisboa (não é aquela de que no outro dia falei, do S. José, esta é outra). Em frente dela estava um homem mais velho, baixo, mal jeitoso, feio, nem sei se não teria um capachinho. Pensei, aterrada: Mas como é que é possível? Deve ser tara. Gira daquela boa maneira e numa conversa daquelas com um horroroso e parvalhão daqueles?

Nunca percebi, essa é que é a verdade.

Claro que é o que não falta: mulheres interessantes que gostam de homens feios, sem piadinha nenhuma.

Assim de repente, estou a lembrar-me de um dos casos mais castiços: o de Sartre. Feio todos os dias, tinha as mulheres que quisesse. Parece que se entusiasmavam com o poder de argumentação dele, com a argúcia e acutilância do seu raciocínio.

Um que é outro caso é o Sean Penn. Não é que seja feio mas não é nada que se compare com as mulheres que caem de amores por ele: Madonna, Robin Wright, Charlize Theron (cujas fotografias mostrei lá mais para cima).

Outro, pouco engraçadinho mas que tem tido umas mulheres lindas é o Salman Rushdie. Veja-se a bela Padma Lakshmi. 

Ou Sarkozy e Carla Bruni.

Pois eu, lamento, não sou dessas. Sempre gostei de homens bonitos. Se é mal enfronhadinho, se é pãozinho sem sal, se tem ar de quem não tem punch, se a gente olha para ele e só vê fealdade, se é mais baixo que eu, se tem umas mãos pequeninas, pois, então, paciência e boa viagem. 
Falo assim como se ainda estivesse numa de casting, escolhendo de entre quem se apresenta a concurso. Claro que não. Mas ainda tenho olhinhos na cara e ainda sei apreciar o que me agrada.
E, para mim, a coisa é simples e vai de encontro ao que li nos artigos da Nature, em que David Deutsch disserta sobre o que é a beleza. Diz ele que, na base de tudo, estão razões que têm a ver com a atracção sexual e, isso, claro, por questões de reprodução. A espécie apura-se no sentido de saber identificar os bons reprodutores. Perpetuar a espécie parece ser, afinal, a razão disto tudo. Pois eu, primitiva que sou, ainda afino por esse diapasão: bonito e interessante, para mim, é o homem que eu acho que tem uma boa pegada (na feliz expressão dos brasileiros) e que, pelo rosto, pela forma como olha, pelo corpo, pelas mãos (as mãos são importantes), pela forma como anda, pela forma como se senta, pelo sentido de humor, pela inteligência, pelo bom feitio, pelo bom carácter, por tudo isso (e de que aqui já falei várias vezes nas minhas várias Receitas de Homem), identifico como sendo um potencial bom parceiro, ou seja, elegível. 
E leia-se: bom parceiro ou elegível mesmo que não seja para mim. Acho o Bruno Alves, o Zidane ou o Clive Owen homens bonitos, interessantes e que devem fazer feliz qualquer mulher -- e digo-o, como é mais do que óbvio (e fica até ridículo referi-lo), desinteressadamente. 
Até me dá vontade de rir escrever isto. 
Lembro-me sempre do meu filho se ter escandalizado comigo quando me ouviu dizer que acho o Bruno Alves um giraço de se lhe tirar o chapéu, alguém que me fazia querer ver os jogos de futebol: oh mãe, deves estar a gozar, um sarrafeiro daqueles..! Pois. Mas a verdade é que talvez também por isso. Sempre fui mais de bad boys do que de copinhos de leite. Fazer o quê? 
(Deve ser aquilo da propagação da espécie: um sarrafeiro sempre deve defender melhor a fêmea e as crias --- e eu aqui devia encaixar uns smiles para se perceber que estou no gozo mas não o faço, embirro com smilezinhos)



E já nem sei a que ponto queria eu chegar com esta conversa toda pelo que agora nem me ocorre qual a moral da história.
 .....

E portanto, assim sendo e nada mais tendo a declarar a não ser que estou com sono, fico-me por aqui.
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Relembro que, para quem prefira alta política, a crónica de mais uma jornada da campanha eleitoral pode ser lida já a seguir.

quinta-feira, junho 18, 2015

Receita de homem - para que os senhores que têm os chamados 'blogs de homem' saibam um bocadinho do que as mulheres* apreciam neles


No post abaixo já manifestei a minha alegria pelo justo Prémio Camões que foi atribuído a Hélia Correia. Uma mulher completa, feita de palavras e de amor à liberdade e à língua portuguesa.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.

Vejo os blogs de homens debruçados sobre o que interessa ou não numa mulher, se é a beleza exterior ou a interior, se o nirvana está aqui ou acolá e se o que interessa mais é que ela saiba estar ou esforçar-se por ser o que já foi ou sobre amores, desamores, pequenos nadas que tanto importam, e outros apontamentos soltos do mesmo género.

Pensam que são eles que escolhem as mulheres, os pobres homens. Não são. Pensam que serão melhor sucedidos se souberem muita teoria sobre mulheres, os pobres homens. Não serão. O papel deles pouco mais é do que mostrarem-se para que as mulheres possam fazer a sua escolha.

O que importa é que agradem às mulheres -- e eu vou explicar quais os pârametros que ajudam a compor esse agrado.


* Nota: A bem do rigor, o que aqui vai ser dito não resulta de um estudo científico. Vou falar apenas por mim e por umas e outras que conheço pelo que não garanto que a amostra seja representativa. Mas é cá um feeling que tenho que, mais coisa, menos coisa, é isto que as mulheres querem.






Tantas vezes que já aqui dissertei e exemplifiquei com alguns casos práticos em que, só de olhar para eles, já a gente vê o que vem lá dentro -- mas, com vossa licença, vou repetir-me.

Antes de me atirar de novo aos ensinamentos, começo por mostrar alguns exemplares que me parecem muito bem.


António Fagundes, um clássico: quanto mais velho, mais interessante (como acontece com quase todos os homens)

Clive Owen - Belo, bad guy, bela voz. Irresistível. Daqui por uns anos estará, certamente, ainda melhor

Andre Pirlo: Forte, belo, e capaz de chorar face a um desabar, num pico de emoção (aqui depois de perder para o Barcelona). A vontade que dá de consolar um homem destes.
Mas, note-se, um homem chorão por tudo e por nada, por favor, também não.


Tantas vezes que eu já aqui escrevi sobre qual a minha receita de homem mas é de gosto que volto a dizer quais os requisitos mínimos. Qualquer dia junto tudo e publico um livro -- tudo descritinho: deve ser assim, assado, frito e assado, inteligente e bom carácter, claro, consistente e equilibrado, meiguinho mas não lamechas, muito menos melga, moreno**, bem moreno, mãos grandes, passada franca, de preferência alto, claro que o tamanho não é tudo mas, para mim, prefiro os altos, e deve saber dar um bom abraço, um abraço nem forte demais que nos deixe escaqueiradas, nem a medo, que até parece um enjoadinho, deve saber olhar nos olhos mas não abusadamente ou, se o for, que seja para valer, e deve ter sentido de humor, sentido de humor é do mais fundamental que há, achar graça ao que a gente diz, e fazer-nos rir, e ser irreverente mas não armado em parvo, surpreendente mas não feito esperto, e bem vestido mas nada de fatinho de riscas, botãozinho de punho também é melhor que não, que não há paciência para um arturzinho assim, e deve ser descontraído mas não desleixado e deve ter aprumo mas não muitas nove horas na cabeça, e deve ser educado mas não uma alicinha, e deve ser sensível mas não uma maria amélia, e deve ler que se farte mas deve poupar-nos a cinquenta mil citações por hora e deve ser pragmático, terra a terra, prosaico e gostar de futebol mas sem ser tarado pelo dito mas, ao mesmo tempo, deve ser capaz de nos surpreender dizendo um poema (ou, vá lá, um bocado de poema) e deve estar ao corrente com o que se passa no mundo e na política nacional e deixar-nos de boca aberta por mostrar que aprecia a natureza ou até as flores dos jacarandás mas deve ser contido na apreciação, nada de exclamaçõezinhas próprias de mariazinhas, porque a todo o momento deve mostrar que é muito homem, mas nada de se dar ares de marialva ou machista, isso nunca, embora uma ou outra piada só para fazer género e fazer convergir sobre si uma raivinha inocente não faça mal nenhum, e era bom que soubesse dançar mas, enfim, se não der para tanto, então que goste de nos ver dançar, que mal há em sermos uma private dancer, e que gastronomicamente esteja sintonizado connosco que isto de um gostar de sushi e o outro abominar, e um gostar de ir a tascas alambazar-se com feijoada e o outro gostar de saladinhas gourmet é coisa condenada ao desastre, e que, oh please, não seja um fundamentalista em coisa alguma e que, por exemplo, experimente provar gin com pepino que sabe tão bem, e encare como natural colaborar de igual para igual nas tarefas domésticas e que se enterneça com os risos das crianças e que fale a mesma linguagem -- que isto de um dizer tomato e outro perceber potato é outro desastre pela certa -- e que saiba perceber a ternura e amor que há nos cães, que são gente como nós, e que goste de ouvir uma boa música e puxe por nós para que possamos encostar-nos no seu peito enquanto ouvimos uma bela ária, uma boa pianada de jazz, ou violino, ou mesmo a Melody Gardot ou o Leonard Cohen, tanto faz, boa música é boa música, que durma longe de nós na cama quando está muito calor mas que se ponha em posição de conchinha quando nos apetece um calorzinho humano, e que aceite uma crítica com bonomia e tolerância e que também nos critique se for caso disso mas não como retaliação e que, se o pedirmos, nos dê a sua opinião sincera sobre a roupa que vestimos ou a maquilhagem que usamos e que, tirando isso, demonstre que aprecia o que vê, e demonstre que percebe o felizardo que é por poder chegar tão perto de nós e que saiba, mas saiba mesmo, que para as mulheres ele não é um dado adquirido, a todo o momento o podemos dispensar e que, portanto, é bom que se esforce, nos conquiste, nos conquiste a sério, em cada pequeno gesto, em cada palavra, em cada sorriso, em cada olhar.

E isto é só para começar.


** - Gostos não se discutem: eu gosto de morenos mas, cá para mim, o texto aplica-se muito bem também a louros.

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Permitam que, de novo, o refira: no post abaixo dou os parabéns a uma pessoa de quem gosto muito e que acho que muita justamente recebeu um grande prémio: o Prémio Camões para Hélia Correia.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira. 
E, para homens e mulheres, os meus votos de bué de felicidades.

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