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quinta-feira, abril 23, 2026

"Isto está a acontecer agora!": O grito de alerta de Bruce Springsteen

 

A cantiga é uma arma. A palavra é uma arma. Springsteen sobe ao palco e a sua presença e a sua voz enchem a arena. Todos os que o escutam sentem-se unidos, membros do mesmo exército, prontos para a luta, para resistir.

Resistir. 

No seu recente concerto no Prudential Center, Bruce Springsteen fez uma pausa na música para fazer um dos discursos mais políticos e contundentes da sua carreira. Sob o título "This Is Happening Now", o músico não poupou críticas e deixou um apelo directo ao coração da democracia.

Aqui fica a transcrição possível das suas poderosas palavras:

Sobre a Crise Nacional e a Verdade:

"Estamos a viver tempos conturbados. Os nossos valores americanos, que nos sustentaram por 250 anos, estão a ser desafiados como nunca antes. (...) Os nossos museus estão a ser instruídos para branquear a história americana, ocultando factos desagradáveis ou inconvenientes, como a história completa da brutalidade da escravatura. Dizem que há 'flocos de neve' (sensíveis), mas a verdade é que temos um presidente que não consegue lidar com a verdade."

Sobre a Justiça e a Corrupção:

"O nosso Departamento de Justiça deitou fora a sua independência; limita-se a receber ordens diretamente de uma Casa Branca corrupta. Eles perseguem os supostos inimigos do presidente, encobrem os seus crimes e protegem os seus amigos poderosos. Isto está a acontecer agora."

Sobre o Papel no Mundo e a NATO:

"Minámos a NATO. A ordem mundial que nos manteve seguros e em paz global durante 80 anos está sob ameaça. Ameaçamos os nossos bons vizinhos e aliados, cujos filhos e filhas lutaram ao nosso lado em guerras americanas — países como o Canadá e os Países Baixos. Ameaçamo-los com a anexação predatória das suas terras."

O Declínio da Reputação Americana:

"Esta Casa Branca está a destruir a ideia americana e a nossa reputação no mundo. Para muitos, já não somos vistos como aquele defensor, por vezes imperfeito mas forte, da democracia. Já não somos a 'terra dos livres' ou o 'lar dos corajosos'. Para muitos, somos agora a 'América, a Imprudente' — uma nação pária, imprevisível e predatória. Este é o legado desta administração."

O Apelo Final à Decência:

"Honestidade, honra, humildade, verdade, compaixão, humanidade e moralidade... não deixem que ninguém vos diga que estas coisas já não importam. Elas importam! Elas estão no cerne do tipo de homens e mulheres que somos e do tipo de país que vamos deixar aos nossos filhos."

Springsteen concluiu com uma convocação:

"Tantos dos nossos líderes eleitos falharam connosco que esta tragédia americana só pode ser travada pelo povo americano. Por vocês. Juntem-se a nós e vamos lutar pela América que amamos. Estão connosco?"

 Bruce Springsteen's "This Is Happening Now" 2026 Speech at the Prudential Center


domingo, abril 12, 2026

Peace over war!

 

O Boss entra e, com o seu vozeirão, grita as palavras que unem os que resistem ao crescente e demencial fascismo de Trump. 

Com todo o seu eletrizante power, o Boss solta as palavras que todos querem ouvir, o grito que traz a esperança de que o bem vingará sobre o mal, de que os tempos felizes avançarão sobre estes tempos de chumbo. Quando, no fim, grita que a paz vencerá sobre a guerra é uma descarga de adrenalina que incendeia a multidão. 

Trump, naqueles seus posts nocturnos, quando a demência aperta e os filtros desaparecem, incitou ao boicote aos seus concertos, apelidou Bruce Springsteen de medíocre, de perdedor, de ameixa seca e de toda a espécie de parvoíces que a sua bílis decadente verteu. 

Claro que isso motiva ainda mais o Boss e os muitos que se reveem no seu grito de guerra ao fascista, ao pretenso rei cor-de-laranja, ao demente que, a um ritmo alucinante, tem vindo a minar a democracia americana e a lançar o mundo num estado caótico. É como se todos fossem um só corpo a afirmar a força da resistência.

Gostava muito de estar num daqueles concertos para também poder gritar a plenos pulmões: 

Democracia sobre o autoritarismo

Estado de direito sobre a ilegalidade

Ética sobre corrupção

Resistência sobre a complacência

Verdade sobre a mentira

Humanidade sobre a divisão

Paz sobre a guerra

 

Bruce Springsteen & The E Street Band   -- Introdução e War

sexta-feira, fevereiro 27, 2026

OMG, how stupid they are...

 

Não foi tanto o chorrilho de mentiras, os disparates sucessivos, a infantilidade da conversa, a descarada provocação aos adversários políticos - foi, sobretudo, a atitude dos correlegionários.

De 10 em 10 segundos levantavam-se para aplaudir, sorrindo em êxtase, abanando aquiescentemente a cabeça. Como marionetas enfeitiçadas, assim eles. Dissesse Trump as alarvidades que dissesse, aldrabices sem ponta por onde se lhes pegasse, proferisse as afirmações que proferisse algumas delas de arrepiar a consciência de quem respeite o civismo, o conhecimento, a verdade, e logo os deus patetas atrás, J. D. Vance e Mike Johnson, se levantavam, desfeitos em sorrisos e aplausos. Ao mesmo tempo a plateia fazia o mesmo. 

Ora não é possível que entre toda aquela gente não houvesse um ou outra com dois dedos de testa. Não se pede muito mais. Não se pede uma boa dose de escrúpulos, de conhecimento da história, nomeadamente da história económica do país, de bom senso, de respeito alheio. E, no entanto, ali estiveram, durante quase duas horas, a levantarem-se e a sentarem-se, a babarem-se perante um burro, um demente, um estúpido, um alarve.

Que raio de mundo é este? 

Não creio que este comportamento acéfalo seja específico dos americanos. Podemos vê-lo nos cultos e nos regimes ditatoriais. Mas, mesmo aí, não sei se o grande líder tem o despudor de dizer tanta mentira, de ser tão aberrantemente provocador, mal educado. Salazar, Mussolini, Hitler e toda essa estirpe de gente, e reportando-me apenas, aos idos, despertaram grandes manifestações de apreço e gáudio.

Ou seja, é a raça humana que é mesmo assim. Quase metade de nós é para esquecer: uns ignorantes, estúpidos, acéfalos, maldosos, vingativos, invejosos, cruéis. Somos nós, ou melhor: alguns de nós, que elegemos os piores, os mais perigosos, os fascistas, os nazis, que os mantemos no poder, que lhes damos a força de que necessitam para darem cabo de parte da população.

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Felizmente, Jimmy Kimmel ainda consegue dizer das suas. E que bem que as diz. Haja alegria.

Jimmy Kimmel reage ao discurso de Donald Trump - State of the Union Address 2026

Jimmy reage ao discurso sobre o Estado da União de Donald Trump. O discurso estendeu-se por muito tempo, a popularidade de Trump está no ponto mais baixo do seu segundo mandato, todo o tempo sentado e de pé deixou o vice-presidente JD Vance entusiasmado, a equipa masculina de hóquei dos EUA compareceu após visitar a Casa Branca, a equipa feminina de hóquei dos EUA recebeu uma oferta melhor de nada mais nada menos que Flavor Flav, as pessoas estavam a apostar no que Trump diria esta noite, e temos a réplica oficial dos democratas ao discurso de Trump, feita por nada mais nada menos que o governador da Califórnia, Gavin Newsom (Josh Meyers).

terça-feira, fevereiro 24, 2026

Aqueles que Ficaram
(Em Toda a Parte Todo o Mundo Tem)

 

O meu marido, quando não tem paciência para tanta desgraça, tanto comentário e tanto fala-barato, refugia-se no 24Kitchen. E eu, vendo a comida que estava a ser preparada, interessei-me. Só que adormeci. Tentei acordar mas não consegui. Passado um bocado, o meu marido levantou-se, foi para a cama. Esforcei-me. E fiz zapping. 

E, então, fui parar a um documentário extraordinário. Extraordinário, mesmo. Comovi-me. E comovi-me também por uma peça tão importante da nossa história estar a passar na 2 quando toda a gente está a dormir. Que falta de respeito para com quem tanto sofreu, que falta de respeito para com o que deveria ser a memória colectiva do nosso País.

Devia ser exibido em todas as escolas, todas sem excepção. E as escolas deveriam organizar debates entre os miúdos depois de assistirem à sua exibição. E, quando falo em escolas, incluo as Universidades também. E, na televisão, deveria ser passado todos os anos, na RTP 1, em horário nobre, tal como, no Natal, passa o Sozinho em Casa

Parece-me essencial. Vejo pelos meus netos: não fazem ideia de como era a vida antes do 25 de Abril, não têm noção do salto de gigante que a sociedade deu, pensam que o 25 de Abril não serviu para modernizar o país, acham que o país ainda está muito atrasado em relação aos países mais desenvolvidos. Não fazem ideia do que é a privação da liberdade, não fazem ideia do que foi a polícia política, não fazem ideia de nada.

Quando alguns palhaços por aí andam a falar na falta que faz o Salazar, seria bom que toda a gente tivesse bem presente do que era o regime do Salazar.

Não sei como é que os nossos partidos que defendem a liberdade e a democracia não percebem que é relevantíssimo mostrar aos jovens de hoje que mostram simpatia pelos movimentos de direita, que a mudança é importante, mas tem que ser mudança para melhor, nunca mudança para pior -- para um passado de opressão e pobreza, isso nunca.

A quem não viu este excelente documentário muito vivamente recomendo que veja. Estava a passar na RTP 2 e vi agora, na programação, que começou um pouco antes da meia-noite.

Transcrevo o texto da apresentação:

Aqueles que Ficaram (Em Toda a Parte Todo o Mundo Tem)

Documentário que dá voz aos familiares de resistentes, aqueles que enfrentaram, em silêncio, as consequências do regime do Estado Novo

Portugal viveu 41 anos o regime político do Estado Novo, que prendeu, torturou e levou ao exílio a quem se lhe opunha. Através dos testemunhos diretos de 28 familiares de resistentes deste regime ditatorial, faz-se o retrato de uma época e de um país, mas também se abrem linhas para o entendimento deste presente. Depois da voz dada aos presos políticos, clandestinos, exilados ou deportados, em vários trabalhos anteriores, chegou a hora de ouvir quem também resistiu ao "cárcere" das privações materiais e emocionais, tantas vezes ainda sem idade para entender e muito menos aceitar as inevitáveis e profundas mudanças abruptas no quotidiano. Filhos, filhas, mulheres quase sempre e ainda hoje em silêncio.

Partindo da recolha e análise de algumas das cerca de 100 entrevistas realizadas com familiares de opositores e inseridas num trabalho de investigação académica na área da História Contemporânea, o filme documental vai conduzir-nos pelas vivências e consequências de um tempo obscuro na vida de cada uma dessas personagens e as suas formas de resistência, contribuindo de igual modo para o acrescer do conhecimento da história da resistência à ditadura do Estado Novo. 

Viva a liberdade! 

sábado, janeiro 31, 2026

Por vezes é uma canção que une e exprime a comoção das multidões.
Talvez seja o caso de Streets Of Minneapolis de Bruce Springsteen.

 

Debaixo das intempéries, resistindo à invasão das tropas que mais parecem tropas nazis às ordens do louco, corrupto e cruel Trump, a corajosa população de Minneapolis ajuda os 'vizinhos', protege-os como pode da violência cega das milícias, vem para as ruas e protesta, protesta mesmo sabendo que, do outro lado, está gente impreparada, violenta, instruídos para espalharem o terror. 

De entre os mortos, emerge a morte à queima roupa, à vista de todos, tiros disparados sem razão e sem compaixão, de Renée Good e Alex Petti, dois inocentes cidadãos americanos. Mas que fossem chilenos, mexicanos, chineses, guineenses ou de qualquer outra nacionalidade. Nenhuma morte assim tem perdão.

E, no meio dos protestos e dando voz à tristeza e à revolta de todos, eis que Bruce Springsteen corporiza numa canção o que todos sentem. Um hino de coragem e resistência.

Bruce Springsteen - Streets Of Minneapolis (Official Lyric Video)

Through the winter's ice and cold
Down Nicollet Avenue
A city aflame fought fire and ice
'Neath an occupier's boots
King Trump's private army from the DHS
Guns belted to their coats
Came to Minneapolis to enforce the law
Or so their story goes

Against smoke and rubber bullets
In the dawn's early light
Citizens stood for justice
Their voices ringin' through the night
And there were bloody footprints
Where mercy should have stood
And two dead, left to die on snow-filled streets
Alex Pretti and Renée Good

Oh our Minneapolis, I hear your voice
Singing through the bloody mist
We’ll take our stand for this land
And the stranger in our midst
Here in our home they killed and roamed
In the winter of ’26
We’ll remember the names of those who died

On the streets of Minneapolis


segunda-feira, dezembro 01, 2025

Vamos de mal a pior
-- A palavra ao meu marido --

 

Esta semana tivemos conhecimento de crimes absolutamente abjetos, que demonstram a falta de humanidade e de escrúpulos de quem os praticou. Como se não fossem suficientemente horríveis ainda soubemos na sexta-feira que se levantam fortes suspeitas da actuação de guardas prisionais sobre um recluso, com consequências terríveis. Quando nos entram pela casa dentro notícias de que quem se supõe que cumpre as leis, nomeadamente polícias, bombeiros e guardas prisionais, afinal as viola, demonstrando a maior  desumanidade, ficamos enojados e pensamos que, caso se prove a respectiva culpa, têm que ser exemplarmente punidos. 

É difícil admitir que são acontecimentos fortuitos e não um sinal dos tempos. O Governo, seguindo a cartilha do Chega, não se pronuncia sobre casos que põem em causa os nossos valores e a coesão da nossa sociedade. Quando vemos que os GNR alegadamente envolvidos na escravização dos imigrantes no Alentejo ficaram com a pena menos gravosa após o primeiro interrogatório porque a procuradora não transcreveu as conversas telefónicas ou  que o PGR quer fazer um despacho à medida do Montenegro e do caso Spinunviva para evitar escrutínios, percebemos que se estão a criar condições para que o apuramento da verdade e responsabilização dos culpados não aconteça. Aliás, num caso idêntico que ocorreu recentemente, os responsáveis pela exploração desumana de imigrantes foram absolvidos por falta de provas. 

E, relativamente à escravização dos imigrantes, também deveria ser investigado como é possível que os donos das herdades não soubessem, que as hierarquias não suspeitassem e que a população local não se tivesse apercebido. Será que são votantes do Chega que, embalados pelas cantigas fascizantes do Ventura, acham que isto é o novo normal e que os imigrantes devem ser explorados sem qualquer pingo de humanidade?

A mentira continuada e sem escrúpulos dos populistas propagadas nas redes sociais, populistas que não têm quaisquer escrúpulos e utilizam todos os meios para atingir os seus fins, estão a dar ou já deram cabo da nossa sociedade e dos valores das democracias liberais. 

A democracia não se soube defender destes perigos que põem em causa tudo o que de bom e positivo foi construído nas últimas dezenas de anos. Como é possível que a geração Z, que só acede à informação através das redes sociais, seja cada vez mais reacionária, até na forma como trata as mulheres, e pense que  antigamente se vivia melhor do que se vive hoje? 

É possível porque a geração Z e outras gerações sofrem todos os dias uma lavagem ao cérebro quando acedem às redes, não tendo a democracia sabido defender-se destes perigos porque foi mais democrática do que era exigível e, em vez de se defender, abriu as portas à extrema direita racista, populista e xenófoba. 

Qual a razão de as escolas, nas aulas -- por exemplo, de cidadania -- não apresentarem factos, sem ideologias, relativamente aos tempos da antes do 25 de Abril e de hoje? Comparação da taxa de alfabetização, do acesso à saúde, do acesso à educação, da percentagem de casas com água canalizada e com casa de banho, da taxa de pobreza, ... . 

Existem exemplos mais do que suficientes para qualquer jovem com um mínimo de inteligência perceber que hoje estamos centenas de vezes melhor do que antes do 25 de Abril. 

Maldito algoritmo! Será que algum dia se conseguirá combater eficazmente este flagelo? 

Urge, para bem de todos nós!

domingo, outubro 26, 2025

A arte de que se tem dúvidas.
A natureza de que não se pode ter dúvidas: é arte em estado puro.
E a história do bravo quase-lobo que vai avançar sobre a enigmática e poderosa FLOTUS, obrigando-a a falar sob juramento

 

Dia de visita às artes, no Drawing Room na SNBA, sempre com aquele misto de perplexidade e interesse. Por um lado, face a muitas obras expostas, aquela eterna dúvida: é isto arte? não é isto uma preguiçosa maneira de tentar ganhar a vida? É isto, ao menos, bonito? ou interessante? Por outro, face a outras peças, a curiosidade, o gosto de olhar, a vontade de perceber como foi feito, por vezes até uma certa vontade de possuir.

É certo que não haverá áreas em que a subjectividade mais impere do que na arte. Por isso, é território arriscado, este. Do que eu gosto há quem se ria. No que eu não gosto há quem invista muitos milhares. Por isso, a mim própria me obrigo a bater a bola bem baixinho.

E, além disso, em lugares assim não é apenas a arte que se pode olhar, é também a graça de observar a fauna que se move em torno das galerias, dos artistas, incluindo os próprios galeristas e pintores. Há qualquer coisa que os distingue, que os aproxima entre si. Eu não me aproximo. Não gosto de conversar sobre arte. Para mim, não há conversa possível. Gosto de ver, gosto de me chegar perto ou de ver de longe, mas pouco mais do que isso. De quem eu gostava de ouvir falar era a Paula Rêgo. Falava displicentemente do acaso subjacente, de como apareciam aqueles personagens ou adereços, quase por acaso. Uns tomates pintados ao pé da cama só porque sim, só porque aquele espaço estava vazio e uns tomates ali ficariam bem. Não tinha paciência para alimentar dissertações.

E se isso era assim quando os quadros dela tinham personagens, tinham acção ou intensidade, imagine-se qual o sentido de dissertar sobre pinturas em que aparecem três manchas e dois riscos. Ou na tela grande, cinco pequenos salpicos. Não estou a exagerar. Que se pode dizer sobre obras de 'arte' desse calibre? Falar sobre isso é da ordem da fantasia, mas uma fantasia que só pode fazer sentido na cabeça de uma mente sub-ocupada. Só me apetece dizer para irem dar banho ao cão.

Enfim. 

Tenho ainda a registar o facto já aqui trazido algumas vezes. Não sei qual a explicação mas sei que é um facto: todas as pessoas que conheço de as ver na televisão, quando as vejo ao vivo verifico que são minúsculas. Hoje mais um. Imaginava-o grande. Talvez por ser desenvolto e por na televisão se mostrar uma figura com uma certa presença, imaginava-o grande. Não senhor, pequenino. Nada contra, nada mesmo. Só o refiro porque não percebo o fenómeno: parece que a televisão faz as pessoas parecerem maiores.

Tirando isso, a natureza. A bela natureza. As cores que se mesclam, a luz que as folhas guardam dentro de si, os tons que evocam o pôr do sol, agora que os dias estão tristemente pequenos. 

Debaixo desta chuvinha mansa, os líquenes saem à cena, os musgos aparecem, a caruma, ensopada, fica macia. Os passarinhos cantam, cantam. Uma paz acolhedora.

Caminho enlevada, fotografo e faço vídeos com tudo, tudo me encanta. As cores exuberantes que agora despontam fazem esquecer a secura dos dias em que os grandes calores ressequiram a terra. Os verdes estão de volta.


Ando debruçada à procura dos primeiros cogumelos, mas ainda não apareceram. Anseio por eles. É sempre um deslumbramento, um espanto perante o milagre que é ver aquelas criaturas silenciosas a levantarem-se da terra.

Agora, enquanto escrevo, uma coruja pia na noite escura. Gosto do seu canto.  É solitária. E noctívaga como eu.
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Entretanto, estive a ouvir o Michael Wolff. Autor de vários livros sobre Trump para os quais recolheu testemunhos de meio mundo e se tornou confidente de muita gente, Michael Wolff gravou muitas horas de conversa com Epstein, durante as quais o tema era Trump, Melania Trump e etc. Sem receios, tem divulgado muitos dos segredos que Epstein lhe contou, revelou as fotografias que viu com Trump com miúdas pequenas em topless ao colo, etc.

Pois bem. Nas costumeiras manobras de silenciamento de quem diz coisas desconfortáveis de qualquer dos membros do casal Trump, desta vez foi Melania que processou Michael Wolff por difamação, avançando com um pedido de indemnização de um bilião de dólares. Fazem isso embora saibam que não ganham, fazem isso apenas para intimidar os processados, para os calar, e para que, numa de acabarem com a perseguição, os processados aceitem fazer um acordo no decurso do qual os Trumps sempre ganham qualquer coisa. E com isso vão ganhando, no total, mais uns milhões. A ganância e a falta de escrúpulos daquela gente não têm limites.

Só que, desta vez, o tiro lhes saiu pela culatra. Michael Wolff virou a mesa e avançou ele com um processo contra Melania, por tentativa de lhe restringirem a liberdade de expressão. Desta forma, em tribunal, os factos vão vir para a barra dos tribunais e se verá se há difamação, ou se apenas relato de ocorrências. Melania Trump irá depor sob juramento. Espera Michael Wolff que seja também uma oportunidade dos famosos ficheiros Epstein virem para a luz do dia. Tenciona chamar como testemunhas Donald Trump, a sinistra e pérfida Ghislaine Maxwell e Steve Bannon que também sabe mais do que Trump gostaria que ele soubesse. E tenciona fazer ouvir as gravações em que Epstein fala de Trump. Ou seja, tenciona trazer Epstein do mundo dos mortos para depor contra Donald e Melania Trump.

Vai ser bonito de se ver e muita tinta vai ainda correr, muita, muita. 

Ao que consta, Trump foi apanhado de surpresa com esta reviravolta e está possuído. E, quando está assim, mais peripécias e tentativas de distração vão acontecendo, sucedendo-se as ameaças, as vinganças, os disparates, os desmandos.

Partilho um vídeo em que o corajoso Michael Wolff conversa com a simpática Joanna Coles. Vale muito a pena ver. É certo que se passa lá longe. Mas, não nos esqueçamos: nesta nossa aldeia global, o 'lá longe' é à porta da nossa casa.

Wolff: What I’m Going to Ask Melania Under Oath | Inside Trump's Head

Michael Wolff junta-se a Joanna Coles para abordar o seu novo e surpreendente anúncio: um processo de mil milhões de dólares contra Melania Trump. Os dois dissecam a amizade bem documentada de Jeffrey Epstein com Donald Trump e ligam os pontos à demolição da Ala Leste de Trump, expondo a estratégia de destruição do presidente. Wolff e Coles desvendam também as cruzadas linha-dura de Stephen Miller, expondo a estranha psicologia que move um dos membros mais maníacos do círculo íntimo de Trump. À medida que as barreiras legais se fecham, persiste uma questão: quanto do caos de Trump é cálculo e quanto é pura compulsão?


00:00 - Introduction
01:55 - Why Wolff Announced Melania Countersuit Beside The American Flag
04:21 - Wolff's Legal Action Against Melania Is An Anti-Slapp Suit
07:25 - First Time In History First Lady Has Sued A Member Of The Press
10:20 - Trump White House Demolition An Unscrupulous NYC Real Estate Strategy
16:43 - What Wolff Will Seek From Melania And Donald During Legal Discovery
19:23 - How Will Melania And Donald Perform During Depositions?
20:21 - Ghislaine Maxwell's Deposition Will Be Crucial In Melania Trial
21:04 - Wolff To Share Jeffrey Epstein's Comments About Trump During Melania Trial
24:30 - Inside Trump's Head Live Event Nov. 5, Buy Tickets At MCNY.org
25:30 - Why Trump Calls Stephen Miller "Weird Stephen"
28:48 - Stephen Miller Driven My Maniacal Anti-Immigrant Ideology
30:57 - Trump Has Used Stephen Miller As Cudgel
32:35 - Stephen Miller Gets Pleasure From Violent ICE Raids
34:40 - Trump Attempting To Undo Large Progressive Cultural Movements
35:54 - Stephen Miller's Lack Of Opportunities After Jan. 6th
39:08 - Trump Is Confused By Stephen Miller
41:10 - Viewer Questions Asked And Answered

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Desejo-vos um feliz dia de domingo

sexta-feira, outubro 17, 2025

Momentos bizarros no mundo da parvalheira, numa cerimónia que era esperada há mais de 3.000 anos

 

Vamo-nos habituando. Agora, quando uma dada pessoa é apanhada a fazer parvoíces, já ninguém se choca ou critica: normaliza-se, diz-se que é a pessoa a ser a pessoa que é. Como se isso justificasse tudo ou desculpasse alguma coisa. Aliás, no que aqui me traz, a pessoa em causa, cândida na transparência com que se confessa ao mundo, até já fez saber que poderia sair à rua e dar um tiro num tipo qualquer que nada de mal lhe aconteceria.

E se já fez das suas... Tantas, tantas, que já não têm conto. E todas más de mais para serem verdade. Até conseguiu enterrar uma ex-mulher num dos seus vários campos de golf para, com o assim adquirido estatuto de cemitério, o campo de golf pagar muito menos impostos. Não há limites para ele. E há a impressão de que o que se sabe é ainda uma pálida ideia do que um dia se haverá de saber. 

Agora engendrou (à pressa -- a ver se ainda ia a tempo de lhe darem o nobel da paz) o acordo de reconstrução de Gaza -- a que deu o nome de acordo de paz -- e, para a fotografia, qual rei, para sentir que meio mundo lhe presta vassalagem, sem aviso prévio mandou que voassem dos seus países para estarem ali a ouvir as suas parvoíces, presidentes e primeiros-ministros de vários países. E ali estavam eles a prestar-se a destratos, a alarveiradas, a bocas foleiras, a tontices sem qualquer nexo. Em vez de o mandarem dar uma grande curva, não senhor, ali estão a compactuar com as anormalidades que ao narcisista-demente lhe ocorrer levar a cabo. Uma coisa triste de ver.

[Não obstante, tal como ontem referi, acho que é importante que a destruição brutal que Israel estava a levar a cabo tenha sido suspensa, acho importante que se abram corredores humanitários e que, mutuamente, se devolvam prisioneiros. As minhas reservas têm a ver com a sustentabilidade disso e com a indefinição política que pode levar a que isto, que é bom, não dure muito tempo]

Daqui por uns anos, quando os historiadores quiserem analisar este período terão que recorrer ao humor louco, ao estilo João César das Neves, ou à densidade das instituições psiquiátricas, ao estilo Voando sobre um ninho de cucos, para conseguirem retratar minimamente o período que atravessamos, que não sei se é das trevas, se é dos entrevados morais e mentais.

Há numerosos vídeos dos diferentes momentos, todos entre o hilariante, o patético, o grotesco, o aparvalhado, o aviltante. Escolhi este aqui como poderia ter escolhido vários outros. Aqui fica pro memória numa altura em que Trump agora já diz que, se for preciso, vai para lá caçar os do Hamas e matá-los um a um. Faria se não houvesse o tão celebrado acordo de paz...

Awkward Moments You Missed From Trump's Gaza Summit


Desejo-vos uma feliz sexta-feira

quarta-feira, setembro 24, 2025

O que leva a que grande parte dos representantes dos diferentes países presentes na Assembleia Geral das Nações Unidas não pateie quando Trump diz as alarveiradas do costume, não desate a rir à gargalhada e a bater com os pés quando diz os disparates de alto calibre em que é costumeiro, não o vaie impedindo-o de ser ouvido?

 

Não percebo porque não o fazem. Se o desrespeitarem tal como ele desrespeita toda a gente, se o humilharem como ele humilha toda a gente talvez ele aprenda.

Caso contrário, continuando a apaparicá-lo, a vergarem a espinha e a estimularem-lhe ainda mais aquele ego doente e seboso, estão a alimentar a sua prepotência, o seu autoritarismo desmedido. 

Podia dizer 'depois não se queixem' mas isso não me apraz pois com os desvarios dele não são apenas os actuais líderes, cobardes e subservientes que se lixarão, seremos nós todos que teremos razão para nos queixarmos.

segunda-feira, setembro 22, 2025

Just saying

 

Volto a um dos temas que me anda a preocupar por demais: a transição de regime nos Estados Unidos às mãos de um único homem.

Apesar de ser claro para toda a gente com dois dedos de testa que esse homem tem uma mente perturbada, a verdade é que o regime de um grande país como os Estados Unidos soçobrou em pouco tempo e que o resto do mundo assiste passivo e submisso, vergando as costas para agradar a esse narcisista maligno, psicopata, paranico, vingativo, demente, etc.

Este domingo, com as cerimónias fúnebres de Charlie Kirk, ficará na história como um dos marcos dessa perigosa viragem para um regime totalitário, obscurantista, persecutório, em que a bíblia, ou melhor, a sua interpretação desenquadrada e fundamentalista, substitui a Constituição. 

Uma multidão ululante, cega, avidamente transformou em mártir um influencer racista, xenófono, reaccionário, misógino que, não se sabe ainda porquê ou por quem, foi assassinado. Obviamente condeno este homicídio pois sou visceralmente contra o uso de armas e de violência para resolver diferendos ideológicos ou outros. Portanto, acho chocante que alguém faça o que foi feito, assassinando Charlie Kirk.

Mas condenar o seu assassinato não pode levar, de modo algum, à sua transformação num mártir nem ao branqueamento do que ele disse e fez.

Contudo, tudo o que aconteceu naquela tarde -- aquele disparo, um único tiro -- está tão cheio de contradições, de inexplicações e de impossibilidades que fico espantada por tanta gente achar normal uma narrativa que se desfaz a ela própria.

Não ouso alinhar-me com nenhuma das inúmeras teorias que irrompem mas, sem mais comentários, partilho vídeos que aparecem pela mão de ferrenhos MAGA's, amigos do peito de Charlie Kirk, que têm vindo a fazer saber que Charlie KIRK, nos últimos tempos, parecia estar a afastar-se de algumas linhas traçadas por quem parece mexer todos os cordelinhos da política americana. Por exemplo, estava a demarcar-se cada vez mais frontalmente de Netanyahu. Por exemplo, estava também a manifestar-se cada vez mais claramente sobre a possibilidade de Epstein ter sido um activo da Mossad ou da CIA ou sabe-se lá de quem. Por exemplo, estava a exigir cada vez mais abertamente a divulgação integral dos ficheiros Epstein, tema que, obviamente, deixa doido não apenas Trump como todos os envolvidos.

Sendo ele o ponta de lança do MAGA no recrutamento de jovens, o principal responsável em manter viva a chama  pró Trump e pró MAGA na camada universitária e junto dos jovens que vivem nas redes sociais, alguns dos mais ilustres e vocais MAGAs  (Megyn Kelly, Candace Owens e Tucker Carlson, por exemplo) sugerem, embora não o explicitem, que as inúmeras ameaças que Charlie Kirk vinha recebendo poderão ter alguma coisa a ver com o seu fim.

São mundos que me são estranhos, que me assustam, que me metem medo e sobre os quais nada sei. Apenas sei que gostaria que os meus filhos e netos vivessem sempre em democracias sãs, liberais, humanistas, livres, modernas. Gostaria que nunca no meu país se vivesse uma realidade diabólica, demente, disfuncional, distópica como aquela que se vive nos Estados Unidos.

Seria bom que os portugueses e os europeus em geral conhecessem um pouco melhor o que está ali a passar-se. Talvez só assim percebam o risco que é abrir as portas a movimentos populistas, anti-democráticos.

Partilho estes vídeos apenas porque penso que devemos ter um pensamento crítico, informado, que devemos questionar as narrativas que não nos parecem lógicas, que devemos olhar para o que se passa à nossa volta, para o que se passa atrás do que nos é mostrado.

Megyn Kelly Breaks Down the Controversy Surrounding Candace Owens, Ackman, Israel, and Charlie Kirk

Megyn Kelly breaks down the controversy surrounding Israeli Prime Minister Netanyahu’s comments on Charlie Kirk’s legacy, Candace Owens’ remarks about the letter and Kirk's views on Israel, Megyn and Charlie's conversation about Israel last month, and more.


Kirk on Epstein




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Desejo-vos uma boa semana a começar por esta segunda-feira

Que a paz, a democracia, a liberdade e o humanismo nunca nos faltem

sexta-feira, setembro 12, 2025

O palerma dos hambúrgueres, a última sondagem, o brutal ataque à democracia a que se assiste nos Estados Unidos... e etc.

 

Depois de ter escrito o post de ontem sobre os atentados à racionalidade, à justiça, à ética, ao decoro, à verdade (e a tudo o mais que queiram juntar) por parte de muitos militantes do Chega, chegou a notícia de que um ex-dirigente do Chega quer pagar para evitar julgamento por prostituição infantil. Ou seja, quando se julga que é impossível piorar, piora mesmo. 

Depois veio o momento caricato do Ventura -- naquele seu tom indignado, superior --, a vir divulgar que o Chega tinha votado contra a ida de Marcelo ao Festival dos Hambúrgueres, até porque, diz ele, é inadmissível que os impostos dos portugueses sirvam para pagar tamanho disparate. Como já foi amplamente parodiado, confundiu a Festa dos Cidadão com um festival de hambúrgueres. 60 carneiros sentados no nosso Parlamento e que estão a ser pagos com o dinheiro dos nossos impostos votaram com as patas, sem saberem o que estavam a votar.

Tendo sido ridicularizado por todo o lado, o que fez Ventura? Pediu desculpa? Não, senhor. Disse que se tinha enganado mas que a culpa tinha sido do Marcelo por andar sempre a viajar... e atirou com um número absurdo de viagens, dez vezes superior à realidade. Porque diz tantas mentiras? Porque faz tantas acusações disparatadas? Má fé, impreparação, desapego da verdade? Seja o que for, é mau demais.

Mas se a reputação do Ventura e da escumalha que se juntou a ele no Chega deveriam merecer o mais frontal e inequívoco repúdio de toda a população, não entregando um único voto a tal agremiação de marginais, mentirosos, incompetentes, mal-formados... o que se verifica é que uma parte significativa da população votante é igual ou pior a eles pois, segundo a última sondagem, aponta-se para o Chega a liderar as intenções de voto, caso houvesse agora novas legislativas. 

Pasmo com isto. Como é possível? As pessoas estão parvas? Ou, pior que isso, são parvas?

Penso que é tempo de se encarar a realidade: para evitar o descalabro (como o que está a acontecer nos Estados Unidos, um descalabro aterrador), há que entender, por dentro, as razões de tanta gente se rever neste culto, no culto Ventura. Provavelmente há que perceber que maioritariamente é gente que não lê jornais (muito menos livros, claro), que não ouve notícias, que apenas consome o lixo veiculado pelas contas das redes sociais do Chega, gente muito ignorante a quem não vale a pena tentar convencer através de factos, de números ou de gráficos pois, com certeza, nem a tabuada sabe, muito menos sabe interpretar gráficos, gente sem bases morais ou culturais, gente que se sente integrada no meio de um partido de meliantes.

Tudo isto preocupa-me demais.

As redes sociais, no meu caso, o Instagram, tem tido um lado positivo: traz-me o acesso à opinião de muitos senadores e congressistas americanos, de muitos jornalistas, de governadores, de gente da Justiça (alguns dos quais varridos pelo Trump), e o que ouço e vejo é aterrador, como se, num par de meses, todos os checks and balances, tal com os freios e o sistema de emergência do Elevador da Glória, tivessem deixado de servir para o que quer que fosse. Dá ideia que se partiu ou desprendeu o cabo da democracia e, inesperadamente, toda a sociedade americana se vê virada do avesso. 

O impensável passou a ser o quotidiano. A ignorância, a incompetência, o revanchismo, as perseguições gratuitas, a prepotência, a rudeza, a malvadez, a subserviência, tudo o que enoja, tudo isso é o que agora impera. 

E tudo isto perante a incapacidade de reacção dos democratas. Parece que estão anestesiados, sem reação. Aliás, para dizer verdade, nem sei quem é o mais poderoso dos democratas: ainda será Biden? Aquele senhor da Câmara dos Representantes? o líder dos democratas no Senado? A Kamala ainda mexe? O que se passa para estarem tão entorpecidos? Parece que apenas Gavin Newsom estrebucha. Mas não é suficiente. Perante os tremendos riscos há que haver uma força que se levante e defenda a liberdade, a democracia, a ética, a moral.

Mas não há.

E à medida que vou lendo, que vou ouvindo, que vou cruzando informação, mais aterrada fico. Sou radicalmente contra teorias da conspiração. Nada disso faz minimamente o meu género. Sou pela objectividade, não pelas suposições infundadas, pelo diz que diz. Só que, nestes domínios, em especial quando há muita patifaria, muito narcisismo, muita psicopatia e muito poder envolvidos, há um mundo paralelo, subterrâneo, do qual apenas nos vamos apercebendo à medida que alguém repara numa ponta solta, outro alguém a agarra e a puxa, outro se esgueira para ver de onde vem... E, portanto, a única coisa que, em concreto, sei é que, nos Estados Unidos, pouco ou nada sei sobre os mais recentes escândalos, atentados, suicídios, homicídios com contornos políticos. Volta e meia dou por mim a querer estabelecer ligações, relações causais. Mas detenho-me. Não sei o suficiente sobre o que se passa para poder, sequer, raciocinar.

Neste tema do jovem que foi assassinado, Charlie Kirk -- alguém que pregava a favor da violência, do porte de armas, alguém que defendia que era aceitável que todos os anos morressem pessoas assassinadas pois isso justificaria o tema da permissão do uso generalizado das armas, alguém abertamente xenófobo, racista, misógino, alguém que mobilizava fortemente a camada jovem do movimento MAGA, mas que, apesar disso, obviamente merecia viver --, estou em crer, a partir do que tenho lido e ouvido, ao constatar que há quem formule algumas dúvidas sobre alguns factos anómalos que envolvem todo o crime, que muito do que não se sabe talvez possa ser mais importante do que o que se sabe. E essa nebulosa que agora parece envolver tantas coisas naquele imenso país ainda torna tudo mais assustador.

Por isso, por tudo o que se vai sabendo sobre o que está a acontecer nos Estados Unidos (já para não falar de casos mais antigos como a Rússia), penso que deveríamos excomungar todo o populismo, todos os que dividem para reinar, todos os que instilam ódio na sociedade, todos os que não respeitam escrupulosamente a democracia, a liberdade, o respeito pela lei e pelas instituições democráticas. A dúvida é: mas como fazê-lo de forma eficaz? 

Aceitam-se sugestões.

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Nota

Claro que leio todos os vossos comentários, claro que os agradeço, os comentários enriquecem o blog, muitos leitores se calhar têm mais curiosidade em ler os comentários do que o que eu ou o meu marido escrevemos. Mas tenho andado com pouco tempo. E continuo a ter este hábito peregrino de só escrever no blog às quinhentas da noite o que faz com que, quando acabo, esteja com sono. Por exemplo, agora que já passa, e bem, da uma e meia da manhã, ainda quero ver os mails (... e já perdi a conta aos que também não agradeço e a que não respondo...) e ainda quero ir espreitar uma notícia cujo título me intrigou. Por isso, mais uma vez não vou responder ou agradecer os comentários. Por isso, peço as minhas desculpas.

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Desejo-vos uma feliz sexta-feira

quarta-feira, setembro 03, 2025

E não digam que elas não avisaram...


Diziam que estava morto. Vários dias sem aparecer quando toda a gente que se pela por falar aos jornalistas, três conferências de imprensa por dia, e isto numa altura em que as mãos aparecem cheias de derrames (que ele tenta cobrir com base), que se esconde atrás de mesas para ninguém ver os tornozelos inchados a transbordarem dos sapatos. 

Depois, quando apareceu, disseram que os da Segurança andavam a passear o morto. Tornaram-se virais os memes que parodiavam o fim-de-semana com o morto em que o morto era ele, de polo branco, barrigudo, e com aquele boné encarnado ridículo a dizer 'o trump teve razão em tudo'. Depois, quando ele falou mas sem aparecer, disseram que não estava bem, que a voz estava estranha, que mais parecia um tate-bitate a falar, que o mais certo é que tivesse tido um avc. Depois apareceu em pessoa e viu-se que, afinal, não só estava vivo como continuava igual a ele. Vi um pouco: continua repulsivamente megalómano, narcisista, doido varrido. E vingativo e pronto para levar a dele avante, seja lá o que for que lhe passe pela cabeça. 

Os avisos sucedem-se: ele é autoritário, incompetente, ignorante, maníaco, e quer fazer dos Estados Unidos a sua coutada, usar o país em seu próprio benefício. Expulsa e maltrata aqueles que elegeu como inimigos, silencia os que o denunciam, corta financiamentos aos que ousam ter voz própria, despede os que mostram independência. Explicam: foi assim que nasceu o nazismo, foi assim que se espalhou o fascismo. 

Agora meteu na cabeça que ser ser Nobel da Paz e anda a espalhar que já acabou com várias guerras. Começou por falar em quatro, depois passou para seis, agora já vai em sete. Tudo aldrabices sem ponta por onde se lhe peguem. Mais parece um filme cómico, tanto o disparate.

O Putin, então, anda a gozar com ele mas a gozar à cara podre: depois de o tourear no Alasca, agora anda a mostrar que faz dele o que quer e, às claras, mostra quem é a sua turma. Chama a Xi Jinping 'querido amigo' e, na volta, vai dizer o mesmo a Kim Jong-un e aos outros ditadores da grupeta que se juntou em Pequim. Aposto que os amigos do PCP, que tanto defendem Putin e que não conseguem ver porque é que o resto do mundo acha que Kim Jong-u é um ditadorzeco, também gostavam de ter sido convidados. Afinal, sentir-se-iam em casa porque aquilo lá, aquele grupinho de ditadores, é tudo uma maltosa que também abomina a Europa, a democracia, o livre pensamento.

Há muita gente que anda a falar publicamente contra Trump, a denunciar as suas patranhas, as suas jogadas de risco, o seu autoritarismo que não conhece barreiras nem lei. 

Mas hoje trago aqui um grupo de avozinhas que acho o máximo: as extraordinárias Piedmont Raging Grannies. Acho-as o máximo. Quando tendo a cair na desesperança, vejo coisas assim e encho-me, outra vez de esperança. Resistir. Resistir. Resistir. De todas as maneiras.

Tem que se arranjar maneira de furar a tacanhez, a grunhice dos burros do Maga, e, talvez com coisas assim, alguns, sentindo-se gozados, se sintam levemente vacilantes. Não sei. Mas, pela parte que me toca, diverte-me partilhar isto. Tenho a certeza de que no dia em que Trump (e J.D. Vance, esse outro bicho asqueroso que anda danadinho para tomar o lugar do palhaço-mor cor de laranja) caia e os Maga percebam a banhada que é o trumpismo, todos os movimentos populistas que por aí despontam também vão sofrer um revés. O Ventura inflou como inflou alavancado pela vitória de Trump -- é certo que levado ao colo pela Comunicação Social e depois levado em ombros pelo Mentenegro.

Fascist Donald Has a Game  -  Piedmont Raging Grannies


Trump is in the Files  -- Piedmont Raging Grannies

He’s trying everything he can think of to distract from breaking his promise to release the #Epstein files. So, here’s a reminder! 

Vivam as avozinhas! 
-- estas e as de todo o mundo, em especial as que se mantêm vivas, jovens, com a cabeça arejada.

quarta-feira, julho 30, 2025

Beyoncé responde a Trump

 

Como um bicho atordoado, desatinado, descerebrado, sentindo-se acossado -- com revelações sobre o seu envolvimento no escândalo Epstein a rebentarem como pipocas, em todo o lado, a toda a hora --, Trump vira-se para onde calha e atira ao acaso. 

Ultimamente, para além dos disparates habituais e dos insultos e desconsiderações a adversários políticos ou a gente da televisão (Colbert, Kimmel ou Fallon, por exemplo), deu-lhe para lançar acusações sobre Beyoncé e sobre Oprah a propósito do apoio que publicamente deram a Kamala Harris aquando das eleições, pedindo a sua acusação. Imagine-se o nível a que o desvario já chegou.

Mas se alguns engolem em seco e tentam seguir em frente, outros há que, como foi o caso de Colbert, tiraram as luvas e agora é às escâncaras e sem meias palavras, ou como Beyoncé, que, no programa de Colbert,  é vista num vídeo, colagem de vários momentos dos seus clips, que é, todo ele, uma gargalhada na cara do camelo-mor.

Beyoncé responde ao Presidente Trump

Will President Trump succeed in his latest attempt to distract attention from the Jeffrey Epstein scandal?


Que a democracia consiga sobreviver -- nos EUA e em todos os lugares em que é ameaçada

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Dias felizes

quinta-feira, junho 12, 2025

Neste nosso tempo em que os cidadãos regrediram à subtil designação de seguidores

 

Até não há muito -- talvez até antes de haver uma concorrência desmedida entre os canais de televisão, nomeadamente os de cabo que têm que manter as emissões em contínuo e deitam a mão a tudo o que é gato-sapato, ou até ao advento das redes sociais que vieram dar a voz a tudo e a todos por mais ignorantes e estúpidos que sejam -- só era dada oportunidade de se pronunciar em público a quem reunia um mínimo de características positivas que os fizessem distinguir do comum dos mortais. Tinha que se ser gente de cultura, com alguma coisa a acrescentar, para se poder chegar a um púlpito e falar para as massas.

Agora não. Veja-se Marcelo que, num dos seus momentos de deriva populista, chamou a discursar no 10 de Junho o João Miguel Tavares. Anedótico. E tal como a Assembleia da República é agora lugar em que um bando de grunhos tem assento, também as televisões se enxameiam com gente desqualificada. Vejam-se os Big Brothers desta vida, os programas de comentário do 'social' e muitos outros. E veja-se a cambada que invade os youtubes. 

Quando os meus netos cá estão, quando se póem a ver televisão, o que eles gostam de ver são youtubers ordinários a comentarem jogos ou parvoíces, a dizerem toda a espécie de disparates. Por mais que se tente impedi-los é por isso que eles se sentem atraídos. E imagino que os tiktoks desta vida estejam também pejados de porcarias idênticas. A mim, no instagram, não me aparece disso porque o algoritmo percebe que gosto de outras coisas e não me mostra grunhices mas, fosse eu de me interessar por maledicência, populices, racismos ou outras desconformidades e, certamente, seria alimentada com milhões de coisas dessas.

Não sei como se poderá parar estas enxurradas de desinformação, de superficialidade, de ordinarice, de aberração. Faz-me lembrar aquelas praias ultra-poluídas, como algumas dos países mais pobres de África, uma desgraça sem limite, as águas carregadas de lixo, as praias inundadas de detritos de toda a espécie e feitio, as pessoas, como animais, a esgravatar no meio da porcaria. Assim a comunicação nos dias de hoje. Lixo, lixo, lixo. E meio mundo a foçar no meio dessa imundície.

As instituições democráticas acabam por soçobrar perante a força da avalancha. Veja-se o que acontece com estes grupos ultra-nacionalistas, gente com aspecto troglodita, gente que nem sabe de que fala, sem conhecimentos de história, certamente gente com alguma perturbação mental, talvez traumas de infância, talvez gente mal-amada, gente que odeia os outros, gente que parece que tem prazer em fazer mal a pessoas indefesas, gente que odeia a decência, a democracia, a cultura, a inclusão, gente incapaz de gestos de bondade, de generosidade. E, no entanto, por aí andam e, estranhamente, conseguem que haja outros tantos que os apoiem. E ouvi que os serviços secretos sabem da existência destes grupos de gente má, de gente que incita e pratica a violência, e, pelos vistos, nada faz. Ouvi que há países em que estes grupos são proibidos. E acho bem. Mas não deve ser possível controlar verdadeiramente a sua existência pois este nosso mundo dispõe de alçapões e labirintos para toda a gente que gosta de se mover no mundo das trevas. A dark web, os chats e outros corredores sombrios permitem a movimentação desta gente maldosa que, em vez de se tratar, anda a espalhar o mal.

Ouço dizer que o populismo, o racismo, a xenofobia, o ultra-nacionalismo e coisas que tais se combatem com uma informação correcta, com educação, com pedagogia. Ajudará mas é lirismo pensar que isso é suficiente. Meio mundo não frequenta a aprendizagem rigorosa, não frequenta o conhecimento, não frequenta a comunicação social séria, não frequenta o mundo dos livros, não frequenta os espaços em que as pessoas falam sobre assuntos sérios e falam com vagar. 

Por isso, por muito que se queira educar os ignorantes, a pedagogia não chega até eles: uns porque trabalham e chegam tarde e cansados a casa, outros porque se desabituaram de ponderar, outros, os mais jovens, porque a realidade das redes sociais, dos whatsapps e dos youtubes é a única que conhecem.

E, no entanto, eis que, no meio disto, surge uma mulher que, vestida de branco, com voz pausada e serena, diz palavras sábias, límpidas, radiosas, inteligentes.

No dia 10 não ouvi o discurso de Lídia Jorge mas mão amiga fez-mo chegar. E, embora esteja a ser amplamente divulgado, faço questão de tê-lo também aqui. Uma maravilha. As escolas deveriam divulgar amplamente estas palavras. As televisões deveriam passá-las de vez em quando. De alguns excertos deveriam ser feitos cartazes para espalhar por todas as terras. 

Os países escolhem datas de referência para celebrarem a sua história, contemplando memórias de batalhas, ações de independência, encontros civilizacionais, momentos importantes em torno dos quais concitam a unidade dos cidadãos e promovem o orgulho patriótico.

Mas, em Portugal, é a data da morte de um poeta que protagoniza o nosso momento cívico de unidade mais relevante.

Muito se tem discorrido sobre o significado desta nossa singularidade e, muitas vezes, é difícil explicar que não se trata de um sinal de melancolia, mas sim do seu oposto.

Há a assunção de que um poeta do século XVI nos legou uma obra tão vigorosa que acabou por ser adotada no seu conjunto como exemplo da vitalidade de um povo e que a própria biografia do seu autor se oferece como exemplo não só de um percurso português, mas se transformou em símbolo universal da nossa peregrinação prometeica sobre a terra.

A fidelidade que Camões manteve em relação à pátria, quando se encontrava em paragens remotas, alimenta a simbologia que lhe é atribuída como exemplo da proximidade que os portugueses que se encontram longe mantêm com a sua cultura de origem.

O país retribui-lhes, reconhecendo, desde há muito, que as comunidades portuguesas são o corpo essencial do nosso ser identitário.

Mas as celebrações deste ano de 2025 têm um cunho muito particular. Em primeiro lugar, porque voltam a ter lugar na cidade de Lagos. No século passado, foi cidade anfitriã em 1996.

Passados 29 anos, esta cidade do Algarve continua a ser democrática, livre, próspera.

O que mudou e o que justifica que, de novo, tenha sido escolhida para ser palco das celebrações foi a nova consciência de que Lagos passou a representar um lugar obrigatório quando se pretende avaliar as relações entre os povos ao longo dos séculos.

É sabido que Lagos, lugar de saída para a África e lugar do comércio prático, tem como símbolo complementar o Promontório de Sagres.

A escassos 40 quilómetros de distância, Sagres e Lagos representam historicamente uma dualidade contrastiva cujo papel se encontra em avaliação.

A comunicação digital que se afirmou a partir dos anos 90 permite agora uma divulgação ampla dos estudos que os arqueólogos, antropólogos e historiadores estão a realizar neste espaço geográfico designado por Terras do Infante.

Era a altura de atribuir a Lagos, de novo, o estatuto de cidade vencedora e de apoiar estas celebrações de importância ou de interesse cultural.

Mas há outro motivo para que, este ano, a celebração deste dia seja particular. Desde há dois anos que estamos a invocar o nascimento de Camões, ocorrido há 500 anos, presume-se que entre 1524 e 1525. Calcula-se que assim tenha sido, mas vale a pena refletir sobre o facto, pois, tal como não sabemos como decorreu a sua infância, nem a sua formação, também desconhecemos o local e o dia em que o poeta nasceu.

Para sermos justos sobre a sua vida inicial, apenas podemos dizer o que um certo maestro célebre disse de Beethoven: Um dia Camões nasceu e nunca mais morreu. Nunca mais morreu.

Provam-no a forma como, passados cinco séculos, tem sido revisitado ao longo destes dois últimos anos. As escolas, a academia, o mundo da edição, os vários campos das artes e das ciências humanísticas em Portugal têm dado rosto a toda uma espécie de comemoração espontânea e informal em torno do nosso poeta maior.

Novos autores têm surgido, atualizando a exegese sobre os seus poemas e o conhecimento acumulado em torno da vida de Camões.

O jovem ensaísta Carlos Maria Bobone pôs recentemente em relevo o papel decisivo que Camões desempenhou ao fixar uma língua nova à altura de um pensamento novo que resultaria definitivamente na Língua Portuguesa moderna que hoje usamos.

Demonstrou como a língua portuguesa, manobrada no seu esplendor, resultou como uma dádiva que devemos ao grande cantor do Oceano, como lhe chamou Baltasar Estaço.

Por sua vez, a biógrafa Isabel Rio Novo, numa visita recente, profusamente documentada que faz à vida de Camões, no final, não deixa de se comover com os testemunhos sobre os últimos dias do poeta, demonstrando que as histórias que correm sobre certos passos da sua vida, afinal, não são lendas, são verdades.

O receio de sermos românticos não nos deveria afastar da realidade testemunhada. E assim, a mim, não me pareceria errado que os adolescentes portugueses conhecessem o comentário que Frei José Índio redigiu na margem de um exemplar d’Os Lusíadas, presumivelmente oferecido pelo próprio autor na hora de partir. Escreveu o frade: Yo lo vi morir en un hospital en Lisboa sem tener uma sábana com que cobrisse, despues de haver navegado 5.500 léguas per mar.

Assim foi, sem um lençol. Terá sido um amigo quem lhe enviaria a sábana, já depois de morto.

Não me parece que daí se devam retirar conceitos patrióticos ou antipatrióticos. Conceitos sobre a vida humana e seu mistério, isso, talvez.

Entretanto, por contraste, sobre a obra que deixou, milhares de páginas de novo têm sido escritas, confirmando a dimensão invulgar do poeta que foi.

Hélder Macedo, um dos seus leitores mais subtis, disse recentemente numa entrevista que, se Camões tivesse continuado a viver, ninguém mais em Portugal teria sido capaz de escrever um verso. Essa hipérbole é linda.

Assim como é reconfortante saber que os professores deste país continuam a ler às crianças epigramas, redondilhas e vilancetes de Camões, como se fossem filos modernos, feitos de palavras, o que mostra que os portugueses continuam vivamente enamorados do seu poeta maior.

Mas se o patrono destas celebrações é o poeta do virtuosismo verbal e do amor conceptual, o amor maneirista, o poeta do questionamento filosófico e teológico, como é em “Sôbolos rios que vão”, e o poeta dos longos versos enfáticos sobre o heroísmo dos viajantes do mar, ao regressarmos a todos esses versos, escritos há quase 500 anos, encontramos coincidências que nos ajudam a compreender que os tempos duros que atravessamos têm conformidade com os tempos em que o próprio viveu.

Camões, tal como nós, conheceu uma época de transição, assistiu ao fim de um ciclo e, sobre a consciência dessa mudança, no conjunto das 1.102 oitavas que compõem Os Lusíadas, 22 delas contêm avisos explícitos sobre a crise que se vivia então.

Aliás, hoje é ponto assente que o poema épico encerra um paradoxo enquanto género, o paradoxo de constituir um elogio sem limites à coragem de um povo que havia resultado da criação do Império e, em sentido oposto, conter a condenação das práticas que, passados 50 anos, impediam a manutenção desse mesmo Império.

E nesse campo pode-se dizer que Os Lusíadas, poema que no fundo justifica que o dia de Portugal seja o dia de Camões, expressa corajosas verdades dirigidas ao rosto dos poderes que elogia.

É bom lembrar que, entre os séculos XVI e XVII, três dos maiores escritores europeus de sempre coincidiram no tempo apenas durante 16 anos e, no entanto, os três desenvolveram obras notáveis de resposta ao momento de viragem de que eram testemunhas.

Foram eles Shakespeare, Cervantes e Camões. De modo diferente, mas em convergência, procederam à anatomia dos dilemas humanos e, entre eles, os mecanismos universais do poder, corpus que continua válido e intacto até aos nossos dias: sobre o poder grandioso, o poder cruel, o poder tirânico, o poder temeroso e o poder laxista.

No caso de Camões, de que se queixa ele quando interrompe o poema das maravilhas da história para lembrar a mesquinha realidade que envenenava o presente de então? Queixava-se da degradação moral, mencionava “o vil interesse e sede imiga/Do dinheiro, que a tudo nos obriga”, e evocava, entre os vários aspetos da degradação, o facto de sucederem aos homens da coragem que tinham enfrentado um mar desconhecido, homens novos, venais, que só pensavam em fazer cultura. Mais do que isso, queixava-se da subversão do pensamento, queixava-se da falta de seriedade intelectual, que resultava depois, na prática, na degradação dos atos do dia a dia.

Escreve o poeta no final do canto oitavo: “Este deprava às vezes as ciências,/ Os juízos cegando e as consciências./ Este interpreta mais que sutilmente/ Os textos; este faz e desfaz leis;/ Este causa os perjúrios entre a gente/E mil vezes tiranos torna os Reis”.

Na verdade, Camões, Cervantes e Shakespeare, de modos diferentes, expuseram os meandros da dominação, envolvidos com o tempo histórico dos impérios que viveram.

Por essa altura, sobre os reis de Portugal, Espanha e Inglaterra, dizia-se que lutavam entre si pelo domínio do globo terrestre. Ou mais concretamente, dizia-se então que os três competiam para ver quem acabaria por pendurar a terra ao pescoço como se fosse um berloque.

Os três autores perceberam bem que, em dado momento, é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência.

Escreveu Shakespeare no ato IV do Rei Lear: “É uma infelicidade da época que os loucos guiem os cegos”.

Enquanto isso, Cervantes criava a figura genial do alucinado Dom Quixote de La Mancha, que até hoje perdura entre nós como o nosso irmão ensandecido.

Por seu lado, Camões, no corpo d’Os Lusíadas, não falou da loucura, mas a vida haveria de lhe demonstrar que as páginas escritas por si mesmo haviam sido proféticas, em resultado dela, da loucura. O desastre de Alcácer-Quibir, ocorrido em 1578, estava assinalado numa das últimas estrofes do Canto X. Era a história, como sempre, a confirmar o pressentimento experimentado pela literatura.

No entanto, o fim do ciclo, que neste caso aqui interessa, não é mais uma transição localizada que diga apenas respeito a três reinos da Europa.

Nos dias que correm, trata-se do surgimento de um novo tempo que está a acontecer à escala global. Porque nós, agora, somos outros.

Deslocamo-nos à velocidade dos meteoros e estamos cercados de fios invisíveis que nos ligam para o espaço.

Mas alguma coisa desse outro fim de século, que se seguiu ao tempo da Renascença malograda, relaciona-se com os dias que estamos a viver. O poder demente, aliado ao triunfalismo tecnológico, faz que a cada dia, a cada manhã, ao irmos ao encontro das notícias da noite, sintamos como a terra redonda é disputada por vários pescoços em competição, como se mais uma vez se tratasse de um berloque.

E os cidadãos são apenas público, que assiste a espetáculos em ecrãs de bolso. Por alguma razão, os cidadãos hoje regrediram à subtil designação de seguidores. E os seus ídolos são fantasmas.

É contra isso e por isso que vale a pena que Portugal e as Comunidades Portuguesas usem o nome de um poeta por patrono. Por isso mesmo, também vale a pena regressar a Lagos.

Sobre estes areais, aconteceram momentos decisivos para o mundo.

No início da Idade Moderna, Lagos e Sagres representaram tanto para Portugal e para a Europa que à sua volta se constituíram mitos que perduram. O Promontório e a silhueta do Infante austero que sonhou com o achamento de ilhas e outros descobrimentos, como parte de uma guerra santa antiga, e tudo realizou a poder de persistência férrea e sagacidade empresarial, transformou-se numa figura de referência como criador de futuros. À sua figura anda associado um sonho que se realizou e depois se entornou pela terra inteira e a lenda coloca-o a meditar em Sagres.

Numa referência um tanto imprecisa, mas que permite a sua evocação, Sophia escreveu: “Ali vimos a veemência do visível/ o aparecer total exposto inteiro/ e aquilo que nem sequer ousáramos sonhar/ era o verdadeiro”.

Esta ideia de que, na mente do Infante, se processou uma epifania, anda-lhe associada enquanto mentor de uma equipa mais ou menos informal que teve a capacidade de motivar e dirigir. Sagres passou, assim, para a história e para a mitologia como lugar simbólico de uma estratégia que mudaria o mundo.

Mas existe uma outra perspetiva, como é sabido, e hoje em dia o discurso público que prevalece é, sem dúvida, sobre o pecado dos Descobrimentos e não sobre a dimensão da sua grandeza transformadora.

É verdade que a deslocação coletiva que permitiu estabelecer a ligação por mar entre os vários continentes e o encontro entre povos obedeceu a uma estratégia de submissão e rapto, cujo inventário é um dos temas dolorosos de discussão na atualidade.

É preciso sempre sublinhar, para não se deturpar a realidade, que a escravatura é um processo de dominação cruel, tão antigo quanto a humanidade.

O que sempre se verificou foi diversidade de procedimentos e diferentes graus de intensidade.

E é indesmentível que os portugueses estiveram envolvidos num novo processo de escravização longo e doloroso.

Lagos, precisamente, oferece às populações atuais, a par do lado mágico dos Descobrimentos, também a imagem do seu lado trágico.

Falo com o sentido justo da reposição da verdade e do remorso pelo facto de que se ter inaugurado o tráfico negreiro intercontinental em larga escala, como polos de abastecimento nas costas de África, e assim se ter oferecido um novo modelo de exploração de seres humanos que iria ser replicado e generalizado por outros países europeus até ao final do século XIX.

Lagos expõe a memória desse remorso. Mostra como, num dia de agosto de calor tórrido de 1444, desembarcaram aqui 235 indivíduos raptados nas costas da Mauritânia e como foram repartidos e por quem.

Alguém que, muito prezamos, encontrava-se em cima de um cavalo e aceitou o seu quinhão de 46 cabeças. Esse cavaleiro era nem mais nem menos do que o próprio Infante D. Henrique.

Lagos não se furta a expor essa verdade histórica.

Lagos também mostra o local onde depois levas sucessivas iriam ser mercadejados os escravos. E mais recentemente relata-se como eram atirados ao lixo quando morriam sem um pano a envolver os corpos. Até agora foram retirados desse monturo de Lagos os restos mortais de 158 indivíduos de etnia Banta.

Lagos mostra esse passado ao mundo para que nunca mais se repita. Talvez por isso estejamos aqui, no dia de hoje.

Aliás, a UNESCO criou a Rota do Escravo e inscreveu Lagos na Rota da Escravatura, para que saibamos como os seres humanos procedem uns com os outros, mesmo quando se fundamentam em religiões fundadas sob os princípios do amor e sob a lei dos direitos humanos.

Lagos mostra esse filme e faz-se parente de quem escreveu na porta de um lugar de extermínio moderno o pedido solene: Homens não se matem uns aos outros.

É verdade que só conhecemos o que sucedeu naquele dia 8 de agosto de 1444 porque o cronista do infante Dom Henrique o narrou. Eanes Gomes de Zurara não conseguiu evitar um sentimento de compaixão e comentou, de forma comovida, como a chegada e a partilha dos escravos era cruel. Felizmente que dispomos dessa página da “Crónica dos Feitos de Guiné” para termos a certeza de que havia quem não achasse justo semelhante degradação e o dissesse.

Aliás, sabemos que sempre houve quem repudiasse por completo a prática e o teorizasse.

O que significa que Lagos, a cidade dos sonhos do Infante de que Sagres é a metáfora, passados todos estes séculos, promove a consciência sobre o que somos capazes de fazer uns aos outros. Esta tornou-se, pois, uma cidade contra a indiferença.

É uma luta nossa, contemporânea.

Em Lagos, hoje em dia, está presente de outro modo a mensagem do cartoon de Simon Kneebone, datado de 2014, que tem corrido mundo.

A cena é nossa contemporânea. Passa-se no mar. Num navio enorme, aparelhado com armas defensivas, no alto da torre, está um tripulante que avista ao longe uma barca frágil, rasa, carregada de migrantes.

O tripulante da grande embarcação pergunta: de onde vêm vocês? Da lancha, apinhada, alguém responde: vimos da terra.

Sugiro que os jovens portugueses, descendentes de cavadores braçais, marujos, marinheiros, netos de emigrantes que partiram descalços à procura de trabalho, imprimam este cartoon nas camisas quando vão ao mar.

Consta que em pleno século XVII, 10% da população portuguesa teria origem africana.

Essa população não nos tinha invadido. Os portugueses os tinham trazido arrastados até aqui. E nos miscigenámos.

O que significa que por aqui ninguém tem sangue puro. A falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma.

Tem sangue do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou. Filhos do pirata e do que foi roubado. Mistura daquele que punia até à morte e do misericordioso que lhe limpava as feridas.

A consciência dessa aventura antropológica talvez mitigue a fúria revisionista que nos assalta pelos extremos nos dias de hoje, um pouco por toda a parte.

Agora que percebemos que estamos no fim de um ciclo e que um outro se está a desenhar, e a incógnita existencial sobre o futuro próximo, ainda desconhecido, nos interpela a cada manhã que acordamos sem sabermos como irá ser o dia seguinte.

A pergunta é esta: quando ficarem em causa os fundamentos institucionais, científicos, éticos, políticos e os pilares de relação de inteligência homem-máquina, entrarem num novo paradigma, que lugar ocuparemos nós como seres humanos? O que passará a ser um humano?

Comecei por dizer que Camões nasceu e nunca mais morreu.

Regresso à sua obra para procurar entender que conceito tinha a poeta sobre o que era um ser humano. Sobre si mesmo, toda a sua obra o revela como vítima da perseguição de todas as potestades conjugadas. A sua obra lírica é uma resposta a esse abandono essencial.

Em conformidade com essa mesma ideia, ao terminar o canto I d’Os Lusíadas, Camões define o ser humano como um ente perseguido pelos elementos: “Onde pode acolher-se um fraco humano,/ Onde terá segura a curta vida/ Que não se arme, e se indigne o Céu sereno/ Contra um bicho da terra tão pequeno”.

Nestes versos, se reconhece o conceito renascentista, o da grande solidão do ser humano e a sua luta estóica contra, centrada na confiança em si mesmo.

Mas, na prática, essa atitude representava uma orfandade orgulhosa que facilmente a fortuna não reconhecia. Curiosamente, no final da vida, o corpo nu de Camões só teve um lençol, o oferecido, a separá-lo da terra. Igual à sorte do seu corpo, essa sorte não difere daquela que mereceram os corpos dos escravos aqui em Lagos.

Mas entretanto, no século XIX, o direito à proteção beneficiada pelo Estado começou a emergir. Criaram-se documentos essenciais tendo em vista o respeito pelos cidadãos. Depois das duas guerras mundiais do século XX, foi redigida e aprovada a Carta dos Direitos Humanos e, durante algumas décadas, foi tentado implantá-los como código de referência um pouco por todo o mundo. Só que ultimamente regride-se a cada dia que passa.

O conceito de representatividade respeitável da figura do Chefe de Estado, oriundo do povo grego, princípio que sustentou a trama purificadora das tragédias clássicas, a que se juntou depois o princípio da exemplaridade colhida dos Evangelhos, essa conduta que fazia com que o rei devesse ser o mais digno entre os dignos, está a ser subvertida.

A cultura digital subverteu a regra da exemplaridade. O escolhido passou a ser o menos exemplar, o menos preparado, o menos moderado, o que mais ofende.

Um Chefe de Estado de uma grande potência, durante um comício, pôde dizer: adoro-vos, adoro os pouco instruídos. E os pouco instruídos aplaudiram.

Pergunto, pois, qual é o conceito hoje em dia de ser humano? Como proteger esse valor que até há pouco funcionava e não funciona mais?

Hoje, dia de Portugal, de Camões e das comunidades, não será legítimo perguntar, sem querer ofender quem quer que seja, perguntar como manteremos a noção de ser humano respeitável, livre, digno, merecedor de ter acesso à verdade dos factos e à expressão da sua liberdade de consciência?

Nós, portugueses, não somos ricos. Somos pobres e injustos. Mas, ainda assim, derrubámos uma longuíssima ditadura e terminámos com a opressão que mantínhamos sobre diversos povos e com eles estabelecemos novas alianças e criámos uma comunidade de países de língua portuguesa. E fomos capazes de instaurar uma democracia e aderir a uma união de países livres e prósperos que desejam a paz.

Assim sendo, por certo que ainda não temos as respostas, mas, perante as incógnitas que nos assaltam, sabemos que temos a força.

Leio Camões, aquele que nunca mais morreu, e comovo-me com o seu destino, porque se alguma coisa tenho em comum com ele, que foi génio, e eu não sou, é a certeza de que partilho da sua ideia, de que um ser humano é um ser de resistência e de combate. É só preciso determinar a causa certa.

Muito obrigada.

 

[Discurso de Lídia Jorge. Lagos, 10.Junho.2025] 

quarta-feira, fevereiro 21, 2024

Coragem
- Dasha Navalnaya, a filha de seu pai, olha de frente os assassinos e os cobardes que, disfarçados de pombinhas da paz e enchendo a boca de adversativas, os desculpam

 

O vídeo que aqui partilho tem quatro meses mas mantém-se tristemente actual. Sem meias palavras, com a coragem intelectual física que o pai demonstrou até ao fim, a mesma que a mãe tem também demonstrado, a jovem Dasha, bela como os progenitores, é bem a menina de seus pais. O seu pai foi assassinado, depois de perseguido, envenenado, torturado, privado da liberdade. Mas Dasha não se calará.



Uma família corajosa, aqui em dias felizes

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Podem ser activadas as legendas em português

Lessons from My Father, Alexey Navalny | Dasha Navalnaya | TED

Dasha Navalnaya is the daughter of Alexey Navalny, the politician and leader of the Russian opposition to Vladimir Putin. Sharing the story of her father's poisoning, persecution and current imprisonment, she details what it was like growing up under the watchful eye of government surveillance as her father led a decade-long investigation into the corruption of Putin's regime — and shows why paying attention to what happens in Russia matters to everyone, everywhere.


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Um dia feliz

Saúde. Coragem. Paz.

terça-feira, fevereiro 20, 2024

Coragem

 

É preciso coragem para ser capaz de continuar a dar o peito às balas mesmo depois do seu amado ter sido assassinado. É preciso muito amor a um país para continuar a enfrentar os seus algozes.

Yulia Navalnaya: 'I will continue the work of Alexei Navalny'

Yulia Navalnaya has said in a video address that she will continue her husband's fight for a free Russia, and called on supporters to stand with her against Vladimir Putin. 

In the video posted on Navalny's YouTube channel, she said: 'We know exactly why Putin killed Alexei three days ago. We will tell you about it soon. We will definitely find out who exactly carried out this crime. We will name the names and show the faces.' 

segunda-feira, setembro 26, 2022

Quando a maior e mais nuclearizada nação do mundo está nas mãos de um único homem o que podemos dizer é que estamos a atravessar um dos períodos mais sombrios da nossa existência

 

Mesmo que se tratasse de um homem equilibrado, um democrata, um humanista, um tipo decente, um fulano culto e com uma visão holística do mundo, ainda assim seria perigoso. Toda a gente funciona bem até deixar de funcionar. E um país tem que ter camadas de poder, camadas não apenas horizontais (diferentes níveis de decisão) como camadas de poder distintas e independentes. E umas camadas devem vigiar as outras. E os termos em que a vigilância entre camadas independentes se exerce devem estar bem definidos.

Mesmo assim há perigos como vimos com Trump que, apesar de todos os checks and balances, conseguiu manter-se durante uns anos à frente dos Estados Unidos. E isto apesar de todas as suas mentiras, de toda a incompetência, dos reais riscos de deslealdade que a proximidade a Putin prenunciavam, do narcisismo doentio que o levava a toda a espécie de dislates e alarvidades, apesar da erosão política e social que cavou na sociedade americana. 

Agora imagine-se um regime obsoleto, baseado na distribuição de prebendas entre oligarcas (muitos dos quais, estranhamente, a aparecer mortos), em que as supostas primeiras figuras são humilhadas publicamente ou sumariamente descartadas, em que a lógica é a da concentração de um poder absoluto em Putin, um ex-agente do KGB, um saudosista de impérios de má memória, um psicopata assassino que governa ditatorialmente e que não se importa de sacrificar milhares de vidas para salvar a sua.

O que Fareed Zakaria diz no vídeo abaixo é muito interessante e muito claro. 

O que está a acontecer na Rússia e na Ucrânia é grave demais. Diz ele -- e eu acredito -- que a implosão do regime putinista não deve estar longe. O pior é o que vai acontecer até lá. O mundo está um lugar cada vez mais perigoso.

Zakaria explains what Putin's nuclear threat tells us about him

CNN's Fareed Zakaria discusses Putin's nuclear threats toward the West and what they tell us about  his war in Ukraine


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PS: Claro que os resultados em Itália também não podem deixar ninguém muito tranquilo

O nazismo e o fascismo cercam as democracias como feras sedentas de sangue.

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