Mostrar mensagens com a etiqueta L'Arpeggiata. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta L'Arpeggiata. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, agosto 03, 2022

Os mais qualquer coisa de entre os bloggers que sigo (Parte 2):
o mais cirúrgico e o mais inesperado.

 

No seguimento do post de ontem no qual festejei o blogger mais jovem, a mais criativa e o mais romântico, seguem-se hoje outros que se destacam.


O mais cirúrgico. Um dos mais oportunos, mais precisos e mais contundentes nas análises ou denúncias que faz. Não vai em cantigas, mantém-se fiel aos seus princípios e, por mais canelada que leve, não desarma nem baixa os braços. E não manda dizer por ninguém, não rodeia, não usa meias palavras. E como escreve bem... Para além do dia a dia há a série Revolution through evolution -- as recomendações ao início da semana, cada uma mais relevante ou curiosa que a outra. E depois há a turminha do desacato que atrai e que, à porta do blog, nos comentários, arma sempre uma divertida baderna. Esmeram-se nos nomes que inventam e batem-se taco a taco com os nomes que já fazem parte da mobília. Se fosse um bar, seria daqueles em que, a par de uma boa tertúlia, frequentemente acabam todos à batatada (para no dia seguinte lá estarem, de novo, todo caídos).

Valupi do Aspirina B

Alguns exemplos:

Ao assistir à entrevista a Luís Montenegro, dei por mim a concordar com o que sempre achei dele: eis aqui um tipo simpático, bonacheirão, com quem deve ser impecável estar na comezaina e na copofonia. E deste assentimento confirmado saltei para um estado de empatia. Sentia que conseguia sentir o que ele sentia acerca de si próprio ao ser apertado pelo excelente Paulo Magalhães. Foi assim que fiquei a saber, graças à magia da empatia, que o Montenegro sabe que mesmo nos seus melhores dias não passa de um político inane, merdolas.

O futuro da direita não decadente precisa da lhaneza e virtude de Moreira da Silva ou similares. Isto para começo da conversa.

in Empatia para Montenegro

..............................................

Quem ler mais esta ladainha contra as democracias liberais – Estamos a matar a democracia? – facilmente conclui que o putinismo da Soeiro Pereira Gomes é a consequência de já não se ouvirem os amanhãs que cantam. Passam agora os dias a olhar para o abismo, com as consequências que o outro há muito descreveu.

in Tadeuismo

.................................................

«Quando eu ponderar uma vida no crime, a primeira coisa que eu vou fazer é construir um altar todo em talha dourada em honra de Ivo Rosa lá em casa e rezar-lhe uma oração todas as noites.»

Araújo das piadolas

Existe uma campanha contra Ivo Rosa, a qual une a direita política e mediática num coro de perseguição obsessiva como nunca se viu igual a respeito de um juiz em Portugal – só comparável à perseguição a Sócrates. Tal deve-se à Operação Marquês, tendo começado logo que Carlos Alexandre ficou em risco de perder o controlo absoluto sobre o seu desfecho. É uma campanha que não aflige os partidos da esquerda pura e verdadeira, nem o PS, nem o ministério da Justiça, nem o sindicato dos juízes, nem o Presidente da República, nem a minha vizinha do 4º andar. Trata-se de uma campanha alegre, portanto, e que continua porque todo o dano que se lhe conseguir fazer promete trazer ganhos para o dano maior que se deseja venha a atingir Sócrates (logo, a também atingir o PS, embora o PS de Costa conviva muito bem com essa armadilha onde os direitolas estão enfiados a ver a caravana do poder a passar).

O Sr. Araújo e coleguinhas televisivos pagos pelo Balsemão são três dos mais influentes carrascos de Ivo Rosa na comunicação social “de referência”. Fazem-no a coberto do registo “humorista”, para que o cinismo e a sonsaria atinjam o grau máximo de veneno no espaço público. Na citação acima, este “comediante” recorre ao sensacionalismo para broncos e trata literalmente Ivo Rosa como cúmplice de criminosos. Só rir, né? O Estado de direito e as legítimas diferenças na interpretação e aplicação da Lei que se fodam, viva o culto dos justiceiros que despacham a bandidagem com cordame e autos-de-fé.

Um estudo da Marktest analisou 60 e tal figuras públicas e descobriu que Ricardo Araújo Pereira é a personalidade com quem os portugueses sentem mais empatia. Ocasião para recomendar a leitura do Against Empathy, onde a tese é precisamente a de que a empatia pode boicotar, e mesmo anular, a deontologia e a ética – ou seja, a empatia pode servir para as maiores canalhices. É o caso com esta pulharia paga a peso de ouro, as vedetas da indústria da calúnia.

in Against empatas 

__________________________________________________


O mais inesperado. Inconstante. Incerto. Indescritível. Intuitivo. Insólito. Nem sei bem dizer porque lhe acho a graça que acho. Mas acho. Apesar de uma certa maluqueira, encontro ali opções estéticas que me agradam e um certo gosto pela provocação que também me agrada. Talvez seja um dos bad boys da blogosfera. É pena que seja tão maçadoramente bissexto e é pena que não se esforce mais. Não fora isso e habituar-me-ia ao seu encanto. Assim, apenas está quase lá...

O anão gigante

in Sharing is caring

......................................................................

Paul Outerbridge
André Kertész

in Projecto Díptico vertical #283

....................................................................................

todos os instantes de

infalibilidade e glória

em que estive 

certo, axiomático, infalível, convicto,

por conhecimento ou instinto,

com e/ou sem argumentos,

vencendo adversários, contendas e litígios,

trocaria por este

em que a verdade é minha

e tudo o que quero 

é estar 

errado


in Summa cum laude 

...................................................................

The Sisters of Mercy, Henriette Browne
Word of the Day por Bella Tokaeva

Empalidece a arte ao encarar o fruto da natureza.

Summa Theologica, S. Tomás de Aquino c.1272

 in  Ars autem deficit ab operatione naturae

_____________________________________________

Amanhã tentarei continuar. Tenho ainda que falar do melhor mestre relojoeiro que, afinal, é um disfarce pois a verdade, verdadinha, é que poderia fazer parte da mesma tropa de choque a que também pertence o sniper mais certeiro da blogosfera. Ou do historiador mais lhano e objectivo cujos textos gosto de ler em voz alta para o meu marido. E de outros. Ou outras.

Contudo, o tema dos novos precários também está a pedir para eu o agarrar. O mundo mudou e a precariedade assume novos contornos e toca os mais insuspeitos. Noutros casos, são os precários que não querem deixar de ser precários. De uma forma ou de outra somos todos descartáveis e é bom que o assumamos com humildade. Mas é um tema caleidoscópico. Apenas a malta mais obtusa o vê como um tema linear suceptível de ser resumido num slogan que seja martelado em manifs de aspecto vintage.

No entanto, para falar disto terei que ter disposição para falar um bocado a sério e não sei se tenho paciência ou se aí desse lado há quem, a meio da silly season, tenha pachorra para uma conversa desse tipo.

Amanhã logo vejo.

Pormenor de Apocalypse Tapestry, Angers, França

Como la cigarra (Jaroussky/Andueza/Pluhar)

.______________________________________________________________

Um dia bom

Saúde. Boa disposição. Paz.

terça-feira, julho 26, 2022

Obra de arte comestível, coisa para verdadeiro connaisseur

 



Gosto de cozinhar, já o disse. Mas não gosto de fazer doces. A questão é que sou indisciplinada para além da conta e, por isso, tenho dificuldade em seguir receitas e, na doçaria, ou já se é um doceiro experiente ou não dá para arriscar. O processo em si é daquelas coisas que ou se deesenrola como é suposto ou azarinho, não se consegue rectificar a meio. Ou sai bem ou sai mal. 

Dantes eu arriscava. Mas houve umas duas ou três vezes em que a coisa correu mal e desmotivei-me. Até hoje sou alvo de chacota. Coisa traumatizante demais.

Numa das vezes, não me lembro que doce era, quando se estava a servir, detectou-se que uma colherzinha usada no processo lá tinha ficado dentro. Ao servir e dar com a colher foi o fim da picada. Risota geral que perdurará até ao fim dos tempos.

Outra que não cai no esquecimento foi um arroz doce que, no fim, em vez de estar em estado quase sólido, empapadinho e gostoso, bom para ser delicadamente polvilhado com canela, se apresentou líquido, um ofensivo leite com grãos de arroz a boiar.  Um tacho com um caldo humilhante. Gargalhada geral. 

Mais tarde, uma amiga, engenheira química de formação e estudiosa da química aplicada à culinária, explicou-me: como sempre, não segui a receita, ou seja não juntei o açúcar na devida altura, juntei-o antes de tempo fazendo com que o arroz ganhasse uma crosta impermeável, impedindo a absorção do leite. Mas só soube isto anos depois pelo que, na altura, o fenómeno pareceu injustificável, aselhice de alto calibre. Foi tão traumatizante que não ousei reincidir. 

Outra vez fiz um doce que ainda hoje recordo com saudade. Estava mesmo bom. Fundi chocolate, juntei uma raspinha de casca de laranja e misturei com frutos secos (alperce, ameixa, passas, cajus) e cristalizados (cascas de laranja, ananás, pera). Não me lembro se levava mais alguma coisa. Coloquei num tabuleiro e levei ao frigorífico para solidificar. Depois cortei em cubos. Como gosto de chocolate com um saborzinho a laranja e de frutos secos e cristalizados, achei delicioso. Mas só eu achei. O meu marido, na altura, mal tocava em doces. Agora, com o passar dos anos, está a ficar guloso. Mas na altura não lhes tocava. Os meus filhos, por seu lado, odiavam frutos secos e cristalizados. Nem quiseram provar. Só de olhar, já sentiam repulsa. Acabei a comer sozinha um doce que era uma delícia. Mas delícia que não é partilhada não é alegria, é frustração.

Entretanto, ganhei aquela consciência de que é melhor cortar nos açúcares e, portanto, para me poupar a potenciais novos desaires e para não contribuir com açúcares escusados, no que se refere a fazer bolos ou outras sobremesas, estou fora. Aviso logo: ou compro bolos e/ou gelados ou façam o favor de trazer.

Mas, dito isto, reconhecendo as minhas lacunas técnicas e a minha dificuldade em ser seguidista em relação a receitas, se não pratico a verdade é que frequento vídeos com receitas simples, doces que se fazem na frigideira, no fogão, tal como me delicio a ver vídeos com doçaria artística. Vejo e fico com vontade de superar a inibição castradora. Mas sei que, mal me pusesse em acção, haveria de inverter a ordem dos factores ou arriscaria em ingredientes não previstos e, portanto, as probabilidades de, uma vez mais, me sujeitar à troça colectiva seriam mais que muitas.

Mas quem sabe um dia não me supero e não arrisco um doce com pouco açúcar e que seja uma coisa fantástica de bom sabor, uma mistura improvável, uma coisa arrojada, incapaz de a gente parar de comer. Ou de olhar. Bolo que parece peça de bordado, peça de olaria, obra de arte.

Os bolos que usei para ilustrar as palavras gulosas são da autoria de Leslie Vigil. Parecem bordados nossos, daqueles dos lencinhos de namorados (creio que de Ponte de Lima), coisa de uma perfeição e graça que dá gosto olhar. Pena deve ser cortar e comer.

E vejam, por favor, este vídeo: doces artísticos, lindos, uma loucura de criatividade. Vários doceiros, vários artistas. 

___________________________

Desejo-vos um bom dia

Saúde. Doçura. Paz.

domingo, abril 07, 2019

E é isto que, muito brevemente, tenho para vos contar





Depois das palavras da JV e do Paulo, dois millennials extraordinaires e de quem muito gosto, não quero alongar-me muito pois, tendo-os colocado aqui no palco, não quero que as luzes se desviem deles. 

Por isso, num breve registo, tenho a informar que o carro, ontem à noite, me alertou para que um pneu estava com pouca pressão. Tendo o meu marido posto mais ar, voltou a assinalar o mesmo. Com receio que fosse um furo, fomos a uma oficina de pneus. Enquanto o marido tentava estacionar, fui falar com um funcionário. Perante a descrição, confirmou: é um furo. Quando chegou a nossa vez, apalpou-o, mirou-o e remirou-o (refiro-me,obviamente, ao pneu). Depois levantou um bocado o carro, observou-o mais atentamente, depois tirou-o, inspeccionou-o, aplicou-lhe um líquido, pô-lo de molho numa tina... e nada, não descobriu furo nenhum. Presume-se, pois, que o sensor é que se avariou. Está bonito, isto. Quanto mais sofisticados os carros, mais fricotes têm, tornam-se hipocondríacos e tudo.


Tenho também a informar que lá estava um dos concorrentes do Casados de Fresco. Estava sozinho, discreto, homem normalíssimo. Olhei, observei e inspeccionei-o e não detectei nele sinal de nenhuma das parvoíces que lá fez nem sinal que fosse maluco a ponto de participar em tal programa. Só me faltou pô-lo na tina a ver se, debaixo de água, deitava bolhinhas. Mas presumo que o problema tenha estado, também, nalgum neurónio avariado.

Tenho também a informar que, há bocado, depois de jantar, estando aqui a fazer zapping, quase dei um salto. Impossível. Chamei o meu marido que confirmou. O actor principal da novela, um jovem bonito e até agora desconhecido (para mim), era, nem mais nem menos, o rapaz que ontem estava no boteco, na mesa ao lado da nossa, a comer marisco com uma jovem digamos que carismática. Ele há coisas.


Mais informo que, tendo chegado a casa, in heaven, o meu marido saíu, foi para a sua ocupação preferida, e eu fiquei em casa, e peguei num livro do Ruben A. e pus-me a ler. Depois, passado um bocado, a ver se me dava o sono, liguei a televisão. Estava a dar um filme de adolescentes. E o curioso é que fui ficando, a gostar de ver, sentindo-me pouco normal por estar sem dormir, sem ler, sem sair para passear e fotografar, ali a ver um filme de quando os adolescentes do filme ainda eram adolescentes de verdade. Agora devem andar pelos cinquenta.


E a seguir, quando o filme acabou, peguei na máquina e saí, andando devagar, fotografando. Lá em baixo, ao fundo, andava o meu marido. Fui buscar um serrote e fui cortar ramos até que o céu, cinzento, pesado, muito escuro, foi baixando, baixando, até que rebentou, E umas pingas grossas começaram a cair. Ele chamou-me e foi andando e eu fiz que não ouvi e fui ficando. E a chuva veio com força e eu fiquei molhada e da terra veio aquele cheiro morno a mulher fértil e eu ali, maravilhada, abrigada debaixo das árvores e os pássaros a cantaram ainda com maior alegria.

Voltei quando o ouvi a chamar por mim. Já eram quase oito da noite mas ainda não era bem de noite. Vinha feliz da vida, sentindo que nada melhor do que respirar o ar límpido, húmido e perfumado que habita este heaven onde o tempo passa devagar, onde os anjos esvoaçam devagar. E é isso que, assim, muito brevemente, tenho para vos contar.


----------------------------------------------------------------------------------

E queiram, por favor, descer para lerem as boas palavras da JV e do Paulo
Ah, e também para verem a fotografia que a JV entretanto me enviou que mostra a fantástica floresta onde gosta de se perder.

------------------------------------------------------------------------------------------

A todos, desejo um belo dia de domingo.

sexta-feira, abril 05, 2019

Como reorganizar a Casa para acolher o novo Povo?





Tenho agora muita gente nova a trabalhar comigo. Parte das minhas equipas tem agora menos de trinta anos, a maioria situando-se nos vinte e poucos. O mais velho do grupo dos jovens tem trinta e um. Depois de andar a ouvir teorizar sobre os millenials eis que me deparo agora com a necessidade de saber lidar com gente que nasceu numa era que nada tem a ver com aquela em que a maioria dos outros, os cotas, nasceu. Alguns destes já são bem mais novos que os meus filhos.

Gosto imenso de lidar com maltinha nova mas a verdade é que conseguir que convivam e trabalhem proveitosamente em equipa com gente acomodada, habituada a métodos de trabalho e a atitudes comportamentais que pouco evoluíram deste os tempos de antanho é um desafio.


Estes jovens pensam muito em férias, gostam de conviver, trazem o almoço de casa e gostam de ali estar numa boa tertúlia, combinam encontros e passeios, viajam muito, para longe. E investem na sua própria formação, fazem cursos fora de horas que pagam com o que ganham. E entreajudam-se, partilham informação e conhecimento, têm pensamento estruturado. Ao princípio passei por momentos de estranheza. Um, um dia destes, contava-me a crise com a namorada, e estava emocionado, e eu dizia-lhe que não valia a pena contar-me tudo e ele insistiu, disse que era para eu perceber porque é que andava com dificuldade em concentrar-se e porque é que quase não dormia e por isso andava tão cheio de sono. Nessa altura andei desconcertada, a pensar que tinha cometido um erro ao escolher um jovem ainda tão imaturo. Resolvi passar a tratá-lo com alguma secura a ver se crescia, pus-me mais exigente. Uma ou duas semanas depois já ele andava feliz da vida e quando me apareceu a dizer que queria mais um dia de férias para ir fazer um fim de semana alargado com a namorada nem estranhei. Perguntei: outra ou a mesma? Desatou a rir. Aliás, penso que me acha uma pândega. Que era a mesma, claro.


Outro dia, estava no gabinete e comecei a ouvir cantar baixinho. Pensei que era alguém, na sala ao lado, a ouvir música. Mas a cantoria continuava, baixinho, afinadinha. Apurei o ouvido até que não me contive e fui espreitar. Eram duas das meninas mais jovens. Estavam as duas sentadas à mesma secretária e cantavam. Quando me viram, ficaram envergonhadas, a rir. Disse-lhes que estava a gostar, que cantavam bem. Engoli o espanto, senti-me até agradada. Já as enviei para outro país, em serviço, e desembaraçaram-se melhor do que muitos dos que têm idade para serem pais dela o fariam.

Se me disserem que não votam não me admirarei. A cena deles é outra. No outro dia um colega dizia que tinha ficado passado: numa entrevista, perguntou ao candidato se ele tinha algum aspecto que quisesse esclarecer e, insensatamente, o jovem lhe tinha perguntado quando é que poderia tirar férias. Expliquei-lhe que se habitue, que a cena deles é serem felizes. Ele olhou para mim, intrigado, como se não percebesse bem que cena é essa.


E isto para dizer o óbvio: o mundo está a mudar. Nunca como agora noto tanta diferença entre as gerações. Quem nasceu e viveu já nos tempos de hoje, da net, da partilha da informação e da comunicação permanente, quem cresceu a ouvir a toda a hora que estamos debaixo da espada da crise, quem desde pequeno ouviu falar contra os escândalos financeiros, contra a grande corrupção e a contra a gananciosa especulação, contra offshores e contra o que provocou a ruína de grandes bancos, contra políticos que não prestam, políticos que defraudam as expectativas de quem os apoiou e que falam um palavreado que não interessa -- tem forçosamente uma maneira diferente de ver as coisas.

E o sistema político, em geral  (ou seja, não falando especificamente em Portugal), não está a saber dar resposta à mudança do mundo. Se o sistema democrático não souber reinventar-se vai perder estas novas gerações. Os jovens não se revêem na organização política actual e nas atitudes dos seus agentes.


E um exemplo paradigmático disto é o vídeo que abaixo partilho convosco. Tem poucas horas, foi gravado na House of Lords. O Reino Unido em risco de desagregação, toda aquela a gente em risco de uma saída desordenada da UE causando confusão nem se sabe bem onde. Há três anos nisto, incapazes de arranjarem maneira de se porem de acordo sobre a forma de saírem do buraco em que se meteram. E os Lordes, cristalizados num tempo que já não existe, com uma linguagem salamalequiana discutindo o sexo dos anjos enquanto os Comuns votam e revotam sem saírem do mesmo sítio e o Speaker grita desalmadamente por Order!. E, nas ruas, um outro mundo. Seis milhões assinando uma petição para se voltar atrás, outros perplexos, outros mascarados, outros saindo de lá antes que seja tarde.


E a Rainha continua nas suas visitinhas, enquanto Juncker se esforça por conseguir falar em estado de sobriedade. E em Espanha o Rei anda à deriva aparentemente controlado por uma Rainha que faz plásticas atrás de plásticas, em França o presidente só agora parece ter percebido que tem que fazer avançar as tropas contra os delinquentes que de gosto arrasam Paris, em Itália o governo envergonha a história do país -- e por aí vai.

Em Portugal as coisas vão benzinho mas não completamente pois, pelo que se vê, não conseguimos ver-nos livres de uma múmia ressabiada que volta e meia vem a público assustar as pessoas, mostrando que o passado continua a vir assombrar o presente.

Mas vejam por favor este teatro aqui abaixo. Tem graça... mas terá isto a ver com o mundo real?

..............................................................................

E agora, se me permitem, fico-me por aqui e vou reflectir no assunto

[É que eu hoje estou cansada, tive um dia complicado, e com a chuva acontecem os acidentes e estraga-se o trânsito e perde-se imenso tempo e amanhã o meu dia começa cedo e vai ser daqueles -- e tenho que ir dormir. E que me desculpem por não conseguir responder aos comentários. Tentarei fazê-lo amanhã. Isto hoje não está fácil]


...........................................................................................................

Mas para o post não acabar neste tom meio acabrunhado vou partilhar esta festarola de dar gosto. 
Gosto mesmo.

Encore / L'Arpeggiata / Christina Pluhar / N. Rial / V. Capezzuto / G. Bridelli / J.J. Orliński


E um dia feliz a todos.

[Ah, é verdade, Isabel: agora não consigo ir buscar o nome de cada pintor mas é arte contemporânea vietnamita]

terça-feira, maio 29, 2018

Não me comas... pleeaaaaseeee...


Só para dizer. Não sou puto fã de festas temáticas, festas surpresas ou cenas afins. Quando faço anos, estar com a família mais próxima é do que gosto, e mais do que isso já me fatiga. E é em casa, comidinha feita por mim, nada de barafundas de restaurantes. Quando faço anos de casada, ir numa de escapadinha -- nem que seja ao virar da esquina -- já está bem para mim. Naquelas coisas que alguns casais fazem, de renovar votos com copo-de-água e tudo a preceito, nem que me pagassem. Nem pintada. Nem com a promessa de vida eterna. Uma seca dessas não a suportaria nem á lei da bala.

Espanta-me sempre quando as pessoas se empolgam e afadigam durante semanas a preparar ao pormenor cada coisa de um festejo quando depois o momento se esgota num ápice e pouco fica da trabalheira de quem andou naquela labuta.

A minha filha é assim: gosta de organizar cenas. Se há algum happening, aí está ela a engendrar o como, onde, quem, a imaginar o décor, as toilettes, os presentes, os comes, os bebes, os isto, aquilo e o outro.

Quando era pequena, o que ela vibrava, em antecedência, com o dia da festa de anos. Eu tentava moderar-lhe as expectativas e ia pensando em sucedâneos (caso fossem necessáros) já que, fazendo anos em pleno período de férias, dos vinte amigos que convidava, se aparecesse uma meia dúzia já era uma sorte. Felizmente, com o irmão, os primos e os miúdos do prédio a coisa compunha-se. Mas, depois, das mil brincadeiras que imaginava e preparava com um entusiasmo que me enternecia, poucas conseguia fazer e, por volta das nove ou dez da noite, já os amigos se iam embora e já ela ficava desolada por ter acabado tão depressa.

Não sou disso.

Mas que não se pense que me acho melhor do que alguém que seja festeiro. Não. Cada um é como é -- e aprecio a veia festejadora de quem a tem.

Eu, mesmo nas datas mais simbólicas, não me dá para festivais. Quando fiz um aniversário bem redondo, tinha pensado vivê-lo em Florença. Mas uma pessoa da família estava gravemente doente e irmos para fora parecia arriscado. Fomos, então, dar um passeio no país, regressando a tempo de jantar com a descendência que, na altura, ainda não contemplava netos. Ainda me lembro da minha filha se queixar que o bolo poderia ter sido mais artilhado. Devo ter ido comprar na primeira pastelaria que, àquela hora, estivesse aberta*.

A verdade é que embirro com bolos de aniversário que têm muita cor, muito acúcar e pouca arte. Parecem-me uma piroseira. Quanto mais simples, melhor. O ano passado comprei a tarte de framboesas da Padaria Portuguesa e adoraram. É pequenina, só dá mesmo para provar. Tem que se trazer outros bolos.

E digo 'trazer' porque os vou sempre 'buscar' à loja. Fazer bolos não faço. Não dão para improvisar. Se me ponho a juntar beterraba para ficarem encarnadinhos, sei lá se ponho na dose certa e, às tantas, não fica o bolo todo mal saboroso. Ou se invento de misturar sumo e casca de laranja, amêndoas e cenoura ralada sei lá as doses para ficar na textura certa. Uma vez fiz um doce que consistia em chocolate derretido a envolver frutos secos, passas, fruta cristalizada. Ia ao frigorífico a solidificar. Quando secava ficava como que um chocolate sólido, com alto recheio. Adorei. Os miúdos detestaram. Os mais crescidos acharam que estava calórico demais. Foi a gota de água. Resolvi que não estaria mais para me aventurar a dar o meu melhor e ainda por cima ser criticada ou gozada. Foi o ponto final.

Comida de tacho ou forno, não: dá para rectificar, acrescentar, disfarçar. Gosto. É a minha praia. Nos bolos tem que se ensaiar, ver se fica a contento, e, se for aprovado, repetir. Ora repetir é coisa que não me assiste. Ou seja, para uma inventora anárquica como eu, mais vale assumir que doçaria é terreno interdito.

Mas tenho pena.

Gostava de ter mão para doces, de inventar e ter a intuição para antever o resultado final.

Uma cunhada do meu filho é uma artista. É capaz de passar horas a esculpir figurinhas que saem bem, são divertidas e saborosas.

Aliás, há gente que faz bolos mesmo artísticos.

Mas, não desfazendo, nada como Elena Gnut, a pasteleira russa de 31 anos que faz bolos que devem causar desgosto a quem tem que os comer. Eu, pelo menos, se fosse um bolo destes imploraria para não me comerem.

(Adiante, que o que eu disse daria pano para mangas...)

A sério: um bolo assim eu gostava de ter numa festa minha. Sobretudo, gostava de ser capaz de fazer fazê-lo e depois partilhar o prazer de ter família e amigos à minha volta, a cantar, a contemplar tamanha obra de arte e, finalmente, a comê-lo, chorando por mais.

Um igual a este, por exemplo, seria, soit-disant, a minha cara. Uma comoção. Nem sei se deixaria alguém dar-lhe uma trinca.


E sai uma musiquinha para ajudar à festa


E mais um bolinho, coisa simples.


Bon apétit

-----------------------------------------------

Um dúvida metódica: 
Será que um bolo assim pensa: 
Não me comas 
ou, pelo contrário, 
Não te acanhes... come-me... vá lá...
?
........................................................................

* Recebi uma sms da minha filha que passo a transcrever: 
Já li. Era e sou assim mesmo. Mas, para variar, não te lembras nada de pormenores. Quando fizeste anos, foste passear e nós, à noite, aparecemos aí em casa e, como não tinhas bolo de anos porque não era para haver nada, eu comprei um salame mas, como estava tanto calor e eu tinha ido jantar fora com o X. porque fazíamos dois anos de casados, ficou todo mole e meio derretido mas ainda deu para cantar os parabéns.
(NB: Agora que o diz, lembrei-me. Bem me lembrava que a cena do bolo tinha dado que falar. E, já agora: quando ela diz que ficou todo mole e meio derretido refere-se ao salame, não ao X.)

segunda-feira, janeiro 08, 2018

Tenho uma horta!


Ia para escrever sobre o que se passou este domingo in heaven mas comecei a ver o filme da RTP, o Freeheld, e deixei-me ficar, de gosto, a ver. Julianne Moore e a Ellen Page (que, por acaso, casou recentemente com Emma Portner) numa história verídica. O sofrimento encenado de uma forma exemplar, muito digna. Uma luta muito triste mas mais do que justa.

Por isso, a esta hora já era para ter escrito e estar na cama e ainda estou no início da escrita. É a minha sina.



Enquanto escrevo, ouço uma chuva leve e penso que devia ser mais forte. No outro dia o vizinho lá da ponta, quando o meu marido disse que ainda bem que já começou a cair alguma chuva, encolheu os ombros e disse que isto não é chuva de verdade, é só chuva de entreter. Mas com esta chuvita miúda que tem caído de quando em vez, a terra humedeceu e começam a aparecer os cogumelos. Estão por todo o lado, de todos os tamanhos e cores. E junto aos muros, rebentam ervinhas, florzinhas. Encanta-me a beleza fractal da natureza.


Os troncos das árvores, e mesmo os velhos troncos mortos, cobrem-se de líquenes, uns amarelos, outros brancos, uns mais rendilhados, outros mais aveludados. E em tudo eu vejo perfeição. Aprendendo, aqui na natureza, a conhecer as diferentes fases da vida e as diferentes formas de que se revestem, eu aprendo também a aceita e a respeitar melhor os ciclos imparáveis da vida humana.


Mesmo as minhas laranjeiras, tão fracas, tão carenciadas de tratamento (comprei um produto, a ver se vejo como se aplica para tratar delas, coitadas), dão umas laranjas tão bonitas e doces.


Mas fazia mesmo falta, agora, um belo aguaceiro. Ouço um pingo aqui, um pingo ali e, de facto, isso não é nada. 

Aqui onde estou, está a salamandra com um belo fogo e o conforto que resulta deste calor orgânico e perfumado é qualquer coisa de aconchegante e bom.

Mas vou contar para que é que precisava que chovesse a sério.

No outro dia, a meio da semana, o meu filho disse que gostava de vir plantar uma horta, aqui in heaven.

Sempre teve esta ideia mas o terreno é hostil, pedregoso. Pelo menos era. Cada vez parece mais fértil.  Já vos contei sobre esta transformação que parece mágica. Até a terra escureceu, se tornou mais macia. Deve haver explicação lógica mas a mim, que pouco sei de coisas da terra, isto parece-me coisa do domínio do mistério, do quase divino. Só que, ao tornar-se fértil, à terra tudo lhe nasce: silvados potentíssimos, tojo rijo que forma uma mata densa. Quase impossível limpar a terra, torná-la lisinha, despedregada, desmatada.  Mas ele tinha esta ideia desde sempre. Na casa dele já tem a sua horta de que todos lá em casa tratam com entusiasmo. Também eu, de vez em quando pensava nisso. No outro dia, tinha dito ao meu marido: um dia vamos tentar fazer uma horta, podermos comer o que plantamos. Até acrescentei que gostava de ter galinhas e patos para termos ovos. Mas depois veio aquela velha questão: matar os animais nem pensar, não somos capazes. E haveriam de envelhecer e cair para o lado e não nos vemos a lidar bem com a situação. Por isso, pronto, animais de criação, não. Também gostava de ter uma cabrinha. Só que a cabrinha haveria de comer a horta. Por isso, cabrinha também não. Só a horta, portanto. Um dia. Por isso, quando o meu filho disse que gostava de cá vir fazer uma horta, pensei que ele tinha lido os meus pensamentos.

Então vieram cá todos tratar do assunto. Compraram acelgas, beterrabas, couve-chinesa, couve-flor, cebolas, morangos e outras coisas de que agora não me lembro. Vieram enxadas, vieram redes para fazer uma vedação a ver se os coelhos nao dão conta de tudo.


Foram escolher um sítio. É junto à barreira, perto de um pinheiro e de uma figueira. Limparam o terreno, cavaram. Deve ter sido trabalho árduo. Pouco tempo estive ao pé deles pois estava a passear o bebé no carrinho e de guarda aos miúdos que estavam a andar de bicicleta. Depois vim com eles para casa para acabar o almoço, enquanto eles brincavam e brigavam (conforme contei no post abaixo).


Passado um bocado recebi uma sms da minha nora com uma fotografia da horta. Ela própria andou a dispor as plantinhas. Uma maravilha. Estou encantada e desejando que medrem.

Sendo eu da beira do mar e da margem dos rios e devota das ondas, da maresia, do deslizar das águas e do voo das gaivotas, tenho este lado telúrico, muito próximo da terra, como se parte de mim precisasse deste contacto directo com o dela brota e nela vive. 


Depois de almoço fui lá ver. Iam fazer a vedação mas não consegui ficar a fazer a reportagem pois as solicitações nestes dias são mais do que muitas. Mas depois fotografo para vos mostrar. 

Também andaram a cortar ramos de árvores com a motosserra e a transformá-los em pequenos troncos para a lareira e para a salamandra. Custaram a conseguir pô-la a trabalhar. Não dava nem por mais uma. Às tantas acho que perceberam que o motor se tinha afogado e viram, nas instruções, o que fazer nessas circunstâncias. O meu marido com isto nas mãos é um perigo.

Tremo com o que ele vai fazer pois é apologista de fazer limpezas radicais. No entanto, reconheço que estava uma floresta um pouco indómita e que agora já está mais desafogada e limpa.


Não se regou a horta porque, se chover, fica regada. Mas, se de manhã vir que a terra está seca, vamos mesmo ter que regá-la. Penso que cá de cima, com mangueira, se conseguirá regar. Senão levamos garrafões e despeja-se uma pinga em cada plantinha.

E isto tudo para vos dizer que estou mesmo feliz. Não apenas foi um dia muito bem passado como... já tenho uma horta! A ver é se os coelhos não arranjam maneira de entrar através da rede e dar conta de tudo. Dantes, quando plantávamos as arvorezinhas que agora estão gigantes, era frequente chegarmos cá na semana seguinte e os coelhos terem comido tudo. Até os tubinhos de rega eles roíam. Ou, se não eram os coelhos, eram outros bichos. Por isso, fiquei um bocado traumatizada. Mas pode ser que não, que não consigam passar pela rede.

Dar-vos-ei notícias.

......................

E é isto. Caso tenham chegado agora aqui e ainda não tenham visto o belo fogo que esteve de tarde na minha lareira, desçam até ao post seguinte, está bem?

.......................................

terça-feira, dezembro 12, 2017

Estejam à vontade, troquem-me as voltas que eu gosto




Já o disse, não disse? Na beleza eu gosto de uma pitada de insólito, na perfeição eu gosto de encontrar um grão de imperfeição, na harmonia eu gosto de perceber a fractura possível.
Em mim, eu gosto de sentir a vontade para, quando menos se esperar, ser capaz de me portar mal. 
E em si, Caro Leitor, gostaria de lhe sentir a vontade de que eu, a despropósio, fosse capaz de coisas verdadeiramente escaroladas. Mas, pronto, se não for esse o caso, não faz mal. Como diria a grafómana mais criativa do espaço virtual, gosto de vocês na mesma.
Mas vá. Por exemplo. E estou a falar mesmo a sério. No outro dia tive vontade de arranjar um mé-mé de louça ou de cimento para o colocar no meio do meu petit bois. O meu marido não me deu ouvidos. Mas, vocês escrevam: tenho a certeza que ainda hei-de tratar disso. Será uma coisa tão disparatada que mal vejo a hora de ir a passear com os meus filhos, por entre os cedros e pinheiros, o chão atapetado de caruma, os caminhos ladeados por alecrim e madressilva e, de repente, um ingénuo carneirinho de faz-de-conta ali no meio. Imagino o escândalo!  
Mãe!!!! O que é isto?!?!?! Pai!!! Como é que deixaste?!?!?!
Ainda estão na idade de quererem compreender tudo e, claro, um mé-mé naturalista, de cimento, no meio da natureza mais pura não faz qualquer sentido. É que eles terão que adquirir mais alguma maturidade para perceberem que, no inusitado e inexplicável, residirá a graça da ovelhinha. Mas os pimentinhas de certeza que hão-de adorar não lhes ocorrendo a descodificação da opção. A lógica por vezes não é facilmente desvendável, mas eles ainda têm as mentes suficientemente abertas para aceitar sem racionalizar.


Ah, sim, a propósito. Ainda não vos contei.

Há pouco tempo, o vizinho que, lá mais para baixo, tem vacas e rebanhos contou que arranjou uma burra para ela o ajudar a guardar as ovelhas, protegendo-as das raposas. Isto já vos contei. Na altura fiquei estupefacta: raposas por ali...? Sim, sim. Raposas. Só não sei se ruivas se prateadas. Terei que perguntar. 

Pois bem. Agora mais novidades. Contava ele que os cães, pela noite, ladravam, ladravam. Ele e os restantes habitantes do casal (nome que dão ao aglomerado de casas a que eu chamaria quinta) intrigados com aquilo. Levantavam-se e ouviam como que uma correria. E já não viam nada. Até que descobriram: javalis. Javalis correndo estrada abaixo. Diz ele: vêm da serra, vão beber água ao rio. E diz que, pelas pegadas, comprovam que são bichos grandes. Está espantado, ele. E eu ainda mais. Javalis...? Como é que é possível? Que mais ainda vamos nós descobrir que por lá anda...? O urso pardo, afinal não extinto...? Imagine-se que, um belo dia, me aventuro a espreitar para dentro da gruta e me sai de lá o último exemplar do urso-pardo...


Bem. 

E já no outro dia disse: ali tudo aparece. Já mil vezes o contei: era um terreno pedregoso de mato rasteiro e é agora um bosque frondoso. Passarada que só ouvida. Coelhos. Gatos. Por lá perto (espero que não lá dentro), agora raposas e javalis. E um dia. Escrevam. Um dia, um rio. Um dia veremos uma nascente. Depois um regato, depois o regatinho engrossando, virando um ribeiro a querer fazer-se rio. Depois os peixes. Talvez a seguir cheguem os patos.

Uma vez plantei um chorão. Não se deu, precisa de muita água. Pois talvez um dia, à beira do rio que vai nascer lá, nasça também um belo chorão com as delicadas ramagens mergulhadas nas águas. E depois virão as elegantes garças brancas. 

Nessa altura deverei deixar crescer o meu cabelo até bem abaixo da linha da cintura para, quando andar por lá a passear toda nua, poder minimamente condizer com o luxuriante da paisagem. Claro que levarei atrás de mim, voando, umas vinte de borboletas exóticas mas, ainda assim, acho que precisarei de algo mais para não destoar naquele deslumbrante paraíso. Talvez fique bem o meu marido a tocar uma harpa portátil.  E, se estás a ler isto, baby, não te arrelies até porque uma harpa portátil não vai ser difícil de transportar. Pior será o muito que vais ter que aprender para te fazeres um emérito harpista que atraia ainda mais aves canoras e quiçá, também, trovadores.



E que entrem agora os destoantes virtuosos
-- e, atenção, este vídeo é mesmo para ser visto até ao fim.
OK?



E agora tu, Bobby, põe-nos a cantar: mostra o poder da escala pentatónica na criação do espontâneo coro universal.


........................................................

Lá em cima, a interpretar a Sonata para Piano, No 13, D 664. 3rd Movement de Schubert, Radu Lupu.

E aqui em baixo, o fantástico Encore / L'Arpeggiata: Soprano - Nuria Rial; Mezzo-soprano - Giuseppina Bridelli; Male alto - Vincenzo Capezzuto; Countertenor - Jakub Józef Orliński; Ensemble - L'Arpeggiata / Christina Pluhar

E a seguir Bobby McFerrin demonstrates the power of the pentatonic scale, using audience participation, at the event "Notes & Neurons: In Search of the Common Chorus".

As fotografias mostram flores congeladas (em água gelada) e claro está que não têm nada a ver com o texto -- uma coisa na base do mé-mé de faz-de-conta a passear no meio dos cedros, não sei se estão a ver. É como o título... nada a ver.

........................................................................................................................................

E, caso vos apeteça agora um toque de beleza breve, queirem descer um pouco mais.

........................................................................

segunda-feira, julho 24, 2017

Sobre o dia que passou,
enquanto ouço o vento





Este domingo, tal como se previa, foi repleto. Praia de manhã, uma aragem boa, a água fria mas nada de dramático, depois bacalhoada com todos a la maison, preparar petiscos para levar, a seguir superar o trânsito para ver se chegávamos a horas -- indo em carros separados, a maltinha é muita, já não cabe num único carro -- e isto para irmos buscar veraneantes ao aeroporto, o aeroporto mais parecido com dia de feira popular a abarrotar, os veraneantes a chegarem bronzeados e felizes da vida, depois todos para mais uma festa de anos, a última antes de os leões começarem a atacar, o meu caranguejinho mais lindo já um rapazinho, menino mais querido, depois, à noite, de novo em casa, a lida da casa, refeições adiantadas -- uma labuta (mas uma labuta boa). Mas, de facto, de manhã até à noite, uma roda viva. À noite quase me sentia desidratada de canseira. Mas bebi água quando cheguei, dormi uns minutos e reequilibrei a energia.

Estive agora a ver as fotografias que fiz. Todos bronzeados, todos sorridentes. A meio da festa, jogo de futebol lá fora com a rapaziada. Fui com eles, fiz a reportagem. Ouço-os a discutirem, não se põem de acordo quanto a ter sido ou não golo, se estava fora, se foi ou não auto-golo. Um diz que marcou uma tabelinha, outro fala em golo-cueca. Uma linguagem que não acompanho. O mundo do futebol requer, para a sua compreensão, competências que não possuo nem conseguirei, alguma vez, adquirir.


Depois, de novo em casa, os rapazes todos transpirados, uns quantos fazem uma banda. Um toca gaita de beiços, e toca bem, outro guitarra e todo ele inspiração, e duas meninas (no meio de tanto rapaz, hoje, entre os convidados, apareceu uma menina, uma companhia para a minha princesa mais linda que regressou bronzeada, olhos cinzentos ainda mais claros, quase transparentes) ocupam-se da bateria usando caixas de tupperware. O bebé come uma grande papa e mantém-se acordado e ri até que, finalmente, no meio daquele reboliço, adormece. Outro bebé, maior, faz uma ruidosa festa enquanto come e depois desata a gatinhar no meio da confusão dos outros. Os mais crescidos jogam PlayStation. Por fim, cantam-se os Parabéns e come-se o bolo de anos que é, na forma e na decoração, o leão do Sporting. Claro que parte dos convidados diz que se recusa a participar do festejo, que não pode compactuar com a situação, todos em volta da mesa debruçados sobre o símbolo do clube rival mas, enfim, a bem da paz social e familiar, superam a provação e acabam a comer partes da fera.

Agora, aqui em casa, o meu marido dorme depois de se queixar ('um gajo não consegue descansar'). Eu descanso, escrevendo.

Estive a ver as notícias no mundo por esses jornais online e não sei se é do cansaço que tenho em cima ou se é que o mundo anda mesmo desengraçado. Por cá, os onlines apenas dão destaque a palermices que o láparo diz ou a uma estranha atracção pela exumação contabilística de vítimas ou a populismos de trazer por casa. Não tenho paciência. Entre um xenófobo suburbano, uma política com a cabeça mais vazia que uma sapateira cheia de aguadilha e que tenta imitar as peixeiras em gritaria e um partido esvaziado que cavalga cada onda que lhe pareça trazer sangue ou porcaria, não consigo optar por nada.


Desloco-me, então, para outras paragens.

Descubro, perplexa, que os jiadistas cultivam a poesia, são incentivados a dedicar-se à literatura, que aprendem boas maneiras, que são sensíveis à elegância de atitude. Que, pelo meio degolem quem se lhes atravesse pelo caminho, não parece ser, para eles, uma contradição mas um acidente de percurso.
Terei que voltar ao assunto com mais tranquilidade pois temo que precise da cabeça a funcionar a pleno para poder perceber o que vi escrito. O mundo tem tantas surpresas e incompreensões que a minha pobre mente não está suficientemente ginasticada para poder entrar facilmente em todos os labirindos que nos aparecem pela frente, uns mais atraentes outros mais assustadores, esquinados, escondendo monstros elegantes que se dedicam à poesia.
Passo então para os novos palácios, os novos monumentos. Mas não palácios venezianos, não belos edifícios renascentistas, não, nada disso. 

Inward-looking?
A rendering of Apple Park in Cupertino, California,
the company’s global headquarters designed by Norman Foster + Partners.
It’s ‘a 100-year decision’, says Tim Cook, Apple’s CEO.
Os novos príncipes não surgem da aristocracia de antanho. Os novos fidalgos vestem jeans, têm ideias loucas numa garagem, arranjam amigos que os acompanham, vão por aí fora. São outros os mundos. De repente são dos homens mais ricos do mundo, são cortejados, distribuem oferendas, criam fundações. Quando se dá por ela, têm a trabalhar para eles muitos milhares de pessoas a quem eles querem felizes para que melhor produzam. Para isso, os novos senhores do mundo contratam os melhores arquitectos, pedem que lhes desenhem os edifícios mais arrojados, que criem novas formas, que inventem novos materiais, que tragam árvores raras das selvas mais recônditas, que façam nascer água e inventem rios, que no meio dos escritórios haja parques frondosos, ginásios, cinemas, bibliotecas. Leio isto e fico ligeiramente incomodada. Que novos produtos são estes que, do nada, geram tamanha riqueza? Faz isto sentido? Twitter, Facebook. Por exemplo. Como é que eu me enquadro este admirável mundo novo? Eu, que me encanto com a requintada filigrana da folhagem das árvores ao cair da tarde, como posso perceber o poder incomensurável destes novos reinos que comandam o mundo?


Entretanto, na RTP 1, passa A Última Paixão do Sr. Morgan. Já tinha visto mas estou a gostar de rever. Gosto da serenidade que vem das histórias bonitas, bem representadas. 

Não vos maço mais pois, como vêem, não tenho nada de mais para dizer. Nunca tenho nada de mais para dizer.

Hoje recebi vários mails de Leitores mas dois deles tocaram-me mais. Num deles, quem me escreve diz que gosta de me ler e que gosta de mim. Noutro, quem me escreve preocupa-se comigo, acha que há um tom de preocupaçao no que tenho escrito, pergunta-me pela família. Sinto-me tocada. Escreve-se como se se escrevesse sem ninguém aí desse lado, 'meu querido diário', e depois, quando se recebem palavras de afecto e cuidado, percebe-se que o mundo das palavras é afinal parte do mundo de verdade.
Hoje, quando perguntei à minha pequena leoa de olhos transparentes o que gostava de receber pelo aniversário, disse-me que queria um diário. Perguntei-lhe para quê. Disse-me que era para escrever sobre aquilo de que gostava ou não gostava, sobre os amigos, sobre coisas, e que tinha um cadeado com uma chave. Minha menina querida. Vai fazer sete anos, adora ler e agora quer ter um diário. Eu disse que lho oferecia eu. Depois perguntei-lhe se já tinha falado nisso a outras pessoas. Disse que a muitas. A ver se consigo ser eu a dar-lhe. 

Lá fora o vento dança nos ares e eu, que tenho os vidros abertos, sinto a frescura da noite. Gosto de estar assim, na sala quase às escuras, a sentir o ventinho a entrar, a escrever. 

Mas já escrevi demais. Tantas vezes me aconselharam: na internet os textos querem-se curtos, meia dúzia de linhas, se tanto. E eu que não aprendo.

Mas vou acabar. Antes, vou escolher fotografias do campo para povoar estas as minhas palavras. Gostava que a luz que eu vejo pousada sobre as folhas e sobre os muros chegasse intacta até vós. E gostava de vos poder oferecer os figos que começam a ficar carnudos e doces e as amoras que, quando tintas, são doces que só visto. Como não posso, deixo-vos aqui estes pedacinhos do meu paraíso na terra. 


______________

Desejo-vos a todos, meus queridos Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira.

Sejam felizes.

________________