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domingo, março 03, 2019

Como um rio que se funde noutro





Olho-me nos olhos. Nunca tive medo de espelhos. As pálpebras, o rosto, as rugas hesitantes que me atravessam a testa. Os cabelos brancos e abundantes. O torso ainda firme e um pouco mais compassivo. O desejo discreto mas imparável. A fala fácil mas um nadinha mais ponderada. Onde está a minha idade? ´Vai aos ziguezagues', diria Sabato. Atiro-me para as nuvens, como sempre fiz, agora mais diurnas. Mais próximas da mão. Deixo-me envolver por elas, 'nuvens que envolvem o tempo', leio num dos poemas da loucura de Hölderlin. Agarro como posso os restos da minha própria. Restos? Olhando para o mar é como se ela, a loucura normal, fosse uma variante do meu olhar nos espelhos da casa, entre estantes caóticas, como gosto que sejam as estantes dos outros, jamais as minhas, encontrar o que não espero encontrar, mas o que mais me concentra nesta casa é o mar, o espelho do mar, o seu peso oscilante, como se ele fosse outro rosto meu, vacilante como o meu, enquanto o olhar de Myah, de todos o mais brilhante, não entra pela casa dentro. Onde estás tu? Como um rio que se funde noutro.


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Palavras de Casimiro de Brito in 'Uma lágrima que cega' ao som de Yann Tiersen com The lost notebook. As fotografias são de Emma Tempest. 

No fim, "On Growing Old" de John Masefield é lido por Tom O'Bedlam e os bailarinos de Introdans dançam Unfold numa coreografia de Robert Battle ao som de uma ária da ópera Louise de Gustave Charpentier

sexta-feira, março 01, 2019

A beleza efémera das borboletas




A beleza efémera é qualquer coisa que me emociona. Por exemplo, se vejo a transparência e intangibilidade de todo o espectro cromático a atravessar um céu pesado e cinzento, penso que isso vai durar apenas uns breves instantes, um arco-íris perfeito a nascer para logo desaparecer como se fosse um golpe de magia,  uma aparição inesperada, fatal. 

Ou uma flor que nasce, perfeita, e que, passados uns dias, já não existe. Um espanto. Talvez por isso, quando me oferecem flores e começam a secar, deixo que sequem, deixo que fiquem assim, acho-as bonitas na mesma, tenho pena que acabem, custa-me deitá-las fora. A minha prima, há algum tempo, ofereceu-me um ramo de flores lindas. Ainda as conservo. Estão na jarra em que as coloquei na altura, continuam lindas.

E aquela borboleta tão bonita que tenho lá in heaven. Tão linda. Foi ficando lá, eternamente bela. E, no entanto, que vida curta teve.


Tenho, desde sempre, o prazer -- e a necessidade -- de fazer fotografia. Captar o instante. O instante breve, efémero, para sempre fixado. 

Quem escreve um livro, quem pinta um quadro, quem compõe uma música tenta conquistar a eternidade, deixar a sua marca para todo o sempre. Há quase um egoísmo, um lutar contra a efemeridade. Sabe-se que alguns autores ou pintores ou músicos editam e editam e editam a sua obra em busca da perfeição. Não querem correr o risco de deixar marcas da sua imperfeita humanidade.

Mas há algumas pessoas para quem não é bem assim. Há pessoas que fazem belas esculturas de areia sabendo que virá uma onda ou a chuva ou o vento e que toda a obra se esvairá, o trabalho tido em vão. Surpreende-me que, apesar disso, os autores se dediquem com um afinco total como se estivessem a produzir uma obra eterna. Acho que há nisso uma certa bravura e uma espécie de generosidade absoluta. São a excepção. São quem está mais perto do mundo da beleza natural, perecível, desinteressado. 


Volto às borboletas. In heaven há borboletas amarelas ou brancas ou castanhas e amarelas. Lindas. Parece mentira que existam. Parece mentira que apareçam, quase do nada, de onde menos se espera, uns seres alados, coloridos, perfeitíssimos, quase etéreos. Seres de uma coragem abnegada. Nascem para embelezar o espaço por onde andam e para dar a vida por outros seres. Um milagre quase incompreensível. Uma ficção em que ninguém acredita.

E, no entanto, quase não as vemos, como se fossem banais. Não são. São magia em estado puro.

As imagens que aqui partilho convosco são verdadeiras obras de arte, fotografias muito ampliadas de borboletas ou traças que integram a série Metamorphosis. O autor é Jake Mosher. Parecem pinturas, tapeçarias, obra laboriosa, inventada, infinitamente editada. 


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Que a beleza, em qualquer das suas múltiplas formas, vos acompanhe. 

quarta-feira, fevereiro 27, 2019

Trompe l’oeil: a arte da ilusão




Mais do que os ângulos óbvios, a mim atraem-me os dúbios, os súbitos, os incompreensíveis. Se possível, indecifráveis.


Claro que uma flor é uma flor é uma flor e que, por isso, há que respeitá-la não a mascarando entre ilusões. Ou uma árvore. A dignidade de uma árvore não permite a dispersão. Afinal uma árvore também é uma árvore também é uma árvore. Mas o reflexo de brinquedos numa janela de vidro de onde se vê o jardim pode dar uma ilusão interessante. Ou o emaranhado a la Pollock de mil pequenas folhas, pequenos pauzinhos, pedrinhas, florzinhas -- também curioso. 

Também me interesso pelo que não se vê do exterior. Uma fenda numa parede de onde nasce uma luz vinda não se sabe de onde, um navio que nasce de um telhado plasmado na janela da minha sala, uma lua suspensa nos ramos nus tangenciais a um telhado.

Na vida a três dimensões também me interesso pelo que existe sob a pele, seja a minha, seja a dos outros. 

Por exemplo, alguém sempre sorridente que, afinal, está em sofrimento por uma razão que ninguém imagina e que precisa tanto de desabafar. Ouvi-la, espantar-me por ela saber disfarçar tão bem. Ou outra pessoa, conhecida pelo seu profissionalismo numa área bem comum e que, afinal, é também pintora, com obra exposta. Ou um outro, pessoa com vários cargos relevantes, uma vida profissional preenchida, com muitas viagens a muitos países, alguns bem longínquos, e que, afinal, nada conhece do seu país e, na verdade, pouco parece conhecer do mundo real.

Situações que fazem nascer a vontade de olhar melhor, de prestar mais atenção para conhecer o que está para além do imediato. A vida como uma infinita sucessão de camadas quase invisíveis. Ou de véus. Ou de espelhos.

Isto a propósito de.

Sou devota de Steve McCurry. De cada vez que há uma entrada no seu blog, vou logo espreitar. E são sempre imagens extraordinárias, algumas das quais cometi a ousadia de trazer aqui. E gosto de ver as sóbrias citações que escolhe para acompanhar as imagens. O post de hoje tem o nome que dei a este meu. E foi de lá que também transcrevi, em tradução livre, o que abaixo coloco em itálico.
Vivemos num mundo de fantasia, um mundo de ilusão. A grande tarefa que temos na vida é encontrar a realidade.
– Iris Murdoch
Há uma ilusão de óptica em cada pessoa que conhecemos 
– Ralph Waldo Emerson
Sou obcecada com o trompe l’oeil – a ideia de algo que existe e não existe
– Alessandro Michele

Não é todo este mundo uma ilusão?
– Angela Carter


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Trompe L'Oeil -- Jiří Kylián