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sábado, abril 06, 2013

Tribunal Constitucional chumba normas do Orçamento de Estado de 2013 em valor superior a mil milhões de euros. E agora Passos Coelho? E agora Paulo Portas? E agora Cavaco Silva? Um Conselho de Ministros extraordinário convocado para este sábado em que um Passos Coelho de saia muito justa, um Gaspar com o excel todo baratinado, e um Portas com as orelhas a arder vão bater com a cabeça nas paredes até que a empregada da limpeza apareça, corra com eles e tome conta da situação. E será melhor que eles. Entretanto: "Se por acaso"....


As contas públicas de Portugal apresentavam um desequilíbrio que urgia corrigir e eram patentes quais as áreas em que era necessário actuar. 

A recomendação da troika apontava para dois terços do lado da despesa, um terço do lado da receita. O documento foi aceite pelo governo da altura e pelo PSD e CDS.




O Governo dispunha de uma maioria que lhes permitiria governar de uma forma limpa e ordeira.

(No entanto -e quem aqui me costuma acompanhar sabe que é verdade - nunca acreditei que o conseguissem. Do que conhecia daquela gente, nada de bom era de esperar.)




Passos Coelho aliado a um fundamentalista irresponsável, o Gaspar-não-acerta-uma, e com a orientação política do Vai-estudar-ó-Relvas, resolveu actuar como uma criança de quatro anos a quem se dá uma tesoura. Cortou a eito. Ou seja, só fez porcaria.

Cortes à bruta, sem anestesia, sem tino, supostamente temporários. Estupidez. Quando se pediam reformas estruturais, fez saques ao bolso das pessoas, a funcionários públicos, pensionistas, contribuintes em geral. Não era nada disto que deveria ter sido feito. O que este governo tem feito é imoral, injusto e, em alguns casos, inconstitucional (e, pior: completamente desajustado, estúpido, produzindo o efeito contrário ao que se desejava). As medidas que tem tomado apenas produzem efeito nos anos em que ocorrem os saques. Uma vez reposta a legitimidade, o desequilíbrio volta. Uma estupidez sem pés na cabeça.




Mas gente pouco inteligente e obstinada é assim mesmo: faz burrice, desobedece, provoca, quando repreendido faz ainda pior.

O resultado está agora à vista.




Tal como o orçamento do ano passado, o problema deste Orçamento de Estado é pior ainda do que ser inconstitucional, sempre aqui o disse. É inexequível. Prova disso é que em Janeiro já estava desactualizado e já foi revisto várias vezes, e a cada quinze dias novos ajustes se mostram necessários. Ou seja, é inconstitucional para nada porque, mesmo sendo-o, já era inexequível.

O caminho que está a ser seguido por Passos Coelho é um não caminho, é um tropeção, é uma queda no abismo sem paraquedas. Nada bate certo porque isto é um caminho para o nada.

Este Governo não respeita a Constituição, não respeita os portugueses, não respeita a História e só faz porcaria, dá cabo do que já não estava bem. Incompetentes, ignorantes, impreparados. Uma vergonha.




Já que os deputados da maioria são acéfalos, gente sem opinião própria, gente sem conhecimentos, e resolveram aprovar o OE2013 apesar deste ser um aborto, Cavaco Silva, que tem obrigação de perceber de economia, finanças e gestão orçamental, deveria ter chamado os incompetentes que o fizeram, deveria obrigá-los a um curso acelerado da matéria, deveria exigir que fizessem um OE decente. Mas não.




Com aquela sua peculiar e incompreensível de agir, em vez de o mandar para análise preventiva, não apenas o aprovou como o mandou para a apreciação sucessiva.




Agora, em Abril, rebenta-lhes nas mãos uma castanha quente deste tamanho. Daqui a nada a meio do ano e uma destas.

A minha reacção: azarinho deles que estavam mesmo a pedi-las. Não foi por falta de aviso. Toda a gente avisou o governo e Cavaco Silva.




Mas não estou contente com nada disto, claro. É que o drama não é para eles: o drama é para nós,  entregues a esta gente que não tem estatura para ser governante, estadista, não têm conhecimentos nem para estagiários de contabilista.

As ordens do Tribunal Constitucional não deixam margem: o que é inconstitucional deve ser corrigido e com efeitos retroactivos a janeiro.

Os sistemas informáticos e o pessoal que trata destes assuntos vai ficar de cabeça perdida. É um faz e desfaz complicado. Mas isso, sendo grave, é o menos. O pior é o impacto nas contas, a confusão, o descrédito, o não saberem como agir.




Se o Governo já estava 'tem-te não caias', com uma destas, então, o caldo está entornado de vez. Tanto as pediram, que as tiveram.

No final deste sábado ainda haverá Governo?




Assunto a seguir.


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As fotografias que ilustram este post e que mostram criaturas assim a modos que talvez, foram obtidas na net.

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Como este assunto é deprimente e eu detesto ir-me deitar tendo acabado o dia com coisas desagradáveis, aqui vos uma música deliciosa. 


JP Simões e Luanda Cozetti - Se Por Acaso



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Muito gostaria ainda de vos ter lá pelo meu Ginjal e Lisboa. Hoje não há por lá conversa que se recomende. A culpa é de Alberto Pimenta... A música é Gaitafolia com as gaitas de foles. Uma animação. Apareçam, está bem?


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E é isto. Desejo-vos, meus caros leitores, um sábado muito agradável.


domingo, janeiro 20, 2013

No Ginjal, as árvores que tombaram à fúria de um leão embravecido em noite de vendaval. E uma solitária mulher pássaro que enfrenta um Tejo revoltado. E a pele.





Toda a noite de sexta para sábado o vento rugiu, inclemente, senti-lhe as patas batendo com violência nas minhas janelas. De manhã a janela do meu quarto estava estragada, deve ter sido ele a tentar entrar, o vento desembestado. Eu, na minha cama quente, aconchegada e indefesa, e o bruto ali, respiração ofegante, impaciente, impetuoso.

De manhã, quando me levantei, fui espreitar a rua. Chovia muito, pouca gente na rua, e o vento ainda a rondar.

Mas só ao fim da tarde consegui ir até à beira do rio. Que não, que não, que não estava tempo para estar ali, tantas pedras que podiam rolar lá de cima, tanto frio, tanto vento. Mas lá fomos.

Podia lá eu deixar de ali estar num fim de dia assim? É que é em dias assim que eu tenho este lugar mais para mim e eu tenho esta forma de gostar, tenho o prazer da posse mesmo sabendo que não se consegue possuir o que não se consegue domar.

Percorri, pois, este lugar e éramos só nós dois, mais ninguém. Ninguém. Frio, frio. Passei a écharpe que levava à volta do pescoço pela cabeça. 

As casas abandonadas, destelhadas, desoladas. No entanto, numa delas parecia ver-se uma luz. Talvez fosse a luz do restaurante. Ou talvez no meio do abandono, uma luz sobreviva ainda, acesa, esperando que alguém volte a viver entre aquelas paredes.




E o vento tão gelado, o rio de longe quase parece cinzento, baço, batido, agitado, envolto numa neblina gelada. A mesma impaciência do vento, agora nas águas.

Lá em baixo, a desolação. Algumas árvores arrancadas, quebradas, por terra. O vento quando avança assim, se apanha as presas indefesas, faz-lhes isto, derruba-as, deixa-as sangrando por terra. Gozou, o malvado, e depois deixou-as, esventradas. Uma chacina.




Poderiam ser gazelas mortas, vítimas de uma noite de loucura, leões à solta, feras sem compaixão. As pessoas fogem de lugares assim, não gostam de testemunhar a fúria animalesca da natureza, temem-na.

Mas eu gosto, se calhar não sou uma pessoa muito normal.




Algumas das árvores estavam arrancadas de forma violenta, via-se que tinham dado luta; mas outras, como esta aqui acima, tombou, rendeu-se. Imagino-a a esvair-se, assustada, a desmaiar, donzela serena na rendição. Lisboa, do outro lado, é também uma donzela sereníssima, tombada rente ao rio, rendida também, bela no seu sossego.

Percorro os caminhos, sinto o cheiro frio da maresia, vejo se as árvores ainda de pé estão bem seguras.




A terra ensopada, os caminhos espelhados, tanta a humidade, um frio cortante, e o vento ainda soprando, já cansado dos destemperos da noite e da manhã mas ainda ali presente. O rugido, ah se ouvissem o rugido, ainda ele ali escondido atrás das árvores ou no fundo do mar, que o rugido parecia vir também do rio, um rugido, um rugido cavo, rouco. E que bem que eu me sinto em lugares assim, sem ninguém, a natureza à solta e eu, parte dela, pronta a sair voando.

Mas sempre, vamo-nos embora, não está tempo para estarmos aqui, não se consegue estar aqui, e, porque será que não há ninguém, já pensaste nisso?

Mas não estávamos sozinhos. No meio da erva molhada alguém me olhava, surpreso. Eu andava, falava com ele e ele de olhos fixos em mim.




Há muito tempo que não o via, o pequeno pássaro preto de bico amarelo. Ali estava ele, indiferente ao vento, ao frio, ao rugido do leão furioso. Tranquilo mas surpreso. Eu e ele, pequenos, olhando-nos nos olhos.

Depois viu que eu vinha em paz, reconheceu-me, somos ambos bichos destas paragens, e, então, levantou voo, partiu para a beira do rio. A vida continua, pensou ele e pensei eu. Novas árvores serão plantadas, a vida renasce porque nenhuma perda é definitiva. A vida continua.

E eu continuei, agora a caminho de me ir embora. 

Mas ia pensando: sentirão dor as árvores quando são agredidas assim? Uma perna decepada, o sangue ainda escorrendo, os ossos à vista, os nervos, as raízes cortadas, inúteis.




Mas então reparei. Ao fundo, lá ao fundo, na ponta do cais, confundindo-se com a árvore, um pequeno vulto. Mais ninguém, nem gatos, nem gaivotas, apenas nós, o pequeno pássaro preto de bico amarelo e agora aquele pequeno vulto.

Aproximei-me.




Um muito improvável vulto feminino, elegante, calças justas, botas altas, de tacão alto, uma capa amarela esvoaçando. Uma mulher pássaro, talvez. Uma mulher pescadora desafiando a impaciência do rio, desafiando o vento, o rugido do leão.

Olho-a. 

Lisboa começa a acender as suas luzes, o frio está irrespirável, a noite começa a aproximar-se. Durante todo o tempo que a olhei não puxou a linha, não lançou de novo, nada. Esperaria um peixe, esperaria que, do fundo do rio, saísse o monstro que rugia impiedoso?




Mesmo na ponta do cais, o rio impaciente, um vento que parecia quase levá-la, e ela ali, sozinha, capuz na cabeça, parecia ter um casaco de pelo com capuz por baixo da capa amarela, elegante e solitária.

Em dias assim, em que a pele pede excessos, em que os sentidos aceitam desmandos, loucuras, são as mulheres e os pequenos pássaros que saem à rua, que voam sobre as águas que correm, desafiando a sorte, os medos, os rugidos assustadores e invisíveis, que enfrentam a improbabilidade dos tempos.

*

Na superfície baça dos dias
à superfície esquiva do tempo
coalha-se a luz estranha, doce e agreste
de todos os poemas.
Ao vento, à chuva,

onde as memórias se apagam,
onde a areia cobre de tédio os olhares
ouve-se uma voz longínqua
do fundo raso do silêncio.
Aí encontramos a fonte,
o espaço primeiro
dos mármores interiores do vento,
capaz de escolher as palavras exactas
o caminho
que talvez,
quem sabe,
sempre tivéssemos procurado.


['Um poema para o misterioso vulto feminino de capa amarela' de Joaquim Castilho num comentário aqui abaixo]




*

A música é 'A pele' e é interpretada por Márcia e JP Simões. 

*

E agora que a invernia acalmou, desejo-vos que tenham, meus Caros Leitores, um belo domingo.