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segunda-feira, junho 09, 2025

Era eu? Sou eu?

 

Quando eles saíram -- e é sempre aquela alegria de estarmos juntos, os rapazes falando insaciavelmente de futebol, toda a gente conversando, muito apetite em volta da mesa, depois uns vendo a final do Roland Garros, outros jogando vólei ou badminton ou descansando e sempre muito movimento e boa disposição -- deitei-me no sofá e adormeci. Ferrada. Na televisão estava a dar futebol, claro. Mas não dei por nada. 

Às tantas, ouvi, remotamente, uns apitos e não percebi de que se tratava, mas também não acordei.

Só depois de o meu marido me chamar várias vezes, dizendo que depois não durmo de noite, é que consegui começar a despertar. Percebi que os apitos eram do microondas, ele a aquecer o jantar. Acho que lhe disse que eu não jantava mas não me lembro de nada. Quando consegui levantar-me do sofá, comi uma banana e uns miolos de amêndoa. Também tinha lanchado, era normal que não tivesse tido fome para jantar. E, ao lanche, imagine-se..., até comi umas fatias de brownie que dois dos meninos tinham feito. Ai a minha dieta... Como nunca como doces, aquelas fatias de bolo souberam-me ainda mais maravilhosamente.

Depois, estive a ver televisão e a ler um pouco mas ainda estou com sono. Creio que foi porque acordei mais cedo do que devia. Passou um carro com uma sirene e os cães da vizinhança desataram todos a uivar. Como durmo de janela aberta, ouve-se tudo. Ainda tentei dormir mas já não consegui. E fiquei em défice. Longe vão os tempos em que dormia umas cinco horas ou cinco e picos, vá lá seis, e ficava para as curvas. Agora tenho que dormir no mínimo sete horas. Dá ideia que acumulei e que que estou a pôr em dia. Ou isso ou ainda é efeito covid, já aqui falei nisso muitas vezes.

Estou a escrever e a ouvir a rega. Gosto de ouvir regar. Gosto de sentir o ar fresco e húmido que vem da terra. É quase como chover. Gosto de ouvir a chuva, gosto do cheiro da terra molhada. 

Estava aqui a pensar que os meus filhos me contam coisas dos seus trabalhos. Falam-me de situações pelas quais também passei, identifico-me com o que dizem, com os stresses em que se vêem, reconheço os dilemas que enfrentam ou a que assistem. Sinto-me solidária. Compreendo-os muito bem, já estive no papel em que eles estão agora. Mas, estando tudo ainda tão presente, a verdade é que me parece que era outra-eu ou, então, que eram outros tempos, tempos que atravessei por acaso, ou outras geografias que frequentei também por acaso. 

Acomodamo-nos a tudo, é certo. Para mim, começar a trabalhar em ambiente empresarial aos vinte e dois anos, vinda de uma realidade académica (estudar e ao mesmo tempo ser professora) foi natural. Ver-me metida em projectos de grande complexidade e ser acompanhada por especialistas do Banco Mundial que vinham dos Estados Unidos para se reunirem comigo e verem a evolução do meu trabalho era natural. Ter filhos pelo meio era natural. Arranjar tempo para uma dedicação que sempre foi absoluta era natural. Ocupar cargos dirigentes aos trinta e poucos era natural. Seleccionar empresas internacionais para trabalharem comigo em projectos inovadores e disruptivos era natural. Mudar de área profissional ou de empresa ou acumular áreas ou trabalhos em várias empresas era natural. Trabalhar horas a fio, fazer apresentações para muita gente, participar em projectos de reorganização que implicavam 'libertar' milhares de pessoas era natural. Sempre foi tudo natural. Sempre me adaptei sem esforço, sem 'teorias de cão caça', sem me vitimizar ou sem me achar especial. Sempre me senti bem na minha pele. Travei montes de lutas, fui contestada, contestei, parti louça, virei mesas, atirei granadas para cima da mesa (pelo menos, era o que diziam que eu fazia). Mas para mim isso era natural. Não me enervava, não me zangava, não me tirava o sono. Parecia que ser assim e viver assim era a minha natureza. E era.

Mas a verdade é que, agora que larguei tudo, me sinto ainda melhor. Não sinto falta, não tenho saudades. Se calhar, mudei. 

Talvez que uma possível explicação seja que, durante todos aqueles muitos anos, sempre me mantive próxima da minha família, eles sempre foram a minha primeira e inquestionável prioridade, o meu verdadeiro propósito. Ou seja, se calhar toda a minha vida profissional sempre foi uma adjacência, uma circunstância, talvez uma necessidade mas não a minha verdadeira natureza. Não sei, é uma tentativa de explicação. Além disso, também sempre consegui compatibilizar todo aquele frenesim com um espaço meu, vital, para ler, para escrever, para bordar, para pintar. Roubava ao sono. Para não prejudicar o meu tempo com a família, era quando todos dormiam que eu ia fazer aquelas coisas de que sentia falta. 

E ainda é assim. Ainda não consegui desligar-me do hábito de ser quando a casa está silenciosa que eu abro o computador (digo que abro porque é portátil e o fecho quando acabo de escrever) e solto as mãos e me entrego a estes momentos só meus. 

Claro que é bizarro dizer que os momentos são só meus e, ao mesmo tempo, estar a soltá-los aos sete ventos, para que quem quiser os conheça. Mas isso já são outros quinhentos, são os paradoxos destes tempos em que podemos comunicar com o mundo inteiro em tempo real e, ao mesmo tempo, fazer com que todas as palavras e imagens fiquem a pairar por aí até ao fim dos tempos.

E pronto, já estou a divagar. Nem sei se alguma destas coisas que estou para aqui a dizer faz grande sentido. Vou mas é dormir.

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Boa semana

Dias felizes. Saúde e boa disposição.

quinta-feira, junho 05, 2025

Marcelo a agarrar uma jovem pelo pescoço e a sujeitar-se a uma tremenda humilhação -- um fim patético para um Presidente que, de tanto querer ser amado e de tanto falar e de tanto fazer e desfazer, vai acabar desprezado.
Mas, se me permitem, vou antes falar de javalis in heaven -- o que, não sendo surpreendente, é a confirmação que faltava

 

Hoje o dia começou com o meu marido a dizer que tinha visto um javali. Contei-o numa story no Instagram. 

Há um sítio em que a vegetação é um pouco mais fechada, um lugar sempre à sombra, sempre fresco. Há um grande cedro, uma azinheira, diversas aroeiras, erva diversa. A terra aí é fofa, negra. E frequentemente está remexida. 

O nosso cão anda sempre intrigado por ali. Põe o nariz no chão e anda de um lado para o outro. É frequente ver ali pegadas de bicho grande, terra levantada. Sempre me admirei: que bichos por ali andam e o que procuram? Dá ideia que desenterram coisas. Já pensei muitas vezes: trufas? Não faço ideia.

Esse lugar é numa extrema do terreno vedado (há uma outra parte, separada por uma estrada, que não está vedada). Ali, naquele sítio em concreto, a vedação não está danificada. Ou seja, não é por ali que os bichos entram. O javali que o meu marido viu estava ali, ao lado da vedação e ficou a olhar para ele. O meu marido diz que, pelo tamanho, não era adulto. 

O nosso vizinho que mora na entrada da rua, uma vez que falámos da nossa desconfiança, disse que de vez em quando acordavam com um grande barulho na estrada, animais a trote. Então, passaram a estar atentos e uma noite fizeram uma espera e conseguiram ver uma grande vara de javalis a correr na estrada, na direcção do vale, passando pela nossa casa.

Um conhecido já avisou algumas vezes: é preciso o máximo cuidado com as mães javalis ou com bichos que se sentem ameaçados. Por isso, hoje, ao andar por ali sozinha com o cão sempre por perto, pensei que se me aparecesse um bicho pela frente haveria de ser um festival, o cão aos saltos e a ladrar furioso e o bicho, assustado...

Bem. Não foi surpresa a constatação de que, na verdade, há javalis in heaven mas foi surpresa estarem à vista, de dia, tão perto.

Não tenho falado mas, em contrapartida, dos gatos nem sinal. Desapareceram todos. E dos esquilos agora não tenho visto vestígios, nomeadamente aquela fartura de pinhas roídas em baixo. Estive a informar-me e, nesta altura, as pinhas não estão boas para roer. Por isso, podem continuar residentes mas andarem a alimentar-se com outros acepipes.

Tirando isso e o expediente comum (o meu marido a roçar mato, eu em arrumações e varridelas e etc.), continuo, como sempre, fascinada com o efeito da luz através das flores. 

Que cores, que perfeição, que harmonia. 

Quanta beleza.

Nestes dias não se vê televisão, não se procuram notícias. Ao fim do dia, no carro, por acaso apanhámos o fim do noticiário, qualquer coisa sobre os novos ministros. Desejamos que, a bem do País, corra bem. Contudo, algumas escolhas parecem estranhas.

Quando chegámos a casa, já jantados, ainda demos, bem de noite, um passeio com o cão. Confesso que senti algum receio. O meu marido disse que não havia razão para isso e, por isso, confiei.

Com isto, a verdade é que não consigo ter disposição para falar de política. 

Só quero dizer uma coisa: quando a minha nora enviou para o grupo da família um vídeo com a cena do Marcelo a fazer um tristíssimo papel com uma jovem na Feira do Livro, ao ver tive dúvidas de que fosse real. Depois vi que é. E fiquei perplexa. Mau, muito mau, mau de mais. Começou por parecer um totó de roda da jovem, a querer rebater, a querer interromper, a não saber pôr-se no seu lugar. Depois, no fim, a forma como a agarrou pelo pescoço, com força, foi de uma agressividade inqualificável. Todo aquele comportamento foi de uma inconveniência inusitada, uma menorização da função presidencial como nunca antes se tinha visto. A jovem, de que não sei o nome, pelo contrário, manteve um sangue frio, uma atitude fantástica. Deixou-o nitidamente aos bonés. Se Cavaco acabou mal e retratado com a boca cheia de bolo-rei, Marcelo acabará ainda pior e retratado a agarrar uma rapariga pelo pescoço, acabando com ela a instá-lo a largá-la e a virar-lhe as costas. Cena mais macaca. Marcelo não se enxerga. Que fim mais triste.

A ver se amanhã me regressa a vontade para falar de política para me pronunciar sobre os membros do Governo e o que é que as escolhas podem significar. Preferia, contudo, esperar pelos Secretários de Estado, para ver se são melhores dos que os anteriores. Logo vejo.

E agora vou descansar, é tardíssimo. 

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Dias felizes

quinta-feira, março 27, 2025

O que é um optimista? - É alguém que tem sempre esperança.
E o que é a esperança? - A esperança é a coisa com penas que, empoleirada na alma, canta a melodia sem palavras e nunca pára

 

Simples, não é? 

Claro que os pessimistas não sabem do que estou a falar. Se calhar nunca sentiram esta coisa sem penas empoleirada na alma a cantar melodias sem palavras, e que nunca se cansa.

Está mau tempo? -- O tempo bom não tardará, ouviremos a coisa a sussurrar, sem palavras

Esta pessoa fala sem parar, esgota a nossa paciência? -- Já vai cansar-se, cantará ela, na sua suave melodia.

O populismo e o extremismo pró-fascista estão a alastrar como uma mancha de óleo putrefacto? -- Haveremos de encontrar o antídoto e toda a gente se mobilizará para limpar os estragos, dirá a coisa com penas.

Parece que já não há pessoas interessantes, tão interessantes que a gente deixe tudo para as ouvir? - Deve haver, estão é resguardadas. Mas haveremos de convencê-las a partilhar as suas ideias connosco. Dirá ela, e nos acreditaremos.

Temos dores e sentimo-nos desalentados? - Isso há de passar. E até parece que já nos sentimos melhores.

A esperança é o combustível que move os optimistas, é o oxigénio de que precisam para viver. A esperança não regateia, não cobra, não censura. A esperança está lá. Um ombro amigo, uma mão que se oferece, um sorriso que alenta, a flor que traz a luz quando a nuvem espreita. 


Helena Bonham Carter lê 'Esperança' de Emily Dickinson 
| 365 Poems for Life by Allie Esiri


“Hope” is the thing with feathers -
That perches in the soul -
And sings the tune without the words -
And never stops - at all -

And sweetest - in the Gale - is heard -
And sore must be the storm -
That could abash the little Bird
That kept so many warm -

I’ve heard it in the chillest land -
And on the strangest Sea -
Yet - never - in Extremity,
It asked a crumb - of me.

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Dias felizes para si que me lê

domingo, outubro 06, 2024

Eu não sou Marina Abramović

 


Quando é que foi mais feliz?

- Quando nasceram os meus filhos e, talvez ainda mais, quando nasceram os meus netos.

Qual é o seu maior medo?

- Que aconteça alguma coisa de mal a algum dos meus filhos ou netos ou ao meu marido (ou a mim)

Qual a pessoa viva que mais admira e porquê?

- Qualquer cientista (motivado e, de preferência ousado e persistente). Também admiro as pessoas que amam a liberdade e a democracia e que, mesmo sob ameaça, continuam a defender aquilo em que acreditam e que conseguem transformar as suas convicções em palavras e actos. Todas as pessoas que arriscam a vida em busca de uma vida melhor, mesmo arriscando a vida, nomeadamente as que vêm em barcos frágeis, apinhados, em busca de um sonho, tantas vezes improvável. Todas as pessoas que vivem em contexto de guerra e que, mesmo assim, continuam a fazer uma vida normal, conservando a capacidade de sorrir. Todas as pessoas que atravessam períodos em que a vida ameaça fugir-lhes, como as que recebem a notícia de cancro ou de doenças degenerativas, e arranjam energia para enfrentar os tratamentos e para continuar a acreditar na recuperação. Mais ainda se isto se passar com os filhos. Também admiro muitas as pessoas que trabalham muitas horas ou em condições difíceis, em particular as mulheres com filhos, que têm que se levantar muito cedo e deixar os filhos por vezes sabe-se lá com quem e andar em vários transportes públicos, e que chegam tarde a casa, cansadas, muitas vezes num país que não é o seu, com hábitos que não são os seus. Os imigrantes. Enfim. Admiro muitas pessoas.

Qual a sua característica de que menos gosta?

- Não ter apetência pela prática de desporto (ou exercício físico a sério). E não ter boa voz.

Qual o seu momento mais embaraçoso?

- Quando, num dia de verão, em que tinha uma saia branca, de tecido fino, e, depois de ter estado horas numa reunião, quando me levantei, ir um colega atrás de mim, ruborizado, dizendo-me que tinha uma coisa um bocado íntima para me dizer e, a custo, muito aflito, dizer-me que eu tinha a saia manchada. E eu, ao espreitar, ver uma mancha enorme, enorme, de sangue. Escusado será dizer que nunca mais usei saia ou calças brancas quando estava ou temia vir a estar com o período.

Não incluindo a casa, qual a coisa mais valiosa que comprou?

- Os meus livros

Qual o seu pertence mais apreciado?

- Talvez mesmo os meus livros

Qual a sua principal conquista?

- Ter conseguido ter uma vida profissional motivante e bem sucedida sem nunca ter sacrificado a minha disponibilidade para a família, em especial para os meus filhos

Descreva-se em três palavras

- Normal, tranquila, bem disposta

De que gosta menos na sua aparência?

- Nada em particular, não ligo muito a isso pois sou como sou e não equaciono modificar-me. Portanto, o que não tem remédio, remediado está.

Quem é que gostaria que interpretasse o seu papel num filme sobre a sua vida?

- A nível internacional, Cate Blanchett. A nível nacional, talvez a Margarida Vila-Nova.

Qual o seu hábito mais desagradável?

- Deitar-me, todos os dias, tarde de mais.

O que a assusta na velhice?

- Poder vir a sofrer de limitações severas ou ver o tempo a esgotar-se numa altura em que ainda me apeteça muito viver

O que queria ser quando crescesse?

- Comecei por desejar ser cabeleireira. Mais crescida, queria trabalhar numa empresa, ou melhor, em ambiente empresarial. Uma ideia um bocado vaga. Mas era isso.

Escolheria fama ou anonimato?

- Anonimato, claro.

Qual a última mentira que disse?

- Disse a uma pessoa que achei que estava velha e acabada que estava muito bem

Qual o seu prazer mais culpado?

- Ver a telenovela A Promessa (não vejo uma única telenovela portuguesa desde que me lembre pois, se calha passar por lá de raspão, acho uma chachada que não se aguenta, não as suporto nem um minuto; e, no entanto, gosto de ver A Promessa)

A quem gostaria de pedir desculpa e porquê?

- Às pessoas que gostavam muito de mim e a quem, por falta de tempo ou falta de capacidade para manter o contacto com muitas pessoas, acabei por deixar para trás, sabendo eu que as pessoas ficaram sentidas e com saudades.

O quê ou quem é o amor da sua vida?

- Os meus filhos e os meus netos e, claro, quem esteve, comigo, na origem de tudo, o meu marido.

A que é que sabe o amor?

- A felicidade, a tranquilidade, a harmonia, à razão primeira e última para tudo.

Já alguma vez disse 'amo-te' sem o sentir?

- Não tenho por hábito dizer 'amo-te'. Não me soa bem, são sons mudos demais. Prefiro dizer 'gosto de ti'. Sempre que o digo é sentido. Mas também não sou muito de andar a verbalizar, sou mais de demonstrar.

Com que frequência pratica sexo?

- Apesar de não querer ser maria-vai-com-as-outras em relação à Marina Abramović, respondo como ela: frequentemente

Quando é que esteve mais perto da morte?

- Quando o meu carro, numa descida acentuada a caminho de uma rotunda movimentada, ficou sem travões e percebi que ia, inevitavelmente, ter um acidente que poderia ser muito grave, e que, por isso, poderia estar a viver os meus últimos segundos de vida. O carro ficou de tal forma que o seguro declarou a sua perda total. Eu, felizmente, não sei como mas escapei incólume.

O que melhoraria a sua qualidade de vida?

- Ter uma piscina onde fazer ginástica em suspensão do outro lado da rua. Haver, também, um supermercado na minha rua, para não ter que ir de carro de cada vez que tenho que comprar qualquer banalidade para casa

O que preferia ter mais: sexo, dinheiro ou fama?

- Sexo e dinheiro acho que tenho que chegue e fama não quero. Mas agora que penso nisso... talvez gostasse de ser uma escritora conhecida, com qualidade reconhecida. Talvez a isso se chame fama.

O que acontece quando morremos?

- Descansamos de forma radical. Desaparecemos. 

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  • As questões a que respondi são as da entrevista feita por Rosanna Greenstreet a Marina Abramović. 
Marina Abramović
Fotografia de Linda Nylind/The Guardian


Uma vez que as respostas interessantes são as dela e não as minhas, sugiro que cliquem aqui:

Marina Abramović: ‘Describe myself? Long hair, big nose, large ass’ de Rosanna Greenstreet

  • A fotografia do hibisco foi feita hoje no meu jardim

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Desejo-vos um belo dia de domingo

sábado, maio 18, 2024

A minha orquídea não tem nome mas floresce, escandalosa e bela, como se fosse a Miss Mundo

 

São dois vasos. Estavam meio desfalecidas. Trato-as por igual: pinga de água a uma, pinga de água à outra. 

Vendo-as tão desmotivadas, chegou a passar-me pela cabeça levá-las para a rua. Quem sabe não estavam fartas de estar aprisionadas, postas à janela? 

Mas eis que uma desatou a dar ar de sua graça. Espampanante, gloriosa nas cores e na multiplicidade de flores. A outra, triste, ao lado.

Houve uma altura que a blogosfera se enchia de fotografias ou relatos dos avanços e recuos das orquídeas. Tinham sempre nome.

Na fase triste das minhas cheguei a pensar que estavam frustradas por eu as votar ao anonimato. Afinal, a que se desinibiu, pelos vistos, passa bem sem nome. A outra é que não sei. 

Mas que a da esquerda, toda boémia e, lá está, toda gauche, me encanta, lá isso não posso esconder. Orquídea mais flausina, a causar envy à pobrezinha da outra, a das direitas.

domingo, abril 09, 2023

A pura fruição do corpo

 

Hoje estou outra vez um bocado cansada mas, desta vez, acho que tenho justificação. Varri a casa toda por dentro, lavei uma colcha, lavei um tapete, estendi-os ao sol, varri cá fora, reguei, apanhei ervas. Há bocado, quando me levantei, estava toda dorida. Notoriamente falta de hábito. Face a toda as circunstâncias, há já algum tempo que não metia mãos à obra para uma faxina a preceito. O meu marido bem me avisou que amanhã, dia de páscoa, não me conseguiria mexer. Mas o tempo estava bom, a casa precisada e eu com vontade de trabalhos físicos que me pusessem o corpo a mexer.

Também fiz uma caminhada enquanto exercitava os braços (e a mente).

E falo na mente porque, enquanto andava ia a pensar que o corpo é mesmo um animal amestrado que, quando deixa de ser exercitado, se esquece das habilidades que antes fazia com uma perna às costas. 

No outro dia, cá em casa, quis mostrar à minha neta as dificuldades que tenho quando, na hidroginástica, tenho que fazer uns movimentos com as pernas e outros, não equivalentes, com os braços. Quis mostrar-lhe a concentração que é precisa. Mas, ao querer mostrar-lhe, parece que o meu corpo não queria elevar-se no ar. Saltar à tesoura para os lados ou com uma perna para a frente e outra para trás, só por si, é coisa que faço nas calmas dentro de água. Elevo-me bastante bem, obrigada. Mas fora de água...?

E o que eu saltava, senhores. Gostava de saltar em comprimento e em altura, gostava de trepar, de correr. Em miúda, quer as minhas avós, em casa de quem eu ficava por vezes, moravam num sítio muito mais elevado em relação à escola, quer a minha casa era numa zona alta, bem mais do que o liceu. E o que eu adorava, mas adorava mesmo, largar a correr, correr tão velozmente como se voasse. Ganhava embalagem nas descidas e quase parecia que não conseguia parar.

Agora quis saltar, elevar-me no ar enquanto abria e a fechava as pernas, e tive que me concentrar e convencer-me que era capaz. Caraças.

Tenho que me mexer, exercitar, voltar a ter domínio sobre o meu corpo. 

Esta pasmaceira e espapaçamento em que tenho estado desde que tive covid faz com que até varrer, limpar a casa ou arrancar ervas me custe como se tivesse estado a cavar batatas de sol a sol. Não pode ser.

Por isso, ver estes fantásticos vídeos aqui abaixo soube-me como uma bênção. E não é apenas pela dança alegre, é também pela voz capaz de cantar. Há tanto tempo que não canto que, se quiser cantar, acho que não me sai nada. Caraças. A gente enferruja se não praticar. Não pode ser.

Não sei se será a coisa mais apropriada para aqui ter na Páscoa mas fruir o corpo é uma coisa boa para todos os dias, Natal, Páscoa, 25 de Abril ou 1º de Maio.

Veja o que acontece quando um dançarinos de Boogie Woogie e um de West Coast Swing improvisam
Sondre Olsen-Bye e Ardena Gojani dançam pela primeira vez


O contratenor e dançarino de break Jakub Józef Orliński | Retrato do multi-talentoso cantor de ópera

Ele parece um anjo e pode cantar também como um. O contratenor Jakub Józef Orliński encanta o público com sua voz aguda e simultaneamente sonora. Mas Orliński não se destaca apenas no palco da ópera. Para contrabalançar o seu trabalho operático, faz breakdance a um nível que também vale a pena ver. No caso de Orliński, a alta cultura encontra o estilo de rua. Acrescente-se a isso sua aparência extraordinária e charme incrível, e não é de admirar que o jovem polaco pareça não ter problemas para atrair até mesmo um público jovem para a ópera. Antes de uma apresentação no Théâtre des Champs-Élysées em Paris no outono de 2022, Orliński falou sobre os vários aspectos de sua vida. O resultado é o retrato de um jovem cantor excepcionalmente talentoso que olha para o futuro com curiosidade.

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Um belo dia de domingo
Saúde. Tudo a mexer. Paz.

sábado, abril 08, 2023

Um urso cabeludo, um coelho aos saltos, um cão imponente, muita natureza, paz e beleza
-- In heaven --

 

Estava a passear ao fim da tarde, passarinhos cantando de dar gosto, olhando e fotografando flores e florzinhas, só eu e o meu urso cabeludo, quando o vejo dar um salto e largar em louca correria. No mesmo instante, vejo um coelho aos saltos, correndo e saltando. Por pouco não fiz o mesmo. 

Em vez disso desatei aos gritos, gritando pelo nome do urso perseguidor. Poderão achar que é exagero meu mas juro que estava arrepiada. Nos momentos em que um crime pode estar em perspectiva todo o meu corpo fica em transe. Finalmente vi o urso deter-se num zona de moita mais compacta e desatar aos saltos, com latidos curtos e bem sonoros. E eu  gritar por ele. Temi até ao último instante que me aparecesse com o inocente coelhinho nos dentes.

Mas o coelho, veloz, deve ter-se enfiado nalguma lura. 

Pois eis que o urso veio a correr, aos saltos, a dar ao rabo, pondo-se de pé, todo ele sorrisos e felicidade. Pela reacção percebi que achou que fez o que achou que tinha que ser feito: rechaçou o inimigo.

O meu marido chegou entretanto e ele fez a mesma festa. Nitidamente estava a dar conta, também ao dono, de que tinha feito uma boa acção.

Depois foi pegar-se com os enormes lobos da quinta lá de baixo. Os três bisontes ferozes encostados à vedação do lado de lá e o urso do lado de cá, uma peleja que só visto. Dos três do lado de lá, há um que é imponente. Quando me aproximo, cala-se e fica a olhar para mim. É um animal fascinante.

Como continuei a minha caminhada não vi o vizinho, apenas ouvi vozes. O meu marido contou-me que o vizinho estava a chegar e, ouvindo tamanho ruidoso concerto, foi ver o que se passava e aproveitou para desejar boa páscoa. Simpático.

Entretanto, andei a apanhar nêsperas e, pelo sim, pelo não, a comê-las. E fiz também os meus telefonemas. E etc.

Já quase noitinha, o meu marido sugeriu que era melhor virmos para dentro e eu concordei porque a friagem começava a descer. Ele foi chamar o cão de guarda que andava desaparecido. Aqui é que o dog anda nas suas sete quintas. 

A fotografia está assim pois foi feita muito de longe, um zoom bem longínquo

Chamou, chamou. Por fim já chamava à bruta, na base da ordem de ou vens ou vais pagá-las. Fui também chamar. E também assobiei (que I know how to whistle). 

Nada de fera.

Passado um bocado apareceu, lampeiro, com as barbas meio molhadas e todo ele se lambendo. Feliz da vida.

Passado um bocado, já aqui na sala, veio pôr ao pé de mim uma corda de brincar. Peguei e ele agarrou com os dentes para eu puxar e ele fazer o mesmo em sentido contrário. E então senti-lhe um cheiro que não identifiquei, um cheiro orgânico, a coisa viva, uma coisa muito disturbing. O meu marido disse: por isso não veio quando chamei por ele. Nem quero pensar no que pode ter sido.

Para além de coelhos há de certeza vários esquilos. 

Debaixo dos pinheiros do costume há um mar de pinhas roídas. Quantos esquilos serão necessários para darem conta de tamanho ror de pinhas...?

Mas lá em baixo, ao fundo, também já vi vestígios deles. 

E sabe-se lá o que mais há de bicharada. Já para não falar nos pássaros. Um chilreio que derrete qualquer coração. Aliás, tudo aqui derrete, afaga e conforta o meu coração.

Tirando isso, fui ao supermercado e fiquei outra vez estarrecida com o que gastei. No fim, olhei para o talão tentando perceber como foi tal possível. As coisas a um preço estúpido. No fim, como que para gozar com a minha cara, aparecia escrito que tinha poupado 19€. Se tivesse apanhado a patroa do supermercado à minha frente capaz de fazer uma bolinha com o talão e, pedindo-lhe licença, fazer-lhe pontaria à cara de pau com que se apresenta a dizer que, nisto tudo, a distribuição está a fazer grandes sacrifícios. 

Mas, pronto, já fiz as compras todas para o fim de semana. Dessa já estou despachada.

Só ainda não contei que depois da visita familiar, da ida ao supermercado e do almoço, viemos os dois até ao sofá, carregámos no botão para o transformarmos em quase cama e, não sei como, quando demos por nós, eram seis e meia da tarde. Não sei quando é que este peso de sono nos vai sair de cima. Imagina se isto nos dava quando ainda estávamos no activo. Havia de ser bonito. Ou então isto não tem a ver com a covid mas com cansaço acumulado durante décadas. Não sabemos. 

Mas há-de passar.

O que sabemos é que há por aqui muito que fazer, muito mato para cortar, muita árvore para podar. Temos que vir com mais tempo. 

E só de pensar nisto me encho de felicidade.

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E, já agora, dois vídeos cheios de muita beleza e que também me trazem felicidade


Julie Gautier. Musica de Carlos Hof do album ADORE.

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Corda flexível de aço @CirqueduSoleil
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Um dia bom
Saúde. Serenidade. Paz.

terça-feira, maio 17, 2022

Três extraordinárias previsões para o futuro -- e alguns dilemas da minha vidinha

 


Tenho vários temas relevantes por resolver. 

Por exemplo: gosto de ver às outras mulheres mãos com nails em vermelho rubi, carmim, bordeaux, grenat ou mesmo em quase negro. Além do mais, sei que a saison, talvez para espantar as pesadas nuvens negras que por aí andam a pairar, requer nails multicores, uma unha de cada cor, e cores alegres, cor de laranja, verde pistachio, azul turquesa. 

Em abstracto tudo isso me agrada. Melhor: seduz-me.

Mas depois vem o lado prático. Não consigo ter unhas compridas nem consigo paciência para as pintar ou retocar frequentemente. Além disso, há que ter precisão para que o colorido não transcenda a pequena superfície que lhes é destinada. Debato-me, pois. Imagino que vendam pequenos estojos com frasquinhos multicores, pincelinhos pequeninos, e sinto-me tentada a experimentar. Mas, depois, já sei que acabarei sem aplicar nada ou, quanto muito, apenas um brilhozinho transparente, quanto muito um discretíssimo nude. 

Dilemas.

Se não trabalhasse, também ousaria uma maquilhagem divertida. Sombras nas pálpebras também em cor-de-laranja. Ou em verde-alface. E lábios em morango suculento e brilhante. Assim, trabalhando, não dá. Não seria levada a sério se me apresentasse assim a discutir propostas que, já de si, deixam alguns com os cabelos em pé. Tenho que me reservar para um dia mais tarde.

No domingo, quando fomos passear com a minha mãe, estava fresca, colorida e jovial: calças justas, alinhadas, em branco, uma tshirt justinha em verde seco e uma blusinha de lã fina em cor-de-laranja sobre os ombros. Ténis brancos. Completava a toilette com um chapéu de palhinha e de abas largas. Elogiei-a, disse-lhe que finalmente se veste como lhe fica bem, sem se preocupar se a toilette é adequada à idade ou com o que amigas e vizinhas pensam. Riu-se. Disse que finalmente tinha começado a libertar-se. Pensei -- mas não disse -- que já não era sem tempo. 

Pode parecer futilidade -- e quem sou eu para o negar -- mas a forma com a gente se arranja é meio caminho andado para a forma como a gente se sente. Se estamos com roupas tristes e desiluminadas, vai ser difícil sentirmo-nos especiais. E claro que é importante sentirmo-nos especiais. Pode haver quem pense que não quer sentir-se especial, quer apenas sentir-se vivo/a, e tudo bem -- só que não é a mesma coisa.

Há também a questão das flores. Vi umas florzinhas lindas, delicadas, em suave lilás. Estavam nas areias, nas dunas, junto à praia. Estou com vontade de ir colher umas quantas e pôr numa jarrinha. Hoje, nas reuniões, pensei que aquelas florzinhas ali ao meu lado fariam toda a diferença. Mas o que gostava mesmo era de apanhar com raiz e plantar um canteiro por aqui. Mas será que flor de beira mar vai dar-se bem em terra? Não sei. Nem sei se tente. Não quero fazer coisas contra natura mas, por outro lado, quem garante que elas não gostariam de mudar de ares?

Dilemas.

E depois há os pássaros. O meu marido reclama da gaiola grande que trouxemos da garagem para pôr aqui no jardim. Diz que está ali para nada, que não sabe porque quis eu trazê-la para aqui. Expliquei que pensava que, tendo a portinha aberta, os passarinhos entrariam e dali fariam a sua casa, podendo sair sempre que quisessem. Mas toda a gente me explicou que era uma armadilha, que os passarinhos que entrassem não conseguiriam sair. E a verdade é que a gaiola ali está de portinha aberta e nem um pássaro lá entra. Mas aí lembro-me de uma coisa. A anterior proprietária tinha periquitos. Nunca prestei atenção a essa ideia. Mas no outro dia lembrei-me de uma vez ter falado ao telefone com uma amiga e só ouvir uma orquestra de pássaros por trás. Ela disse: são os periquitos que a minha mãe aqui tem, são muitos, às cores, cantam que só visto. E era uma alegria. Sou muita contrária a pássaros prisioneiros. Mas será que os periquitos não se tornaram bicho de gaiola? E sendo a gaiola grande e estando no meio de árvores, não será para eles um resort que apreciem? Não sei. 

Dilemas.

E estou com esta conversa nem sei bem porquê. Será que fico com vontade de me remeter à maior simplicidade sempre que ouço falar de temas que me deixam as entranhas num frenesim?

Estive a ouvir três previsões muito prováveis para os próximos tempos. Algumas são-me, à partida, um pouco incómodas. Robots que se auto-fabriquem parece-me coisa meio assustadora. Mas se isso acontecer em Marte talvez não seja mau de todo. Robots que construam fábricas e enviem o fruto da sua produção para a Terra. A Terra transformada em paraíso, sem poluição, sem esforços, só desfrute. Talvez a vida ainda possa vir a ser uma coisa boa e o mundo um lugar feliz e pouco perigoso. E também me é estranha a ideia de fazer download do cérebro e pôr máquinas a usarem as ideias e memórias. Ou a perspectiva de se transmitirem emoções ou sensações e não apenas informação. Não sei bem o que pensar nisso. Mas parece-me provável e potencialmente estimulante. E depois há a promissora ideia de aprendermos, ab initio, se temos células que vão degenerar em cancro. Termos em casa sanitas com auto analisadores que detectem sinais de alerta que permitam que não se formem tumores -- o fim do cancro. Uma maravilha. Um alívio para todos.


Michio Kaku: 3 mind-blowing predictions about the future | Big Think

Carl Sagan believed humanity needed to become a multi-planet species as an insurance policy against the next huge catastrophe on Earth. Now, Elon Musk is working to see that mission through, starting with a colony of a million humans on Mars. Where will our species go next?

Theoretical physicist Michio Kaku looks decades into the future and makes three bold predictions about human space travel, the potential of 'brain net', and our coming victory over cancer.

"[I]n the future, the word 'tumor' will disappear from the English language," says Kaku. "We will have years of warning that there is a colony of cancer cells growing in our body. And our descendants will wonder: How could we fear cancer so much?"


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As luas pertencem ao artigo Super flower blood moon – in pictures e estão aqui na companhia de Blue Moon pela Billie Holiday and Her Orchestra
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Desejo-vos um dia tão bom quanto possível
Alegria. Força. Paz.

sábado, março 12, 2022

A chegada dos pombos da floresta

 



Ao fim de vários dias de perplexidade e angústia ao ver a tragédia que se passa ali tão perto, eis que tenho vontade de me abstrair para abrir espaço para a primavera que se aproxima e para a natureza que, em paz, é livre de exibir a sua beleza.

Quase me sinto mal ao dizer isto... mas a vida continua...

Indiferentes à guerra e à maldade, uns pombos da floresta passeiam agora no nosso jardim. 

Não sabíamos o que eram, tive que pesquisar. São muito grandes, nada a ver com o tamanho usual dos pombos ou das rolas. 

Nos dois dias em que os vimos estávamos em casa, vimo-los através das janelas, e, por isso, eles devem ter achado que podiam andar por ali à vontade. E acharam bem. Hoje eram três. Fico feliz quando vejo que o jardim atrai os pássaros.

Agora não temos visto os pica-paus que são tão bonitos. O que é mais frequente são as rolas, quase brancas e muito tranquilas. E muitos passarinhos pequeninos. Estão nos ninhos e nas árvores. Os ninhos que supostamente eram de andorinhas estão cheios de passarinhos mas creio que não são andorinhas. Todo o santo dia chilreiam.

O jasmim-amarelo já estava florido, bonito. Agora também o jasmim normal, o das florzinhas brancas, o está. E perfumado. O ano passado estranhei o odor intenso do jasmim. Agora não estranho. Gostei de o ter de volta, foi como se um amigo estivesse de volta.

Duas outras trepadeiras estão em flor e as abelhas não as largam. Pensei que seria boa ideia ter uma colmeia para depois poder adoçar-me com o mel destas flores tão exuberantes.

As magnólias continuam a maravilhar-me embora sejam tão efémeras que quase lamento a sua curta existência. São belíssimas, elegantes, sofisticadas. Mas rapidamente se desfazem em pétalas caídas pelo chão.

Quanto à nossa pequena fera, está grande, muito mais peludo, mais inteligente, sempre brincalhão, sempre enérgico. Anda agora na escola. Ou melhor, andamos agora na escola para aprendermos a lidar com tanta energia e teimosia. Aprende logo tudo mas, mal acabam as aulas, desata a correr em círculo em grande velocidade, brinca, salta, extravasa toda a muita energia que acumulou durante a aula.

Este sábado parece que vai chover e fico contente por isso. 

Tomara que todas as pessoas no mundo vivessem em paz para poderem alegrar-se com a harmonia e a perfeição das flores, dos animais, das coisas simples. Tomara que não houvesse gente má.

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Desejo-vos um dia feliz.

Saúde. Serenidade. Paz.

domingo, fevereiro 28, 2021

Tem um equívoco olhar de brandura astuciosa

 


Que se ilumine a beleza!

Digo
à flor da beleza

Que se iluminem
os pulsos
estreitos e muito pálidos

       daquelas que voam


Como eu queria
sem ter fim
entregar-me à densa Lua

submersa e encoberta
envolta pelo seu manto

perdida de mim
turvada
onde a chuva desamada

se transforma
no meu pranto

docemente
envenenada
pelo jasmim e o espanto
 

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Os poemas Iluminação e O manto da lua que acima transcrevi e Flor receosa de onde extraí o título deste post pertencem a Estranhezas de Maria Teresa Horta, livro que lhe valeu o Prémio Casino da Póvoa atribuído na 22.ª edição do festival Correntes d’Escritas.

O jasmim foi fotografado hoje, aqui em casa. Está perfumado de dar gosto. Hoje encostei-me ao muro, entre dois tufos, e ali fiquei em estado de inebriamento, deixando que o tempo pousasse suavemente em mim, presa deste tempo sem fronteiras, rendida ao prazer de estar e ser. 

A violinista Mari Samuelsen interpreta Timelapse.


segunda-feira, junho 15, 2020

Kefir in heaven



Depois de uns dias a comer bem e mais do que devia, já ontem à noite me apeteceu aligeirar. E hoje, já apenas nós dois, enquanto ele comeu uns restos de arroz e carne grelhada, eu fiquei-me pela fruta comida ao mesmo tempo que o queijo e por um daqueles petiscos pelos quais me pelo. Aliás, devo dizer que adivinhei logo que a minha menininha mais linda ia gostar dele tanto quanto eu. E alguns dos meninos também. O meu filho e a minha nora também. Não convenci nem o meu marido nem a minha filha. Não são dados a mistelas das minhas. Sinceramente não compreendo porquê porque são uma delícia.

Conto.

Gosto de kefir de qualquer maneira. Mas há uma maneira de que ainda gosto mais. Como base, gosto do kefir puro, sem sabores ou geleias misturadas, sem açúcar. Gosto daquele que é relativamente líquido. E faço assim: coloco numa tacinha um bocado de kefir, misturo ou amêndoas ou outra coisa de que gosto muito e que compro no lidl, caju com arando, depois polvilho generosamente com canela e ponho um fio de mel. Misturo. E como com o coração adoçado, a boca ainda mais. Experimentem.

Para além do mais presumo que seja saudável. Talvez o mel ou os frutos secos não ajudem a perder peso mas uma coisa eu posso assegurar: ajudam a sermos felizes.

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E, para condimentar, sai um dos meus poemas preferidos (oh céus, porque é que gosto tanto deste poema?), um que cheira a canela.


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NB: Hoje andámos a apanhar orégãos. Uma farturinha perfumada. Há-os por todo o lado, viçosos, cheirosos. Amanhã talvez vos mostre a instalação que ali está armada na mesa da sala de jantar. Mas agora quero apenas dizer que, quando estávamos na colheita, um dos meninos, o mais novo, veio chamar-me para me mostrar uma flor. Pensei que era uma flor banal -- banal no sentido em que já vi mil vezes. Mas, quando a vi, fiquei pasmada com a sua insólita beleza. Ao fim do dia, já eles se tinham ido embora, resolvi ir vê-la de novo e fui munida. Tinha que fotografá-la. Primeiro contra o fundo verde em que estava, outra contra o fundo da pedra junto da qual estava. Maravilhosa. Há coisas extraordinárias nesta vida.

domingo, junho 07, 2020

I am the master of my fate, I am the captain of my soul



And yet the menace of the years
      Finds and shall find me unafraid.


Flor de Robert Mapplethorpe
Invictus de William Ernest Henley dito por Morgan Freeman

domingo, outubro 06, 2019

assim diz a flor


Houve um pedido: três palavras. Chamou-lhe o desafio insano

Sugeri 'rompem flores das paredes'. Depois, ao ler as palavras da Alexandra, brinquei mas, flor, tem razão: na realidade, a sugestão a sério era mesmo essa 'rompem flores das paredes'. 

E hoje, ao ler para a UJM, fui logo ver. 

E não foi só o espanto, não foi só o agrado. Foi que me senti retratada. Talvez com o filtro da generosidade da flor, talvez com o filtro do talento da flor que embeleza aquilo em que toca. Mas, sob a capa da beleza das palavras, senti-me eu.

Depois, enquanto andava a passear entre as árvores, os pés pisando a caruma macia, tentei lê-lo em voz alta. Não consegui. Lágrimas nos olhos, a pele arrepiada, a voz comovida.



rompem flores das paredes,
quando das minhas mãos
são já os netos que procuram
alguma coisa para romper.
bordadas em mil cores,
carros de linhas em círculos sobre a mesa,
cata-ventos coloridos girando na janela,
crianças que riem e correm
num sábado de sol.
plumérias, rosas, lírios, jacintos,
narcisos e miosótis,
frágeis peónias, gentis amores-perfeitos,
erva-doce, alfazema, um singelo malmequer,
rompem flores de todas as paredes
na nossa casa-poema,
e do meu corpo, útero criador, rompem
dores e alegrias
e flores,
de avó, mãe e filha, mulher.


(a minha casa vista do exterior, aqui, in heaven, onde se vêem dois dos brinquedos com que os meninos sempre brincam quando cá estão)

Obrigada flor. Quase fico com vontade de continuar a ir deixando sementes no seu a faca não corta o fogo na esperança que delas rompam sempre flores tão belas como este seu poema.