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quinta-feira, fevereiro 06, 2020

O amor entre mulheres





No outro dia achei um piadão a uma coisa que li. Dizia-se que com isto da inclusão e das minorias e das gordas e das peludas e dos gagos e dos vesgos e dos carecas e dos esqueléticos e dos obesos e dos narigudos e das bichonas e dos tatuados de alto abaixo (e sei que estou a fazer uma misturada mas façam o favor de perceber a ironia) e de só contratarem gente feia e estranha para os anúncios, qualquer dia os bem parecidos não têm lugar em lado nenhum. 

Hoje ao estar perto de um grupo de jovens mulheres fiquei a olhar para elas com algum espanto.


Quando eu tinha a idade delas gostava de me arranjar bem, de me sentir bonita. E, agora que tenho idade para ser mãe delas, ainda gosto. Nem em casa eu ando como elas andam. Estas, todas mal enjorcadas, sem pitada de graça, todas muito eco, todas muito sustentáveis, ensimesmadas, sempre com conversas muito engajadas, parecem-me uma seca. Mas é capaz de ser a nova tendência. Apeteceu-me dizer-lhes: 'Ó meninas, mas que atraso de vida é este? Qualquer dia estão velhas sem nunca terem sido novas...'


Bem, mas o que eu queria dizer não era bem isto, o que queria dizer é que ainda bem que o mundo começa a ser inclusivo para toda a gente. Pelo menos nos lugares mais cosmopolitas.

Hoje vi duas mulheres, por sinal muito elegantes e femininas, nada do género alternativo, sustentável ou intelectual de esquerda, por sinal nada como as do grupo que antes me tinha chocado pela forma indiferente e mal amanhada como andam. Estava a vê-las e a pensar: são advogadas. Muito bem vestidas, bem penteadas, boas carteiras, todas fashion, seguras de si. E, no entanto, estava eu parada no semáforo, vi-as darem a mão, depois encostarem-se e depois beijarem-se na boca. E lá atravessaram a rua, apaixonadas como um casal que descobre o amor. Achei bonito. Havia nelas qualquer coisa de selvagem.


Eu que tenhos os meus genes todos hetero e que só de pensar na perspectiva de um contacto sexual com uma mulher já me encolho sentindo como que repulsa, não me sinto nem um bocado chocada com as manifestações de amor homossexual. Cada um é como é e deve poder ser como é, como lhe apetece. Parece-me uma violência insuportável alguém ter que forçar o que não é ou esconder o que é.

Há algum tempo, a demonstração pública de afecto entre duas mulheres  seria impensável. Agora, ali iam as duas a rir, apaixonadas. E as outras pessoas nem aí. Tudo natural.


Somos feitos de preconceitos, crescemos sendo amestrados para ter medo, para evitarmos o pecado, pensando que tudo é pecado, somos domesticados para nos refrearmos, para acusarmos os outros, para censurarmos, para repudiarmos os que ousam ou que, simplesmente, são diferentes. Em cima disso, os homens são treinados para serem fortes, invulneráveis, para esconderem as emoções, para não aceitarem derrotas. Os homens são capazes de sacrificar uma vida inteira para evitarem uma situação em que podem ouvir um não. Os homens temem o não como quem tome ser envenenado por uma cascavel. As mulheres, por outro lado, temem a censura, temem que as associem ao desfrute, e, por isso, inventam mil pretextos para se furtarem ao convívio ou, sobretudo, à entrega sem reservas. Outras temem que as achem timoratas e entregam-se à maluca, sem cabeça, sem tino, sem recuo, estatelando-se a torto e a direito e achando que a culpa das sucessivas derrotas é sempre toda dos outros. 

Sei que só quem sofre e quem é rejeitado é que tem credibilidade para falar de coisas assim. Portanto, não tendo eu experiência de sofrimentos de amor e nunca tendo sido rejeitada, ninguém me leva a sério neste tipo de conversas. Começam por não acreditar. Acham que toda a gente tem que padecer e que quem diz o contrário é mentiroso ou mentecapto. 

Não quero saber: digo o que é.

Já fiz sofrer e já rejeitei (coisa de que não me orgulho e que não me trouxe felicidade -- mas que teve que ser) mas nunca tive desgostos de amor. E, no entanto, não me sinto menos habilitada a interpretar a vida do que os que sofrem agruras. Por outro lado, também não me sinto habilitada a dar conselhos. De resto, o que posso dizer é que não me vejo cercada de pecados, não tenho medo, ouso e não complico. E, no que me é importante, não cedo, mas, no que é irrelevante, estou-me nas tintas. Quase que esse poderia ser o meu lema de vida. É fraco lema, eu sei, mas eu acho que lema que é lema tem que poder ser dito em meia dúzia de palavras e ser simples, à prova de burro.


Mas já estou outra vez a tergiversar. Ou melhor, a derivar. Não era nada disto. Parece que ando aos ziguezagues, sem bússula.
Agora até me está a fazer lembrar aquela prova de orientação nocturna numa terra qualquer no meio do nada. Eu e mais uns quatro simpáticos, à nora, perdidos, desorientados, sem vermos nada, sem conseguirmos interpretar o mapa que nos tinham dado, sem atinarmos com a bússula, tropeçando. E eu rindo, rindo, rindo. Às tantas, ouvimos mais abaixo, sem percebermos de onde vinha o som, barulho de gente que caía, que se zangava, zaragateando uns com os outros. Era outro grupo. Pelos vistos estavam a levar aquilo muito a sério. E os do nosso grupo unidos na desorientação e eu, a cada vez que percebíamos que tínhamos ido no sentido errado ou que um caía ou que soltava um palavrão, a rir até mais não poder. E eles cheios de paciência comigo e com a situação. Lá para as tantas conseguimos dar com o nosso destino e o destino era uma casa com um alpendre e, debaixo do alpendre, umas mesas de madeira. E uma senhora a servir-nos canja quente numa tigelinha de barro. Fomos para o hotel de madrugada, bem dispostos, com a sensação de prova superada.
Assim estou hoje, sem saber para onde vou nem como orientar-me. Deve ser da espécie de cansaço que tenho hoje em cima de mim.

Explico. No espaço de cinco dias já é o segundo aquário que festeja a sua existência. Cheguei a casa tarde e, porque a semana não tem dado tréguas, estou a modos que um bocado cansada. Por isso, estou em piloto automático. Os dedos estão para aqui a conversar e eu nem sei bem sobre o que é a conversa nem com quem é.

Só sei que, depois da cena no semáforo, este vídeo vem mesmo a calhar. É bonito. 

It's wonderful


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As fotografias são de Bettina Rheims e não têm a ver com o texto mas com o facto de eu gostar de mulheres -- ou não fosse eu uma. Neste caso, gosto de ver como Bettina Rheims fotografa as mulheres. No vídeo, Salma Hayek faz de Frida, mulher livre.

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E uma bela quinta-feira a si que está aí a aturar-me.

domingo, janeiro 31, 2016

Uma mulher que ama mulheres, uma faiseuse d’images


No post abaixo falei de uma rapariga diferente. Claro que, quando se diz que alguém é diferente, se deve dizer em relação a que é que ela é diferente. Pois bem, direi que a sua vida é diferente da da maioria das raparigas que conhecemos, que o seu mundo é diferente do mundo que conhecemos. E, no entanto, tão intrinsecamente igual a todos nós, ela. E o mundo em que vive tão perto de nós. 
Que me tenham ocorrido as palavras de um físico que fala como um poeta talvez não seja mera coincidência.
Há coisas que me comovem mesmo. Mais do que um murro no estômago é como se uma mão puxasse por mim. Mas isso é a seguir. 

Aqui, agora, vou falar da fotógrafa de que ontem queria falar. Já outras vezes aqui a tive, de visita a Um Jeito Manso mas é sempre muito bem vinda. Bettina Caroline Germaine Rheims é francesa, nascida de uma família ligada à arte, é casada e fez há cerca de um mês 63 anos.

A sua vida tem sido dedicada à fotografia mas, maioritariamente, à fotografia de mulheres. E, quando não fotografa mulheres, fotografa a ambição de o ser ou o paradoxo dos géneros que se confundem.

Charlotte Rampling, por Bettina Rheims

Mas, para nos acompanhar vamos ao som de uma inesperada aventura: 
a fusão entre a Lacrimosa de Mozart e o Hello de Adele. 


Há gostos que são paixões e paixões que se tornam vícios. A escrita é um deles. A fotografia é outro. Não sendo eu senão uma amadora acidental de qualquer destas artes, não poderei sequer trazer-me para dentro de um texto em que se fala de uma mulher que vive de e para a fotografia, que conhece os meandros do mundo da fotografia, que reinventa a condição feminina a cada fotografia que faz. Mas não estou a trazer-me para me comparar: apenas quero dizer que reconheço nas suas obras o prazer enorme de fotografar. Mais: o prazer da procura do momento perfeito em que tudo parece convergir.

Kristin Scott Thomas playing with a blond wig,
Bettina Rheims

Fotografar alguém não é fácil. O resultado é da responsabilidade de quem fotografa e de quem se deixa fotografar. 

Eu que faço fotografias em quantidades escandalosas e que me deixo encantar por tudo e por nada e que adoro fotografar pessoas, apenas me sinto motivada a fotografá-las quando não sabem que as estou a fotografar ou, então, em ambiente normal, sem poses, sem preparação. Não me dá para pedir às pessoas para rirem, para dizerem cheeeeese, para se virarem para aqui ou para ali. Se alguém está com sol na cara e eu gosto, então é assim mesmo, com o rosto banhado pela luz, que farei a fotografia. Se alguém está com sombras no corpo e eu penso que a sombra parece tatuar-se na sua pele, então é isso que eu a quero captar pelo que jamais me ocorreria dizer, saia daí porque está com sombras. 

É a naturalidade que me atrai nos objectos fotografáveis. Por isso, anulo-me, coso-me contra as paredes, espio de longe -- de modo a que a minha presença em nada perturbe a espontaneidade do que fotografo, sejam pessoas, gatos ou paisagens.

Breakfast with Monica Bellucci, Bettina Rheims

Por isso, admiro as pessoas que conseguem fazer fotografias encenadas e em que a fotografia capta a beleza do momento sem que se sinta que há algo forçado ou artificial. Mais: admiro quem consiga imaginar uma pose ou uma situação em que o que resulta é uma história ou a imagem de uma persona que representa uma cena.

Monica Bellucci, uma mulher sensual, cujo rosto e corpo remetem para o prazer dos sentidos aparece, na fotografia de Bettina, como a pecadora apanhada em falta, toda ela gula, sensorialidade, vontade de mais. 

Kristin Scott Thomas, a versátil artista, que tanto nos aparece frágil ou corajosa, santa ou pecadora, aparece, sob a lente de Bettina, desfazendo-se de uma cabeleira loura, mostrando que, de disfarces, se faz a sua carreira e a sua imagem.

Madonna por Bettina Rheims

Madonna, a provocadora, a que não teme rótulos, anátemas, censuras, aparece na fotografia de Bettina como a irreverente, a pronta a tudo, aquela para quem não há limites nem no vestuário, nem nos comportamentos, nem em nada. Cansada depois de uma noite de excessos, descansando depois de um concerto, não o sabemos, mas até da incompreensão das suas quase excessivas encenações se tem feito a vida de Madonna.

Charlotte Rampling, quando era mais nova, era bem a imagem da sedução sofisticada, do convite à partilha de momentos vividos numa intimidade cheia de mistérios, com algum toque de rebeldia, de elegante desafio. Assim a soube captar Bettina Rheims. 

Catherine Deneuve por Bettina Rheims
Catherine Deneuve, bela, discreta, dela se dizia que era fria, apática. Ou que facilmente se poderia tornar uma mulher submissa. E, no entanto, como Belle de Jour apareceu-nos como uma mulher capaz de procurar os prazeres proibidos durante as tardes de tédio. Bettina trouxe-a misteriosa, bela, sofisticada -- mas sobre uma cama, seios acessíveis.

Todas elas sabiam que Bettina as olhava através da câmara e, apesar disso, não se inibiram. Mostraram-se tal como ela as imaginou e, no entanto, aparecem inteiras, entregando o seu rosto ou o seu corpo à imaginação da fotógrafa e de quem viesse a contemplar a fotografia. Há coragem em quem se deixa assim fotografar tal como há em quem pede a alguém que se vista de uma determinada maneira, que se coloque numa determinada posição ou que olhe para a câmara de uma determinada maneira. Os retratos de Bettina têm isso: a cumplicidade entre a fotógrafa e quem se deixa fotografar é evidente.

Mas Bettina Rheims não fotografa apenas mulheres célebres nem faz apenas fotografias para grandes marcas como a Chanel ou a Lancôme. 



Não. Ela tem feito outras séries. Começou por fotografar mulheres que faziam striptease. ou acrobacia. 


Noutra altura fotografou mulheres que, de alguma forma, aludiam a motivos religiosos, I.N.R.I. e, como seria de esperar, a polémica foi grande.


Outra série dedicou-se à androginia ou à transsexualidade, Modern Lovers e Gender Studies


Em Heroínes, quis trazer a escultura para o terreno feminino. Mas quis vestir as mulheres com modelos originais. usou modelos famosos. E o resultado foi surpreendente.


Noutra, Chambre Close, um livro feito em parceria com um novelista, Bettina dedicou-se a mulheres que se aborrecem em casa e, que, sem saber o que fazer com o tempo vazio, se entretêm com o seu próprio corpo. Pretendia parodiar a pornografia mas o resultado foi uma interessante mostra do erotismo a solo.



E outras. Ou mulheres anónimas. Muitas. Em qualquer das séries, o interesse que o género feminino é evidente: Bettina Rheims não se cansa de olhar as mulheres e de mostrar a sua diversidade, de mostrar as muitas naturezas que podem encarnar ou encenar, de espreitar os mecanismos da sedução ou da solidão. E as mulheres que ela fotografa deixam-se mostrar, deixam que ela as tente desvendar. Bettina é uma mulher que gosta de mulheres - e é uma excelente retratista, uma talentosa fazedora de imagens.

Maison Européenne de la Photographie, um local de culto da fotografia, em Paris, tem desde dia 28 de Janeiro e até 27 de Março uma exposição de Bettina Rheims.

É do texto do site que o anuncia que retiro estas belas e justas palavras

L’œil de Bettina Rheims embrasse les transgressions et abolit les conventions pour révéler l’intimité la plus profonde et la plus universelle. Dès lors, c’est un jeu de miroirs qui s’enclenche…
Bettina Rheims s’est approprié les codes de la photographie de nu pour les détourner et placer la question de la féminité au cœur de sa pratique. Elle met en danger autant qu’elle sublime la beauté de ces modèles. Mises à nu, vacillantes ou triomphantes, elles bousculent et intimident le spectateur.
Portraitiste brillante, Bettina Rheims a su imposer dans l’imaginaire collectif les visages qui peuplent son monde. Bettina Rheims est avant tout une faiseuse d’images, qui défend dans sa pratique une tradition picturale séculaire. La plupart des photographies de Bettina Rheims témoignent de cet héritage, par un travail sur la composition et la narration notamment.
.......

Por falar em mulheres, permitam que relembre que, já a seguir, tenho uma outra mulher, uma mulher muito jovem, que também gosta de ver o mundo através da lente mas, por todos os motivos,  rapariga diferente. Não deixem de a ver, por favor.

...

sexta-feira, novembro 01, 2013

Álvaro Santos Pereira (o ex-Álvaro, o vira-casacas, o tira pastéis-da-cartola, o faz o que eu digo, não faças o que eu faço), agora defende que a dívida deve ser reescalonada para 40 ou 50 anos, que a prioridade deve ser baixar a carga fiscal, que a austeridade cega, ano após ano, pode levar a ditaduras na Europa e sei lá que mais. Ou seja, passou-se outra vez para a oposição. [E eu, para que a vossa visita valha a pena, tenho aqui para vos oferecer a Kate Winslet pela Bettina Rheims, o 'depois da música' pelo Luís Quintais e o 'Hey Laura' do Gregory Porter. E pudesse eu oferecer-vos um bocadinho da marmelada que a minha mãe fez, acompanhada por um bocadinho do queijo que o meu filho me trouxe de Milão, fá-lo-ia de bom gosto. A sério.]


Que nem de propósito. Se descerem um pouco mais, a seguir às palavras de António Lobo Antunes e André Macedo, palavras imperdíveis, tenho um post com dois filmes muito esclarecedores sobre as razões da dívida pública: como lá se chegou, os mitos e os truques. Aconselho-os. São claros e sugestivos. 

Mas isso é mais lá para baixo.

Pois bem, a propósito da dívida, o nosso pequeno Álvaro por aí anda, franga à solta, a causar baderna e a pregar contra a dívida: que a dívida asfixia a economia e que é preciso baixar impostos às empresas e às famílias e etc e tal, e tal e coisa - e que agora é que bom, que agora pode dizer o que pensa. Na conferência 'Portugal em Exame' foi o que se quis. Nem o Louçã nos seus belos tempos na Assembleia da República, nem a Heloísa Apolónia, essa intrépida subversiva, foram alguma vez tão longe no ataque cerrado à governação do Coelho Passado. Pelos vistos, enquanto esteve no Governo, o ex-nosso Alvarito andou a ser mentiroso todos os dias, sempre a dizer o contrário do que pensava. 


Ai estes pequenos patetas que nos andam a governar, medrosos, cobardolas, pequenos mentirosos...

E eu, que se apanho destes pela frente, lhes perco o respeito, pergunto-me se é agora que está a ser sincero ou se já lhe cheira a fim de ciclo e quer já perfilar-se para o day after.

É como o Pires de Lima, esse outro artista. Enquanto estava cá fora, que o que era preciso era fazer isto, aquilo e o outro e pintava a manta por tudo o que era televisão. Pois bem, agora que já está em posição de fazer alguma coisa, eis que não faz coisa alguma e, em contrapartida, inventa que vê milagres, macaquinhos no sótão, passarinhos na outra banda, etc - só coisas bizarras; coisas concretas e úteis: zero. Em suma, aproximou-se do Coelho e desvirtuou-se instantaneamente. Uma coisa estranha, isto. Se calhar também foi isso que aconteceu ao Alvarito. Tudo culpa das más influências do Coelho.


Ou será que é o Coelho ou o Poiares Maduro ou o Colares Rosé que se enfrascam e enfrascam os outros todos, tudo o que é ministro, como António Lobo Antunes antecipa? Andarão todos sempre com os copos? Bolas, isso também não acredito, isso já seria demais. Mas parece. Lá isso parece. Mas acho que devem padecer de alguma enfermidade cujos sintomas são os mesmos que na embriaguez. Cá para mim é capaz de ser isso. Não sei.

= = = = = =

O que sei é que tudo isto me dá uma fadiga que não vos digo nada.  Por isso, fico-me por aqui e vou-me deitar. Mas, antes, um momento fotográfico, poético e musical que eu, bem vistas as coisas, não quero que vos falte nada. 



Os poetas vão ficar no desemprego, em breve, muito em breve.

Os algoritmos sem erro, perfeitos de pesadelo, escreverão melhor. 

*



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  • A Kate Winslet, completamente fadigada como eu estou agora,  foi fotografada por Bettina Rheims
  • O pequeno poema é de Luís Quintais e pertence a 'depois da música', o novo livro da bela colecção da Tinta da China coordenada por Pedro Mexia.
  • O 'Hey Laura' é interpretado por Gregory Porter.


*

E eu fico-me por aqui não sem antes vos recordar que há mais posts por aí abaixo, material de qualidade (e estou à vontade para o dizer porque não é meu).

Com tanto assunto que este malfadado desgoverno suscita, nem tenho tido disponibilidade mental para vos mostrar mais o Porto e Guimarães. Parecia eu que estava a adivinhar. Mas guardado está o bocado para quem o há-de comer. Por isso, um dia destes será.

*

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta feira!

quarta-feira, dezembro 12, 2012

Silêncio e tanta gente. Troco a minha vida por um dia de ilusão. (Catherine Deneuve por Bettina Rheims ao som de Maria Guinot)






Aqui sozinha em casa. Todos os dias sozinha. Em tempos fui bonita. Se calhar ainda sou mas já não o vejo nos olhos de quem me olha. Já ninguém me olha. Sempre aqui sozinha, perdida de mim.

Vestir-me para quem? Pintar os lábios para quem? Ver-me ao espelho para quê? Para ver o que mais ninguém vê? Uma mulher sozinha, que ninguém ama, que ninguém beija?

Mas hoje estou tão vazia que preciso da minha própria companhia, talvez assome alguma ilusão, talvez essa ilusão me sirva de companhia. 

Vou vestir-me hoje, vou pentear-me, vou ver-me ao espelho. 




Aqui estou. Roupas de há anos atrás. Já não se usa nada disto. Também eu já estou fora de moda, gasta. Era tão bonita, eu, quando me sentia desejada. 

Vejo-me ao espelho, saia curta, rosto triste, deixo descair uma manga, deixo que a alça do soutien se veja no ombro que se descobre, faço uma expressão que tenta sensual mas que é apenas triste.

Arqueio um joelho, faço uma pose que podia ser de sedução; mas não é. Para seduzir teria que me sentir confiante e não sinto, sinto-me sempre tão frágil, tão à beira do desmoronamento.

Há pouco escrevi uma carta. Dizia que estava farta, cansada, que ia partir para uma vida nova, que tinha um outro amor à minha espera, despedia-me, lamentava que tudo estivesse a acabar assim. Despedia-me em lágrimas e deixei que as lágrimas tombassem sobre as últimas palavras. 

Agora já me secaram essas lágrimas, agora tento pensar apenas no meu amor que lá fora me espera.




Pego na carteira que levarei. Não levarei mais nada comigo. Guardo o telemóvel, o pente, o baton, a chave do carro, os cartões. Nada mais. Deixo o passado para trás, quero esquecê-lo para sempre. Saio de mãos vazias.

Deito-me uma outra vez na cama, nas nossas camas unidas, desunidas, distantes. Olho-me no espelho que está em frente da cama, deixo que o decote descaia, os seios adivinhando-se, desenhando-se, eu ainda uma bela mulher, eu apetecível, sei que sou. Olho-me com um sorriso que apenas se insinuará, ao de leve, muito ao de leve, um olhar transversal, era assim que costumava seduzir, infalível.

Se fosses homem, aparecias agora aqui, sentavas-te à minha frente, olhar-me-ias com um olhar longo e desafiador, depois deixarias que a tua mão descesse pelo meu decote, puxarias a saia para cima, tudo farias e eu tudo consentiria.

A tua mão espreitaria o meu corpo e seria macia, e o meu corpo iluminar-se-ia para ti. Tu sabes isso, tantas vezes o soubeste.

Vou despir-me. Já que não o fazes, faço eu. 

Olho-me, sorrio-me. Em silêncio. E as tuas mãos não vêm. Já percebi que não virão nunca.

Daqui a nada sairei, e será para sempre. Não me peças que recue, que volte, que te perdoe. Não me peças. Não vale a pena. A minha decisão está tomada. Tantos anos este meu corpo aqui desperdiçado, abandonado, sozinho. Não perdoo, não perdoo.





Está frio. Enrolo-me num casaco macio, o casaco que usava quando vínhamos da ópera, dos concertos, o casaco que vestia sobre a pele nua quando chegávamos a casa e festejávamos o nosso amor eterno. Não foi eterno, afinal.

Envolvo-me agora nele e olho-me ao espelho. Um corpo que foi feito para ser amado, como todos os corpos. Como todos. Olho-me. Bela. Dizem que sou bela. O espelho devolve-me a imagem de uma mulher que se olha sem esperança. Olho-me e o meu coração grita a história do que eu sou. Grito. Mas do meu peito não sai um único som. Tanto silêncio. Tantas palavras por dizer.

Vou despir esta capa. Vou vestir um pijama infeliz, um casaco baço, sem história, sem graça. Vou apanhar o cabelo. Vou fechar o rosto.

Vou rasgar a carta. De qualquer maneira, ninguém a leria. Aqui não vive mais ninguém. Só eu e os fantasmas que habitam as minhas recordações. Há muito tempo que não existe amor na minha vida. Nem dentro de casa nem lá fora. Escrevo cartas para ninguém. Rasgo-as e sou eu que me despedaço ao rasgá-las.

Nem consigo já imaginar nada, nada, nem uma pequena ilusão. Vou enfiar-me na cama, luzes apagadas, ainda é de dia mas a noite já entrou dentro desta casa sombria, tão fria, tão fria. A solidão às vezes é tão triste.

E eu troco a minha vida por um dia de ilusão.


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Catherine Deneuve aqui é retratada por Bettina Rheims, fotógrafa francesa agora com sessenta anos.

A canção, que é tão bonita, é Silêncio e tanta gente, de Maria Guinot.


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Se me permitem o abuso, deixem que vos convide ainda para permanecerem um pouco mais na minha companhia. Hoje as minhas palavras estão assim, tristes, e no meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, não estão muito melhores. Uma fotografia que me custou a fazer fez-me escrever o que escrevi. Nem é que fosse o poema de Manuel António Pina e ditar-me o que escrevi, acho que foi mesmo a situação que retratei. Para ver se espanto tristezas, fui buscar Los Romeros para interpretarem La Malagueña de ernesto Lecuona.


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E, por hoje, nada mais. 
Apenas quero desejar-vos ainda uma bela quarta feira. 
As quartas feiras têm sempre tudo para serem uns bons dias.

sexta-feira, janeiro 27, 2012

O fim dos feriados mas não do orgulho de ser português; a política financeira e as dramáticas consequências; Portugal e o euro; Jorge Silva Carvalho ex-expião, ex-ongoing; os Monthy Python e as fotografias de Bettina Rheims


Ora deixa cá ver sobre o que é que eu vou escrever hoje…



 Ora bem...

1. Sobre o fim dos dois feriados escolhidos pelo nosso fantástico governo – o  1º de Dezembro, dia da Restauração da Independência, e o 5 de Outubro, dia da Implantação da República – tenho a dizer que não me espanta. 

Duvido que o Coelho Doce, o Sonso Gaspar, o Alvy del Nata e o Rasteiro Relvas saibam o significado desses dias. História, patriotismo, orgulho nacional, valores democráticos, e outras mariquices do género, cá para mim, é coisa que não lhes assiste


Cá para mim, quando se encontram para tratar do futuro do País, é tudo na base do ‘vão trabalhar malandros!’ e, a seguir, vão para a troika, mascarados de meninos marrõezinhos ou cãezinhos amestrados, e, no meio de dedinhos no ar e béu-béus à mistura, devem dizer ‘agora vamos acabar com estes dois feriados e quando já nem se lembrarem que são portugueses acabamos com o resto, e até com o descanso ao domingo, contem connosco. Béu-béu’.


2. Claro que nada disto resolve coisa nenhuma porque em casa desgovernada, tudo o que seja feito ad hoc, descontextualizadamente, sem nenhuma estratégia de desenvolvimento por trás, é o mesmo que nada. Portugal, no que se refere a feriados está em linha com os restantes países europeus e não é por reduzir 2 feriados que o país se vai tornar competitivo. Poupem-nos. 

O País está num desgoverno que assusta, o desemprego a disparar, e o Governo, em vez de atender ao problema sério que existe, entretém-se a brincar às guerrinhas parvas, desatando aos tiros na História. 

Hoje ia no carro à hora de almoço e ouvi uma notícia na TSF - o Governo tinha reconhecido o estado de emergência no sector da construção civil, tinha ido de encontro ao pedido das empresas. Respirei. Até que enfim vão fazer qualquer coisa, pensei. Mas logo a seguir veio o balde de água fria. A vontade que iam fazer era, afinal, deixar as empresas despedir trabalhadores para além dos limites estabelecidos por lei. Despejar trabalhadores borda fora, é isto que o Governo vai permitir. E o responsável pela associação do sector dizia que não há trabalho, que não vai haver trabalho e e que a situação é dramática. 

A este drama o Governo responde com palermices que são autênticas provocações a quem ama o seu País, a quem tem orgulho e respeito na sua História.


A cruz que as pessoas têm que carregar por estes caminhos desertos de esperança, não é coisa que preocupe o Governo.


3. Sobre a nova subida de juros (mais de 20% a 5 anos!!!!!), coisa que é de meter medo até ao mais destemido faquir, recomendo que façam o favor de descer até ao post seguinte para ler o comentário do meu leitor JHMP, a quem agradeço de novo, e que explica muito bem os termos e os contornos da situação financeira do País relativamente à crise da dívida pública e de que forma isso acaba por influenciar a economia. 


4. Sobre o artigo de Matthew Lynn que alerta para o risco de incumprimento português, o qual, por sua vez, pode precipitar o fim do euro, não vou aqui transcrever as suas previsões mas recomendo que o leiam - não que vos queira assustar mas porque é bom que se perceba a gravidade da situação. 

Felizmente, começa a ser consensual que é errada e muito perigosa a trajectória que está a ser seguida. Quanto mais o garrote é apertado, mais a recessão alastra e, como mais recessão significa menos riqueza, cada vez é menos provável que se consiga alguma vez pagar a dívida e, assim sendo, menos acreditam em nós, e logo, mais os juros aumentam, e mais aumenta a dívida e ... só não continuo para não parecer uma velha gagá a repetir mil vezes a mesma coisa. Mas é a isto que se chama círculo vicioso e os círculos viciosos, quando aceleram, tornam-se numa espiral recessiva e as espirais recessivas desgraçam um país. 


E também já aqui falei tanto disto que vocês já devem estar a suspirar... Mas enquanto isto não for interrompido, a desgraça a caminho da miséria não vai parar. 


5. De qualquer forma, apesar da desgraça em que estamos e que tende a agudizar-se, tenho a dizer-vos que acho que isto, não tarda, dá uma volta. Cá em Portugal, os disparates são tantos e tão básicos, a impreparação total, total, desta gente é de tal monta que, ao fim de poucos meses, já pouca gente os defende e, em breve, não sei como, não me perguntem, serão postos daqui para fora.

Entretanto, um pouco por todo o lado, desde os órgãos da UE, às cúpulas do FMI, toda a gente começa a reconhecer que esta política que está a ser seguida está a estrangular a Europa e a causar danos em cadeia e que, pelo contrário, o que há a fazer é estimular o crescimento, reanimar a economia, combater o desemprego. 

Além disso, estou confiante e já aqui o disse, que, com as eleições em França, um novo equilíbrio europeu está para nascer. Até a Merkel já anda, de rabinho (rabinho...?) entre as pernas, a dizer que defende a Europa e que se tem que estimular a economia (pudera, a crise dos outros dá-lhes cabo das exportações!).


6. Por isso, meus amigos - mesmo que agora andem sem esperança, preocupados com as vossas economias, com a vossa reforma, com o vosso futuro - vamos lá a arrebitar, vamos lá dar a volta por cima.



6. Mas, já agora, antes de me ir, deixem-me fofocar: e que tal a demissão do espião maçon Jorge Silva Carvalho da Ongoing? Diz que se demite só durante um bocadinho para se defender mas que, depois, regressa. Pelos vistos foi apanhado com fichas individuais de centenas de figuras públicas no telemóvel (fala-se em milhares... mas há assim tanta gente interessante neste país...?), o malandro...


Também não me vou alongar porque já falei várias vezes do cocktail perigoso: espião, maçon e dirigente de uma empresa de comunicação social...! Assustador.

Demitiu-se, queixando-se que a sua vida tem sido devassada. Tem graça. Uma coisa destas dita pelo chefe dos espiões... Tem graça. E que está a ser o cordeiro inocente de uma guerra entre a Impresa e a Ongoing, the poor one. Mas tantas são as coisas estranhas nesta história, que a gente já não acredita em nada. Vamos acompanhando de longe, mas bem de longe.


7. E é isto. Vou descansar um pouco que daqui a nada já tenho que estar a pé. 


Mas, para que não fiquem vocês agora com sono, aqui vos deixo este filme educativo, A book at bedtime. Vejam por favor.





Thanks God, it's friday!  Enjoy!



(Nota: Todas as fotografias são, é claro, de Bettina Rheims excepto a dos caezinhos amestrados que é minha)

sexta-feira, janeiro 20, 2012

João Proença, a UGT e a CGTP, a concertação social, os trabalhadores e os desempregados em Portugal, Alberto João Jardim e o acordo impossível da Madeira - e Francesco Schettino, comandante do cruzeiro Costa Cruzeiro, um homem irresponsável, cobarde e indigno


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Francesco Schettino, comandante do cruzeiro Costa Cruzeiro, aparentemente para agradar a alguém, cometeu um erro que colocou em risco a vida das pessoas que estavam à sua responsabilidade. Ao ter cometido esse erro e ao perceber as consequências, cobardemente abandonou o navio. Mais tarde, disse que tinha caído para dentro do salva-vidas e que já não tinha conseguido regressar ao navio. Cobarde, indigno.

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João Proença, secretário geral da UGT, assinou um acordo que em nada beneficia a economia e que basicamente se limita a prejudicar os trabalhadores, quer os que têm a sorte de ter trabalho (e que vão trabalhar mais por menos dinheiro) quer, sobretudo, os que vão ter a infelicidade de ficar desempregados (vai ser mais fácil despedir, os desempregados vão receber uma indemnização inferior, e vão receber um subsídio inferior e por menos tempo). Depois de ter assinado esse acordo, João Proença disse que, se não tivesse assinado o documento, seria pior (se calhar os trabalhadores seriam degolados no acto do despedimento para a poupança ser ainda maior). E agora, ao sentir a censura social, vem alegar que o fez também por sugestão da CGTP.

Soa-me a cobardia, a indignidade.

Mas vamos supor que algures no tempo, perante o que estava em cima da mesa, alguém da CGTP tenha dito a João Proença ‘Nós não alinhamos nisto. Se querem, assinem vocês’.  Foi por isto, então, que João Proença assinou o acordo? Mas é o quê? Um invertebrado? Uma maria vai com as outras? Faz o que lhe mandam e depois vem atirar as culpas para os outros? Também caíu para o salva vidas?

Ao que chegámos. A fraqueza da natureza humana a vir acima, até onde menos se suspeitava. Não era esta a ideia que eu tinha de João Proença.

  • Tal como já disse aqui tantas vezes, nunca fui sindicalizada, nem tenho especial simpatia por estes sindicatos, sempre muito instrumentalizados pelas forças partidárias e sempre com actuações muito pouco evoluídas. Defender os interesses dos trabalhadores é muito mais do que estes sindicatos fazem. Ser trabalhador não é ser inimigo do chefe ou do patrão e uma economia só progride se progredirem todos e se puxarem todos para o mesmo lado. Fazer greves, como tantas vezes tenho visto, em que fazem greve prejudicando as empresas e a economia apenas para cumprir uma agenda política, é péssimo e é muito isto que os sindicatos têm feito em Portugal. 
  • Parece-me importante que haja concertação social mas para se coordenarem todos no sentido de um objectivo comum para o país, num objectivo de crescimento, de progresso, de valorização humana. Não para isto de que agora se anda a falar.


Mas, à parte o que acabo de referir e apesar das limitações, achava João Proença um sujeito sensato, civilizado, digno.

Depois disto fico ainda mais preocupada com a situação dos trabalhadores portugueses e do país em geral. Assim não vamos lá.

Acho de um tremendo mau gosto e um desatino que as centrais sindicais andem à bulha uma com a outra numa altura destas. Mas acho que João Proença - que acabou de assinar um documento lesivo para os trabalhadores e que vem agora dar como desculpa que, se não o fizesse, era pior e que seguiu sugestões da CGTP - está a ter uma atitude que moralmente me parecem indigente e isso deixa-me incomodada. E também me parece excessiva a reacção da CGTP, dizendo que vai interpor uma acção. Absurdo.

Por estas e por muitas outras é que uma parte tão significativa dos portugueses não está feliz com a democracia. E isto, sim, é muito preocupante.

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Dizem pessoas que pouco sabem do mundo do trabalho que as condições para despedir em Portugal eram, antes disto, muito favoráveis aos trabalhadores. Penoso ouvir isto. Quem vai para o desemprego não é um nenhum felizardo. Mas quem pensa isso, devia saber como é despedir alguém em Espanha, por exemplo. Quase impossível. Os trabalhadores portugueses e os sindicatos portugueses ao pé dos da Catalunha, por exemplo, são meninos do coro.

E sabem os grandes entusiastas desta concertação, as diferenças de salários entre Portugal e os outros países? 

Receber uns meses de salário em Portugal, como indemnização é tão, tão diferente do que é receber noutro país...!

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Numa altura em que o grave é haver tanto desemprego, tanto desemprego de longa duração, tanto desemprego jovem, é a economia estar a definhar tão gravemente, é o País não gerar riqueza suficiente para amortizar a dívida, o que menos faz falta é legislação que penalize ainda mais as pessoas que tenham a infelicidade de cair no desemprego. Dizer que isto é uma vitória é de uma estupidez inacreditável. 

Nenhum país floresce em cima do desemprego e da miséria. O país precisa é do contrário. Pobreza gera pobreza. Estamos a percorrer o caminho ao contrário. 

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Uma palavra para a situação na Madeira. Pouco se fala disto. Não aprecio, mas nem um pouco, o estilo de gestão de Alberto João Jardim. Despesista, pouco leal, escamoteou gastos, desobedeceu às leis do país, faz o que quer, porta-se como um cacique. Mas uma coisa é certa: esquecendo-se que é português e sendo de um bairrismo bacoco, defende o que ele pensa serem os interesses da Madeira (à maneira dele). Mas penso que é inegável que desenvolveu aquela parcela de território.

E compreendo que, agora, neste momento de aperto, ele, habituado à abundância, esteja desorientado. Mas percebo também que lhe custe assinar um acordo que acha inexequível. Tal como o contrato da Troika, da maneira como tudo isto está a ser conduzido, é inexequível. Não vai ser possível amortizar a dívida toda no prazo estabelecido. Portanto, Alberto João Jardim tem razão quando não quer assinar uma coisa assim, um acordo impossível que vai dificultar tanto a vida das 'suas' pessoas. Infelizmente para ele, tal como para todos nós, sem dinheiro, com a corda na garganta, vamos aceitando tudo o que nos impingem, o que faz sentido e o que não faz qualquer sentido. Vai ter que assinar, que remédio tem, mas percebo a sua angústia. 

Tenho pena dos madeirenses. Tenho pena dos portugueses.

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Lily Cole por Bettina Rheims

E, pronto, meus amigos, já desabafei. Agora vou descansar que estas ralações dão cabo da minha beleza.

O que vale é que já é outra vez sexta-feira. (Que coisa, o tempo passa a correr: outra vez sexta-feira?)

Depois de vos ter maçado tanto, até tenho vergonha de vos dizer que se divirtam. Mas, enfim, tentem - apesar de tudo. E lembrem-se: há mais marés que marinheiros. Tenham um bom dia.

  

segunda-feira, novembro 21, 2011

A alma das mulheres - saber captá-la, saber capturá-la (o caso de Bettina Rheims)


Leio que Bettina Rheims, parisiense, nascida em 1952, filha do especialista em arte Maurice Rheims, é considerada uma grande fotógrafa de mulheres.


Que lhes desvenda a alma, que as mostra como elas gostam de ser vistas, que as mostram como os homens gostam de as ver, que compreende como ninguém o desejo no feminino - é o que dizem.


Sensualidade, erotismo, voyeurismo, ambiguidade e, mesmo, obscenidade e escândalo são palavras frequentemente associadas ao trabalho de Bettina. Pornografia, dizem outros.


Estive a ver e gostei. Escolhi fotografias inócuas para aqui, que este é um blogue de família mas, mesmo as mais ousadas, não me parece que tenham nada de excessivamente chocante. Terão um toque de provocação, um toque de divertimento por anteciparem o efeito que provocarão, mas nada que incomode quem tem boa consciência.

Nas que escolhi para aqui só posso dizer que tomara eu que alguém me fotografasse assim, tomara eu ser capaz de fotografar alguém com tanta arte e cumplicidade, pois o resultado é mesmo muito bom.


Bettina, ela própria uma bela mulher, começou por ser modelo, depois foi jornalista, teve uma galeria de arte até que se fixou naquilo que se afirmou como a sua verdadeira vocação, a fotografia. Tem trabalhado em moda, publicidade, tem retratado personaliddaes públicas (inclusivamente é dela o retrato oficial de Jacques Chirac, 1995), tem feito séries autónomas de sua inteira autoria, tem trabalhado por encomenda. É conceituadíssima, apesar das polémicas. Tem participado em mostras retrospectivas, tem livros publicados, é bastante requisitada.


Em 2008, a pedido do milionário russo Sergey Rodionov, fez uma série de fotografias da sua mulher, Olga Rodionova, que deram origem a um livro, The Book of Olga, do qual escolhi a parte de cima de uma fotografia de corpo inteiro, por, vista assim, parecer uma fotografia quase púdica. Grande parte das restantes são surpreendemente impudicas. Há maridos assim.


As mulheres retratadas são respectivamente Monica Bellucci, Milla Jovowich, Sybil Buck, ? (campanha para o Vin de Chablis), Madonna e Olga Rodionova.

Nesta altura, com a incerteza que paira no ar, várias pessoas questionam-se sobre se, já ou num possível momento de aperto, não deveriam mudar de profissão ou passar a dedicar-se a qualquer outra actividade remunerada. Pois eu, a ter que mudar de ocupação, a que me ocorre é a fotografia. Os tapetes de Arraiolos não dão nada, escrever blogues também não - mas quem sabe fotografar os maridos de milionárias ricas...?